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PADEIRO E*ECUTA A ESPOSA E O AMANTE—DESCOBRIU A TRAIÇÃO APÓS O CASAMENTO E O AMANTE ERA SEU APRENDIZ

O bolo de casamento ainda estava na geladeira; não havia sido terminado. Quase metade havia sobrado. Aquele bolo de três andares com glacê branco e flores de açúcar que o padeiro levou dois dias para montar. Sobrou porque a festa foi menor do que o planejado, porque não havia dinheiro suficiente para a lista de convidados que eles queriam, porque o casamento de um padeiro com uma auxiliar de enfermagem no bairro do Brás, em São Paulo, não é um evento para 200 pessoas, foi para 64, mas foi lindo.

As fotos estavam no celular de Jéssica; ainda não haviam sido reveladas. Isso era algo para fazer depois, quando a correria da lua de mel barata em Aparecida do Norte passasse e a vida voltasse ao normal. A vida voltou ao normal em 11 dias. No 11º dia de casamento, Marcos Aurélio abriu a porta dos fundos da padaria às 5h40 da manhã, como fazia todos os dias nos últimos 7 anos, e encontrou algo que o bolo de casamento ainda na geladeira tornava ainda mais impossível de processar.

 

O que ele encontrou naquela manhã de quinta-feira mudou tudo, e o que ele fez nas horas seguintes paralisou o bairro inteiro. Se essa história já fez você parar e pensar, o que aconteceu depois é ainda mais difícil de engolir. Inscreva-se no canal agora, porque aqui contamos as histórias completas, do começo ao fim, sem cortar nada que importe. Aperte o botão vermelho para ativar o sininho.

Antes de continuar, há um detalhe nesta história que só veio à tona semanas após o crime, em uma conversa que a mãe de Marcos Aurélio teve com um investigador da Polícia Civil — uma conversa que a mãe não queria ter, que só aconteceu porque o investigador fez a pergunta certa na hora certa. O que a mãe revelou mudou completamente a compreensão do Ministério Público sobre essa história. Você saberá quando chegarmos lá.

O bairro do Brás está localizado no coração da cidade de São Paulo. É um bairro que vive do comércio atacadista, da confecção de roupas, dos vendedores ambulantes — aquele fluxo constante de pessoas indo e vindo com sacolas e carrinhos de mão, com pressa de chegar a algum lugar. Durante o dia é barulhento, lotado e cheira a comida de rua. De madrugada é um lugar diferente. Ruas vazias, postes de luz amarela, o cheiro de pão que começa a exalar das padarias.

Antes do sol nascer, Marcos Aurélio Diniz tinha 32 anos, era natural de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, mas estava no Brás desde os 23. Chegou procurando trabalho, acabou lavando assadeiras em uma padaria do bairro, aprendeu o ofício por osmose e ficou porque descobriu que tinha jeito com a massa. Sete anos depois, ele era dono do próprio negócio, a padaria Pão de Ouro, na Rua Oriente, que havia aberto dois anos antes com o dinheiro de um empréstimo e as economias de cinco anos.

Marcos Aurélio tinha 1,72 m de altura, com um corpo moldado pela profissão, braços fortes de amassar massa a noite toda, e uma barriga que havia se desenvolvido ao longo de anos de trabalho sedentário nas primeiras horas da manhã. Cabelo castanho, sempre coberto pelo gorro branco de padeiro durante o turno, rosto redondo, óculos de aro fino que usava desde os 25 anos, um sorriso fácil de um homem que trabalha no balcão e sabe que um sorriso vende pão.

 

Ele era um homem de rotina. “Eu costumava acordar às 4h30 da manhã, 7 dias por semana. Costumava ir dormir às 20h, quando conseguia.” Sua vida girava em torno da padaria. Fornecedor na segunda-feira, inventário na quarta, fechamento do caixa todo sábado à noite, meia folga no domingo.

Jéssica Diniz, antes Jéssica Rocha, mas tendo adotado o sobrenome do marido com a felicidade de uma recém-casada que muda de nome nos documentos antes mesmo de revelar as fotos, tinha 28 anos, natural do próprio Brás, filha de uma família do bairro, a segunda de três irmãos, com cabelos pretos e lisos, pele clara e olhos castanhos com aquele brilho específico de uma pessoa que ri com os olhos antes de rir com a boca.

Ela tinha uma estrutura pequena, 1,58 m de altura, que vestia com o ar prático de quem trabalha de pé o dia todo. “Eu trabalhava como auxiliar de enfermagem no pronto-socorro do hospital Santa Casa de Misericórdia, em São Paulo, a 20 minutos do Brás, turnos de 12 horas, folgas de 12 horas. Uma semana eu trabalhava no turno do dia, na semana seguinte no turno da noite.” Era o tipo de rotina que não se encaixa bem com os horários de um padeiro, mas na qual eles haviam aprendido a se adequar em seus dois anos de namoro e oito meses de noivado antes de se casarem.

Eles haviam se conhecido na festa de aniversário de um amigo em comum. Marcos Aurélio havia chegado tarde, vindo direto da padaria. Ainda cheirava a farinha, e o cheiro não sai completamente nem depois do banho. Jéssica havia chegado cedo e já pensava em ir embora quando ele apareceu. Eles ficaram conversando até a festa acabar. Casaram-se 3 anos depois. O bolo ainda estava na geladeira quando tudo desabou.

Wellington Souza tinha 19 anos. 19 anos, 1,80 m de altura, uma figura que ele ainda não havia aprendido a carregar com convicção. Aquele jeito de um garoto alto que ainda não se tornou um homem alto, que anda levemente curvado, como se pedisse desculpas pela altura. Cabelo crespo, cortado bem curto, pele negra escura, olhos grandes que as mulheres do bairro comentavam entre si com aquele sorriso de quem sabe que não deveria comentar.

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Mas ele era nativo do Brás, filho de mãe solo, Dona Neide, que trabalhava como diarista e criava Wellington e seus dois irmãos mais novos em um apartamento de dois quartos no Pari, um distrito vizinho. Ele era o filho mais velho, possuindo as responsabilidades dos mais velhos e a impulsividade dos jovens. Ambas as coisas ao mesmo tempo, sem ainda saber como equilibrá-las.

Marcos Aurélio o havia integrado à padaria Pão de Ouro seis meses antes, como aprendiz. Ele precisava de ajuda depois que o volume de pedidos aumentou e o sócio que planejava entrar não apareceu. Wellington foi contratado por recomendação da Dona Neide, que era cliente da padaria desde que Marcos a abriu.

Ela comprava pão todos os dias. Tinha aquela fidelidade de cliente de bairro que vale mais do que propaganda. “Meu filho precisa de um emprego.” Dona Neide havia dito isso numa manhã de sábado, enquanto pagava o pão. “Ele é um bom menino, trabalha duro.” Marcos pensou no assunto por dois dias e depois ligou.

 

Wellington chegou em sua primeira segunda-feira como aprendiz sem saber absolutamente nada sobre panificação. Aprendeu a limpar assadeiras, a separar ingredientes, a calcular o peso da massa. Marcos ensinava com paciência. Era um bom professor por ofício, do tipo que explica fazendo junto com você, em vez de apenas mandar fazer.

Seis meses de aprendizado, seis meses dentro da padaria, seis meses vendo Jéssica entrar e sair. Nos dias em que ela não trabalhava, aparecia na padaria para almoçar com Marcos, sentava-se no banco de madeira perto do balcão, ficava meia hora e depois ia embora — por seis meses. Marcos não calculou esse tempo de nenhuma maneira especial.

Ele confiava no aprendiz que ele mesmo havia treinado. Confiava na mulher com quem iria se casar em breve. Ele confiava em ambas as coisas ao mesmo tempo, até o 11º dia de seu casamento.

A padaria Pão de Ouro operava sob um sistema que Marcos havia desenvolvido ao longo dos anos. Ele chegava às 5h da manhã, ou no máximo às 5h40. O aprendiz chegava às 6h. A atendente do balcão, Cida, chegava às 6h30. A padaria abria para o público às 7h. Nesse sistema, havia uma janela de tempo entre as 5h e as 6h da manhã em que Marcos ficava sozinho na padaria.

Era o tempo que ele usava para acender os fornos, separar a massa que havia descansado durante a noite e fazer o café que ficaria na garrafa térmica para ele e os funcionários. Era o momento de silêncio dele. Só ele, o cheiro do forno aquecendo e as ruas escuras do Brás lá fora.

Mas naquela quinta-feira de novembro, no 11º dia do casamento deles, o bolo ainda estava na geladeira, e Jéssica dormia em casa porque estava de folga. Marcos chegou mais cedo que o normal, às 3h50 da manhã. “Eu havia acordado com insônia, aquele tipo de insônia sem motivo aparente, que às vezes aparece no meio da noite e não deixa você voltar a dormir.”

Ele ficou deitado na cama por 40 minutos tentando, depois desistiu. Decidiu ir trabalhar mais cedo. Saiu de casa em silêncio para não acordar Jéssica. Chegou à padaria, na porta dos fundos, que sempre trancava com dois cadeados e da qual apenas ele e Wellington tinham a chave.

 

Estava trancada com apenas um cadeado. Marcos parou e olhou para o cadeado. O cadeado de cima estava fechado, o de baixo estava aberto. Era o oposto do que ele sempre fazia. Ele fechava de baixo para cima. Era um hábito. Era sempre assim. Alguém havia entrado com a chave e trancado do jeito errado. Só Wellington tinha a outra chave.

Marcos empurrou a porta lentamente. O corredor dos fundos estava escuro, mas lá na frente, na área de produção onde ficavam as bancadas e os fornos, havia uma luz acesa — a pequena luz de serviço no canto, não a luz principal. E havia barulho. Não era o som de uma invasão, não era o som de um assalto, era outro tipo de barulho.

Marcos atravessou o corredor lentamente, parou na entrada da área de produção e viu a bancada onde amassava o pão todos os dias, a bancada de aço inoxidável que havia comprado com 3 meses de lucro da padaria, a bancada que cheirava a farinha e fermento e que era o centro de tudo o que ele havia construído.

Wellington e Jéssica, que não estava dormindo em casa, havia saído depois que ele saiu, sem que ele soubesse que ela estava lá. Marcos ficou ali na entrada por um período de tempo que mais tarde ele não conseguiu medir. Eles não o viram imediatamente. Quando viram, o silêncio que se seguiu foi do tipo que nenhum som consegue descrever. “Marcos”, Jéssica chamou o nome dele uma vez.

Marcos não respondeu, virou-se, desceu o corredor de volta, saiu pela porta dos fundos e ficou na calçada da Rua Oriente, pouco depois das 3h50 da manhã, cercado pelo Brás e pelo frio de novembro, que ainda morde em São Paulo àquela hora. Ele ficou parado, e ficou parado, e ficou parado.

Mas o que aconteceu naquela calçada nos minutos seguintes foi o começo de algo que não poderia ser desfeito. Às 4h20 da manhã, Jéssica saiu pela porta dos fundos da padaria. Estava vestida de forma alinhada, o cabelo estava bagunçado e ela tentou arrumá-lo com a mão; tinha aquela expressão de quem não sabe o que vai encontrar lá fora, mas precisa enfrentar.

Ela encontrou Marcos encostado na parede da calçada. “Marcos, vá para casa”, ela disse. Uma voz plana, sem gritos. “Deixe-me explicar.”

“Vá para casa, Jéssica.”

Ela ficou parada por um momento e depois foi embora. Marcos ouviu os passos dela desaparecendo na calçada vazia. Ele se encostou na parede.

Wellington saiu dois minutos depois, parando quando viu Marcos. Marcos olhou para ele. Wellington abriu a boca.

“Feche a porta e vá embora”, disse Marcos.

Wellington fechou a porta. Ele foi embora sem dizer nada. Seus passos na calçada eram rápidos. O jeito de andar de quem sabe que precisa sair logo, mas também sabe que não há distância suficiente a percorrer.

Marcos ficou sozinho na calçada, voltou para dentro da padaria, acendeu os fornos e começou a trabalhar. Às 7h da manhã, a padaria Pão de Ouro abriu como de costume. Cida chegou às 6h30 e encontrou Marcos trabalhando em silêncio. Ela perguntou se estava tudo bem. Ele disse que estava cansado. Ela não fez mais perguntas. Os clientes chegaram, os pães saíram.

A caixa registradora funcionou. Wellington não apareceu. Marcos não comentou. Cida teve aquela sensação de que algo estava errado, mas não conseguia nomear o que era. Às 10h da manhã, Marcos fechou a padaria por uma hora, algo que ele nunca fazia. Colocou uma placa de “volto logo” na vitrine. Ele disse a Cida que ela podia fazer o intervalo. Ele foi para casa.

Jéssica estava na sala. Os olhos dela estavam vermelhos, como alguém que estava chorando, ou alguém que não havia dormido, ou ambos. Quando Marcos entrou, ela se levantou.

“Marcos, eu preciso…”

“Há quanto tempo?”, ele perguntou.

Ela fechou os olhos. Pausa.

“Há quanto tempo, Jéssica?”

 

Longa pausa. “Três meses.”

Três meses. Dois dias antes do casamento. Um depois. O casamento de 64 pessoas. O bolo de três andares com glacê branco, a lua de mel em Aparecida do Norte, as fotos no celular que ainda não haviam sido reveladas. Três meses. Marcos ficou olhando para ela por um tempo.

“Tudo bem”, ele disse.

Ele virou as costas, saiu e voltou para a padaria.

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Cida percebeu que Marcos estava diferente quando voltou. Não drasticamente diferente, mas silenciosamente diferente, que é o tipo de diferente que mais assusta. Ele ficou na área de produção o resto do dia. Não foi ao balcão, não atendeu clientes, fez pão, fez salgados, fez aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que era o item mais vendido da casa.

Ele fez tudo com a precisão mecânica de quem faz com o corpo enquanto a mente está em outro lugar. Às 18h, quando a padaria fechou, Cida perguntou novamente:

“Marcos, você tem certeza de que está bem?”

“Certeza? Pode ir.”

Cida foi embora, sentindo-se inquieta no caminho para casa, mas não sabendo explicar o porquê. Marcos ficou sozinho na padaria. Começou a arrumar as coisas com a lentidão de quem não tem pressa de chegar a lugar nenhum.

Às 19h30, ele apagou as luzes, saiu e não foi para casa. O que Marcos Aurélio fez entre as 19h30 de quinta-feira e as primeiras horas da madrugada de sexta-feira foi reconstruído pela Polícia Civil de São Paulo, com base em câmeras de segurança de estabelecimentos na região do Brás e Pari, registros de celular e depoimentos de testemunhas.

Ele foi até o muro. Ficou em um bar na esquina da rua onde Wellington morava com Dona Neide e seus irmãos. Não bebeu muito, segundo o dono do bar, que foi entrevistado mais tarde; duas cervejas e uma cachaça. Ficou sentado no canto, observando a rua pela janela aberta por quase 2 horas.

Às 22h, ele viu a luz se acender no apartamento de Wellington, no segundo andar. Às 22h40, a luz se apagou. Marcos ficou no bar por mais um tempo. Pagou a conta às 23h15 e saiu. Voltou do bar, foi até a padaria, não para casa. Entrou pela porta dos fundos, foi até a gaveta debaixo da bancada de aço inox — a bancada onde, horas antes, havia visto o que viu — e a abriu.

 

Lá dentro, entre as chaves de boca e a faca de pão que usava para abrir embalagens de suprimentos, havia uma faca de corte, com cabo de madeira escura e lâmina de 30 cm, do tipo que ele usava para abrir os presuntos que chegavam inteiros do fornecedor. Toda segunda-feira ele ficava olhando para a faca por um tempo, fechar a gaveta e sair da padaria.

À meia-noite, estava na frente do apartamento de Wellington no Pari. Subiu e bateu na porta. Dona Neide abriu a porta de roupão, com aquele olhar assustado de mãe quando alguém bate à porta no meio da noite.

“Marcos”, ela reconheceu. “O que foi? Aconteceu alguma coisa?”

“O Wellington está em casa, Dona Neide?”

“Está, está dormindo. O que foi?”

“Eu preciso falar com ele. É sobre o trabalho. Peço desculpas pelo horário.”

Dona Neide hesitou. Mas era Marcos, o patrão do filho dela, um homem que ela conhecia há dois anos, de quem comprava pão toda semana. Ela abriu mais a porta.

“Deixa eu chamar ele.”

“Não é necessário”, disse Marcos. “Eu sei qual é o quarto. Já estive aqui antes.”

E ele entrou antes que ela pudesse processar.

O que aconteceu no quarto de Wellington nos minutos seguintes foi o que a equipe forense reconstruiu com base em evidências físicas e no depoimento de Dona Neide, que ouviu tudo do corredor. Wellington acordou com Marcos no quarto, sentou-se na cama e tentou falar.

Marcos não o deixou terminar. Wellington gritou uma vez, um grito curto e entrecortado. Dona Neide abriu a porta do quarto. O que ela viu a fez gritar também, um longo grito de mãe que vinha das profundezas de algum lugar sem nome. Os irmãos mais novos de Wellington, de 12 e 14 anos, acordaram com o grito da mãe. Marcos saiu do quarto, passou por Dona Neide no corredor e passou pelos meninos que haviam aparecido na porta dos quartos com os olhos arregalados.

Ele saiu do apartamento, desceu as escadas e saiu para o Pari no início da madrugada. Dona Neide ligou para o 192 primeiro (SAMU), e logo em seguida para o 190, com segundos de diferença, as mãos tremendo tanto que ela discou o número errado na primeira tentativa. Wellington Souza tinha 19 anos e estava perdendo sangue rapidamente. A ambulância chegou em 8 minutos.

Os paramédicos trabalharam no corredor do lado de fora do apartamento. O quarto era pequeno demais. Dona Neide se encostou na parede do corredor com os dois filhos mais novos agarrados a ela, assistindo à cena com aqueles olhos infantis que registram tudo, não entendem nada e nunca esquecem. Wellington foi levado ao hospital em estado crítico.

Enquanto a ambulância ainda estava no apartamento, Marcos Aurélio estava fazendo outra coisa. Ele havia voltado para o Brás e subido até o apartamento onde Jéssica estava. Jéssica, que ainda não sabia de nada e estava dormindo, acordou com o marido abrindo a porta do quarto à 1h da manhã. O que aconteceu naquele apartamento no Brás foi determinado pela perícia, com base nas evidências e no depoimento dos vizinhos que estavam presentes.

 

O vizinho do lado disse ter ouvido vozes. “Primeiro uma voz feminina alta, depois ainda mais alta, depois silêncio, depois nada por muito tempo.” Às 2h15 da manhã, Marcos saiu do apartamento, desceu as escadas e saiu pelas ruas do Brás. A vizinha de baixo, Dona Aparecida, de 61 anos, que tinha o sono leve como sempre, ouviu o barulho à 1h30 e permaneceu acordada.

Às 2h40, ela ficou preocupada. Às 3h, ligou pelo interfone para o apartamento de cima. Ninguém atendeu. Dona Aparecida esperou mais um pouco. Às 3h20, subiu e bateu na porta. Ninguém atendeu. Chamou o síndico. O síndico chamou a polícia. A Polícia Militar arrombou a porta.

Às 4h05 da manhã, eles encontraram Jéssica. Ela ainda tinha pulso. Quando os paramédicos chegaram, ela foi transportada para a Santa Casa, o mesmo hospital onde trabalhava, em estado crítico. Jéssica Diniz morreu às 6h42 da manhã, antes que o sol tivesse nascido totalmente no Brás.

Ela tinha 28 anos e estava casada há 11 dias. O bolo de casamento ainda estava na geladeira do apartamento quando a polícia recolheu as evidências horas depois. Wellington Souza sobreviveu. Passou 12 dias na UTI do Hospital das Clínicas, passou por quatro cirurgias e teve uma recuperação que os médicos inicialmente chamaram de improvável, progredindo lentamente contra o prognóstico inicial, mesmo depois de abrir os olhos pela primeira vez na UTI.

A primeira coisa que ele perguntou foi sobre sua mãe. Dona Neide estava por perto. Ele não disse nada por um tempo, apenas segurou a mão do filho. A investigação da Polícia Civil de São Paulo foi aberta simultaneamente em duas delegacias: a delegacia do Brás, para o caso de Jéssica, e a delegacia do Pari, para o caso de Wellington.

Essas investigações foram posteriormente fundidas no departamento de homicídios na zona central. O investigador-chefe era o Dr. Augusto Ferraz, 46 anos, com 20 anos de serviço na Polícia Civil. Marcos Aurélio havia desaparecido. Não havia nenhum rastro imediato depois que as câmeras de segurança na Rua Oriente o mostraram saindo do prédio às 2h15 da manhã. Depois disso, nada.

Celular desligado ou sem bateria. As tentativas de localizar o aparelho não deram nenhum sinal. O próprio carro, um Fiat Uno branco 2016, foi encontrado estacionado na rua perto do prédio. Não foi usado na fuga. Conta bancária sem atividade após as 23h da noite anterior. Marcos Aurélio Diniz havia desaparecido do Brás como se tivesse sido engolido pela escuridão da madrugada.

O departamento de homicídios contatou as delegacias regionais no interior de São Paulo, especialmente em Presidente Prudente. A cidade natal de Marcos contatou a família dele. O pai de Marcos, Benedito, 63 anos, aposentado, foi interrogado na delegacia de Presidente Prudente. Ele disse que o filho não havia entrado em contato, não havia ligado e não sabia de nada.

 

A irmã de Marcos, que morava em Araçatuba, disse o mesmo. A investigação verificou com as operadoras de ônibus e trens que não havia registro de nenhuma compra de passagem em nome de Marcos Aurélio Diniz nas últimas 48 horas. Ele não havia pegado ônibus, não havia pegado trem, não havia usado cartão de crédito ou débito.

Ele havia desaparecido com o dinheiro que tinha no bolso e nada mais. Histórias como essa continuam acontecendo em silêncio. Em bairros como o Brás, em padarias como a Pão de Ouro, em casamentos onde eles tinham bolos de três andares na geladeira. Se você quer que a gente continue contando essas histórias completas, inscreva-se no canal; é aqui que elas são contadas.

Cida descobriu quando chegou para abrir a padaria na manhã de sexta-feira e encontrou a faixa da polícia na porta. Ela ficou parada na calçada da Rua Oriente por um tempo, incapaz de processar aquilo. Um policial se aproximou e pediu que ela se identificasse.

“Nome, CPF, vínculo com o estabelecimento”, Cida respondeu automaticamente. “E a Jéssica?”, ela perguntou quando conseguiu formular uma pergunta.

O policial disse o que havia acontecido. Cida sentou-se no meio-fio da Rua Oriente com os ônibus do Brás passando ao fundo e ficou ali por muito tempo. A família de Jéssica — a mãe, os dois irmãos, o pai que era separado da mãe, mas que apareceu mesmo assim — foi à delegacia na manhã de sexta-feira, depois ao IML, e depois ao apartamento que a polícia ainda não havia liberado.

A mãe de Jéssica ficou do lado de fora do prédio, olhando para a janela do apartamento do segundo andar por um tempo, cuja duração as pessoas ali não sabiam. Ela não chorou na frente de ninguém, entrou no carro e ficou lá dentro. Marcos Aurélio Diniz ficou desaparecido por 18 dias. 18 dias em que a investigação de homicídio trabalhou com o que tinha: evidências físicas sólidas, o depoimento de Wellington assim que conseguiu falar, o depoimento de Dona Neide, imagens de câmeras, o histórico da padaria.

O caso estava montado, só faltava o homem. A polícia trabalhava com três hipóteses: fuga para outro estado, fuga para o interior ou uma terceira hipótese que nenhum investigador descartava, mas que ninguém falou em voz alta nos primeiros dias. No 18º dia, um homem em situação de rua que dormia sob um viaduto na Marginal Tietê reconheceu o rosto do homem que a polícia havia divulgado nas redes sociais e na televisão.

 

Ele disse que havia um homem parecido dormindo em um acampamento improvisado sob uma passarela a 3 km dali. A polícia foi até o local. Eles encontraram Marcos Aurélio. Ele estava vivo, mas por pouco. 18 dias sem um teto sobre a cabeça, sem comida regular, dormindo no papelão, sem tomar banho. Ele havia perdido peso visivelmente, tinha feridas nas mãos e nos pés.

Seus óculos haviam quebrado em algum momento e ele estava sem eles. Aqueles olhos miúdos, sem os óculos, veem tudo embaçado. Ele não havia tentado fugir para outro estado, não havia ido para o interior, ele havia permanecido em São Paulo, a menos de 5 km da padaria que havia construído com 7 anos de trabalho, dormindo sob o viaduto, como se o mundo tivesse acabado, e ele sabia disso, mas não sabia o que fazer com aquele conhecimento.

Quando a polícia chegou, Marcos estava sentado no papelão, recostado na pilastra do viaduto. Ele olhou para eles, sem correr, sem resistir, e simplesmente disse: “Eu sabia que vocês viriam.”

No departamento de homicídios da zona central, Marcos Aurélio foi formalmente acusado de homicídio doloso pela morte de Jéssica e tentativa de homicídio doloso contra Wellington. O delegado, Dr. Augusto Ferraz, conduziu o interrogatório. Marcos estava limpo. Havia tomado banho na delegacia antes do interrogatório devido à sua condição física. Usava roupas que a polícia havia fornecido porque as que ele usava estavam inutilizáveis. Sentou-se na cadeira, não pediu advogado. Falou imediatamente.

Ele contou o que viu na padaria naquela noite, o que Jéssica disse quando ele perguntou.

“Há quanto tempo, três meses?” O delegado ouviu. “Você trabalhou normalmente depois disso?”

“Trabalhei.”

“E você foi pegar o Wellington de madrugada.”

“Fui.”

“E depois você foi para…”

“O apartamento. Eu fui.”

“Você ficou sob o viaduto por 18 dias. Por que você não tentou escapar?”

Marcos ficou em silêncio por muito tempo. “Eu não queria escapar”, ele disse finalmente. “Eu queria desaparecer. São coisas diferentes.”

O delegado olhou para ele. “Qual é a diferença?”

Marcos ficou em silêncio por mais um tempo. “Quem escapa quer continuar. Eu não sabia se queria continuar.”

 

O delegado Augusto Ferraz registrou essa resposta cuidadosamente e encaminhou um pedido de avaliação psiquiátrica junto com o processo. Foi nesse momento, no final do interrogatório, quase como um adendo, que o delegado fez a pergunta que abriu outra camada da história.

“Você tem mãe viva?”

“Tenho, em Presidente Prudente.”

“Ela foi entrevistada pela delegacia de lá. Disse que não sabia de nada, mas o investigador que a entrevistou registrou que ela ficou agitada quando questionada especificamente sobre o Wellington, não sobre o crime, sobre o Wellington, sobre quem ele era.”

Marcos permaneceu imóvel.

“Você sabe por que sua mãe ficaria agitada com o nome Wellington?”

Longa pausa. “Você terá que perguntar a ela.”

“Já perguntamos. Ela negou. Mas o senhor sabe de alguma coisa.”

Marcos olhou para o teto por um momento. Então olhou para o delegado. “O Wellington é filho do meu pai.”

Silêncio absoluto na sala.

“Meu pai teve um caso com a Dona Neide quando o Wellington era bebê. Minha mãe sabia na época, ela nunca falou abertamente, mas sabia. A família inteira sabia nos bastidores. Uma daquelas coisas que a família sabe e não fala.”

“E você sabia que o Wellington era seu meio-irmão quando o contratou?”

“Eu não sabia quando o contratei. Descobri depois. Minha mãe me contou há três meses, quando o Wellington já estava trabalhando comigo.”

 

“Há três meses.” O mesmo período em que a traição havia começado, o delegado permaneceu em silêncio, processando a informação. “Você contratou o Wellington sem saber. Descobriu que ele era seu meio-irmão na mesma época em que a traição começou e você não fez nada com nenhuma das duas informações.”

“Eu não sabia o que fazer com nenhuma das duas. E no fim das contas o senhor fez tudo de uma vez.” Marcos não respondeu, continuou olhando para a mesa.

Era a informação que a mãe de Marcos havia escondido por décadas e que o investigador havia farejado sem saber o que estava farejando, e que mudou completamente o que o Ministério Público entendeu da história. Wellington não era apenas um aprendiz; era o meio-irmão de sangue de Marcos, e não sabia disso.

O processo criminal foi aberto pelo Ministério Público do Estado de São Paulo. Marcos foi indiciado por homicídio doloso qualificado, com discussão sobre os agravantes de motivo torpe e traição na morte de Jéssica, e tentativa de homicídio doloso contra Wellington. A defesa, liderada pela Dra. Camila Ortiz, uma advogada criminal de São Paulo, argumentou em favor de um homicídio privilegiado e solicitou uma avaliação psiquiátrica completa, apontando para o estado em que Marcos foi encontrado 18 dias depois, comportamento que a defesa descreveu como um colapso dissociativo e não uma fuga planejada.

O Ministério Público contestou dois atos sequenciais com deslocamento entre eles: a casa de Wellington primeiro, depois o apartamento. Não foi uma reação instantânea, foi um processo. A avaliação psiquiátrica concluiu que Marcos não apresentava um transtorno mental que o impedisse de compreender a natureza ilícita de seus atos, mas registrou um quadro de depressão grave e um episódio dissociativo nos dias seguintes ao crime. O indiciamento foi emitido 9 meses após o crime.

O fato de Wellington ser meio-irmão de Marcos foi incluído no processo como informação relevante para a compreensão do contexto, mas não como elemento jurídico que alterasse a classificação do crime. Quando Wellington soube dessa informação durante a investigação, quando um investigador o questionou sobre esse ponto específico, ele ficou em silêncio por um longo tempo na cadeira da sala de interrogatório. Então ele disse:

“Eu não sabia.”

“Você acredita nisso?”, perguntou o investigador.

Wellington ficou em silêncio por mais um tempo. “Não sei o que muda se eu acredito ou não.”

O julgamento de Marcos Aurélio Diniz pelo Tribunal do Júri ocorreu numa quarta-feira de agosto do ano seguinte, no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Sete jurados, quatro mulheres, três homens. O julgamento durou 14 horas, o mais longo de todos. Wellington foi ouvido como testemunha do Ministério Público. Entrou na sala com o braço direito ligeiramente diferente, consequência de uma das cirurgias que havia afetado o músculo. Sentou-se, respondeu às perguntas com uma voz baixa, mas firme.

 

A promotora perguntou sobre o relacionamento dele com Jéssica. Wellington confirmou. Disse que havia começado três meses antes do crime. Disse que sabia que ela era noiva de Marcos e depois casada. “E mesmo assim, você continuou. Por que você continuou?”

Wellington ficou em silêncio por alguns segundos. “Eu não soube quando parar.”

A Dra. Camila Ortiz, em suas alegações orais pela defesa, não escondeu os fatos. Falou de um homem que, em 24 horas, descobriu que a mulher com quem havia casado há 11 dias estava o traindo com o aprendiz que ele havia treinado, e que esse aprendiz era, sem que nenhum dos dois soubesse no momento da contratação, seu próprio meio-irmão.

Falou do estado em que Marcos foi encontrado 18 dias depois. Não num aeroporto, não numa rodoviária, não atravessando uma fronteira, mas debaixo de um viaduto a cinco quilômetros da padaria. “Esse homem não fugiu”, disse a defesa. “Esse homem desapareceu.” A diferença.

A promotora falou de Jéssica, de 28 anos, casada há 11 dias, que não chegaria aos 30, que não teria filhos, que a família ainda dormia mal, porque quando a dor é tão grande, o sono nunca volta por completo.

Os jurados se retiraram às 22h10. Retornaram à 1h07 da manhã. O plenário estava em silêncio. Ele foi considerado culpado de homicídio doloso, agravado pelo motivo torpe na morte de Jéssica, reconhecido por cinco dos sete jurados, e culpado de tentativa de homicídio contra Wellington. O argumento do privilégio foi rejeitado por uma votação de quatro a três, a margem mais estreita.

O juiz presidente fixou a pena em 18 anos e 4 meses em regime fechado. Marcos ouviu com os olhos fixos na mesa, mas não disse nada. A padaria Pão de Ouro fechou três semanas após o crime. Cida ficou até o fim. Ela arrumou as coisas, limpou as bancadas e desligou os fornos. Pela última vez.

Antes de fechar a porta pela última vez, ela ficou na área de produção por alguns minutos, depois apagou a luz e trancou a porta. A loja ficou vazia por meses, sua placa desbotando na vitrine. Depois, outro inquilino se mudou, uma loja de roupas, reformou tudo e pintou a fachada de azul. Já não há cheiro de pão na rua ou naquele endereço.

Marcos Aurélio está cumprindo sua pena na penitenciária de Tremembé, no interior de São Paulo. Durante os primeiros meses, ele recebeu atendimento psiquiátrico dentro da unidade. Sua depressão foi tratada com medicação, estabilizada, e ele agora trabalha na padaria interna do presídio, assando pão todos os dias às 5h da manhã.

Wellington Souza tem 21 anos, deixou o bairro e foi morar com um tio em Santo André, cidade da Grande São Paulo. Conseguiu um emprego em um mercado do bairro, repondo estoques, no turno da tarde. Não fez contato com nenhum membro da família Diniz e não sabe se fará. Dona Neide continua trabalhando como diarista, ainda morando no mesmo apartamento no Pari, com seus dois filhos mais novos.

Às vezes você passa pelo endereço da antiga padaria Pão de Ouro quando vai ao Brás fazer compras, mas nunca para, apenas continua andando. A mãe de Marcos, Dona Lourdes, de Presidente Prudente, visitou o filho na prisão uma vez, quatro meses após a sua condenação. Elas sentaram-se na sala de visitas por 40 minutos. Não conversaram muito.

Antes de ir embora, Marcos perguntou: “Por que você me contou sobre o Wellington naquela época?”

Dona Lourdes ficou em silêncio. “Porque eu tive medo que você descobrisse de outro jeito?”, ela disse finalmente.

Marcos continuou olhando para ela. “Você acabou descobrindo de outro jeito mesmo”, ela concluiu. E saiu.

Marcos permaneceu na cadeira da sala por mais alguns minutos depois que ela saiu. Depois voltou para o pavilhão e a família de Jéssica — sua mãe, seus irmãos, seu pai, que era de fato separado — ainda tem as fotos do casamento no celular dela. O celular ficou com a mãe depois que a polícia devolveu os pertences.

Às vezes, a mãe abre o celular sem querer, entra num aplicativo e, sem querer, toca numa foto. Há 64 pessoas ali. Bolo de três andares. Jéssica sorria, aquele tipo de sorriso em que os olhos sorriam antes da boca. A mãe fecha o celular, coloca no bolso e continua com o seu dia. Rachaduras que não se fecham sozinhas, que nunca se fecham sozinhas.

Se essa história mexeu com você e ficou na sua cabeça, deixe um comentário abaixo me dizendo de onde você está assistindo e o que você teria feito no lugar de Marcos naquela madrugada na calçada da Rua Oriente, ou no lugar de Dona Neide, quando você descobriu quem Wellington era para a família de Marcos. Em vez de Wellington, quando o investigador contou a verdade. Nós lemos tudo e voltaremos com outra história na próxima semana. M.