Dentro de uma pasta marrom desbotada, guardada na terceira gaveta da sala 308 do Tribunal de Justiça de Brasília, jaziam documentos que poderiam derrubar ministros, empresários e dezenas de políticos influentes. Era março de 2005, e o juiz Henrique Valença acabara de reunir as provas finais de um esquema de corrupção que envolvia milhões de reais por meio de contratos públicos superfaturados e empresas de fachada.
O cheiro de papel velho e tinta de impressora ainda pairava na sala quando Henrique fechou a maleta pela última vez. Suas mãos tremiam levemente, não de medo, mas de uma mistura de indignação e responsabilidade que carregava há semanas. Durante seus 23 anos como magistrado, ele nunca havia se deparado com algo tão amplo e sistêmico.
O esquema envolvia desde funcionários de baixo escalão até figuras de alto nível no governo federal. Naqueles dias de março, Brasília vivia o calor intenso do Cerrado e uma tensão política crescente. Henrique caminhava pelas avenidas arborizadas da Asa Sul todas as manhãs, observando o movimento rotineiro da capital: servidores públicos esperando ônibus, vendedores ambulantes oferecendo água gelada nos pontos, e a circulação constante de carros oficiais entre os ministérios.
Marlene Duarte, casada com Henrique há 28 anos, começara a notar mudanças sutis no comportamento do marido. Ele chegava em casa mais tarde, falava pouco durante as refeições e desenvolvera o hábito de verificar várias vezes se as portas e janelas estavam trancadas antes de dormir. Quando ela perguntava sobre o trabalho, Henrique simplesmente dizia que estava revisando um processo importante e mudava de assunto.
Na manhã de 14 de março, uma segunda-feira, Henrique levantou-se antes que o despertador tocasse, preparou o café da manhã silenciosamente, vestiu o terno cinza que usava em ocasiões mais formais e guardou sua pasta marrom dentro de uma bolsa de couro preta. Ele beijou a testa da esposa, que ainda dormia, e sussurrou:
“Hoje vou fazer a coisa certa, Marlene, não importa as consequências.“
O caminho para o tribunal era sempre o mesmo: saindo da quadra 712 Sul, passando pela via principal e entrando pela via S1. Mas naquela manhã, Henrique decidiu fazer um trajeto diferente. Dirigiu pelo Eixo Monumental, passou em frente ao Congresso Nacional e estacionou em uma vaga perto da Procuradoria-Geral da República.
Carregando sua bolsa de couro, caminhou lentamente até a entrada do prédio, onde foi recebido pelo Procurador-Geral Otávio Moreira, seu amigo desde os tempos da faculdade de direito. A reunião durou três horas. Henrique entregou cópias de todos os documentos, explicou as conexões entre empresários e políticos e detalhou como o esquema funcionava através de licitações fraudadas e contratos fictícios.
Otávio ouviu tudo em silêncio, fazendo anotações em um caderno espiral e ocasionalmente balançando a cabeça em descrença.
“Henrique, você tem noção da magnitude disso?“, perguntou Otávio, folheando os papéis pela terceira vez.
“Tenho, e também sei que minha vida pode mudar completamente a partir de hoje”, respondeu o juiz, ajeitando os óculos.
“Mas não posso mais fingir que não sei de nada.“
Naquela mesma tarde, Henrique voltou ao tribunal para cumprir sua agenda normal. Processou alguns casos, reuniu-se com advogados e participou de uma reunião administrativa. Tudo parecia rotineiro, mas ele sentia um peso diferente no peito, como se carregasse um segredo que já não cabia dentro dele.
Às 18h30, quando a atividade no prédio começou a diminuir, Henrique arrumou sua mesa, guardou alguns arquivos na gaveta e apagou as luzes da sala. Cumprimentou o segurança na entrada, como fazia todos os dias, e caminhou até seu Civic prata, estacionado na vaga 47 do estacionamento interno. O telefone tocou enquanto ele saía do estacionamento. Era Marlene.
“Henrique, você vem jantar em casa hoje? Fiz aquela lasanha que você gosta.“
“Claro, amor. Estou saindo do tribunal agora. Chego aí em 40 minutos”, respondeu ele, observando o tráfego na via S1 pelo para-brisa.
Essa foi a última conversa que Marlene teve com o marido. Na manhã seguinte, quando Henrique não apareceu para o café da manhã e seu celular ia direto para a caixa postal, Marlene ligou para a secretária de seu escritório. A resposta foi desconcertante. O juiz não havia aparecido para as audiências marcadas para aquela terça-feira, e ninguém sabia explicar sua ausência.
O Civic prata foi encontrado três dias depois, abandonado em um estacionamento perto do aeroporto internacional de Brasília. As chaves estavam na ignição, os documentos estavam no porta-luvas e não havia sinais de violência. Era como se Henrique tivesse simplesmente decidido desaparecer, deixando para trás toda uma vida construída na capital federal.
A notícia do desaparecimento de um juiz federal em Brasília deveria ter abalado as estruturas do judiciário, mas a reação oficial foi surpreendentemente contida. Enquanto Marlene ia a delegacias e hospitais em busca de informações sobre o marido, os jornais da capital dedicavam apenas pequenas notas ao caso, sempre com manchetes discretas: “Magistrado não comparece ao trabalho” ou “Juiz federal ausente por uma semana”.
O delegado Mourão, responsável pela investigação, era um homem de cinquenta e poucos anos, com décadas de experiência na Polícia Civil do Distrito Federal. Ele havia investigado de tudo, desde crimes passionais nas periferias até casos de corrupção envolvendo políticos locais, mas nunca sentira a pressão silenciosa que começou a perceber nos primeiros dias da investigação sobre o desaparecimento de Henrique.
“Dona Marlene, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance”, disse Mourão durante a primeira reunião na delegacia, observando a mulher de cabelos grisalhos que lutava para manter a compostura.
“Mas preciso que a senhora entenda que casos como este exigem tempo e paciência.”
Marlene não conseguia entender por que as buscas pareciam tão limitadas. Ela esperava ver equipes de investigação vasculhando cada centímetro dos locais frequentados por Henrique, rastreamento detalhado de suas ligações telefônicas e interrogatórios rigorosos de todos que estiveram em contato com ele nas últimas semanas. Em vez disso, encontrou uma investigação que parecia se mover em câmera lenta.
O procurador Otávio Moreira enfrentava seus próprios dilemas. Os documentos entregues por Henrique permaneciam trancados em seu cofre particular, e ele não sabia se deveria liberá-los imediatamente ou esperar o desenrolar da investigação sobre o desaparecimento. A cada dia que passava, a pressão aumentava.
A pressão interna dentro do Ministério Público se intensificou, com colegas questionando indiretamente seu encontro privado com o juiz desaparecido.
“Otávio, você precisa nos contar o que o Henrique veio fazer aqui”, disse o subprocurador-geral durante uma reunião administrativa, três semanas após o desaparecimento. “Correm boatos de que ele estava investigando algo que poderia envolver pessoas importantes.”
“Eram apenas questões técnicas sobre jurisprudência”, respondeu Otávio, evitando contato visual direto. “Nada relacionado ao desaparecimento.”
A versão oficial começou a se solidificar. Henrique Valença teria sofrido um colapso nervoso e decidido afastar-se voluntariamente de suas funções. Colegas no tribunal mencionavam discretamente que o juiz parecia estressado e preocupado nas últimas semanas. A teoria do afastamento voluntário ganhava força a cada dia, especialmente porque não havia sinais de violência ou sequestro.
Marlene recusava-se a aceitar essa explicação. Ela conhecia o marido há três décadas e sabia que ele nunca abandonaria tudo sem dizer uma palavra. Contratou um advogado particular, distribuiu panfletos com a foto de Henrique por toda Brasília e até contratou um investigador particular com suas próprias economias. O investigador, um ex-policial militar chamado Wagner Santos, descobriu detalhes que a investigação oficial parecia ter ignorado.
Henrique havia sacado uma quantia significativa de dinheiro de sua conta bancária na semana anterior ao seu desaparecimento, mas não havia comprado passagens aéreas nem feito reservas de hotel. Suas chamadas telefônicas nos últimos dias mostravam contato frequente com o Ministério Público Federal, mas essa informação não constava no relatório policial oficial.
“Dona Marlene, tem algo estranho neste caso”, disse Wagner durante uma reunião em uma lanchonete na Asa Norte, seis meses após o desaparecimento. “É como se alguém não quisesse que certas informações fossem descobertas.”
Os meses transformaram-se em anos, e a ausência de Henrique deixou marcas profundas na vida de todos ao seu redor. Marlene desenvolveu insônia crônica e começou a evitar os lugares que frequentava com o marido. A sala 308 foi ocupada por outro juiz, e os casos que Henrique revisava foram redistribuídos entre seus colegas.
Otávio Moreira nunca conseguiu se livrar completamente do peso dos documentos que permaneciam trancados em seu cofre. Várias vezes, esteve perto de revelá-los, mas sempre encontrava uma justificativa para adiar a decisão. Com o passar dos anos, as provas de corrupção que Henrique havia reunido tornaram-se menos relevantes, superadas por novos escândalos e mudanças no cenário político.
O delegado Mourão aposentou-se em 2010, cinco anos após o desaparecimento, carregando consigo a sensação de trabalho inacabado. Em seus últimos dias na Polícia Civil, ele releu a investigação e chegou a uma conclusão perturbadora: ele recebera ordens sutis, porém claras, para não se aprofundar em certas linhas de investigação.
Em 2012, sete anos após seu desaparecimento, a justiça declarou oficialmente Henrique Valença morto. Marlene recebeu a certidão de óbito com uma mistura de alívio e raiva. Alívio porque finalmente poderia resolver questões burocráticas e previdenciárias; raiva porque sabia que aquela declaração representava o fim definitivo de qualquer possibilidade de descobrir a verdade.
A casa na quadra 712 Sul, onde o casal viveu por duas décadas, foi vendida. Marlene mudou-se para outro local e começou a trabalhar como professora particular de português. Ela raramente falava sobre o marido desaparecido e, quando o fazia, era sempre com a certeza de que Henrique havia se tornado vítima de algo muito maior do que ela poderia imaginar. O silêncio oficial em torno do caso foi tão eficaz que, em poucos anos, poucos moradores de Brasília lembravam-se do juiz que desaparecera misteriosamente.
O nome Henrique Valença tornou-se apenas uma referência em arquivos policiais e uma lembrança dolorosa para aqueles que o conheciam pessoalmente. Quinze anos após o desaparecimento do juiz Henrique Valença, a fazenda Santa Clara, localizada a 80 km de Brasília, era apenas mais uma propriedade rural abandonada no Cerrado. A casa da fazenda, construída na década de 1980, estava desocupada há 5 anos, quando seu antigo proprietário, um empresário do ramo da construção civil, faleceu sem deixar herdeiros diretos.
Rogério Bastiani, um pecuarista de Goiás, adquiriu a propriedade em um leilão judicial, sem nunca ter visitado o local pessoalmente. Seu plano era demolir as construções antigas e erguer um moderno confinamento para gado de corte. Em setembro de 2020, ele chegou à fazenda acompanhado de uma pequena equipe de trabalhadores rurais e um trator para iniciar as demolições.
A manhã estava clara, com aquela luz dourada, típica do Cerrado, que fazia a vegetação ressequida brilhar como palha. O ar seco trazia o cheiro de terra e grama queimada pelas geadas matinais do inverno que terminava. Rogério observou a casa da fazenda pela primeira vez, uma construção térrea com uma varanda larga e telhado de barro, que já apresentava sinais de infiltração e abandono.
“Vamos começar demolindo o anexo dos fundos”, disse ele aos trabalhadores, apontando para uma pequena construção que parecia ter sido usada como galpão de armazenamento. “Depois, cuidaremos da casa principal.”
José Carlos, o operador do trator, começou o trabalho logo após o almoço. A máquina pesada avançou contra as paredes de tijolos, demolindo estruturas que haviam resistido a décadas de tempo e ao clima rigoroso do Cerrado. Foi durante a demolição do piso de cimento do antigo galpão que algo inesperado aconteceu. O trator afundou parcialmente, como se houvesse um vazio subterrâneo.
“Patrão, tem algo estranho acontecendo aqui”, gritou José Carlos, desligando o motor do trator. “O chão cedeu, mas isso não é normal. Parece que tem um buraco embaixo.”
Rogério aproximou-se e observou o local onde o trator afundara. Parte do piso de cimento havia se quebrado, revelando um espaço escuro sob a estrutura. Com uma lanterna na mão, ele iluminou a abertura e conseguiu distinguir o que parecia ser um cômodo subterrâneo.
“Ei, isso é um porão”, disse Rogério, com a voz cheia de surpresa. “Não estava incluído nas plantas da propriedade.”
A curiosidade falou mais alto. Rogério desceu pelo buraco no chão, seguido por dois trabalhadores. O porão tinha aproximadamente 3 m por 4 m, com paredes de concreto e teto baixo sustentado por vigas de madeira. O cheiro de umidade e mofo era forte, e suas lanternas iluminavam teias de aranha e poeira acumuladas ao longo dos anos.
No canto direito do porão, encostados na parede, havia móveis cobertos por lonas plásticas: uma escrivaninha, duas cadeiras e um arquivo de metal de quatro gavetas. Sobre a mesa, protegidos por plástico, estavam objetos que pareciam ter sido abandonados às pressas: pastas de documentos, um telefone antigo, uma máquina de escrever elétrica e alguns pertences pessoais.
“Que diabos é isso?”, murmurou Rogério, removendo cuidadosamente o plástico de uma das pastas.
A pasta continha documentos oficiais, todos carimbados e assinados. O nome que aparecia repetidamente na folha de pagamento era Henrique Valença, juiz federal. Havia também uma carteira de identidade dentro de um plástico transparente, cartões de crédito e uma agenda telefônica com anotações à mão.
No arquivo de metal, as gavetas estavam trancadas. Mas a umidade havia enferrujado a fechadura da gaveta superior, que abriu com um pouco de força. Dentro, havia dezenas de processos judiciais, documentos investigativos e uma pasta mais grossa marcada com a palavra “confidencial”, escrita à mão. Rogério não era advogado, nem tinha conhecimentos jurídicos profundos, mas conseguiu entender que os documentos tratavam de um caso de corrupção envolvendo contratos públicos e construtoras.
Havia planilhas com valores na casa dos milhões, fotografias de contratos assinados e até fitas cassete, ainda protegidas em sacos plásticos. Em uma gaveta inferior do arquivo, ele encontrou itens ainda mais pessoais: uma caneca com a inscrição “Melhor Pai do Mundo”, fotografias de família em porta-retratos empoeirados e um diário pessoal de 2005 com compromissos anotados até março.
“Patrão, o senhor precisa ver isso”, disse um dos trabalhadores, apontando uma luz para a parede do fundo do porão.
Alguém havia escrito algo no concreto, aparentemente com giz ou carvão.
“Se algo acontecer comigo, contate Otávio Moreira, MPF.”
Rogério sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele não sabia quem era Henrique Valença, mas estava claro que aqueles objetos não haviam chegado ali por acaso. Alguém criara aquele porão secreto e armazenara cuidadosamente tudo o que pertencia ao juiz desaparecido. Ao retornar à superfície, Rogério decidiu interromper a demolição, ligou para um advogado de sua confiança em Goiânia e explicou a descoberta. A orientação foi clara: contate a Polícia Civil imediatamente e não toque em mais nada até que os investigadores cheguem.
O chamado para a delegacia mais próxima foi feito naquela mesma tarde. O policial que atendeu à ocorrência, Paulo Mendes, chegou à fazenda Santa Clara duas horas depois, acompanhado de dois investigadores e um perito forense.
“Sr. Rogério, o senhor tem alguma ideia da importância do que encontrou aqui?”, perguntou o delegado Mendes após examinar rapidamente o conteúdo do porão. “Henrique Valença desapareceu em 2005. Este é um dos casos mais antigos e misteriosos de Brasília.”
A notícia da descoberta vazou para a imprensa local três dias depois. Os jornais de Brasília trouxeram manchetes que traziam de volta uma história que a capital federal preferia esquecer: “Itens pertencentes a juiz desaparecido encontrados em fazenda” e “Mistério de 15 anos pode ter nova pista em propriedade rural”.
Marlene Duarte, agora com 71 anos, soube da descoberta através de um vizinho que assistira ao noticiário da tarde. Ela não havia mudado o número do celular desde 2005, esperando que Henrique pudesse tentar entrar em contato. Quando o repórter ligou pedindo uma entrevista, Marlene sentiu suas pernas tremerem.
“Eles realmente encontraram as coisas do meu marido?”, perguntou ela, com a voz embargada pela emoção.
Depois de 15 anos, alguém finalmente havia encontrado algo? Para Marlene, a descoberta na fazenda Santa Clara representava a primeira prova concreta de que Henrique não havia desaparecido voluntariamente. Alguém se deu ao trabalho de guardar meticulosamente seus pertences em um local secreto. E isso só podia significar uma coisa: seu marido fora vítima de algo muito mais complexo do que as autoridades haviam admitido em 2005.
A reabertura oficial do caso Henrique Valença, 15 anos após seu desaparecimento, trouxe de volta ao primeiro plano personagens que prefeririam deixar essa história no passado. O procurador Otávio Moreira, agora com 68 anos e próximo da aposentadoria, foi convocado para depor sobre sua última conversa com o juiz desaparecido. A mensagem na parede do porão — “Se algo acontecer comigo, procure Otávio Moreira, MPF” — colocara o procurador sob os holofotes. Otávio sabia que não poderia mais adiar a revelação dos documentos que mantivera trancados em seu cofre particular por uma década e meia.
“Delegado, preciso fazer uma confissão que deveria ter feito em 2005”, disse Otávio durante seu depoimento na delegacia, em outubro de 2020. Suas mãos tremiam levemente enquanto abria uma pasta que trouxera consigo. “Henrique me entregou documentos provando um esquema de corrupção envolvendo contratos públicos. Não divulguei na época porque temia as consequências.”
O silêncio na sala de interrogatório foi quebrado apenas pelo som da caneta do escrivão, registrando cada palavra. O delegado Paulo Mendes observou Otávio com uma expressão que misturava surpresa e indignação.
“Por que o senhor não revelou isso antes?”, perguntou o delegado.
“Porque recebi, digamos, instruções informais para não prosseguir com a investigação”, respondeu Otávio, baixando o olhar. “Henrique havia descoberto um esquema envolvendo empresários influentes e políticos de alto escalão. Quando ele desapareceu, me disseram que seria mais prudente esperar que as investigações sobre seu desaparecimento se desenrolassem antes de divulgar qualquer coisa.”
Os documentos entregues por Otávio foram analisados por uma força-tarefa especial criada para investigar o caso. As provas reunidas por Henrique em 2005 revelaram um sofisticado esquema de superfaturamento em obras públicas que desviara mais de milhões de reais dos cofres do governo federal. Entre os documentos encontrados no porão da fazenda Santa Clara, os investigadores descobriram algo ainda mais revelador: uma carta escrita à mão por Henrique, datada de 13 de março de 2005, um dia antes de seu desaparecimento. A carta estava endereçada à sua esposa, Marlene, e mantida dentro de um envelope lacrado no fundo da gaveta do arquivo de metal.
“Minha querida Marlene, se você está lendo esta carta, significa que algo sério aconteceu comigo. Descobri um esquema de corrupção envolvendo pessoas muito poderosas. Sei que estou correndo riscos, mas não posso mais fingir que não vi nada. Os documentos que entreguei a Otávio são apenas uma parte das provas que consegui reunir. O resto está guardado em um lugar seguro. Se algo acontecer comigo, entre em contato com o advogado Wagner Santos. Ele saberá onde encontrar o restante das provas. Amo você para sempre. Henrique.”
Wagner Santos, o investigador particular contratado por Marlene anos antes, havia falecido em 2018 vítima de um ataque cardíaco, mas seus arquivos, guardados por sua viúva, continham informações que nunca haviam sido reveladas à polícia oficial. A viúva de Wagner, Carmen Santos, foi localizada pelos investigadores em uma cidade no interior de Goiás. Ela guardava uma caixa com documentos que seu marido havia reunido durante sua investigação sobre o desaparecimento de Henrique.
“Wagner sempre dizia que havia algo muito errado com aquele caso”, disse a Sra. Carmen aos investigadores. “Ele descobriu que o juiz havia guardado documentos em um lugar secreto, mas nunca conseguiu localizar onde era.”
Entre os papéis de Wagner Santos, os investigadores encontraram um mapa rudimentar com anotações manuscritas. O investigador havia identificado a fazenda Santa Clara como um possível esconderijo, mas morreu antes de conseguir explorá-la.
A revelação mais impactante veio através de uma fita cassete encontrada no porão. Na gravação, feita pelo próprio Henrique poucos dias antes de desaparecer, o juiz relatava receber ameaças veladas e perceber que estava sendo seguido.
“Estou gravando isso como uma espécie de seguro de vida”, dizia a voz de Henrique na fita, com um tom evidente de apreensão. “Nas últimas semanas, notei carros estranhos estacionados perto de casa e pessoas me vigiando no tribunal. Ontem recebi um telefonema anônimo dizendo que seria mais saudável para todos se eu esquecesse o que ando descobrindo. Não vou recuar, mas preciso tomar precauções.”
Com base nas novas evidências, a investigação focou no empresário Mário Augusto Silveira, proprietário da fazenda Santa Clara até sua morte em 2015. Ele fora um dos principais beneficiários dos contratos superfaturados identificados por Henrique, e sua fazenda servia como local para reuniões discretas com políticos e outros empresários envolvidos no esquema. Ex-funcionários da fazenda foram localizados e interrogados. Um deles, o ex-caseiro Antônio Ribeiro, fez uma revelação que finalmente explicou o mistério do porão secreto.
“O Dr. Mário ordenou que aquele porão fosse construído em 2005, logo após um juiz começar a investigar seus negócios”, disse Antônio aos investigadores. “Ele disse que precisava de um lugar para guardar documentos importantes. O porão foi construído às pressas, e apenas eu e o pedreiro sabíamos de sua existência.”
Antônio também revelou que, poucos dias após a construção do porão, Mário Silveira chegara à fazenda acompanhado de duas pessoas não identificadas, carregando caixas e móveis que foram armazenados no esconderijo subterrâneo.
“O Dr. Mário me mandou esquecer que aquele porão existia”, lembrou o ex-caseiro. “Ele me pagou um dinheiro extra para manter segredo e nunca mais tocou no assunto.”
A investigação revelou que Mário Silveira manteve o porão em segredo por uma década, provavelmente esperando que o caso Henrique Valença fosse definitivamente encerrado. Quando o empresário morreu em 2015, ele levou consigo o segredo da localização dos pertences do juiz desaparecido.
Para Marlene Duarte, agora com 72 anos, as revelações trouxeram uma mistura de alívio e indignação: alívio por finalmente saber a verdade sobre o desaparecimento do marido, indignação por descobrir que, por 15 anos, as autoridades sabiam muito mais do que haviam admitido publicamente.
“Henrique morreu porque quis fazer a coisa certa”, disse Marlene em entrevista a um jornal local, segurando uma foto do marido tirada poucos dias antes de seu desaparecimento. “Ele sabia que estava correndo riscos, mas acreditava na justiça. Agora sei que ele não morreu em vão.”
O caso Henrique Valença foi encerrado oficialmente em março de 2021, exatamente 16 anos após o desaparecimento do juiz. A investigação concluiu que ele foi vítima de um crime relacionado às suas investigações sobre corrupção. Embora os responsáveis diretos nunca tenham sido identificados, Mário Silveira foi indiciado postumamente por ocultação de provas e formação de organização criminosa.
Os documentos reunidos por Henrique resultaram na abertura de dezenas de processos criminais e na condenação de vários empresários e políticos envolvidos no esquema de superfaturamento. Sua morte não fora em vão. 15 anos depois, a justiça que ele tanto defendeu finalmente prevaleceu.
Hoje, uma placa discreta no Tribunal de Justiça de Brasília homenageia a memória do juiz Henrique Valença, que deu a vida em defesa da honestidade e da transparência no serviço público. Marlene visita a placa todo dia 15 de março, data em que seu marido desapareceu, levando um buquê de flores do Cerrado.
A fazenda Santa Clara foi transformada em um memorial, e o porão onde os pertences de Henrique foram encontrados permanece preservado como um lembrete de uma época em que a verdade custava muito mais caro do que o silêncio. Brasília, que preferiu esquecer o caso por 15 anos, agora carrega a memória de um homem que escolheu a justiça, mesmo sabendo que isso custaria tudo.
A história do juiz Henrique Valença tornou-se um símbolo de resistência contra a corrupção e um lembrete de que algumas verdades, por mais profundamente enterradas que estejam, sempre encontram um caminho para ressurgir.
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