
O melhor jogador da Copa América de 2007, o herdeiro designado por Pelé, o menino que driblava descalço nas ruas de terra de São Vicente e que foi chamado de “o novo Rei” por Galvão Bueno, hoje dorme numa cela coletiva em Tremembé, condenado por estupro coletivo, sem poder ver o próprio filho. A trajetória de Robson de Souza, o Robinho, é uma das mais dramáticas e dolorosas do futebol brasileiro. O que nunca te contaram é que a noite que destruiu sua vida em Milão não começou naquela balada. Começou nove anos antes, quando sequestraram sua mãe. E antes disso, começou 29 anos antes, numa favela de São Vicente, na Baixada Santista.
25 de janeiro de 1984. Nascia Robson de Souza, o segundo de três irmãos. O pai, Dilvan, era pedreiro e carregava sacos de cimento de 50 kg durante 10 horas por dia. A mãe, Marina, era empregada doméstica, saía de casa às 5h30, pegava dois ônibus e voltava às 9 da noite, ganhando o equivalente a R$ 120 por mês. Desde os 4 anos, Robinho jogava bola de plástico cortada com moleques descalços na rua de terra. Aos 6 anos, todo o bairro já sabia: aquele menino tinha algo diferente. Driblava garotos maiores como se a bola estivesse colada no pé.
Aos 7 anos, Marina inscreveu-o na escolinha de futebol do bairro por R$ 5 mensais. Ela trabalhava um dia extra de faxina para pagar. Aos 13 anos, um olheiro do Santos chamado Carlos Bero, o mesmo que descobriu Diego e depois Neymar, chamou-o. Aos 14 anos, em 1998, Robinho assinou o primeiro contrato profissional por R$ 200 mensais. Marina chorou três dias seguidos.
Na família havia um primo segundo do lado materno, Edmilson Rocha. Aos 16 anos, quando Robinho tinha 9, ele via o primo brilhar e sentia algo que anos depois apareceria em gravações da polícia: “Esse moleque tá se achando. Esqueceu de onde veio. A mãe dele vai lembrar pra ele.”
Em 1999, com 15 anos, Robinho foi convocado para a Seleção Sub-17 e ganhou a Copa do Mundo da Nova Zelândia. Um gol de calcanhar contra a Austrália virou sensação. Galvão Bueno disse ao vivo: “Acabei de ver o herdeiro do Pelé.” Aquela frase perseguiria Robinho para sempre.
Aos 18 anos, em 2002, era titular do Santos. O time ganhou o Brasileirão após 42 anos. Na final contra o Corinthians, Robinho brilhou. Pelé entrou no vestiário, deu-lhe um Rolex Submariner e disse: “Você é meu herdeiro.” Robinho chorou 15 minutos seguidos. Guardou o relógio num cofre e prometeu usá-lo só em momentos importantes.
Em 2003, com 19 anos, era ídolo. Ganhava meio milhão por mês. Comprou casa nova para Marina no Boqueirão. Ela pediu uma coisa só: “Não se esqueça de quem você é.”
Mas a vida mudou. Festas, mulheres, dinheiro. O primo Edmilson, ainda ajudante de mecânico ganhando R$ 800, via tudo de longe e sentia inveja.
6 de novembro de 2004. Marina foi sequestrada ao sair da igreja. Dois homens a colocaram num Fiat Uno branco. Robinho estava em Madrid para reunião com o Real. Recebeu a ligação do irmão: “Levaram a mãe.” Pagou 700 mil dólares, entregou a camisa do Santos campeã de 2002 e o Rolex de Pelé. Marina foi libertada após 41 dias. Três membros da quadrilha foram presos em 2007. Uma gravação revelou que Edmilson, o primo, delatou os horários da tia por 18 mil reais.
Robinho perdoou o primo porque era família. Mas em 2006 veio uma segunda carta ameaçando o filho de um ano: “Sabemos quem é seu filho. Sabemos onde mora.” Robinho pagou novamente, sem denunciar.
De 2005 a 2013, Robinho viveu uma espiral descendente. Real Madrid, Manchester City, Milan. Remédios para dormir, álcool, cocaína (segundo exames internos vazados). Episódios de agressividade contra mulheres no Brasil foram “resolvidos” com envelopes de dinheiro.
23 de janeiro de 2013. Old Fashion Café, Milão. Robinho e cinco amigos (todos de São Vicente, pagos por ele) convidaram três mulheres para a mesa VIP. Uma delas, uma jovem albanesa de 22 anos comemorando aniversário, bebeu demais e ficou incapacitada. Foi levada para uma sala VIP. Os seis homens entraram. Saíram 93 minutos depois. A vítima foi encontrada semi-inconsciente.
A polícia italiana abriu investigação. Gravações telefônicas feitas em outra investigação capturaram conversas de Robinho e amigos rindo do ocorrido. Uma ligação de 47 segundos, dois dias depois, foi decisiva: Robinho riu e disse “Eu não tô nem pensando nisso. Eu sou intocável. Tipo mamãe.”
Em 2017, condenado a 9 anos por estupro coletivo. Sentença confirmada em 2022. Em 2024, preso no Brasil e levado para Tremembé.
O filho, Robinho Júnior, hoje com 19 anos e jogando no Santos, não visita o pai. Em julho de 2024, mandou uma carta com três frases: “Vi sua cara na televisão quando você entrou.” “Mamãe me falou que você vai ficar aí até eu ter 28 anos.” “Por que você me fez essa promessa se sabia que não ia conseguir cumprir?”
A promessa de 2005, sussurrada no ouvido do recém-nascido: “Você vai ser melhor que eu.” O filho entendeu que não era só sobre futebol. Era sobre caráter, sobre não destruir vidas, sobre não ser intocável.
Robinho destruiu a si mesmo. Esqueceu o bairro. Esqueceu as lições da mãe. Esqueceu o aviso de Pelé: “O bairro lembra de quem foi embora.”
Hoje, na cela, Robinho lê livros, estuda, tenta reduzir a pena. O filho joga com a camisa 7 do Santos e responde a quem o chama de herdeiro do Pelé: “Eu sou eu.”
A história de Robinho é a de um talento que se perdeu no caminho. De um menino pobre que chegou ao topo e esqueceu as raízes. De um pai que prometeu ao filho ser melhor e não conseguiu cumprir nem consigo mesmo.
É também a história de uma mãe sequestrada, de um primo traidor, de dinheiro que não compra paz, de uma vítima que nunca será esquecida e de um filho que, aos 19 anos, decidiu ser apenas RJ.
O herdeiro de Pelé dorme hoje numa cela coletiva. O menino que prometeu ser melhor que o Rei aprendeu, da forma mais dura, que talento sem caráter não basta. E que as promessas feitas a um filho recém-nascido, um dia, cobram o preço.