
Em 14 de agosto de 1997, às 6h22, um ônibus de transferência de prisioneiros deixou o pátio do centro de detenção de Marabá, no Pará, com destino à prisão regional de Altamira. A distância entre as duas cidades, via P-150 e a antiga estrada vicinal que cortava a floresta, era de aproximadamente 340 km. Em condições normais, a viagem levava entre 5 e 6 horas.
O ônibus nunca chegou. Dentro estavam 15 detentos, dois agentes penitenciários e um motorista. O veículo era um ônibus estadual adaptado, branco com uma faixa azul, identificado na lateral com a sigla Susep-PA. Os prisioneiros viajavam algemados em pares, sentados em bancos de metal fixados na carroceria do veículo.
As janelas tinham grades, as portas tinham cadeados externos. O motorista chamava-se Nereu Tavares Gomes, tinha 52 anos. Ele trabalhava para a Secretaria de Segurança Pública há mais de 20 anos e conhecia aquela estrada como a palma da mão. Ninguém viu o ônibus chegar, ninguém o viu parar. Ninguém ao longo de toda aquela rodovia e seus ramais se lembrou de ter visto aquele veículo passar naquela manhã de agosto.
O primeiro alerta chegou à delegacia de Altamira no final da tarde, quando o ônibus não apareceu e nenhum dos agentes pôde ser localizado. A maioria dos funcionários não tinha celular naquele ano. O rádio de comunicação instalado no veículo havia sido reportado com defeito duas semanas antes.
O pedido de reparo constava em um documento oficial que ainda aguardava resposta na secretaria em Belém. Durante nove dias, o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar e agentes da Secretaria de Segurança Pública do Pará buscaram pela rodovia P-150, suas estradas laterais e as margens dos riachos que cruzavam aquela região. Não encontraram vestígios do veículo, das pessoas, nada que indicasse o que havia acontecido naquela manhã entre Marabá e Altamira.
O caso foi registrado, investigado por algumas semanas e depois arquivado. A versão oficial que prevaleceu foi a de uma fuga planejada com motim interno. Os prisioneiros, dizia o relatório, haviam rendido os agentes, forçado a parada e desaparecido na floresta. Segundo a mesma versão, os agentes também desapareceram porque estavam envolvidos.
Nenhuma dessas alegações foi provada, e nenhuma foi oficialmente refutada. 28 anos depois, em março de 2025, um grupo de trabalhadores que abria caminho para a instalação de uma linha de transmissão elétrica no interior do Pará encontrou um ônibus escondido pela vegetação a mais de 40 km de qualquer estrada pavimentada. A vegetação havia crescido sobre ele.
O teto havia cedido em dois lugares. As laterais estavam cobertas de ferrugem e trepadeiras. Mas o que chamou a atenção dos trabalhadores não foi o estado do veículo, mas o que estava dentro. As algemas, todas as algemas abertas, dispostas nos bancos, como se alguém as tivesse retirado cuidadosamente e deixado ali em ordem antes de partir.
Não havia ossos, não havia pertences, não havia sinais visíveis de violência, apenas o silêncio de uma floresta que crescera ao redor de um veículo fechado por quase três décadas. E as algemas abertas jaziam sobre os bancos de metal enferrujados. O que aconteceu naquela manhã de agosto de 1997 entre Marabá e Altamira? Quem abriu aquelas algemas? E onde estão as 18 pessoas que embarcaram naquele ônibus e nunca chegaram ao seu destino? Existem detalhes neste caso que a investigação original nunca conseguiu explicar, e o reaparecimento do ônibus em 2025 tornou-os ainda mais difíceis de ignorar.
O primeiro é técnico. As algemas usadas no transporte prisional no Pará durante aquele período eram do modelo padrão da frota estadual com mecanismo de travamento duplo. Era necessária uma chave específica para abri-las. Cada agente portava um par de chaves guardado no cinto.
O exame forense realizado após a descoberta do ônibus confirmou que as algemas não foram forçadas. Não havia sinais de arrombamento, corte ou deformação no mecanismo. Elas foram abertas com chave, uma a uma.
O segundo detalhe é geográfico. O local onde o ônibus foi encontrado fica a mais de 40 km da estrada mais próxima, dentro de uma área de floresta densa que, em 1997, não possuía estrada transitável adequada para um veículo daquele porte. Os especialistas que estiveram no local em 2025 levantaram uma questão que ainda não foi respondida: como aquele ônibus chegou lá?
O terceiro detalhe é humano. Entre os 15 prisioneiros transportados naquele ônibus, havia um nome que ressurgiu assim que o caso foi reaberto. Evanildo Custódio Braga, 38 anos, condenado por crimes patrimoniais em Marabá, havia solicitado transferência para Altamira três vezes nos seis meses anteriores. Os pedidos constavam no prontuário médico. O motivo alegado era uma ameaça de morte dentro do centro de detenção. O motivo real, segundo investigadores que revisaram o caso em 2025, ainda está sendo apurado.
Na manhã de 14 de agosto de 1997, o centro de detenção de Marabá acordou mais cedo que o habitual. As transferências eram sempre assim. Acordavam o pavilhão inteiro, mesmo aqueles que não iam a lugar nenhum. Havia um barulho diferente naquelas manhãs, um movimento nos corredores que os detentos reconheciam antes mesmo que os guardas começassem a chamá-los pelo nome. Era o som de chaves tilintando nas grades, de passos apressados no concreto, de vozes baixas tentando manter a ordem sem precisar gritar.
Aqueles que iam embora sabiam que estavam indo, e aqueles que ficavam também sabiam. Nereu Tavares Gomes chegou ao pátio às 5h40 da manhã, meia hora antes do previsto. Qual era o seu hábito? Ele não era o tipo de homem que aparecia em cima da hora. Sua filha mais velha, Soraia, que hoje tem 42 anos, lembra que o pai costumava acordar antes de o despertador tocar.
“Eu prefiro ter tempo do que andar com pressa.”
Ele dizia. Naquela manhã de agosto, Nereu conferiu o nível do óleo, testou os freios e verificou a reserva de combustível. O ônibus fora abastecido com combustível suficiente no dia anterior para a viagem de ida, com sobra. A lista de prisioneiros a serem transferidos fora entregue aos dois agentes na noite anterior.
Os agentes eram Valdemar Souza Correia, 44 anos, com 12 anos de serviço, e Geraldo Matos Figueiredo, 37 anos, que entrara na Secretaria de Segurança há 4 anos. Os dois se conheciam, mas não eram próximos. Trabalhavam em turnos diferentes, e aquela foi uma das poucas vezes em que coincidiram na mesma missão.
Tudo corria conforme o procedimento. Os formulários foram assinados. Os prisioneiros foram levados ao pátio em fila, algemados dois a dois antes de entrar no veículo. O embarque levou aproximadamente 20 minutos. A porta traseira foi trancada com um cadeado pelo lado de fora. Valdemar subiu pela porta dianteira e permaneceu no corredor interno perto dos bancos. Geraldo ocupou o banco atrás do motorista, de frente para os prisioneiros. Nereu ajustou o retrovisor, ligou o motor e saiu do pátio às 6h22 da manhã.
O que Nereu não sabia — o que nenhum dos três sabia — era que o rádio instalado no veículo, o equipamento que deveria manter contato com a central de controle durante toda a viagem, havia sido formalmente verificado na semana anterior e considerado operacional no relatório de manutenção, mas não estava. A inspeção fora realizada com o veículo estacionado no pátio, sem carga e sem que nenhum percurso fosse feito. Enquanto se movesse pela floresta, o sinal do rádio seria perdido nos primeiros quilômetros após Marabá e não retornaria. Este defeito fora informalmente relatado por outros motoristas da frota, mas nunca documentado oficialmente.
E o documento de pedido de reparo que estava arquivado no escritório em Belém referia-se a outro problema, uma falha de ignição que fora consertada três meses antes. Tecnicamente, o rádio ainda estava operacional no papel. O pátio do centro de detenção de Marabá cheirava a diesel e terra molhada naquela manhã. Havia chovido de madrugada, uma daquelas chuvas rápidas e fortes que o Pará às vezes traz em agosto sem aviso. E o chão de concreto ainda estava úmido. O céu estava limpo quando o ônibus saiu.
O motorista do turno da noite, que estava saindo quando Nereu chegou, contou depois à polícia que haviam trocado algumas palavras no portão.
“Eu estou bem e o tempo parece promissor.”
Nereu disse. O outro motorista confirmou:
“Sim, ele está promissor.”
Essa foi a última conversa documentada que alguém teve com Nereu Tavares Gomes. O ônibus virou à esquerda na saída do centro de detenção, pegou a rua principal em direção ao anel viário e entrou na PA-150 em direção ao norte. Um guarda do portão registrou a saída no livro de ocorrências com o horário exato: 6h22. Este registro manuscrito em um livro de capa dura que sobreviveu ao teste do tempo foi o único documento oficial que confirmou com precisão o momento em que aquele veículo deixou Marabá. Depois disso, o ônibus desaparece de todos os registros.
De todos os nomes na lista de transferência daquele dia, a investigação de 2025 conseguiu reconstruir com precisão a história de 11. Os outros quatro tinham identidades incompletamente registradas nos arquivos da época, um problema comum na administração prisional do Pará nos anos 1990, e havia detentos cujos registros de entrada na unidade tinham apenas um nome e um número de RG que, ao serem cruzados com os sistemas estaduais, não retornavam resultados consistentes; não era um caso de fraude de identidade. Era, muitas vezes, simplesmente o reflexo de um sistema que registrava o que podia registrar com os recursos que tinha, na velocidade que a burocracia permitia.
Entre os 11 que foram identificados com certeza, as histórias se repetiam com leves variações. A maioria fora condenada por crimes contra o patrimônio, furto qualificado, roubo simples e receptação. Dois deles eram acusados de tráfico de drogas em pequena escala. O tipo de caso que, na linguagem dos agentes penitenciários daquela época, era chamado de “tráfico de sobrevivência”, porque envolvia quantidades que não indicavam organização ou liderança, e um dos indivíduos havia sido condenado por lesão corporal grave após uma briga em um garimpo ilegal perto de Marabá.
Nenhum dos 15 havia sido condenado por homicídio. Nenhum deles aparecia em qualquer lista de líderes de organização criminosa. Este detalhe é importante porque, nos anos que se seguiram ao desaparecimento, uma das versões que circulou nos corredores da Secretaria de Segurança e chegou a algumas redações de jornais era que o ônibus havia sido interceptado por um grupo criminoso organizado que buscava resgatar um de seus líderes transportado naquele veículo. A versão nunca foi sustentada por qualquer nome, qualquer prontuário médico ou qualquer investigação formal, mas circulou. E circulou porque, na ausência de uma explicação oficial consistente, qualquer narrativa que preenchesse o vazio encontrava espaço para crescer.
E Evanildo Custódio Braga era o nome que aparecia com mais frequência nas conversas informais dentro do centro de detenção de Marabá nos meses que antecederam a transferência. Ele tinha 38 anos. Era natural de Tucuruí, filho de uma família que se estabelecera na região após a chegada da hidrelétrica, quando muita gente veio e muita gente ficou sem ter para onde ir. Depois que o lago subiu e a terra desapareceu, Evanildo entrara no sistema prisional aos 29 anos, condenado por estelionato e falsificação de documentos. Não era um crime violento; era o tipo de crime que, dentro das prisões, colocava um homem em uma posição delicada, sem o respeito que crimes violentos às vezes geravam entre os detentos, mas garantindo-lhe acesso a habilidades que grupos organizados valorizavam.
Ele havia solicitado transferência para Altamira três vezes em seis meses. O motivo declarado nos formulários era ameaça de morte dentro da unidade. Os formulários existiam; foram localizados por investigadores em 2025 no prontuário original de Evanildo, e estavam preenchidos com sua própria letra, legível e cuidadosa. A administração do centro de detenção havia respondido ao primeiro pedido, informando que estava em análise. Ao segundo, disse que dependia de uma vaga em Altamira. Ao terceiro, não houve resposta formal registrada. A transferência havia sido aprovada com base em outros critérios administrativos, alheios aos pedidos de Evanildo, e ele fora incluído na lista naquela manhã de agosto sem que ninguém, aparentemente, tivesse cruzado seu nome com seus pedidos anteriores ou os motivos que ele dera para querer sair.
O que Evanildo sabia que os outros não sabiam? E se ele sabia de algo, é uma das perguntas que os pesquisadores em 2025 não conseguiram responder. O prontuário médico foi vasculhado, suas visitas foram rastreadas. Seus registros de ligações telefônicas dentro da unidade foram analisados na medida em que sobreviveram ao teste do tempo. O que emergiu desse material foi um homem que recebia visitas da mãe a cada três semanas e que, nos dois meses anteriores à sua transferência, recebera duas visitas de um homem identificado no registro como seu primo, cujo nome aparecia nos livros da unidade, mas cujo RG, ao ser verificado em 2025, pertencia a uma pessoa que morrera em 1993. Este detalhe foi destacado no relatório preliminar de investigação de 2025. Não foi explicado.
A PA-150 em 1997 não era o que é hoje. Havia trechos pavimentados, sim, mas havia também longos trechos de estrada de terra que o verão piorava e o inverno amazônico transformava em um lamaçal. O trecho entre Marabá e o primeiro desvio obrigatório, aproximadamente 60 km após sair da cidade, tinha asfalto irregular, com remendos que os motoristas aprendiam a evitar de cor, porque a sequência de buracos não mudava de um ano para o outro. Após aquele desvio, a qualidade da estrada deteriorava-se progressivamente. A terra vermelha aparecia entre as pedras. As árvores se aproximavam da beira da estrada. A sombra da floresta chegava mais cedo do que em qualquer cidade.
Entre Marabá e Altamira, a rota oficial incluía dois desvios obrigatórios durante aquele período. O primeiro era necessário para evitar uma ponte sobre o rio Itacaiunas, que estava fechada desde 1994 devido a problemas estruturais e que, em 1997, ainda aguardava verbas federais para reformas. O desvio acrescentava aproximadamente 30 km ao percurso e passava por uma seção de um assentamento do Incra, onde a estrada era de pura terra e onde, nos dias seguintes à chuva, veículos pesados deixavam sulcos profundos que o sol depois endurecia como cimento. O segundo desvio era necessário para contornar uma área de conflito agrário perto do município de São João do Araguaia, onde a Polícia Militar mantinha presença intermitente desde 1996, após um confronto entre trabalhadores rurais sem-terra e seguranças de fazenda que resultara em mortes.
Esse segundo desvio não era sinalizado. Era conhecido pelos motoristas da frota através de instruções verbais passadas de um para outro, porque nenhum documento oficial reconhecia que aquele trecho principal estava fechado. Os motoristas da frota prisional estavam cientes dessas irregularidades. Nereu havia feito aquilo dezenas de vezes. Ele sabia onde a estrada estreitava, onde havia pedras soltas, onde a vegetação crescia sobre a superfície da estrada durante os meses chuvosos. Sabia também que naqueles trechos não havia ninguém: nem casas, nem comércios, nem postos de gasolina, nem pontos de descanso formais. Uma vez dentro daquelas estradas de terra, um veículo poderia desaparecer da vista de qualquer observador em questão de minutos e poderia permanecer sumido sem que ninguém, ao longo de toda aquela extensão de floresta, pudesse dizer se ele havia passado ou não.
Você conseguiria continuar com sua rotina sabendo que alguém que você ama saiu de casa em uma manhã comum e que ninguém, em lugar nenhum ao longo da estrada, pode dizer se essa pessoa passou? Esse é o tipo de silêncio que a família de Nereu Tavares Gomes começou a experimentar a partir da tarde de 14 de agosto de 1997. Não o silêncio daqueles que sabem, mas não falam; o silêncio daqueles que buscam e nada encontram, nem o rastro de uma resposta.
O primeiro funcionário a notar que algo estava errado foi o chefe de segurança da prisão de Altamira, Raimundo Pereira das Neves, que esperou pelo ônibus até as 14h antes de ligar para o escritório em Belém. Raimundo tinha 51 anos. Trabalhara em três unidades prisionais diferentes no Pará e estava em Altamira há 2 anos. Era um homem acostumado a atrasos. Note que transferências da frota estadual frequentemente atrasavam o suficiente para que uma espera de algumas horas não causasse alarme imediato. A estrada era difícil, o veículo era velho e coisas inesperadas aconteciam.
A resposta que Raimundo recebeu quando ligou às 14h foi para esperar mais uma hora, pois atrasos eram comuns naquela rota. A pessoa que atendeu o telefone no escritório era um funcionário administrativo que não tinha autoridade para ativar qualquer protocolo de emergência e que anotou a ligação em um registro de incidentes. Este caderno foi encontrado em 2025 em um arquivo em Belém. Continha um registro da ligação de Raimundo, com o horário e um resumo do que fora discutido. Ao lado, escrito a caneta, estava a instrução que o funcionário recebera do supervisor imediato: “Espere”.
Às 15h30, Raimundo ligou novamente. Desta vez, o conselho foi fazer um boletim de ocorrência e contatar a delegacia local. O boletim de ocorrência foi feito às 16h16 na delegacia de polícia civil de Altamira, quase 10 horas depois que o ônibus saiu de Marabá. O policial de plantão que assinou o relatório era um homem chamado Hélio Drumond Vasconcelos, que chegara àquele distrito há menos de um ano e que, segundo relatos posteriores de colegas, tratou o incidente inicialmente como um caso provável de falha mecânica ou acidente de percurso. Ele enviou uma viatura para verificar o trecho inicial da rodovia PA-150 em direção a Marabá. A viatura retornou sem ter visto nada fora do comum. Durante aquele período de 10 horas, não houve busca ativa, não houve chamado para o corpo de bombeiros e não houve comunicação com as famílias dos agentes ou dos detentos. Não houve contato entre a delegacia de Altamira e a delegacia de Marabá para confirmar se o ônibus havia de fato saído. O sistema funcionara exatamente como fora projetado para funcionar naquele momento: com cautela burocrática, com a espera como primeira resposta, e a urgência apenas quando a cadeia de comando a autorizasse.
Na manhã seguinte, quando ficou claro que o ônibus não chegara e que nenhum dos três funcionários dera sinal de vida, a natureza do caso mudou. O corpo de bombeiros foi chamado. A Polícia Militar recebeu ordens para mobilizar pessoal. A Secretaria de Segurança em Belém começou a monitorar a situação diretamente, mas as 10 horas perdidas no dia anterior eram 10 horas que a floresta já havia absorvido. E a família de Nereu Tavares Gomes soube do seu desaparecimento por um vizinho. Um senhor chamado Dirceu, que costumava ouvir rádio AM de Marabá durante o almoço, ouviu uma reportagem dois dias após o incidente mencionando um ônibus da frota prisional do estado que havia sido dado como desaparecido na rodovia PA-150. Dirceu foi à casa de Aparecida Gomes, a esposa de Nereu, bateu na porta e perguntou se ela sabia de algo. Aparecida não sabia de nada. Ninguém do escritório havia ligado. Nenhum dos colegas de Nereu havia aparecido. Ela explicou a ausência do marido para si mesma como uma daquelas situações em que o ônibus para para dormir no meio da jornada porque a noite cai antes de chegar. Algo que já acontecera antes, uma ou duas vezes em anos anteriores.
Aparecida Gomes tinha 50 anos em agosto de 1997. Trabalhava como merendeira em uma escola municipal no bairro Cidade Nova, em Marabá. Ela acordava às 5h, fazia café para os filhos, saía às 6h para pegar dois ônibus até a escola e voltava às 14h. Estava criando três filhos com Nereu: Soraia, 18 anos; Cleiton, 20 anos; e o caçula, Tadeu, que tinha 16. Nereu trabalhava de forma irregular, às vezes saindo na segunda e voltando na quarta, às vezes ficando fora a semana inteira porque a viagem se repetia ou porque havia trabalho extra na unidade. Aparecida estava acostumada a esperar. O que ela não estava acostumada era esperar sem saber por quê.
Na tarde do dia em que Dirceu bateu em sua porta, ela foi à delegacia de Marabá. O policial que a atendeu conferiu o registro e confirmou que havia um boletim de ocorrência em Altamira relacionado ao ônibus, mas disse que o caso estava sendo tratado pela delegacia daquela cidade e que ela precisaria falar com eles. Aparecida não tinha como ligar para Altamira àquela hora. O telefone da delegacia de Altamira, quando ela finalmente conseguiu o número, não era atendido. Ela voltou para casa, deu o jantar aos filhos e ficou acordada até as primeiras horas da manhã esperando o telefone tocar. O telefone não tocou.
As famílias dos detentos tinham ainda menos acesso à informação que as famílias dos funcionários. Algumas levaram semanas para perceber que os seus não haviam chegado ao destino. A comunicação oficial entre o sistema prisional e as famílias dos detentos era precária durante aquele período, e não havia procedimento estabelecido para notificar parentes em caso de falha na transferência. Os prisioneiros não tinham permissão para fazer um telefonema para avisar que haviam chegado. As famílias dependiam de cartas, visitas agendadas e, às vezes, de boatos que circulavam entre conhecidos.
Benedita Custódio Braga, mãe de Evanildo, era uma mulher de 62 anos que morava em um bairro periférico de Marabá chamado São Félix, do outro lado do rio Tocantins. Trabalhava como lavadeira para três famílias na cidade e visitava o filho a cada três semanas, sempre às quartas-feiras, porque era o dia em que a escola municipal onde a neta estudava fechava mais cedo e ela podia encontrar alguém para buscar a menina. Quando chegou o dia da visita seguinte ao desaparecimento, ela foi ao centro de detenção e foi informada de que Evanildo fora transferido. Perguntou para onde, e disseram Altamira. Perguntou quando poderia visitá-lo lá. Disseram que ela precisaria esperar seu cadastro ser atualizado no sistema.
Benedita voltou para casa. Na semana seguinte, retornou ao centro de detenção com uma carta que escrevera para o filho. A carta foi rejeitada porque o destinatário não estava mais na unidade. Perguntou se havia alguma forma de enviar a carta para Altamira. Disseram que não sabiam. Foi apenas quando uma sobrinha que trabalhava em um cartório em Marabá ouviu sobre o caso de um cliente que lera em um jornal que Benedita entendeu o que havia acontecido. Ela pegou o ônibus para Altamira sozinha duas semanas após o desaparecimento. Chegou à prisão regional às 10h de uma terça-feira. A funcionária que a atendeu confirmou que Evanildo Custódio Braga nunca havia dado entrada naquela unidade. Benedita perguntou o que aquilo significava. A funcionária disse que não sabia. Benedita voltou para Marabá no mesmo dia. Chegou em casa às 23h, com os pés inchados de tanto andar, e com uma resposta que, na verdade, não era resposta nenhuma. Ela sentou-se na cadeira da cozinha e ficou lá por um tempo, um tempo que sua sobrinha, que a esperava, não conseguiu medir. Depois, disse que faria uma promessa para Nossa Senhora de Nazaré e que iria esperar.
Ela esperou por anos. A investigação aberta pela Polícia Civil do Pará em agosto de 1997 durou formalmente 4 meses. Durante esse período, 16 testemunhas foram ouvidas. A maioria era de funcionários da Secretaria de Segurança, administradores do centro de detenção de Marabá, o chefe de segurança em Altamira e o funcionário administrativo que atendera a ligação de Raimundo Pereira das Neves na tarde do desaparecimento. Os outros eram moradores de postos de gasolina e casas isoladas ao longo da rodovia PA-150, que afirmaram não ter visto o veículo passar naquela manhã. Nenhuma dessas testemunhas estivera nos ramais laterais. Nenhuma fora abordada enquanto estava dentro da floresta. Nenhuma investigação formal foi realizada nos ramais além do primeiro trecho, o que o inquérito justificou com uma frase que os investigadores de 2025 sublinharam no documento original: “Acesso impossível para viaturas policiais sob as condições atuais”.
Essa justificativa nunca foi acompanhada por um relatório técnico descrevendo quais eram essas condições, nem por uma avaliação de quanto tempo ou recursos seriam necessários para superar o impedimento. Era uma frase administrativa que fechava uma possibilidade de investigação sem precisar explicar por que estava sendo fechada. Não houve sobrevoos pelo Pará, pois o estado não possuía helicóptero próprio naquela época. O helicóptero da Polícia Militar fora solicitado para outra operação na região de Belém e não foi redirecionado para as buscas. Não houve cão farejador, não houve comunicação formal com outros estados, não houve pedido ao Sinalid, que naquele ano ainda funcionava de forma extremamente precária e sem integração entre as unidades federativas para cruzar informações sobre as 18 pessoas desaparecidas. Não houve mapa detalhado, em nenhum momento da investigação, das possíveis rotas que o ônibus poderia ter tomado, indicando distâncias, condições de acesso e pontos onde um veículo daquele porte poderia ter parado ou sido parado.
A conclusão do inquérito, escrita em dezembro de 1997 pelo delegado Hélio Drumond Vasconcelos, apontava para uma fuga organizada envolvendo agentes internos. O texto era técnico e seco. Afirmava que, na ausência de provas de crime contra os ocupantes do veículo, a hipótese mais consistente com os fatos disponíveis era a de que os detentos haviam, de forma coordenada, rendido os agentes e o motorista, forçado o veículo a parar e desaparecido na floresta, possivelmente com apoio externo previamente arranjado. Segundo esse raciocínio, os agentes ou participaram voluntariamente, ou foram mantidos sob coerção e depois eliminados ou integrados ao grupo. Essa conclusão não foi sustentada por nenhuma prova física, nenhum depoimento direto ou qualquer investigação de campo que tivesse chegado ao interior dos ramais. Era uma hipótese de trabalho que fora promovida à conclusão oficial porque o prazo da investigação terminara e porque nenhuma outra explicação surgira para substituí-la. Em março de 1998, o delegado Hélio Drumond Vasconcelos foi transferido para o distrito de Redenção, no sul do Pará. O inquérito original foi enviado para os arquivos da Secretaria de Segurança em Belém. O Ministério Público aprovou o arquivamento sem solicitar novas diligências.
Se acontecesse com você, com alguém que você ama, você acreditaria nessa conclusão? Você aceitaria que um parente seu desapareceu em uma floresta sem que ninguém fosse de fato para dentro daquela floresta procurá-lo? A vegetação amazônica não espera. Isso não é uma metáfora. É uma descrição funcional do que acontece quando a floresta encontra uma superfície parada. Plantas pioneiras chegam primeiro. Samambaias, cipós finos e ervas daninhas — crescem rápido e morrem rápido, mas abrem caminho para o que vem a seguir. Depois vêm os arbustos, os troncos jovens, as lianas que sobem em qualquer estrutura vertical que encontram. Em 5 anos, um veículo estacionado em uma clareira já terá vegetação crescendo sobre o teto, sobre os para-lamas e sobre os pneus murchos. Em 10 anos, desaparece da linha de visão de quem passa a 50 metros sem saber o que está procurando. E em 28, torna-se parte da paisagem. Uma forma estranha sob o cipó, um tipo diferente de resistência no sub-bosque quando o facão bate, algo que o olho não identifica imediatamente porque o cérebro não está preparado para encontrar aquilo ali.
Os trabalhadores que encontraram o ônibus em março de 2025 eram funcionários de uma empresa contratada para realizar trabalhos de instalação de linha de transmissão elétrica em uma seção do interior do Pará que nunca fora eletrificada antes. A trilha que eles abriam era nova, traçada a partir de um mapa de satélite que identificara o corredor menos acidentado para o projeto. Nenhum deles sabia que já tinha passado por aquela área antes. Nenhum morador local mencionara nada de incomum naquela região. Um dos trabalhadores, um homem de 41 anos chamado Davi Pantoja, limpava a vegetação com um facão quando sentiu a lâmina bater em metal. O som era diferente do som da madeira, mais seco, mais duro, com uma vibração que persistiu na mão.
Davi cortou devagar mais mato em volta e viu a superfície enferrujada por baixo. Chamou seus colegas. Levaram quase 40 minutos cortando vegetação para conseguir identificar o que tinham à frente. A forma do veículo emergiu gradualmente. Primeiro a linha do teto, depois as laterais, depois as janelas com grades, depois a faixa azul que a ferrugem transformara em uma mancha escura, mas que ainda era reconhecível contra o branco desbotado da carroceria. Davi Pantoja tirou uma foto com o celular e enviou para o mestre de obras do canteiro. O supervisor ligou para a empresa G. A empresa ligou para a polícia civil. A informação chegou à delegacia regional em Altamira na tarde do mesmo dia. O policial que recebeu o aviso, um homem que estava no cargo há dois anos e que nascera seis anos depois que o ônibus desaparecera, pediu que a área fosse preservada e que ninguém tocasse em nada.
Enquanto isso, em uma casa em um bairro de Marabá, Aparecida Gomes, que só se tornara oficialmente viúva em 2004, quando a morte de Nereu foi declarada judicialmente por ausência após os 7 anos exigidos por lei, celebrava seu aniversário de 80 anos com a saúde frágil e a memória ainda intacta. Sua filha mais velha, Soraia, morava com ela. O filho do meio, Cleiton, morava em um bairro próximo. Tadeu, o caçula, mudara-se para Belém anos atrás. Naquele dia de março de 2025, Aparecida estava sentada na sala quando sua filha chegou com o celular na mão e começou a contar o que aparecera nas notícias. Aparecida ouviu em silêncio. Depois, pediu à filha que repetisse. Depois, ficou quieta por um tempo. Ninguém a contatara antes da notícia estourar nas redes sociais.
A equipe de perícia do Instituto de Criminalística do Pará chegou ao local dois dias após a descoberta. O acesso foi difícil. O trecho transitável mais próximo da estrada ficava a mais de 12 km de onde o ônibus estava. O último trecho da jornada foi completado a pé, com os equipamentos carregados manualmente pela equipe. Os especialistas chegaram ao local logo pela manhã, quando a floresta ainda estava úmida pela noite e a luz atravessava as copas das árvores em faixas estreitas, iluminando o solo de forma desigual. O ônibus estava em uma pequena depressão no terreno, ligeiramente inclinado para a direita, como se as rodas dianteiras tivessem afundado progressivamente ao longo dos anos de chuva. O teto havia cedido em dois lugares devido ao peso acumulado da vegetação sobre a estrutura. As laterais estavam cobertas de ferrugem e trepadeiras. As janelas gradeadas ainda estavam no lugar, embora os vidros onde antes havia vidro estivessem estilhaçados. A porta dianteira estava aberta, a porta traseira estava fechada. Os especialistas documentaram tudo antes de entrar. Então, um por um, entraram.
O que foi encontrado dentro do ônibus foi registrado em um relatório preliminar, divulgado em abril de 2025, após revisão pelo Instituto de Criminalística e aprovação pelo delegado responsável pelo caso reaberto. As 15 algemas estavam abertas e dispostas sobre os bancos de metal. Cada par estava ao lado de seu banco correspondente, como se tivessem sido retirados deliberadamente e colocados ali, um por um. O arranjo não era aleatório. Cada algema aberta estava no banco onde, segundo a lista de transferência, um detento estava sentado. Não havia marcas de corte nos aros, não havia deformação nas fechaduras e não havia sinal de que as algemas tivessem sido forçadas ou quebradas. O mecanismo de cada uma estava intacto e funcionando normalmente quando testado pelos especialistas. Devido à umidade acumulada de quase três décadas na floresta amazônica, isso foi considerado no relatório como um fator a ser verificado. O metal havia enferrujado por fora, mas o mecanismo de travamento interno, protegido pela própria algema, havia permanecido intacto.
A conclusão provisória dos especialistas foi que as algemas foram abertas com uma chave, uma por uma, usando a ferramenta correta, sem aparente pressa. Mas não foram encontradas chaves dentro do veículo. Os pertences dos agentes também haviam sumido. Não havia coldres, não havia documentos, não havia distintivos. O banco do motorista estava com o cinto de segurança desafivelado, como se Nereu tivesse se levantado. O retrovisor estava ajustado na posição normal de operação. A chave de ignição não estava na ignição. A porta traseira estava trancada pelo lado de dentro com o ferrolho interno na posição travada. Isso significava que quem saiu do veículo o fez pela porta dianteira, a única que estava aberta, ou que quem trancou a porta traseira por dentro não saiu por ela. Os especialistas não conseguiram explicar essa parte, não naquele momento. E o relatório final, segundo as últimas informações disponíveis sobre este caso, ainda não fora divulgado.
Você se lembra do que foi dito no início? Das algemas dispostas nos bancos, da porta trancada por dentro, da floresta que cresceu por 28 anos sobre um veículo que ninguém deveria ter conseguido levar até lá. A resposta para o que aconteceu naquela manhã de agosto de 1997 ainda não existe de forma oficial, mas há uma prova que os investigadores em 2025 encontraram nos arquivos que fora esquecida por quase três décadas. E essa prova muda algo.
Quando o caso foi reaberto pela unidade da polícia estadual do Pará de combate a crimes contra a administração pública em abril de 2025, a primeira tarefa dos investigadores foi localizar o inquérito original de 1997. O caso fora iniciado em Altamira, mas o arquivo físico fora transferido para Belém em 1999, durante uma reorganização dos cartórios criminais no interior do estado. Em Belém, passou por pelo menos duas mudanças de endereço institucional antes de chegar ao local onde foi encontrado, em um corredor de subsolo da sede da Secretaria de Segurança Pública, dentro de uma caixa de papelão marcada com o número de protocolo original, que por sua vez estava dentro de um arquivo de metal cujo inventário não era atualizado desde 2007. As três pastas do inquérito estavam amareladas e com manchas de umidade nas bordas. Parte do texto estava ilegível, especialmente nas páginas das pontas de cada pasta. Os pesquisadores em 2025 fotografaram tudo antes de manusear, por precaução. A leitura e transcrição do material levaram quatro dias; foi durante este trabalho que o depoimento de Álvaro Mendes Pinto veio à tona.
Álvaro tinha 43 anos em 1997. Era caminhoneiro. Trabalhava de forma autônoma, transportando madeira entre serrarias no interior do Pará. E naquela manhã de 14 de agosto, ele estava na rodovia PA-150, viajando no sentido contrário ao do ônibus desaparecido. O depoimento fora colhido em uma delegacia no interior, não em Altamira ou Marabá, mas em São João do Araguaia, onde Álvaro parara para abastecer três semanas após o desaparecimento. Um policial no posto de gasolina o ouvira contando ao frentista que vira um ônibus parado em uma bifurcação naquele dia e levara o homem à delegacia para dar um depoimento formal. O depoimento de Álvaro Mendes Pinto consistia em duas páginas manuscritas com a letra de um delegado de cidade pequena que escrevia rápido e usava suas próprias abreviações. Mas o conteúdo era claro.
Álvaro passara por uma bifurcação a aproximadamente 80 km ao norte de Marabá, por volta das 9h do dia 14. Vira um ônibus branco com uma faixa azul parado naquela bifurcação, com o motor aparentemente desligado, sem fumaça saindo do escapamento. Havia dois homens do lado de fora do veículo, na área de terra da bifurcação, perto da porta dianteira. Os dois estavam de pé e conversando, sem sinais de agitação ou conflito. Álvaro diminuíra a velocidade ao passar, porque a estrada era estreita e a largura do caminhão exigia atenção. E, naquele momento, observara o ônibus por alguns segundos. Não vira nenhum movimento nas janelas gradeadas. Não vira mais ninguém fora do veículo além dos dois homens.
Álvaro continuara sua viagem porque a cena não lhe parecera estranha naquele momento. Um ônibus parado na beira de uma estrada vicinal com dois homens conversando do lado de fora não era, por si só, uma ocorrência incomum naquelas estradas. Ele só se lembrou disso com mais clareza depois de ouvir, semanas mais tarde, que um ônibus de transferência prisional havia desaparecido naquela mesma rota, naquela mesma manhã. O depoimento fora registrado, assinado por Álvaro e grampeado aos anexos do inquérito. Nunca fora mencionado no corpo do documento, nunca fora cruzado com outros depoimentos e nunca gerara qualquer investigação adicional. Os investigadores em 2025 encontraram o nome Álvaro Mendes Pinto nos registros e tentaram localizá-lo. Descobriram então que ele morrera em 2011 em um acidente de trânsito na rodovia BR-222, perto de Açailândia, no Maranhão. Sua versão permaneceu no papel por 28 anos sem que ninguém a lesse com atenção.
O que aquele depoimento sugeria era, ao mesmo tempo, simples e perturbador. Álvaro vira o ônibus parado a 80 km de Marabá, às 9h do dia 14, com dois homens fora do veículo tendo uma conversa calma. Isso significava que o ônibus saíra da cidade, percorrera os primeiros 80 km da rota sem incidente aparente e parara voluntariamente, ou pelo menos sem sinais visíveis de conflito, naquele ponto. Isso significava que, pelo menos até as 9h, todos ainda estavam dentro do veículo, ou que pelo menos dois dos ocupantes estavam do lado de fora por vontade própria, de maneira calma e composta. E enquanto o ônibus esperava, parado, o que aconteceu depois das 9h do dia 14 de agosto de 1997, naquela bifurcação, cerca de 40 quilômetros rio abaixo de onde o ônibus seria encontrado 28 anos depois, não está registrado em lugar nenhum. Não há testemunhas, não há fotografias, não há vestígios físicos que tenham sido preservados. Há apenas as algemas abertas, dispostas nos bancos de metal enferrujados de um ônibus que a floresta preservou por quase três décadas.
Em maio de 2025, o caso ainda estava oficialmente reaberto. A unidade da polícia estadual do Pará responsável pelo combate a crimes contra a administração pública havia solicitado que o Ministério Público Estadual nomeasse um promotor específico para acompanhar as investigações. O pedido fora apresentado, oficialmente registrado e aguardava decisão. O relatório forense completo do Instituto de Criminalística ainda não fora divulgado. A identidade do ônibus fora confirmada pelo número do chassi, localizado na placa afixada no painel interno do veículo, que coincidia com o registro de frota da Secretaria de Segurança Pública do Pará de 1997, após consulta ao Arquivo Histórico do Departamento de Trânsito do estado (Detran). Nenhuma das 18 pessoas que embarcaram naquele ônibus em Marabá na manhã de 14 de agosto de 1997 fora encontrada viva ou morta até aquela data. Nenhuma delas dera entrada em hospital, delegacia ou qualquer sistema oficial de identificação no Brasil ou no exterior nos anos que se seguiram ao seu desaparecimento — pelo menos nenhuma com os nomes e documentos que constavam nos registros de 1997.
O sistema Sinalid fora consultado. Os registros dos Institutos Médico Legais dos estados do Pará, Maranhão e Tocantins foram checados para o período imediatamente posterior ao desaparecimento. Registros de entrada de prisões em outros estados também foram checados para os nomes da lista de transferência. Nada conclusivo fora retornado. A Defensoria Pública do Pará manifestara-se sobre o caso em abril de 2025, solicitando acesso ao inquérito original e ao relatório pericial sobre o ônibus encontrado. Em nome das famílias de três dos detentos transportados naquela manhã, cujos descendentes ainda residiam no estado e haviam buscado assistência jurídica após a notícia da descoberta do veículo. Entre esses parentes estava uma mulher chamada Rosângela Braga, filha de Benedita Custódio Braga e sobrinha de Evanildo, que tinha 7 anos quando o tio desapareceu e que agora tinha 35. Rosângela lera a notícia da descoberta do ônibus em um aplicativo de celular em uma manhã de domingo, sentada na cozinha da casa onde crescera, ouvindo a avó falar sobre seu filho que fora para Altamira e não chegara. Benedita morreu em 2019, aos 84 anos, sem saber o que acontecera com Evanildo. Uma promessa para Nossa Senhora de Nazaré. Ela cumpriu todos os anos até o último.
Aparecida Gomes, ao ser informada pela filha Soraia sobre a descoberta do ônibus, permaneceu em silêncio por um período de tempo que sua filha descreveu como longo. Depois, pediu para ver a foto. Soraia mostrou no celular. Aparecida olhou para a imagem do veículo envolto em trepadeiras e ferrugem, com aquela faixa azul ainda visível sob a decadência, e não disse nada por mais algum tempo. Depois, disse que queria saber onde estava o corpo do marido. Não a versão oficial, o corpo. Soraia não sabia o que responder. Essa é a pergunta que permanece aberta neste caso. Esta não é uma pergunta retórica, é uma pergunta real, feita por uma mulher de 80 anos que esperou 21 anos por uma declaração judicial de morte e que agora sabe que o ônibus em que seu marido embarcou em 1997 foi encontrado vazio, com as algemas abertas, a 40 km de qualquer estrada, em uma floresta onde ele não deveria ter conseguido chegar. A pergunta não tem resposta prontamente disponível, e as pessoas que poderiam ter uma, se é que alguém tem, não se apresentaram.
Segundo os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil tem mais de 60 mil pessoas desaparecidas por ano. A maioria desses desaparecimentos tem explicação, mas muitos não têm. Alguns permanecem abertos por décadas, arquivados em arquivos físicos que se deterioram antes mesmo de serem lidos, esquecidos em boletins de ocorrência que ninguém nunca revisita. Preservados nas memórias de famílias que aprenderam a suportar silenciosamente o que não conseguiram resolver. O caso do ônibus da PA-150 é diferente em escala. 18 pessoas, um veículo estadual, uma rota documentada, mas é o mesmo na essência. Alguém saiu, não voltou, e o sistema que deveria explicar o ocorrido não o fez.
O que os trabalhadores encontraram naquela clareira da floresta em março de 2025 não foi uma resposta. Foi uma pergunta mais profunda do que qualquer outra que existira antes. Foi a confirmação de que o ônibus estivera lá, de que as algemas haviam sido abertas, de que as 18 pessoas haviam saído ou sido retiradas, e de que a floresta se fechara sobre aquele lugar com a mesma indiferença com que se fecha sobre todas as coisas. O caso está aberto. As famílias continuam esperando. E as algemas, que agora estão em uma sala de perícia em Belém, dentro de sacos plásticos numerados, foram abertas por alguém com uma chave, uma a uma, em uma manhã de agosto de 1997, que ainda não foi totalmente explicada.