
Setembro de 1999, Anápolis, Goiás. O salão comunitário estava iluminado e cheio de convidados quando o casal Henrique Vilela, 40 anos, e Celina Duarte, 37, chegou acompanhado de seus filhos Tatiane, 12, e Rogério, 9, para celebrar o casamento de um primo. Entre música e risadas, eles foram vistos pela última vez perto da pista de dança.
Na manhã seguinte, ninguém sabia explicar o que havia acontecido com a família. O salão São José, localizado no bairro Cidade Jardim, respirava festa naquela noite de sábado. Flores de papel crepom amarelo e branco decoravam as mesas, enquanto pequenas luminárias de flores coloridas pendiam do teto baixo, criando uma atmosfera acolhedora. O cheiro de farofa de banana e carne assada da cozinha improvisada nos fundos misturava-se com perfume barato e pó de arroz das mulheres que dançavam forró.
Henrique trabalhava como mecânico em uma oficina na BR-153 e era conhecido por sua risada alta e contagiante. Celina, com o cabelo cacheado preso em um coque baixo, usava um vestido azul florido que havia comprado especialmente para a ocasião. Tatiane, aos 12 anos, já demonstrava a beleza da mãe, enquanto Rogério corria entre as mesas com outras crianças, a camisa social já manchada de refrigerante. Por volta das 21h30, Marisa Porto, prima da noiva, lembrou-se claramente de ter visto a família reunida perto da mesa do bolo. Henrique conversava animadamente com outros homens sobre futebol, gesticulando com um copo de cerveja na mão. Celina ajustou o vestido de Tatiane, que reclamava do calor. Rogério tinha acabado de receber um doce de uma tia distante.
Eles pareciam tão normais, tão felizes, Marisa diria anos depois. Henrique até brincou comigo. Ele disse que a próxima festa seria o casamento de Tatiane, ela estava crescendo muito rápido. A última pessoa a relatar ter visto a família foi Osvaldo Mendes, o fotógrafo da festa. Eram cerca de 22h15, quando ele os capturou em uma foto espontânea.
Henrique com o braço sobre os ombros de Celina, Tatiane fazendo careta e as costas de Rogério correndo em direção ao corredor lateral do salão. O flash da câmera os capturou naquele momento descontraído e comum. Minutos depois, quando a música parou para o corte do bolo, Marisa procurou a família para chamá-los para a foto oficial. Não encontrou nenhum deles.
Ela perguntou a outros convidados, que apenas deram de ombros. Alguém sugeriu que talvez tivessem saído para tomar um ar fresco no pátio dos fundos. O pátio estava vazio, o estacionamento também. O Chevette azul de Henrique ainda estava no mesmo lugar, com as chaves ainda no bolso. Quando a festa terminou, por volta da primeira hora da manhã, a ausência da família Vilela Duarte havia se transformado em preocupação.
José Vilela, irmão de Henrique, foi até a casa deles na rua das Acácias. A porta estava trancada, as luzes apagadas e ninguém respondeu. Na manhã de domingo, a realidade se impôs. Quatro pessoas haviam simplesmente desaparecido durante uma festa com mais de 100 convidados e ninguém tinha visto nada. O primeiro boletim de ocorrência foi registrado na segunda-feira, 27 de setembro de 1999, no quarto distrito policial civil de Anápolis.
O delegado Antônio Cardoso recebeu José Vilela com ceticismo inicial. Casos de desaparecimento de família, segundo sua experiência, geralmente envolviam dívidas ou problemas conjugais. Mas, de acordo com os depoimentos acumulados, o caso mostrava-se peculiar. Henrique não tinha inimigos conhecidos, não bebia além da conta e não jogava.
A oficina onde trabalhava estava em dia com os compromissos. O casal não demonstrava sinais de crise conjugal. Pelo contrário, os vizinhos relataram que pareciam apaixonados como no primeiro dia. As buscas começaram na terça-feira. Os bombeiros vasculharam o rio João Leite, que ficava a 2 km do salão. Voluntários percorreram matagais, fazendas abandonadas e estradas vicinais.
Marisa Porto organizou grupos de busca com cartazes feitos à mão colados em postes e muros da cidade. Procure-se a família Vilela Duarte, desaparecida desde 25/09/1999. Henrique, 40 anos. Celina, 37 anos. Tatiane, 12 anos. Rogério, 9 anos. Vistos pela última vez no salão São José. Informações 3632146578. As semanas transformaram-se em meses. O delegado Cardoso entrevistou cada um dos 127 convidados que compareceram à festa. Ele investigou a vida pregressa da família. Examinou contas bancárias, ligações telefônicas, relacionamentos, nada. Era como se quatro pessoas tivessem se dissolvido no ar. Os primeiros rumores surgiram em dezembro. Dona Zilda, vizinha dos fundos, jurava ter ouvido gritos vindos do salão na madrugada seguinte ao desaparecimento.
Benedito Silva, motorista de ônibus, disse ter visto uma família aparecer em uma rodoviária de Goiânia. Nenhuma pista foi confirmada. Em janeiro de 2000, José Vilela tomou uma decisão dolorosa: fechou a casa do irmão e guardou os móveis em um galpão alugado. Não conseguia mais passar pela rua e ver aquelas janelas fechadas, explicaria mais tarde.
O tempo começou a cobrar seu preço. Marisa Porto desenvolveu insônia crônica e precisou tomar remédios para dormir. José Vilela envelheceu 10 anos em um. O próprio salão São José começou a ser evitado. As pessoas associavam o local ao desaparecimento e as festas diminuíram até que o dono, Geraldo, decidiu fechá-lo em 2001.
Durante três anos, o salão permaneceu vazio, acumulando poeira e lendas urbanas. Adolescentes inventavam histórias sobre fantasmas e moradores próximos relataram luzes estranhas e barulhos inexplicáveis vindos do prédio abandonado. Em 2003, o caso foi arquivado por falta de provas. O delegado Cardoso havia se aposentado e o novo titular, João Batista Ferreira, considerou que não havia elementos suficientes para manter a investigação ativa.
Para familiares e amigos, o arquivamento foi como uma segunda morte. José Vilela ainda mantinha a esperança de que seu irmão reaparecesse um dia, talvez explicando que tudo havia sido um mal-entendido, uma fuga necessária por motivos que só ele sabia. Marisa Porto, por sua vez, desenvolveu uma obsessão: toda semana caminhava até o salão abandonado São José e ficava parada em frente ao portão enferrujado, como se esperasse ver a família sair pela porta principal, sorrindo e explicando que tudo tinha sido uma brincadeira de mau gosto.
Os anos passaram, Anápolis cresceu, novos bairros surgiram, novos dramas ocuparam as conversas de boteco, mas no Cidade Jardim, onde ficava o salão, alguns moradores mais velhos ainda baixavam a voz quando passavam em frente ao prédio fechado, e as mães impediam as crianças de brincarem muito perto das janelas cobertas por compensado.
Em 2008, quase 10 anos depois, Geraldo decidiu vender o imóvel. Um jovem empresário do ramo de festas, Juliano Campos, comprou o salão por um preço muito bom, abaixo do mercado. A má fama do local ainda afastava os interessados. Juliano, no entanto, não acreditava em superstições e viu ali uma oportunidade de negócio.
Em março de 2009, 10 anos haviam se passado desde aquela noite de setembro e o salão São José estava sendo completamente reformado. Juliano Campos contratou a construtora Lidea Reformas, liderada pelos irmãos Valdir e Cláudio Pereira, para modernizar o espaço que permaneceu fechado por quase uma década. O cheiro de mofo e umidade permeava todos os cantos do salão quando os operários começaram as obras.
Teias de aranha pendiam do teto e pequenos animais haviam feito ninhos entre os escombros deixados pelo tempo. As paredes de alvenaria tinham manchas escuras de infiltração e o piso de cerâmica estava coberto por uma espessa camada de poeira e folhas secas que haviam entrado pelas frestas das janelas mal vedadas. Valdir Pereira, 45 anos, pedreiro experiente com mais de duas décadas de profissão, começou a examinar as paredes para avaliar quais precisariam ser derrubadas.
A parede dos fundos, que separava o salão principal de um pequeno depósito, apresentava rachaduras preocupantes e seria a primeira a ser demolida. Na manhã de 18 de março, uma terça-feira ensolarada, Valdir posicionou a marreta contra os tijolos da parede. As primeiras batidas ecoaram pelo salão vazio, levantando nuvens de gesso e poeira.
Quando o primeiro buraco se abriu, Valdir esperava encontrar o interior oco da parede. Em vez disso, sua marreta encontrou resistência, algo sólido, mas diferente de tijolo. Intrigado, ele aumentou o buraco com mais cuidado, usando uma picareta menor. A luz da manhã que entrava pelas janelas revelou algo inesperado.
Um espaço retangular, aproximadamente do tamanho de um armário, havia sido cuidadosamente construído dentro da parede. “Cláudio, vem aqui ver uma coisa!”, gritou Valdir para o irmão, que estava do lado de fora descarregando o material. Cláudio se aproximou e ambos alargaram o buraco até conseguirem ver totalmente o interior da cavidade.
O que viram fez com que recuassem instintivamente. Dentro do espaço oculto, organizado com um cuidado perturbador, havia objetos pessoais que pareciam ter sido colocados ali com intenção deliberada. Quatro pares de sapatos alinhados como se estivessem na entrada de uma casa, roupas dobradas e empilhadas, um vestido azul florido, uma camisa social branca manchada, um conjunto feminino/infantil e roupas de menino.
Mas foi o que estava sobre as roupas que fez o coração de Valdir acelerar. Duas alianças de ouro simples, sem inscrições, colocadas uma ao lado da outra. Ao lado delas, um pequeno brinquedo, um carrinho de metal vermelho já enferrujado pela umidade. Cláudio, mais jovem e impressionável, deu um passo para trás. “Valdir, isso aqui não tá certo. Isso é coisa de gente morta.” O irmão mais velho, embora também perturbado, manteve a curiosidade profissional. Com uma lanterna emprestada da caixa de ferramentas, iluminou melhor o interior da cavidade. Havia também papéis, documentos que a umidade tornara quase ilegíveis, mas que ainda preservavam algumas palavras.
Entre os papéis, ele conseguiu distinguir o que parecia ser uma carteira de identidade. O plástico estava opaco e descascando, mas ainda dava para ver a foto desbotada de um homem de meia-idade sorrindo. Abaixo da foto, letras borradas, mas ainda legíveis: “Henrique Vile…”. Valdir sentiu um arrepio. Ele havia crescido em Anápolis. Ele conhecia as lendas locais. Todo mundo na cidade sabia da família que havia desaparecido naquele mesmo salão anos atrás. “Cláudio, para tudo, para tudo. Agora temos que chamar a polícia.” Em 40 minutos, o quarto distrito policial civil recebeu uma ligação que reabriria um dos aspectos mais intrigantes da história de Anápolis.
O delegado João Batista Ferreira, o mesmo que havia encerrado as investigações em 2003, chegou ao salão acompanhado por dois investigadores e um perito criminal. A cavidade foi fotografada minuciosamente antes que qualquer objeto fosse retirado. As alianças foram as primeiras peças a serem removidas e colocadas em sacos plásticos lacrados. O perito Roberto Machado estimou que os objetos estavam ali há pelo menos 8 a 10 anos, com base no grau de oxidação do carrinho e no estado de conservação dos tecidos.
Quando José Vilela foi chamado para reconhecer os pertences, suas pernas fraquejaram. O vestido azul florido era o mesmo que Celina havia comprado especialmente para a festa. As alianças eram idênticas às que o casal usava. O carrinho vermelho era o brinquedo favorito de Rogério desde a infância, mas a descoberta levantou mais perguntas do que respostas. Como os pertences foram parar dentro da parede? Quem construiu aquela cavidade e, principalmente, onde estavam os corpos? A descoberta dos pertences reabriu oficialmente as investigações em 25 de março de 2009. O delegado João Batista Ferreira viu-se diante de um quebra-cabeça que desafiava a lógica. Itens pessoais cuidadosamente preservados dentro de uma parede, mas nenhum vestígio dos corpos.
A primeira pista veio da análise da construção da cavidade. O perito Roberto Machado determinou que o espaço havia sido construído com tijolos diferentes do restante da parede, tijolos mais novos, de um modelo que só começou a ser fabricado em Goiás a partir de 1998. Isso significava que a cavidade havia sido construída pouco antes ou pouco depois do desaparecimento. O senhor Geraldo, proprietário anterior do salão, foi intimado a depor. Nervoso e suando, ele inicialmente negou conhecimento sobre qualquer reforma feita na parede dos fundos, mas, confrontado com as provas técnicas, sua versão começou a vacilar. “Olha, delegado, eu posso ter feito alguns reparos lá por 99, 2000. Não me lembro exatamente. O salão tinha alguns problemas estruturais.” A investigação concentrou-se então em descobrir quem havia feito esses reparos. Geraldo mencionou vagamente ter contratado um pedreiro para alguns serviços, mas não se lembrava do nome. “Era um homem calado, meio estranho, fazia o serviço e ia embora.”
A reviravolta veio por meio de Marisa Porto. Durante uma nova entrevista, ela mencionou um detalhe que havia esquecido de relatar em 1999. Na semana seguinte ao desaparecimento, ela havia passado em frente ao salão fechado e notado um homem trabalhando sozinho nos fundos do prédio, mesmo com o local supostamente desocupado. Era de manhã cedo, por volta das 7 horas. “Vi um caminhão velho estacionado e um homem carregando tijolos. Achei estranho, mas pensei que fosse algum reparo que o Geraldo havia mandado fazer.” Marisa conseguiu se lembrar de um detalhe crucial: o caminhão era azul claro, modelo F-1000, e tinha uma característica marcante: a lataria estava enferrujada do lado direito. Com essa descrição, os investigadores começaram a procurar pedreiros na região que possuíssem um veículo com essas características em 1999.
Após duas semanas de investigação, chegaram ao nome de Ademir Souza Santos, 52 anos, conhecido por trabalhar sozinho e por ser muito discreto, até mesmo suspeito. Ademir morava em uma casa simples no setor Universitário, a poucos quilômetros do salão. Quando a polícia bateu à sua porta em uma manhã de abril, ele não demonstrou surpresa. Era como se estivesse esperando por aquele momento há 10 anos. Ao contrário de outros suspeitos que negam tudo até o fim, Ademir demonstrou um profundo cansaço. Sentado à mesa de sua pequena cozinha, começou a falar sem ser pressionado, como se o peso de 10 anos de silêncio fosse insuportável. “Eu nunca quis que chegasse a isso”, disse ele com a voz embargada. “Quando o Geraldo me contratou para fazer aquele serviço, ele disse que era só para esconder umas coisas. Não disse que eram de pessoas mortas.”
A confissão de Ademir revelou uma verdade ainda mais perturbadora. Geraldo não havia apenas contratado seus serviços; ele havia testemunhado o que aconteceu na noite do desaparecimento. Segundo Ademir, Geraldo o procurou três dias após a festa, desesperado e oferecendo uma quantia significativa de dinheiro por um serviço especial e confidencial. Ele precisava que Ademir construísse uma parede falsa no fundo do salão e escondesse alguns objetos problemáticos que poderiam incriminá-lo. Ele não explicou claramente o que havia acontecido. Apenas disse que foi um acidente, que ninguém entenderia se encontrassem aquelas coisas no salão. Ofereceu R$ 2.000 na época. Uma fortuna para mim. Ademir construiu a cavidade e escondeu os pertences conforme solicitado, mas a culpa o assombrou por 10 anos. Ele sabia que estava sendo cúmplice de algo terrível, mas o medo de ser implicado o manteve em silêncio.
Com a confissão de Ademir em mãos, os investigadores confrontaram Geraldo novamente. Desta vez, pressionado pelas evidências e pela possibilidade de ser acusado de ocultação de cadáver e formação de quadrilha, ele finalmente revelou a verdade. Na madrugada de 26 de setembro de 1999, Geraldo havia retornado ao salão para buscar alguns objetos esquecidos após a festa. Encontrou a família Vilela Duarte morta no depósito dos fundos, aparentemente vítimas de envenenamento por monóxido de carbono causado por um aquecedor defeituoso que havia sido ligado para aquecer o quarto das crianças. Em pânico e temendo ser responsabilizado pelas mortes – o aquecedor era de sua propriedade e estava sem manutenção há anos –, Geraldo removeu os corpos durante a madrugada e os enterrou em um terreno abandonado na zona rural de Anápolis. Os pertences foram guardados com a intenção de serem destruídos mais tarde, mas o medo fez com que ele procurasse Ademir para escondê-los de forma mais permanente. Por duas décadas, Geraldo viveu com o peso da culpa e o medo de ser descoberto. O fechamento do salão foi tanto uma consequência das lendas urbanas quanto uma necessidade psicológica. Ele não conseguia mais pisar naquele lugar.
Em junho de 2009, com base nas instruções de Geraldo, os corpos de Henrique, Celina, Tatiane e Rogério foram encontrados em uma fazenda abandonada a 15 km de Anápolis. Os exames confirmaram a causa da morte: envenenamento por monóxido de carbono, sem sinais de violência. José Vilela pôde finalmente enterrar seu irmão e sua família com dignidade. Marisa Porto, após 10 anos de insônia e culpa, conseguiu encontrar a paz, sabendo que não havia nada que pudesse ter feito para evitar a tragédia. Geraldo foi condenado a 8 anos de prisão por ocultação de cadáver e omissão de socorro. Ademir, considerado cúmplice menor, recebeu pena de dois anos em regime semiaberto. O salão São José foi demolido em 2010. No local, hoje existe uma pequena praça com quatro árvores plantadas em memória da família Vilela Duarte. José Vilela, que morreu em 2018, costumava visitar o local todas as semanas, levando flores e conversando baixinho com os irmãos, como se pudessem ouvi-lo. A tragédia, que começou com uma festa e se transformou em uma década de mistério, finalmente encontrou sua explicação. Mas, para os moradores de Anápolis, a história da família que desapareceu durante um casamento permanece como um lembrete sombrio de como segredos enterrados para sempre encontram uma maneira de vir à luz, ainda que seja preciso esperar 10 anos e demolir uma parede para isso. M.