
1500: A Escrava Linda que fez a Sinhá se “apaixonar” e deixar o Coronel — Chocou toda a fazenda…
O sol erguia-se implacável sobre os vastos canaviais da imensa propriedade Montenegro, no coração do Brasil colonial, corria o ano da graça de 1580. As ricas terras do abastado coronel Álvaro estendiam-se até onde o olhar humano alcançava. Ondas verdes de cana-de-açúcar dançavam ao vento morno, enquanto dezenas de almas escravizadas labutavam sob o calor inclemente, permanentemente vigiadas por feitores cruéis, sempre prontos a usar o chicote ao menor sinal de hesitação.
A imponente Casa Grande erguia-se no cimo de uma colina suave, com as suas grossas paredes alvas e varandas arejadas. De longe, parecia o retrato perfeito da prosperidade colonial intocável. Contudo, observada de perto, a casa guardava dores profundas e dolorosos segredos que o pesado silêncio daquela época preferia enterrar eternamente nas sombras.
Nessa morada luxuosa vivia Dona Catarina Montenegro, a submissa e calada esposa do coronel há quinze longos anos. Aos trinta e dois anos de idade, o seu belo rosto exibia já o cansaço pesado de quem envelheceu antes do tempo devido. Não eram exatamente as rugas que a envelheciam, mas sim a melancolia profunda que residia no seu olhar baço, uma tristeza fria que nenhum vestido de fina seda importada conseguia ocultar com sucesso.
Catarina acordava pontualmente todos os dias antes da alvorada. Supervisionava as lides da enorme casa e organizava as servas da cozinha com um silêncio triste e resignado. O coronel Álvaro não dialogava afavelmente com a esposa; limitava-se a ditar ordens estritas e frias. A voz da senhora parecia ter sido apagada pelas grossas paredes brancas daquela terrível prisão dourada e solitária.
Certa manhã amena de abril, enquanto Catarina repousava silenciosamente na varanda, os ruídos agudos e a confusão do pátio anunciaram a chegada de um novo grupo de cativos. Ela preferia não olhar diretamente, poupando-se habitualmente à dolorosa visão do sofrimento alheio, mas algo de estranho no ar a obrigou a virar o rosto cansado.
No meio dos homens e mulheres recém-chegados, encontrava-se uma jovem manifestamente diferente de todos os outros. Na flor dos seus vinte e poucos anos, a sua pele perfeitamente escura brilhava à luz da manhã. Caminhava, apesar das pesadas correntes de ferro que a prendiam, com uma postura formidavelmente altiva e uma serenidade quase desafiadora, recusando-se a baixar os olhos para a poeira do chão.
O coronel inspecionava minuciosamente a nova carga humana que adquirira. “Esta rapariga é muito invulgar”, sussurrou-lhe Sebastião, o feitor de semblante cruel. “Dizem que foi criada na casa de um velho padre, e que sabe ler e escrever na perfeição.” Intrigado, Álvaro inquiriu o seu nome com uma voz grave.
“Amara”, respondeu a jovem escrava, com uma voz límpida, melodiosa e totalmente destemida, sem vacilar perante a autoridade do senhor. O coronel, impressionado com aquela autêntica raridade, ordenou imediatamente que a jovem servisse exclusivamente na Casa Grande, ajudando nas tarefas domésticas mais delicadas. Catarina, ao observar atentamente tudo desde a varanda, sentiu um arrepio gélido e estranho percorrer-lhe a espinha.
Nos dias seguintes à sua chegada, Amara foi formalmente apresentada a Joana, a sábia e experiente cozinheira de meia-idade, e às restantes aias da enorme casa. Recebeu todas as difíceis instruções com elevado respeito e fez perguntas de tal modo perspicazes que surpreendeu genuinamente a todos os presentes.
Confidenciou, com a voz embargada pela profunda saudade, que um bondoso padre jesuíta lhe ensinara as letras, a gramática e a filosofia, acreditando fervorosamente que todos os seres possuíam uma alma digna de receber luz e conhecimento divino. Contudo, após o trágico e repentino falecimento do religioso, os seus gananciosos herdeiros venderam-na como um vulgar animal, temendo fortemente o perigo imprevisível que uma mente tão instruída representava para o sistema.
Amara passou a acompanhar Dona Catarina de forma ininterrupta nas suas exaustivas tarefas diárias. Inicialmente, a senhora mantinha a devida e rígida distância, dando as suas habituais instruções num sussurro contido e evitando cruzar o olhar com a jovem escrava. Porém, Amara movia-se com uma graciosidade natural e muito pacífica, antecipando habilmente as necessidades e os desejos ocultos da sua solitária patroa.
Numa tarde invulgarmente abafada e silenciosa, Catarina deixou cair acidentalmente uma grande caixa de linhas de costura no centro do salão. As suas mãos finas tremiam profusamente, como sempre acontecia quando se encontrava sozinha com os seus medos fantasmagóricos. Amara entrou serenamente na sala e, em silêncio absoluto, ajoelhou-se delicadamente no chão de madeira polida para recolher os coloridos carretéis de linha espalhados.
“Agradeço imenso”, murmurou Catarina, visivelmente surpreendida e abalada com o som frágil da própria voz. Amara ergueu o rosto bonito muito devagar. Pela primeira vez desde a sua chegada à casa, os seus olhares encontraram-se de forma despida, crua e incrivelmente genuína.
Catarina vislumbrou intensamente naqueles olhos profundos uma humanidade imensa e uma dignidade tão intacta que julgava já não existir no mundo em que vivia. “A senhora não tem de agradecer, é para mim um gosto”, respondeu Amara com doçura e calma. O coração fechado de Catarina agitou-se de forma descompassada. Naquela mesma noite, deitada ao lado do marido que roncava alheio ao mundo, sentiu nascer no peito vazio um sentimento há muito proibido: a inabalável esperança.
As semanas fluíram velozmente, trazendo uma mudança subtil e maravilhosa à atmosfera da Casa Grande. Amara destacava-se positivamente pela sua dignidade muito serena, enormemente diferente da postura sempre cabisbaixa e temerosa das restantes criadas da quinta. Enquanto o coronel Álvaro passava os dias longos mergulhado nos seus ricos canaviais, Sebastião observava a nova escrava com crescente e perigosa desconfiança.
Na acolhedora e resguardada sala de costura, longe dos olhares reprovadores e da violência cruel do exterior colonial, as duas mulheres partilhavam agora delicadas e íntimas confidências. Amara falava com paixão contagiante das valiosas lições do sábio jesuíta, dos altos ideais de Sócrates e do valor supremo do livre pensamento e da reflexão interior.
“O meu senhor padre dizia amiúde que o conhecimento é a única verdadeira riqueza que o mundo nunca nos pode roubar”, contava Amara, exibindo um sorriso cheio de melancolia. “Mas, infelizmente, acabaram por me roubar absolutamente tudo o resto que a vida me deu.” Catarina sentiu a dor cortante daquelas palavras atingir-lhe o cerne da alma. Pela primeira vez na vida adulta, via ali uma pessoa completa. “Sinto profundamente a tua dor”, confessou a senhora.
Amara olhou-a com uma empatia que desarmava qualquer escudo. “A solidão sofrida dentro de uma bela gaiola de ouro cravejado continua a ser a mesma cruel solidão, minha senhora.” Aquelas palavras certeiras ressoaram estrondosamente na alma triste da esposa do coronel como uma verdade luminosa e inquestionável. Eram, na verdade, ambas prisioneiras irremediáveis das suas tristes circunstâncias e obrigações.
Numa noite de enorme e obscuro tormento, Catarina acordou sobressaltada por um pesado e assustador pesadelo. Desceu os degraus até à cozinha em busca de um pouco de água fresca e deparou-se com Amara acordada junto às cinzas quentes das brasas. Sem conseguir conter por mais tempo as emoções acumuladas durante anos, Catarina desabou num choro silencioso, derramando as sentidas lágrimas das suas longas décadas de cega submissão conjugal.
Amara aproximou-se dela muito cautelosamente e, quebrando todas as estritas e perigosas regras hierárquicas, tocou de forma muito terna e reconfortante no braço frágil da patroa. “Chore tudo o que a sua alma precisar. Aqui, comigo, a senhora está perfeitamente protegida e segura”, sussurrou com imenso carinho. Naquele pequeno e poderoso instante fugaz, as últimas barreiras de gelo caíram por terra definitivamente. Não eram mais a senhora poderosa e a escrava subjugada, mas simplesmente duas jovens mulheres unidas pela mesma avassaladora falta de amor e pertença.
O forte afeto fraterno inicial converteu-se e transmutou-se gradualmente num sentimento muito mais profundo, ardente e avassalador. “A senhora merecia ser plenamente e livremente feliz nesta vida”, confessou Amara de forma arrebatada, numa bela tarde iluminada de verão. “E confesso, com todo o meu coração transbordante, que gostaria imenso de ser a forte razão dessa verdadeira felicidade.”
O peito aprisionado de Catarina disparou loucamente. A coragem de Amara deu-lhe as forças necessárias para admitir a sua própria e verdadeira vontade silenciada. “Eu também sinto exatamente o mesmo e desejo-te como nunca desejei nada”, respondeu Catarina muito emocionada.
Ali mesmo, entre os delicados fios de seda colorida e a luz dourada do entardecer maravilhosamente morno, os seus lábios ansiosos encontraram-se num beijo imensamente terno, doce, cuidadoso e profundamente desesperado. Um beijo suave mas intenso, que selava de vez um pacto de amor extremamente perigoso naquelas cruéis terras.
A velha cozinheira, a perspicaz Joana, apercebeu-se inevitavelmente da proibida paixão instalada e alertou a jovem Amara numa noite silenciosa: “Minha criança inocente, estás a brincar ingenuamente com o mais terrível fogo. Se alguma vez forem descobertas, a morte violenta e a tortura impiedosa serão o vosso único e trágico destino neste lugar.”
Amara retrucou com a serena e intocável paz dos justos: “Se tiver um dia de escolher livremente entre uma vida muito longa mas completamente vazia de emoção, e uma existência curtíssima mas plena e verdadeira, escolho sempre a segunda, minha querida Joana. Pelo menos poderei afirmar com orgulho supremo que terei vivido e amado de verdade.”
Porém, os segredos ocultos naquelas imensas fazendas são de uma enorme e assustadora fragilidade. O maldoso Sebastião andava permanentemente à espreita, oculto nas sombras das noites. Numa noite escura e sem qualquer claridade lunar, guiado pela sua instintiva e apurada intuição maliciosa, espreitou atrevidamente pela janela larga do aposento e testemunhou o impensável aos olhos da época.
Ele avistou a altiva senhora da casa e a bela escrava firmemente enlaçadas num beijo terno, íntimo e absolutamente apaixonado. Enormemente chocado e movido unicamente pela mais pura e sórdida crueldade humana, ele aguardou o momento politicamente mais oportuno para revelar o terrível escândalo aos ouvidos do seu patrão. Dias depois dessa noite, Sebastião invadiu o escritório. “Senhor meu coronel, trago notícias profundamente dolorosas e imensamente pecaminosas. Dona Catarina e a vossa escrava instruída partilham, às escondidas, uma relação abominavelmente carnal e imprópria.”
O rosto envelhecido do coronel Álvaro tornou-se num rubro vivo de cólera indomável. Incrédulo com tamanha e rasteira afronta ao seu orgulho patriarcal, levantou-se muito abruptamente, atirando com força a cadeira pesada de carvalho ao chão da sala. Caminhou furiosamente, a passos largos, até à sala de costura e abriu violentamente a porta com um estrondo ensurdecedor.
Ao confrontar ferozmente a esposa com inegável e brutal agressividade, Catarina, surpreendendo totalmente até a si mesma, ergueu a sua voz outrora tão frágil e eternamente calada perante aquele homem. “É um sentimento mil vezes mais puro e real do que qualquer coisa pobre e forçada que alguma vez partilhei consigo nesta miserável vida de aparência!”, atirou ela de forma grandemente desafiadora e valente, fixando-o nos olhos.
Cego por uma fúria brutal e descontrolada, Álvaro esbofeteou-a severamente no rosto, atirando-a bruscamente contra a parede branca de pedra do grande salão. Amara tentou bravamente e heroicamente protegê-la do agressor, interpondo-se desesperadamente entre os dois com todo o seu corpo, mas foi muito rápida e dolorosamente dominada pelos guardas pesados que acorreram velozes à enorme confusão.
“Vendam imediatamente esta criatura suja e maldita amanhã para as nefastas minas do interior!”, sentenciou o impiedoso e ferido coronel, com uma fúria ardente que transbordava por todos os poros. Aquela cruel e tenebrosa ordem equivalia a uma inescapável sentença de morte terrivelmente lenta, exaustiva e agoniante nas trevas da mineração do ouro. Catarina, mergulhada num pranto desesperador, foi trancada de imediato no seu próprio quarto.
Recusando-se a aceitar a triste derrota, delineou um ousado e incrivelmente brilhante plano de fuga no silêncio angustiante do escuro. Usando com perícia um simples gancho de metal do cabelo, forçou habilmente a fechadura arcaica e destrancou a pesada porta do seu cárcere. No faustoso escritório do marido, agora completamente embriagado e adormecido de forma profunda devido ao enorme excesso de ira cega e aguardente velha, Catarina retirou sorrateiramente, e sem um pingo de remorso na consciência, todas as valiosas moedas cintilantes de ouro que encontrou escondidas no cofre do móvel de mogno.
Vestiu um traje rústico, modesto e muito simples de puro algodão cru, prendendo todo o seu longo e sedoso cabelo claro sob um lenço escuro. Procurou rapidamente a velha cozinheira Joana na enorme e fria cozinha da propriedade. “Preciso da sua grandiosa ajuda esta longa noite. Por favor, seja benevolente, misture uma fortíssima e letal dose do meu láudano sonífero na cafeteira dos guardas da porta.” A velha mulher, compreendendo tudo e vendo a resolução no seu olhar, acedeu.
Após os robustos capatazes caírem num sono profundo e prolongado, Joana preparou um farnel bem guarnecido. “Fujam sem nunca olharem para este inferno, e que o bom Deus guie os vossos passos”, despediu-se em lágrimas sentidas. Catarina correu aceleradamente para o cativeiro da senzala, roubando as pesadas chaves adormecidas, e libertou a sua amada da humidade fria e sinistra.
Nos grandes estábulos, prepararam em imenso silêncio os dois cavalos árabes mais velozes do cruel coronel Álvaro. “Se fugires agora comigo, perdes irremediavelmente o teu respeitado título de senhora e toda a riqueza que possuis”, avisou Amara preocupada, segurando ternamente a face pálida de Catarina. Ela olhou-a com invencível convicção na sua alma liberta de correntes antigas: “A minha miserável existência na prisão de luxo colonial acabou no instante em que te levaram. Agora, a única riqueza que desejo fervorosamente é a nossa imediata libertação rumo ao norte.”
Montaram ágeis os imponentes animais de fuga e galoparam de forma apressada e silenciosa pela densa noite adentro cortando os ventos secos do campo, deixando a sombria vida de imensa opressão e sofrimento mudo atirada definitivamente para trás. Cavalgaram vigorosamente até o glorioso amanhecer tingir de forma exuberante o céu de tons maravilhosos de ouro e puro carmesim. O vingativo coronel Álvaro procurou-as depois incansavelmente, espumando de pura raiva doentia, mas as destemidas amantes fugitivas nunca mais foram avistadas ou tristemente capturadas pelos homens do mato.
Cinco serenos e pacatos anos depois, numa pitoresca e distante vila piscatória, duas belíssimas e tranquilas mulheres partilhavam harmonicamente uma modesta, alva e muito luminosa casa com vista poética para a vastidão azul do mar imenso. A mais velha lecionava alegremente às doces crianças da pobre vila costeira, ensinando-lhes o grande e rico mundo mágico das palavras e das contas essenciais.
A mais jovem trabalhava de forma ativa e incansável como uma hábil, atenciosa e muito carinhosa parteira e curandeira herbal, altamente respeitada e estimada por absolutamente todos os humildes e gratos moradores locais. Eram formalmente conhecidas e imensamente bem vistas por todos como duas abençoadas primas e inseparáveis viúvas honestas.
Numa noite com uma brisa suave, fresca e intensamente iluminada por estrelas prateadas no manto do céu, Catarina abraçou longamente Amara na pequena e acolhedora varanda. “Troquei o ouro manchado, a opulência fria e a temida posição de senhora por uma maravilhosa vida genuína de amor autêntico e incondicional liberdade do espírito. Foi a escolha inegavelmente mais sábia e gloriosa que o meu coração tomou nesta terra.” As suas valiosas e ricas almas demonstraram, para além de qualquer dúvida cética, que o amor corajoso pode vencer poderosos impérios de ódio e preconceito opressivo, permanecendo eternamente vivo, pulsante e inabalavelmente flamejante em todas as emocionantes e libertadoras lendas daquela vasta e apaixonante região atlântica.