Havia uma foto na parede da sala de estar, uma foto de churrasco em família, uma daquelas fotos que toda família brasileira tem. Tirada em um domingo ensolarado, todos reunidos ao redor do churrasco, cerveja na mão, sorrisos por toda parte. A foto havia sido tirada 3 anos antes do crime, na festa de 50 anos do pai de Gilmar.
Gilmar estava no centro da foto, e à sua direita, com o braço sobre o seu ombro, com aquele ar de primo de infância que não precisa pedir permissão para se aproximar, estava Edenilson. À esquerda de Gilmar, Patrícia, sua esposa. Seu primo e Gilmar no meio. Três anos depois daquela foto, Gilmar olharia para ela em uma tarde de terça-feira e perceberia que estava olhando para a imagem errada.
Ao longo de sua vida, ele soube que o que considerava família era algo totalmente diferente; que o braço do seu primo ao redor do seu ombro naquele churrasco de domingo já carregava um peso que ele não tinha sido capaz de ver. O que aconteceu depois daquela tarde de terça-feira abalou a família inteira, duas famílias, na verdade, porque elas eram uma só.
E no bairro do Barreiro, em Belo Horizonte, essa história ainda é contada em tons baixos quando o nome de Gilmar surge na conversa.
Antes de continuar, tenho um detalhe nesta história que só veio à tona durante o julgamento, não no interrogatório, não na investigação. Foi uma testemunha que ninguém esperava que falasse. Uma testemunha que conhecia os dois desde a infância e que guardou a informação para si mesma por mais de 2 anos antes de se manifestar.
O que ela disse mudou o entendimento do júri sobre quando tudo começou. Você saberá quando chegar lá.
O bairro do Barreiro está localizado na zona oeste de Belo Horizonte. É um dos bairros mais populosos da cidade. Tem mercado, feira, uma escola pública que funciona em três turnos, uma igreja evangélica em cada esquina e uma padaria que abre às 5 da manhã para quem sai cedo para trabalhar.
É o tipo de bairro que Belo Horizonte construiu com as mãos de quem veio do interior em busca de algo melhor e ficou, porque as coisas melhores foram aparecendo aos poucos, devagar, bem ao jeito mineiro.
Gilmar Ferreira tinha 41 anos, natural de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, mas morava em Belo Horizonte desde os 18.
Ele chegou para trabalhar na construção civil com o pai e ficou quando o pai voltou. Fez um curso técnico de eletricista à noite por 3 anos. Tornou-se eletricista e construiu uma clientela no Barreiro e bairros vizinhos: Lindeia, Milionários, Betânia. Trabalhava por conta própria.
Ele tinha fama no bairro de homem de confiança, que cobrava o valor combinado e entregava o serviço. Na época, Gilmar tinha 1,70 m de altura, com o porte forte de quem carrega equipamento pesado e sobe em telhados desde os 20 anos. Pele morena, queimada de sol, cabelos pretos com uma mecha branca começando nas têmporas, mãos com aquelas marcas permanentes de quem trabalha com fios e ferramentas.
Falava com um sotaque do norte de Minas, que nunca foi muito forte, embora, apesar de mais de 20 anos em Belo Horizonte, fosse aquele sotaque cantado que quem é de fora acha bonito e que Gilmar nem notava mais. Ele era um homem quieto, mas sempre presente. Não era do tipo que dançava em festas, mas era do tipo que ficava até o fim e ajudava a guardar as cadeiras.
Em reuniões de família, e havia muitas, porque a família era grande, Gilmar era quem deixava o carvão do churrasco na temperatura perfeita e quem nunca deixava a cerveja acabar, a menos que alguém pedisse.
Patrícia Ferreira tinha 38 anos, de Belo Horizonte, Minas Gerais, natural do Barreiro, com cabelos castanhos e luzes que ela renovava a cada dois meses.
Olhos escuros, sorriso fácil, aquele tipo de mulher que sempre tem algo a fazer, mas que recebe calorosamente quem chega. Trabalhava como assistente administrativa em uma clínica odontológica na Avenida Afonso Vaz de Melo, em turno fixo das 8h às 17h, de segunda a sexta. Eles tinham dois filhos, Thiago, 16, e Letícia, 12.
Ambos frequentavam a escola pública do bairro, ambos com a rotina típica de crianças de bairros de classe trabalhadora: escola de manhã, casa à tarde e finais de semana fora com os amigos. Eles moravam em casa própria, com dois quartos, sala, cozinha com área de serviço e um pequeno quintal com um limoeiro que Gilmar havia plantado no primeiro ano em que moraram lá.
A casa havia sido comprada com 10 anos de economias e um financiamento que ainda faltavam 6 anos para pagar. Eles eram casados há 15 anos.
Edenilson Ferreira tinha 39 anos. Ele era primo de Gilmar por parte de pai, filhos de dois irmãos que vieram de Montes Claros juntos na mesma época. Eles cresceram no mesmo quintal, frequentaram a mesma escola até o ensino médio e tinham aquele tipo de relação de primos que é mais próxima do que muitas amizades — o tipo de relacionamento onde você conhece a história da família do outro porque é a mesma história.
Edenilson havia ficado em Belo Horizonte quando o pai de Gilmar retornou a Montes Claros. Os dois primos haviam construído vidas na mesma cidade, no mesmo bairro, com famílias que visitavam todo fim de semana. Edenilson trabalhava como motorista de caminhão para uma transportadora no anel rodoviário.
Ele era casado, mas havia se separado da esposa anos antes do crime. Sua ex-esposa e dois filhos moravam em um bairro vizinho. Edenilson morava sozinho em um apartamento de um quarto no Barreiro, a quatro quarteirões da casa de Gilmar. Quatro ruas.
Ele era primo, vizinho, visitante frequente na mesma casa, sentava na mesma mesa de churrasco, jogava dominó com Gilmar nas noites de sexta-feira, chamava Patrícia de cunhada, do jeito que os mineiros chamam a esposa do primo, com aquela familiaridade que a família estendida normaliza. Era o último nome que Gilmar imaginaria ver onde viu.
A primeira vez que algo não se encaixou foi em uma sexta-feira de agosto. Gilmar havia terminado um trabalho mais cedo do que o esperado, uma instalação elétrica em uma obra no Milionários que o pedreiro prometeu que levaria dois dias, mas levou um.
Ele chegou em casa às 14h, quando normalmente chegava às 18h. Patrícia estava na clínica e as crianças na escola. Gilmar foi tomar banho. Enquanto ele trocava de roupa, o celular de Patrícia vibrou na mesa de cabeceira. Ela o havia esquecido em casa, algo que acontecia às vezes. Gilmar olhou sem querer.
Foi automático, o tipo de coisa que você faz quando um aparelho vibra por perto. Era uma mensagem de áudio. O nome do contato era apenas uma letra. Gilmar ficou encarando o celular. Uma letra como nome de contato. Não era assim que Patrícia salvava seus contatos. Ela sempre incluía o nome completo, às vezes com o sobrenome. Ele sabia disso porque às vezes ela pedia a ele para pegar o celular e ligar para alguém enquanto ela dirigia. Uma letra.
Gilmar colocou o celular de volta na mesinha, do jeito que estava. Foi para a cozinha, fez café, bebeu em pé no balcão, olhando pela janela para o quintal, onde o limoeiro estava carregado de frutas. Ele ficou assim por um tempo. Depois foi trabalhar em um orçamento que tinha que entregar, mas a letra E permaneceu.
Nas semanas seguintes, Gilmar prestou atenção de uma forma que nunca havia feito antes. Não era um novo tipo de desconfiança; era uma desconfiança que ainda não tinha nome. Um sentimento de que o chão estava ligeiramente diferente, mas quando você olha para o chão, ele parece o mesmo. O celular de Patrícia, sempre protegido por senha, o que não era novidade, ela sempre teve, mas agora o carregava de uma forma mais consciente.
Ela não o deixava mais na sala quando ia ao banheiro, e não o deixava na mesa durante o jantar. Edenilson aparecia na casa como de costume, assim como sempre fazia. Sexta era dia de dominó, domingo era dia de churrasco, na época em que havia. Ele sentava na mesma cadeira, bebia a mesma cerveja, falava do mesmo jeito, mas Gilmar começou a observar de um ângulo diferente e notou algo pequeno.
Edenilson e Patrícia quase nunca falavam diretamente um com o outro quando os três estavam juntos. Não era frieza, era quase o oposto. Era uma tentativa excessiva de evitar falar, como quando duas pessoas estão muito cientes uma da outra. E esse excesso de consciência produz uma ausência artificial.
Gilmar não tinha palavras para isso na época, mas seu corpo entendeu antes de sua cabeça, mas isso nem era a pior parte.
Em uma quarta-feira de setembro, Gilmar estava fazendo um trabalho em uma casa no Lindeia quando recebeu uma mensagem de Patrícia.
“Vai demorar hoje? Eu precisava dar uma saída rápida, mas vou ficar se você chegar tarde.”
Gilmar respondeu:
“Ainda tenho umas duas horas aqui. Pode sair.”
Ela respondeu:
“Tá bom, volto logo. Antes das crianças chegarem.”
Gilmar terminou o trabalho em uma hora. O cliente tinha a peça que ele precisava e estava disponível antes do esperado. Ele voltou para o Barreiro, passando em frente de casa. O portão estava fechado.
O carro de Patrícia não estava na garagem, o que era normal. Ela tinha saído. Gilmar foi à mercearia da esquina comprar um refrigerante. Ele conversou por alguns minutos com o Seu Geraldo, dono da loja, sobre um problema elétrico que a loja estava tendo há semanas. Quando ele retornou, passando em frente à casa desta vez a pé, ele viu o carro de Edenilson estacionado do outro lado da rua. Ele parou.
O carro de Edenilson era inconfundível, uma caminhonete Strada prata com um adesivo de time no vidro traseiro e um amassado no para-choque dianteiro esquerdo que esperava conserto há meses. A Strada prata, na sua rua, numa tarde de quarta-feira. Edenilson morava a quatro ruas de distância. Não havia motivo óbvio para ele estar estacionado naquela rua àquela hora.
Gilmar ficou na calçada por alguns segundos, depois continuou andando. Ele entrou na casa pelo portão lateral. Patrícia chegou 40 minutos depois, com uma sacola de farmácia e uma explicação sobre o remédio da Letícia ter acabado. Gilmar estava na sala de estar.
“Onde você foi?” ele perguntou, não em tom de acusação, apenas normalmente, do jeito que se pergunta quando alguém chega.
“Farmácia. Eu disse na mensagem.”
“Você não disse farmácia. Você disse que ia dar uma saída rápida.”
Ela fez uma pausa por um segundo.
“É. Eu fui à farmácia.” Ela mostrou a sacola para ele. “Aqui está.”
Gilmar olhou para a sacola, olhou para ela.
“Você viu o Edenilson hoje?”
Outra pausa, mais curta que a primeira, mas ela existiu.
“Por que? O carro dele estava na rua aqui. Não sei. Ele deve ter parado para alguma coisa.” Ela disse com tom natural. Despreocupada. “Por que você está perguntando?”
Gilmar recostou-se no sofá.
“Por nada. Só achei estranho.”
Patrícia foi guardar o remédio no banheiro. Gilmar ficou na sala com o refrigerante na mão e a sensação de que o chão havia afundado mais 1 cm.
Gilmar era eletricista. Ele sabia algo sobre circuitos que muitas pessoas não sabem. O problema raramente está onde a luz apagou. O problema está em algum lugar antes, escondido atrás da parede dentro do conduíte, em um lugar que você só encontra se seguir o fio do começo ao fim.
Ele começou a seguir o fio, não dramaticamente, mas metodicamente, da mesma forma que rastreava a falha elétrica, ponto a ponto, o contato salvo com uma letra e quem mais na vida de Patrícia teria um nome começando com “E” e seria salvo apenas daquele jeito.
Ela tinha uma colega de trabalho chamada Eliane, mas Eliane estava salva no celular como “Eliane Clínica”. Ele sabia porque já tinha visto antes. Ela tinha uma prima chamada Edilene, mas Edilene estava salva como “Edilene Prima”. Uma letra sem nome, sem contexto. O carro de Edenilson na rua numa tarde de quarta-feira, a ausência calculada de interação direta entre os dois nos encontros da família.
Gilmar montou o circuito, e o circuito apontava para o mesmo lugar. Em uma noite de outubro, depois que Patrícia e os filhos estavam dormindo, Gilmar ficou na sala escura por um longo tempo, pensando no churrasco de aniversário do seu pai três anos atrás, na foto na parede da sala, no braço de Edenilson em seu ombro, num domingo quando todos estavam juntos rindo e ninguém sabia de nada, ou pelo menos ele não sabia.
A confirmação veio em uma terça-feira de novembro. Patrícia tinha saído para o trabalho, as crianças tinham saído para a escola. Gilmar só tinha serviço à tarde. Ele ficou em casa de manhã. E naquela manhã, por um motivo que ele disse mais tarde que não sabia explicar direito, ele disse que foi um impulso. Ele disse que algo o mandou.
Gilmar foi até a gaveta do quarto onde Patrícia guardava documentos pessoais. Ele não sabia o que estava procurando. Ele encontrou o que não estava procurando. No fundo da gaveta, debaixo de uma pasta de documentos do carro, havia um envelope sem marcação. Dentro do envelope, um cartão de papel, um cartão simples, do tipo vendido em papelarias, com flores impressas na frente.
Gilmar o abriu. Era um cartão de aniversário. O aniversário de Patrícia tinha sido em setembro, seis semanas antes. O cartão era do Edenilson; não era um cartão de primo para prima. Não havia como ler daquele jeito. Era um cartão de um homem para a mulher que ele ama, com aquelas palavras que não deixam margem para dúvidas, que só existem num tipo específico de relacionamento, escrito com a letra grande e inclinada de Edenilson, que Gilmar conhecia desde que tinham 8 anos e faziam dever de casa juntos na mesa da avó.
Gilmar leu uma vez, dobrou o cartão, colocou de volta no envelope, colocou o envelope de volta na gaveta, fechou, foi para o quintal, ficou debaixo do limoeiro por sabe-se lá quanto tempo, sob o sol de novembro de Belo Horizonte, que já começava a esquentar de verdade àquela altura do ano. O limoeiro estava carregado de frutas novamente.
Ficava carregado todo ano. Gilmar olhou para as frutas verdes por um longo tempo, depois entrou e ficou sozinho com aquilo por dias. O que acontece dentro de um homem quando a traição tem um rosto que ele conhece desde a infância? Essa é diferente de uma traição comum. Não é só a esposa, é o primo, é o menino que ia para a escola com ele.
É o homem que foi padrinho do casamento deles. Edenilson tinha sido o padrinho de Gilmar e Patrícia 15 anos atrás. Ele estava nas fotos do casamento, ele tinha segurado as alianças. É alguém que compartilha o mesmo sangue do pai deles, que tem histórias que começam antes mesmo de qualquer um deles ter 20 anos. Traição com um estranho é uma ferida.
Traição com um primo é uma demolição. Gilmar não chorou, ele não era um homem que chorava fácil, e isso não mudou com o cartão na gaveta. Ele ficou quieto de um jeito que Thiago, seu filho mais velho de 16 anos, notou em uma tarde quando os dois assistiam futebol na sala de estar.
“Pai, você está bem?”
“Estou cansado, filho. Semana difícil.”
Thiago assentiu com a cabeça e voltou para o jogo. Gilmar ficou olhando para a televisão sem ver o jogo. Patrícia continuou indo para o trabalho, continuou fazendo o jantar, continuou dormindo ao lado dele na cama de casal com a colcha cor de vinho que eles haviam comprado juntos numa liquidação de loja de cama, mesa e banho no shopping quatro anos antes.
Edenilson continuou a aparecer nas sextas-feiras para o dominó. Gilmar continuou a jogar dominó com ele. Nenhum dos dois disse nada, mas algo havia mudado no silêncio entre eles. Um silêncio diferente do silêncio normal de primos, mais pesado, com bordas afiadas que só Gilmar conseguia sentir.
Novembro passou. Gilmar trabalhou, entregou serviços, cobrou o que foi combinado, respondeu mensagens de clientes, por fora continuava o mesmo.
Por dentro, uma contagem que ele não sabia nomear, mas que estava acontecendo. Ele não buscou conversa com Patrícia, não confrontou Edenilson, não ligou para nenhum amigo, não foi a um pastor ou a um padre; ele não era um homem de religião organizada, ia à missa no Natal e na Páscoa. Bastava que sua mãe aceitasse; ele foi deixado sozinho com aquilo.
E é precisamente aí, quando um homem para de falar e é deixado sozinho com algo grande demais, que o perigo espreita. Em uma noite de quinta-feira de novembro, depois da meia-noite, Gilmar foi até o quartinho de ferramentas nos fundos da área de serviço. Ele ficou lá por alguns minutos. Depois, voltou para a cama, deitou-se, mas não dormiu.
A terça-feira de dezembro, quando tudo aconteceu, foi um daqueles dias em Belo Horizonte em que o calor anuncia uma tempestade, mas a tempestade não vem. O ar estava pesado, o céu fechando de um lado e abrindo do outro. Aquela pressão atmosférica que dá dor de cabeça em quem é sensível. Patrícia tinha saído para o trabalho às 7h40.
As crianças tinham saído para a escola às 7h15. Gilmar tinha um serviço agendado para as 8h no Betânia. Às 7h52, Gilmar mandou uma mensagem para o cliente dizendo que estava com problemas no carro e precisava reagendar para a tarde. O cliente respondeu que tudo bem. Gilmar ficou em casa. Às 10h, Edenilson mandou uma mensagem para ele no WhatsApp.
Não no grupo da família, direto para o Gilmar.
“Tem alguém aí hoje à tarde? Preciso de ajuda para mover uns móveis no apartamento.”
Gilmar olhou para o grupo. Ninguém respondeu nos primeiros minutos. Então Gilmar respondeu:
“Posso dar um pulo aí.”
Edenilson respondeu:
“Boa, primo. Pode ser às três?”
“Claro.”
Gilmar colocou o celular na mesa e foi até o quartinho de ferramentas. O apartamento de Edenilson ficava em um prédio sem elevador no Barreiro, terceiro andar, escada de cimento com um corrimão de ferro descascado pintado de verde. Gilmar conhecia o apartamento; ele havia ajudado Edenilson a se mudar para lá após a separação. Ele sabia onde ficava a chave reserva embaixo do capacho, do jeito que um homem que mora sozinho e não muda de hábitos guarda a chave.
Ele chegou às 15h10, subiu e bateu na porta. Edenilson abriu, vestindo bermuda e camiseta, descalço, com aquele ar de quem estava em casa à tarde, sem compromissos.
“Aí, Gilmar,” ele sorriu como primo, e então se aproximou. “Entra.”
Gilmar entrou. O apartamento era pequeno. Sala, um quarto, cozinha, banheiro. Cheiro de café recém-passado. Uma televisão no canto com o volume baixo, passando um canal de notícias. Gilmar ficou de pé na sala.
“Que móvel você precisa mover?” ele perguntou.
Edenilson parou. Algo no tom de Gilmar estava diferente. Não era hostil, era plano demais, sem a textura normal de uma conversa de primos.
“O guarda-roupa no quarto precisa ser afastado da janela.”
Gilmar olhou para ele por um segundo.
“Eu achei o cartão,” ele disse.
Edenilson permaneceu imóvel. Dois segundos. Três.
“Gilmar…”
“O cartão de aniversário que você deu pra Patrícia, que estava na gaveta dela.”
Edenilson abriu a boca, fechou, tentou novamente.
“Primo, deixa eu explicar.”
“Há quanto tempo?”
Silêncio.
“Há quanto tempo, Edenilson?”
O primo fechou os olhos por um segundo.
“Dois anos.”
Gilmar olhou para ele.
“Dois anos. Vinte e quatro meses de dominó na sexta, churrasco no domingo, fotos de família, ser padrinho de casamento, sentar na mesma mesa do afilhado, sem a mão tremer na hora de servir a carne, dois anos.”
O que aconteceu nos segundos seguintes dentro daquele apartamento no terceiro andar foi reconstruído pela Polícia Civil de Belo Horizonte, com base na investigação da cena do crime, no depoimento da vizinha do segundo andar, que ouviu os barulhos, e no depoimento de Gilmar na delegacia de homicídios horas depois. Gilmar havia pegado a arma, um revólver calibre 38, que ficava guardado no quartinho de ferramentas, comprado 6 anos antes quando a casa de um cliente no Lindeia foi arrombada e o bairro ficou em alerta por semanas, registrado, guardado por um ano e sem uso.
Edenilson viu a arma quando Gilmar a tirou da cintura, recuou para a parede, disse o nome de Gilmar, chamou de “primo”.
A palavra primo, que entre eles sempre havia sido apenas um fato biológico e que agora tinha outro peso. Gilmar atirou uma vez. Edenilson caiu contra a parede, deslizou para o chão, ficou olhando para o teto. Gilmar ficou de pé no meio da sala do apartamento com a arma na mão por um tempo que ele depois não soube quantificar. Depois ele saiu, desceu as escadas, foi para o carro, ligou para Patrícia, ela atendeu no terceiro toque.
“Gilmar, eu fui falar com o Edenilson.”
Silêncio.
“Você precisa ligar para o SAMU,” ele disse. “Apartamento 31.”
Ele dirigiu até a delegacia do Barreiro, entrou, identificou-se e disse que havia atirado no primo. Colocou a arma no balcão, sentou-se e esperou. A ambulância chegou ao apartamento de Edenilson 12 minutos após a ligação de Patrícia, uma ligação em pânico, com a voz embargada, incapaz de explicar direito o que havia acontecido, apenas repetindo o endereço várias vezes.
Edenilson Ferreira estava no chão da sala quando os paramédicos chegaram, consciente, com um ferimento a bala no abdômen, pressão arterial baixa, mas com pulso. Foi transportado para o hospital João XXIII, um centro de trauma em Belo Horizonte. Estava em estado grave e passou por uma cirurgia de emergência naquela tarde.
Edenilson sobreviveu e ficou internado por 18 dias. Ele perdeu parte da função de um rim. A bala havia passado muito perto. O rim restante compensou com o tempo, segundo os médicos. Ele ficou com uma longa cicatriz no abdômen. Patrícia foi ao hospital naquela noite. Ela esperou no corredor da UTI por horas, sem poder entrar.
Ela não era parente de sangue de Edenilson. Ela não tinha o direito de entrar. Ela visitou nas primeiras horas da madrugada. Sentou-se em uma cadeira de plástico no corredor, vestindo o casaco que havia pegado às pressas, seus olhos incertos de onde pousar. A mãe de Edenilson chegou de Montes Claros no dia seguinte. A tia de Gilmar, irmã de seu pai, chegou de rosto fechado e olhos que haviam chorado na estrada.
Quando viu Patrícia no corredor do hospital, ela parou. As duas se olharam por um segundo. Não disseram nada. A tia entrou pela porta da UTI. Patrícia ficou no corredor. A comoção no Barreiro começou antes do fim da tarde. A família era grande e conhecida no bairro. A notícia se espalhou pelos grupos de WhatsApp da família, dos quais havia muitos: o grupo dos irmãos, o grupo dos primos, o grupo da escola, que ainda conversava 30 anos depois.
Cada pessoa que recebia a mensagem ficava em silêncio por um momento antes de responder, porque não era apenas a notícia de um crime, era a notícia de que o crime havia acontecido dentro da família, entre primos, com a esposa no meio. Esse tipo de notícia não tem uma reação pronta, não tem o que dizer.
Você lê, fica imóvel e depois fica com aquela sensação de que algo que você pensava ser sólido afinal não era tão sólido assim. Thiago soube quando chegou da escola e viu a mãe no quintal ao telefone com o rosto transtornado. Ele perguntou o que havia acontecido. Patrícia não conseguiu falar na primeira tentativa.
Thiago entendeu que era grave antes mesmo de saber o que era. Letícia, de 12 anos, ficou no quarto sem entender o que estava acontecendo ao seu redor, sentindo que o mundo adulto havia mudado de uma forma que ninguém ainda estava lhe explicando.
A delegacia no Barreiro. Gilmar foi transferido para a delegacia especializada em crimes contra a vida em Belo Horizonte, onde foi formalmente indiciado. A delegada chefe era a Dra. Fernanda Lopes, 43 anos, com 16 anos na Polícia Civil. Gilmar pediu para falar. Sem advogado, a princípio, ele queria conversar. A sala de interrogatório tinha paredes bege-acinzentadas, uma mesa de metal, duas cadeiras e o ar condicionado barulhento típico de uma repartição pública que esfria mais pelo barulho do que pelo ar.
Gilmar sentou-se, cruzou as mãos e relatou os acontecimentos em ordem: o contato salvo como uma letra, o carro de Edenilson na rua, o cartão de aniversário na gaveta — os dois anos que o primo havia confirmado no apartamento. A delegada ouviu sem interromper. Quando Gilmar terminou, ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois perguntou:
“Você foi ao apartamento do Edenilson com a intenção de atirar nele?”
Pausa.
“Eu fui lá para conversar, e levei a arma para a conversa,” ele respondeu.
“Você sabia que ele estaria em casa, e ele te chamou pelo grupo da família.”
Gilmar não respondeu. A delegada fez uma anotação.
“Quando você encontrou o cartão na gaveta, faz quanto tempo?”
“Três semanas.”
“E você guardou essa informação para si por três semanas sem confrontar nenhum dos dois. Por que isso?”
Gilmar olhou para a mesa.
“Porque eu precisava ter certeza.”
A delegada olhou para ele por um momento, e depois que ela teve certeza, Gilmar ficou em silêncio por um longo tempo. Eu não sei como explicar o que veio a seguir. Essa resposta, honesta demais para ser estratégica, simples demais para ser ensaiada, foi a que a Delegada Fernanda Lopes anotou com mais atenção no relatório.
Gilmar foi transferido para o Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de Belo Horizonte naquela noite. Um processo criminal foi aberto pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais. Gilmar foi indiciado por tentativa de homicídio qualificado. A qualificadora discutida pelo Ministério Público foi a da traição, que no Código Penal Brasileiro, no contexto do homicídio, refere-se ao ato de surpresa ao agir sem que a vítima possa se defender.
O promotor argumentou que Gilmar havia atraído Edenilson para o apartamento sob um falso pretexto, a necessidade de mover o móvel, e que isso constituía uma emboscada. A defesa, liderada pelo Dr. Renato Cardoso, um advogado mineiro com 20 anos de experiência no Tribunal do Júri, argumentou vigorosamente:
“Não houve emboscada. Foi Edenilson quem chamou Gilmar pelo grupo da família. Gilmar simplesmente respondeu que poderia ir. A iniciativa tinha sido do primo.”
O promotor rebateu:
“O motivo foi um pretexto. Gilmar sabia que era um pretexto. Ele foi com a arma.”
A defesa respondeu:
“Um homem que vai ao apartamento do primo com a clara intenção de matar não anuncia sua chegada pelo grupo da família. Não diz a que horas vai chegar. Não toca a campainha.”
A pronúncia foi entregue oito meses após o crime. Durante a investigação, Patrícia foi ouvida como testemunha. Ela confirmou seu relacionamento com Edenilson. Disse que havia começado anos antes. Edenilson havia confirmado o mesmo. Ele disse que não planejava contar a Gilmar porque não sabia o que queria.
“Você amava os dois?” perguntou o investigador.
Ele demorou um pouco para responder.
“Eu não sei.”
Essa resposta foi incluída nos autos do processo. O julgamento de Gilmar Ferreira pelo Tribunal do Júri ocorreu em uma segunda-feira de outubro do ano seguinte, no Fórum Lafayette, no centro de Belo Horizonte. Sete jurados, três mulheres, quatro homens. O julgamento durou 12 horas, o mais longo deste relato.
E foi durante o julgamento que a testemunha que ninguém esperava falou. Dona Zilda, 67 anos, vizinha da família há 30 anos. Ela conhecia Gilmar desde que ele chegou de Montes Claros aos 18 anos e bateu na porta dela pedindo informações sobre ônibus para chegar ao trabalho. Dona Zilda havia solicitado uma audiência particular com o advogado de defesa semanas antes do julgamento. Ela tinha algo a dizer. O Dr. Renato Cardoso a incluiu na lista de testemunhas de defesa.
Quando Dona Zilda entrou no plenário e sentou-se na cadeira de testemunha, houve um silêncio diferente, o silêncio de quem não sabe o que está prestes a ouvir. O promotor fez as perguntas de praxe. Dona Zilda respondeu calmamente, com voz firme, como quem foi ali para dizer o que tinha a dizer e não sairia sem fazê-lo. O Dr. Renato Cardoso levantou-se para as perguntas da defesa.
“Dona Zilda, a senhora mencionou que tem algo relevante sobre o início do relacionamento entre Patrícia e Edenilson. A senhora pode falar.”
Dona Zilda olhou para o júri, depois olhou para frente.
“Eu os vi juntos há três anos,” ela disse. “Foi numa tarde de sábado. Eu estava voltando do mercado e vi o carro do Edenilson estacionado na rua quando o Gilmar tinha ido para Montes Claros visitar o pai. Eu vi o Edenilson sair da casa do Gilmar.”
Silêncio no plenário.
“A senhora contou a alguém sobre isso na época?”
“Não. Por quê?”
Dona Zilda ficou em silêncio por um momento.
“Porque eu não tinha certeza do que tinha visto. E porque eu tinha medo de destruir uma família com uma suposição.”
O Dr. Renato Cardoso deixou a resposta pairar no ar por alguns segundos antes de continuar.
“Então, o relacionamento pode não ter começado dois anos antes do crime, como Edenilson e Patrícia alegaram, mas há três anos. Enquanto Gilmar estava em Montes Claros visitando o próprio pai.”
O promotor protestou, o juiz anotou, mas os jurados já haviam ouvido. O número dois virou três. E três anos é o tempo da foto do churrasco na parede da sala. O tempo em que o braço de Edenilson estava no ombro de Gilmar.
Os jurados se retiraram às 22h30. Eles retornaram à 1h20. A sala estava silenciosa quando o presidente do júri leu o veredicto. Culpado de tentativa de homicídio. As qualificadoras de traição e emboscada foram rejeitadas por cinco dos sete jurados. A tese de defesa de privilégio por violenta emoção foi aceita por quatro dos sete jurados. Com a aceitação do privilégio, a pena foi reduzida.
O juiz presidente fixou a pena em 5 anos e 6 meses, em regime inicial semiaberto. Gilmar ouviu, com as mãos cruzadas sobre a mesa e a cabeça ligeiramente inclinada para frente. Quando o juiz terminou, Gilmar virou-se levemente para o seu advogado.
“Posso ver meus filhos?” ele perguntou em voz baixa.
O Dr. Renato Cardoso disse que verificaria o procedimento. Gilmar Ferreira cumpriu sua pena em regime semiaberto em uma unidade prisional em Belo Horizonte, progredindo para o regime aberto após 1 ano e 10 meses de bom comportamento. Hoje ele está livre. Ele não voltou para a casa no Barreiro. A casa foi vendida. Patrícia solicitou a venda.
Durante o processo, ele precisava do dinheiro para recomeçar. Gilmar concordou através do seu advogado. O financiamento restante foi quitado com a venda, e o que sobrou foi dividido. Gilmar foi para Montes Claros, morou na casa do pai por um tempo, depois alugou um quarto e voltou a trabalhar como eletricista — cidade menor, a clientela reconstruída do zero, mas o trabalho o mesmo.
O limoeiro no quintal da casa do Barreiro ficou com os novos donos. Ele dá frutos todo ano. Patrícia ficou no Barreiro por um tempo com os filhos. Depois, ela se mudou para o Buritis, um bairro do outro lado de Belo Horizonte, longe o suficiente para que ela não encontrasse ninguém que conhecesse seu nome por aquele motivo. Ela trabalha em outra clínica odontológica. Mesmo emprego, endereço diferente.
Thiago foi morar com o pai em Montes Claros quando completou 18 anos. Ele ficou um tempo, voltou para Belo Horizonte e divide um apartamento com dois amigos no Barreiro, o mesmo bairro. Fica a dois quarteirões da casa onde cresceu. Às vezes ele passa em frente à casa quando caminha para o trabalho.
Letícia ficou com a mãe no Buritis; ela tem 16 anos agora. Ela estuda, tem amigos, tem aquela vida adolescente que parece normal por fora, mas carrega um peso por dentro que ela ainda não sabe como nomear direito, mas que está aprendendo a carregar.
Edenilson Ferreira saiu do hospital com uma cicatriz no abdômen e um rim parcialmente comprometido. Ele deixou o Barreiro e foi morar em Contagem, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Ele mudou de empresa. Ele não tem contato com nenhum membro da família de Gilmar. Ele tem contato com seus filhos, os dois que moram com sua ex-esposa em Belo Horizonte, visitando-os nos finais de semana quando pode.
Os filhos de Edenilson e os filhos de Gilmar cresceram juntos, brincaram juntos, foram às mesmas festas de família. Hoje eles não se falam, não há briga, não há hostilidade declarada. Há um silêncio que veio depois de muita coisa e que permaneceu.
E a foto na parede da sala, a foto do churrasco de aniversário do pai de Gilmar. Gilmar no centro, Edenilson à direita com o braço no ombro dele, Patrícia à esquerda.
Quando a casa foi vendida, Thiago pediu para guardar algumas coisas do pai antes que tudo fosse empacotado. Ele pegou uma caixa de ferramentas, um livro técnico de eletricidade que o pai usava desde o início da carreira, duas ou três coisas pequenas, e ficou parado na sala vazia em frente à foto por um tempo.
Ele a tirou da parede, não a levou consigo, deixou-a encostada na parede vazia, como se não soubesse onde colocar algo que você não pode jogar fora, mas também não pode guardar.
Os novos donos encontraram a foto quando foram inspecionar o imóvel. Eles a colocaram em uma caixa com outras coisas que o dono anterior havia deixado. A caixa foi para o depósito. Lá está ela, rachaduras que não se fecham sozinhas, que nunca se fecharão sozinhas.