
Em uma entrevista que já está sendo considerada um dos momentos mais marcantes dos últimos anos no futebol brasileiro, Carlos Dunga não poupou palavras. O ex-capitão da Seleção pentacampeã em 2002, ídolo respeitado dentro e fora de campo, abriu o coração e colocou o dedo na ferida que muitos torcedores sentem, mas poucos têm coragem de falar em voz alta: a Seleção Brasileira perdeu sua identidade.
Dunga não estava falando de resultados pontuais. Ele falava de algo mais profundo, quase emocional. “Quando a gente vê a Seleção neste momento, é quase vergonhoso”, disse ele, citando o técnico Vanderlei Luxemburgo. As crianças brasileiras, que antes sonhavam em vestir a amarelinha, hoje parecem ter perdido esse encanto. O peso da camisa, que já foi sinônimo de respeito mundial, hoje carrega um misto de frustração e saudade.
Para quem viveu os grandes momentos do futebol brasileiro, como Dunga, a comparação com o passado é inevitável. Ele relembrou as escolas técnicas de Luxemburgo, Zagallo, Parreira, Felipão, Abel Braga, Muricy Ramalho e Telê Santana. Treinadores que competiam entre si, que valorizavam as características individuais dos jogadores e criavam times cheios de personalidade. “Eles tentavam neutralizar as melhores qualidades uns dos outros”, recordou.
Hoje, segundo Dunga, o cenário é outro. O futebol brasileiro se rendeu a modismos táticos. “Se você não joga com o goleiro saindo jogando, está fora de mercado”, ironizou. Ele questiona o excesso de termos estrangeiros – high pressing, build up – que muitas vezes escondem o óbvio: futebol ainda é 11 contra 11, trata-se de superar o adversário e fazer um gol a mais. “Não adianta o treinador usar palavras difíceis. O que importa é o jogador entender”, completou.
O ex-volante também criticou a narrativa de que gols “de sorte” não valem. “Se ele jogou em uma bola só e fez o gol, cumpriu o papel dele”, defendeu. Para Dunga, o problema não está só na Seleção. Está no futebol brasileiro como um todo. Ele citou o amigo Arnaldo, que alertou sobre a “destruição” do jogo com o uso excessivo do VAR, que segundo ele tira a emoção e a espontaneidade das partidas.
Mas o ponto que mais incendiou o debate foi a questão do técnico. Dunga não é contra Carlo Ancelotti. Pelo contrário, ele já havia declarado que, se fosse um estrangeiro, Ancelotti seria sua escolha. “É o melhor do mundo hoje”, reconheceu. No entanto, ele questiona o caminho que o Brasil vem trilhando: por que a demora em contratar um treinador? Por que a insistência em um nome europeu enquanto tantos brasileiros de valor são descartados?
“Estamos virando vira-latas no nosso próprio país”, disparou Dunga, em frase que já viralizou. Ele lembrou que o Brasil conquistou seus cinco títulos mundiais com treinadores brasileiros. Em 2002, Felipão liderou a conquista na Coreia e no Japão. Antes disso, passamos 24 anos sem levantar a taça. “Não é que temos que ser campeões toda Copa, mas condenar os treinadores brasileiros como se eles fossem incapazes é injusto”, argumentou.
Dunga criticou duramente a imprensa e parte da opinião pública que, segundo ele, há anos desqualifica os profissionais brasileiros. “Felipão não serve mais, Luxemburgo não serve mais, Vanderlei não serve mais”. Ele questiona: o que esses treinadores fizeram de tão errado para perderem credibilidade? “Eles tinham experiência para passar adiante. Isso acabou”, lamentou.
Outro ponto forte levantado por Dunga é a presença maciça de técnicos estrangeiros nos clubes brasileiros. “Temos 14 estrangeiros no Campeonato Brasileiro”, citou. Enquanto isso, jogadores e torcedores brasileiros ainda respeitam a Seleção no exterior, mas dentro de casa o respeito está se perdendo. Ele citou Casagrande, que também expressou preocupação com a situação atual.
A discussão vai além de Ancelotti. Dunga defende que o problema da Seleção é de mentalidade, atitude e disciplina. Ele defende a criação de um comitê permanente com ex-jogadores campeões do mundo para apoiar o treinador, diminuindo a pressão política e devolvendo o foco ao que realmente importa: o campo. “Sem identificação com a torcida, fica difícil reconstruir o caminho para ser campeã novamente”, alertou.
O ex-capitão lembrou seus próprios momentos de glória: a Copa do Mundo de 1994, a medalha de prata olímpica, três Copas Américas. “São momentos inesquecíveis. Levantar a taça é algo que você nunca esquece”. Para ele, a Seleção precisa voltar a ser motivo de orgulho, não de constrangimento.
A reação nas redes sociais foi imediata. Milhares de torcedores dividiram opiniões. Alguns concordam plenamente com Dunga, dizendo que o futebol brasileiro se perdeu ao copiar modelos europeus sem preservar sua essência alegre e técnica. Outros defendem Ancelotti, argumentando que um olhar de fora pode organizar o talento brasileiro, muitas vezes desperdiçado por falta de estrutura.
O que ninguém pode negar é que Dunga tocou em um nervo exposto. O Brasil, que já foi sinônimo de magia com Pelé, Garrincha, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e tantos outros, vive um momento de transição dolorosa. A ausência de títulos recentes pesa. A eliminação precoce nas últimas Copas, a dificuldade em formar novas gerações de craques e a sensação de que o “futebol arte” está sendo substituído por um jogo mais físico e tático geram angústia.
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Dunga não está pregando isolamento. Ele reconhece a qualidade de Ancelotti e de outros profissionais estrangeiros. Mas cobra autocrítica. “Por que nossos treinadores não estão trabalhando na Europa? Por que não evoluímos?” São perguntas incômodas que merecem respostas honestas.
Enquanto a CBF avança nas negociações com o italiano, o debate aberto por Dunga serve como um alerta. A Seleção não precisa apenas de um bom técnico. Precisa recuperar sua alma. Precisa voltar a ser aquela equipe que fazia o mundo parar para assistir, que inspirava crianças nos campos de terra batida e que carregava o orgulho de uma nação inteira.
O ex-capitão, com sua habitual franqueza, colocou o problema na mesa. Agora cabe à torcida, à imprensa e aos dirigentes decidir se vão apenas criticar ou se vão usar essa polêmica como combustível para uma verdadeira reconstrução. Porque, como disse Dunga, futebol é simples: 11 contra 11, superar o adversário e fazer o torcedor sonhar novamente.
O Brasil espera ansiosamente pela próxima página dessa história. Seja com Ancelotti ou com um brasileiro, o que todos querem é ver a amarelinha brilhando outra vez. E, quem sabe, Dunga e outros campeões possam contribuir para que isso aconteça. O debate está aberto. A Seleção é nossa. E o momento de reagir é agora.