Meu nome é Osvaldo Ferreira, tenho 70 anos e trabalho como coveiro no cemitério municipal aqui em Campinas há 46 anos. Mas tem um túmulo aqui que é difícil esquecer. É o túmulo da Isaura Mendes. Isaura morreu em 12 de agosto de 1945. Ela tinha 28 anos. Quando eu comecei a trabalhar aqui em 1978, os coveiros mais antigos ainda falavam dela, porque o que aconteceu com aquela moça foi uma tragédia que marcou Campinas inteira. Isaura era professora.

Todo mundo que conhecia ela falava a mesma coisa. Era uma moça educada, estudiosa, sempre de sorriso no rosto. O pai dela era o Sr. Armindo Mendes, um empresário conhecido aqui da cidade. Família tradicional, sabe? Daquelas que todo mundo conhece o nome. Isaura era filha única. O senhor Armindo e a esposa, dona Conceição, tinham só ela. Criaram a menina com todo cuidado.

Isaura tinha noivo, um rapaz chamado Alberto; iam casar em setembro de 1945, mas ela não chegou a casar. Em março de 1945, Isaura foi sequestrada. Foi na saída da escola, fim da tarde. Ela estava caminhando quando dois homens a agarraram e jogaram dentro de um carro. Foi tudo muito rápido. Testemunhas viram, gritaram, mas não deu tempo de fazer nada. O Senhor Armindo fez tudo que os sequestradores mandaram, mas eles não devolveram a filha dele.

Campinas inteira estava de cabeça para baixo. Nos jornais só se falava nisso: a moça do senhor Armindo, a professora sequestrada. A polícia procurava, o pai oferecia recompensa, todo mundo rezava para ela voltar com vida. Ela ficou em cativeiro 4 meses. 4 meses, meu amigo, 4 meses de sofrimento. A polícia finalmente descobriu onde ela estava. Era um sítio abandonado nos arredores da cidade. Quando chegaram lá, encontraram Isaura trancada num quartinho de depósito, sem janela, sem luz direito, suja, machucada, fraca demais.

Ela não resistiu, morreu a caminho do hospital. Na autópsia, descobriram o que aqueles monstros fizeram com ela. Eu não vou entrar em detalhes porque não é certo falar dessas coisas, mas foi muita agressão, muita violência. Isaura passou fome, passou sede, foi espancada várias vezes. Os médicos disseram que ela sofreu. Sofreu muito.

O velório foi aqui no cemitério mesmo, mas foi reservado. Só família próxima e alguns amigos. O caixão ficou fechado, não dava para abrir. Não era certo as pessoas verem ela daquele jeito. O Sr. Armindo estava destruído. Os coveiros antigos que estavam lá contaram para mim que ele não parava de chorar. Dona Conceição teve que ser segurada porque desmaiou duas vezes.

O noivo dela, o Alberto, ficou parado, olhando para o caixão, sem dizer nada. Foi o coveiro Benedito, já falecido, que me contou todos esses detalhes. Ele ajudou a fechar o túmulo da Isaura naquele dia 12 de agosto de 1945. Ele disse que nunca tinha visto tanta dor junta num lugar só. O túmulo ficou bonito. O Sr. Armindo mandou fazer em mármore branco com o nome dela gravado. Colocou uma foto dela numa plaquinha de porcelana.

Logo depois do enterro, começaram as visitas. O pai ia todo dia, a mãe também. Levavam flores, ficavam ali rezando, conversando baixinho. O Alberto ia de vez em quando, sempre sozinho, sempre quieto. Até hoje quem é mais velho aqui da cidade lembra dela. Foi um caso que marcou. Os dois sequestradores foram presos, julgados, condenados. Mas o senhor Armindo dizia que não importava a pena que eles tomassem, porque nada ia trazer a filha dele de volta.

Dona Conceição morreu dois anos depois. Dizem que foi de tristeza, coração partido mesmo. O senhor Armindo ainda viveu mais uns anos, mas nunca mais foi o mesmo. Vendeu a fábrica, fechou a casa grande onde moravam, ficou mais quieto, mais apagado. Quando eu comecei a trabalhar aqui em 1978, já fazia 33 anos que Isaura tinha sido enterrada.

O túmulo ainda era bem cuidado, porque a família pagava a manutenção direitinho, mas as visitas tinham diminuído muito. O Sr. Armindo já tinha morrido. Quase ninguém mais ia lá. Eu lembro a primeira vez que passei perto do túmulo dela. Naquele momento eu não sabia, mas aquele túmulo ia me marcar para sempre. Mas antes, eu quero que você entenda uma coisa. Ela foi uma pessoa de verdade, uma moça que tinha sonhos, que ia casar, que ensinava crianças a ler e escrever, uma filha amada, uma noiva esperada. O que fizeram com ela foi um crime horrível.

Eu também nunca esqueci. Nos primeiros anos depois que Isaura foi enterrada, o túmulo dela ficou quieto, normal, igual a todos os outros aqui do cemitério. O falecido Benedito, que era coveiro antigo e ajudou no enterro dela, me contou na época que de 1945 até 1948 não aconteceu nada de diferente. Ele cuidava da área onde o túmulo da Isaura ficava, cortava grama, limpava as lápides, fazia a manutenção.

Mas em 1949, 4 anos depois do enterro, as coisas começaram a mudar. O primeiro a perceber foi o próprio Benedito. Ele estava varrendo perto do túmulo da Isaura em uma tarde de semana. Céu meio nublado, vento fraco, nada de especial. De repente, ele sentiu um desconforto; não era dor, não era medo, era uma sensação ruim, pesada, como se o ar ali tivesse ficado mais grosso, mais difícil de respirar.

Benedito parou de varrer e olhou em volta. Nada, ninguém. Mas a sensação continuava. Ele tentou ignorar e seguir com o trabalho, mas a cada passo que dava perto daquele túmulo, o desconforto aumentava. Parecia que tinha um peso no peito dele, uma angústia sem motivo. Acabou indo embora dali mais cedo. Deixou o serviço pela metade e foi trabalhar em outra área do cemitério.

Nos dias seguintes, outros coveiros começaram a reclamar da mesma coisa. Passavam perto do túmulo da Isaura e sentiam aquele desconforto esquisito. Alguns falavam de tontura, outros de uma tristeza que vinha do nada. Um coveiro chamado José, que também já faleceu, disse que uma vez estava podando as plantas perto de lá e começou a sentir uma dor de cabeça terrível. Ele saiu dali e a dor passou; voltou no outro dia para terminar o serviço e a dor voltou também. José nunca mais quis trabalhar perto daquele túmulo.

Com o tempo, as coisas foram ficando piores. Benedito me contou que em 1951, 6 anos depois do enterro, ele começou a ouvir coisas. Estava trabalhando sozinho numa tarde quando escutou um grito. Um grito de mulher agudo, desesperado, vinha da direção do túmulo da Isaura. Ele largou a enxada e correu para ver o que era. Chegou lá e não tinha ninguém, nenhuma visita, nenhuma pessoa, só o túmulo quieto.

Benedito ficou parado ali, o coração batendo forte, tentando entender o que tinha ouvido, mas não ouviu mais nada. Silêncio total. Ele pensou que podia ter sido o vento ou algum pássaro ou a cabeça dele pregando peça, mas ele jurava que tinha sido um grito de mulher e não foi só ele que ouviu. Nos anos seguintes, outros funcionários do cemitério também relataram ter escutado gritos perto do túmulo da Isaura.

Sempre gritos de mulher. Teve coveiro que viu vultos, sombras passando rápido entre os túmulos, sempre perto daquele local, sempre sem explicação. O Benedito me disse que a sensação geral era de que tinha algo ali, algo que não era normal, algo que deixava todo mundo com medo. Mas o caso que mais marcou aconteceu em 1956 com a dona Lourdes. Ela estava de costas para o túmulo da Isaura, limpando uma lápide do lado, quando de repente sentiu uma dor forte no corpo, como se alguém tivesse apertado o braço dela com força.

Dona Lourdes soltou o pano e foi embora. Chegou na administração pálida e tremendo. O supervisor perguntou o que tinha acontecido. Ela disse que não sabia explicar, mas que tinha sentido uma dor terrível perto do túmulo da Isaura. Foi quando ela levantou a manga da blusa que todo mundo viu: tinha roxo no braço dela, hematomas como marcas de dedos. Mas ela estava sozinha.

Dona Lourdes foi ao médico, mas ele não conseguiu explicar. As marcas tinham formato de dedos apertando. Ela nunca mais quis trabalhar perto daquele túmulo e ninguém culpou ela. Depois disso, a administração tentou não mandar ninguém sozinho para aquela área. E então, em 1985, aconteceu comigo. Eu sempre fui um homem cético, achava que eram lendas para assustar novatos.

Naquele dia, eu estava a uns 20 metros de distância do túmulo da Isaura quando comecei a sentir que alguém estava me observando. Quando olhei na direção do túmulo, vi uma figura parada de pé, imóvel como uma estátua ao lado da lápide. Comecei a caminhar na direção dela e, quando estava a uns 10 metros, a figura se moveu de forma impossível, num piscar de olhos, e ficou virada para mim.

Eu não conseguia ver o rosto, mas sabia que ela me olhava. Meu corpo ficou gelado. Comecei a ouvir vozes, sussurros que vinham de todo lugar. Fechei os olhos com força repetindo: “Isso não é real. Isso não é real.” Quando abri os olhos, vi algo escorrendo da lápide, uma coisa escura e viscosa. A vista escureceu e eu não lembro de mais nada.

A próxima coisa que lembro é de estar na sala de ferramentas guardando o material, como se nada tivesse acontecido. Tinha passado quase uma hora. Como eu tinha chegado ali? Onde eu estive? Eu não sei. Fui direto para casa e não contei para ninguém. Tem coisas neste mundo que a gente não consegue explicar e o túmulo da Isaura é uma delas.

Em 1987, veio um diretor novo que era um homem de fé. Quando soube das histórias, ele decidiu agir e disse: “Vamos resolver isso. Vamos trazer paz para esse lugar.” Ele mandou colocar uma cerca baixa de ferro ao redor do túmulo para delimitar o espaço e trouxe uma senhora da religião dele para rezar ali.

Eu vi tudo. Ela ficou perto do túmulo por quase uma hora, rezou e fez gestos. Senti o peso no ar ficar mais leve. Quando terminou, ela veio até mim e disse: “Está feito.” Depois daquele dia, o túmulo da Isaura se acalmou. Os gritos pararam, os vultos sumiram e tudo acabou. Foi como se ela tivesse finalmente encontrado paz.

Hoje em dia, a gente cuida do túmulo com respeito e dignidade. A gente limpa e corta a grama, porque ali está enterrada uma moça que teve a vida tirada de forma violenta. Isaura Mendes merece ser lembrada com respeito.

A mensagem que quero deixar é que o que aconteceu com ela ainda acontece hoje. A história da Isaura marcou a mim e a todos aqui. Eu não sei se os fenômenos eram a alma dela pedindo paz ou a nossa forma de processar a tragédia. O que eu sei é que não podemos esquecer. Respeite sempre as histórias de cada túmulo. A Isaura de 1945 não teve quem a salvasse, mas talvez você possa salvar a Isaura de hoje. Sou Osvaldo Ferreira e enquanto eu estiver vivo, vou cuidar do túmulo dela com respeito.