
Era um dia movimentado de leilão na praça da cidade quando o Coronel Vicente Almeida foi comprar trabalhadores para a lavoura. Ele precisava de homens fortes para a colheita e já estava prestes a ir embora quando anunciaram um lote especial. Uma mulher subiu no palanque e a multidão começou a rir. Ela tinha apenas 1,30 m de altura, uma anã.
Mas o coronel parou de repente. Ela tinha algo de diferente. Pele negra e brilhante, cabelos lisos caindo até os ombros e olhos verdes brilhantes como esmeraldas. Uma combinação rara, impossível de ignorar. Ele pensou rápido. Com aquela altura, seria perfeito para colher café nas partes mais baixas das plantas. Ele fez um lance e a arrematou.
Levou-a para a fazenda, pensando que ela seria apenas uma trabalhadora diferente. Mas quando conversou com ela, descobriu algo chocante, algo que mudaria tudo e transformaria o solitário coronel no homem mais feliz da região. Esta história, baseada em relatos do Brasil imperial, mostrará que o amor não conhece limites.
Era julho de 1881, e o Coronel Vicente Almeida havia acabado de completar 50 anos naquela semana. Nascido em Portugal, ele chegou ao Brasil ainda jovem, há mais de 30 anos, e nunca mais retornou à sua terra natal. Era um homem de estatura média, cerca de 1,75 m, com ombros largos e fortes, que sempre trabalhou arduamente a vida inteira, apesar de ser dono de terras. Seus cabelos grisalhos ainda eram grossos e volumosos, sempre penteados para trás com pomada. A barba era bem aparada no estilo tradicional português, e cuidada semanalmente pelo barbeiro. Seus olhos eram de um azul claro, da cor do céu de inverno, podendo ser duros quando necessário, mas também demonstrar gentileza quando ele permitia.
Ele sempre se vestia com uma sobriedade característica, usando calças de tecido fino importado, camisas brancas impecavelmente limpas e engomadas, além de um colete escuro com botões dourados. Nunca saía sem o relógio de bolso de ouro que pertencera a seu pai. Falava um português com forte e inconfundível sotaque de Portugal, especificamente da região do Porto, que nunca perdeu, apesar de viver no Brasil por três décadas.
Ele era viúvo há oito longos e solitários anos. Sua esposa, Dona Teresa, era brasileira, filha de fazendeiros tradicionais da região do Vale do Paraíba. Havia sido um amor verdadeiro, um casamento feliz, uma união abençoada. Mas Teresa morreu tragicamente ao dar à luz seu terceiro filho, quando tinha apenas 32 anos. O bebê também não sobreviveu.
Foi uma tragédia dupla que devastou completamente o Coronel Vicente. Seu coração se partiu em mil pedaços. Os dois filhos que sobreviveram e cresceram já estavam estabilizados em suas próprias vidas. Alfonso, de 20 anos, estudava medicina na capital, Rio de Janeiro. Era um jovem brilhante e dedicado. Isabel, de 18 anos, havia acabado de se casar com um rico e próspero comerciante da cidade alguns meses antes. Agora ela vivia em uma bela casa no centro.
O coronel vivia praticamente sozinho na grande fazenda, que ele literalmente construiu com as próprias mãos três décadas atrás, quando ainda era um jovem aventureiro português recém-chegado ao Brasil. Era uma propriedade belíssima e extremamente próspera, especializada exclusivamente em café de altíssima qualidade. Havia centenas e centenas de pés de café estrategicamente plantados nas encostas férteis das montanhas verdes. Exportava café premiado e renomado diretamente para a Europa, incluindo Portugal, seu país natal.
Ele era um homem genuinamente rico, muito rico, mas profundamente solitário desde a morte de Teresa. Tinha uma reputação sólida na região por ser justo, mas extremamente reservado e fechado. Falava muito pouco e sorria menos ainda. Mantinha todos a uma distância respeitosa. Pagava salários justos aos trabalhadores livres. Não era cruel nem violento com os escravizados, mas mantinha uma severa distância emocional de absolutamente todos. Desde a morte devastadora de Teresa, há 8 anos, ele havia se fechado completamente, erguendo muros altos ao redor do coração e focando obsessivamente apenas no trabalho árduo e constante.
Naquela quente manhã de julho, o coronel acordou antes do amanhecer, como sempre fazia, tomou seu café sozinho em silêncio, leu um jornal antigo e cavalgou por três horas até a movimentada cidade de Vassouras. Ele tinha uma missão clara e específica. Precisava urgentemente comprar novos e fortes trabalhadores para o campo. A colheita de café deste ano seria excepcionalmente abundante, extraordinária, batendo recordes. As árvores estavam carregadas de grãos vermelhos e maduros. A colheita começaria em poucas semanas e exigia braços fortes, muitos braços, para evitar a perda de qualquer parte da valiosa safra.
Ele chegou à grande praça central, onde ocorria o leilão mensal, por volta das 9 da manhã. O sol de julho já estava alto e escaldante. O local estava absolutamente lotado. Ricos fazendeiros de toda a região, comerciantes interessados, curiosos sem nada melhor para fazer. Ele se posicionou estrategicamente perto do palanque de madeira, observando atentamente, com o olhar crítico e experiente de quem sabia muito bem o que procurava.
Ele buscava especificamente por homens jovens, entre 20 e 30 anos, robustos, musculosos, com aparência saudável, bons para o trabalho brutalmente pesado de colher café, subindo e descendo colinas íngremes o dia todo, sob o sol escaldante, carregando cestos pesados. Durante toda a manhã, vários lotes foram apresentados e vendidos. O coronel observou cada um com senso crítico, calculando seu valor, utilidade e provável durabilidade.
Ele já havia comprado dois escravos que atendiam perfeitamente às suas necessidades. Dois homens excepcionalmente robustos, no início dos vinte anos, com ombros largos, braços grossos e musculosos, pernas fortes e aparência de saúde perfeita. Exatamente o que ele precisava. Havia pago um bom preço por eles, 500 mil réis cada um, mas valiam cada centavo. Estava satisfeito com as compras e prestes a ir embora de vez, já pensando na longa viagem de volta, quando o leiloeiro, gordo e suado, fez um anúncio diferente, chamando especial atenção.
“Atenção, distintos cavalheiros e damas presentes. O próximo lote é muito especial, muito incomum. Uma raridade que não se vê todos os dias. Prestem atenção. Lote número 34.”
Uma mulher foi trazida pelos ajudantes e cuidadosamente colocada no palanque de madeira elevado. E toda a multidão de centenas de pessoas começou a rir. Gargalhadas altas, cruéis, desrespeitosas e zombeteiras ecoaram pela praça. A mulher era extraordinariamente baixa. Uma verdadeira anã. Tinha apenas 1,30 m de altura, talvez 1,35 m no máximo. Quando ficou em pé no palanque, mal se podia vê-la por cima da borda de madeira. Apenas a cabeça ficava visível.
“Que criatura estranha e minúscula!”, gritou alguém bem alto no meio da multidão. “Parece uma criança de 10 anos. Para que serve uma coisa dessas? Não consegue nem alcançar a mesa para limpar. Deve ser amaldiçoada, um castigo de Deus.”
O leiloeiro, percebendo o problema de visibilidade, rapidamente ordenou que trouxessem um caixote grande de madeira. Colocaram a caixa no palanque e a mulher subiu nela, tornando-se finalmente visível para toda a multidão. As risadas e os comentários maldosos continuaram impiedosamente. Mas o Coronel Vicente não riu em nenhum momento, não fez nenhum comentário cruel. Ele apenas a encarou, intensamente intrigado, curioso, de uma forma que não sabia explicar.
A mulher realmente possuía algo extraordinariamente diferente, marcante, impossível de ignorar. Sim, ela era muito, muito baixa, inconfundivelmente uma anã. A estatura era infantil, mas o corpo era proporcionalmente bem formado e harmonioso. Não era desajeitada nem disforme. Tinha uma bela figura feminina, apesar da baixa estatura, com a cintura definida, quadris com curvas e seios pequenos, porém presentes. Era claramente uma mulher adulta, apenas muito pequena.
Seu rosto era delicado e genuinamente bonito, de forma surpreendente. Traços africanos suaves e harmoniosos. Maçãs do rosto altas e aristocráticas, um nariz pequeno e perfeitamente desenhado e lábios cheios e bem formados. A expressão era serena e digna, apesar da situação humilhante de ser alvo de risadas.
Sua pele era negra, muito escura, da cor de ébano polido, reluzindo intensamente sob o forte sol da manhã de julho. E os cabelos dela eram completamente lisos, absolutamente retos. Não eram crespos, como era extremamente comum entre os africanos. Eram lisos como cabelos europeus, caindo retos e brilhantes até os ombros delicados, de um preto intenso como a asa de um corvo.
Mas o mais impressionante, o mais extraordinário de tudo, eram os olhos. Os olhos eram verdes, verdes claros, vívidos, brilhantes e intensos como raras esmeraldas preciosas, verdes como a grama nova da primavera, verdes como o mar tropical. A combinação era absolutamente extraordinária, extremamente rara, impressionante. Pele negra e escura, cabelos completamente lisos, olhos verdes brilhantes e um corpo anão. Ele nunca tinha visto nada parecido nos seus 50 anos de vida.
O Coronel Vicente aproximou-se mais do palanque, empurrando educadamente as pessoas para o lado, querendo ver melhor, estudar mais de perto.
“Lote número 34”, anunciou o leiloeiro em voz alta, tentando abafar o próprio riso. “Uma mulher de 25 anos, saudável, apesar de sua óbvia baixa estatura. Vem diretamente da fazenda do falecido Barão Henrique de Bragança em Portugal. Trabalhou por anos em uma grande casa portuguesa e é hábil em várias tarefas domésticas. Quem dá o primeiro lance?”
Silêncio. Ninguém a queria. As pessoas apenas continuavam rindo, comentando e zombando. O Coronel Vicente, no entanto, pensava rápido, calculando possibilidades práticas. Com sua altura extremamente baixa, ela seria potencialmente perfeita, ideal para a colheita de café, especificamente nas partes mais baixas das plantas, onde os grãos maduros ficavam nos galhos mais próximos ao chão. Trabalhadores de altura média tinham que se curvar de maneira desconfortável e dolorosa para alcançar esses frutos baixos, perdendo tempo precioso e eficiência, além de cansarem as costas. Ela poderia fazer isso naturalmente em pé, de forma confortável e sem esforço extra. Era um investimento que fazia total sentido prático e econômico.
“Quanto o senhor está pedindo?”, perguntou ele em voz alta e clara.
O leiloeiro pareceu genuinamente surpreso, chocado. Ele não esperava absolutamente nenhum interesse por aquela escrava tão diferente, tão incomum. “Ah, excelente! 200 mil réis, coronel. Um preço especial, muito especial pela qualidade única da mercadoria.”
Era barato, muito, muito barato, comparado aos dois homens robustos que acabara de comprar por 500 mil réis cada. Era praticamente nada. “Aceito, 200 mil réis.” Ninguém mais deu um lance competitivo. Ninguém mais teve interesse. “Maravilha. Vendido. Vendido para o ilustre Coronel Vicente Almeida.”
Ele pagou a quantia irrisória em dinheiro vivo ali mesmo e pegou os documentos de posse, devidamente assinados e carimbados. A mulher foi ajudada a descer cuidadosamente do palanque. Ela precisava de ajuda porque era alto demais para que pudesse descer em segurança sozinha, e foi levada para a grande carroça dele, onde os dois homens robustos que comprara antes já aguardavam.
Durante a longa e exaustiva viagem de volta à fazenda – uma jornada difícil de aproximadamente três horas por estradas de terra ruins e acidentadas –, o coronel cavalgou confortavelmente em seu forte cavalo castanho à frente da mulher miúda. O grupo o seguia, mas ele se pegava repetidas vezes olhando para trás, virando-se no assento, observando.
A mulher anã sentava-se quieta, silenciosamente, na carroça de madeira. Mesmo sentada, ela era visivelmente muito menor do que os dois homens ao seu lado. Mas tinha uma postura ereta, digna, de cabeça erguida; não parecia envergonhada, diminuída ou humilhada pelo seu nanismo. Ela observava atentamente a paisagem: as montanhas verdes, as plantações organizadas, os riachos, as casas espalhadas, como se estudasse tudo com interesse, gravando na memória.
Quando finalmente chegaram à grande fazenda no meio da tarde, com o sol ainda alto, mas menos intenso, o coronel desmontou rapidamente e logo enviou os dois homens robustos direto para o alojamento coletivo dos trabalhadores da lavoura, nos fundos da propriedade. Mas chamou especificamente a mulher anã de lado, com uma intenção diferente.
“Venha comigo, preciso conversar.”
Ela obedeceu sem questionar, seguindo-o em direção à Casa Grande. Mas tornou-se imediatamente óbvio que havia um problema prático. Ela tinha que dar passos muito rápidos, quase correndo desconfortavelmente, para acompanhar o ritmo normal dele. As pernas dele eram compridas. As pernas curtas dela simplesmente não conseguiam cobrir a mesma distância. Ele notou isso rapidamente e, de forma automática, instintivamente diminuiu o passo para que ela pudesse acompanhá-lo com conforto. Levou-a até a ampla e fresca varanda da casa grande, com uma bela vista para os jardins.
“Sente-se aí”, ele indicou uma cadeira de madeira.
Ela sentou-se obedientemente. Teve que se sentar na beirada da cadeira, porque, se sentasse normalmente, encostada no encosto, os pés dela não alcançariam o chão; ficariam balançando no ar como os de uma criança pequena.
“Qual é o seu nome completo?”
“Zalica, senhor.”
A voz dela era surpreendentemente suave, agradável de ouvir, musical. Falava com um sotaque ligeiramente interessante e exótico, uma clara mistura do sotaque africano com o português de Portugal.
“Zalica, um nome bonito, diferente, gostei. De onde você é originária, Zalica?”
“Nasci em Moçambique, senhor, no sul do país, numa aldeia perto do litoral. Fui capturada e levada para Portugal quando era muito nova. Tinha apenas 8 anos. Trabalhei por 15 anos inteiros na fazenda do Barão Henrique de Bragança, perto de Lisboa. A pessoa que me trouxe para o Brasil agora já estava estabelecida lá há muito tempo.” Uma sombra de tristeza cruzou os olhos verdes dela. “O Barão Henrique faleceu há cerca de seis meses, senhor. Morreu sem herdeiros diretos, sem filhos. Todos os seus bens, incluindo terras, casa, móveis e todos os escravos, foram vendidos em leilão para pagar dívidas que ele havia acumulado. Fui trazida especificamente para o Brasil, junto com outros, porque o mercado de escravos aqui paga melhor, com preços mais altos do que em Portugal.”
O Coronel Vicente a estudou atentamente e meticulosamente por um longo momento. De perto, ali na varanda, ela era de fato extraordinariamente, impressionantemente pequena. Quando ele ficava de pé, na postura normal, e ela também se levantava ao seu lado, a cabeça dela mal alcançava a cintura dele. Tinha a altura de uma criança de 8 ou 9 anos, no máximo, mas era claramente uma mulher adulta. O rosto refletia maturidade e o corpo tinha curvas femininas, apesar do tamanho. Seus olhos verdes eram absolutamente impressionantes, hipnotizantes. Brilhavam com evidente inteligência, com vida e profundidade.
“Diga-me honestamente, o que exatamente você sabe fazer? Que trabalhos, que tarefas?”
“Trabalhei exclusivamente dentro da casa principal do Barão, senhor.”
Ao longo dos anos, ela havia aprendido a cozinhar vários pratos, tanto tradicionais portugueses quanto africanos de Moçambique. Sabia costurar com perfeição, bordar detalhes delicados, consertar roupas e limpar e organizar toda a casa, de acordo com os rigorosos padrões europeus. Ela hesitou e depois continuou:
“Eu sei ler e escrever fluentemente, senhor.”
Os olhos azuis do Coronel Vicente se arregalaram completamente, genuinamente chocados. “Você sabe ler? Ler de verdade?”
“Sim, senhor. O Barão Henrique era um homem extremamente culto, muito educado, tinha uma biblioteca pessoal imensa, com milhares de volumes. Ele permitia e me incentivava a aprender. Ele me ensinou pessoalmente durante muitos anos, pacientemente. Leio português fluentemente, um pouco de francês, e consigo entender o básico de latim também.”
O coronel ficou visivelmente impressionado, surpreso. Um escravo que sabia ler era uma raridade extrema, excepcional. Um escravo que lia em vários idiomas era praticamente impossível de se encontrar. A ideia inicial dele mudou instantaneamente.
“Então você não vai trabalhar de forma alguma colhendo café, como eu havia planejado originalmente. Isso seria um completo desperdício das suas habilidades. Você vai trabalhar aqui dentro da casa.” A voz do coronel tornou-se mais firme. “Preciso de alguém competente e de confiança para assumir o controle da Casa Grande. Preciso urgentemente de alguém para organizar minha biblioteca, que está em estado caótico, e cuidar adequadamente dos livros valiosos. Também preciso de ajuda com a correspondência de negócios que recebo constantemente.”
Os olhos verdes dela brilharam com alegria e esperança. “Sim, senhor. Agradeço imensamente, do fundo do coração. Darei o meu melhor.”
Ele chamou em voz alta: “Dona Conceição!” E uma senhora idosa apareceu, baixa, gordinha, com cerca de 65 anos. Era Dona Conceição, a governanta extremamente competente e leal que administrou com eficiência toda a Casa Grande por décadas.
“Sim, senhor, coronel.”
“Dona Conceição, esta é Zalica. Ela vai trabalhar exclusivamente dentro de casa a partir de agora, não no campo. Por favor, dê um banho completo nela, roupas limpas e apropriadas. Mostre onde ela vai dormir e onde estão os mantimentos.”
“Sim, senhor, coronel. Venha comigo, menina.”
Zalica foi guiada gentilmente por Dona Conceição até os fundos organizados da Casa Grande. Dona Conceição era uma mulher extremamente gentil e maternal, que não julgava as pessoas pelas aparências ou diferenças físicas. Tinha um coração imenso.
“Venha, querida. Você é muito pequenininha, muito baixa mesmo, mas isso não importa nem um pouco aqui nesta casa. Vamos cuidar muito bem de você, com carinho.”
Eles prepararam um banho quente e cuidadoso para Zalica em uma grande banheira. Ela quase afundou na água, de tão pequena que era. Lavaram os cabelos longos e lisos dela com sabão perfumado. Depois, tentaram encontrar roupas que coubessem em seu corpo pequeno. Foi difícil, quase impossível. Tudo era muito grande, longo ou largo demais. Tiveram que improvisar, ajustando apressadamente com agulha e linha, costurando, cortando, adaptando. Finalmente, encontraram um vestido simples que servia mais ou menos, embora estivesse um pouco folgado.
Deram a Zalica um quarto de solteiro pequeno, mas extremamente limpo e arrumado, nos fundos da casa principal, perto da cozinha. Tinha uma cama de solteiro, uma mesinha, uma cadeira e uma janela com vista para o jardim. Era simples, mas digno e confortável. Naquela primeira noite na nova fazenda, Zalica deitou-se na cama, que era desproporcionalmente grande demais para ela. Seus pés nem chegavam à borda da cama. Estavam longe demais, e ela chorou silenciosamente de alívio e com um profundo sentimento de gratidão.
Ela estivera terrivelmente apavorada, com medo de ter sido comprada apenas para ser exibida em público como uma aberração, uma grotesca curiosidade de circo, como um monstro para as pessoas pagarem para ver e rir. Isso acontecia frequentemente com pessoas muito diferentes fisicamente, mas ela foi comprada para trabalhar com dignidade, para usar sua inteligência e talentos. Foi uma bênção inesperada, um milagre.
Na manhã seguinte, bem cedo, antes mesmo de o sol nascer por completo, Dona Conceição bateu na porta e a acordou gentilmente. “Bom dia, querida Zalica. Levante-se. O Coronel Vicente sempre toma o café da manhã, pontualmente às 6 horas em ponto, nunca se atrasa. Após o café, ele vai mostrar pessoalmente o que deseja que você faça na biblioteca.”
Zalica se arrumou rápido e desceu para a espaçosa sala de jantar. Teve bastante dificuldade com a escada. Os degraus eram muito altos, desproporcionais para ela. Quase na altura do joelho. Teve que descer muito devagar, segurando-se firmemente com as duas mãos no corrimão de madeira para não cair, praticamente se arrastando. Degrau por degrau.
O Coronel Vicente já estava sentado à elegante mesa, tomando café, lendo atentamente o jornal que chegara da capital. Ele olhou para cima quando ela entrou com dificuldade visível. Ele imediatamente percebeu o problema com as escadas e franziu a testa, pensativo.
“As escadas são um problema sério para você. Vi que você desceu com muita dificuldade.”
“Posso descer, senhor. Só preciso de cuidado extra. Mais tempo.”
“Isso não é adequado nem seguro. Vou pedir para o carpinteiro construir degraus menores e mais baixos em uma seção específica da escada, para que você possa subir e descer com facilidade e segurança.”
Ela pareceu genuinamente surpresa, comovida. “O senhor não precisa se preocupar tanto comigo, senhor. Não é nenhum problema.”
“É totalmente prático e necessário. Não posso ter você caindo e quebrando o pescoço nas escadas todos os dias. Além disso, você vai usar as escadas dezenas de vezes por dia. Precisa ser seguro e eficiente. Venha, depois do café eu vou lhe mostrar a biblioteca.”
Após a refeição da manhã, o coronel levou Zalica pessoalmente até a biblioteca. Uma sala espaçosa, linda e impressionante, com estantes altas de madeira nobre, que iam do chão ao teto. Era incrivelmente alta, absolutamente transbordando de livros, apinhada. Havia, literalmente, centenas, talvez milhares de volumes de todos os tamanhos.
Zalica entrou e parou na porta, olhando em volta maravilhada, de boca aberta. “Que biblioteca absolutamente linda e magnífica, senhor. Nunca vi tantos livros juntos, nem mesmo na casa do Barão em Portugal.”
“Herdei cerca de metade destes livros do meu pai, quando ele faleceu em Portugal. Comprei a outra metade eu mesmo, ao longo de três décadas, em todas as minhas viagens, sempre que via algo interessante. Mas está tudo completamente desorganizado, caótico, uma bagunça. Não há sistema nenhum. Não consigo encontrar nada quando preciso. Quero que você organize tudo metodicamente, por assunto principal e depois por autor dentro de cada assunto. E há muitos livros que estão se deteriorando gravemente devido à umidade e insetos. Preciso saber exatamente quais são, para que eu possa mandar restaurá-los profissionalmente antes que se percam de vez.”
“Farei isso com o maior cuidado e dedicação, senhor. Tratarei cada livro como um tesouro precioso.”
“Excelente. E também preciso regularmente de ajuda com a correspondência de negócios. Constantemente recebo muitas cartas comerciais de Portugal, Inglaterra, França, de toda a Europa. Algumas vezes a caligrafia é extremamente difícil de ler, quase ilegível. Outras vezes estão em francês, idioma que não entendo bem. Você pode me ajudar a ler, traduzir e responder?”
“Sim, senhor. Será uma honra.”
Mas havia um problema prático, óbvio e imediato. Zalica simplesmente não conseguia alcançar os livros nas prateleiras mais altas. E a grande maioria das prateleiras era alta, alta demais para ela. Ela só conseguia alcançar os livros das duas prateleiras mais baixas. O resto, que correspondia a 90% da biblioteca, estava fora de seu alcance.
O coronel percebeu o problema quase imediatamente. “Isso não vai funcionar. Você não consegue alcançar os livros. Vou pedir ao carpinteiro para fazer uma escada especial, pequena, leve e com rodas na base. Você vai poder movê-la facilmente pela biblioteca toda, para alcançar qualquer prateleira que precisar.”
“Muito obrigada, senhor. O senhor é muito atencioso, gentil, apenas prático.”
Nos dias seguintes, enquanto o habilidoso carpinteiro construía a escada especial com rodas, Zalica começou a imensa tarefa de organizar a biblioteca, começando pelas prateleiras baixas que conseguia alcançar. Era a tarefa que ela absolutamente amava fazer: estar rodeada de livros maravilhosos, poder tocar volumes preciosos, ler títulos fascinantes e sentir o aroma característico do papel antigo.
Ela rapidamente descobriu que o Coronel Vicente tinha gostos literários extremamente sofisticados e refinados. Tinha obras densas de filosofia europeia, coleções de poesia clássica e moderna, livros volumosos sobre história mundial, tratados científicos sobre agricultura e astronomia. Possuía volumes em português, obviamente, mas também muitos em francês, vários em inglês, e até mesmo alguns raros em latim clássico. Ela trabalhou metodicamente, cuidadosamente catalogando cada volume em um grande caderno que o coronel havia fornecido especificamente para esse propósito. Ela anotava o título completo, autor, ano de aquisição, estado de conservação e localização na prateleira.
O Coronel Vicente visitava a biblioteca várias vezes por dia. Inicialmente, era supostamente apenas para checar o andamento do trabalho, ver como estava indo. Mas ele começou a ficar por períodos mais longos, sentado na confortável poltrona de couro, conversando com Zalica enquanto ela trabalhava.
“Você gosta genuinamente de ler?” perguntou ele um dia, curioso.
“Eu amo, senhor. Amo com todo o meu coração. É absolutamente o que mais gosto de fazer em toda a minha vida. Quando estou lendo um bom livro, posso viajar para qualquer lugar do mundo sem sair do lugar. Posso conhecer qualquer pessoa que já viveu. Posso viver mil vidas diferentes. É pura magia.”
“Que tipo de livro você prefere especificamente?”
“Poesia, senhor. Especialmente os grandes poetas clássicos portugueses: Camões, naturalmente, Bocage, Antero de Quental. Mas eu também gosto muito de histórias de aventura e exploração. Gosto de imaginar lugares distantes, mares desconhecidos.”
O coronel sorriu de leve, algo extremamente raro para ele. “Também sou um grande admirador de Camões. Ele era meu compatriota. Estudei Os Lusíadas inteiros na escola, em Portugal, quando era menino.”
“De qual região de Portugal o senhor é?”
“Do Porto. Nasci e cresci lá, numa casa modesta perto do rio Douro. Vim para o Brasil quando tinha exatamente 20 anos, jovem, cheio de sonhos e ambição, buscando fazer fortuna que eu não conseguia fazer em Portugal. E encontrei não só fortuna, mas também uma esposa amada.”
“Dona Teresa.”
“Sim, exatamente. Como você sabe o nome dela?”
“Dona Conceição me falou dela ontem. Disse que ela era uma mulher absolutamente maravilhosa, bondosa e amada por todos.”
O rosto do coronel tornou-se visivelmente triste, melancólico. “Ela era. Foi a melhor pessoa que já conheci na minha vida. A melhor.”
Zalica viu a dor profunda, ainda viva naqueles olhos azuis, mesmo depois de 8 anos. “Eu sinto muito, muito mesmo pela sua perda terrível, senhor.”
“Obrigado. Já se passaram 8 anos. Eu já deveria ter superado isso completamente. Mas algumas perdas… algumas perdas simplesmente nunca superamos totalmente, não importa quanto tempo passe.”
A conversa tornou-se progressivamente mais pessoal, mais íntima daquela tarde em diante. Não era mais apenas patrão e empregada discutindo tarefas. Eram duas pessoas conversando, compartilhando. Ele começou a falar mais livremente sobre a vida difícil em Portugal quando era jovem, sobre como era linda a cidade do Porto, sobre a grande e pobre família que ele deixou lá e nunca mais viu ou contatou, sobre como conheceu Teresa em uma festa de fazendeiros quando tinha 25 anos e sobre como eles se apaixonaram intensamente contra a vontade da rica família dela, que achava o português aventureiro e pobre completamente inadequado para a filha deles.
Zalica sempre escutava atentamente, fascinada, absorvendo cada palavra, cada história. Ela também compartilhou generosamente sobre a distante Moçambique e como era a vida lá, sobre a dor de ser capturada quando criança e brutalmente separada da família para sempre e sobre os 15 longos anos trabalhando em Portugal na fazenda do culto e gentil Barão.
“Posso fazer uma pergunta pessoal?”, ele disse certa tarde.
“Claro, senhor.”
“Por que você tem especificamente os olhos verdes, sendo uma mulher africana de pele tão escura? Isso é extremamente raro, quase impossível. Eu nunca tinha visto.”
“Minha avó materna era de uma tribo diferente no interior de Moçambique, onde, às vezes, olhos claros aparecem geneticamente. É raro, mas acontece de forma natural em algumas linhagens. E os cabelos totalmente lisos vêm do lado do meu avô paterno, que tinha sangue árabe misturado, de comerciantes que passaram por Moçambique séculos atrás. Eu sou uma mistura de várias origens, senhor.”
“A baixa estatura foi congênita ou foi uma condição médica?”
“Nasci assim, senhor. Minha mãe também era baixa, tinha 1,40 m de altura. Não tão baixa quanto eu, mas muito baixa. Eu acho que é simplesmente a vontade de Deus. O desígnio dos ancestrais. Minha mãe sempre dizia que seres pequenos e diferentes têm um destino especial, uma proteção especial dos espíritos.”
“Você acredita nisso?”
“Estou começando a acreditar de verdade, senhor. Porque estar aqui trabalhando com livros, conversando com o senhor, é muito mais do que eu poderia ter esperado ou sonhado.”
As semanas se passaram de forma constante e pacífica. A pequena e especial escada com rodas ficou pronta. O carpinteiro fez um excelente trabalho. Zalica agora podia movê-la facilmente por toda a biblioteca e alcançar qualquer prateleira, qualquer livro. O trabalho de organização progredia bem. A biblioteca estava se transformando. Do caos, surgia a ordem, o sistema, a beleza.
As conversas entre o coronel e Zalica tornaram-se mais longas, frequentes e profundas. Ele começou a descer para a biblioteca não por necessidade, mas por desejo. Ele queria falar com ela, ouvir as opiniões inteligentes dela sobre livros, o mundo e tudo o mais. Duas semanas inteiras após a compra, aconteceu algo significativo que os aproximou muito emocionalmente.
Era noite, passava das dez horas. A casa estava silenciosa e escura, e todos já estavam dormindo. O coronel estava no escritório trabalhando nas contas da fazenda quando, de repente, ouviu um barulho estranho, alto e metálico, vindo da biblioteca distante. Ele se levantou preocupado e foi rápido investigar o que era. Encontrou Zalica caída no chão de madeira dura, obviamente sentindo dor, agarrando o tornozelo direito com as duas mãos e com o rosto contorcido de sofrimento intenso. A escada especial com rodas estava tombada de lado, virada de cabeça para baixo ao lado dela.
“Meu Deus, o que aconteceu aqui?”
“Eu escorreguei, senhor,” ela disse, a voz tensa de dor. “Eu estava esticando o braço para alcançar o livro na prateleira muito alta, me estiquei demais. A escada se desequilibrou de repente. Eu caí de mau jeito.”
Ele se ajoelhou imediatamente ao lado dela no chão. Examinou.
“Meu tornozelo está inchando rapidamente. Pode estar quebrado ou fraturado. Vou levar você para o quarto e chamar o médico imediatamente.”
“Não precisa se incomodar, senhor. Eu não quero causar problemas extras. Vai passar.”
“Não se trata de dar trabalho ou não. Você está machucada. Precisa de cuidados médicos profissionais.”
Ele a pegou no colo com cuidado. Ela era genuinamente muito leve. Pesava pouquíssimo, talvez 40 kg no máximo. Levou-a com cuidado para o quarto dela e a colocou suavemente na cama.
“Vou mandar chamar o Doutor Alberto agora mesmo. Não se mova.”
Ele pessoalmente acordou um funcionário de confiança e ordenou que ele cavalgasse com urgência até a cidade, mesmo sendo noite, para buscar o médico, avisando que era uma emergência. O Dr. Alberto, um médico experiente de cerca de 50 anos, chegou quase uma hora depois, sonolento, mas profissional. Ele examinou meticulosamente o tornozelo inchado e roxo de Zalica com mãos habilidosas, apalpando cuidadosamente e testando gentilmente os movimentos.
“Não está quebrado, felizmente, mas é uma torção bem séria. Ela precisará parar de caminhar completamente e não colocar nenhum peso nesse pé por pelo menos 10 a 12 dias. Repouso absoluto, total, completo.”
O médico enfaixou habilmente o tornozelo, deixou um vidro com um forte analgésico importado e deu instruções detalhadas de cuidados. Quando o médico finalmente foi embora, já passava da meia-noite, e o Coronel Vicente retornou ao pequeno quarto de Zalica.
“Como você está se sentindo agora?”
“Melhor com o remédio, senhor. Obrigada por chamar o médico. Não precisava de tanto incômodo.”
“Claro que precisava.” Ele puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama. “Zalica, vou ser honesto. Você não é apenas uma trabalhadora para mim. Eu já percebi isso. Eu gosto de conversar com você. Gosto da sua companhia. Gosto da inteligência que você demonstra. A casa estava morta, mas você trouxe a vida de volta.”
Ela permaneceu em silêncio, apenas olhando para ele com aqueles brilhantes olhos verdes.
“Descanse agora. Conversaremos mais amanhã.”
Nos dias que se seguiram, durante o repouso forçado dela, algo definitivamente mudou entre eles. O coronel visitava Zalica no quarto várias vezes ao dia. Trazia livros de poesia para ela ler e se distrair. Trazia frutas frescas colhidas do pomar. Ele repetidamente perguntava se ela estava melhorando, se precisava de algo específico para ficar mais confortável. Eles conversavam durante horas sobre tudo, sobre nada, sobre vida, morte, sonhos, medos e esperanças.
“Por que o senhor é tão especialmente gentil comigo?”, ela perguntou numa tarde quente.
Ele pensou cuidadosamente antes de responder com honestidade. “Porque você não é apenas uma trabalhadora competente. Você é uma pessoa genuinamente inteligente, culta, interessante e fascinante. Gosto muito de conversar com você. Gosto de ouvir suas opiniões e suas histórias. Fazia anos, muitos anos, que eu não tinha uma conversa de verdade e profunda com ninguém.”
“Mesmo eu sendo assim…” Ela apontou para seu próprio corpo, desproporcionalmente pequeno.
“Você é baixa de altura, é uma anã perto de quem você realmente é por dentro. A sua inteligência impressionante, a sua gentileza natural e o seu valor como pessoa continuam inalterados. A altura do corpo não determina a altura do espírito.”
Zalica sentiu algo intenso no peito, no coração. Aquele homem a via de verdade como uma pessoa completa, não como uma aberração curiosa ou um objeto de pena.
Uma semana inteira após o acidente, ela já estava significativamente melhor. O inchaço havia diminuído consideravelmente, a dor era mínima e ela conseguia caminhar, embora com um leve mancar. Ela retornou ao trabalho na biblioteca gradual e cautelosamente, mas a dinâmica e o relacionamento haviam mudado profunda e irrevogavelmente.
Eles conversavam mais, por muito mais tempo. Ele começou a pedir a opinião dela em vários assuntos da fazenda: quais livros comprar da Europa, cartas de negócios que ele recebia, como responder, e até sobre decisões de negócios. Tratava-a como uma igual intelectualmente, não como uma subordinada. Três meses inteiros após comprá-la naquele leilão, o Coronel Vicente finalmente admitiu para si mesmo a verdade que ele estava negando e suprimindo por semanas. Ele estava se apaixonando por Zalica.
Parecia absurdo superficialmente. Ela tinha 1,30 m de altura, ele 1,75 m. Ela era africana de Moçambique, ele português do Porto. Ela tinha 25 anos, ele 50. Tecnicamente e legalmente, ela ainda era escrava, propriedade dele. Todas as diferenças possíveis existiam entre eles, mas ele não podia negar e não conseguia lutar contra os sentimentos que cresciam incontroláveis.
Ele amava intensamente quando ela sorria. Aquele sorriso genuíno iluminava todo o belo rosto dela, transformando sua expressão. Ele gostava profundamente de ouvi-la ler poesia em voz alta, naquela voz suave e musical. Ele adorava quando ela dava uma opinião firme sobre algo, sempre de forma inteligente, sempre ponderada, sempre interessante. A casa grande não parecia mais vazia, morta e fria como um túmulo, como fora desde que Teresa morrera. Parecia viva, acolhedora e cheia de energia.
Ele tentou se distanciar emocionalmente de forma consciente e criar espaço, mas foi totalmente inútil. Os sentimentos apenas se fortaleceram. Quatro meses inteiros após a compra, ele tomou uma decisão corajosa. Ele a chamou em seu escritório particular à noite, depois do jantar.
“Zalica, eu preciso te dizer algo muito importante e muito sério.”
Ela se sentou obedientemente na cadeira confortável. Tinha que sentar na beirada, pois se encostasse no fundo as pernas não chegavam ao chão; ficavam apenas penduradas no ar.
O coronel ficou de pé, nervoso, andando de um lado para outro.
“Você trabalha aqui há 4 meses inteiros agora. É a pessoa mais inteligente, mais interessante e fascinante que encontrei em muitos, muitos anos. Falar com você todos os dias é genuinamente a melhor parte dos meus dias. É o que eu espero, é o que me faz feliz.”
“Obrigada, senhor. Eu também gosto muito de conversar com você.”
“Mas notei algo nas últimas semanas. Não vejo mais você como uma trabalhadora ou como uma subordinada. Eu vejo uma mulher extraordinária que admiro profundamente, alguém por quem me apaixonei completamente.”
Os enormes olhos verdes de Zalica se arregalaram em choque.
“Eu sei perfeitamente que isso é errado. Sou ciente de absolutamente todas as diferenças entre nós. Idade, altura, origem, tudo. Eu sei que a sociedade nunca aceitará, mas não posso mais negar, não posso mais esconder.”
“Senhor, por favor, espere, eu preciso urgentemente fazer algo importante primeiro.”
Ele foi até a mesa, pegou um papel em branco e uma caneta, e escreveu cuidadosamente uma carta de alforria completa e irrevogável. Assinou com firmeza, colocou a data, selou com o carimbo oficial e a entregou a ela com a mão ligeiramente trêmula.
“Você é livre, Zalica, completamente, totalmente, irrevogavelmente livre. Você não me pertence mais, não é mais minha propriedade. É livre porque não posso – não devo – amar alguém que é minha propriedade legal. Isso seria errado, seria um abuso de poder.”
Zalica pegou o precioso papel com as mãos tremendo violentamente e leu devagar, através das lágrimas que começaram a cair de forma abundante. Ela releu para ter certeza de que era real.
“Por quê? Por que você faz isso?”
“Porque se você sente algo por mim, eu quero desesperadamente que seja uma escolha completamente livre e consciente, e não uma obrigação forçada ou por medo das consequências. Quero que você possa escolher ficar ou ir livremente.”
Ela olhou fundo nos olhos azuis dele. “Eu sinto algo, senhor. Sinto isso há muitas semanas, mas achava que era impossível, que era errado, que nunca poderia acontecer.”
“Não é impossível. Não é errado. Não, se você também quiser.”
Ele se levantou, andou até ela e se ajoelhou, para ficar na mesma altura em que ela estava sentada. “Posso te beijar?”
Ela concordou, chorando silenciosamente. O beijo foi incrivelmente suave, cuidadoso, delicado, cheio de sentimentos contidos e reprimidos.
Nos meses agradáveis que se seguiram, o Coronel Vicente cortejou Zalica de forma adequada e romântica, como um verdadeiro cavalheiro. Caminhavam juntos no jardim florido ao anoitecer, e ele sempre adaptava seus passos longos aos pequenos dela. Liam poesia juntos na confortável biblioteca – ela lendo em voz alta e ele escutando encantado. Jantavam juntos, conversando por horas sobre tudo. Dona Conceição observava tudo com olhos atentos e sorria de felicidade. Finalmente, o coronel voltava a viver de verdade, graças a Deus.
Seis meses inteiros depois de tê-la libertado oficialmente, Vicente pediu Zalica em casamento formalmente, ajoelhando-se. Ele não precisou abaixar muito, e disse:
“Eu sei perfeitamente que a sociedade inteira vai criticar duramente, não apenas porque você foi uma escrava, mas porque somos muito diferentes fisicamente, porque você é uma anã. Vão zombar com crueldade, vão falar mal de nós, vão nos isolar. Mas eu não me importo nem um pouco. Eu te amo profundamente. Você me fez feliz de novo. Aceita casar comigo?”
“Sim, sim. Mil vezes sim.”
A notícia se espalhou e causou um escândalo imenso na região. Um respeitado e rico coronel casando-se com uma anã, ex-escrava e africana? Era absurdo, inaceitável, vergonhoso. Vizinhos enviaram cartas ofensivas. A sociedade criticou abertamente, e alguns se recusaram a fazer negócios com ele.
Mas os dois filhos do coronel – Alfonso, que estudava medicina, e Isabel, recém-casada – apoiaram o pai completamente. “Se ela te faz genuinamente feliz, pai, isso é tudo o que realmente importa,” disse Isabel, abraçando-o. E Alfonso completou: “A vida é curta demais para se desperdiçar com opiniões de pessoas pequenas.”
O casamento foi uma cerimônia simples, mas bonita e comovente. Zalica usou um belo vestido branco, feito especialmente sob medida para ela. A costureira teve que ajustar absolutamente tudo às proporções diminutas, mas ficou perfeito. Quando trocaram os votos e as alianças, ele teve que se abaixar consideravelmente para beijá-la. A diferença de altura era cômica para alguns, mas o amor entre eles era visível, real e profundo.
No primeiro ano de seu casamento feliz, Zalica engravidou. Vicente ficou simultaneamente empolgado e completamente aterrorizado. E se a gravidez fosse perigosa, fatal devido ao tamanho pequeno dela? E se ela morresse como Teresa morreu? O Dr. Alberto acompanhou a gravidez de perto, semanalmente. Ele explicou que era possível, mas exigia cuidados redobrados. A gravidez foi difícil e desconfortável. Sua barriga ficou desproporcional ao corpo pequeno, mas não foi impossível.
Quando chegou a hora do parto, o trabalho duro durou quase dois dias inteiros. Foi extremamente difícil e doloroso, mas finalmente nasceu um menino saudável, chorando alto. O menino não era anão; ele era de tamanho normal. Eles o chamaram orgulhosamente de Vicente Júnior. Dois anos depois, nasceu uma linda menina, que chamaram de Teresa, numa comovente homenagem à sua primeira esposa. E então, nasceu outro menino, Miguel. Três filhos lindos e saudáveis, que cresceram cercados por livros, amor e respeito.
Nenhum dos três herdou o nanismo da mãe. Todos cresceram até atingir uma altura normal, mas todos herdaram seus impressionantes olhos verdes. A sociedade aos poucos os aceitou. Zalica era tão culta, tão educada e bondosa, que conquistou o respeito até mesmo dos mais preconceituosos. Ela se tornou conhecida na região por ajudar as pessoas, ensinar crianças pobres a ler e cuidar dos doentes.
O Coronel Vicente viveu até a impressionante idade de 75 anos, cercado por amor. Zalica viveu até os 72. Eles criaram uma família absolutamente linda, baseada no amor genuíno, que superou todas as diferenças imagináveis.
No emocionante funeral de Vicente, Zalica, já uma senhora idosa de cabelos grisalhos, leu em voz trêmula, mas clara, um poema de Camões que ele sempre amou. Sua voz pequena, mas firme, preencheu o ar. A igreja inteira ficou em silêncio. Depois, encontraram uma carta que ele escrevera anos antes e guardara.
“Eu te comprei pensando apenas no lado prático, achando que você seria boa para colher café nos galhos baixos. Descobri que você era a alma gêmea perfeita. O verdadeiro amor não tem tamanho, nem medida física, nem forma específica. Apenas profundidade infinita. E o nosso foi tão profundo quanto o oceano.”