O celular estava no porta-luvas.
Ele só percebeu quando já estava no segundo andar do prédio, chave na mão, prestes a abrir a porta do apartamento. Ele parou, desceu, voltou para o carro e abriu o porta-luvas. O telefone estava lá, mas havia uma notificação na tela.
Não era o celular dele, era o da esposa, que ela havia esquecido no carro quando desceram juntos do ônibus 40 minutos antes. Adelson Moura pegou o aparelho com a intenção de subir e entregá-lo, mas a notificação estava visível na tela bloqueada — uma mensagem, um nome e as primeiras palavras que apareceram antes que a tela escurecesse novamente.
Adelson ficou parado no estacionamento do prédio com o celular da esposa na mão, aquelas palavras presas na cabeça, palavras que não o deixavam. O que se seguiu àquele incidente no estacionamento foi uma série de eventos que o bairro do Mondubim, em Fortaleza, não esqueceu, começando com um celular esquecido no porta-luvas de um carro.
Se essa história já fez você parar para pensar, o que aconteceu a seguir é ainda mais difícil de explicar.
Antes de continuarmos, há um detalhe nessa história que só foi revelado durante o interrogatório. Não no primeiro dia, não com a primeira pergunta. Foi uma pergunta que a delegada fez quase no final do depoimento, quase por acaso, que provocou uma resposta que mudou tudo o que todos achavam que entendiam sobre o que havia motivado Adelson. Você entenderá quando chegarmos lá.
O bairro do Mondubim está localizado na zona oeste de Fortaleza. É um bairro grande, populoso, com aquela mistura característica de gente de Fortaleza. Casas de tijolos espremidas umas nas outras, vendedores ambulantes que não fecham cedo, igrejas evangélicas nas esquinas com cultos toda semana. O cheiro de uma barraca de tapioca que a brisa do final da tarde traz de longe. O tipo de bairro onde as pessoas se conhecem de vista, mesmo sem nunca terem sido apresentadas formalmente, onde as notícias viajam rápido antes mesmo de a viatura da polícia chegar.
Adelson Moura tinha 43 anos, era natural de Quixadá, no interior do Ceará, mas morava em Fortaleza desde os 22. Veio para trabalhar, mas acabou ficando porque a vida aconteceu daquele jeito que acontece quando você não tem um plano fixo, mas apenas segue o fluxo. Trabalhava como motorista particular há 11 anos. Os últimos seis para a mesma família, os Cavalcantes, empresários do ramo de materiais de construção, com escritório na Aldeota e casa no Eusébio.
Adelson levava o Dr. Cavalcante para o trabalho de manhã, pegava a filha mais nova na escola à tarde e ficava à disposição nos finais de semana quando havia eventos. Era de confiança, discreto e pontual. Essas três coisas juntas valem ouro para quem precisa de um motorista particular. E Adelson sabia disso.
Ele ganhava bem para os padrões do Mondubim. Não era rico, longe disso, mas tinha estabilidade. Pagava o aluguel em dia, tinha o próprio carro, além do que usava para trabalhar. Conseguia guardar um pouco todo mês. Adelson tinha 1,73 m de altura. O corpo esguio de quem anda muito e come quando dá.
Pele morena escura, cabelo bem curto, quase raspado, olhos muito escuros, com aquela expressão permanente de atenção que os motoristas desenvolvem. Aquele tipo de olhar que está sempre avaliando o trânsito, o retrovisor, o que vem pela frente. Falava pouco e, quando o fazia, era direto; não era homem de meias palavras.
Janaína Moura tinha 39 anos, era de Fortaleza, nascida no bairro da Esperança, vizinho ao Mondubim. Tinha cabelos pretos e lisos que alisava todo mês no salão da Gildete, na rua de trás. Uma mulher alta, de 1,68 m, com um jeito de andar que chamava a atenção sem que ela sequer tentasse.
Trabalhava como manicure, prestando serviços em domicílio. Tinha uma carteira de clientes fixas espalhadas pelo Mondubim e Autran Nunes. Saía de casa com sua maleta de materiais três ou quatro vezes por semana. Sempre retornava no final da tarde. Eles tinham uma filha, Isabela, de 14 anos, que estudava de manhã em uma escola estadual a duas quadras de casa e passava as tardes em casa com o celular e os fones de ouvido, como praticamente toda garota de 14 anos no Brasil.
Eles moravam em um apartamento alugado em um prédio sem porteiro no Mondubim. Segundo andar, dois quartos, sala com aquela janela que pega a brisa da tarde quando você abre os dois lados. Moravam lá havia 5 anos. Conheciam os vizinhos pelo nome e eram conhecidos em troca. O casamento já durava 12 anos.
Pelo menos era o que Adelson achava que tinha. A primeira vez que algo não se encaixou foi em uma quarta-feira de abril. Janaína havia saído às 9h para atender uma cliente no Autran Nunes. Disse que estaria de volta ao meio-dia. Voltou às 14h30 com uma história sobre uma cliente que pediu mais um serviço de última hora.
Ela acabou fazendo as sobrancelhas também. Depois tomaram um café. O tempo passou. Adelson estava em casa. Dia de folga. O Dr. Cavalcante havia viajado. Ele ouviu a explicação. Não disse nada, mas as contas não batiam. O Autran Nunes ficava a 15 minutos de ônibus do Mondubim, ou a 10 minutos de moto. Design de sobrancelha mais manicure completa, mais café, mesmo que tivesse levado o dobro do tempo normal, não teria acrescentado mais duas horas e meia.
Adelson não disse nada, ficou calado. Nas semanas seguintes, ele prestou atenção de uma maneira diferente, menos ostensiva. Ele era um homem discreto por natureza e por profissão. Motorista particular aprende a observar sem parecer estar observando. Faz parte do trabalho. O celular de Janaína, sempre com a tela virada para baixo na mesa de jantar.
Não era um hábito antigo, era um novo. Adelson tentou identificar quando havia começado, mas não conseguiu ser exato, porém sabia que não era algo contínuo. Quando ela saía para atender clientes, em algumas dessas viagens ela voltava com um leve excesso de normalidade que ele aos poucos aprendeu a reconhecer. Não era culpa estampada no rosto, era o oposto.
Uma normalidade administrada, o que é diferente da normalidade real. E houve um nome que surgiu uma vez em uma conversa telefônica que Janaína teve na sala enquanto ele estava na cozinha. Ela falava baixo, mas o apartamento era pequeno. O nome dele era Fábio, apenas Fábio, sem sobrenome, dito com a familiaridade de quem não precisa de um sobrenome.
Adelson lavou a louça até o fim, sem fazer barulho. Guardou o nome Fábio na memória junto com o resto, mas não foi só isso. Em uma segunda-feira de maio, Adelson teve uma tarde de folga mais cedo do que o esperado. O Dr. Cavalcante havia cancelado seu compromisso da tarde por causa de uma reunião que se estendeu no escritório. Adelson foi liberado às 15h.
Adelson foi para casa. Janaína havia dito que ia encontrar uma cliente no Mondubim, perto de casa, e que voltaria às 17h. Quando Adelson chegou ao prédio às 15h20, o apartamento estava vazio. Isso era normal, ela ainda estaria com a cliente. Ele foi até a cozinha tomar um copo d’água, sentou-se na sala e ligou o ventilador.
O calor em Fortaleza em maio ainda é forte. Às 16h45, ele ouviu a chave na porta. Janaína entrou, viu Adelson na sala e, por uma fração de segundo, menos de um segundo, o tipo de coisa que só alguém treinado para notar consegue perceber. O rosto dela demonstrou uma certa surpresa ao ver o marido em casa.
Foi outra coisa, mais como um cálculo. Passou rápido. Ela sorriu.
“Você saiu mais cedo?”
“Sim,” ele disse. “O Cavalcante cancelou.”
“Que bom. Você está com fome? Tem algo que eu possa fazer?”
“Não é necessário. Eu estou bem.”
Ela foi ao banheiro, ficou lá por cerca de 10 minutos e saiu com o cabelo diferente de quando entrou. Não muito diferente, mas diferente. Aquele ar de quem passou a mão pelo cabelo e ajustou algo que estava fora do lugar. Adelson viu, mas não disse nada.
Foi em um sábado de junho que um celular esquecido no porta-luvas mudou tudo. Eles tinham ido juntos ao Mercadão do Mondubim, aquela feira de rua que toma conta da Avenida João Pessoa nas manhãs de sábado, com barracas vendendo de tudo, o cheiro de coentro, camarão seco e frutas maduras misturados.
Aquele barulho constante do feirante, anunciando o preço, era algo que Adelson conhecia desde menino. Eles compraram frango, verduras, aquele queijo coalho que Isabela gostava e 2 kg de feijão verde. Subiram para o apartamento com as sacolas. Isabela ainda estava dormindo. Manhã de sábado, aos 14 anos, o mundo poderia acabar e ela não acordaria antes das 10h.
Adelson foi ajudar a guardar as compras. Janaína foi ao banheiro. Foi então que ele percebeu que havia esquecido o próprio celular no carro. Precisava ligar para o Dr. Cavalcante para confirmar o horário de um compromisso no domingo. Ele desceu e abriu o carro. Seu celular estava no banco do motorista, onde sempre ficava.
Mas quando abriu o porta-luvas para pegar o carregador, viu o celular de Janaína. Ela tinha esquecido. Ele o pegou com a intenção de subir e entregá-lo. A tela acendeu com o movimento e lá estava. Notificação de mensagem. No nome do contato, ‘Fábio com um coração’. As primeiras palavras da mensagem apareceram antes que a tela travasse novamente.
“Estou com saudades, meu amor.”
A tela escureceu. Adelson ficou parado no estacionamento com o celular dela na mão. O sol da manhã em Fortaleza batia forte no asfalto. Um vizinho passou com o cachorro e deu bom dia. Adelson respondeu “bom dia” no automático. Ele ficou ali por mais um tempo, depois subiu e entrou no apartamento.
Janaína estava na cozinha guardando o feijão.
“Você esqueceu seu celular no carro,” ele disse, colocando o aparelho no balcão da cozinha.
“Ah, obrigada.”
Ela o pegou sem olhar para a tela, colocou no bolso. Adelson foi para a sala, ligou o ventilador, sentou no sofá e aquelas palavras ficaram na sua cabeça pelo resto do dia. ‘Fábio com um coração. Estou com saudades, meu amor.’
O que um homem faz com uma informação como essa depende muito de quem ele é. Alguns homens confrontam imediatamente, alguns choram, alguns ligam para o melhor amigo, alguns bebem. Adelson não fez nada disso. Adelson era motorista particular havia 11 anos. O trabalho lhe ensinou algo que ele nunca havia colocado em palavras, mas que estava em seu íntimo.
Quando você não sabe o que vai acontecer a seguir, você espera. Você não acelera em um cruzamento quando não consegue ver o final da rua. Você espera a visibilidade abrir. Ele esperou. Naquele sábado, ele, Janaína e Isabela jantaram juntos. Arroz, feijão verde, frango grelhado e aquela farofa com coentro que Janaína fazia tão bem.
Isabela falou sobre uma amiga da escola. Janaína perguntou sobre a amiga. Adelson comeu em silêncio e respondeu quando lhe perguntaram. Após o jantar, Janaína lavou a louça. Adelson ajudou a secar. Eles se sentaram na pequena cozinha, lado a lado, assim como todos se sentavam para jantar há 12 anos. Ela não sabia que ele tinha visto.
Ele não demonstrou que sabia. Nos dias seguintes, Adelson começou a juntar o que faltava. Fábio, sobrenome desconhecido, contato salvo com um coração no celular da esposa, voz familiar em um telefonema da sala, um nome que existia na vida de Janaína de uma forma que Adelson nunca havia sido apresentado.
Quem era esse homem? Adelson não tinha como acessar o celular de Janaína. Ela usava senha, sempre usou. E ele nunca havia questionado porque nunca tivera motivo para isso, mas ele tinha outro jeito. A base de clientes de Janaína era bem conhecida no bairro. Serviços de manicure em domicílio no bairro, como no mundo todo, funcionam por indicação.
Uma pessoa conta para a outra, e a rede vai crescendo. Ele conhecia algumas clientes de vista, outras pelo nome, e começou a perguntar de forma indireta sobre Dona Raimunda do terceiro andar, que era cliente de Janaína há anos, sobre o marido da cliente do Autran Nunes, que ele havia cumprimentado uma vez no corredor, e sobre o dono do bar da esquina que conhecia todo mundo.
Em três dias ele conseguiu o sobrenome: Fábio Andrade, 36 anos. Trabalhava como supervisor em uma loja de materiais elétricos na Avenida Sargento Hermínio. Morava no Autran Nunes. Solteiro, nunca havia se casado, pelo menos era o que as pessoas do bairro sabiam. Solteiro, 36 anos. Adelson tinha 43. Casado há 12 anos, com uma filha de 14.
Fábio Andrade tinha 36 anos e não tinha nada a perder a não ser ele mesmo. Essa assimetria ficou presa na mente de Adelson de uma forma específica. Em uma quinta-feira de junho, Janaína saiu de casa às 10h, dizendo que ia encontrar a Sra. Socorro no Conjunto Ceará. Adelson esperou que ela saísse, esperou 5 minutos, entrou no carro, não foi para o Conjunto Ceará, foi para o Autran Nunes.
Colocou-se em um local com visibilidade para a rua onde morava Fábio Andrade, uma rua residencial de casas pequenas, com uma calçada estreita e uma árvore de cada lado, que proporcionava uma boa sombra no meio do dia. Ele esperou. Às 10h42, Janaína chegou a pé com sua pequena maleta de materiais de manicure.
Ela entrou na casa de número 47. Não era a casa de nenhuma Dona Socorro. Adelson ficou dentro do carro no calor de Fortaleza com o ar condicionado desligado. Não quis ligar. Não saberia explicar o porquê depois. Ele simplesmente não queria e ficou encarando a porta fechada da casa número 47. Janaína saiu 2 horas e 20 minutos depois.
Ela saiu com aquele andar de quem está bem, de quem se sente leve. Atravessou a calçada devagar, olhando para o celular. Adelson ficou no carro até ela virar a esquina. Então, permaneceu parado por mais um tempo. O sol em Fortaleza, em meados de junho, era branco e pesado. Na casa ao lado da número 47, uma criança brincava na calçada com uma bola vermelha que batia na parede e voltava.
Batia na parede e voltava. Adelson ficou olhando a bola até a criança ir embora. Depois deu a partida no carro e foi para o trabalho. Histórias como essa continuam acontecendo silenciosamente, em bairros como o Mondubim, em apartamentos como o de Adelson e Janaína, em casamentos que por fora pareciam normais.
O que acontece depois que um homem vê o que não queria ver e vai trabalhar é algo que a psicologia chama de dissociação funcional, quando a mente separa o que está sentindo do que precisa fazer para sobreviver ao dia. Adelson pegou a filha do Dr. Cavalcante na escola às 17h, a levou para o judô, esperou, pegou-a novamente e a levou para casa.
Ele trocou 10 palavras com o Dr. Cavalcante sobre a agenda do dia seguinte: profissional, pontual, discreto. Por dentro, a coisa era completamente diferente. A noite em casa foi igual a qualquer outra noite vista de fora. Janaína fez cuscuz com ovo e linguiça calabresa. Isabela reclamou que queria outra coisa.
Janaína disse que ela poderia escolher no fim de semana. Adelson comeu sem reclamar. Depois do jantar, ele ficou na sala. Janaína foi para o quarto cedo. Disse que estava cansada. Adelson ficou na sala com o ventilador ligado e a televisão em um canal de notícias com o volume no mudo, assistindo às imagens sem ver. Ficou assim até meia-noite.
Nos dias que se seguiram, Adelson mudou por dentro de uma forma que era quase invisível por fora. Ele parou de juntar provas. Já tinha evidências suficientes. O celular, o coração no nome, a casa no Autran Nunes, as 2 horas e 20 minutos. Ele começou a ficar quieto de um jeito diferente.
Não era o silêncio de antes, o silêncio de um homem contido, de um homem que processa as coisas devagar. Era um silêncio mais pesado, com um peso por baixo que Isabela sentiu, mas não conseguia nomear.
“Pai, você está bem?” ela perguntou uma tarde quando os dois estavam na sala e Janaína havia saído.
“Estou cansado,” ele disse. “Semana difícil.”
Isabela olhou para ele por um segundo com aquele olhar de adolescente que percebe mais do que os adultos imaginam, mas ela não fez mais perguntas. Voltou para o celular. Adelson continuou olhando para a televisão. A sexta-feira em que tudo aconteceu chegou com aquele vento leste que Fortaleza tem em junho.
Quente, mas agitado, o tipo de dia que engana porque parece mais ameno do que é. Adelson teve um dia normal de trabalho. Pegou o Dr. Cavalcante às 7h30 e o levou para o escritório na Aldeota. Ficou à disposição durante o dia. Durante o horário de almoço, sentado no estacionamento do prédio comercial com uma quentinha que comprou na barraca da esquina, Adelson pegou o celular, não para ligar para ninguém, mas apenas para olhar para ele.
Foi quando chegou a mensagem de Isabela: “Pai, a mãe disse que vai sair hoje à noite para jantar com as meninas do trabalho. Você vem cedo?”
As meninas do trabalho. Janaína era uma manicure autônoma. Não tinha colegas de trabalho, não tinha empresa, trabalhava sozinha. Adelson digitou: “Sim, eu vou, filha.”
Ele terminou a quentinha, jogou a embalagem fora, ligou o carro e trabalhou o resto da tarde normalmente. Às 18h, o Dr. Cavalcante liberou a equipe. Adelson dirigiu o carro da empresa até o pátio da família no Eusébio. Pegou um Uber para o Mondubim. Chegou em casa às 19h20. Isabela estava no quarto. Janaína estava se arrumando.
Batom, brincos, aquela blusa preta que ela costumava usar em saídas especiais.
“Que bom que você chegou cedo,” ela disse quando ele entrou no quarto. “Fique com a Isabela. Não vou demorar.”
“Aonde você vai mesmo?” ele perguntou. “Jantar com as meninas? Eu já te disse. Quais meninas?”
Ela parou por um segundo. “Só um minuto. A Gildete e a Fátima do salão.”
Adelson ficou em silêncio. “Tudo bem,” ele disse.
Janaína terminou de se arrumar, pegou a bolsa, deu-lhe um beijo rápido, gritou tchau para Isabela e saiu. Adelson ficou no quarto por alguns minutos, depois foi até o guarda-roupa. Na parte de cima, no fundo, atrás de uma pilha de lençóis dobrados que eles não usavam desde o inverno passado, havia uma caixa de sapatos.
Dentro da caixa havia um revólver calibre .38, que ele possuía desde 2015, comprado quando o carro do Dr. Cavalcante foi assaltado uma noite no centro e ele ficou sob a mira de uma arma por 20 minutos. Era registrado, nunca usado. Adelson ficou olhando para a arma por um momento, fechou a caixa, guardou-a de volta, foi para a sala, ficou lá por 15 minutos, voltou para o quarto e abriu a caixa novamente.
O que aconteceu a seguir foi reconstruído pela Polícia Civil de Fortaleza com base em câmeras de um estabelecimento comercial na Rua Fábio Andrade, no depoimento de vizinhos e na própria declaração de Adelson Moura na delegacia de homicídios. Horas depois, Adelson disse a Isabela que precisava sair rapidamente, que voltaria logo e que ela deveria ficar em casa.
Isabela disse: “Tá bom, pai.”
Sem tirar os fones de ouvido, Adelson pegou as chaves do Gol, seu próprio carro, não o carro da empresa. Ele saiu e dirigiu até o Autran Nunes. Estacionou a meia quadra da casa número 47. O carro de Fábio Andrade, um Sandero cinza, estava em frente. Adelson saiu do carro, foi até a porta e bateu.
Fábio Andrade abriu a porta e reconheceu o homem à sua frente, não pessoalmente, mas pela aparência. Homem mais velho, rosto fechado, corpo tenso. Ele disse “Quem é você?” antes de entender. E ele entendeu quando viu a arma e tentou fechar a porta. Adelson colocou o pé antes que a porta fechasse.
O que aconteceu dentro da sala da casa número 47 nos segundos seguintes? Os tiros, a posição de Fábio quando caiu e o que ele disse antes de não conseguir mais falar foram detalhados pela perícia com base nas marcas do local. Fábio Andrade foi baleado duas vezes, uma no peito e outra no ombro, e caiu na entrada da sala.
Ele ainda tinha pulso quando o vizinho do lado, alertado pelo barulho, chamou a ambulância pelo 192. Adelson saiu da casa, voltou para o carro, sentou-se lá dentro por alguns minutos, depois pegou o celular, ligou para Janaína e ela atendeu no segundo toque.
“Adelson, eu sei onde você está,” ele disse. “E eu acabei de sair de lá.”
Silêncio.
“Vá para casa agora. Isabela está sozinha.”
Ele desligou e dirigiu para a delegacia do Mondubim. Ele entrou, aproximou-se do balcão e disse ao atendente que queria se entregar. Colocou a arma no balcão. Descarregada, ele mesmo havia retirado os projéteis restantes antes de entrar.
O atendente chamou o supervisor. Adelson sentou-se em uma cadeira de plástico verde e esperou. A ambulância chegou à casa número 47 antes da polícia. Fábio Andrade tinha um pulso fraco, mas estava vivo. Ele foi estabilizado e transportado para o IJF, Instituto Doutor José Frota, o principal hospital de trauma de Fortaleza, em estado grave.
Fábio sobreviveu, passou 23 dias no hospital, passou por duas cirurgias e teve alta com uma sequela no ombro direito, uma perda parcial de movimento que os médicos disseram que poderia ou não melhorar com fisioterapia. Janaína chegou ao Autran Nunes enquanto a ambulância ainda estava na rua. Ela viu a fita da polícia em frente à casa número 47.
Ela ficou do lado de fora com a bolsa no braço e o batom do seu passeio especial ainda intacto, olhando para a cena sem conseguir se mover. Um vizinho que a reconheceu se aproximou. Janaína não disse nada, pegou o celular e ligou para o irmão. Na delegacia do Mondubim, Adelson foi formalmente indiciado por tentativa de homicídio.
A oficial de plantão era a Dra. Simone Aragão, 40 anos, com 12 anos de serviço na Polícia Civil. Adelson pediu para falar. Disse que não precisava de advogado naquele momento. Queria falar na mesma hora. A delegada informou-o dos seus direitos. Ele disse que entendia. A sala de interrogatório era pequena, com paredes amareladas e uma luz de teto que piscava levemente.
Adelson sentou-se com as mãos no colo. Não havia algemas porque ele havia se entregado voluntariamente e não havia resistido em nenhum momento. Ele explicou tudo em ordem. O celular no porta-luvas, a notificação, o nome com um coração, as semanas de observação, a casa no Autran Nunes, a mensagem de Isabela sobre o jantar com as meninas do trabalho que não existiam.
A delegada ouviu, fez anotações, fez poucas perguntas durante o depoimento e o deixou falar. Quando Adelson terminou, ela olhou para o caderno por um momento. Então fez a pergunta que quase não fez. Era uma pergunta de rotina. O tipo de testemunho colhido no final para amarrar as pontas soltas.
“Você e Janaína haviam discutido a separação antes dessa situação?”
Adelson permaneceu em silêncio por um período de tempo, que a delegada mais tarde descreveu no relatório como uma pausa longa e visivelmente carregada.
“Ela pediu a separação há seis meses,” ele disse finalmente.
A delegada parou de escrever. “E você não aceitou?”
“Pedi a ela para pensar mais a respeito.”
Ela disse que pensaria e nunca mais tocou no assunto.
“Você sabia o motivo pelo qual ela queria a separação?”
Outra pausa. “Eu desconfiava, mas ela não disse nada.”
A policial permaneceu em silêncio por alguns segundos. “Então você sabia, antes de encontrar o celular, que o casamento estava em apuros?”
Essa não foi a pergunta. Adelson respondeu de qualquer maneira: “Você sabia que tinha algo ali? Só não sabia o tamanho?”
Essa resposta mudou o que todos achavam que entendiam sobre o que havia motivado Adelson Moura. Não foi apenas o celular deixado no porta-luvas. O celular foi a gota d’água em um barril que já estava transbordando há meses.
A delegada Simone Aragão fez anotações e fechou o caderno. Adelson foi transferido para a Casa de Detenção de Fortaleza naquela mesma noite. A notícia se espalhou pelo Mondubim e por esses bairros, primeiro via mensagem de WhatsApp, depois pelo boca a boca na padaria logo de manhã. Primeiro nos grupos do bairro, depois no bar da esquina, onde o velho Benedito, que sabia de tudo, sempre sabia antes de todo mundo.
Os vizinhos do prédio ficaram sem palavras. Adelson era o tipo de homem que todo condomínio tem e valoriza. Discreto, educado e alguém que conserta a torneira vazando do corredor sem que lhe peçam. O tipo de pessoa que você não imaginaria em uma sala de delegacia, entregando-se voluntariamente com uma arma descarregada no balcão.
Isabela descobriu da maneira mais cruel possível. Sozinha no apartamento, vendo seus stories se encherem de nomes e endereços que ela reconhecia. Ela ligou para o pai, caiu na caixa postal, ligou para a mãe. Janaína atendeu com a voz embargada e disse que estava a caminho. Isabela ficou sentada no sofá da sala pelos 20 minutos que Janaína levou para chegar, com o ventilador ligado e o celular na mão, sem conseguir fazer mais nada.
Quando Janaína entrou, Isabela não a abraçou; ela perguntou: “É verdade?”
Janaína não respondeu imediatamente. Aquele atraso foi a resposta. O processo criminal foi iniciado pelo Ministério Público do Estado do Ceará. Adelson foi indiciado por tentativa de homicídio doloso, uma disputa sobre circunstâncias agravantes.
O fato de a vítima ter sobrevivido não diminuiu a gravidade da acusação. A tentativa de homicídio doloso tem a mesma estrutura jurídica de um crime consumado, com a pena reduzida em termos técnicos, mas não em gravidade moral perante o Tribunal do Júri. A defesa. O Dr. Heitor Sampaio, advogado criminalista de Fortaleza, trabalhou com dois pontos centrais.
Primeiro, Adelson havia se entregado voluntariamente, sem fugir ou resistir. Em segundo lugar, havia um pedido anterior de separação indicando uma deterioração do casamento, o que, combinado com a descoberta da infidelidade, criava um quadro de intensa emoção após injusta provocação.
O Ministério Público rebateu. Adelson havia saído de casa, dirigido até o Autran Nunes e atirado em um homem. Houve movimento físico, houve deliberação. A defesa respondeu:
“O tempo entre a ligação de Isabela e o tiroteio foi de menos de uma hora. Um homem que planeja um crime não se entrega com uma arma descarregada no balcão da delegacia.”
A denúncia foi entregue sete meses após o crime. Fábio Andrade, já recuperado da lesão no ombro, foi ouvido como vítima e testemunha durante a investigação. Ele disse que conhecia Janaína havia dois anos, que o relacionamento havia começado quando ela foi recomendada por uma amiga para fazer as unhas na casa dele.
Ele disse que sabia que ela era casada. Disse que havia pedido a ela para resolver a situação com o marido. Essa última parte, de que ele havia pedido para ela resolver, foi muito explorada pela defesa durante o julgamento. O julgamento de Adelson Moura pelo tribunal do júri ocorreu em uma quarta-feira de março do ano seguinte, no fórum Clóvis Beviláqua, no centro de Fortaleza.
Sete jurados, quatro mulheres, três homens. O julgamento durou quase 10 horas. Janaína foi ouvida como testemunha. Ela entrou na sala com a postura de quem havia se preparado para aquilo, mas por dentro… Era outra coisa. Sentou-se e cruzou as mãos no colo. O promotor perguntou sobre o pedido de separação seis meses antes do crime.
Janaína confirmou.
“Você contou ao seu marido o motivo do pedido de separação?”
“Não.”
“Por quê?”
Silêncio. “Porque eu não sabia como.”
“Você manteve o relacionamento com Fábio Andrade durante esses seis meses enquanto o pedido de separação estava pendente?”
“Mantive.”
O promotor anotou. Ela não comentou. Fábio Andrade foi ouvido em seguida.
Ele entrou com o braço direito ligeiramente diferente do esquerdo. A lesão no ombro era evidente em sua postura. Ele respondeu às perguntas de forma objetiva. Quando a defesa perguntou se ele havia pedido a Janaína para regularizar a situação com o marido, ele disse que sim.
“E o que ela disse?” o Dr. Heitor Sampaio perguntou.
“Ela disse que iria resolver.”
“E ela resolveu?”
“Não.”
O Dr. Heitor Sampaio olhou para os jurados por um segundo antes de se sentar. Em sua sustentação oral, o advogado de defesa foi direto. Ele falou de um homem de 43 anos que havia trabalhado por 11 anos como motorista particular.
“Ele havia construído uma vida dentro de suas possibilidades, havia pedido mais tempo à esposa quando ela pediu a separação porque acreditava que eles poderiam se entender. Ele foi traído não em uma semana de fraqueza, mas por dois anos, descobriu a traição por acidente, um celular deixado no porta-luvas, uma notificação em uma tela bloqueada, e se entregou voluntariamente com a arma descarregada. Este homem não fugiu,” disse a defesa. “Este homem foi à delegacia e colocou a arma no balcão. Este não é o gesto de alguém que planejou, é o gesto de alguém que chegou ao limite e mesmo assim, no seu limite, sabia o que estava fazendo de errado.”
O promotor falou do homem que foi baleado e carregará uma cicatriz no ombro para o resto da vida. Ele falou sobre como a traição não é justificativa legal para a violência. Ele disse que o Código Penal Brasileiro não prevê exceção para um homem que atira em um rival.
Os jurados se retiraram às 21h40, retornando às 00h15. Veredito: culpado de tentativa de homicídio doloso. A tese de homicídio privilegiado foi reconhecida por quatro dos sete jurados. Maioria simples suficiente. Com o reconhecimento do privilégio, a pena foi reduzida.
A juíza presidente fixou a pena em 4 anos e dois meses. Regime inicial semiaberto com possibilidade de progressão. Adelson ouviu, fechou os olhos por um segundo, abriu-os, olhou para frente. Adelson Moura cumpriu sua pena em regime semiaberto no Ceará, com tornozeleira eletrônica no primeiro período e progressão para o regime aberto após 1 ano e 8 meses. Meses de comportamento regular. Ele está livre.
Ele não voltou para o Mondubim; foi para Quixadá, cidade onde nasceu, onde ainda tem um irmão e uma tia. Conseguiu um emprego dirigindo um caminhão de entrega de gás. Ele acorda cedo, trabalha e volta. Ele não tem mais motorista particular; ele tem um caminhão de gás e uma cidade pequena, e o silêncio de alguém que carrega algo que não passa.
Janaína deixou o apartamento do Mondubim três meses após o crime. Foi morar com a mãe no conjunto habitacional Esperança por um tempo. Depois alugou um quarto em outro bairro. Ela continua trabalhando como manicure na casa das clientes. Sua carteira de clientes diminuiu porque a notícia se espalhou, mas vem se reconstruindo com o tempo.
O tempo constrói e destrói no mesmo ritmo, dependendo de qual lado você está. Isabela fez 18 anos no ano seguinte ao crime. Ela ficou no Mondubim com a avó materna por um tempo. Passou no ENEM e se matriculou em um curso de técnica de enfermagem. Ela conversa com o pai às vezes. Ligações curtas sobre nada específico, com aquele silêncio específico no meio que diz mais do que palavras.
Ela não fala com a mãe com a mesma frequência de antes. Ele não sabe se algum dia voltará a falar. Fábio Andrade ainda mora no Autran Nunes. Faz fisioterapia no ombro toda semana. O movimento retornou parcialmente. Cerca de 60%, dizem os médicos, o suficiente para trabalhar, mas não para tudo o que ele fazia antes.
Ele não tem mais contato com Janaína. A loja de materiais elétricos na Avenida Sargento Hermínio tem um supervisor diferente agora. E o celular esquecido no porta-luvas, aquele que começou tudo, permaneceu na gaveta do apartamento do Mondubim por meses, sem que ninguém soubesse o que fazer com ele.
Quando Janaína foi buscar seus pertences no apartamento antes de devolver as chaves, encontrou o celular na gaveta da cozinha. Ela ficou olhando para ele por um tempo. Era o celular novo que ela havia comprado após o crime. O antigo havia sido guardado pela perícia como evidência e nunca foi devolvido.
Ela pegou o celular da gaveta e o levou com suas outras coisas. O apartamento foi entregue vazio. O novo inquilino chegou um mês depois. Ele pintou as paredes, trocou as cortinas da sala e colocou um tapete na entrada que o outro não tinha. A vizinha do terceiro andar, Dona Raimunda, encontrou o novo inquilino no corredor durante a primeira semana e foi educada e amigável, como sempre. Ela não disse nada.
Não havia como contar a ele. Há coisas que um apartamento guarda mesmo depois que as paredes foram pintadas, as cortinas trocadas e o novo tapete está na entrada. Há coisas que permanecem no ar de um lugar, e só quem conhece percebe. E há um celular que foi esquecido no porta-luvas de um carro em uma manhã de sábado na feira, e que mudou quatro vidas de uma forma que nenhuma das quatro voltou a ser o que era antes.
Por causa de uma notificação, por causa de um coração depois de um nome, por causa de palavras que apareceram em uma tela bloqueada por 3 segundos antes de desaparecerem. Rachaduras que não fecham sozinhas, que nunca fecham sozinhas.