Renata chegou em casa às 18h45 de uma segunda-feira de outubro de 2019, com o cheiro do seu plantão ainda nas roupas. Ela entrou pela porta dos fundos, tirou os sapatos na soleira e encontrou Fábio na cozinha, mexendo uma panela de mingau de aveia. Bela estava sentada à mesa com seu uniforme impecável, a mochila aos pés e as tranças já feitas, comendo um biscoito enquanto esperava.
Ela olhou para cima e disse: “Oi, mãe.”
Sua voz ainda estava rouca de sono. Fábio se virou, sorriu e disse: “O mingau já está quase pronto.”
Era uma cena que, se fotografada, teria rendido 300 curtidas e comentários sobre um marido exemplar e uma família abençoada. Fábio sabia disso, não da maneira calculista de quem planeja cada gesto, mas da maneira instintiva de quem aprendeu cedo que a imagem pública de um homem é um patrimônio que deve ser administrado com cuidado.
Eles se conheceram em uma festa de São João em Caruaru, no verão de 2007. Ela tinha 18 anos, ele 21. Dançaram três forrós seguidos antes de trocarem os nomes. Casaram-se quatro anos depois, em uma cerimônia simples na Igreja Batista do bairro Salgado, com um bolo de três andares e um DJ que tocou Roberto Carlos no final porque a mãe de Renata havia pedido.
Bela nasceu dois anos depois, numa manhã de fevereiro em que Caruaru acordou com uma chuva fina. Desde o nascimento da filha, Fábio assumiu natural e visivelmente o papel de um pai presente. Ele levava Bela à escola municipal Deputado Artur Lima todas as manhãs. Ia buscá-la na hora da saída e ficava com ela à tarde, enquanto Renata trabalhava em turnos alternados na UPA central, incluindo o turno da noite.
A divisão parecia lógica para quem via de fora, e a maioria das pessoas realmente só via de fora. Nas redes sociais, o perfil de Fábio era um arquivo quase obsessivo da filha. Bela no Parque da Saudade, Bela tomando sorvete na Praça Coronel João Pessoa. Bela de vestido de chita na festa junina da escola. As legendas variavam nas palavras, mas eram consistentes no tom:
“Minha princesinha, a razão da minha vida.”
“Ela é a princesa do papai.”
Os comentários eram unânimes. Que pai dedicado, que família linda. Deus abençoe. Dona Neusa, uma vizinha do outro lado da rua há mais de 20 anos, tratava Fábio com o carinho de quem adotou alguém sem preencher nenhum formulário.
A costureira aposentada de 62 anos havia formado sua opinião sobre cada morador da rua com a convicção de quem julga uma vez e não volta atrás. A decisão em relação a Fábio era definitiva. Aquele homem amava aquela menina com a devoção de um santo. Ela guardou a data da festa junina da escola como prova.
A quadrilha foi formada no pátio pavimentado, e o professor de educação física convidou os pais para participarem. Fábio foi o único a se levantar da cadeira e entrar na roda. Ele dançou do começo ao fim com Bela pela mão, errou os passos nas partes mais complicadas, riu quando se atrapalhou e, no final, ergueu a filha nos braços enquanto os outros pais aplaudiam.
Dona Neusa estava na segunda fileira. Ela então disse ao marido que aquilo era uma prova do caráter dele. Renata estava na terceira fileira naquele dia, chegando atrasada do seu turno da tarde, ainda com o crachá da UPA no bolso. Ela viu Fábio e Bela dançando e sentiu o que costumava sentir com frequência naquele período. Uma mistura de gratidão e algo que não tinha um nome exato.
A sensação de estar sempre chegando quando o melhor já aconteceu. Em setembro, ela havia sugerido levar Bela ao cinema no fim de semana. Fábio respondeu sem alterar a voz: “Já prometi uma coisa diferente para este sábado.”
O que ele não explicou? Renata não perguntou. A guerra não valia a exaustão após um plantão de 12 horas.
E Fábio tinha um jeito de apresentar esses impasses com uma leveza que fazia qualquer insistência parecer um exagero. Bela saiu com o pai. Renata ficou em casa e dormiu até o meio da tarde. Não era a primeira vez. Era apenas mais um episódio em uma sequência que Renata não havia pensado em relatar, porque cada acontecimento isolado se encaixava em uma explicação razoável, e explicações razoáveis são o tipo de coisa em que você acredita quando quer acreditar.
Em novembro, a professora Conceição Barros recolheu os cadernos da turma para corrigir as tarefas de artes da semana. Ela se sentou à mesa na sala dos professores depois que os alunos foram embora e começou a analisá-los um por um. Quando abriu o caderno de Isabela Melo, ela parou.
Ela ficou olhando para a página por mais tempo do que havia olhado para qualquer outra coisa naquele dia. Fechou o caderno devagar, colocou-o no topo da pilha dos outros e não conseguiu parar de pensar naquele desenho durante toda a viagem de ônibus para casa. A professora Conceição não contou a ninguém sobre o desenho em novembro. Ela colocou o caderno na bolsa, ficou olhando para aquela página na mesa da cozinha depois que o marido adormeceu e, no dia seguinte, devolveu o caderno com um bilhete de incentivo colado na capa, como fazia com todos os seus alunos.
Ela disse a si mesma que observaria mais antes de dizer qualquer coisa. “Observar” era uma palavra que englobava muitas intenções, incluindo aquelas que não levam a lugar nenhum. Fevereiro de 2020 chegou com o calor seco do sertão, e Bela voltou para a sala de aula uma pessoa diferente. Não era uma diferença que pudesse ser identificada com precisão.
Era uma soma de pequenas ausências. A maneira como ela entrava sem olhar para os lados, como se debruçava sobre o caderno antes mesmo de a professora pedir silêncio. Como ela não estava competindo por nada, não pedia para ir ao banheiro e não levantava a mão. Foi a questão do banheiro que Conceição começou a documentar.
Bela só ia quando acompanhada. Se Conceição esquecesse e dissesse: “Pode ir.”
Bela ficava parada na porta, esperando até que alguém percebesse. Numa quinta-feira de manhã, Conceição foi com ela até a entrada do banheiro feminino e disse que esperaria do lado de fora. Bela entrou e saiu em menos de um minuto sem usar nada.
Em casa, Renata havia notado que a filha tinha voltado a fazer xixi na cama. Ela perguntou com cuidado, sem exageros. Bela abaixou a cabeça. Fábio, parado na porta do quarto, disse: “É só uma coisa de menina crescendo. O pediatra falou sobre ansiedade escolar.”
Renata marcou uma consulta.
O médico disse que não era incomum e que eles poderiam fazer exames se acontecesse de novo. Renata comprou um protetor de colchão, que não viu sendo usado porque não estava em casa. Bela havia parado de tomar banho com a porta fechada. Quando o vento empurrou a porta e ela bateu contra o batente, Bela gritou lá de dentro com um terror que não combinava com o barulho de uma porta.
Fábio explicou que a menina estava passando por uma fase sensível. Ninguém perguntou duas vezes. Na terceira semana de fevereiro, Conceição levou o caderno de artes para a coordenadora, Edilene, que administrava os problemas da escola com a eficiência de quem trata os sintomas sem diagnosticar as causas.
Edilene folheou as páginas, fechou o caderno e disse que elas observariam mais antes de tomar qualquer atitude precipitada, pois as crianças às vezes expressavam em seus desenhos coisas que não tinham correspondência com a realidade. Conceição saiu com o caderno na mão e a sensação de ter batido em um muro que se recusava a ser um muro.
Em março, a pandemia chegou. As escolas fecharam numa sexta-feira e não reabriram por mais de um ano. Bela ficou em casa em tempo integral com Fábio porque Renata era profissional de saúde e os plantões na unidade central de pronto atendimento dobraram durante a crise. Houve semanas em que ela ficava fora de casa por 48 horas, dormindo em um quarto cedido por uma colega que morava perto da unidade.
Os vizinhos notaram que Bela havia desaparecido da janela e da calçada. Antes da pandemia, ela às vezes aparecia na porta com um livro de colorir. Costumava ouvir Dona Neusa falando sobre as novidades do dia. Depois que as escolas fecharam, ela sumiu. Dona Neusa comentou com a filha que Fábio não deixava a criança nem tomar um pouco de ar fresco.
A filha respondeu que era uma pandemia e que aquilo era a coisa certa a se fazer. Em setembro, a professora Conceição enviou uma mensagem para o grupo de WhatsApp da turma, perguntando como as crianças estavam lidando com as aulas remotas. Renata respondeu que Bela estava bem. Era nisso que ela acreditava, porque era isso que Fábio dizia quando ela perguntava. Naquela mesma tarde, Renata pegou o tablet da filha para verificar suas atividades e abriu a plataforma de aprendizado.
A tela exibiu o histórico de acessos. Bela não havia feito login nem uma única vez nos últimos três meses. Ela levou o tablet para Fábio, que estava na sala assistindo ao noticiário. Ele olhou para a tela, devolveu o aparelho e disse num tom que sugeria estar encerrando a conversa: “Eu estava ensinando do meu jeito, que é mais eficiente do que assistir a uma videoaula de 20 minutos.”
Renata colocou o tablet na mesa e ficou parada no meio da sala por um momento. Fábio voltou sua atenção para a televisão. Ela foi para a cozinha, abriu a geladeira sem motivo aparente e a fechou. Ficou olhando para o azulejo branco acima da pia. Havia algo que ela não conseguia nomear, pequeno, ainda sem forma, mas que naquela tarde havia começado a se mover dentro dela, com uma persistência que as explicações de seu marido, desta vez, não conseguiram deter.
Em março de 2021, as escolas reabriram com protocolos de distanciamento social, álcool em gel nas entradas e carteiras separadas por divisórias de acrílico que ninguém sabia exatamente como limpar direito. Bela voltou às aulas presenciais aos 10 anos, agora no quinto ano, e a professora Conceição a encontrou no corredor no primeiro dia de aula.
Ela ficou olhando para ela. Bela estava mais magra. Caminhava com os ombros curvados para dentro, como se tentasse reduzir o próprio tamanho no espaço. Ela não levantou os olhos quando Conceição disse seu nome. Apenas deu um leve sorriso e disse: “Oi, tia.”
E continuou andando. Conceição ficou parada no corredor com sua pasta na mão até a garota virar a esquina.
A nova professora de Bela chamava-se Joelma, tinha pouco mais de 30 anos e estava em seu terceiro ano de ensino no município. Ela logo percebeu que Isabela Melo era uma aluna que não causava problemas, o que, em um sistema sobrecarregado, quase sempre era considerado uma virtude. Mas durante as atividades de escrita livre, Bela entregava folhas com duas ou três linhas e depois parava.
Quando Joelma se aproximava para perguntar se estava tudo bem, Bela dizia que sim, com uma objetividade mecânica que não combinava com nenhuma criança de 10 anos. Em abril, Bela passou mal no meio da aula. Dores abdominais fortes, vômito. A secretaria ligou para Renata, que estava de plantão. Fábio chegou primeiro.
Ele ficou sozinho com Bela na sala da diretora por quase 20 minutos, enquanto Renata se deslocava do pronto-socorro até a escola de táxi. Quando Renata chegou, a filha estava sentada numa cadeira com os olhos cravados no chão, as mãos no colo, quieta demais para uma criança que havia vomitado 40 minutos antes. “Já acabou, mãe?”
A voz saiu plana, sem inflexão.
O médico do pronto-socorro, sobrecarregado pela demanda acumulada deixada pela pandemia, observou o estresse e a ansiedade da paciente em relação à escola, prescreveu soro de reidratação e disse que, se os sintomas se repetissem, eles pediriam exames. No domingo seguinte, Renata sentou-se ao lado de Bela no sofá enquanto Fábio estava no quintal.
Ela falou baixinho, com cuidado, como se estivesse segurando algo frágil: “Você pode me contar qualquer coisa, sabia? Qualquer coisa mesmo, não há segredos para a mamãe.”
Bela virou o rosto para ela. Por um segundo, um segundo que Renata levaria muito tempo para entender. Os olhos da filha tinham uma expressão que não era a de uma criança.
Então Bela disse: “Eu sei, mãe.”
E abaixou a cabeça para o caderno de desenho que estava em seu colo. Fábio entrou pela porta do quintal naquele momento, sacudindo a terra das mãos, perguntando se alguém queria suco. Renata disse que não. Ela ficou olhando para a nuca da filha, debruçada sobre o caderno.
Fábio abriu a geladeira, assobiando um velho forró de Luiz Gonzaga, como fazia todos os domingos à tarde. Desde que Renata conseguia se lembrar. Tudo parecia normal. Esse era o problema. Tudo sempre parecia normal. E Renata havia aprendido ao longo dos anos que a aparência de normalidade num lar é o argumento mais difícil de refutar, porque refutá-lo exige dar nome àquilo que ainda não tem nome.
Ela pensou: “Estou cansada demais. Estou vendo coisas onde não existem.”
E foi dormir porque tinha um plantão noturno. O capítulo poderia ter terminado ali mesmo com essa frase, se a vida seguisse a lógica das frases que encerram um assunto. Mas, numa terça-feira de abril, Renata chegou em casa às 23h, após um plantão que havia começado às 11h.
Ela tirou os sapatos na soleira, colocou a bolsa na cadeira da cozinha e foi ao quarto de Bela para dar o beijo de boa noite que sempre dava, independentemente do horário. A porta estava entreaberta, ela a empurrou devagar. Bela estava acordada no escuro, deitada de costas, com os olhos abertos, encarando o teto com a concentração de quem espera que algo apareça ou que algo passe.
Renata entrou e sentou-se na beirada da cama. “Sem sono?”
Bela levou um segundo antes de responder. Quando respondeu, sua voz saiu baixa e uniforme, sem drama, como quem constata um fato: “Estou esperando o dia amanhecer, mãe.”
Renata ficou, passando a mão devagar pelos cabelos da filha, sem dizer nada, até que a respiração de Bela ficasse mais lenta e seus olhos se fechassem.
Só então ela se levantou, apagou a luz, fechou a porta com cuidado, foi para o seu próprio quarto e deitou-se ao lado de Fábio, que roncava baixinho com a serenidade de quem não deve nada ao mundo. Ela ficou olhando para o teto na escuridão, a frase da filha se repetindo incessantemente dentro dela: “Estou esperando o dia amanhecer.”
Ela dormiu pouco. Na manhã seguinte, Fábio saiu às 8h para uma reunião de vendas em Bezerros. Ele esqueceu o celular na mesa da cozinha. Era uma manhã de quarta-feira e a casa estava silenciosa. Renata estava de folga. Bela havia saído para a escola às 7h30. Fábio saiu às 8h para uma reunião com um cliente em Bezerros, cidade a 40 minutos de Caruaru, pela BR-232, com a pressa de quem já está atrasado, pegando as chaves do carro na fruteira, a xícara de café no balcão, a pasta em cima da geladeira e o celular esquecido na mesa da cozinha.
Ela só percebeu depois que o carro foi embora. Às 9h10, chegou uma mensagem no WhatsApp de Renata. “Amor, esqueci meu celular. Abre ele para mim. A senha é a mesma de sempre. E me manda o número que está salvo como distribuidor rural. Preciso ligar daqui com urgência.”
Era um pedido banal, do tipo que acontece toda semana em qualquer casa.
Renata foi até a cozinha, pegou o celular que estava na mesa ao lado da cafeteira, digitou a senha de quatro dígitos, o ano de nascimento de Bela, e abriu os contatos. O nome estava lá. Ela abriu o WhatsApp para copiar o número com mais facilidade e então viu no topo da lista de conversas não arquivadas e não apagadas, uma conversa com um número que não tinha nome salvo.
A miniatura da última mensagem era um vídeo. A data era de cinco dias atrás. Ela não deveria ter aberto. Ela abriu. O que este relato descreve a seguir não é o que o vídeo mostrava. O que o vídeo mostrava não será descrito aqui, nem em nenhum outro lugar desta história. O que este relato descreve é o rosto de Renata, como ela parou de respirar, como ela colocou o celular na mesa com um cuidado lento e preciso que não tinha nenhuma razão prática, como se estivesse pousando algo que não pudesse ser derrubado.
Ela ficou ali, no meio da cozinha, por um tempo que não conseguiria quantificar depois. Podem ter sido dois minutos, podem ter sido dez. O relógio na parede continuava batendo, mas ela já não tinha mais acesso a ele. Ao olhar pela janela para a rua lá fora, onde Dona Neusa varria a calçada, como fazia todas as manhãs desde que Renata havia se mudado para aquele bairro, o movimento regular da vassoura de palha no cimento a fez pensar em algo muito específico. Ela não sabe, ninguém sabe. Só eu sei.
O vídeo havia sido gravado por Fábio. A criança no vídeo era Bela. Renata foi ao banheiro, ajoelhou-se na frente do vaso sanitário por um tempo, depois se levantou, abriu a torneira, lavou o rosto com as duas mãos e olhou para o próprio rosto no espelho. Era um rosto que ela conhecia há 34 anos e, naquele momento, parecia pertencer a outra linha do tempo, como se tivesse envelhecido por dentro de um jeito que o espelho ainda não conseguia mostrar totalmente.
Ela pegou seu celular e ligou para Graça. Enquanto o telefone tocava, Renata ficou no corredor entre o banheiro e a cozinha, olhando para a mesa onde o celular de Fábio ainda estava. Uma parte do seu cérebro, a parte que havia construído 14 anos da sua vida em torno daquele homem, que havia dormido ao lado dele na noite anterior, que havia lavado a camisa que ele estava vestindo naquele momento, sugeriu, numa voz muito baixa, que havia outras possibilidades, outras explicações que ela poderia ter interpretado mal, que ela poderia fechar os olhos e que quando os abrisse o mundo voltaria a ser o que era naquela manhã quando ela acordou.
Graça não atendeu a primeira ligação. Renata olhou para o celular de Fábio na mesa. Ela tomou uma decisão, pegou seu próprio celular, abriu a câmera e começou a filmar a tela do celular do marido.
Ela filmou o vídeo, filmou a conversa, filmou o número sem nome, filmou a data. Quando terminou, colocou o celular de Fábio de volta na mesa, na mesma posição em que o havia encontrado ao lado da cafeteira. Com a tela voltada para cima, ela enviou ao marido o contato do distribuidor do Agreste pelo WhatsApp, como se nada tivesse acontecido.
Três minutos depois, Fábio respondeu: “Obrigado, amor. Beijos.”
Renata encarou a mensagem por alguns segundos e, em seguida, guardou o celular no bolso do moletom. Graça retornou a ligação às 9h22. Renata atendeu. Ela ficou em silêncio por um momento, com a mão espalmada no balcão da cozinha, os olhos fixos na janela.
Dona Neusa já havia saído e a rua estava vazia. Quando falou, ela falou baixinho, com a voz controlada da maneira como alguém se controla quando o controle é a única coisa que ainda não se perdeu: “Graça. Você precisa vir aqui agora. Não me pergunte nada pelo telefone. Venha.”
Renata e Graça chegaram à delegacia especializada da mulher em Caruaru naquela mesma tarde, pouco depois da uma hora.
Graça dirigiu porque Renata não confiava nas próprias mãos ao volante. Elas quase não se falaram durante o trajeto. Renata havia mostrado a gravação à irmã em casa e, depois disso, as palavras haviam perdido o sentido por um tempo. A delegada Patrícia Holanda as recebeu pessoalmente. Era uma mulher de cerca de 45 anos, com cabelos curtos, e ela não se abalava facilmente, não importava o que estivesse ouvindo.
Renata abriu o celular e mostrou as gravações que havia feito da tela do telefone do marido. A delegada assistiu ao vídeo uma vez, pausou, assistiu novamente e fez perguntas objetivas sobre horários, rotinas, nome completo de Fábio, endereço, modelo do carro e placa. Ela anotou tudo à mão em um caderno espiral.
Ela disse que havia material suficiente para iniciar o procedimento. Mais tarde naquela tarde, o CREAS, Centro de Referência Especializado de Assistência Social, foi acionado para acolher Bela. Um mandado de busca e apreensão foi expedido pelo juiz de plantão. Antes que Fábio voltasse de Bezerros, Renata buscou a filha na escola, acompanhada por uma assistente social.
Bela saiu, agarrada à mochila com as duas mãos, olhando para a mãe com uma expressão que não era nem de susto nem de alívio. Era como alguém esperando que alguém dissesse em voz alta algo que ela já sabia. Ela não perguntou onde o pai estava durante o trajeto. Fábio foi preso às 17h40 quando seu carro virou a esquina da Rua das Acácias e ele viu dois policiais à paisana parados em frente ao portão.
Dona Neusa estava parada na calçada com uma vassoura de palha na mão. Ela permaneceu imóvel, não entrou em casa, ficou de pé na calçada até a viatura desaparecer no fim da rua, e então ficou mais um pouco. Bela foi para a casa da avó materna do outro lado da cidade, num bairro de ruas estreitas e jabuticabeiras no quintal.
A avó não perguntou nada na primeira noite. Ela esquentou um pouco de sopa, colocou na frente da neta, sentou-se do outro lado da mesa e ficou ali. Na semana seguinte, o processo de escuta especializada começou com a Dra. Silvana Guimarães, psicóloga forense convocada pelo CREAS.
O chamado depoimento especial foi conduzido numa sala adaptada. Cadeiras pequenas, iluminação indireta, um canto com brinquedos que ninguém era forçado a usar, e gravado em vídeo de acordo com o protocolo da lei 13.431, que existe para que a criança não tenha que repetir o que viveu para cada profissional que cruzar o processo.
Renata esperou do lado de fora. Ela não podia entrar, não podia ouvir, não podia segurar a mão de Bela naquele momento específico. Sentou-se num banco do corredor com as mãos no colo e os olhos fixos na porta fechada. O corredor cheirava a chão recém-lavado e ar-condicionado velho. Uma funcionária passou duas vezes com uma pilha de pastas.
O relógio na parede marcou 53 minutos. Quando a Dra. Silvana abriu a porta e caminhou em sua direção, Renata se levantou. As duas ficaram no corredor. A psicóloga simplesmente disse: “Ela está bem. Ela falou.”
Renata fechou os olhos por alguns segundos, depois os abriu e perguntou se poderia ver a filha. Bela falou. Não tudo de uma vez, não em ordem, não com o vocabulário que os adultos usam para descrever essas coisas, porque as crianças não têm esse vocabulário, e ainda bem que não têm.
Ela falou com as palavras que tinha, que eram as palavras de uma menina de 10 anos, tentando descrever o que havia sido feito com ela por um homem que a levava para tomar sorvete na praça todo domingo. O exame de corpo de delito, conduzido com um protocolo específico para abuso sexual infantil, produziu um laudo condizente com os relatos. A perícia digital no celular de Fábio, realizada pelo Instituto de Criminalística de Pernambuco, encontrou arquivos com metadados distribuídos por três anos consecutivos.
A comunidade reagiu como costuma reagir. Membros da Igreja Batista organizaram uma corrente de oração pela família. Um primo de Fábio disse em voz alta num bar que uma mulher ciumenta inventaria qualquer coisa. Uma vizinha ligou para Dona Neusa para comentar sobre o assunto. O assunto se encerrou, e Dona Neusa desligou o telefone no meio da frase.
Pelos três dias seguintes, ela não abriu a janela da frente. Naquela noite, após o depoimento especial, já na casa da avó, Bela pediu para dormir abraçada com a mãe. Renata deitou-se ao lado dela na cama de solteiro, ambas de lado, a cabeça de Bela no ombro de Renata. O quarto estava escuro e do quintal vinha o som de um grilo.
Elas ficaram assim por um tempo sem falar. Então Bela disse sem introdução, numa voz baixa e uniforme: “Mãe, ele disse que era um segredo entre quem se ama. Qual princesa guarda segredos do papai?”
Renata não respondeu imediatamente. Ela apertou a mão da filha com mais força, esperando que a frase fosse absorvida.
Então ela disse lentamente, com a voz usada quando as palavras precisam permanecer: “Você não tem mais nenhum segredo para guardar, nunca mais na sua vida.”
O processo judicial durou 14 meses. Fábio Melo foi indiciado por estupro de vulnerável com a agravante de autoridade paterna, de acordo com o artigo 217-A do Código Penal.
Seu advogado argumentou que as gravações haviam sido manipuladas, que Renata estava motivada por uma disputa de guarda. O argumento não sobreviveu ao primeiro dia de audiência. Nunca havia existido um pedido de separação antes daquela manhã de quarta-feira de abril. A perícia digital do Instituto de Criminalística de Pernambuco concluiu os argumentos restantes.
Os metadados dos arquivos no celular de Fábio indicavam datas distribuídas ao longo de 3 anos com registros técnicos que não permitiam adulteração sem deixar rastros. A sentença foi proferida pela Segunda Vara Criminal de Caruaru numa manhã de março. Em 2022, foi proferida uma pena de 22 anos e 4 meses de reclusão em regime fechado.
Renata estava no tribunal quando o juiz leu a sentença. Ela não chorou. Graça estava sentada ao lado dela e cobriu a mão da irmã com a sua. Renata não moveu a mão. Elas permaneceram assim até que o escrivão começou a recolher os documentos. No corredor, um repórter se aproximou com um gravador.
Renata disse que não iria dar declarações e caminhou em direção à saída. Ela foi ao banheiro antes de sair. Ficou parada em frente ao espelho com as mãos na borda da pia, olhando para o próprio rosto com a atenção de quem verifica se tudo ainda está no lugar. Em seguida, secou as mãos e saiu. Bela não havia ido ao tribunal. A Dra. Silvana havia recomendado claramente que não fosse. Mas Renata carregava no bolso interno de sua jaqueta uma foto da filha dobrada em quatro, tirada no seu aniversário de 10 anos num almoço na casa da avó, com bolo de chocolate e bandeirinhas de papel crepom. A foto permaneceu ali durante toda a audiência. Os meses seguintes foram feitos de pequenas e lentas coisas.
As sessões semanais de Bela no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) infantil de Caruaru. Os silêncios iniciais que gradualmente se transformavam em frases. O dia em que a Dra. Silvana mencionou, quase de passagem, que Bela havia perguntado se poderia voltar a desenhar. Renata disse que sim, que ela sempre poderia. O retorno gradual à escola numa nova turma com uma professora chamada Andresa, que não sabia de nada e tratou Isabela Melo como qualquer outra aluna.
Ela exigia o dever de casa, reclamava quando a menina não copiava do quadro a tempo. Renata descobriu através do diário e encarou o bilhete por mais tempo do que a situação exigia. Ela solicitou uma transferência para o plantão da UPA. Foi concedida em julho. Em agosto, ela deixou o apartamento na Rua das Acácias e alugou um menor em outro bairro, onde ninguém conhecia o sobrenome Melo daquele jeito que a vizinhança conhecia.
Bela escolheu a cor das cortinas do seu quarto, amarelo com estampa de folhas, numa loja de tecidos no centro da cidade. Três meses após a mudança, Dona Neusa apareceu na porta da nova casa com uma marmita coberta com um pano. Um jogo de xadrez e um bilhete escrito em papel quadriculado. Renata leu sem alterar a expressão.
“Eu deveria ter percebido. Me perdoe.”
Simples na mão. Então ela se afastou da porta e fez um gesto para que Dona Neusa entrasse. Numa tarde de setembro, Bela estava na mesa da cozinha fazendo a lição de casa. Renata estava no fogão. A televisão na sala estava ligada num volume baixo, apenas o suficiente para existir sem incomodar.
Pelas janelas entrava a luz do final de tarde de Caruaru, a luz batendo nas paredes caiadas e deixando tudo cor de mel por cerca de 20 minutos antes de escurecer. Bela levantou a cabeça do caderno e perguntou com a voz objetiva de quem pesquisa em um dicionário: “Mãe, o que significa princesa?”
Renata parou, colocou a colher na borda da panela, virou-se para a filha e fez uma pausa antes de responder. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque havia aprendido naqueles meses que certas respostas precisam ser ditas lentamente para que durem.
“É uma palavra”, disse ela. “Apenas uma palavra.”
Bela considerou isso por um segundo, anotou algo em seu caderno e abaixou a cabeça novamente. Renata voltou para o fogão. Lá fora, Caruaru continuava. O forró distante de algum bar de esquina, o cheiro de carne assada vindo do churrasco do vizinho, o barulho constante de uma cidade que nunca para e que não questiona o peso de cada janela acesa.