
Ela desapareceu em 1962, mas o verdadeiro início desta história foi em 1946, 16 anos antes, quando algo aconteceu a 280 km de distância, em uma cidade que ela nunca tinha visitado. Ninguém fez a conexão, ninguém tentou até que a terra se abriu. Se você ainda não se inscreveu, faça isso agora e ative as notificações.
Neste vídeo, vamos revelar um dos eventos mais perturbadores já registrados no Vale do Itajaí. Uma história que permaneceu literalmente enterrada por mais de 60 anos. Prepare-se, porque a resposta está chegando, mas não da maneira que você espera. E o que é pior, quando finalmente encontraram os ossos, perceberam que a família sabia, sabia desde o início, e tinha escolhido permanecer em silêncio.
Era uma terça-feira de março de 2023 quando a escavadeira parou. O operador, um homem de 43 anos chamado Valdir Koslowsky, tinha sido contratado pela prefeitura de Blumenau para limpar uma encosta no bairro Velha, que tinha sido afetada por um deslizamento secundário causado pelas chuvas de fevereiro. O trabalho era rotineiro, ou deveria ter sido, para remover o entulho, estabilizar a encosta e abrir espaço para o muro de contenção que seria erguido nas semanas seguintes.
Valdir já tinha feito esse tipo de trabalho dezenas de vezes. Você sabia que até um buraco geralmente guarda raízes, pedras e, ocasionalmente, canos enferrujados de décadas atrás? Eu sabia o que não esperava encontrar. A caçamba da escavadeira atingiu algo que não cedia, como lama. Valdir desligou a máquina, saiu da cabine e se aproximou lentamente.
O cheiro era de terra úmida e mofo antigo. O tipo de odor que sobe de lugares que estão fechados há tempo demais. Ele usou as mãos enluvadas para afastar o cascalho, e então viu. Era um osso longo, branco-amarelado, coberto de argila, mas inequivocamente um fêmur humano. Valdir recuou, pegou seu celular e ligou para o mestre de obras.
O supervisor ligou para a prefeitura. A prefeitura entrou em contato com a polícia civil de Santa Catarina. Em menos de duas horas, o aterro na Rua Otto Renault estava isolado, cercado por fita amarela, com três viaturas policiais estacionadas na encosta íngreme e um perito criminal agachado no local exato onde a escavadeira tinha parado.
Não era apenas um resto, era uma pessoa. A análise preliminar no local revelou que os restos mortais pertenciam a uma mulher adulta. A profundidade em que foram encontrados, aproximadamente 1,80 m abaixo da superfície atual do barranco, indicava que o enterro tinha ocorrido muitas décadas atrás. O terreno ao redor tinha se tornado compactado, estratificado e depois perturbado e remodelado por múltiplos deslizamentos ao longo dos anos.
Determinar exatamente quando aqueles ossos tinham chegado àquele local seria o primeiro desafio para os investigadores. O segundo desafio seria muito mais complicado: descobrir quem ela era. Para entender o que aconteceu naquele barranco, precisamos voltar, não apenas algumas semanas ou alguns anos. Precisamos voltar ao início, ao ponto onde tudo começou a se mover lentamente para aquele desfecho, como a terra que desliza depois de uma chuva muito longa.
Blumenau em 1962 era uma cidade em transformação. O modelo colonial alemão que tinha moldado o Vale do Itajaí por mais de 100 anos estava começando a se misturar com a industrialização acelerada do sul do Brasil. Fábricas têxteis estavam abrindo novos turnos. Famílias que cultivavam a mesma terra por gerações estavam se separando.
Os filhos mais velhos ficavam, enquanto os mais novos iam para as cidades. A arquitetura em enxaimel dividia espaço com os primeiros prédios de concreto. Era um tempo de mudança silenciosa, do tipo que só é notada quando já passou. Nesse contexto, Ingrid Érica Ezer tinha 34 anos, era casada há 11 anos, mãe de dois filhos, Werner, 9, e Elsa, 6, e trabalhava como costureira em uma oficina no centro da cidade, perto do atual mercado municipal.
Ela era uma mulher descrita por quem a conhecia como reservada, precisa em seus movimentos, de poucas palavras, mas firme em suas palavras. Seu cabelo era castanho escuro, cortado na altura do queixo. Ela sempre usava um broche de metal prateado na lapela do casaco, uma peça que tinha pertencido à sua mãe e que ela nunca tirava.
O marido, Reinhold, era mecânico em uma oficina na rua 7 de Setembro. Um homem de hábitos regulares, com temperamento reservado, conhecido no bairro mais pela qualidade do seu trabalho do que pela sua simpatia. Os vizinhos o descreviam como honesto. Alguns, quando pressionados, usavam a palavra frio. Na quinta-feira, 23 de agosto de 1962, Ingrid saiu de casa às 7h15 da manhã, como de costume.
Ela disse ao marido que voltaria ao meio-dia para o almoço. Ela pegou sua bolsa de couro marrom, prendeu o broche em seu casaco de lã azul e caminhou pela encosta do bairro Velha em direção ao ponto de ônibus. A vizinha da casa ao lado, Grete Schneider, viu Ingrid passar pela calçada e acenou. Ingrid acenou de volta.
Esse foi o último registro de alguém que a viu. Ao meio-dia, ela não voltou. Reinhold esquentou um pouco de feijão que tinha sido deixado no fogão e esperou. Às 14h, ele foi à oficina para perguntar sobre o paradeiro da esposa. A dona, Sra. Evmer, disse que Ingrid não tinha aparecido naquele dia. Reinhold voltou para casa. Às 18h, ele foi à delegacia no bairro Garcia para registrar o desaparecimento. O policial de plantão fez as perguntas de praxe. Havia brigas em casa? Ingrid tinha dado sinais de querer ir embora? Tinha parentes em outras cidades? Reinhold respondeu que não a tudo. O registro foi concluído. As buscas, no entanto, foram mínimas.
Em 1962, o desaparecimento de uma mulher adulta era tratado, na maioria dos casos, como uma questão doméstica, uma fuga voluntária, uma separação informal, uma escolha que a própria mulher tinha feito e que o estado não deveria questionar tão insistentemente. Ninguém achou estranho que Reinhold nunca tenha voltado à delegacia após o registro inicial.
Ninguém questionou o fato de ele ter tirado os filhos da escola dois meses depois e enviado para morar com a avó materna em Jaraguá do Sul. Ninguém perguntou o porquê. Em novembro daquele mesmo ano, ele vendeu sua casa no bairro Velha e se mudou para Joinville. A vida seguiu. Ingrid Érica Ezer permaneceu onde estava, 1,80 m abaixo de um barranco.
O exame forense do Instituto Geral de Perícias de Santa Catarina concluiu, após analisar os ossos recuperados, que os restos pertenciam a uma mulher entre 30 e 40 anos na época da morte, aproximadamente 1,62 m de altura, com padrão de morfologia craniana europoide. Caracterização feita com as reservas técnicas habituais para análise antropológica de material ósseo degradado.
A data estimada do sepultamento, com base na estratigrafia do solo e no estado de mineralização dos ossos, foi colocada entre as décadas de 1950 e 1970. Uma janela ampla, mas que gradualmente se estreitaria. O que imediatamente chamou a atenção dos especialistas foi o estado e a posição do esqueleto. Os ossos não estavam dispostos de maneira consistente com deslizamento natural ou desabamento acidental de uma estrutura.
O corpo tinha sido colocado em posição de decúbito lateral, com os joelhos levemente flexionados, em uma cavidade que mostrava sinais claros de escavação manual. As paredes do buraco, ainda discerníveis apesar da compactação dos anos, tinham uma regularidade que a natureza não produz. Alguém tinha cavado aquela cova, alguém tinha colocado aquela pessoa lá e coberto com terra.
Sobre o DNA, os especialistas foram categóricos desde o início. Sessenta e um anos em solo úmido e ácido, como o do Vale do Itajaí, destrói irreversivelmente o material genético. Nenhum DNA utilizável pôde ser extraído daqueles ossos. A identificação teria que ser feita por outros meios. Foi aí que os três objetos recuperados junto ao esqueleto ganharam importância decisiva.
O primeiro foi um conjunto de fragmentos de metal oxidado que, após limpeza e análise laboratorial, foram identificados como pertencentes a um broche de prata em formato oval com uma flor estilizada em relevo, típico da joalheria popular do sul do Brasil nas décadas de 1940 e 50. O segundo foi um botão de metal esmaltado de cor escura, consistente com casacos femininos da época.
O terceiro foram fragmentos de couro seco e endurecido, remanescentes de uma bolsa ou cinto. Nenhum desses objetos era único o suficiente para identificar uma pessoa sozinho, mas combinados com a análise antropológica e o que viria a seguir, formariam a base para uma identificação sólida. O broche, especificamente, seria o detalhe que abriria a primeira porta.
A delegada responsável pela investigação era Tatiana Vogel, 41 anos, especializada em identificação de vítimas desconhecidas, uma área que ganhou impulso no Brasil com a criação do Banco Nacional de Perfis Genéticos em 2013 e que, nas últimas décadas, se beneficiou enormemente da digitalização de arquivos históricos.
Tatiana tinha trabalhado em casos de restos humanos encontrados em contextos de violência urbana, desastres naturais e valas clandestinas da ditadura militar. Ela sabia como a terra guarda segredos. Também sabia como a burocracia os aprofunda. O primeiro passo foi pesquisar registros históricos de desaparecimentos. O problema foi imediato.
Os arquivos da delegacia de antes de 1980 tinham sido parcialmente destruídos pela grande enchente de julho de 1983, a maior da história da cidade até aquele momento. O que restou estava mal digitalizado, com fichas manuscritas escaneadas em baixa resolução, muitas das quais ilegíveis. Por semanas, dois pesquisadores da equipe de Tatiana se revezaram lendo esses arquivos, página por página, em turnos de 3 horas, o tempo máximo que a tela podia ser tolerada antes que seus olhos começassem a falhar.
Não encontraram nada utilizável nos fragmentos digitalizados da delegacia local. A virada veio de outra fonte. O Arquivo Público Estadual em Florianópolis tinha recebido uma doação de microfilmes na década de 1990, produzidos pelo projeto de preservação de documentos da Secretaria de Segurança Pública do Estado na década de 1970.
Este programa tinha microfilmado registros de delegacias em todo o estado como medida preventiva contra exatamente o tipo de perda que a enchente de 1983 causaria. A busca por aquela coleção levou mais três semanas, mas estava lá. Ingrid Érica Ezer, que desapareceu em 23 de agosto de 1962, registrado pelo marido Reinhold, mecânico residente na Rua Otto Renault, bairro Velha, Blumenau.
Era Otto Renault, o mesmo endereço onde a escavadeira tinha parado. A partir desse ponto, a investigação ganhou velocidade, mas não de forma simples. Cada passo que parecia confirmar a identidade de Ingrid, simultaneamente levantava uma dúvida que não podia ser respondida com certeza absoluta.
Tatiana solicitou a certidão de óbito de Reinhold Ezer ao cartório em Blumenau. Ele morreu em 2004 em Joinville aos 78 anos. Ele deixou dois filhos, Werner e Elsa Ezer, que eram crianças em 1962 quando a mãe desapareceu. Werner tinha falecido em 2016, mas Elsa estava viva. Elsa Miller tinha 67 anos, morava em Jaraguá do Sul e era professora aposentada.
Quando a delegada Tatiana Vogel a localizou por telefone e explicou o motivo do contato, houve um silêncio do outro lado da linha que durou mais do que o comum. Não o silêncio de alguém que está confuso, mas o silêncio de alguém que já sabia que aquela ligação viria algum dia. Elsa concordou em comparecer voluntariamente à delegacia.
O que ela disse nas horas seguintes remodelou completamente a história. Elsa tinha 6 anos em agosto de 1962, mas o peso que ela carregou naquele mês duraria uma vida inteira. Ela contou que na noite do dia 23 de agosto, quando sua mãe não tinha voltado para o jantar, seu pai sentou ela e o irmão à mesa e disse, em sua voz baixa de sempre, sem hesitação, que a mãe tinha ido embora, que ela tinha escolhido partir, que não voltaria.
Que eles não deveriam perguntar e não deveriam discutir isso com ninguém. Elsa tinha seis anos, Werner tinha nove. Eles não perguntaram. Nos meses seguintes, a vida continuou com uma normalidade que décadas depois Elsa descreveria como a coisa mais perturbadora de todas. O pai ia trabalhar, a comida estava na mesa e a escola continuava.
Ninguém mencionou o nome de Ingrid dentro de casa. Quando um primo perguntou sobre a mãe durante uma visita, Reinhold simplesmente respondeu que tinha havido uma separação, e o assunto foi encerrado com aquelas palavras. Em novembro, eles se mudaram para Jaraguá do Sul. A avó materna os criou sem fazer perguntas a Reinhold.
Tatiana perguntou a Elsa por que ela nunca tinha procurado a polícia durante todos esses anos. A resposta foi longa e honesta. Elsa disse que, por décadas, ela mesma tinha acreditado, ou escolhido acreditar, na versão do pai, de que sua mãe tinha ido embora. Era mais fácil. Conforme ela envelheceu e aquela versão começou a rachar, ela se viu diante de uma parede.
Não tinha prova de nada. Tinha apenas um sentimento, uma suspeita sem substância, sem um nome, sem nada que pudesse ser levado a uma delegacia. Quem a ouviria? O que ela diria? Que seu pai tinha sido frio, que sua mãe tinha desaparecido em uma época em que mulheres desapareciam e ninguém as procurava.
Não havia nada concreto, apenas o peso de uma dúvida que ela carregava em silêncio, porque não sabia o que fazer com ela. Mas havia uma coisa que nunca deixou de perturbá-la desde criança, mesmo quando não tinha palavras para nomear o que sentia: o broche. A mãe nunca tirava o broche.
Era a peça que tinha pertencido à sua avó. Depois à sua mãe, e que Ingrid usava todos os dias. Elsa contou que quando era pequena, ela ficava olhando para aquele broche enquanto sua mãe costurava. Uma mulher que escolhe ir embora leva o broche consigo. Não deixa o broche para trás. Elsa nunca soube para onde o broche tinha ido.
Nunca viu o pai com ele. Nunca apareceu entre as coisas que a mãe tinha guardado. Simplesmente não estava lá. Quando Tatiana lhe mostrou a fotografia do objeto recuperado no barranco, o oval com a flor em relevo, sua prata oxidada ao longo de décadas, Elsa Miller permaneceu muito quieta por um longo tempo.
Então ela simplesmente disse: “É dela.” A identificação formal de Ingrid Érica Ezer não veio do DNA. Como os especialistas já tinham estabelecido, o material genético tinha sido completamente destruído pelo solo úmido ao longo de seis décadas. Veio de uma combinação de elementos que, isoladamente, seriam insuficientes, mas que juntos formavam um todo coerente e tecnicamente sustentável.
O primeiro elemento foi a análise odontológica. Os dentes de Ingrid, surpreendentemente bem preservados pelo esmalte, o tecido mais resistente do corpo humano, apresentavam características específicas: dois molares inferiores tratados com amálgama de prata, uma restauração em um incisivo lateral superior e um padrão de desgaste consistente com hábitos alimentares da época.
A equipe de investigação localizou nos arquivos históricos da Associação Odontológica de Blumenau registros de pacientes das décadas de 1950 e 60 que tinham sido preservados por um dentista local como parte de uma coleção pessoal doada à organização após sua morte. Entre esses arquivos estava um com o nome Ingrid Ezer, datado de 1958, com descrições de procedimentos que coincidiam ponto a ponto com o que os ossos mostravam.
O segundo elemento foi a análise antropológica da estatura. 1,62 m, uma estimativa dos especialistas com base no comprimento dos ossos longos, consistente com a descrição no registro de desaparecimento de 1962, que indicava 1,60 m. O terceiro elemento foi o broche, confirmado por Elsa como pertencente à sua mãe, corroborado pela descrição que a vizinha Grete Schneider tinha dado no registro original.
Uma descrição que Tatiana encontrou no microfilme mencionava explicitamente um broche oval de prata como um item que Ingrid usava habitualmente. Nenhum desses três elementos, por si só, seria suficiente para uma identificação judicial definitiva. Juntos, somados à coincidência de endereço, período histórico, características físicas e pertences pessoais, esses fatores formaram a base para o Instituto Geral de Perícias emitir um relatório de identificação por múltiplos indícios.
O procedimento técnico usado quando o DNA não está disponível. O relatório foi cauteloso em sua linguagem, como todos os documentos forenses devem ser. Concluiu que os restos eram compatíveis com Ingrid Érica Ezer, com um alto grau de consistência entre os elementos analisados, sem afirmar certeza absoluta, porque a certeza absoluta não era possível neste caso.
Era o máximo que a ciência podia oferecer, e era o suficiente para Elsa. O que veio a seguir foi a parte que ninguém tinha previsto, a parte que transformou uma investigação de identificação em algo muito maior. Lembre-se que o início desta história remonta a 1946, 16 anos antes do desaparecimento de Ingrid, a 280 km de Blumenau.
A pesquisadora que descobriu essa conexão foi Sibele Rezende, uma historiadora voluntária com o projeto Memória Viva de Santa Catarina, uma iniciativa independente que por anos tem catalogado registros históricos de desaparecimentos femininos no estado, cruzando fontes diversas: arquivos paroquiais, registros de cartórios, memórias familiares publicadas em jornais locais, coleções e associações comunitárias.
Sibele estava acompanhando o caso de Blumenau através da cobertura das notícias e tinha entrado em contato com a delegada Tatiana, oferecendo-lhe acesso ao seu banco de dados. O que Sibele tinha encontrado não veio de registros de emprego rural. Esses, de fazendas privadas datando da década de 1940, raramente sobrevivem e quase nunca são acessíveis.
Veio de outra fonte, cartas, especificamente um conjunto de cartas pessoais escritas por Ingrid Ezer para sua própria mãe entre 1948 e 1952, que tinham sido preservadas por uma sobrinha de Ingrid e doadas anos depois ao arquivo histórico de uma associação de descendentes de imigrantes alemães em Blumenau. Nessas cartas, Ingrid mencionava o marido, a vida doméstica e os filhos pequenos.
E em uma carta de 1948, ela mencionava quase de passagem que Reinhold tinha trabalhado em uma fazenda no Planalto Serrano alguns anos antes de se mudarem para Blumenau. Ela mencionava a cidade de Lages, que ele tinha saído de lá rapidamente sem muita explicação, e que ela tinha aprendido a não perguntar sobre aquele período. Tinha aprendido a não perguntar. Sibele cruzou essa informação com seu banco de dados de desaparecimentos.
Em 1946, a delegacia de Lages registrou o desaparecimento de uma jovem de 19 anos chamada Dorinha Batista Pereira. O caso tinha sido encerrado como fuga voluntária. Sem culpados, sem investigação consequente, sem resolução. Os períodos coincidiam. A partida de Reinhold de Lages coincidia. Tatiana encaminhou a informação para o Ministério Público de Santa Catarina, que abriu uma investigação independente sobre o desaparecimento de Dorinha Batista Pereira.
A delegacia de Lages foi notificada. Os registros originais do caso, os poucos que existiam, foram localizados nos arquivos do cartório local. Duas páginas amareladas, manuscritas, contendo uma breve descrição e a conclusão de abandono voluntário. Não restou nada, nenhuma testemunha viva daquele período, nenhum registro do emprego de Reinhold na região que pudesse ser localizado.
A fazenda onde ele tinha trabalhado tinha mudado de dono duas vezes desde a década de 1940. O filho do segundo dono, agora idoso, nunca tinha conhecido Reinhold e não tinha memória de qualquer incidente daquele período. A investigação em Lages estava, em todo sentido prático, diante de uma parede. Havia uma coincidência de período, local e comportamento.
Havia uma referência escrita, havia um boletim de ocorrência, mas não havia prova de nada. O Ministério Público decidiu realizar uma inspeção técnica da área da antiga fazenda usando radar de penetração no solo, uma tecnologia que permite a identificação de anomalias no subsolo sem escavação.
O processo exigiu autorização judicial, relatório técnico prévio e a cooperação formal do atual proprietário do terreno. Em setembro de 2023, quando o roteiro para esta investigação estava sendo finalizado, esses procedimentos ainda estavam em andamento. A inspeção não tinha sido realizada, nenhuma escavação tinha sido autorizada, não havia resultados, nenhuma confirmação, nenhum osso encontrado em Lages, havia apenas uma investigação aberta, burocrática, lenta, como todas as investigações abertas sobre um evento de 80 anos atrás tendem a ser.
Pode nunca haver um resultado. Talvez Lages não guarde nada. Talvez guarde tudo. É impossível saber ainda. O que se sabe é o seguinte. Reinhold foi executado em 2004 em Joinville aos 78 anos. Ele nunca se casou novamente em cerimônia civil. Ele viveu por décadas em união estável com outra mulher, um fato que os investigadores confirmaram em registros civis e que era a forma como muitos homens na sua situação, naquela época, contornavam a impossibilidade legal de um segundo casamento formal, enquanto o primeiro não tinha uma dissolução legalmente reconhecida.
Os filhos cresceram, envelheceram, morreram ou envelheceram. A casa no bairro Velha foi vendida, demolida e reconstruída. E o barranco ao lado tinha acumulado décadas de terra e chuva. A identificação por múltiplos indícios foi concluída em setembro de 2023. O relatório do Instituto Geral de Perícias foi enviado ao Ministério Público, que abriu uma investigação por homicídio, com o principal suspeito já morto, tornando impossível um julgamento e condenação.
O propósito da investigação é dar um nome jurídico ao que aconteceu, para que haja um documento em algum arquivo que diga: “Isso foi um homicídio. Esta mulher não foi embora. Esta mulher foi morta.” Sobre a causa da morte, os ossos mostravam uma fratura na base do crânio consistente com traumatismo contundente. Com base nas evidências disponíveis, é impossível saber se a fratura foi infligida antes ou depois da morte.
Não há como saber se houve sofrimento. Não há como saber o que aconteceu na manhã de 23 de agosto de 1962. Se Reinhold e Ingrid se encontraram antes de ela descer o barranco, ou se ela chegou a descer. O laudo da autópsia classificou a causa da morte como indeterminada.
É a linguagem honesta da ciência diante do que o tempo apagou. O que não foi apagado: a posição do corpo na cova, a regularidade das paredes escavadas, o fato de que alguém a colocou lá e cobriu com terra a metros da casa onde os dois moravam. O resto é inferência. Inferências, por mais sólidas que sejam, não são provas, e nunca serão.
O sepultamento de Ingrid Érica Ezer aconteceu em outubro de 2023 no cemitério municipal de Blumenau, com a presença de Elsa, dos filhos e netos de Elsa, e de alguns moradores do bairro Velha, que souberam da história através da cobertura nos jornais locais. O broche, feito dos fragmentos de metal recuperados da escavação, foi entregue a Elsa em uma pequena urna de madeira.
Ela disse que os guardaria junto com as fotos de sua mãe, as únicas que eles tinham. Ninguém foi preso. Não há julgamento, não haverá sentença. O homem que enterrou Ingrid no barranco estava morto há 19 anos quando a escavadeira parou. O sistema que deveria tê-la encontrado não a procurou.
Essa é a verdade sobre o desfecho. Não é a verdade que ninguém esperava encontrar, mas é a única que existe. Elsa Miller disse ao sair da delegacia após o relatório ser concluído que não sentia raiva. Disse que sentia algo diferente, uma espécie de resolução, como quando uma conta que nunca se acertava finalmente se acerta.
A mãe estava lá, o broche estava lá. Ela tinha esperado 61 anos para saber disso com certeza documental, mas ela sabia desde que tinha 6 anos de idade da única forma que uma criança de 6 anos pode saber algo — pelo corpo, não pela mente — porque o broche não estava lá. Às vezes, a verdade não vem através de investigações especiais, não vem através da tecnologia, não vem através de confissões, não vem através de um investigador teimoso que se recusa a arquivar o caso.
Às vezes, a verdade aparece porque chove por muitos dias seguidos, porque a terra desliza, porque uma escavadeira para onde não deveria, porque a terra guarda e cedo ou tarde devolve, mas devolve apenas os ossos. E o que aconteceu depois? Como aconteceu, por que aconteceu, permanece enterrado junto. E essa é a parte mais difícil de aceitar, que a verdade completa, neste caso, nunca virá.
O que temos é o suficiente para dar um nome, mas não o suficiente para dar uma explicação. E, às vezes, depois de 61 anos, um nome é tudo o que resta pedir. Se esta história ficou com você, se o detalhe do broche, ou o silêncio de uma criança de 6 anos que durou uma vida inteira, ou a carta onde Ingrid escreveu que tinha aprendido a não perguntar, ficou na sua mente.
Deixe sua teoria nos comentários. O que você acredita que aconteceu? O que a investigação em Lages encontrará, ou não encontrará? Deixe um like se você chegou até aqui. Inscreva-se e ative as notificações. Até o próximo vídeo.