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Mãe Esperou 8 Anos Para Vingar M0rt3 da Filha — Ex3cuçã0 Chocou Pernambuco

Cinco tiros interromperam a manhã de sábado, na feira de Caruaru. O relógio do mercado de artesanato marcava 9:23 quando os primeiros disparos ecoaram entre as barracas. Era o dia 18 de abril de 2009 e a feira estava no auge do movimento matinal.

Centenas de pessoas circulavam entre corredores apertados, negociando frutas, roupas e eletrônicos sob o sol já forte do agreste pernambucano. Cléber atendia um cliente em sua barraca de produtos eletrônicos quando percebeu uma figura familiar se aproximando. Uma mulher de 52 anos, cabelos grisalhos presos em coque, vestindo um vestido escuro de tecido simples.

Ele a reconheceu imediatamente. Era Severina, a mãe da ex-namorada que havia morrido 8 anos antes. Antes que pudesse reagir, Severina sacou um revólver calibre 38 de dentro da bolsa de pano. O primeiro disparo atingiu o peito de Cléber, o segundo o abdômen, o terceiro, o quarto e o quinto seguiram em sequência rápida, enquanto ele tombava entre caixas de aparelhos celulares e carregadores.

O silêncio que se seguiu durou apenas 3 segundos. Depois vieram os gritos, a correria, as pessoas derrubando mercadorias na tentativa de escapar do que imaginavam ser um tiroteio generalizado. Mas Severina não apontou a arma para mais ninguém. Permaneceu de pé, imóvel, olhando o corpo de Cléber sangrar sobre o chão de terra batida.

Comerciantes que testemunharam a cena relataram que ela não demonstrava emoção, nenhuma lágrima, nenhum tremor, nenhuma expressão de satisfação ou arrependimento. Apenas aguardava com o revólver ainda na mão direita, até que dois policiais militares que faziam ronda na feira chegassem ao local. Quando os agentes ordenaram que largasse a arma, Severina obedeceu sem resistência, colocou o revólver no chão, ergueu as mãos e disse apenas uma frase que seria repetida em todos os noticiários da região nas semanas seguintes:

“Levei 8 anos, mas cumpri minha promessa.”

Os paramédicos do SAMU chegaram 12 minutos depois. Cléber foi declarado morto no local. Havia completado 31 anos de idade duas semanas antes. Deixava uma esposa de 26 anos e um filho de três. Severina foi conduzida à delegacia de homicídios de Caruaru, sem oferecer qualquer resistência. Durante o trajeto na viatura, permaneceu em silêncio absoluto.

Os policiais que a escoltaram descreveram seu comportamento como de uma serenidade perturbadora. O que aconteceu naquela manhã não foi um crime passional comum, foi a conclusão de um plano meticulosamente elaborado ao longo de 8 anos. Uma mãe que transformou o luto em obsessão e a obsessão em método.

Para entender o que levou Severina àquele momento, é preciso voltar ao início, ao dia em que sua filha desapareceu. Samira nasceu em Caruaru no dia 3 de março de 1982. Era filha única de Severina, que a criou sozinha desde os primeiros meses de vida. O pai, um caminhoneiro de passagem pela cidade, nunca reconheceu a paternidade, nem manteve contato após o nascimento.

A infância de Samira foi marcada pela simplicidade do bairro periférico onde moravam. Uma casa de dois cômodos com paredes de tijolo aparente sem reboco no Alto do Moura. Severina sustentava as duas com uma pequena oficina de costura montada na sala. Fazia reparos em roupas, ajustes de barra, bordados sob encomenda.

Apesar das limitações financeiras, Samira foi uma aluna dedicada. Completou o ensino médio em 1999 na Escola Estadual Professor Mário Sete. Seu sonho era cursar enfermagem na Universidade Federal de Pernambuco. Trabalhava durante o dia como atendente em uma farmácia no centro de Caruaru para juntar dinheiro e ajudar a mãe com as despesas.

Os vizinhos a descreviam como uma jovem reservada, educada, que raramente participava das festas do bairro. Sua rotina era simples. Acordava às 5 horas da manhã, pegava o ônibus para o trabalho, voltava às 18 horas e estudava para o vestibular até tarde da noite. Foi em junho de 2000 que Samira conheceu Cléber.

Ele tinha 23 anos e trabalhava como vendedor ambulante na feira central. Moreno, alto, cabelos encaracolados. Segundo amigas de Samira, ouvidas posteriormente pela polícia, ela se encantou rapidamente pela lábia do rapaz. O relacionamento evoluiu em poucas semanas. Cléber passou a frequentar a casa de Severina.

Jantava com as duas aos domingos, ajudava com pequenos reparos. A mãe de Samira, no entanto, nunca demonstrou simpatia pelo genro. Em depoimento posterior, afirmou que percebia algo errado no olhar dele, uma frieza que a incomodava. Em outubro de 2000, os primeiros sinais de conflito surgiram. Vizinhos relataram discussões frequentes entre o casal.

Samira apareceu no trabalho com marcas nos braços em pelo menos duas ocasiões, justificando como quedas acidentais. Uma colega da farmácia disse ter ouvido Samira chorar no banheiro após uma ligação telefônica. Severina tentou convencer a filha a terminar o namoro. As conversas entre as duas se tornaram tensas.

Samira defendia Cléber, dizia que ele estava mudando, que as brigas eram culpa dela também. A mãe reconhecia os sinais de um relacionamento abusivo, mas sabia que insistir demais poderia afastar a filha definitivamente. Na primeira semana de janeiro de 2001, Samira comunicou à mãe que iria terminar com Cléber.

Disse estar cansada das brigas e querer focar nos estudos para o vestibular de meio de ano. Sete dias depois, ela desapareceu. O dia 13 de janeiro de 2001 era um sábado. Samira saiu de casa às 19:30, informando a mãe que iria encontrar Cléber para uma conversa definitiva. Severina pediu que ela não fosse.

A filha prometeu voltar em duas horas. Às 23 horas, Samira não havia retornado. Severina tentou ligar para o celular da filha diversas vezes, mas a chamada caía na caixa postal. Às 2 horas da madrugada, foi até a casa de Cléber, no bairro Rendeiras. Uma vizinha disse que ele havia saído no início da noite e não retornara.

Na manhã seguinte, Severina registrou o boletim de ocorrência na delegacia de polícia civil de Caruaru. O caso foi classificado inicialmente como desaparecimento de pessoa adulta. Como Samira era maior de idade, a polícia informou que era necessário aguardar 24 horas antes de iniciar buscas oficiais. Cléber apareceu em sua residência na tarde do dia 14 de janeiro.

Quando questionado por vizinhos sobre Samira, disse que os dois haviam brigado na noite anterior e que ela saiu do carro dele por volta das 21 horas na avenida principal do bairro São Francisco. Dois dias depois, no dia 16 de janeiro, trabalhadores rurais encontraram um corpo em estado de decomposição inicial em um canavial na zona rural de Caruaru, a aproximadamente 12 km do centro da cidade.

O local era conhecido como Sítio Cachoeira, uma propriedade abandonada entre plantações de cana-de-açúcar. A perícia foi acionada às 15:20. O corpo foi identificado preliminarmente como feminino, jovem, com lesões aparentes na região do pescoço. Documentos encontrados nas proximidades indicavam ser Samira.

O Instituto de Medicina Legal de Caruaru realizou a autópsia no dia seguinte. O laudo apontou a causa da morte como asfixia mecânica por estrangulamento. Havia também múltiplas escoriações nos braços e pernas compatíveis com tentativa de defesa. O horário estimado da morte foi entre 13 de janeiro e 2 horas da madrugada do dia 14.

O perito criminal responsável pelo exame do local encontrou marcas de pneu na estrada de terra que dava acesso ao canavial. As impressões sugeriam um veículo de pequeno porte. Não foram encontradas impressões digitais utilizáveis no corpo devido ao estado de decomposição inicial. Severina recebeu a notícia às 19 horas do dia 16. O delegado responsável pelo caso, Antônio Carlos, foi pessoalmente à residência da família.

Segundo relatos posteriores, Severina não gritou nem chorou, sentou-se na cadeira da sala de costura e ficou em silêncio por vários minutos, olhando para o nada. O velório aconteceu no dia 18 de janeiro. Menos de 30 pessoas compareceram. Samira foi enterrada no cemitério Parque das Flores, em uma área destinada a famílias de baixa renda.

Cléber não compareceu. A investigação foi conduzida pelo delegado Antônio Carlos, com apoio de dois agentes da delegacia de homicídios. O primeiro suspeito era óbvio, Cléber, o namorado com quem Samira havia se encontrado na noite do desaparecimento. No dia 19 de janeiro de 2001, Cléber foi convocado para prestar depoimento.

Compareceu acompanhado de um advogado particular, o que chamou a atenção dos investigadores, já que sua condição financeira não sugeria recursos para tal. O advogado era Dr. Marcos Aurélio, conhecido por defender pequenos comerciantes da região. Em seu depoimento, Cléber apresentou uma versão detalhada dos fatos. Disse que buscou Samira em casa por volta das 20 horas.

Os dois foram a um bar no centro de Caruaru, onde consumiram duas cervejas. Por volta das 21 horas, iniciaram uma discussão sobre o término do relacionamento. Samira teria pedido para descer do carro na Avenida Agamenon Magalhães, alegando que caminharia até a casa de uma amiga. A polícia verificou a versão. Nenhuma amiga de Samira confirmou tê-la visto naquela noite.

O bar mencionado por Cléber existia, mas o proprietário não conseguiu confirmar a presença do casal, alegando que sábado era dia de grande movimento. Três testemunhas mudaram o rumo da investigação. Uma moradora do bairro São Francisco relatou ter visto o carro de Cléber, um Fiat Uno vermelho, passando em alta velocidade pela estrada que levava à zona rural, por volta das 22 horas.

Outra testemunha, um vigia noturno de uma fazenda próxima ao sítio Cachoeira, disse ter ouvido gritos femininos vindos do canavial entre 22 e 23 horas. A terceira testemunha era o dono de um posto de gasolina na saída da cidade. Ele reconheceu Cléber como o motorista de um Fiat Uno que abasteceu às 23:40 vindo da direção da zona rural.

O homem estava sozinho e parecia agitado. Com base nesses depoimentos, o delegado Antônio Carlos solicitou a prisão temporária de Cléber. O mandado foi expedido pelo juiz da segunda vara criminal de Caruaru no dia 22 de janeiro. A polícia apreendeu o veículo de Cléber para análise pericial. No porta-malas foram encontrados fragmentos de fibra têxtil compatíveis com a blusa que Samira usava na noite do desaparecimento.

No entanto, o laudo foi considerado inconclusivo pela defesa, que argumentou que a presença das fibras era esperada, já que Samira frequentemente utilizava o veículo. Não havia impressões digitais, não havia sangue visível, não havia testemunha ocular do crime em si. O Ministério Público ofereceu denúncia por homicídio qualificado, mas o caso apresentava fragilidades evidentes desde o início.

O julgamento de Cléber foi marcado para o dia 12 de junho de 2001. Durante os cinco meses que antecederam a audiência, Severina acompanhou cada etapa do processo. Comparecia a todas as sessões no fórum de Caruaru, sentada na última fileira em silêncio absoluto. A acusação, representada pelo promotor de justiça, Eduardo, baseou seu caso em três pilares: as testemunhas que viram Cléber próximo ao local do crime, as fibras encontradas no veículo e o histórico de violência no relacionamento.

A defesa, conduzida pelo advogado Marcos Aurélio, desmontou cada argumento com precisão técnica. As testemunhas haviam visto o carro, não o crime. As fibras eram explicáveis pelo convívio do casal. O histórico de brigas, embora documentado por colegas de trabalho de Samira, não provava homicídio. O julgamento durou três dias.

No terceiro dia, o juiz proferiu a sentença. Por insuficiência de provas materiais para sustentar a condenação, Cléber foi absolvido. A decisão seguiu o princípio jurídico do in dubio pro reo, na dúvida em favor do réu. Severina estava presente quando o martelo bateu. Viu Cléber se levantar do banco dos réus, abraçar o advogado e caminhar em direção à família que o aguardava na entrada do tribunal.

A mãe dele chorava de alívio. O pai apertava sua mão com orgulho. No corredor do fórum, Cléber passou a menos de 2 metros de Severina. Seus olhares se cruzaram por um breve instante. Ela descreveria depois, em depoimento à polícia, que ele sorriu. Aquele sorriso se tornaria a imagem que a perseguiria todas as noites pelos oito anos seguintes.

Nas semanas que se seguiram à absolvição, Severina tentou retomar a rotina. Reabriu a oficina de costura, voltou a frequentar a missa dominical, cumprimentava os vizinhos com polidez. Por fora parecia uma mulher em processo de aceitação do luto. Por dentro algo havia mudado irreversivelmente. A primeira vez que pensou em matar Cléber foi três meses após o julgamento.

Ela passava pela feira quando o viu atendendo em uma barraca de eletrônicos, rindo com um cliente. A imagem de sua filha morta em um canavial contrastava com aquela cena de normalidade. A raiva que sentiu era diferente de tudo que experimentara antes, fria, calculada, paciente. Severina não era uma mulher impulsiva. Aos 52 anos de idade, havia aprendido que a vida raramente oferece justiça aos que esperam.

Decidiu que não esperaria mais. A transformação de Severina começou de forma silenciosa. Ninguém percebeu porque ela não mudou seus hábitos externos. Continuava costurando das 7 às 18 horas. Frequentava a igreja de Nossa Senhora das Dores aos domingos. Visitava o túmulo de Samira toda quinta-feira. O que mudou foi invisível. Cada noite, após apagar as luzes, Severina começou a estudar.

Ela não tinha instrução formal além do ensino fundamental incompleto, mas era uma observadora atenta. Em setembro de 2001, começou a frequentar a biblioteca municipal de Caruaru. Disse às funcionárias que queria ler para ocupar o tempo. Na verdade, buscava informações sobre processos criminais, penas por homicídio, funcionamento do sistema prisional brasileiro.

Descobriu que a pena máxima para homicídio qualificado era de 30 anos. Com progressão de regime, poderia cumprir 1/3 em regime fechado antes de obter benefícios. Fez as contas, se matasse Cléber aos 52 anos, poderia sair da cadeia aos 62. Tempo suficiente para viver ainda alguns anos em liberdade. A decisão não foi tomada de imediato, foi amadurecendo ao longo de 2002, enquanto Severina alternava entre períodos de dúvida e determinação.

O ponto definitivo veio em março de 2003, quando soube que Cléber havia se casado. A noiva era uma jovem de 18 anos chamada Rosana, moradora de um bairro vizinho. Severina a viu pela primeira vez durante uma festa de casamento realizada no salão paroquial do bairro Rendeiras. Ficou observando de longe, escondida entre as pessoas que passavam na calçada. Rosana tinha cabelos pretos e longos como Samira.

Sorria com a mesma ingenuidade que Severina reconhecia nas fotos antigas da filha. A semelhança era perturbadora. Naquela noite, Severina tomou sua decisão final. Não mataria Cléber por impulso ou raiva descontrolada. Faria isso de forma planejada, pública, definitiva. Queria que todos soubessem quem ele era e o que havia feito.

Queria que sua morte fosse uma declaração, não um segredo. O planejamento levaria anos. Severina não tinha pressa. Começou a economizar dinheiro. Separava 15% de cada pagamento que recebia pelos serviços de costura, guardando em uma lata de metal escondida no fundo do guarda-roupa. Em 6 anos, acumulou R$ 3.200, o suficiente para comprar uma arma no mercado clandestino.

A compra aconteceu em novembro de 2007. Um vizinho com passagem pela polícia intermediou a transação. Severina pagou R$800 por um revólver calibre 38 com seis munições. Guardou a arma na mesma lata onde mantinha o dinheiro. Entre 2003 e 2009, Severina construiu uma rotina paralela de vigilância. Nunca seguiu Cléber diretamente, pois sabia que poderia ser notada.

Em vez disso, coletava informações de forma indireta. Frequentava a feira aos sábados de manhã, sempre mantendo distância da barraca dele. Observava seus horários de chegada e saída, os dias de maior movimento, as pessoas com quem conversava. Em dois anos, conhecia sua rotina melhor do que ele próprio. Em 2005, Cléber e Rosana tiveram um filho.

A notícia chegou a Severina através de uma vizinha que comentava sobre o batizado. O menino foi chamado de Lucas. Severina anotou a informação em um caderno que mantinha escondido junto com a arma. O negócio de Cléber prosperava. Em 2006, ele expandiu a barraca, passando a vender também acessórios para celulares.

Contratou um ajudante, comprou uma moto para entregas. A cada sinal de sucesso dele, a determinação de Severina se solidificava. Ela desenvolveu uma disciplina quase monástica. Acordava às 5 horas, rezava o terço, trabalhava na costura até o anoitecer. As noites revisava mentalmente seu plano, identificava falhas, pensava em contingências.

O que faria se ele a reconhecesse antes? Como reagiria se houvesse policiais por perto? Em 2008, Severina completou 60 anos. Sua saúde começava a dar sinais de deterioração. Um médico do posto de saúde diagnosticou hipertensão arterial e recomendou redução do sal e repouso. Ela ignorou as orientações. Sabia que não teria muito tempo.

O ano de 2009 começou com uma decisão. Seria naquele ano. Severina escolheu a data com cuidado. Queria um sábado de movimento intenso na feira. Quando houvesse testemunhas suficientes para que ninguém duvidasse do que aconteceu e porquê. O dia 18 de abril era véspera de Páscoa. A feira estaria lotada de pessoas comprando presentes de última hora.

Cléber certamente estaria em sua barraca desde cedo. Nas semanas que antecederam a data, Severina colocou seus assuntos em ordem. Pagou as contas atrasadas, quitou uma pequena dívida com a farmácia do bairro, entregou à vizinha as chaves da casa com instruções sobre onde encontrar seus documentos. Não deixou carta nem explicação escrita. Considerava desnecessário. O ato em si seria sua declaração.

Na noite do dia 17 de abril, véspera da execução, Severina visitou o túmulo de Samira pela última vez. Permaneceu ali por duas horas em silêncio, sentada no banco de cimento diante da lápide simples. Quando saiu do cemitério, já era noite. Caminhou até em casa, jantou arroz com feijão, tomou banho e foi dormir às 21 horas. Dormiu sem sonhos.

Para compreender a execução que ocorreria na manhã seguinte, é necessário examinar quem era Cléber nos oito anos entre a absolvição e sua morte. Após o julgamento de 2001, Cléber permaneceu em Caruaru contra o conselho de familiares que sugeriam mudança para outra cidade. Ele alegava inocência e recusava-se a viver como fugitivo de um crime que dizia não ter cometido. Os primeiros meses foram difíceis.

A comunidade local o tratava com desconfiança. Alguns comerciantes se recusavam a vender para ele. Vizinhos atravessavam a rua quando o viam se aproximar. Mas Caruaru era uma cidade de memória curta. Em dois anos, as conversas sobre o caso haviam diminuído significativamente. O casamento com Rosana em 2003 representou uma virada em sua imagem pública. A jovem era filha de um comerciante respeitado no bairro.

A união conferia a Cléber uma legitimidade social que o julgamento havia corroído. Rosana conhecia o passado do marido. Em depoimento posterior à polícia, disse que ele sempre negou envolvimento na morte de Samira. Jurava que havia sido perseguido injustamente e que a mãe da ex-namorada era desequilibrada. Rosana acreditava nele. O nascimento de Lucas em 2005 consolidou a nova vida de Cléber.

Ele se dedicava ao filho, comparecia às reuniões da escola, participava das atividades da igreja local. Quem o conheceu nessa fase descrevia um homem trabalhador, bom pai, marido presente. No entanto, investigações posteriores à sua morte revelaram aspectos menos conhecidos de seu comportamento. Uma ex-funcionária da barraca relatou que Cléber tinha episódios de agressividade verbal quando contrariado.

Rosana foi vista em pelo menos três ocasiões com marcas nos braços, sempre justificadas como acidentes domésticos. O padrão era familiar, o mesmo que colegas de trabalho de Samira haviam identificado anos antes. Em fevereiro de 2009, dois meses antes de sua morte, Cléber foi denunciado anonimamente à delegacia por ameaça contra um concorrente da feira. O caso não prosperou por falta de provas, mas o registro permaneceu nos arquivos policiais.

Ninguém jamais saberá com certeza se Cléber matou Samira. O sistema judicial o absolveu por insuficiência de provas. É possível que fosse genuinamente inocente. É possível que fosse culpado e tivesse escapado da condenação por falhas na investigação. A verdade morreu com ele no chão da feira. O que se sabe é que na manhã do dia 18 de abril de 2009, Cléber chegou à sua barraca às 7:30 minutos.

Organizou os produtos, ligou a televisão pequena que mantinha no canto do box, serviu-se de café de uma garrafa térmica. Às 9:20 viu Severina se aproximando. A reconstituição dos eventos daquela manhã foi feita pela Polícia Civil de Pernambuco, com base em depoimentos de 27 testemunhas presentes na feira. Severina saiu de casa às 8:15.

Vestia o mesmo vestido escuro que usava nos domingos de missa. Carregava uma bolsa de pano com alça longa cruzada no peito. Dentro o revólver calibre 38 e as seis munições, cinco das quais seriam utilizadas. Caminhou os 2 km até a feira em ritmo normal. Parou em uma padaria no caminho, comprou um pão de queijo e um café pequeno. A atendente que a serviu disse que parecia tranquila, até cumprimentou outra cliente conhecida.

Chegou à feira às 9:05. Circulou pelos corredores durante aproximadamente 15 minutos, passando por barracas de frutas, roupas e utensílios domésticos. Testemunhas relataram que não parecia nervosa nem apressada. Caminhava como qualquer freguesa em busca de produtos. Às 9:20, aproximou-se do corredor onde ficava a barraca de Cléber. Ele estava de costas, mostrando um aparelho celular a um cliente. O ajudante havia ido buscar troco em uma barraca vizinha.

Severina parou a 3 metros de distância, abriu a bolsa, sacou o revólver. Cléber virou-se ao perceber movimento. Seus olhos se encontraram por um segundo. O primeiro disparo atingiu o lado esquerdo do peito. Cléber cambaleou para trás, derrubando uma prateleira de capas de celular. O cliente que estava sendo atendido correu em pânico. O segundo tiro acertou a região abdominal. Cléber caiu de joelhos.

Severina avançou dois passos, disparou novamente. O terceiro tiro atingiu o ombro direito, o quarto, o pescoço. O quinto, a cabeça. O intervalo entre o primeiro e o último disparo foi estimado em 7 segundos. Severina permaneceu de pé enquanto o caos se instalava ao redor. Pessoas corriam, gritavam, derrubavam mercadorias. Uma mulher desmaiou. Crianças choravam nos braços de mães desesperadas.

Os dois policiais militares que faziam ronda na feira chegaram em 90 segundos. Encontraram Severina ainda segurando o revólver, olhando para o corpo de Cléber. Ela não resistiu à voz de prisão. O SAMU foi acionado às 9:31. A equipe médica constatou o óbito às 9:43. Cléber havia sofrido lesões fatais no coração, fígado e cérebro.

A morte foi praticamente instantânea após o primeiro disparo. Severina foi conduzida à delegacia de homicídios. Durante o interrogatório, confirmou a autoria do crime sem hesitação. O inquérito policial foi concluído em 30 dias. Severina confessou o homicídio em todos os depoimentos, fornecendo detalhes sobre o planejamento de 8 anos, a compra da arma, a vigilância sistemática da rotina de Cléber.

O Ministério Público ofereceu denúncia por homicídio qualificado com as qualificadoras de motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. A pena prevista variava de 12 a 30 anos de reclusão. O julgamento ocorreu no dia 23 de setembro de 2009 no Tribunal do Júri de Caruaru. O caso atraiu atenção da imprensa regional e nacional. A sala de audiências estava lotada.

A defesa de Severina, assumida por um advogado nomeado pela Defensoria Pública, tentou argumentar violenta emoção e legítima defesa da honra. Alegou que a ré agiu sob influência de trauma prolongado causado pelo assassinato impune da filha. Solicitou desclassificação para homicídio privilegiado, com pena reduzida. O Ministério Público rejeitou a tese. O promotor argumentou que 8 anos de planejamento demonstravam premeditação absoluta, incompatível com qualquer forma de privilégio.

A execução pública configurava motivo torpe, pois visava satisfação pessoal de vingança. Severina teve direito a falar antes do veredito. Levantou-se, olhou para os jurados e disse poucas palavras:

“Eu sei o que fiz. Sei que é crime, não peço perdão. Só quero que saibam que ele matou minha filha e a justiça não fez nada. Eu fiz.”

Os jurados deliberaram por 4 horas. O veredicto foi condenação por homicídio qualificado. A juíza presidente fixou a pena em 18 anos de reclusão em regime inicialmente fechado. Severina ouviu a sentença sem reação visível, foi conduzida ao presídio feminino de Buíque, a 120 km de Caruaru. Nos 4 anos seguintes, cumpriu pena sem incidentes disciplinares.

Não recebia visitas. Recusava atendimento psicológico. Trabalhava na oficina de costura do presídio, produzindo uniformes para outras unidades prisionais. Em março de 2013, Severina sofreu um infarto durante a madrugada. Foi socorrida pela equipe médica do presídio e transferida para o hospital regional de Buíque. Morreu às 6:45 minutos do dia seguinte por insuficiência cardíaca. Tinha 65 anos de idade.

O corpo foi enterrado no cemitério Parque das Flores, em Caruaru, ao lado do túmulo de Samira. O sepultamento foi custeado pela prefeitura. Nenhum familiar compareceu. O caso gerou debates sobre os limites entre justiça e vingança, sobre as falhas do sistema judicial brasileiro, sobre o que leva uma pessoa comum a se transformar em assassina. Não há respostas simples.

O que restam são fatos. Uma jovem de 19 anos morta em um canavial. Um homem absolvido por falta de provas. Uma mãe que esperou oito anos para fazer o que acreditava ser justiça. Dois túmulos lado a lado em um cemitério do agreste pernambucano. O silêncio que permanece não é de paz, é apenas silêncio.