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100 Caçadores Perseguiram Este Escravo – NENHUM Voltou Vivo

Ninguém nas vastas e ricas terras do Recôncavo Baiano poderia imaginar que esse homem silencioso, de olhar profundo e mãos severamente marcadas pelo trabalho árduo, seria capaz de realizar o que fez.

Quando Mateus desapareceu na alvorada silenciosa de 15 de março de 1835, levando consigo apenas a roupa do corpo e uma simples faca de cortar cana, o destino daquela região começou a ser reescrito.

O coronel Antônio Rodrigues de Almeida, dono de um império do açúcar, jurou com o orgulho ferido que traria o fugitivo de volta, acorrentado, em menos de uma semana. Mas o coronel estava errado. Profundamente errado.

Mateus tinha trinta e dois anos quando decidiu deixar para trás as correntes do engenho Santo Antônio. Ele havia chegado àquelas terras ainda menino, arrancado de algum lugar da África cujas memórias já se misturavam como fragmentos de um sonho distante.

Desde os oito anos de idade, trabalhou incansavelmente nos canaviais. Com o passar do tempo e o aumento do suor derramado sobre a terra, Mateus aprendeu a ler o céu, a entender os sinais sutis da floresta e a decifrar cada som que a noite produzia.

Enquanto os outros escravizados e até os feitores viam apenas árvores e uma escuridão ameaçadora, Mateus via caminhos, abrigos seguros e infinitas possibilidades de sobrevivência.

O coronel Rodrigues não era apenas um fazendeiro; ele era um dos homens mais ricos e temidos da região. Seu engenho produzia açúcar para exportação em larga escala, e ele proclamava com orgulho a todos que o conheciam que mantinha ordem e disciplina absolutas entre seus cativos.

A fuga de Mateus representava não apenas a perda de uma propriedade valiosa. Acima de tudo, era uma afronta direta à sua honra. Um escravizado que escapava e não era capturado tornava-se um exemplo extremamente perigoso, uma rachadura visível na estrutura de poder que sustentava toda aquela sociedade opressora.

Logo na primeira semana, o coronel enviou seus melhores capitães-do-mato. Eram cinco homens rudes e experientes, que conheciam a região como a palma da mão e tinham a reputação de nunca perder uma única trilha.

Eles partiram confiantes na manhã de 18 de março, fortemente armados com rifles e facões, e acompanhados por cães de caça implacáveis. Seguiram as pegadas de Mateus na mata densa que separava o Recôncavo dos vastos sertões. Eles nunca mais voltaram.

Dez dias de silêncio perturbador se passaram. Inconformado, o coronel enviou um segundo grupo, encarregado de buscar tanto Mateus quanto os homens misteriosamente desaparecidos. Desta vez, eram oito caçadores, muito mais bem armados e avançando com a cautela de quem pisa em território inimigo.

No fundo da floresta, encontraram os cães do primeiro grupo mortos perto de um riacho lamacento. No entanto, não havia o menor sinal dos cinco homens. Suas armas também haviam desaparecido por completo. Era como se a própria floresta tivesse aberto suas entranhas e engolido a todos sem deixar um único rastro.

Diante do terror invisível, este segundo grupo decidiu retornar imediatamente para pedir reforços. Contudo, a floresta não os deixaria sair facilmente. Apenas três deles conseguiram emergir da mata escura.

Chegaram ao engenho três dias depois, consumidos pela febre, delirantes e tremendo de terror. Falavam de sombras que se moviam silenciosamente entre as árvores seculares, de armadilhas mortais perfeitamente escondidas sob as folhas e de olhos invisíveis que os vigiaam de perto na escuridão.

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Um dos sobreviventes jurou, com os olhos arregalados, que tinha visto Mateus em pé sobre uma rocha alta. Disse que o fugitivo olhou para eles com a presença imponente de um espírito da floresta antes de desaparecer na névoa sem emitir um único som.

A notícia desse fracasso surpreendente espalhou-se pelos engenhos como fumaça no vento. O escravizado fugitivo do engenho Santo Antônio estava eliminando, um a um, os homens que ousavam ir atrás dele. O medo começou a alimentar lendas.

Alguns sussurravam nos cantos que Mateus tinha feito um pacto sombrio com forças sobrenaturais. Outros acreditavam firmemente que ele havia se juntado a um quilombo escondido nas profundezas da mata, protegido por dezenas de outros fugitivos prontos para a guerra.

Havia também quem dissesse que Mateus conhecia antigos segredos indígenas e que os próprios espíritos da floresta haviam se levantado para protegê-lo da crueldade dos homens brancos.

O coronel Rodrigues, consumido pela fúria e pela humilhação pública, decidiu dobrar a aposta. Anunciou uma recompensa exorbitante: mil réis para quem trouxesse Mateus vivo, e quinhentos réis para quem trouxesse apenas a sua cabeça.

Era uma verdadeira fortuna. Dinheiro suficiente para um homem comum comprar terras férteis e começar uma nova vida. A ganância atraiu caçadores de recompensa de todos os lugares, vindos de várias partes da Bahia, de Sergipe e até das terras distantes de Pernambuco.

Eram homens durões, forjados na violência, que não temiam a lei nem a morte. Chegavam em pequenos grupos, em duplas cautelosas ou até agindo como lobos solitários. Cada um deles nutria a certeza arrogante de que seria astuto, rápido e violento o suficiente para capturar aquele rebelde.

Mas a floresta que Mateus escolhera como santuário era incrivelmente traiçoeira para quem ignorava os seus segredos. Era uma região de transição implacável entre a zona úmida do Recôncavo e a aridez do sertão.

O terreno era repleto de desfiladeiros profundos, rios caudalosos que mudavam de curso com as chuvas e árvores antigas cujas raízes imensas formavam labirintos naturais intransitáveis. Mateus não estava apenas correndo e se escondendo; ele havia virado o jogo. Ele estava caçando ativamente os seus caçadores.

Nos primeiros meses dessa guerra silenciosa, mais de quarenta homens aventuraram-se naquela mata densa, cegados pela promessa de uma recompensa de ouro. Desses quarenta, apenas sete conseguiram sair vivos.

E esses sete voltaram tão completamente aterrorizados que se recusaram terminantemente a falar sobre os horrores que testemunharam. Um deles, um velho caçador chamado Severino, famoso por ter capturado mais de cinquenta escravizados fugidos, pronunciou apenas algumas palavras antes de abandonar a região para sempre.

Com a voz embargada e o olhar perdido, Severino disse: “Aquele não é um homem comum, mas sim um antigo espírito de guerra que tomou forma humana. Quem entrar naquela floresta em busca de Mateus nunca mais sairá.”

As histórias que chegavam aos engenhos vizinhos tornavam-se cada vez mais aterrorizantes e detalhadas. Os relatos falavam de armadilhas engenhosas, perfeitamente camufladas ao longo dos caminhos de terra.

Eram buracos profundos e letais cuidadosamente cobertos com folhas secas, estacas de madeira pontiagudas escondidas sob a vegetação rasteira e laços de corda que içavam os homens pelos pés em frações de segundo, deixando-os pendurados de cabeça para baixo até uma morte lenta e agonizante.

Os sobreviventes diziam que Mateus havia dominado a arte de imitar perfeitamente os sons dos animais selvagens. Contavam que ele conseguia mover-se pela floresta densa sem quebrar um único galho seco, sendo capaz de permanecer completamente imóvel por horas a fio, apenas esperando o momento exato e fatal para atacar.

Mas havia algo ainda maior por trás daquelas histórias surpreendentes. Algo que o coronel Rodrigues, cegado pelo orgulho, recusava-se veementemente a acreditar. Diziam que Mateus já não estava sozinho contra o mundo.

Rumores sugeriam que outros escravizados fugidos haviam encontrado o caminho até ele, formando um grupo incrivelmente organizado e letal. Dizia-se que Mateus havia estabelecido alianças com remanescentes indígenas que habitavam as partes mais intocadas da floresta.

Ele não estava apenas construindo um esconderijo temporário, mas um verdadeiro quilombo fortificado. Uma fortaleza verde e impenetrável, um santuário sagrado onde aqueles que escapavam de suas correntes podiam finalmente viver livres.

Em agosto de 1835, exatamente seis meses após a fuga que desafiou o sistema, o coronel Rodrigues tomou a sua decisão mais desesperada. Elevou a recompensa a uma quantia astronômica e financiou a formação de um verdadeiro exército privado.

Eram vinte e cinco homens, os caçadores mais letais e impiedosos que o dinheiro podia comprar, equipados com as melhores e mais modernas armas de fogo disponíveis na província. A ordem era marchar juntos, com força total, e varrer cada centímetro daquela floresta maldita até que o rebelde fosse aniquilado.

O grande grupo cruzou a linha das árvores em uma manhã fria e envolta em uma névoa espessa. Levavam mulas carregadas com provisões suficientes para duas semanas inteiras, munição capaz de sustentar uma guerra prolongada e a determinação arrogante de não voltar de mãos vazias.

Nos primeiros três dias, avançaram com extrema cautela. Examinavam cada trilha de terra, cortavam a folhagem com facões pesados e investigavam cada sombra suspeita. Não encontraram absolutamente nenhum sinal de vida humana. Encontraram apenas a floresta impenetrável e um silêncio opressor que esmagava os seus nervos.

Na quarta noite, enquanto estavam acampados às margens de um rio escuro, o inferno finalmente se manifestou. Não houve confronto aberto, nem gritos de guerra, nem troca de tiros. Foi uma sucessão de golpes rápidos, cirúrgicos e brutais vindos da escuridão absoluta.

Flechas com pontas envenenadas rasgavam o ar sem emitir o menor som. Homens fortes e armados simplesmente desapareciam na noite quando se afastavam alguns metros da luz da fogueira para fazer suas necessidades. Tudo o que restava eram gritos abafados e o som de corpos sendo arrastados pela floresta úmida.

Quando o sol nasceu no horizonte, iluminando o acampamento manchado de sangue, o grupo de vinte e cinco caçadores havia sido brutalmente reduzido a dezoito. O pânico instalou-se imediatamente.

Joaquim das Neves, um caçador conhecido em toda a região por sua compostura inabalável, olhou para os corpos desaparecidos e sussurrou: “Precisamos fugir imediatamente.”

Mas o líder da expedição, um ex-militar linha-dura chamado Capitão Mendonça, sacou sua arma e recusou-se a voltar atrás. O capitão afirmou: “Entramos na floresta para cumprir uma missão militar e não voltaremos para a civilização humilhados e derrotados por um único negro fugitivo.”

O erro trágico de Mendonça foi continuar acreditando que estavam enfrentando apenas um homem.

Nos dias agonizantes que se seguiram, a ilusão desmoronou. Ficou dolorosamente claro que eles estavam lidando com uma força muito maior e mais implacável. Os ataques noturnos continuaram, sempre rápidos como o relâmpago, sempre fatais.

Os caçadores atiravam às cegas na escuridão, mal conseguindo vislumbrar os seus adversários. O inimigo era feito de sombras velozes que dançavam entre os troncos das árvores antigas, desferindo golpes que pareciam surgir de todas as direções simultaneamente. Cada caminho escolhido revelava novas e elaboradas armadilhas que ceifavam vidas a cada passo em falso.

Após duas semanas de puro terror psicológico e físico, apenas cinco homens do grupo original de vinte e cinco ainda respiravam. Estavam completamente perdidos, com a munição praticamente esgotada, famintos e com as mentes despedaçadas pelo medo.

Derrotados, decidiram abandonar suas armas pesadas e tentar desesperadamente encontrar o caminho de volta para casa. Mas a floresta parecia ter mudado de forma. As matas que haviam cruzado na ida agora não faziam o menor sentido.

Pontos de referência familiares haviam desaparecido como por encanto. Trilhas sinuosas levavam-nos a abismos e pântanos que não reconheciam. Nessa fuga cega, três dos sobreviventes se afogaram ao tentar cruzar um rio cujas águas haviam subido violentamente com as tempestades recentes.

Os dois últimos homens restantes, um dos quais era o obstinado Capitão Mendonça, finalmente conseguiram emergir da escuridão da floresta após longos e agonizantes vinte e três dias de pesadelo.

Rastejaram pelas terras da plantação mais mortos do que vivos. Seus corpos estavam cobertos de feridas purulentas e infectadas, e suas mentes estavam mergulhadas no delírio provocado pela fome severa e pelas febres intensas.

O orgulhoso Capitão Mendonça sobreviveu apenas o suficiente para relatar o que seus próprios olhos haviam testemunhado. Em seu leito de morte, tremendo e suando profusamente, ele não falou de um escravizado assustado.

Ele descreveu, em murmúrios aterrorizados, um lugar magnífico no coração pulsante da floresta, onde dezenas de pessoas viviam em absoluta liberdade. Falou de uma comunidade perfeitamente organizada, com casas de palha resistentes, extensas plantações verdes e defesas militares formidáveis.

E no centro daquele território impossível, comandando a todos com sabedoria e força indomável, estava Mateus. Ele já não era o cativo cabisbaixo da plantação Santo Antônio. Havia se tornado um líder nato, um guerreiro implacável, um homem que havia transformado a sua própria fuga em uma grande e silenciosa revolução.

Com os seus últimos suspiros, o capitão revelou a verdadeira mensagem que trouxera. Disse que Mateus os havia poupado de propósito. Que o líder guerreiro olhara bem no fundo dos seus olhos e deixara claro que queria que eles vivessem apenas para contar exatamente aquela história.

Mateus queria que senhores e escravizados soubessem que havia um santuário intocável onde o seu povo reinava livre, e que qualquer força humana que tentasse destruir aquele solo sagrado encontraria apenas uma morte sangrenta.

Depois daquele dia sombrio, o coronel Rodrigues nunca mais ousou enviar um único homem atrás de Mateus. Seu orgulho sem limites foi totalmente esmagado pelo peso inegável da realidade.

A história fenomenal do fugitivo que havia aniquilado um pequeno exército espalhou-se rapidamente por toda a província da Bahia. Alguns donos de engenho, aterrorizados, triplicaram a vigilância em suas senzalas. Outros, no entanto, sucumbiram ao medo latente e secretamente começaram a tratar os seus cativos com menos brutalidade, apavorados com a terrível ideia de despertar um novo Mateus em suas próprias terras.

Nos anos e décadas seguintes, dezenas de escravizados continuaram a desaparecer misteriosamente das vastas plantações do Recôncavo. Embora alguns poucos fossem capturados nos caminhos, a grande maioria simplesmente sumia no ar, e a suspeita geral era sempre a mesma.

No fundo de suas almas oprimidas, todos sabiam que aqueles homens e mulheres corajosos haviam encontrado o caminho oculto para o quilombo indestrutível de Mateus. Aquele pedaço de terra livre que haviam conquistado ganhou um nome sussurrado com terror pelos senhores brancos e com devoção inabalável pelos negros escravizados: a Mata da Liberdade.

O grande guerreiro Mateus nunca mais foi visto por olhos inimigos fora das fronteiras daquela floresta profunda. Ele reinou ali soberanamente por mais de vinte anos, dedicando cada dia de sua vida a construir, nutrir e proteger a sua amada comunidade livre.

Quando a Lei Áurea finalmente aboliu a escravidão no papel no Brasil, no final do ano de 1888, muitos dos descendentes daqueles bravos refugiados saíram da floresta escura, estabelecendo-se pacificamente em vilas vizinhas banhadas pelo sol da liberdade.

Mas alguns escolheram permanecer para sempre sob a sombra protetora das árvores antigas, mantendo vivo o coração pulsante daquela comunidade que havia surgido unicamente da coragem monumental de um único homem que se recusou a viver com correntes nos pés.

A saga de Mateus transcendeu a própria mortalidade e tornou-se uma lenda imortal, passada oralmente de avós para netos através de incontáveis gerações. Os mais velhos daquela região dizem que ele partiu pacificamente em 1857, aos cinquenta e quatro anos de idade, maravilhosamente cercado pelo amor de seus filhos e netos, de pé, firme e orgulhoso na terra que ele mesmo havia conquistado com tanto sangue, inteligência e suor.

Segundo a antiga lenda, o seu corpo repousa em uma tumba secreta, silenciosamente guardada pelas raízes profundas da floresta antiga, um lugar sagrado que o opressor nunca conseguiu profanar ou sequer encontrar.

Os moradores locais juram que, ainda hoje, se você se aventurar por aquelas matas escuras e escutar atentamente o sussurro do vento, poderá ouvir os ecos vívidos e grandiosos daqueles dias de luta heroica. Poderá ouvir os sussurros eternos de liberdade vibrando entre as folhas seculares.

Dos mais de cem caçadores gananciosos que invadiram aquele santuário verde entre os anos violentos de 1835 e 1836, a esmagadora maioria encontrou apenas o silêncio amargo da morte. Seus nomes mesquinhos foram apagados pelo tempo implacável e completamente varridos da memória da terra.

Mas o nome de Mateus permaneceu gravado na história e na alma do seu povo para sempre. E a razão era muito simples e imensamente poderosa: enquanto os invasores derramavam o seu próprio sangue por apenas algumas moedas de prata, Mateus lutou heroicamente pelo direito inalienável de ser livre, de viver com dignidade absoluta e de garantir um futuro onde o seu povo pudesse, finalmente, caminhar com a cabeça erguida sob o vasto céu aberto.