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EX-COVEIRO CONTA O QUE ACONTECEU NO CEMITÉRIO NO DIA DOS NAMORADOS DE 2001

EX-COVEIRO CONTA O QUE ACONTECEU NO CEMITÉRIO NO DIA DOS NAMORADOS DE 2001

O meu nome é José Ribeiro Lima. Tenho setenta e dois anos de idade, e a história que vos vou contar é a herança mais pesada e, simultaneamente, a mais luminosa que carrego na minha memória.

Durante mais de duas décadas da minha vida, trabalhei de sol a sol como coveiro no velho cemitério municipal de Évora, no coração do Alentejo.

Quando iniciei este ofício árduo, era ainda um homem jovem, com pouco mais de trinta anos e uma vida inteira pela frente.

Uma das primeiras e mais duras lições que aprendi entre aquelas campas de mármore e jazigos antigos foi a necessidade imperiosa de erguer um muro dentro de mim.

É absolutamente necessário construir uma parede invisível, mas robusta, entre nós próprios e o sofrimento alheio que somos obrigados a presenciar diariamente.

Se um homem permitir que cada funeral, que cada lágrima derramada sobre a terra acabada de remexer o afete nas entranhas, não aguenta sequer uma semana neste serviço.

Neste ofício, nós somos testemunhas do choro mais cru e desesperado. Vemos famílias inteiras a despedirem-se de pedaços insubstituíveis de si mesmas.

Vemos pessoas que mal conseguem manter-se de pé, vergadas pelo peso insuportável da dor, da saudade e da perda definitiva.

E, no meio de todo esse desespero humano, o coveiro precisa de continuar a trabalhar, com os braços firmes na enxada e o olhar fixo no chão.

A terra tem de ser movida e o serviço precisa imperativamente de ser concluído, por mais que o coração aperte.

Eu criei esse muro de proteção muito cedo na minha carreira. E, para ser totalmente sincero, funcionou na perfeição durante muitos e muitos anos.

Isso não significa que eu fosse um homem de pedra ou que fosse insensível à dor alheia. Eu sentia.

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Mas aprendi, a muito custo, a arrumar toda essa angústia num lugar recôndito do peito, onde não atrapalhasse o movimento contínuo e pesado da pá. É o mecanismo de defesa que qualquer coveiro desenvolve para suportar a dureza do dia a dia.

No entanto, eu sempre carreguei comigo uma particularidade desde a infância. Uma característica singular que me distinguia dos restantes funcionários e colegas de trabalho daquele campo santo.

Era algo muito íntimo e silencioso, uma espécie de sexto sentido que eu nunca soube explicar com palavras exatas ou justificações da ciência.

Desde os tempos da minha juventude, eu apercebia-me de coisas que as outras pessoas pareciam ignorar por completo. Era uma perceção física, um arrepio na espinha.

Havia momentos em que, ao entrar em determinados lugares mais antigos, o ar ganhava uma densidade diferente, um peso quase palpável nos ombros.

Era como se, de repente, algo que a minha visão não alcançava estivesse ali mesmo ao meu lado, muito próximo e em absoluto silêncio.

Uma presença serena, pacífica, que não produzia qualquer ruído, mas que ocupava indiscutivelmente espaço no mundo dos vivos.

Eu nunca partilhei este meu segredo com vivalma. Sabia perfeitamente que me iriam olhar de soslaio, com desconfiança e zombaria.

Iriam julgar que eu estava a inventar histórias de fantasmas para chamar a atenção, ou pior, que estaria a perder o juízo e a lucidez. Por isso, mantive-me em silêncio absoluto.

Quando comecei a trabalhar no cemitério, rodeado pela morte e pela melancolia, essa sensação peculiar foi aumentando e refinando-se gradualmente.

Era como se aquele ambiente sagrado estivesse a afinar um instrumento dentro da minha alma. Algo que já existia desde que nasci, mas que permanecia adormecido, apenas à espera da atmosfera certa para despertar e se fazer notar.

Eu aprendi a conviver pacificamente com essa perceção. Aprendi a fechar os olhos do espírito e a ignorar esses sinais quando precisava de deitar as mãos à obra.

Mas a verdade inegável é que havia dias muito mais difíceis e carregados do que outros. Dias em que a energia era tão avassaladora que exigia de mim um esforço monumental para manter a concentração no serviço que tinha de ser feito.

O funeral do senhor Dinis foi, sem margem para dúvidas, um desses dias inesquecíveis. Aconteceu no outono do ano de mil novecentos e noventa e nove. Eu tinha, na altura, os meus quarenta e cinco anos.

Era uma tarde banal, num dia útil da semana. O serviço estava agendado para as dezasseis horas em ponto. Recebi a ordem de serviço das mãos do encarregado, tal como recebia dezenas de outras.

O papel indicava apenas a frieza dos dados burocráticos: o nome, a idade, o setor e o horário. Dinis Cunha, setenta e quatro anos de idade, setor C.

Parecia ser apenas mais um funeral rotineiro numa tarde comum, e eu tinha um dever profissional a cumprir perante a dor daquela família.

Preparei a cova funda ainda durante o período da manhã. Organizei as ferramentas, alisei as paredes de terra e fiquei a aguardar com o respeito profundo que sempre dediquei à minha profissão.

Os familiares começaram a chegar lentamente, de rostos fechados, quando os sinos da igreja bateram as quatro da tarde.

Não era um velório concorrido. Havia poucas pessoas presentes, vestidas de escuro, trazendo consigo arranjos de flores muito simples.

Um padre idoso rezou umas preces breves, proferiu a bênção com água benta e retirou-se logo de seguida, como era apanágio nestas cerimónias mais humildes.

Tudo parecia decorrer dentro da absoluta normalidade a que eu estava familiarizado.

Contudo, foi exatamente no momento angustiante em que a urna de madeira começou a descer devagar para o interior da terra que eu fixei, pela primeira vez, a figura da viúva.

Ela vestia um luto rigoroso e austero, com um xaile preto a cobrir-lhe os ombros. Mantinha-se de pé, incrivelmente direita, mesmo junto à beira do precipício da sepultura.

A senhora não derramava uma única lágrima. Não fraquejava, não soluçava, e não precisava do amparo físico de nenhum dos familiares presentes.

Estava apenas ali, parada, numa quietude que me impressionou profundamente. Os seus olhos acompanhavam a descida da caixa com uma fixação quase religiosa e inabalável.

Foi exatamente essa atitude contida que me trespassou o peito de uma forma que eu não estava preparado para gerir. O seu silêncio ensurdecedor.

Eu já tinha testemunhado oceanos de lágrimas naquele cemitério ao longo de todos aqueles anos. Já tinha ouvido gritos, visto desmaios e assistido a lamentos que cortavam a respiração de quem assistia.

Mas aquela mulher transmitia algo completamente distinto. A dor que ela carregava no peito não cabia num pranto passageiro. Era uma dor imensa, vasta demais para se dissolver em simples lágrimas.

Ela permaneceu ali, imóvel como uma estátua esculpida em granito. Parecia estar a tentar reter e eternizar cada fração daquele segundo, perfeitamente ciente de que, quando o momento acabasse, nunca mais haveria nada igual em toda a sua vida.

Tentei, com todas as minhas forças, desviar o olhar do seu rosto calmo e focar-me no cabo da pá. Mas algo de muito misterioso dentro de mim não mo permitiu.

A família foi abandonando o local a pouco e pouco. Um a um, os presentes foram apresentando os seus sentidos pêsames e saindo lentamente pelo grande portão de ferro, arrastando os pés na gravilha.

A dona Natália, porém, não arredou pé. Ficou imóvel no exato mesmo lugar, enquanto eu, com movimentos respeitosos e vagarosos, cobria a campa com a terra acastanhada e dispunha as coroas de flores nos lugares certos.

Ela não moveu um músculo sequer. Não dirigiu uma única palavra de revolta a Deus, nem a ninguém. Ficou presente até ao último e derradeiro momento.

Quando finalmente concluí o enterro, afastei-me uns bons passos para trás, concedendo-lhe o espaço e a privacidade que o luto sempre exige.

Virei-me de costas, fingindo estar muito ocupado a raspar os restos de terra encrostada na minha pá. Só uns longos minutos depois é que ouvi o som leve dos seus sapatos a afastarem-se.

E foi exatamente nesse instante que o meu corpo sentiu o primeiro sobressalto.

Foi como se aquela sepultura recém-fechada tivesse retido algo de vivo dentro de si. Uma densidade completamente nova, um peso diferente de tudo o que eu alguma vez sentira em qualquer outro canto daquele cemitério centenário.

Era como se uma essência imaterial tivesse decidido fixar residência ali mesmo, sem a mais ínfima intenção de se ir embora e abandonar o local.

Abanei a cabeça para afastar aqueles pensamentos, recolhi as minhas coisas e fui para casa. Nos dias e semanas que se seguiram, tentei afincadamente não pensar mais no assunto.

O trabalho chama por nós. Havia outras campas para cuidar, outras famílias destroçadas para acolher no seu momento de maior fragilidade. O trabalho nunca para.

Por isso, fui seguindo com a minha rotina. Mas havia um detalhe incontornável: sempre que o meu percurso me obrigava a passar em frente ao túmulo do senhor Dinis, os meus passos abrandavam de forma totalmente involuntária.

Na semana seguinte ao funeral, encontrava-me eu a capinar ervas daninhas pela frescura da manhã, quando a vi entrar.

Reconheci-a de imediato, mesmo à distância. Era a viúva silenciosa.

Ela percorreu a rua de terra batida sem desviar o olhar, caminhando com a determinação de quem já decorou o caminho, e dirigiu-se sem hesitação para a campa do seu marido.

Eu prossegui com a minha lida a uns metros de distância, mas notei instantaneamente que a pressão no ar tinha mudado de forma radical.

Aquela energia densa e invisível que eu sentia sempre que passava sozinho transformou-se subitamente. Ficou mais desperta, mais viva. Era como se algo que jazia num sono profundo tivesse acordado num sobressalto de alegria com a aproximação dos passos dela.

A dona Natália permaneceu junto à pedra durante longos quarenta minutos. Rezou intimamente, perdeu-se nos seus pensamentos e recordações, e depois levantou-se com extrema dignidade.

Quando regressou pelo mesmo caminho e passou por mim, levantou o olhar e cumprimentou-me com um simples e educado aceno de cabeça.

Ela voltou na semana a seguir. E na outra. E também na semana depois dessa. Sempre de forma religiosa, invariavelmente a meio da semana.

O dia podia variar, mas a sua comparência não falhava. Com o passar do tempo, acabei por me habituar àquela lealdade inquebrável.

Sempre que a dona Natália se imobilizava frente àquele mármore claro, eu sentia a mudança brusca no ambiente. O lugar reagia à presença dela de uma forma prodigiosa que eu nunca antes presenciara em todos os meus anos de profissão.

Esforcei-me por encontrar explicações mundanas para as minhas perceções. No entanto, a sensação ganhava força, claridade e nitidez.

Parecia que a vinda dela despertava uma força que ficava ali numa quietude obediente durante a semana inteira, à espera. E que, mal avistava a sua silhueta ao longe, ganhava contornos mais fortes.

A nossa interação resumiu-se, ao longo dos anos, a cumprimentos silenciosos de enorme respeito, sempre que os nossos caminhos se cruzavam.

Não vos consigo precisar o tempo exato, mas, a dada altura, a assiduidade daquelas visitas começou a sofrer quebras notórias. O intervalo de tempo foi-se alargando, semana após semana.

E sempre que ela ressurgia, após uma ausência mais longa, o seu declínio físico era evidente. O andar estava mais trôpego, o corpo mais cansado, denunciando que cada deslocação lhe exigia um sacrifício supremo.

Mas, mesmo perante a debilidade da idade, a senhora Natália nunca falhou o seu compromisso de amor.

Até que ocorreu a manhã fatídica que me marcaria para sempre. Não tive a menor suspeita de que seria a última vez que a veria com vida.

Levantei o olhar do meu trabalho e vi-a aproximar-se. Já não caminhava. Encontrava-se sentada numa cadeira de rodas, sendo empurrada com extrema delicadeza por uma mulher que assumi ser a sua filha.

A filha posicionou a cadeira de forma a que a mãe ficasse de frente para a morada do marido. Apesar de fisicamente aprisionada, a postura da dona Natália mantinha-se majestosa e altiva.

Nesse dia, a vibração em redor da sepultura atingiu uma intensidade avassaladora, diferente de tudo o que eu já sentira. Era como se aquele pedaço de terra soubesse com toda a certeza que aquele encontro era a derradeira despedida terrena.

Quando a filha rodou a cadeira para regressarem, e passaram pelo canteiro onde eu me encontrava a trabalhar, a senhora Natália virou lentamente o rosto e fitou-me.

Fixou o olhar em mim durante alguns segundos e, de forma bela e inesperada, os seus lábios rasgaram-se num sorriso pleno.

Era o sorriso de quem acaba de vislumbrar o porto seguro após uma longa travessia. A expressão iluminada de quem, finalmente, encontrou a paz absoluta.

Senti uma leveza arrebatadora atravessar-me o corpo. Sem recorrer a uma única palavra, algo de imensurável foi transmitido naquele contacto visual.

As semanas seguintes foram de uma ausência dolorosa. A cadeira de rodas nunca mais percorreu os caminhos do campo santo. O silêncio apoderou-se novamente do setor C.

Até que a manhã de catorze de fevereiro de dois mil e um despontou. O Dia dos Namorados. O dia de celebrar a essência do amor.

Ao chegar ao serviço, consultei o papel com as ordens do dia. Li o nome impresso a tinta preta: Natália Alves Cunha, setenta e dois anos de idade. Setor C.

O ar faltou-me. Fiquei longos minutos a encarar o papel, processando a realidade que eu já adivinhava nas entranhas. O número do jazigo era o mesmo. Era ela.

Guardei o documento no bolso e agarrei nas minhas ferramentas. Preparei o último leito da dona Natália com uma devoção que nunca tinha dedicado a nenhuma outra sepultura em toda a minha vida. Era o meu tributo a uma dedicação que não se extinguira.

Quando o caixão desceu e a família concluiu as suas rezas sob um céu espesso e cinzento, fiquei sozinho para finalizar o sepultamento. O silêncio do cemitério tornou-se de súbito denso, palpável e elétrico.

A sensação não me provocou pavor; provocou-me uma enorme reverência. Trabalhei de forma ritmada, até assentar a última porção de terra húmida.

E foi aí, no silêncio daquela tarde fria de fevereiro, que senti a presença não num, mas em dois sopros muito perto de mim. Parei os meus movimentos e virei-me com lentidão.

Ela estava lá. A dona Natália.

Apresentava-se de pé, liberta de qualquer doença ou cadeira de rodas, e ostentava no rosto exatamente aquele mesmo sorriso de redenção e paz que me oferecera na sua última tarde em vida.

Eu fiquei estático, incapaz de articular qualquer som. E logo atrás do seu ombro, ligeiramente recuado, encontrava-se a figura de um homem que eu nunca tinha visto no mundo material.

Mas a minha alma reconheceu-o instantaneamente. Era o senhor Dinis. Era a energia guardiã que tinha permanecido amarrada àquele talhão desde mil novecentos e noventa e nove. A alma paciente que não quisera partir sozinha e que ali ficara, pacientemente a aguardar o momento da reunião.

A pá de ferro escorregou-me das mãos dormentes. Deixei-me cair vagarosamente na borda da laje de mármore mais próxima, tentando absorver o milagre incompreensível que os meus olhos testemunhavam.

Não tentei encontrar justificações céticas, nem desculpas da razão. Apenas levantei-me, muito tempo depois, recolhi o meu material e deixei-os na sua merecida paz eterna.

Hoje, aos setenta e dois anos, já retirado deste ofício, partilho esta memória com a certeza de que a vida e a morte guardam mistérios muito maiores do que a nossa vaidade científica.

O que presenciei naquele Dia dos Namorados ensinou-me a maior de todas as verdades. Ensinou-me que o amor genuíno não termina quando o coração deixa de bater.

Ensinou-me que há despedidas que levam tempo a concretizar-se. E que, muitas vezes, aqueles que partem antes de nós permanecem por perto, no seu próprio tempo, apenas a aguardar a hora certa de nos voltarem a abraçar. Se também acreditam nisto, guardem esta certeza nos vossos corações.