Em 1992, Rosângela Santos acelerou seu Scania R113 vermelho pela última vez na BR-116, perto da fronteira com o Uruguai. Ela tinha 28 anos, era casada e tinha 6 anos de estrada. Às 23h47, ela parou no posto de gasolina Estrela do Sul para passar a noite. Por volta das 5h30 da manhã seguinte, o caminhão havia desaparecido. Nenhum rastro, nenhuma pista.
A polícia concluiu que ela havia fugido com o carregamento de eletrônicos. Seu marido, Sérgio, nunca acreditou nisso. Vinte anos depois, uma operação de mergulho no rio Jaguarão faria uma descoberta que mudaria tudo. Mas nossa história começa três dias antes, em uma terça-feira fria de julho de 1992, no pátio da transportadora São José, em Porto Alegre.
Rosângela estava checando os pneus do seu Scania quando ouviu a voz inconfundível de Jair, o despachante:
“Rosa, seu próximo carregamento vai ser especial. Eletrônicos de alto valor para Montevidéu: televisores, videocassetes, aparelhos de som. Vale mais de 200 mil.“
Rosângela assentiu, prendendo o cabelo loiro em um rabo de cavalo. Aos 28 anos, ela era uma das poucas mulheres na estrada. Uma raridade que sempre chamava a atenção. De alguns com admiração, de outros com desconfiança.
“Documentação da carga, está tudo certo?“
perguntou ela, checando os papéis com a meticulosidade que lhe garantira o respeito dos colegas homens.
“Tudo certo. Mas Rosa, tome cuidado. Essa rota tem estado perigosa ultimamente. Muitos roubos na fronteira.“
Ela deu uma risada seca.
“Jair, com todos os meus anos de estrada, já passei por coisas piores que qualquer bandido.“
E era verdade. Rosângela enfrentou o preconceito desde o primeiro dia. Filha de caminhoneiro, cresceu vendo o pai, João Santos, sair de madrugada no seu caminhão azul para sustentar a família. Quando ele morreu num acidente na rodovia Régis Bittencourt, ela tinha 22 anos, e uma coisa era certa: seguiria os passos dele.
“Mulher, você não vai dar conta da estrada,” disseram seus colegas quando ela tirou a carteira de motorista, categoria E. “Você vai causar problemas, vai ser assaltada, vai ser um peso para todo mundo.“
Mas Rosângela provou que eles estavam errados. Em seis anos, nunca bateu o caminhão, nunca perdeu uma carga e nunca perdeu um prazo. Ela ficou conhecida pelo apelido de Rosa Ferro, tanto por sua determinação quanto por sua habilidade em manobrar o Scania R113 em espaços que muitos homens não conseguiam. Seu marido, Sérgio, também era caminhoneiro, mas trabalhava para outra empresa.
Eles se conheceram em um posto de gasolina na BR-101 quando ela teve um problema no motor e ele parou para ajudar. Após anos de namoro e casamento em 1990, agora falavam em se estabelecer para ter filhos.
“Mais um ano na estrada e eu paro,“
ela sempre dizia,
“quero ter pelo menos dois filhos antes dos 30.“
Naquela terça-feira, Rosângela carregou os eletrônicos sob supervisão estrita. Televisores Sony, toca-fitas Panasonic, aparelhos de som Pioneer: tudo lacrado, tudo documentado. A carga mais valiosa que ela já havia transportado.
“Se houver qualquer problema, você para e liga para a empresa,” orientou Jair. “Não tente bancar a heroína com um fardo desses.“
“Fique tranquilo!” ela respondeu, ajeitando a imagem de São Cristóvão no painel. “Meu pai sempre dizia: ‘Na estrada, Deus ajuda quem se ajuda’, e eu sempre me ajudo muito bem.“
A viagem para Montevidéu levaria dois dias. Primeira parada em Pelotas para descanso obrigatório, depois seguiria para a fronteira. Rosângela saiu de Porto Alegre às 14h, com o forte sol de inverno iluminando o asfalto da BR-116. O Scania RC113 vermelho roncava suavemente. Era um caminhão bem conservado, ano 1989, com um motor V8 que rendia 330 cavalos de potência.
Rosângela o conhecia como a palma da mão. Cada som, cada vibração era quase uma extensão do seu corpo. Dirigindo pelas planícies do Rio Grande do Sul, ela ligou o rádio em uma estação que tocava música sertaneja. As vozes de Chitãozinho e Xororó encheram a cabine com “Evidências”.
Ela cantarolou junto, pensando em Sérgio, que estava em viagem para Santa Catarina. Às 18h, parou num conhecido posto de gasolina próximo a Camaquã para reabastecer e jantar. A movimentação era típica de final de tarde. Caminhoneiros terminando suas jornadas, carros de passeio reabastecendo para continuar a viagem.
Foi no restaurante do posto que Rosângela teve seu primeiro encontro desagradável da viagem. Ela estava na fila do self-service quando ouviu comentários vindos de uma mesa próxima. Dois homens, aparentando cerca de 30 anos, conversavam alto o suficiente para que ela ouvisse.
“Olha, mais uma mulherzinha brincando de caminhoneira”,
disse o mais alto, de bigode grosso.
“Aposto que não sabe nem dar ré.“
O outro, mais baixo e gordinho, riu.
“Essas aí só servem para causar problema na estrada. Não sabem dirigir, ficam nervosas, criam confusão.“
Rosângela sentiu o sangue ferver, mas continuou pegando sua comida. Arroz, feijão, bife acebolado, salada. Comida simples, como sempre comia.
“E olha a carga que ela deve estar levando”, continuou o de bigode. “Provavelmente é só um trem acompanhando algum homem. Uma mulher não daria conta de uma viagem dessas sozinha.“
Foi aí que Rosângela não aguentou mais. Pagou sua refeição e foi até a mesa onde os dois homens estavam.
“Com licença”,
disse ela, colocando a bandeja na mesa ao lado.
“Não pude deixar de ouvir a conversa de vocês.“
Os dois pararam de falar e olharam para ela com expressões de surpresa e desconforto.
“Meu nome é Rosângela Santos. Tenho 6 anos de experiência na estrada”,
continuou a voz firme, porém controlada.
“Nunca bati o meu caminhão, nunca perdi uma carga e nunca precisei da ajuda de nenhum homem para fazer o meu trabalho. Dirijo um Scania na 116 há 3 anos e garanto que manobro melhor que muito homem por aí.“
O de bigode tentou rir.
“Ihh, que coisa! A mocinha ficou brava.“
“Eu não fiquei brava”, retrucou Rosângela. “Só quero deixar claro que mulher na estrada não é piada, é profissão e eu exijo respeito por isso.“
“Respeito?“
zombou o gordinho.
“Você é bonita. Devia estar em casa cuidando dos filhos, cozinhando para o marido. Esse negócio de mulher dirigindo caminhão é loucura.“
Rosângela sorriu friamente.
“Engraçado você dizer isso. Eu sou casada, sim, e pretendo ter filhos, sim, mas primeiro vou realizar o meu sonho profissional. E outra coisa, beleza não tem nada a ver com competência. Cheguei onde estou porque sei dirigir, não porque sou bonita.“
“Ah, é?” provocou o homem de bigode, levantando-se. “Então… Prove. Vamos ver se você dá conta mesmo daquele caminhão vermelho lá fora.“
O posto de gasolina estava ficando movimentado com a chegada de mais caminhões. Vários caminhoneiros começaram a notar a discussão e se aproximaram.
“Problema aqui?“
perguntou um veterano de barba grisalha.
“Problema nenhum,“
disse Rosângela.
“Só uns colegas aqui duvidando da minha capacidade profissional. Vou dar uma pequena demonstração.“
O que aconteceu a seguir se tornaria uma lenda entre os caminhoneiros daquela região. Rosângela terminou rapidamente sua refeição e saiu para o pátio do posto. Uma pequena multidão a seguiu, curiosa para ver o que aconteceria. O pátio estava lotado, com caminhões estacionados em espaços apertados. O seu Scania estava em uma posição difícil, espremido entre dois outros caminhões e com pouco espaço para manobrar.
Era exatamente o tipo de situação que separava motoristas experientes dos inexperientes.
“Vou tirar o meu caminhão dali e dar a volta no pátio,” anunciou ela. “Depois vou estacionar na vaga mais apertada que encontrar.“
Os dois provocadores riram.
“Quero ver isso,“
disse o de bigode.
Rosângela subiu no caminhão. Puxou a cabine, ligou o motor e começou a manobra. Com movimentos precisos, saiu da vaga apertada, realizando uma complexa baliza que exigiu várias viradas de direção. Em nenhum momento chegou perto de bater nos outros veículos. A pequena multidão fez silêncio, impressionada com a habilidade dela, mas Rosângela não havia terminado.
Ela circulou completamente pelo pátio, demonstrando controle total sobre o Scania de 330 cavalos. Então, escolheu a vaga mais difícil disponível entre dois caminhões, com margem de erro de não mais que 50 cm de cada lado.
“Jesus!” murmurou um dos caminhoneiros veteranos. “Essa vaga é difícil até para mim.“
Rosângela iniciou a manobra. Ré devagar, volante para a direita. Endireita, ré, volante para a esquerda. Cada movimento era calculado, preciso. Em 5 minutos, o Scania estava perfeitamente estacionado na vaga impossível. A multidão explodiu em aplausos.
“Meu Deus,” disse o frentista. “Em 20 anos aqui, eu nunca vi uma baliza dessas.“
Os dois provocadores estavam vermelhos de constrangimento. O de bigode tentou uma última provocação.
“Tudo bem, você sabe dirigir, mas aposto que vai chorar como uma menininha na primeira curva perigosa.“
Foi quando Rosângela finalmente perdeu a paciência.
“Escute aqui, seu machista ignorante,“
disse ela, descendo do caminhão e se aproximando dele.
“Eu dirijo na estrada há 6 anos. Já enfrentei tempestades, neblina, serras, assaltantes, pneu furado, motor fundido e todo tipo de problema imaginável. Eu nunca chorei, nunca pedi ajuda, nunca precisei de nenhum homem para resolver os meus problemas.“
Ela parou bem em frente a ele, os olhos chispando de raiva.
“E sabe por quê? Porque o meu pai me ensinou que na estrada não há homens nem mulheres. Há profissionais competentes e profissionais incompetentes. E, pelo que estou vendo, vocês dois são do segundo tipo.“
O silêncio no pátio era total. Até os motores dos caminhões pareciam ter baixado o ruído.
“Agora com licença,“
continuou Rosângela.
“Porque eu tenho uma carga para entregar, um prazo a cumprir e uma reputação a manter. Coisas que vocês provavelmente não entendem.“
Ela se virou para a multidão de caminhoneiros que assistiam a tudo.
“E para todos vocês que ainda acham que mulher não tem lugar na estrada, lembrem-se do que viram aqui hoje. Rosângela Santos, também conhecida como Rosa Ferro, nunca envergonhou ninguém e nunca vai envergonhar.“
Os aplausos recomeçaram, mais altos que antes. Desta vez, vários caminhoneiros se aproximaram para cumprimentá-la.
“Parabéns, Rosa,“
disse o veterano da barba grisalha.
“Você deu a eles uma lição que não vão esquecer.“
“Mulher, como você honra a profissão,“
comentou outro.
Rosângela agradeceu os elogios, mas notou que os dois provocadores haviam desaparecido, provavelmente envergonhados demais para permanecer no posto. Ela não sabia que eles tinham saído para fazer algumas ligações.
Às 20h, Rosângela estava de volta à estrada. O episódio no posto a encheu de energia. Sempre que enfrentava o preconceito e conseguia provar sua competência, sentia-se mais forte, mais determinada. Ela ligou o rádio do caminhão na frequência dos caminhoneiros e logo se conectou com outros colegas na estrada.
“Aqui é a Rosa Ferro. Scania vermelha descendo para Pelotas. Alguém tem informações sobre a pista?“
“Rosa,“
chamou uma voz conhecida no rádio,
“aqui é o João do Volvo azul. Tudo tranquilo na descida. Fiquei sabendo que você fez uma bela baliza lá no Estrela do Sul.“
Ela riu.
“As notícias correm rápido na estrada, não é, João? Eu só mostrei para uns machistas que mulher também sabe dirigir.”
“O pessoal todo aqui está falando disso,” disse outra voz. “Dizem que você estacionou numa vaga que nem o Manuel do Mercedes conseguiria.”
“Exagero, pessoal,” respondeu Rosângela. “Eu só estava fazendo o meu trabalho.”
“Rosa,” intrometeu-se uma terceira voz, “aqui é o Carlinhos do Scania branco. Estou uns 50 km à sua frente. Tem uma neblina forte começando a se formar. Cuidado.”
“Obrigada, Carlinhos. Já estou diminuindo a velocidade.”
A neblina era um problema comum naquela região durante o inverno. Rosângela reduziu a velocidade e ligou os faróis de neblina. A visibilidade caiu para menos de 50 metros. Foi assim, devagar e com cuidado, que ela chegou a Pelotas às 20h. Parou na parada de caminhões que costumava frequentar, onde havia um bom restaurante e dormitório para caminhoneiros.
“Rosa!” gritou Dona Maria, a dona do restaurante. “Que saudade de você, menina. Quanto tempo faz que não aparece por aqui?”
“Oi, Dona Maria,” respondeu Rosângela, dando um abraço apertado na senhora baixinha e simpática. “Estive fazendo outras rotas, mas agora vou voltar para o Mercosul. E o Sérgio, como está aquele seu marido bonito?”
“Ele está bem, trabalhando também. Não nos vemos muito, mas… É assim mesmo na nossa profissão.”
Dona Maria preparou um jantar especial. Costela assada com polenta, salada de repolho e doce caseiro. Comida que aquecia o corpo e a alma numa noite fria de inverno.
“Dona Maria,” disse Rosângela enquanto jantava, “a senhora, que conhece todo mundo por aqui, tem notado algo estranho ultimamente? Gente nova rondando os postos, seguindo caminhões?”
A expressão de Dona Maria mudou.
“Por que você pergunta, filha?”
“Intuição feminina. Desde que saí de Porto Alegre, tenho a sensação de que estou sendo vigiada.”
Dona Maria olhou em volta, certificando-se de que ninguém ouvia. Então, inclinou-se sobre a mesa.
“Rosa, sim, tem algumas coisas estranhas acontecendo. Caminhões desaparecendo, cargas sendo roubadas. Mas não é um roubo comum. É organizado. Eles sabem que tipo de carga cada caminhão está levando.”
“Como assim?”
“Parece que alguém está passando informações. Alguém que tem acesso aos manifestos de carga das transportadoras.”
Rosângela sentiu um frio no estômago. Sua carga de eletrônicos valia uma fortuna.
“Dona Maria, a senhora acha que devo ligar para a minha empresa?”
“Eu ligaria, filha. Seguro morreu velho.”
Rosângela terminou o jantar e foi até o telefone público do posto. Ligou para a transportadora São José, mas já era quase meia-noite e apenas o segurança estava lá.
“Seu Osvaldo, aqui é a Rosa. Queria falar com o Jair sobre umas informações que recebi.”
“Rosa, o Jair só chega amanhã de manhã. Aconteceu alguma coisa?”
“Não, não. Só umas dúvidas sobre a rota. Eu ligo amanhã.”
Ela desligou, mas a preocupação continuava. Decidiu dormir no caminhão, mantendo a carga sempre à vista. A área de repouso na cabine do Scania R113 era espartana, porém confortável. Rosângela baixou a cortina, estendeu o colchão fino e deitou-se vestida, com o rádio baixo para ouvir qualquer movimento suspeito.
Antes de adormecer, olhou para a foto de Sérgio, que mantinha presa na parede da cabine, ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.
“Mãezinha,” sussurrou, “proteja a minha viagem e faça com que eu chegue logo em casa para dar a boa notícia ao Sérgio.”
A boa notícia era que ela tinha certeza de que estava grávida. Ainda não havia feito o exame, mas conhecia o próprio corpo. Os sinais estavam todos lá. Aquela seria a sua última viagem longa antes de parar para cuidar do bebê. Adormeceu pensando na surpresa que faria ao marido.
Às 5 da manhã, Rosângela acordou com o som de motores sendo ligados. O posto já começava a ficar movimentado com os caminhoneiros partindo para suas jornadas. Ela tomou um café forte com Dona Maria, verificou o óleo e a água do caminhão e preparou-se para a última etapa da viagem: seguir para Jaguarão e, então, cruzar a fronteira com o Uruguai.
“Cuidado, filha,” disse Dona Maria, entregando um pacote de biscoitos caseiros. “E se tiver qualquer problema, você para e liga, entendeu?”
“Entendi, Dona Maria. Obrigada por tudo.”
Às 6h30, o Scania vermelho deixou Pelotas rumo ao sul. A manhã estava fria e clara, com geada cobrindo os campos. Rosângela aumentou o volume do rádio e sintonizou uma estação que tocava música gaúcha. “De madrugada, quando o galo canta,” ela cantarolava junto com a música. “O peão se arruma pra mais uma lida.”
A BR-116 estava tranquila àquela hora da manhã. Poucos carros, alguns caminhões espaçados. Rosângela mantinha uma velocidade constante de 80 km/h na faixa A, sempre atenta ao trânsito e às condições da pista. Foi às 8h30, ao passar por uma área rural perto de Herval, que ela notou o que vinha incomodando-a desde o dia anterior.
Um sedã azul escuro com dois ocupantes que aparecia e desaparecia no trânsito, mantendo sempre uma distância de alguns quilômetros. Quando ela reduzia a velocidade, eles também reduziam. Quando ela acelerava, eles aceleravam.
“Filhos da mãe!” ela murmurou, pegando o rádio. “Aqui é a Rosa Ferro, Scania vermelha, perto do quilômetro 320. Mais alguém na estrada?”
“Rosa, aqui é o Valdeci, do Mercedes verde,” uma voz respondeu. “Estou uns 20 km à sua frente. Algum problema?”
“Valdeci, tem um sedã azul que parece estar me seguindo. Você poderia diminuir a velocidade e me acompanhar por um trecho?”
“Claro, Rosa, já estou reduzindo. Fico esperando por você.”
Rosângela acelerou um pouco, tentando alcançar o Mercedes de Valdeci. No espelho retrovisor, ela viu o sedã azul acelerar também, confirmando suas suspeitas. Dez minutos depois, ela alcançou o Mercedes verde de Valdeci, um caminhoneiro veterano que ela conhecia há anos. Valdeci a chamou pelo rádio:
“Está vendo aquele sedã azul atrás de mim?”
“Estou vendo, Rosa. Dois homens na frente e, definitivamente, estão te seguindo. O que você acha que eu devo fazer?”
“Vamos fazer o seguinte. Eu vou na frente, você no meio. Vamos procurar o primeiro posto com movimento. Nós paramos lá e vemos o que esses caras querem.”
“Combinado.”
Os dois caminhões viajaram em comboio pelos próximos 30 km, sempre vigiados pelo sedã azul. Em nenhum momento, os ocupantes do carro tentaram se aproximar ou fazer movimentos agressivos; eles simplesmente mantinham a distância. Às 9h45, eles chegaram a um posto de gasolina na entrada de Jaguarão. Era um posto grande, com tráfego intenso de caminhões em direção à fronteira.
“Rosa,” Valdeci disse pelo rádio. “Vamos parar. Eu entro primeiro, você entra em seguida. Vamos ver se eles param também.”
Rosângela observou pelo espelho retrovisor. O sedã azul diminuiu a velocidade quando eles entraram no posto, mas não entrou. Passou direto e desapareceu na estrada.
“Estranho,” comentou Valdeci quando eles se encontraram no estacionamento do posto. “Se fossem assaltantes, teriam tentado alguma coisa.”
“Sim,” concordou Rosângela, mas ainda preocupada. “Talvez quisessem apenas saber onde eu iria parar. Rosa, quer que eu te acompanhe até a fronteira? Minha carga não tem prazo marcado.”
Ela sentiu-se tentada a aceitar, mas a sua independência prevaleceu.
“Não, Valdeci, muito obrigada, mas eu me viro. Talvez tenha sido apenas paranoia da minha parte.”
“Tem certeza?”
“Tenho, mas agradeço pela ajuda.”
Eles se despediram com um abraço, e Valdeci seguiu por uma rota diferente. Rosângela abasteceu o caminhão, checou os pneus mais uma vez e foi para o restaurante do posto almoçar. Foi lá que o segundo encontro, que selaria o seu destino, aconteceu.
No restaurante, ela imediatamente reconheceu duas figuras familiares. Eram os dois homens que haviam causado problema no posto de gasolina no dia anterior. O de bigode e o gordinho estavam sentados em uma mesa de canto, comendo e conversando baixinho. Quando a viram entrar, fecharam a cara. Rosângela fingiu não tê-los visto e foi até o balcão do self-service, mas sentia o olhar deles cravado em suas costas.
“Que coincidência estranha,” pensou ela. “Dois dias seguidos no mesmo lugar que eu.”
Ela pegou a comida rapidamente e sentou-se em uma mesa perto do balcão, de onde podia observar o movimento do restaurante. Os dois homens terminaram de comer e saíram, mas ela notou que eles não foram para os caminhões estacionados lá fora. Em vez disso, foram para o estacionamento de carros.
“Filhos da mãe,” murmurou ela. Eram eles no sedã azul.
Rosângela terminou o almoço apressada e saiu para checar se eles ainda estavam no posto. Não havia nenhum sinal do sedã azul. De volta ao caminhão, ela pegou o rádio e tentou contatar Valdeci, mas ele já estava fora de alcance. Tentou então ligar para a empresa de um telefone público, mas era horário de almoço e ninguém atendeu.
Ela ficou parada ali por alguns minutos, pensando no que fazer. Podia voltar para Pelotas e adiar a entrega. Podia ligar para a Polícia Rodoviária, ou podia continuar a viagem, apostando que sua preocupação era exagerada. A profissional dentro dela venceu. Tinha uma carga para entregar, um prazo a cumprir e uma reputação a manter. Dois machistas furiosos não iam intimidá-la.
Às 13h, o Scania vermelho deixou o posto rumo à fronteira com o Uruguai. Faltavam apenas 40 km para a alfândega de Jaguarão, onde ela passaria pelos trâmites de exportação antes de cruzar para Rio Branco. A tarde estava ensolarada, mas o vento era forte, típico da região de fronteira, onde os ventos dos pampas sopram sem obstáculos.
Rosângela ligou o rádio em uma estação uruguaia que tocava candombe e milonga. Ela estava se sentindo mais relaxada quando, 20 km após deixar o posto, a emboscada aconteceu.
Ela estava dirigindo por uma longa reta deserta quando viu um carro cerca de 500 metros à frente. O carro atravessava a pista. Parecia um acidente. Ela diminuiu a velocidade, preparando-se para parar e oferecer ajuda. Foi quando percebeu que era o sedã azul que a estivera seguindo.
“Filhos da…” ela xingou, freando bruscamente.
No espelho retrovisor, viu outro carro se aproximar rapidamente por trás. Era uma caminhonete vermelha que surgiu do nada, como se estivesse escondida em uma estrada lateral. Estava encurralada. Seu primeiro instinto foi tentar forçar a passagem, usando o peso do caminhão para empurrar o sedã, mas havia pessoas perto do carro e ela não queria machucar ninguém, mesmo que fossem seus antagonistas.
Ela parou o Scania a cerca de 20 metros do sedã. Os dois homens do posto de gasolina saíram do carro e se aproximaram da cabine. O de bigode carregava uma chave de roda. O gordinho tinha algo que parecia uma arma.
“Sai do caminhão!” gritou o de bigode.
“Agora vocês se ferraram,” respondeu Rosângela, trancando as portas da cabine. “Não vou sair daqui, droga.”
“Sai ou vamos te arrastar à força,” ameaçou o gordinho, apontando o que agora ela tinha certeza de que era uma arma.
Mais dois homens saíram da caminhonete vermelha, ambos jovens e com aparência nada amigável. Rosângela rapidamente avaliou suas opções. Podia tentar lutar, mas a caminhonete estava muito próxima atrás dela. Podia tentar acelerar para a frente, mas isso significaria atropelá-los.
Foi quando se lembrou dos conselhos de seu pai na estrada: quando não puder lutar, negocie. Quando não puder negociar, reze. Ela abriu um pouco a janela, o suficiente para falar.
“O que vocês querem?” ela gritou.
“Queremos que você desça e nos entregue as chaves,” respondeu o de bigode. “E também queremos um pedido de desculpas pelo constrangimento que nos causou ontem.”
“Eu não fiz nada além de defender a minha profissão,” retrucou Rosângela. “Vocês é que foram machistas e desrespeitosos, seu gordo babaca.”
“Agora você vai aprender o que é desrespeito, sua [ __ ].”
A palavra a atingiu como um estalo. Toda a raiva acumulada em anos de preconceito explodiu de uma vez.
“Vocês não passam de uns [ __ ],” ela gritou, abrindo a janela de vez. “Sou uma profissional respeitada, trabalho na estrada há anos e não aceito insultos de machistas nojentos como vocês.”
“Cale a boca!” berrou o de bigode, tentando alcançar a maçaneta. “Desça agora ou vai se arrepender.”
“Venha me tirar daqui, seu covarde,” desafiou Rosângela. “Quatro homens contra uma mulher? Quanta bravura!”
Foi quando ela notou que um dos jovens da caminhonete estava fazendo algo estranho. Ele havia se separado do grupo e mexia em algo perto das rodas traseiras do caminhão.
“[ __ ],” murmurou ela. “Estão soltando os freios!”
Era uma tática conhecida de assaltantes. Eles liberavam o sistema de freio pneumático do caminhão, deixando-o incapaz de parar ou frear corretamente. Rosângela tentou ligar o motor, mas um dos jovens havia subido no para-choque dianteiro e estava desconectando a bateria. Em questão de minutos, ela estava completamente imobilizada.
“Agora você vai descer e nos pedir desculpas de joelhos,” disse o de bigode com um sorriso malicioso.
“Nunca!” gritou Rosângela.
Foi aí que o gordinho perdeu a paciência. Ele foi para a traseira do caminhão e começou a quebrar os lacres da carga com uma marreta.
“Não!” gritou Rosângela, finalmente saindo da cabine. “Não toque na carga!”
Aquilo era exatamente o que eles queriam. No momento em que ela saiu, foi dominada.
“Agora sim,” disse o de bigode, agarrando-a pelos braços. “Agora você vai aprender a respeitar os homens.”
O que aconteceu nas duas horas seguintes foi o pior pesadelo de Rosângela. Eles a humilharam, agrediram verbalmente e a forçaram a pedir desculpas de joelhos pela afronta do dia anterior.
“Agora você vai aprender qual é o lugar da mulher,” disse o de bigode, enquanto os outros saqueavam metodicamente a carga de eletrônicos. “Na cozinha, não na estrada.”
Rosângela chorou de raiva e humilhação, mas não de medo. Mesmo naquela situação, sua mente trabalhava, buscando uma saída. Foi quando ouviu o som distante de um motor se aproximando.
“Vem vindo alguém,” avisou um dos jovens.
“[ __ ]!” praguejou o gordinho. “Ele não pode nos ver aqui.”
O de bigode olhou para Rosângela, para o caminhão, e depois para a estrada que levava ao Rio Jaguarão, a menos de 2 km dali.
“Mudança de planos,” disse ele friamente. “Vamos levá-la com o caminhão para o outro lado.”
“Para onde?” perguntou o gordinho.
“Sabe aquela estrada velha que vai dar na ponte abandonada sobre o rio Jaguarão? A que usavam antes de construírem a nova?”
“Sei, mas aquela ponte está interditada há anos.”
“Exatamente. Ninguém vai procurar lá.”
Rosângela sentiu o sangue gelar. Ela conhecia aquela ponte: uma estrutura de ferro construída nos anos 1940, abandonada quando construíram a nova ponte de concreto. A estrada que levava até lá era praticamente intransitável, cheia de buracos e mato alto. E sob a ponte, o Rio Jaguarão tinha mais de 15 metros de profundidade.
“Não,” ela murmurou. “Por favor, não.”
“Está com medo agora?” zombou o de bigode. “Para onde foi toda aquela bravura de ontem?”
Forçaram-na a subir na cabine do caminhão. Um dos jovens dirigiria o Scania, enquanto os outros os seguiriam nos dois carros.
“Se você tentar alguma coisa,” ameaçou o gordinho, pressionando a arma contra a cabeça dela. “Eu te mato aqui mesmo.”
O jovem que assumiu a direção claramente não sabia dirigir um caminhão. Ele deixou o motor morrer três vezes antes de conseguir engatar a primeira marcha. O Scania chacoalhou e roncou como um animal ferido.
“Devagar, seu idiota!” gritou o de bigode através do rádio comunicador que haviam instalado entre os veículos. “Se você destruir esse caminhão antes da hora, eu destruo você também.”
A estrada até a ponte abandonada era exatamente como Rosângela se lembrava: um pesadelo de buracos, pedras soltas e curvas acentuadas. O jovem lutava para manter o caminhão na pista enquanto ela rezava silenciosamente para Nossa Senhora Aparecida.
“Mãezinha,” sussurrou ela. “Se é para eu morrer, que seja rápido. E, por favor, cuide do Sérgio. Diga a ele que o amei até o último segundo.”
Vinte minutos depois, chegaram à ponte abandonada. Era exatamente como ela se lembrava: uma estrutura de ferro enferrujado com várias vigas quebradas, estendendo-se sobre as águas escuras do Rio Jaguarão. Do lado direito da estrada, uma rampa de terra levava até a parte de baixo da ponte, onde havia uma pequena praia de cascalho usada por pescadores.
“Perfeito,” disse o de bigode, saindo do sedã. “Ninguém vai nos incomodar aqui.”
Pararam os três veículos na entrada da ponte. O sol já estava se pondo, tingindo o céu de laranja e vermelho. Em outras circunstâncias, seria uma bela paisagem.
“E agora?” perguntou o gordinho.
O de bigode olhou para Rosângela, para o caminhão, e depois para o rio lá embaixo.
“Agora nossa amiga vai sofrer um acidente,” disse friamente. “Ela vai perder o controle do caminhão na ponte e cair no rio. Essas coisas acontecem.”
“Vocês estão loucos,” disse Rosângela, com a voz embargada pela emoção. “Isso é assassinato, isso é justiça,” retrucou o de bigode. “Uma mulher que não sabe o seu lugar merece o que acontece.”
Eles a forçaram a voltar para trás do volante do Scania. O plano era simples e macabro. Ela deveria dirigir o caminhão até o meio da ponte, onde simulariam uma perda de controle, fazendo o veículo quebrar a mureta de proteção lateral e cair no rio.
“Apenas acelere e vire o volante para a direita quando eu mandar,” instruiu o de bigode, sentado ao lado dela com a arma apontada. “Vai ser rápido.”
“Por favor!” Rosângela implorou. “Eu tenho marido, família, e estou grávida,” ela mentiu sobre a gravidez (embora desconfiasse ser verdade), esperando despertar algum resquício de humanidade naqueles homens.
“Você deveria ter pensado nisso antes de humilhar os homens,” respondeu friamente o de bigode. “Ligue o caminhão.”
Com as mãos trêmulas, Rosângela deu partida no motor do Scania. O V8 roncou, ecoando debaixo da ponte abandonada.
“Devagar,” ordenou o de bigode. “Primeira marcha até o meio da ponte.”
O caminhão começou a se mover lentamente sobre a estrutura de ferro. As pranchas de madeira que serviam de piso rangiam e gemiam sob o peso do Scania carregado. Rosângela olhou para baixo através de uma fresta nas tábuas. A água escura do Rio Jaguarão fluía silenciosamente 15 metros abaixo. Ela rezava a Nossa Senhora Aparecida silenciosamente:
“Se a senhora existe mesmo, a hora para um milagre é agora.”
Foi nesse exato momento que algo extraordinário aconteceu. O rádio do caminhão, que estava desligado, ligou sozinho de repente. Uma voz feminina, clara e serena, começou a cantar um hino religioso dedicado a Nossa Senhora Aparecida. A música encheu a cabine, alta o suficiente para ser ouvida até por cima do barulho do motor.
“Que diabos é isso?” exclamou o de bigode, tentando encontrar o botão para desligar o rádio. Mas não havia botão ligado. O rádio simplesmente não estava funcionando, mas a música continuava saindo dos alto-falantes.
“Nossa Senhora Aparecida, protetora das estradas, console sua filha nesta hora de aflição,”
cantava a voz, como se fosse direcionada especificamente àquela situação. O de bigode começou a ficar nervoso.
“Desliga essa porcaria!”
ele gritou, batendo no painel. Mas a música não parou. Na verdade, ficou mais alta. Foi quando a segunda coisa inexplicável aconteceu.
A pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida, que Rosângela mantinha no painel, começou a brilhar com uma luz suave, como se iluminada por dentro.
“Jesus Cristo,” murmurou o homem de bigode, testemunhando o fenômeno.
A música religiosa agora era ensurdecedora, e a imagem da santa brilhava cada vez mais intensamente. Rosângela, mesmo em sua situação desesperadora, sentiu uma estranha paz tomar conta de seu coração. Era como se uma presença protetora tivesse entrado na cabine.
“Mãezinha,” sussurrou ela. “Obrigada!”
O de bigode ficava cada vez mais alterado.
“Que tipo de bruxaria é essa?” gritou, tentando desesperadamente encontrar uma explicação racional para o que estava acontecendo.
Foi aí que a terceira coisa aconteceu. O volante do caminhão começou a se mover sozinho, suavemente para a esquerda, contrário à intenção de Rosângela de mantê-lo reto.
“O que você está fazendo?” gritou o de bigode. “Eu mandei seguir em frente.”
“Não sou eu,” respondeu Rosângela, tentando virar o volante para a direita, mas era como se uma força invisível estivesse guiando o caminhão.
O caminhão Scania começou a virar para a esquerda, indo em direção à mureta de proteção do lado oposto ao que os sequestradores haviam planejado.
“Pare com isso!” gritou o de bigode, tentando alcançar o volante.
Mas no exato momento em que ele tirou a mão da arma para tentar controlar a direção, Rosângela agiu. Com um movimento rápido, ela pisou fundo no acelerador e virou o volante bruscamente para a direita — não para mergulhar no rio como eles queriam, mas para sair da ponte e voltar à estrada.
O homem de bigode foi arremessado contra a porta direita da cabine pela força da curva fechada. A arma escorregou da sua mão e caiu no chão. Rosângela acelerou ainda mais, fazendo o Scania praticamente voar sobre os buracos da estrada de terra.
“Pare o caminhão!” gritou o de bigode, tentando recuperar a arma.
Mas Rosângela estava possuída por uma determinação sobrenatural. Ela dirigia como nunca havia dirigido na vida, fazendo o caminhão dançar pela estrada esburacada como se fosse um carro de passeio. Olhando no retrovisor, ela viu o sedã azul e a caminhonete vermelha tentando segui-la, mas eles não conseguiam acompanhar o ritmo frenético que ela havia estabelecido.
“Você vai nos matar!” gritou o de bigode, segurando-se como podia.
“Prefiro morrer dirigindo a ser assassinada por você,” respondeu Rosângela, contornando uma curva fechada sem diminuir a velocidade. A música religiosa continuava tocando no rádio, agora uma trilha sonora épica para a sua fuga desesperada.
Cinco minutos de perseguição implacável depois, Rosângela viu algo adiante que fez seu coração saltar de alegria: uma barreira da Polícia Rodoviária Federal. Ela acelerou ainda mais, buzinando freneticamente para atrair a atenção dos policiais. O homem de bigode, percebendo que tudo estava perdido, tentou pular do caminhão em movimento, mas a velocidade era muito alta e ele apenas se machucou na tentativa, caindo no assoalho da cabine.
Rosângela freou bruscamente em frente à barreira policial, fazendo o Scania derrapar na terra solta.
“Socorro!” ela gritou, saindo da cabine. “Eles tentaram me matar. Estão me sequestrando.”
A polícia reagiu imediatamente, cercando o caminhão com as armas em punho. O homem de bigode tentou se esconder no assoalho da cabine, mas foi rapidamente descoberto e preso.
“Onde estão os outros?” perguntou o sargento da PRF.
Rosângela apontou para a estrada de terra.
“Estão vindo atrás em dois carros: um sedã azul e uma caminhonete vermelha.”
A polícia rapidamente montou uma operação. Quando o sedã e a caminhonete apareceram na estrada e tentaram fugir ao avistarem a barreira, foram interceptados, e todos os ocupantes foram presos.
“Senhora,” disse o sargento a Rosângela. “Precisa de atendimento médico?”
“Não,” ela respondeu, ainda tremendo de adrenalina. “Eu só quero ir para casa.”
“O que aconteceu exatamente?”
Rosângela contou toda a história: desde o encontro no posto de gasolina até a perseguição e a tentativa de assassinato na ponte. Ela omitiu apenas os detalhes sobrenaturais: o rádio ligando sozinho, a imagem brilhando, o volante se movendo por conta própria.
“E essa música?” perguntou um dos policiais, notando que o rádio do caminhão ainda tocava o hino religioso.
Rosângela olhou para o painel. O rádio estava desligado, mas a música continuava.
“Não sei,” ela respondeu honestamente. “Começou a tocar sozinha.”
O policial tentou encontrar a origem do som, mas não teve sucesso. Era como se a música viesse do próprio ar. Lentamente, a melodia diminuiu de volume até cessar completamente. A imagem de Nossa Senhora Aparecida no painel voltou ao normal. Apenas um pedaço de plástico comum.
“Estranho,” murmurou o policial. “Nunca vi nada igual.”
Rosângela tocou suavemente a imagem da santa.
“Obrigada, Mãezinha,” ela sussurrou baixinho.
Duas horas depois, com toda a papelada policial preenchida e os sequestradores presos, Rosângela finalmente pôde ligar para casa.
“Sérgio,” ela disse quando o marido atendeu. “Preciso te contar uma coisa.”
“Rosa, onde você está? Eu estava preocupado. Você não ligou ontem.”
“Estou em Jaguarão, na delegacia da Polícia Federal. Aconteceu uma coisa, mas eu estou bem.”
Ela contou brevemente o que havia acontecido, garantindo ao marido que estava fisicamente ilesa.
“Meu Deus, Rosa,” disse Sérgio, com a voz embargada pela emoção. “Você poderia ter morrido.”
“Eu sei. Mas um milagre aconteceu, Sérgio. Nossa Senhora Aparecida me protegeu.”
“Como assim?”
“Eu te conto tudo depois. Agora eu só quero voltar para casa.”
“Rosa!” Sérgio disse, hesitante. “Depois do que aconteceu, você ainda quer continuar na estrada?”
Rosângela olhou para o caminhão Scania vermelho estacionado no pátio da delegacia, depois para a imagem da santa no painel, que parecia sorrir suavemente para ela.
“Não, Sérgio, eu acho que é hora de parar. Eu quero ficar em casa. Quero ter os nossos filhos. Quero viver uma vida normal.”
“Tem certeza?”
“Tenho. Já bastam os anos na estrada. Provei o que tinha que provar.”
No dia seguinte, Rosângela entregou a carga em Montevidéu como planejado, mas com escolta policial. Foi a sua última viagem internacional. Uma semana depois, ela pediu demissão da transportadora São José. Jair tentou convencê-la a ficar, oferecendo apenas viagens curtas e regionais, mas ela estava decidida.
“Jair, a estrada me deu tudo que podia dar. Agora quero outras coisas da vida.”
“Sentiremos a sua falta, Rosa. Você foi a melhor motorista que já tivemos aqui.”
“Obrigada. Mas tudo na vida tem o seu tempo.”
Dois meses depois, Rosângela descobriu que estava de fato grávida. A intuição feminina não havia falhado. Sérgio também decidiu parar de viajar e conseguiu um emprego como mecânico numa oficina de caminhões em Porto Alegre. Em março de 1993, nasceu Cristina Santos, a primeira filha do casal. Em 1995 veio o segundo filho, João, batizado em homenagem ao avô caminhoneiro, de quem Rosângela nunca se esquecera.
Os anos passaram tranquilamente. Rosângela tornou-se dona de casa, depois voltou a estudar e formou-se em contabilidade. Sérgio prosperou na oficina e acabou virando sócio do negócio. Eles nunca mais falaram publicamente sobre os acontecimentos sobrenaturais daquela tarde na ponte do Rio Jaguarão. Foi um segredo que guardaram apenas entre si. Um testemunho pessoal de fé que não precisava ser provado a ninguém.
O caminhão Scania R113 vermelho foi vendido a outro caminhoneiro. Rosângela fez questão de que a nova proprietária também fosse uma mulher, uma jovem de 24 anos que estava apenas começando na profissão.
“Cuide bem dele,” ela disse, entregando as chaves. “E nunca tire aquela imagem do painel; é protetora.”
“É só uma imagem de plástico,” comentou a jovem.
“Não,” corrigiu Rosângela. “É muito mais que isso.”
Vinte anos se passaram. Rosângela, agora com 48 anos, era uma mulher realizada. Tinha dois filhos crescidos, um neto de 3 anos, e uma vida estável e feliz. Trabalhava como contadora em um escritório no centro de Porto Alegre e raramente pensava no tempo em que passava na estrada, exceto quando cruzava com um caminhão na rua e sentia uma pontada de nostalgia.
Foi numa manhã de terça-feira, em julho de 2012, que ela recebeu um telefonema que mudaria tudo.
“Senhora Rosângela Santos?” perguntou uma voz masculina.
“Sim, sou eu.”
“Aqui é o investigador Carlos Mendes, da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. A senhora se lembra de um incidente que ocorreu com a senhora em 1992, perto da fronteira com o Uruguai?”
O coração de Rosângela disparou.
“Sim, eu me lembro. Por que, senhor?”
“Precisamos que a senhora venha a Jaguarão com urgência. Encontramos algo que pode estar relacionado ao seu caso.”
“O que vocês encontraram?”
“Seria melhor a senhora ver pessoalmente. Pode vir hoje?”
Rosângela cancelou todos os seus compromissos do dia e dirigiu até Jaguarão, com a mente fervilhando de possibilidades. O que poderiam ter encontrado após 20 anos?
Na delegacia, o investigador Mendes, um homem de cerca de 40 anos, a recebeu com seriedade.
“Senhora Rosângela, serei direto. Ontem, uma equipe de mergulhadores que estava fazendo um trabalho de limpeza no Rio Jaguarão encontrou um veículo submerso perto da velha ponte abandonada.”
O sangue de Rosângela gelou.
“Que tipo de veículo?”
“Um caminhão Scania vermelho, modelo R113, ano 1989.”
“Meu Deus!” ela murmurou, sentando-se pesadamente na cadeira.
“Senhora Rosângela, há algo muito estranho nesse caso. O caminhão estava a uns 15 metros de profundidade, bem debaixo da ponte. A julgar pelas condições dele e pelos documentos que encontramos na cabine, ele está lá há uns 20 anos.”
“Documentos?”
“Manifesto de carga em nome de Rosângela Santos, transportadora São José. Carga de eletrônicos com destino a Montevidéu. Data: julho de 1992.”
Rosângela ficou em silêncio por um longo momento, processando a informação.
“Investigador,” ela finalmente disse. “Não entendo como pode ser o meu caminhão, se eu sobrevivi e entreguei a carga.”
“É exatamente o que queremos descobrir. A senhora se importaria de ir até o local onde o caminhão foi encontrado?”
Uma hora depois, Rosângela estava na margem do Rio Jaguarão, observando os mergulhadores içarem o caminhão Scania vermelho das águas escuras. Era exatamente como o caminhão que ela dirigia em 1992. Mesma cor, mesmo modelo, mesmo ano. Até os adesivos na cabine eram idênticos.
“Isso é impossível,” ela murmurou, observando a operação.
Foi então que um dos mergulhadores se aproximou do Investigador Mendes com algo nas mãos.
“Investigador, encontramos isso na cabine. Estava dentro de um saco plástico, protegido da água. É uma carteira.”
Quando a abriram, Rosângela sentiu o mundo girar ao seu redor. Dentro da carteira havia uma carteira de motorista em nome de Rosângela Santos, com sua foto de 1992.
“Como isso é possível?” perguntou o investigador. “A senhora está aqui, viva, com a sua carteira atual no bolso. Como poderia haver outra carteira idêntica no caminhão no fundo do rio?”
Rosângela pegou a carteira molhada e a examinou cuidadosamente. Era exatamente igual à que ela tinha em 1992, até na marca d’água do plástico.
“Investigador,” ela disse lentamente. “Acho que sei o que aconteceu.”
“O quê?”
“Naquele dia, na ponte, quando eles tentaram me matar, algo sobrenatural aconteceu. O rádio ligou sozinho. A imagem da santa brilhou. O volante se moveu por conta própria.”
O investigador olhou para ela com ceticismo.
“Senhora Rosângela, eu sei como isso soa,” continuou ela. “Mas eu acho que o que vocês encontraram lá embaixo é o que teria acontecido comigo se Nossa Senhora Aparecida não tivesse intervindo.”
“A senhora está sugerindo que isso é algum tipo de milagre?”
“Estou sugerindo que existem coisas neste mundo que nós não conseguimos explicar com a lógica.”
Naquele momento, um dos mergulhadores gritou da água.
“Tem mais uma coisa aqui embaixo!”
Ele emergiu segurando algo pequeno e brilhante. Era uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, idêntica à que Rosângela tinha no painel de seu caminhão em 1992. Mas essa imagem tinha algo de diferente. Ela brilhava com uma luz suave, mesmo após 20 anos no fundo do rio.
O investigador pegou a imagem cuidadosamente.
“Isto é estranho!” ele murmurou. “Não tem fonte de energia, mas parece estar iluminada por dentro.”
Rosângela estendeu a mão.
“Posso ver?”
No momento em que tocou a imagem, uma sensação de paz e proteção a envolveu. Era o mesmo sentimento que tivera naquela tarde terrível há 20 anos.
“Mãezinha,” ela sussurrou, “obrigada por me mostrar o que teria acontecido. Obrigada por me salvar.”
A imagem brilhou mais intensamente por alguns segundos e, depois, voltou ao normal.
“Investigador,” disse Rosângela, devolvendo a imagem. “Oficialmente, eu não sei como explicar o que aconteceu aqui. Mas, pessoalmente, eu sei que foi um milagre. E os homens que tentaram me matar foram presos, julgados e condenados. Eles cumpriram as penas. Dois já morreram. Os outros dois estão velhos e arrependidos. Um deles, inclusive, me contatou há alguns anos para pedir perdão.”
O investigador finalizou o relatório.
“Dona Rosângela, oficialmente este caso será encerrado por causa das circunstâncias inexplicáveis. Não temos como explicar cientificamente a existência de dois caminhões idênticos, duas carteiras idênticas ou uma imagem que brilha sem fonte de energia.”
E, não oficialmente, ele sorriu:
“Não oficialmente… Eu cresci ouvindo a minha avó contar histórias de milagres e, após 20 anos investigando crimes, aprendi que algumas coisas estão além da nossa compreensão.”
Rosângela voltou para Porto Alegre naquela noite com uma sensação de encerramento de ciclo que ela não sabia que precisava. Por 20 anos, mantivera o segredo do milagre que lhe salvara a vida. Agora, finalmente, tinha uma prova tangível de que algo sobrenatural realmente ocorrera.
Na semana seguinte, ela organizou uma romaria à Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo. Levou a família toda: Sérgio, os dois filhos, o neto e vários parentes.
“Mãe!” Cristina perguntou durante a viagem. “Por que essa romaria de repente? Você nunca foi muito religiosa.”
“Porque eu tenho uma dívida de gratidão a pagar,” respondeu Rosângela. “Uma dívida de 20 anos.”
Na basílica, ela contou toda a história para a família pela primeira vez: o sequestro, a tentativa de assassinato, o milagre na ponte e, agora, a descoberta do caminhão no fundo do rio.
“Meu Deus, mãe,” disse João, impressionado. “Por que você nunca nos contou isso?”
“Porque vocês não entenderiam quando eram crianças. E depois, eu achei que seria melhor deixar o passado no passado.”
“E agora?”
“Agora eu entendo que alguns milagres precisam ser compartilhados. Não para provar nada a ninguém, mas para dar esperança àqueles que precisam.”
Rosângela acendeu uma vela especial diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, a mesma santa que havia salvado a sua vida duas décadas antes.
“Obrigada, Mãezinha,” ela rezou em silêncio. “Por me proteger, por me dar uma família maravilhosa, por me mostrar que a fé move montanhas ou, neste caso, pode impedir que um caminhão caia num rio.”
Saindo da basílica, sentiu-se mais leve do que estivera em anos. O peso do segredo finalmente havia sido retirado de seus ombros. Hoje, aos 58 anos, Rosângela é uma das fundadoras de uma associação que ajuda caminhoneiras em situação de risco. Ela conta a sua história em palestras e encontros, sempre enfatizando que, independentemente da sua fé, sempre há uma proteção maior cuidando de nós.
O caminhão Scania vermelho encontrado no fundo do Rio Jaguarão foi removido e levado para um ferro-velho. Mas a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que brilhava sozinha, desapareceu misteriosamente da delegacia antes que pudesse ser entregue ao museu local. Há quem diga que ela voltou para onde realmente pertencia, protegendo algum caminhoneiro perdido nas estradas do Brasil.
Quanto a Rosângela, ela continua a dirigir. Agora, apenas o carro de passeio, mas sempre com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no painel. Porque algumas proteções são para a vida toda. Sim.