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MARIDO EX*CUTA A ESPOSA INFIEL EM CAMPINAS — DESCOBRIU QUE O AMANTE PAGAVA O ALUGUEL DA PRÓPRIA CASA

Eu tinha uma conta que não fechava; não era uma conta bancária, não era uma dívida declarada, era uma daquelas contas invisíveis que criamos sem querer quando algo dentro da nossa cabeça começa a somar 2 + 2 e chega a um resultado que não queremos aceitar. Vanderlei Campos tinha 48 anos. Ele trabalhava como caminhoneiro havia 23 anos.

Ele passava dias longe de casa, às vezes três, às vezes cinco. Uma vez, passou 11 dias em uma rota entre Campinas e Porto Alegre. Quando voltava, a casa estava limpa, o jantar na mesa, e sua esposa tinha aquele sorriso de quem estava esperando. Pelo menos era o que ele pensava, porque ele tinha uma conta que não batia. O aluguel da casa onde moravam, uma casa de dois quartos na vila industrial de Campinas, com um pequeno quintal e uma cerca preta na frente, custava R$ 800 por mês.

Vanderlei depositava R$ 200 na conta da esposa todo dia primeiro. Sempre em dia, nunca atrasou um pagamento. Sueli dizia que complementava os R$ 600 restantes com o que ganhava como caixa no supermercado. Vanderlei nunca questionou, até o dia em que descobriu que Sueli havia pedido demissão do supermercado 8 meses antes e que o aluguel continuava sendo pago em dia por outra pessoa.

A vila industrial é um bairro que Campinas construiu com as próprias mãos, ruas largas, casas espremidas, comércios de bairro que sobrevivem há décadas, o açougue do Seu Ademir, a farmácia da esquina, o bar do Toninho que abre às 6 da manhã para quem chega do turno da noite. É o tipo de bairro onde as pessoas se conhecem pelo nome, onde sua vizinha sabe quando você chegou tarde e não faz questão de esconder que sabe.

Vanderlei Campos nasceu em Franca, no interior de São Paulo, mas morava em Campinas havia 16 anos. Ele veio em busca de trabalho, mas ficou porque conheceu Sueli. Vanderlei tinha 1,78 m de altura, com o porte de quem vive em uma cabine de caminhão, ombros largos, uma barriga que cresceu com a idade, mãos grandes com dedos grossos, cabelo curto, sempre com o mesmo corte à máquina, máquina dois nas laterais, e um bigode fino que ele aparava todo domingo.

Aquele tipo de rosto que envelhece bem, não fica bonito, mas fica sólido, confiável. Ele não era um homem de muitas palavras, mas quando falava, as pessoas prestavam atenção. Sueli Campos tinha 44 anos, natural de Campinas, filha de uma família do bairro, a terceira de cinco irmãos, com cabelos castanhos que tingia de vermelho escuro desde os 30 anos, olhos claros, incomuns para a idade, de pele morena, com uma figura miúda, 1,62 m de altura, que ela vestia com aquele jeito prático de uma mulher que não tem tempo de se preocupar muito com a aparência, mas que, quando se arruma, faz a diferença.

“Eu trabalhava no supermercado Ribeirão, uma rede local com três lojas em Campinas, desde 2015. Eu era caixa no turno da manhã, das 6h às 14h, ganhando R$ 1.300 mais benefícios.”

Pelo menos, era isso que Vanderlei sabia. Eles tinham dois filhos: Rafael, 21 anos, que morava com a namorada em um apartamento no Jardim Proça. E Camila, 17, que ainda morava em casa no segundo ano do ensino médio, com aquele comportamento reservado de adolescente de observar tudo e quase não comentar nada.

A casa na vila industrial era alugada, sempre fora alugada. Eles nunca conseguiram economizar o suficiente para dar entrada em um financiamento. As rotas de caminhão pagavam bem em meses bons e mal em meses ruins. E os meses ruins eram mais numerosos que os bons quando a economia não ajudava.

Vanderlei não reclamava muito do aluguel; era a realidade que enfrentava. Ele pagava sua parte e seguia em frente. A primeira vez que a conta não bateu foi numa segunda-feira de março. Vanderlei tinha acabado de chegar de uma viagem de quatro dias. São Paulo, Ribeirão Preto, Uberlândia, volta por Campinas. Ele chegou em casa às 14h com aquela exaustão pesada de quem tinha dormido pouco em um posto de gasolina e comido mal em uma borracharia de beira de estrada.

Sueli não estava; ela tinha deixado um bilhete na geladeira.

“Fui ao mercado. Volto às 15h.”

Vanderlei foi tomar banho. Enquanto trocava de roupa, percebeu que a bateria do celular havia acabado. Ele foi pegar o carregador no quarto, o carregador que ficava sempre na mesa de cabeceira, e não encontrou. Procurou na gaveta, mas não estava lá.

Ele abriu a gaveta de Sueli para pegar o dela e o viu. Não era nada escandaloso, era um comprovante de pagamento, um comprovante impresso como os que os aplicativos de banco geram quando você faz uma transferência. Estava enfiado entre duas caixas de remédio e um pequeno caderno. O comprovante mostrava uma transferência recebida, não enviada, de um CPF que Vanderlei não reconheceu, no valor de R$ 600, no primeiro dia do mês anterior.

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Vanderlei ficou olhando para o papel por alguns segundos, dobrou-o novamente, colocou-o de volta no lugar, fechou a gaveta e sentou-se na beirada da cama por um longo tempo. Quando Sueli chegou por volta das 15h com as sacolas de compras, ele estava na sala assistindo televisão com aquela expressão que ela não conseguia decifrar, ou não queria decifrar.

“Você comeu alguma coisa?”

“Eu não estava com fome”

E ele não disse mais nada. Mas isso não foi tudo. Estava longe de ser tudo. Nos dias seguintes, Vanderlei ficou em Campinas. Ele teve uma semana de folga antes da próxima rota. Normalmente, ele usava essa semana para descansar, fazer manutenção no caminhão, ver o filho Rafael e tomar uma cerveja com os amigos do bairro.

Desta vez, ele ficou em casa observando, não de forma óbvia; ele era um homem discreto. Ficava no quintal mexendo em alguma coisa, um cano vazando, uma telha solta, mas com os ouvidos e os olhos fixos em Sueli. O que ele notou? O celular de Sueli estava sempre com a tela virada para baixo ou no bolso dela. Não que ela ativamente o escondesse; era mais sutil do que isso.

Era um hábito novo que ele não conseguia datar com exatidão, mas que claramente não era antigo. Ela saía algumas manhãs sem uma explicação clara. Dizia que ia à farmácia, à casa da irmã, ao salão. Voltava em um tempo razoável, sem nada de errado com sua aparência, mas com aquele leve excesso de normalidade, que é o oposto do que parece.

Quando alguém é normal demais, é porque está lidando com alguma coisa. Uma quarta-feira, quando ela saiu dizendo que ia à casa da irmã Marlene, Vanderlei esperou 10 minutos e ligou para Marlene. Marlene disse que não estava esperando Sueli, que elas não tinham combinado nada. Vanderlei desligou o telefone, ficou no quintal com o cano pingando e as mãos sem saber o que fazer.

A semana de folga acabou. Vanderlei partiu em uma rota de 5 dias, mas dessa vez ele levou seus pensamentos consigo. Dentro da cabine do caminhão, nas estradas entre Campinas e o sul do país, com o barulho do motor e a paisagem de asfalto e floresta passando pela janela, Vanderlei juntou as peças: a transferência de R$ 600 todo dia primeiro do mês, de um CPF desconhecido.

Sueli complementava o aluguel, ela dizia, com seu salário do supermercado. Mas quanto ela realmente ganhava no supermercado? Ele nunca tinha visto o holerite dela. Ele confiava nela, nunca precisou desconfiar dela. Durante uma parada obrigatória para descanso em um posto de gasolina em Curitiba, Vanderlei pegou o celular e procurou o número do supermercado Ribeirão, a filial onde…

Sueli trabalhava na Avenida John Boyd Dunlop. Ele ligou, pediu para falar com o departamento de recursos humanos e explicou que era marido de uma funcionária, Sueli Campos, e que precisava confirmar os horários dela para uma consulta médica. A atendente esperou um momento e disse:

“Sueli Campos.”

“Ela saiu da empresa, pediu demissão em junho do ano passado.”

Junho do ano passado. Oito meses atrás, Vanderlei agradeceu e desligou. Ele sentou-se no banco do passageiro da cabine. O caminhão estava estacionado, o motor desligado, a chuva batendo levemente no para-brisa, e ele olhou para o nada por um tempo, um tempo que depois ele não saberia dizer quanto foi.

Se ela não trabalhava no supermercado havia oito meses, de onde vinha o dinheiro que ela colocava no aluguel? De quem era o CPF no comprovante? E há quanto tempo isso durava?

Vanderlei voltou de Curitiba dois dias antes do previsto. Ele não avisou Sueli. Chegou a Campinas numa tarde de quinta-feira, deixou o caminhão no pátio da transportadora e pegou um Uber até a área industrial. Chegou em casa às 16h30.

A casa estava vazia. Camila estava na escola. Sueli não estava. Vanderlei entrou, deixou a mochila no quarto, foi até a cozinha para tomar um copo de água e abriu a gaveta da cozinha. Não era a gaveta onde Sueli guardava seus pertences pessoais. Essa ficava no quarto.

A gaveta da cozinha era onde os documentos da casa ficavam guardados: contratos, contas, recibos de condomínio, comprovantes de pagamento de água e luz. Vanderlei nunca tinha prestado muita atenção àquela gaveta. Sueli cuidava das finanças da casa, sempre cuidou. Ele mandava o dinheiro, ela administrava, era assim que funcionava. Mas agora ele olhou, pegou o contrato de aluguel — aquele documento amarelado de quando eles haviam alugado a casa, quatro anos antes. Ele leu com atenção.

O proprietário era uma imobiliária da cidade, uma comum. O fiador, a pessoa que assina, garantindo o contrato caso o inquilino não pague, era um nome que… Vanderlei não reconheceu de imediato. Ednaldo Pereira Braga. Ele olhou para o nome. Ednaldo Pereira Braga não era parente de Sueli, não era um amigo que ele conhecia, não era ninguém que lhe tivesse sido apresentado em nenhum momento nos quatro anos em que moraram lá.

Vanderlei pegou o celular, fotografou a página do contrato com o nome do fiador, e então pegou os recibos de pagamento do aluguel dos últimos meses. Estavam todos na gaveta, organizados por mês, no jeito metódico da Sueli, e lá estavam. Todo mês o aluguel era pago em dia. Todo mês uma parte saía da conta de Sueli.

E todo mês, R$ 600 vinham de uma transferência com o mesmo CPF do recibo que ele tinha visto na gaveta do quarto semanas antes. O CPF de Ednaldo Pereira Braga, o fiador da casa. O homem que ele nunca tinha conhecido estava pagando parte do aluguel da casa onde Vanderlei dormia. Todo mês, há sabe-se lá quanto tempo.

Vanderlei saiu da cozinha, foi para o quintal e sentou-se na cadeira de plástico branca debaixo da mangueira. O sol do fim de tarde batia de lado. Os vizinhos do muro da esquerda tinham galinhas que faziam barulho esporadicamente. O cachorro do número 15 latiu duas vezes e parou. Tudo normal, tudo igual como sempre.

Vanderlei ficou sentado olhando para o quintal que conhecia há quatro anos, que agora parecia um lugar diferente. Ele ficou lá até escurecer. Quando Camila chegou da escola às 18h20, encontrou o pai sentado no quintal escuro, sem ter acendido nenhuma luz.

“Pai, o senhor está em casa? Por que o senhor está no escuro?”

“Eu estava descansando. Deixa eu acender.”

Ele levantou, acendeu a luz da cozinha e perguntou se ela tinha jantado. Camila disse que não. Vanderlei esquentou o feijão que estava na geladeira, fritou o ovo e colocou o prato na mesa. Ambos comeram em silêncio. Sueli chegou às 21h com uma explicação sobre a casa da irmã, que havia sido longa demais para uma visita normal.

Vanderlei disse:

“Oi.”

E foi dormir. O nome Ednaldo Pereira Braga não saía da cabeça dele. Vanderlei passou os dois dias seguintes fazendo o que homens da sua geração fazem quando querem saber de alguém, mas não sabem por onde começar. Ele perguntou. Não para a Sueli, nunca para a Sueli. Ele perguntou para Valmir, o dono do bar da esquina, que conhecia todo mundo na vila industrial e nos bairros vizinhos.

“Você conhece alguém chamado Ednaldo Braga?”

Valmir coçou a cabeça. Disse que o nome era familiar, mas não sabia de onde. Ele perguntou a um amigo que trabalhava em um cartório. Pediu um favor. O amigo procurou o nome no banco de dados público e voltou com a informação. Ednaldo Pereira Braga, 47 anos, empresário, sócio de uma pequena distribuidora de bebidas no Jardim Aeroporto.

Empresário, distribuidora de bebidas, 47 anos. Vanderlei foi ao Jardim Aeroporto numa manhã de sábado. A distribuidora ficava em um pequeno galpão numa estrada de terra. Havia apenas uma placa simples na frente e um funcionário descarregando caixas. Vanderlei ficou no carro observando por alguns minutos. Então, um homem saiu do galpão alto, talvez com 1,80m de altura.

Mais, um homem encorpado, bem vestido para uma loja de bebidas. Calça social escura, camisa polo azul, cabelos grisalhos bem arrumados, rosto largo, bronzeado, um relógio no pulso que parecia caro de longe. Vanderlei não tinha certeza se era ele, mas algo em seu estômago lhe dizia que sim. Ele observou até o homem entrar em um carro, uma Hilux prata com placa de Campinas, e ir embora pela estrada de terra.

Vanderlei anotou a placa no celular e foi para casa. Mas isso não foi o pior. O pior veio na noite de segunda-feira seguinte, quando Vanderlei, fingindo estar dormindo, ouviu Sueli no banheiro às 23h, falando baixinho no celular. Ele não conseguia entender as palavras, mas conseguia entender o tom. Era aquele tom.

Qualquer pessoa que já suspeitou de alguém e escutou atentamente na escuridão do seu quarto sabe exatamente que tom é esse. Não é o tom de uma conversa com uma irmã, não é o tom de uma fofoca com uma amiga, é outro tom, mais suave, mais cuidadoso, com aquelas pausas que só existem quando a outra pessoa… O lado importa de um jeito específico.

Vanderlei ficou deitado lá, com os olhos abertos, olhando para o teto escuro. Sueli ficou no banheiro por 12 minutos. Quando ela voltou para o quarto, ele fechou os olhos, fingindo respirar regularmente. Ela deitou-se ao lado dele, ajeitou o travesseiro dele e ficou quieta. Em dois minutos ele estava dormindo.

Vanderlei ficou acordado até as 3 da manhã, pensando, calculando, deixando a raiva se acomodar no lugar certo. Não na superfície, não gritando, mas lá no fundo, onde ela fica mais tempo e é mais profunda. Nos dias que se seguiram, Vanderlei mudou por fora. Ele permaneceu o mesmo. Ele foi pegar o caminhão. Ele saiu em uma rota curta de dois dias.

Campinas, Sorocaba, São Paulo, volta. Ele jantou com Sueli, assistiu televisão. Ele perguntou sobre Camila na escola. Por dentro, algo mais. Ele havia parado de juntar provas. Ele tinha provas suficientes. Ele começou a pensar em outra coisa. Ele não procurou um advogado, não ligou para o filho Rafael, não desabafou com nenhum amigo, ele ficou sozinho com isso e permaneceu sozinho com isso por… Dias que se acumularam como pressão em uma mangueira com a ponta fechada. O Vanderlei que os vizinhos viam no portão era o mesmo Vanderlei de sempre. Ele os cumprimentava, falava sobre o tempo, elogiava o cachorro do número 15. O Vanderlei que olhava para o teto de madrugada era uma pessoa diferente. A sexta-feira em que tudo aconteceu tinha aquele calor seco do interior de São Paulo em outubro que seca a garganta e deixa a tarde parada.

Vanderlei havia voltado de uma rota no dia anterior. Ele estava em casa. De manhã, Sueli disse que ia ao banco, depois ia passar na casa da mãe dela, que morava no Jardim Campos Elízios, e que voltaria para o almoço. Vanderlei disse:

“Tá bom.”

Esperou que ela saísse. Ele esperou 15 minutos, pegou as chaves do carro, um Gol branco 2012 que estava na garagem e seguiu a rota que Sueli havia feito. Não foi difícil encontrá-la, porque Sueli não foi ao banco, ela não foi à casa da mãe dela. Sueli foi ao Jardim Aeroporto. Vanderlei estacionou a meia quadra de distância e ficou dentro do carro, assistiu sua esposa entrar no armazém da distribuidora de bebidas. Ele esperou.

Quarenta minutos depois, Sueli saiu. Ao lado dela estava o homem da Hilux prata, Ednaldo Pereira Braga, de quem Vanderlei agora tinha certeza da identidade. Os dois ficaram na porta do galpão conversando. Sueli estava sorrindo. Aquele sorriso que Vanderlei conhecia desde antes de se casarem. O sorriso dela quando estava relaxada, quando estava bem, quando não estava escondendo nada.

Ednaldo colocou a mão no ombro dela. Ela não recuou. Vanderlei observava de dentro do Gol branco, com as mãos no volante e o motor desligado. Sueli e Ednaldo ficaram na porta por mais alguns minutos, depois se despediram. Ela foi até o carro dela, um Uno vermelho estacionado ali perto. Ele voltou para dentro do armazém.

Vanderlei ficou parado ali por mais um tempo. Depois ligou o carro, não seguiu Sueli. Ele voltou para casa, entrou no quarto, abriu o guarda-roupa. No fundo, debaixo de uma pilha de cobertores de inverno que não eram usados desde o ano passado, havia uma… Uma caixa de sapatos. Dentro da caixa de sapatos havia um revólver calibre .38 que Vanderlei tinha desde 2010, comprado quando os roubos a caminhoneiros haviam aumentado na região. Estava registrado e carregado. Ele pegou a arma, verificou o tambor, colocou-a na cintura, cobriu-a com a camisa, sentou-se na beirada da cama e ficou lá por 35 minutos. Depois se levantou, pegou as chaves do seu Volkswagen Gol e saiu.

O que aconteceu a seguir foi reconstituído pela Polícia Civil de Campinas com base nas câmeras de segurança do galpão, no depoimento de dois funcionários que estavam presentes e na confissão completa de Vanderlei Campos na delegacia de homicídios. Horas depois, Vanderlei retornou ao Jardim Aeroporto e estacionou em frente ao armazém. Ele entrou.

Havia dois funcionários descarregando caixas nos fundos. Eles viram Vanderlei entrar e a princípio não deram atenção. Era comum pessoas entrarem para pegar pedidos. Vanderlei foi direto para o escritório nos fundos do armazém, onde Ednaldo costumava trabalhar. Ednaldo estava sentado na cadeira atrás da mesa quando a porta… Ele abriu a porta.

Ele olhou para o homem que entrou e não o reconheceu imediatamente. Vanderlei não disse seu nome, não disse nada. Ele puxou seu revólver. Ednaldo levantou-se da cadeira, recuou e disse:

“Espera, espera!”

Com as mãos estendidas na altura do peito, o primeiro tiro o atingiu no peito. O segundo tiro veio depois que Ednaldo já havia caído.

Um dos funcionários ouviu os tiros e correu. O outro ficou paralisado entre as caixas por alguns segundos antes de também sair pelo portão lateral, gritando. Vanderlei saiu pelo mesmo caminho por onde entrou. Ele entrou no Gol branco, ligou o motor e foi para casa. Sueli havia chegado em casa antes dele. Ela estava na cozinha.

Quando ela ouviu o portão, Vanderlei entrou, atravessou a sala e chegou à cozinha. O que aconteceu nos poucos segundos seguintes dentro daquela cozinha na vila industrial? Ninguém sabe ao certo, pois não houve testemunhas diretas. O que a equipe de perícia reconstruiu depois? Sueli foi atingida por um tiro na cozinha.

Ela conseguiu chegar à sala de estar antes de cair. Camila estava na escola. A vizinha do muro da direita, a dona Conceição, de 64 anos, ouviu o barulho e saiu para o quintal, achando que algo havia caído. Ela olhou por cima do muro e viu Vanderlei saindo pela porta da frente com uma arma na mão.

“Vanderlei, o que foi isso?”

Ela gritou, confusa. Ele parou na calçada, olhou para ela por um segundo.

“Chame a ambulância, dona Conceição, e ligue para o 190 também.”

E ele sentou no meio-fio em frente à sua própria casa. Ele esperou. A primeira viatura da Polícia Militar chegou às 14h17. Encontraram Vanderlei sentado no meio-fio, exatamente onde ele dissera que estava.

A arma estava no chão ao lado dele, que ele mesmo havia colocado lá antes da chegada da polícia. Ele não ofereceu resistência. Ele se levantou quando mandaram, colocando as mãos nas costas. A ambulância chegou 2 minutos depois. Sueli Campos foi encontrada na sala, consciente, com um ferimento no abdômen. Ela gritava de dor, mas estava orientada.

Ela foi estabilizada pelos paramédicos e transportada em estado grave para a Unidade de Pronto Atendimento Campo Grande. No Jardim Aeroporto, uma segunda equipe já havia sido acionada. Ednaldo Pereira Braga foi encontrado no escritório do armazém sem sinais vitais, declarado morto no local pelo SAMU às 15h03.

Os dois funcionários do galpão foram entrevistados como testemunhas naquela tarde. A agitação na área industrial começou quando a viatura policial ainda estava em frente à casa, vizinhos na calçada. O Seu Valmir do bar da esquina, que havia respondido à pergunta de Vanderlei semanas antes, estava do lado de fora com a expressão de quem montava o quebra-cabeça em silêncio. A Dona Conceição foi interrogada pela polícia no quintal, com o avental da cozinha ainda amarrado na cintura, recontando o que havia visto. A filha Camila descobriu quando saiu da escola às 17h e viu duas mensagens da tia no celular pedindo que ela não voltasse para casa ainda. Ela foi para a casa da tia. A tia contou a ela o que sabia, que era pouco.

Camila sentou-se na sala da tia em silêncio por um longo tempo, com o celular no colo e o olhar fixo. Rafael, o filho mais velho, ficou sabendo pela namorada, que viu nos stories do Instagram. Ele ligou para o pai. O telefone estava com a polícia; ele ligou para a tia. A tia confirmou.

Rafael ficou na sacada do apartamento no Jardim Proça, com o telefone na mão por um tempo, que depois não soube dizer de quanto foi. Na delegacia de homicídios de Campinas, Vanderlei Campos foi preso em flagrante delito. A sala de interrogatório tinha paredes cinzas, uma pequena janela com grades e um ar condicionado barulhento que não gelava direito.

O detetive que conduziu o interrogatório inicial foi o Dr. Marcos Freire, 42 anos, com 17 anos na polícia civil. Vanderlei pediu para falar sem a presença de um advogado. O detetive o informou de seus direitos. Vanderlei disse que entendia e que queria falar, e falou. Ele começou com o recibo que encontrou na gaveta do quarto.

Ele recontou em ordem com aquela voz monótona de alguém descrevendo uma rota de caminhão. Cada parada, cada ponto, cada detalhe em seu devido lugar. O detetive Marcos Freire ouviu tudo sem interromper. Quando Vanderlei terminou, o detetive ficou em silêncio por alguns segundos. Então ele fez a primeira pergunta:

“Você sabia que Sueli sobreviveu?”

Vanderlei fechou os olhos por um momento.

“Eu sei como o senhor se sente em relação a isso.”

“Eu não quero que ela morra. Eu nunca quis.”

O policial anotou:

“Enaldo Braga, você o conhecia pessoalmente antes de hoje?”

“Eu nunca falei com ele na vida, mas você sabia quem ele era. Você sabia? E, no entanto, você ainda foi ao estabelecimento dele.”

Vanderlei não respondeu, apenas continuou encarando a mesa.

O policial não insistiu nessa pergunta e passou para a próxima.

“Você tem consciência de que matar uma pessoa é crime independentemente do motivo?”

“Eu tenho.”

“E foi isso mesmo o que aconteceu?”

Não foi uma pergunta. Vanderlei respondeu mesmo assim.

“Foi.”

Sueli Campos passou 20 dias internada no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas. A cirurgia de emergência foi um sucesso. A lesão abdominal era grave, mas não havia danificado órgãos vitais de forma irreversível. Ela passou os primeiros seis dias na UTI. A recuperação foi lenta. Rafael foi ao hospital no primeiro dia. Ele ficou do lado de fora do quarto por muito tempo antes de entrar.

Quando ele entrou, ficou perto da porta, incapaz de se aproximar da cama. Sueli abriu os olhos e viu seu filho Rafael.

“Eu estou aqui, mãe.”

Não havia mais nada a dizer naquele momento. Rafael ficou por uma hora, depois saiu sem conseguir definir o que estava sentindo, que era tudo ao mesmo tempo. Camila não foi ao hospital enquanto Sueli esteve internada. Ela ficou na casa da tia, só voltando para a casa na vila industrial semanas depois, após Sueli já ter recebido alta do hospital e ter ido para a casa da mãe no Jardim Campos Elíseus. A casa na vila industrial foi deixada para Camila, uma garota de 17 anos sozinha em uma casa que de repente parecia muito grande, muito quieta, e cheia de coisas que haviam pertencido aos seus pais e que eles não sabiam mais a quem pertenciam.

O processo criminal foi iniciado pelo Ministério Público de Campinas. Vanderlei foi indiciado por homicídio doloso qualificado pela morte de Ednaldo Pereira Braga, com a agravante de motivo torpe, conforme argumentado pelo Ministério Público, e por tentativa de homicídio contra Sueli Campos. A advogada de defesa, Dra. Patrícia Iga, uma advogada criminalista de Campinas, contestou a agravante e indicou que o caso iria a júri popular, argumentando por homicídio privilegiado devido à violenta emoção.

“Após injusta provocação.”

O Ministério Público rebateu. Vanderlei havia saído de casa, matado Ednaldo no galpão, voltado para casa e atirado na esposa. Foram dois atos sequenciais com uma mudança entre eles. Não foi uma reação instantânea, foi deliberação. A defesa argumentou:

“O estado emocional de Vanderlei havia se deteriorado ao longo de semanas. A cena que ele presenciou naquela tarde, Sueli saindo do galpão sorrindo, a mão de Edinaldo no ombro dela, foi o gatilho para um colapso que já era iminente.”

A denúncia foi entregue 10 meses após o crime. Vanderlei permaneceu em prisão preventiva no Centro de Detenção de Campinas durante todo esse tempo. O julgamento ocorreu em uma quinta-feira de setembro no Fórum da Comarca de Campinas. Sete jurados, cinco mulheres, dois homens. O julgamento durou quase 11 horas. Sueli, posteriormente como testemunha, entrou na sala com passo firme, sem muletas, mas com a postura de quem carrega um fardo pesado. Ela sentou na cadeira de testemunha e falou com uma voz controlada.

O promotor perguntou sobre o relacionamento dela com Edinaldo. Sueli confirmou. Ela disse que tinha começado havia quase dois anos. Ela disse que Edinaldo tinha oferecido ajuda com as contas. Quando perdeu o emprego, ela havia pedido demissão por causa de problemas com o chefe, ela explicou. Não por causa do relacionamento. Ela disse que a situação tinha ficado complicada e… Ela não sabia como sair.

“A senhora planejava deixar seu marido?”

Sueli ficou em silêncio por alguns segundos.

“Eu não sabia o que ia fazer.”

A Dra. Patrícia Iga, em suas alegações finais pela defesa, falou aos jurados com calma e precisão. Ela descreveu Vanderlei, que havia trabalhado como caminhoneiro por 23 anos, que nunca havia sido preso, que havia sido traído em casa, literalmente em casa, com o dinheiro da traição pagando o teto sobre sua cabeça. Ela falou da carta que os investigadores não encontraram. Porque nunca houve carta, foi o recibo, os comprovantes, o nome do fiador no contrato.

Ela falou de um homem que estava sendo destruído por dentro por meses até que não soube mais o que fazer com aquilo. O promotor falou do falecido, da família de Edinaldo. Ele era divorciado, tinha uma filha de 12 anos que morava com a ex-mulher em Sumaré. Ele falou de uma criança que cresceu sem pai. Ele falou de como nenhuma traição justifica tirar uma vida.

Os jurados se retiraram às 22h, e depois voltaram. À 0h42. Veredicto: culpado de homicídio doloso qualificado pela morte de Edinaldo Pereira Braga. A agravante de motivo torpe foi reconhecida por quatro dos sete jurados, maioria simples. Culpado de tentativa de homicídio contra Sueli Campos. A tese de privilégio foi rejeitada.

A sentença, conforme determinada pelo juiz presidente, foi de 14 anos e 8 meses em regime fechado. Vanderlei ouviu a sentença com as mãos entrelaçadas sobre a mesa. Ele olhou para a sua advogada, que colocou a mão no braço dele por um segundo. Ele não disse nada. Vanderlei Campos foi transferido para o Centro de Progressão Penitenciária de Campinas, onde cumpre a sua pena em regime fechado.

Rafael o visitou uma vez, dois meses após a condenação. Foi uma visita de 45 minutos em uma sala de visitas com uma mesa de plástico e barulho de fundo constante. Rafael levou pé de moleque e refrigerante de guaraná. Eles conversaram sobre a Camila, sobre a casa, sobre nada em específico. Não conversaram sobre o que tinha acontecido. Não havia por onde começar.

Vanderlei perguntou sobre a filha da namorada do Rafael, que tinha nascido três meses antes do crime, e que ele ainda não conhecia pessoalmente.

“Ela está bem?”

“Ela está crescendo.”

Vanderlei ficou em silêncio por um momento.

“Me traz uma foto dela na sua próxima visita.”

Rafael disse que traria. Sueli voltou para a casa da mãe no Jardim Campos Elíseus. Ela ficou lá por muito tempo. Depois alugou um quarto em um bairro do outro lado da cidade, Parque São Quirino, longe da vila industrial, longe do supermercado onde trabalhava, longe de tudo o que lhe fosse muito familiar. Arrumou um emprego em um posto de saúde como recepcionista.

Ela ganhava menos que antes. Pagava o aluguel sozinha, só ela, todo mês. Camila saiu da casa da vila industrial quando completou 18 anos e foi morar com Rafael e a namorada dele por alguns meses antes de alugar um quarto com uma colega de trabalho. Conseguiu um emprego em uma papelaria no centro de Campinas.

Ela ligava para a mãe de vez em quando para conversas curtas, sobre nada específico, com aquele silêncio específico de quem tem muito a dizer e não sabe se já é o momento certo. Ela nunca visitou o pai. A filha de Edinaldo Pereira Braga, Júlia, que tinha 12 anos na época do crime, mora com a mãe em Sumaré, vai para a escola, tem amigos, e leva a vida de uma garota de 12 anos que está fazendo 13, 14, 15.

A distribuidora de bebidas no Jardim Aeroporto fechou seis meses após o crime. Os funcionários foram demitidos. O armazém ficou vazio por um tempo, ainda com a placa na frente, até aparecer um novo locatário. A casa da vila industrial foi devolvida à imobiliária. Um novo inquilino chegou 4 meses depois.

Ele pintou as paredes, trocou o portão da frente e plantou um pequeno jardim na calçada. Ninguém contou a eles o que tinha acontecido lá. E o detalhe que os investigadores encontraram na gaveta da cozinha, o que mencionei no começo, dentro da gaveta onde eles tinham encontrado os recibos de aluguel misturados aos documentos da casa, havia um envelope pardo lacrado.

Os investigadores o abriram durante a coleta de provas. Dentro havia um documento. Com o timbre de um cartório, era um contrato de compra e venda. O contrato registrava a venda de um lote no bairro Parque Floresta, em Campinas. Terreno comprado no nome de Sueli Campos Braga. Sueli Campus Braga.

Não, Sueli Campos. Sueli Campus Braga, com o sobrenome de Edinaldo, já incorporado informalmente ao documento. O contrato havia sido assinado seis meses antes do crime. O terreno havia sido pago integralmente por Edinaldo Pereira Braga. Não foi o caso de um momento de fraqueza. Não foi uma fraqueza que durou mais do que devia.

Era um projeto com documentação, com terreno comprado, com sobrenome ensaiado. Vanderlei nunca soube desse documento. Os filhos descobriram quando o inquérito foi concluído e os advogados tiveram acesso aos autos. Rafael ficou em silêncio ao ler. Camila pediu para sair da sala.

Nenhum dos dois comentou com a mãe. Eles nunca comentaram. Há um galpão no Jardim Aeroporto com um novo inquilino e sem placa na frente. Há uma casa na Vila Industrial com um pequeno jardim na calçada e moradores que nunca souberam. Há uma mulher no Parque São Quirino que paga o aluguel sozinha todos os meses. Há um terreno no Parque Floresta que ficou travado no inventário por causa da morte do comprador e que continua lá até hoje. Não tem destino definido.

Há uma menina em Sumaré que está prestes a fazer 15 anos e um dia vai querer saber sobre o pai mais do que a mãe tem sido capaz de contar. Há um homem num centro de progressão prisional que acorda cedo porque é hora da cela e que às vezes, segundo quem convive com ele lá dentro, pergunta se há notícias do tempo lá fora, se faz frio, se chove, como se o tempo lá fora ainda dissesse alguma coisa sobre a vida que ficou para trás.

E há uma gaveta de cozinha que estava cheia de documentos que explicavam tudo o que uma pessoa escolheu não explicar por conta própria. Às vezes, a verdade não precisa ser descoberta. Às vezes, ela ficou guardada na gaveta da cozinha o tempo todo, esperando que alguém a abrisse. Rachaduras que não se fecham sozinhas, que nunca se fecham sozinhas.