
Cristiane morreu minutos depois de celebrar o Natal com sua amorosa família. A mansão no condomínio fechado de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, estava decorada com luzes douradas e árvores importadas. Era 24 de dezembro de 2011, e a família de Renato comemorava mais um ano de conquistas.
Sua empresa de desenvolvimento imobiliário havia fechado o maior negócio de sua história. Os filhos estavam presentes, os netos corriam pelo jardim iluminado. Tudo parecia perfeito. Cristiane, de 51 anos, era o centro daquela família. Casada com Renato há 18 anos, ela administrava a casa, organizava eventos e mantinha as aparências que seu status social exigia.
Nas fotografias daquela noite, ela sorria ao lado do marido. Vestido verde esmeralda, colar de pérolas, maquiagem impecável. Ninguém ali poderia imaginar que aquela seria sua última ceia. Por volta das 23h, Renato serviu vinho para sua esposa. Um gesto que os convidados interpretaram como carinho.
Cristiane agradeceu ao marido com um beijo no rosto. Ela bebeu duas taças antes da meia-noite. Quinze minutos após a meia-noite do dia 25, ela sentiu os primeiros sinais de náusea. Levantou-se da mesa com dificuldade, alegando sentir-se mal. Renato a acompanhou até o quarto. Minutos depois, ela desmaiou no corredor.
Falta de ar, dor no peito, suores frios. A família entrou em pânico. Alguém chamou os serviços de emergência. A ambulância chegou em 12 minutos. Os paramédicos encontraram Cristiane inconsciente com sinais de parada cardiorrespiratória. Eles iniciaram os procedimentos de reanimação ali mesmo, no chão de mármore da mansão. O desfibrilador foi usado três vezes. Não houve resposta.
Cristiane foi declarada morta à 0h47 do dia 25 de dezembro de 2011. O médico do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) registrou a causa preliminar como infarto agudo do miocárdio.
“Uma tragédia de Natal”, todos disseram.
Renato chorou enquanto abraçava os filhos, recebeu as condolências dos vizinhos e organizou um velório discreto apenas para a família.
Ele parecia o viúvo devastado que todos esperavam ver, mas havia alguém naquela família que não aceitaria a explicação fácil. Clarice, a filha mais velha de Cristiane, de 32 anos, notou detalhes que ninguém mais notou. O comportamento do padrasto nas horas que antecederam a morte, sua insistência em servir o vinho pessoalmente, sua calma excessiva diante do corpo da esposa.
Clarice ainda não sabia o que havia acontecido, mas sabia que algo estava errado e decidiu que não descansaria até descobrir a verdade. O que ela encontraria nas semanas seguintes transformaria aquele Natal em um dos crimes mais calculados já registrados em Minas Gerais. Para entender a morte de Cristiane, é necessário conhecer o homem com quem ela dividiu quase duas décadas de sua vida.
Renato nasceu em Contagem, cidade industrial da região metropolitana de Belo Horizonte, em 1957. Filho de um metalúrgico e de uma costureira, ele cresceu em circunstâncias modestas. Aos 17 anos, ela começou a trabalhar como assistente administrativo em uma construtora local. Ele era disciplinado, ambicioso e obcecado por ascensão social.
Durante os anos 1980, Renato estudou engenharia civil à noite enquanto trabalhava durante o dia. Ele se formou em 1985. Três anos depois, fundou sua própria empresa com um empréstimo bancário e um único funcionário. A construtora cresceu lentamente nas décadas seguintes, beneficiando-se do boom imobiliário brasileiro. Em 1993, Renato conheceu Cristiane em uma feira de negócios em São Paulo.
Ela tinha 33 anos, era divorciada e mãe de uma filha pequena chamada Clarice. Ela trabalhava como arquiteta em uma firma renomada. A atração foi imediata. Casaram-se 6 meses depois. Cristiane desistiu de sua carreira para se dedicar à família. Renato adotou Clarice legalmente e começou a sustentá-la como sua própria filha.
O casal teve mais dois filhos juntos. A família estabeleceu-se como um ponto de referência social em Belo Horizonte. Jantares beneficentes, viagens internacionais, aparições em colunas sociais. Fábio entrou na vida de Renato em 2002; ele é um advogado especializado em direito imobiliário. Tornou-se consultor jurídico da incorporadora imobiliária.
Em 2005, Renato o convidou para ingressar na sociedade. Fábio passou a deter 15% da empresa e começou a visitar a casa do sócio regularmente. O caso extraconjugal entre Cristiane e Fábio começou em 2009. Investigações subsequentes revelaram mensagens que datavam de março daquele ano. Os encontros aconteciam em hotéis da capital e durante viagens que Cristiane dizia fazer para visitar a mãe em São Paulo.
Renato descobriu a traição por acaso. Em 21 de dezembro de 2011, três dias antes do Natal, ele encontrou o tablet de Cristiane desbloqueado na mesa do escritório dela. Ele abriu o aplicativo de mensagens por curiosidade. O que ele leu lá mudou tudo. Havia centenas de conversas entre Cristiane e Fábio.
Declarações de amor, planos para o futuro, críticas a Renato, detalhes íntimos de seus encontros. O relacionamento durava mais de dois anos e envolvia o homem que Renato considerava seu melhor amigo. Segundo depoimentos posteriores, Renato não demonstrou nenhuma reação visível, não confrontou a esposa, não ligou para Fábio, simplesmente devolveu o tablet para onde o encontrou e se trancou em seu escritório por horas.
Nos três dias seguintes, ele pesquisou substâncias cardiotóxicas na internet, acessou fóruns de toxicologia e comprou um frasco de medicamento veterinário de um site estrangeiro com entrega expressa. O plano estava em andamento. A ceia de Natal na mansão de Renato seguia um ritual anual. Os preparativos começaram às 8h00 e envolveram uma equipe de quatro funcionários contratados especificamente para a ocasião.
Em 24 de dezembro de 2011, tudo correu como de costume. A cozinheira preparou peru, presunto, arroz com lentilhas e rabanada. Os garçons arrumaram as mesas no jardim de inverno. Cristiane supervisionou a decoração com sua característica atenção meticulosa aos detalhes. Renato permaneceu no escritório a maior parte do dia.
Ele disse à esposa que precisava resolver algumas pendências da empresa antes do recesso. Funcionários relataram que ele parecia calmo, até mais amigável do que o normal. Ela saiu do escritório às 18h para se arrumar para a festa. Os convidados começaram a chegar às 20h. Estavam presentes os três filhos do casal: Clarice, de 32 anos, e os dois filhos biológicos de Renato, de 17 e 15 anos.
Havia também dois cunhados, uma sogra e quatro netos, 17 pessoas no total. Fábio não foi convidado naquele ano. Renato explicou à esposa que preferia uma comemoração apenas em família. Cristiane não questionou. O jantar prosseguiu normalmente até as 23h. Renato confraternizou com os convidados, contou piadas e brindou com os cunhados.
A certa altura, ele foi até a adega e voltou com uma garrafa de vinho tinto reserva especial. Ele anunciou que o vinho era exclusivamente para Cristiane.
“Um presente de Natal,” ele disse, “um rótulo raro que ela havia mencionado querer experimentar meses antes.”
A esposa sorriu e agradeceu. Renato abriu a garrafa na frente de todos.
Ele serviu a primeira taça para Cristiane. Os convidados acharam o gesto romântico. Ninguém percebeu que ele segurava a garrafa de uma forma que impedia os outros de se servirem do mesmo vinho. Cristiane bebeu sua primeira taça por volta das 23h30. A segunda, às 23h50. À 0h10, já no dia 25, ela comentou que estava sentindo calor.
Cinco minutos depois, a náusea começou. A substância usada por Renato era um glicosídeo cardiotóxico encontrado em medicamentos veterinários. A droga interfere na condução elétrica do coração, causando arritmias fatais. Os sintomas aparecem entre 30 minutos e uma hora após a ingestão. Cristiane morreu de parada cardíaca induzida, mas ninguém sabia disso naquela noite.
O laudo preliminar do Instituto Médico Legal indicou um ataque cardíaco como causa da morte. O corpo foi liberado para sepultamento no dia 26 de dezembro. O crime perfeito parecia estar completo. Os primeiros dias após a morte de Cristiane foram um período de aparente luto. Renato recebeu centenas de mensagens de condolências.
A imprensa local publicou artigos sobre a empresária que havia morrido subitamente na véspera de Natal. A investigação policial foi aberta como procedimento padrão, mas não havia suspeita de crime. A delegada encarregada, Márcia, interrogou os familiares que estavam presentes no jantar.
Todos confirmaram a mesma versão. Cristiane havia adoecido de repente. Paramédicos foram chamados. Ela não resistiu. Renato depôs em 28 de dezembro. Ele estava acompanhado por um advogado e demonstrou comportamento colaborativo. Ele descreveu sua esposa como saudável, sem histórico de problemas cardíacos. Ele disse que estava chocado com a morte repentina.
A delegada de polícia encerrou o caso preliminarmente em 3 de janeiro de 2012. Não havia evidências sugerindo homicídio. A família foi informada de que a investigação estava encerrada, mas Clarice não aceitou. A filha mais velha de Cristiane trabalhava como médica em um hospital de Belo Horizonte. Ele tinha conhecimento técnico suficiente para questionar o diagnóstico e tinha motivos pessoais para desconfiar de seu padrasto.
Nos dias que antecederam o Natal, Clarice notou mudanças no comportamento de Renato. Ele parecia distante, evitava conversas com a mãe dela e passava horas trancado em seu escritório. Na noite da ceia de Natal, a atenção excessiva que ele dedicou a Cristiane chamou a atenção. Vinho servido exclusivamente para ela.
Os olhares que Clarice interpretou como calculados, não amorosos. Em 4 de janeiro, Clarice foi à delegacia de polícia e solicitou formalmente uma segunda autópsia. Ele argumentou que ataques cardíacos súbitos eram raros em mulheres sem histórico cardíaco prévio. Ele solicitou exames toxicológicos completos. A detetive Márcia resistiu inicialmente.
O corpo já havia sido enterrado. A exumação exigiria autorização judicial e causaria angústia à família. Renato, ao ser informado, expressou sua oposição. Ele disse que sua enteada estava em negação e que a exumação seria uma violação à memória de Cristiane. A recusa de Renato aumentou as suspeitas de Clarice.
Ela contratou um advogado particular e protocolou um pedido judicial de exumação. O juiz concedeu o pedido em 11 de janeiro de 2012. O corpo de Cristiane foi exumado em 15 de janeiro. Amostras de tecido foram enviadas para um laboratório especializado em São Paulo. Os resultados demorariam três semanas. Enquanto isso, a investigação permaneceu suspensa.
A chefe de polícia estava aguardando os laudos. Renato manteve sua rotina. Clarice estava contando os dias. As três semanas entre a exumação e os resultados dos exames toxicológicos foram repletas de tensão silenciosa para todos os envolvidos. Renato continuou a frequentar a empresa normalmente. Ele participou de reuniões, assinou contratos e compareceu a eventos do setor imobiliário.
Para observadores externos, ele parecia ser um viúvo tentando reconstruir sua vida após uma perda trágica. Fábio, o sócio, também manteve a aparente rotina. O relacionamento entre os dois homens permaneceu cordial durante as reuniões de trabalho. Renato não havia confrontado Fábio sobre a traição, nem havia mencionado as mensagens.
O sócio não sabia que havia sido descoberto. A investigação paralela de Clarice progredia por conta própria. Ela acessou o tablet de sua mãe, que permanecia na mansão, e encontrou as mesmas mensagens que Renato havia lido três dias antes do Natal. A descoberta mudou tudo. Clarice agora tinha um possível motivo.
Seu padrasto havia descoberto a traição e, três dias depois, sua mãe estava morta. A coincidência era difícil de ignorar. Ela procurou a Detetive Márcia e apresentou as mensagens. A policial ouviu atentamente, mas explicou que um caso extraconjugal não era prova de homicídio.
Sem os resultados toxicológicos, não havia crime a investigar. A espera continuou. Durante esse tempo, Clarice revisou mentalmente os eventos daquela noite de Natal. Ele se lembrou de detalhes que antes pareciam insignificantes. A garrafa de vinho que Renato trouxe da adega, sua insistência em servir apenas Cristiane, a forma como ele observava sua esposa beber.
Ela também conversou discretamente com os funcionários que haviam trabalhado no jantar. Uma das garçonetes mencionou que Renato havia entrado na adega sozinho às 19h e permanecido lá por cerca de 15 minutos. Ele disse que achou estranho, pois ele normalmente não se envolvia na organização de festas. Se você está acompanhando esta investigação até aqui, inscreva-se no canal e deixe um like.
A informação foi repassada à delegada, que a registrou sem muito entusiasmo. Sem provas materiais, era apenas mais uma observação circunstancial. Em 4 de fevereiro de 2012, o laboratório de São Paulo enviou os resultados dos exames toxicológicos. O relatório identificou a presença de oleandrina no corpo de Cristiane.
A substância é um glicosídeo cardiotóxico extraído da planta espirradeira, comum nos jardins brasileiros. Em altas doses, causa arritmias cardíacas fatais. A concentração encontrada era incompatível com exposição acidental. Cristiane não havia morrido de ataque cardíaco. Ela havia sido envenenada. O laudo toxicológico transformou um caso encerrado em uma investigação de homicídio.
A delegada Márcia reabriu a investigação em 6 de fevereiro de 2012. Renato foi intimado para um novo depoimento, agora na condição de suspeito. Ele compareceu acompanhado por dois advogados e negou qualquer envolvimento na morte da esposa. A linha de investigação inicial focou no acesso à substância. A oleandrina não está disponível comercialmente, mas pode ser extraída da planta espirradeira ou obtida em compostos veterinários.
A polícia solicitou um mandado de busca e apreensão para a residência e o escritório de Renato. A operação foi realizada em 10 de fevereiro. Os agentes revistaram a mansão por 6 horas. Na adega, encontraram uma garrafa de vinho vazia com resíduos no fundo. O material foi enviado para análise.
No escritório de Renato, os peritos apreenderam seu computador pessoal. A análise forense revelaria, semanas depois, um histórico de pesquisas devastador. Enquanto a polícia trabalhava, os advogados de Renato tentavam conter os danos. Eles alegavam que o cliente estava sendo perseguido por sua enteada, que nunca havia aceitado o casamento da mãe. Eles solicitaram medidas preventivas de Habeas Corpus.
O juiz negou o pedido. Havia indícios suficientes de autoria e materialidade para manter Renato como suspeito. Em 15 de fevereiro, o laboratório confirmou que a garrafa encontrada na adega continha vestígios de oleandrina. A mesma substância identificada no corpo de Cristiane estava presente no vinho que Renato servira exclusivamente à esposa.
O exame pericial do computador foi concluído em 20 de fevereiro. Os resultados foram conclusivos. Entre os dias 21 e 23 de dezembro de 2011, Renato havia pesquisado sobre substâncias que causam parada cardíaca, venenos indetectáveis em autópsias comuns, dosagem letal de oleandrina e como extrair glicosídeos de plantas. Havia também registros de acesso a um site estrangeiro especializado em produtos veterinários.
O histórico de compras mostrava um pedido feito em 22 de dezembro, de um frasco de medicamento contendo oleandrina, com entrega expressa internacional. O pacote havia chegado no dia 23 de dezembro, véspera da véspera de Natal, 24 horas antes da morte de Cristiane. Renato teve prisão preventiva decretada em 22 de fevereiro de 2012.
A acusação formal foi de homicídio qualificado, com os agravantes de motivo torpe e emprego de veneno. A prisão de Renato ganhou as manchetes da imprensa mineira. O empresário de sucesso que envenenou a esposa na ceia de Natal estampou os principais jornais. Na delegacia, Renato manteve sua estratégia de negação.
Ele afirmou que as pesquisas no computador eram para um projeto de paisagismo envolvendo plantas tóxicas. Ele disse que não se lembrava de ter comprado nenhum medicamento veterinário. Ele alegou que alguém poderia ter adulterado a garrafa de vinho sem o seu conhecimento. A defesa tentou apresentar Fábio como um suspeito alternativo. Ele argumentou que o sócio tinha acesso à casa, conhecia a rotina da família e poderia ter motivos para eliminar Cristiane e incriminar Renato. A tese não prosperou.
Fábio não estava presente no jantar e possuía um álibi confirmado para toda a noite do dia 24 de dezembro. A investigação passou para a fase de coleta de depoimentos de testemunhas. Os funcionários do jantar foram interrogados novamente. A garçonete, que havia mencionado a entrada de Renato na adega, confirmou o depoimento.
Ele acrescentou que Renato carregava uma pequena caixa de papelão ao sair. O rastreamento do pedido internacional confirmou a entrega na residência de Renato às 15h do dia 23 de dezembro. A assinatura acusando o recebimento era do próprio empresário. Em março de 2012, a polícia localizou o frasco de medicamento veterinário. Estava escondido em um compartimento falso no escritório de Renato, dentro da mansão.
O frasco estava parcialmente vazio. A quantidade que faltava era condizente com a dose encontrada no corpo de Cristiane. A cadeia de evidências estava completa. Renato havia pesquisado venenos, adquirido a substância, preparado a dose na adega e servido o vinho contaminado à sua esposa. Fábio testemunhou em abril, confirmando o caso extraconjugal com Cristiane.
Ele disse que não sabia se Renato havia descoberto. Ele negou qualquer envolvimento no crime. A relação entre os sócios foi formalmente encerrada. Fábio vendeu sua participação na empresa e se afastou. Ele não foi indiciado por falta de evidências que o ligassem ao homicídio. O Ministério Público apresentou as acusações em maio de 2012.
Renato foi acusado de homicídio qualificado motivado por razões fúteis e usando meios insidiosos. A sentença esperada variava de 12 a 30 anos de prisão. O réu permaneceu sob custódia durante todo o processo legal. O julgamento de Renato foi agendado para novembro de 2013, quase dois anos após a morte de Cristiane.
Durante este período, os advogados de defesa trabalharam em várias frentes. Eles tentaram desacreditar o laudo toxicológico, argumentando que a oleandrina poderia ter tido origem acidental. Eles contrataram peritos particulares para contestar a metodologia do laboratório. Eles questionaram a cadeia de custódia das evidências.
Nenhuma das tentativas foi bem-sucedida. Os laudos oficiais foram ratificados por peritos independentes. A cadeia de custódia foi documentada. As provas materiais eram sólidas. A estratégia da defesa mudou para o aspecto psicológico. Os advogados contrataram psiquiatras para avaliar Renato. O objetivo era argumentar que ele havia agido sob violenta emoção provocada pela descoberta da traição, o que poderia reduzir a pena.
No entanto, os laudos psiquiátricos não favoreceram o réu. Especialistas concluíram que Renato era plenamente capaz de compreender a natureza ilícita de seus atos. Não havia indícios de transtorno mental ou estado emocional que justificassem a atenuação da medida. A defesa também tentou um argumento de legítima defesa da honra, uma tese que havia sido aceita em casos anteriores no Brasil.
O juiz rejeitou sumariamente o pedido. A jurisprudência brasileira contemporânea não reconhece a legítima defesa da honra como justificativa para o homicídio. Às vésperas do julgamento, os advogados de Renato solicitaram um acordo de delação premiada. Ofereceram uma confissão em troca de uma redução de pena. O Ministério Público recusou.
As provas eram suficientes para uma condenação sem a necessidade de colaboração do réu. Renato foi a júri popular em 12 de novembro de 2013. O plenário do júri em Belo Horizonte estava lotado. A imprensa cobriu o julgamento na íntegra. O promotor apresentou uma linha do tempo detalhada do crime. Ele mostrou as pesquisas no computador, a compra do medicamento, o frasco encontrado no escritório, os vestígios de oleandrina na garrafa e no corpo da vítima.
Ele exibiu as mensagens entre Cristiane e Fábio como prova do motivo. Os jurados ouviram depoimentos de Clarice, da equipe do jantar e dos peritos. A filha de Cristiane chorou ao relatar suas suspeitas iniciais. Ela disse que sua mãe confiava cegamente no marido e nunca imaginou que ele seria capaz de matá-la.
A defesa tentou humanizar Renato, apresentando-o como um homem traído, humilhado, que havia perdido o controle num momento de desespero. Ele argumentou que o planejamento do crime indicava perturbação mental, e não premeditação fria. O argumento não convenceu o júri. Após quatro dias de julgamento, os jurados se reuniram para deliberação. A votação dos quesitos ocorreu em 13 de novembro de 2013.
Os sete jurados responderam por unanimidade que Renato foi o autor do crime. Por cinco votos a dois, reconheceram a agravante de motivo torpe. Por seis votos a um, reconheceram a circunstância agravante do uso de veneno. A sessão de leitura da sentença foi tensa. Renato permaneceu impassível enquanto o juiz anunciava os resultados.
Familiares de Cristiane ocupavam as primeiras fileiras. Clarice segurava a mão de sua avó. O juiz presidente proferiu a sentença. Renato foi condenado a 26 anos de prisão, inicialmente em regime fechado. A pena base foi fixada em 20 anos, com um aumento de 6 anos devido às circunstâncias agravantes reconhecidas.
A defesa havia conseguido garantir uma ligeira redução na sentença devido a uma confissão parcial feita durante o julgamento. Renato confessou o crime durante seu interrogatório na sessão plenária. Ele disse ter planejado tudo após ler as mensagens entre Cristiane e Fábio.
Ele afirmou que não suportaria viver como o marido traído e decidiu que a esposa deveria morrer.
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A confissão confirmou o que as provas já mostravam. Renato descreveu como extraiu a oleandrina do medicamento veterinário.
Ele explicou que havia testado a substância em pequenas doses dias antes para calcular a quantidade necessária. Ele contou como usou a ceia de Natal para realizar o plano. Ele disse não sentir remorso imediato, apenas alívio por ter resolvido o problema. Segundo ele, o arrependimento veio depois, na prisão.
O promotor solicitou que a confissão não fosse considerada como atenuante, uma vez que só ocorreu quando as evidências eram irrefutáveis. O juiz concordou parcialmente, aplicando a atenuante mínima. Os advogados de defesa anunciaram que iriam recorrer, alegando sentença excessiva e questionando a validade de algumas provas.
O recurso seria julgado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. A sessão terminou às 19h. Renato foi levado de volta à prisão. A imprensa fotografou sua saída. Ele não deu declarações. Do lado de fora do tribunal, Clarice deu uma breve entrevista. Ele disse que a condenação não traria sua mãe de volta, mas que a justiça havia sido feita.
O recurso da defesa foi julgado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais em agosto de 2014. A sentença foi mantida na íntegra. Renato começou a cumprir pena na penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, a mesma cidade onde nascera 57 anos antes. A ironia não passou despercebida pelos jornalistas que cobriram o caso.
A construtora fundada por Renato foi vendida em 2015. Os filhos biológicos do empresário não quiseram assumir a gestão. A marca foi adquirida por um grupo de São Paulo e deixou de existir com o nome original. Clarice nunca mais teve contato com Renato após o julgamento. Ela se mudou para São Paulo com a avó materna.
Ela continuou trabalhando como médica e evitou entrevistas sobre o caso nos anos seguintes. Fábio vendeu sua participação acionária e deixou Belo Horizonte. Ele se estabeleceu no Rio de Janeiro, onde abriu um escritório de advocacia. Ele não foi processado criminalmente porque não havia provas ligando-o ao homicídio. O caso de Cristiane passou a ser estudado em faculdades de Direito como exemplo de homicídio qualificado por meio insidioso.
Laudos toxicológicos e investigações digitais foram destacados como modelos de prova técnica. Renato permaneceu em regime fechado até 2020, quando obteve progressão para o regime semiaberto, após cumprir 1/3 de sua pena. Em 2024, ele completou 13 anos de prisão.
De acordo com cálculos do sistema prisional, ele poderá ser elegível para liberdade condicional por volta de 2029, após cumprir aproximadamente 18 anos. Ela terá, então, 72 anos de idade. A mansão em Nova Lima foi vendida em leilão judicial para pagar indenização à família de Cristiane. O prédio onde ela morava passou por uma reforma completa. Novos moradores ocupam o terreno onde a ceia de Natal de 2011 terminou em tragédia.
O caso foi oficialmente encerrado com a condenação definitiva em 2015. Não houve recursos a tribunais superiores. Renato matou a esposa porque descobriu que ela o traía com seu sócio de negócios. Ele planejou o crime em três dias. Ele a executou na frente de 17 membros da família. Ele acreditava que sairia impune.
Tudo foi descoberto porque a filha de Cristiane não aceitou uma explicação fácil. A insistência de Clarice em solicitar uma segunda autópsia foi o elemento que transformou um suposto ataque cardíaco em um caso de homicídio. Sem ela, Renato continuaria livre. As buscas no computador nunca teriam sido descobertas.
A garrafa de vinho teria sido descartada. O crime perfeito teria sido cometido. Cristiane morreu aos 51 anos, envenenada pelo marido em quem confiava. Seu corpo descansa em um cemitério de Belo Horizonte. A lápide não faz nenhuma menção às circunstâncias de sua morte.