
Se você abrir suas redes sociais agora, vai perceber uma mudança de rota que aconteceu bem diante dos nossos olhos e quase ninguém reparou. A imagem clássica da influenciadora fitness, aquela que passava o dia inteiro postando dicas de treino, links de consultoria e planos de emagrecimento, mudou completamente. O link da bio não leva mais para planilhas de treino ou consultoria online. Se você clicar, é provável que você caia diretamente em um perfil do OnlyFans ou em uma plataforma de conteúdo adulto. E o mais assustador não é nem a mudança de carreira em si, mas como isso foi normalizado no Brasil em uma velocidade que desafia completamente a lógica.
Pensa no caso da Martina Oliveira. A internet se uniu para destruir a autoestima dessa menina. Comparavam ela diretamente com o “beiçola da Grande Família”. A tentativa era de um cancelamento, supostamente o fim. Mas ela simplesmente transformou a humilhação no maior case de marketing digital dos últimos anos. Ela abraçou o meme e ali nasceu a “beiçola do privacy”. Milhões faturados, dezenas de outdoors gigantescos espalhados pelo sul do país, esfregando o sucesso na cara de todo mundo que criticou. Em uma questão de poucos meses, ela pagou outdoors, invadiu o mundo físico e o ápice do absurdo foi fechar o patrocínio master de um time tradicional de futebol gaúcho. A marca dela estampada no peito dos jogadores para todo mundo ver. No momento que ela conseguiu fazer isso, a mensagem se tornou clara: o conteúdo adulto não está mais na margem da sociedade – agora está financiando o esporte no dia de domingo.
A realidade da produção de conteúdo adulto chegou a níveis absurdos. Até patrocinador estampado na camisa de time profissional aconteceu. O conteúdo adulto deixou de ser algo escondido para virar outdoor na avenida principal. Só que não se engane com a narrativa de empoderamento ou com as cifras milionárias. Por trás das garotas sorridentes nos podcasts, existe uma máquina invisível, uma engrenagem financeira projetada lá em Wall Street, com fortes influências vindas do Vale do Silício, para ser o negócio de extração humana mais brutal e lucrativo da história da humanidade.
Para entender a gravidade do que acontece hoje, a gente precisa voltar algumas décadas no tempo. Há mais ou menos 20, 30 anos atrás, o destino de uma estrela do entretenimento adulto era quase que um roteiro de filme de terror pré-definido. As mulheres viviam à margem da sociedade, eram escondidas, julgadas e, quase como uma regra maldita, os finais de carreira eram marcados por vícios pesados em drogas, depressão, exploração financeira por empresários inescrupulosos e o mais absoluto ostracismo. A indústria sugava a juventude, a dignidade, a sanidade delas e, quando elas já não tinham praticamente mais nada para oferecer, eram simplesmente descartadas. O estúdio ficava com os milhões e elas com as dívidas e os traumas.
Só que trazendo pra nossa realidade, dá só uma olhada nas maiores criadoras de conteúdo hoje. Elas não são marginalizadas. Na verdade, muitas delas são celebridades no mainstream, tratadas como se fossem executivas do Vale do Silício. Sentam na primeira fila de desfiles de moda, são tratadas como influenciadoras fitness e as maiores referências em um corpo perfeito, sem contar a vida de luxo conquistada com a grana que vem do entretenimento adulto. Acredite você ou não, até criadoras de conteúdo adulto que se dizem conservadoras de direita hoje em dia estão cheias no Instagram.
O primeiro grande choque dessa era tem um nome e atende por Mia Khalifa. Em 2014, ela era apenas uma assistente jurídica libanesa tentando ganhar a vida em Miami. Recrutada pela indústria, gravou um vídeo com hijab que virou um escândalo global. A plataforma faturou dezenas de milhões, mas ela recebeu míseros 12 mil dólares. Ameaçada de morte, banida da família e do Oriente Médio, Mia representou o ápice do modelo antigo de exploração.
Só que em 2020 o jogo virou. Depois da explosão em Beirute, Mia abriu conta no OnlyFans para ajudar vítimas. Ela cortou com os estúdios e mostrou que o dinheiro podia ir direto para a criadora. A caixa de Pandora foi aberta.
A americana Sofia Rain é a perfeição fria desse novo sistema. Garçonete em 2022, virou multimilionária em poucos anos surfando um boato de um vídeo com fantasia de Homem-Aranha que nem era dela. Não desmentiu, alimentou a fantasia de acesso exclusivo e faturou 95 milhões de dólares em 3 anos. Acumula 16 milhões de seguidores, mas precisa de seguranças. A indústria vende intimidade fabricada para homens solitários. Um cliente rico já gastou mais de 6 milhões só em mensagens.
No Brasil, Martina Oliveira transformou bullying em império. Abriu contas, usou o apelido “beiçola” e faturou alto com outdoors e patrocínio de time de futebol. O conteúdo adulto agora financia o esporte.
A Thaísa Fit, que treinava desde os 6 anos com o pai treinador Kaká, rompeu com a carreira fitness e entrou no conteúdo adulto, causando choque na maromba. O algoritmo recompensa o choque e a escalada de extremos.
Casos como Bell Delphine vendendo água do banho, Bad Bunny faturando 1 milhão em horas, Lily Phillips com 101 homens em um dia e Bonnie Blue com 157 mostram que o algoritmo exige mais e mais bizarrice.
Por trás disso tudo estão plataformas como OnlyFans, controladas por bilionários invisíveis. O dono Leonid Radvinsky morreu em 2025 com fortuna de bilhões. A plataforma fica com 20% e o resto vai para fundos de Wall Street. O modelo é simples: as mulheres exploram a si mesmas, a plataforma cobra pedágio e os bilionários lucram sem sujar as mãos.
A narrativa de empoderamento mascara a exploração. Negociar os termos da própria exploração não transforma em dona de negócio, mas em produto perfeito. A maioria das criadoras ganha pouco, enquanto poucas estrelas e os donos das plataformas enriquecem. O ódio e o desejo alimentam o algoritmo da mesma forma.
O ciclo se perpetua: atenção gera riqueza para poucos, riqueza exige atos extremos e nós, do outro lado da tela, continuamos clicando, julgando e consumindo. Essa é a máquina perfeita de extração humana do século XXI.