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ESPOSA M*TA O MARIDO INFIEL EM MANAUS — O CELULAR REVELOU A TRAIÇÃO

O celular vibrou uma vez, apenas uma vez. Aquela vibração curta de mensagem que aparece quando a tela está bloqueada, acende por 2 segundos, mostra o nome do remetente e as primeiras palavras, e depois desaparece antes que você possa decidir se vai ler ou não. Soraia não estava procurando nada, ela estava passando roupa.

A tábua de passar estava no corredor, exatamente como sempre ficava quando ela passava roupa, encostada na parede entre a sala e o quarto, com o fio do ferro esticado até a tomada da sala. O celular de Gilberto estava na cômoda do quarto dele, onde ele sempre o deixava quando chegava do trabalho.

Soraia foi pegar um cabide no quarto, passando pelo celular. O telefone vibrou, a tela acendeu. Soraia não parou, ela passou pelo celular, pegou o cabide, voltou para a tábua de passar, mas nos 2 segundos em que a tela ficou acesa, ela viu o nome, que não era nome de homem, não era nome de colega de trabalho, não era o nome de ninguém que Gilberto tivesse mencionado em um jantar ou conversa de fim de semana; era um nome de mulher.

E as primeiras palavras da mensagem que apareceram na visualização antes que a tela escurecesse. Duas palavras. Soraia ficou parada na tábua de passar com o cabide na mão e o ferro elétrico ainda ligado, esquentando, fixado no tecido da camisa de Gilberto. Ela ficou ali tempo suficiente para o ferro queimar um triângulo perfeito no bolso da camisa.

Ela só percebeu quando sentiu o cheiro, pegou o ferro, olhou para o triângulo queimado na camisa azul de Gilberto, e aquelas duas palavras ainda estavam em sua cabeça.

Antes de continuarmos, há algo nesta história que só veio à tona durante o julgamento. Não foi um depoimento de testemunha, não foi uma evidência forense, foi uma pergunta que a própria Soraia fez ao juiz presidente durante o julgamento, algo que raramente acontece, que o protocolo quase não permite, mas aconteceu.

E a resposta a essa pergunta deixou todo o júri sem palavras. Você vai entender quando chegarmos lá.

Manaus tem um tipo de calor que as pessoas de fora nunca estão totalmente preparadas para enfrentar. Não é o calor seco do Nordeste nem o calor úmido do litoral. É o calor intenso e verde da floresta, com aquela umidade de 90% que faz a roupa grudar no corpo antes mesmo de você sair de casa.

É uma cidade que funciona com ar condicionado ou com resignação. E quem não tem ar condicionado aprende a resignação. O bairro de Flores está localizado na zona centro-sul de Manaus. É um dos bairros mais antigos da cidade. Tem aquela mistura de casas antigas e prédios novos, de árvores grandes que a prefeitura não cortou e asfalto que a prefeitura prometeu refazer anos atrás.

Um comércio de bairro próspero, igrejas de todos os tipos, aquela agitação constante da cidade que nunca para completamente, nem mesmo no meio da noite. Soraia Menezes tinha 38 anos. Natural de Parintins, uma cidade no interior do Amazonas famosa por seu festival folclórico, que divide a cidade em duas cores todo mês de junho.

Mas em Manaus já faziam 15 anos. Ela havia chegado aos 23 anos para estudar administração de empresas e ficou porque conheceu Gilberto no segundo ano do curso. Ela tinha 1,64 m de altura, com o corpo de uma mulher que teve dois filhos e que não se importava em esconder as curvas que a maternidade moldou, as quais ela carregava com a praticidade de quem não tinha tempo para se preocupar muito com o que o espelho dizia: cabelos pretos e cacheados que ela aprendeu a arrumar durante a semana e a soltar nos finais de semana.

Olhos muito escuros, quase pretos, com aquele olhar intenso que as pessoas notavam quando ela falava com elas. Ela trabalhava como gerente administrativa em uma empresa de logística fluvial, o tipo de empresa que Manaus tem muito, que atua no transporte de mercadorias pelos rios da Amazônia, e ganhava bem. Era ela quem pagava a maior parte das contas da casa desde que Gilberto havia mudado de emprego anos antes e seu salário havia diminuído.

Gilberto Menezes tinha 41 anos. Nascido em Manaus, no bairro Aleixo, cabelos escuros com muitos fios grisalhos, um corpo que havia sido mais sólido na juventude e que os anos de trabalho no escritório e a cerveja do fim de semana haviam amolecido, 1,78 m de altura, com aquele andar lento de quem não tem pressa, porque nunca estava atrasado o suficiente para aprender a ter.

Ele trabalhava como representante de vendas em uma empresa de equipamentos de informática, um emprego que soava melhor do que pagava, como ele mesmo às vezes dizia, com aquele humor de um homem que brinca com o próprio salário para não ter que falar a verdade sobre ele.

Eles tinham dois filhos, Anderson, de 14 anos, e Melissa, de 11, ambos em uma escola particular do bairro, cuja mensalidade Soraia pagava com seu salário sem reclamar, porque era isso que haviam combinado quando Gilberto mudou de emprego.

“Você paga a escola?”

“Eu cuido do mercado e pago a conta de luz. Quando as coisas melhorarem, a gente repensa.”

As coisas não haviam melhorado. Eles estavam casados há 13 anos. A tábua de passar estava no corredor. O ferro havia queimado um triângulo no bolso da camisa azul dele, e havia duas palavras na cabeça de Soraia que não saíam.

Gilberto chegou em casa naquela noite às 21h. Soraia estava na cozinha. O jantar estava na mesa: arroz, feijão, peixe frito, temperado com aquela mistura de cheiro-verde, típica de Manaus, e limão espremido por cima. Ela havia terminado de preparar depois de passar as roupas mecanicamente, cortou o peixe, temperou, fritou e serviu do jeito que sempre fazia, sem pensar.

Gilberto entrou, cumprimentou a todos, foi para o quarto trocar de roupa, voltou e sentou-se à mesa. Soraia ficou em pé perto da pia enquanto ele comia. Ela tinha o hábito de ficar em pé quando servia. Ela só se sentava depois que ele estivesse servido, um hábito que tinha desde os 13 anos. Gilberto comeu.

Ele comentou que o peixe estava bom. Perguntou sobre Anderson, que tinha um jogo de futebol na escola naquele fim de semana. Mencionou um cliente que havia ligado para reagendar uma reunião. Soraia respondeu com a voz de sempre, no tom de sempre; Gilberto não notou nada de diferente. Depois do jantar, ele foi para a sala assistir televisão.

Soraia lavou a louça, depois foi para o quarto, onde o celular de Gilberto estava na cômoda, no mesmo lugar de sempre. Soraia encarou o celular dele por alguns segundos. Tinha senha, sempre teve. Gilberto dizia que era uma medida de segurança, que guardava dados de clientes no celular e precisava de uma senha. Ela nunca havia questionado, nunca teve motivo para questionar, agora ela tinha, mas não ia abrir o celular dele, ela não precisava.

As duas palavras que ela tinha visto na visualização da mensagem eram suficientes. Saudade e amor. Duas palavras. O remetente era uma mulher, um nome que ela não reconhecia. Duas palavras que reorganizaram 13 anos de casamento em uma estrutura diferente.

Soraia ficou parada no quarto, depois apagou a luz, deitou-se, esperou Gilberto vir dormir quando ele desligou a televisão, entrou no quarto, deitou-se ao lado dela e disse:

“Boa noite.”

Com aquela voz de homem sem culpa. Soraia respondeu:

“Boa noite.”

Com aquela voz de uma mulher que esteve em outro lugar e que ficou acordada até as 3 da manhã, pensando.

Nos dias seguintes, Soraia não o confrontou. Não porque tivesse medo da resposta — ela tinha medo da resposta, mas não era só isso. Era porque ela precisava saber o tamanho do problema antes de agir. Ela simplesmente era assim.

Na empresa onde trabalhava, quando havia um problema, ela não reagia antes de entender toda a sua dimensão. Foi isso que a tornou uma boa gerente, e foi também o que tornou a descoberta muito mais devastadora do que seria se ela fosse do tipo que reage imediatamente. Porque, nos dias seguintes, ela estava juntando as peças dessa dimensão.

Não havia como acessar o celular de Gilberto, mas havia outras opções. A conta de telefone estava no nome dela, porque tudo estava no nome dela, já que Gilberto tinha uma restrição em seu CPF devido a uma dívida antiga. Ela acessou o portal da operadora e verificou o histórico de chamadas e mensagens do número de Gilberto nos últimos três meses.

O número aparecia com uma frequência que não era a de um cliente, não era uma frequência de trabalho, era uma frequência de intimidade. De manhã cedo, antes de Gilberto sair; no final da tarde, quando Soraia estava no trabalho; nas primeiras horas da madrugada, às vezes quando ela dormia ao lado dele. Soraia copiou o número, procurou-o no WhatsApp a partir do seu próprio celular, não do de Gilberto.

A foto de perfil era de uma mulher jovem. Soraia não saberia dizer a idade exata, mas sabia que era mais nova que ela. Cabelo liso, um sorriso brilhante, aquela foto de perfil de quem não esconde nada porque não sabe que há um motivo para esconder alguma coisa. O nome que apareceu no WhatsApp era Keila.

Soraia encarou a foto por um tempo, depois saiu do WhatsApp. Colocou o celular na mesa, foi até a janela do quarto e ficou olhando a rua lá embaixo, aquela rua no bairro de Flores, que ela conhecia há 15 anos, com o poste de luz que sempre piscava e que a prefeitura nunca vinha consertar, e a mangueira na calçada da frente, que dava mangas todos os anos, que ninguém colhia e que caíam sozinhas no asfalto.

Ela ficou olhando por muito tempo. Soraia foi trabalhar normalmente naquela semana.

Chegou cedo, conduziu as reuniões e resolveu os problemas logísticos que não paravam de surgir, porque a logística fluvial em Manaus tem problemas todos os dias. Ela almoçou ali mesmo na sua mesa, olhando para a tela do computador, comendo a marmita que comprava na barraca do corredor do prédio comercial.

Por fora, ela é uma gerente administrativa de 38 anos que tem tudo sob controle. Por dentro, algo mais estava sendo processado silenciosamente, com aquele olhar intenso que as pessoas notavam quando ela falava, e que naquela semana estava voltado para dentro. Anderson e Melissa não perceberam nada.

As crianças costumam ter aquela perspectiva típica da infância e da adolescência que vê os pais como mero cenário, uma presença necessária, mas desprovida dos detalhes que só se tornam aparentes quando se olha de perto. Gilberto não percebeu nada, continuou chegando às 21h, continuou jantando, continuou dormindo ao lado dela.

Na quinta-feira da semana seguinte, Soraia fez algo que não havia planejado. Ela ligou para o número de Keila do seu próprio celular. Ela não atendeu imediatamente. Duas chamadas perdidas. Atendeu na terceira tentativa.

“Alô?”

Uma voz jovem, desconfiada. Número desconhecido. É normal desconfiar. Soraia ficou em silêncio por um segundo.

“Você conhece o Gilberto Menezes?”

Ela perguntou. Voz calma. Quase profissional. Silêncio do outro lado.

“Quem é você?”

“Eu sou a esposa dele.”

O silêncio que se seguiu foi de outro tipo, mais longo, com uma textura diferente.

“Eu não sabia que ele era casado.”

A voz havia mudado. Mais baixa, mais grave. Soraia ficou parada.

“Sério?”

“Ele disse que estava separado e que estava esperando os papéis do divórcio.”

Soraia fechou os olhos por um segundo.

“Há quanto tempo vocês estão juntos?”

Pausa.

“Oito meses.”

“Oito meses? Está bem.”

Soraia disse.

“Obrigada.”

Ela desligou. Segurou o celular na mão por um tempo, depois foi ao banheiro, lavou o rosto, olhou-se no espelho por um momento, voltou para a sua mesa, terminou o relatório de logística em que estava trabalhando, enviou-o para o diretor e saiu no seu horário de sempre.

O que aconteceu entre aquela quinta-feira e o sábado seguinte foi registrado no processo, descrito como um período de deterioração emocional acelerada. Soraia dormiu pouco, comeu pouco e trabalhou. A empresa não podia parar. Ela não podia parar. Havia contratos, havia prazos, mas por baixo da superfície funcional, algo estava sendo pressionado e não tinha para onde ir.

Não foi apenas a traição, foi a maneira específica como a traição foi construída. A palavra “separado” que Gilberto havia dito a Keila, os papéis do divórcio que estavam chegando, o planejamento embutido naquela mentira — não era uma fraqueza momentânea, era uma narrativa construída para sustentar outra vida enquanto a primeira continuava.

Soraia pagava a escola dos filhos. Soraia pagava a maior parte das contas. Soraia vinha pagando nos últimos dois anos enquanto o salário de Gilberto melhorava. E Gilberto havia usado esses dois anos para construir a história de um homem separado para uma mulher mais jovem. Essa conta específica, não a conta da traição em si, mas a conta da traição dentro da estrutura que Soraia sustentou, era uma conta que simplesmente não batia de forma alguma que ela pudesse processar.

Na noite de sexta-feira, depois que as crianças foram dormir, Soraia e Gilberto ficaram na sala. Ele estava assistindo à televisão. Ela o observou por um tempo.

“Você quer me contar alguma coisa?”

Ela perguntou. Gilberto se virou.

“O quê? Não. Por quê?”

Soraia continuou olhando para ele.

“Por nada.”

Ela disse. Ela foi para o quarto.

Gilberto ficou na sala com a televisão. O sábado amanheceu com chuva. Aquela chuva forte e constante de Manaus, que começa em setembro para anunciar a estação das chuvas na Amazônia, com aquele som de chuva grossa nos telhados de zinco que as casas antigas do bairro de Flores ainda tinham. Anderson havia dormido na casa de um amigo.

O jogo de futebol na escola havia sido cancelado por causa da chuva, e ele tinha ficado por lá. Melissa estava no quarto com o tablet. Gilberto estava na sala, no sofá, com o celular na mão. Aquele era o seu sábado. Sempre foi. Soraia foi até a cozinha, fez café, ficou em pé perto do balcão com a xícara quente na mão, olhando a chuva pela janela da cozinha.

Ela ficou assim por um tempo. Então, ela colocou a xícara no balcão, foi até o quarto, abriu a gaveta da mesa de cabeceira ao seu lado e encontrou a tesoura de ponta fina que usava para artesanato, aquela que Anderson havia ganhado de aniversário em um kit de artes e que, de alguma forma, acabou parando na gaveta da mãe. Como as coisas das crianças acabam em espaços de adultos.

Ela ficou olhando para a tesoura, fechou a gaveta, voltou para a cozinha, ficou olhando para a chuva por mais um tempo, voltou para o quarto e abriu a gaveta. O que aconteceu na sala do apartamento em Flores naquele sábado chuvoso foi reconstituído pela Polícia Civil de Manaus, com base na perícia no local, no depoimento de Melissa (ouvida por uma psicóloga forense sob condições especiais devido à sua idade), e no depoimento da própria Soraia, que foi o mais completo e o mais difícil de ouvir de todos. Soraia entrou na sala. Gilberto estava no sofá com o celular dele.

Ela ficou parada na porta da sala. Gilberto se virou e viu a expressão dela. Pela primeira vez em dias, ele percebeu que havia algo ali.

“Soraia, Keila…”

Ela disse uma palavra. O nome Gilberto permaneceu inalterado.

“Ela me disse que você falou que estava separado.”

O silêncio em que Gilberto mergulhou durou alguns segundos, mas que Soraia, mais tarde, durante o interrogatório, descreveu como o silêncio mais longo que ela já ouvira na vida, o silêncio de quem não tem resposta porque não há resposta que funcione.

“Soraia, deixe-me explicar.”

“Oito meses.”

“Não é o que parece.”

“Você disse que estava separado.”

A voz de Soraia havia mudado. Já não tinha o tom profissional de uma gerente administrativa. Estava com um tom mais grave e mais silencioso.

“Você planejou isso? Você construiu uma história.”

Gilberto levantou-se do sofá.

“Fique calma. Nós podemos conversar.”

O que aconteceu nos segundos seguintes? Se Gilberto se aproximou, se Soraia avançou, qual foi o movimento exato que precipitou o que veio a seguir, não ficou totalmente esclarecido, porque os relatos divergiam nos detalhes.

O que a perícia confirmou foi o resultado. Gilberto foi atingido uma, duas vezes. A perícia determinaria o número exato depois. Ele caiu no sofá, escorregou para o chão e ficou ali no chão da sala. Soraia permaneceu parada, olhou para as próprias mãos, olhou para o marido no chão e, então, ouviu a porta do quarto de Melissa se abrir.

“Mãe, que barulho foi esse?”

Melissa apareceu na porta do quarto, viu o pai no chão, viu a mãe de pé ali, viu o que havia entre os dois. O grito de Melissa foi o que a vizinha do apartamento ao lado ouviu, levando-a a ligar para o 190. A ambulância chegou em 9 minutos. Gilberto Menezes foi encontrado no chão da sala com ferimentos causados por um instrumento perfurocortante.

Ele ainda tinha pulso, fraco e irregular, mas tinha. Ele foi transportado para o Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, um centro de trauma em Manaus, e passou por uma cirurgia de emergência naquela tarde. Gilberto não resistiu. Ele morreu às 19h53 daquela noite de sábado. Ele tinha 41 anos.

Soraia não havia fugido. Quando a Polícia Militar chegou, 30 segundos antes da ambulância, eles encontraram Soraia sentada no chão da sala do apartamento, a 2 metros de distância de Gilberto. Melissa estava no corredor com a vizinha, que tinha acabado de subir quando ouviu o grito. Soraia estava com as mãos no colo, os olhos abertos, aquela expressão que os policiais que chegam a cenas de crime aprendem a reconhecer.

Não é choque, não é culpa, não é desespero. É um estado além de todos esses, onde o sistema emocional simplesmente desligou porque não tem mais a capacidade de processar nada. Quando a policial se aproximou e disse o nome dela, Soraia virou o rosto.

“Melissa.”

Ela disse. Apenas isso.

“Sua filha está bem.”

A policial respondeu, ela está com a vizinha no corredor. Soraia fechou os olhos, deixou-se algemar e não disse mais nada até chegarem à delegacia.

A agitação no bairro de Flores começou antes de a chuva parar. A notícia se espalhou pelos grupos de WhatsApp da vizinhança com aquela velocidade específica e típica de uma tarde de sábado, quando as pessoas estão em casa com os celulares na mão. Anderson descobriu na casa do amigo; ele viu nos Stories do Instagram antes de receber a ligação. Ele saiu correndo. Chegou ao prédio enquanto a ambulância ainda estava no estacionamento.

A polícia não o deixou subir. Ele ficou na calçada, sob a chuva que havia diminuído, mas não parado. Melissa ficou na casa da vizinha. A vizinha, Dona Conceição, de 59 anos, uma professora aposentada que conheceu a família quando eles se mudaram para o prédio 7 anos antes, segurou a menina no colo no sofá durante horas.

Melissa não chorou. Ela manteve os olhos abertos, encarando a televisão desligada. Esse tipo de silêncio em uma criança de 11 anos é o que os psicólogos chamam de resposta dissociativa aguda, o sistema nervoso se desligando do que não consegue processar. A Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher e Vulneráveis em Manaus recebe casos de violência doméstica de acordo com o protocolo.

Independentemente do gênero do perpetrador, Soraia foi presa em flagrante por homicídio doloso. A delegada titular era a Dra. Fernanda Maia, 41 anos, com 16 anos de serviço na Polícia Civil do Amazonas. Inicialmente, Soraia pediu para falar sem a presença de um advogado. A delegada a informou sobre seus direitos. Soraia disse que entendia.

Ela disse que queria falar antes de qualquer outra coisa, porque havia algo que precisava ser dito e que não podia esperar.

“Meus filhos…”

Ela disse.

“Eu preciso saber onde eles vão ficar.”

A policial disse que as crianças estavam sendo cuidadas. Anderson com a vizinha. Melissa também.

“Eu tenho uma irmã em Parintins.”

Soraia disse.

“Você pode entrar em contato com ela? As crianças precisam ficar com ela.”

A delegada anotou o nome e as informações de contato. Soraia fechou os olhos por um segundo. Então, ela contou sua história. Ela a relatou com a precisão de uma gerente administrativa que apresenta um relatório cronologicamente: a data, os dados, a vibração do celular, a tela que se acendeu, as duas palavras, a busca na conta da operadora, o número, a foto do perfil, a ligação para Keila, a resposta de Keila.

Ele disse que estava separado. A delegada ouviu tudo sem interromper. Quando Soraia terminou, fez-se silêncio. A policial olhou para o bloco de anotações.

“O que aconteceu na sala foi planejado?”

Soraia permaneceu em silêncio por um tempo.

“Eu abri a gaveta duas vezes.”

Ela disse.

“Eu fechei na primeira, mas não fechei na segunda.”

“Qual foi a diferença entre as duas vezes?”

Longa pausa.

“Na primeira, eu ainda estava tentando encontrar outra saída. Na segunda, percebi que não havia nenhuma.”

A delegada anotou essa resposta. Essa foi a resposta que o Ministério Público mais explorou e que a defesa mais contestou nos meses que se seguiram.

Soraia foi transferida para o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, conhecido como Compaj, em Manaus, onde permaneceria durante o julgamento. A irmã de Soraia, Raquel, de 35 anos, professora em Parintins, chegou a Manaus dois dias depois, buscou Anderson e Melissa e voltou para Parintins. Os dois foram morar em Parintins com a tia, na casa onde Soraia havia crescido, à beira do rio, com aquela vista do Amazonas, que Soraia havia deixado aos 23 anos e que seus filhos agora passariam a conhecer de ponta a ponta, em vez de apenas visitarem nas férias.

Anderson foi matriculado em uma escola em Parintins. Ele permaneceu quieto por muito tempo, não com a quietude do adolescente introspectivo que sempre fora, mas com a quietude de quem perdeu o chão e ainda não descobriu onde colocar os pés.

Melissa continuou sob acompanhamento psicológico. A escola de Parintins tinha uma parceria com uma clínica de saúde mental. Foi um processo lento. Ela começou a falar depois de algumas semanas. Ela falava da mãe, não do que havia acontecido, mas de sua mãe, de como ela fazia peixe frito, de como prendia o cabelo durante a semana e o soltava no final de semana — as pequenas coisas pelas quais as pessoas se lembram daqueles que amam.

O processo criminal foi iniciado pelo Ministério Público do Estado do Amazonas. Soraia foi indiciada por homicídio doloso qualificado, com discussão sobre a qualificadora de motivo torpe. A defesa, liderada pela Dra. Mônica Pedrosa, advogada criminalista de Manaus com 18 anos de experiência em tribunal do júri, sustentou a tese de homicídio privilegiado.

O tema central apresentado foi a deterioração emocional documentada durante o período de descoberta. Oito dias se passaram entre a vibração do celular e o sábado chuvoso. A defesa também apresentou o histórico de Soraia como a principal provedora da família, um elemento que eles argumentaram ser relevante para entender o peso específico da traição no contexto da vida daquela mulher.

O Ministério Público contra-argumentou:

“Houve premeditação.”

A gaveta sendo aberta e fechada antes de ser aberta novamente era uma questão de deliberação. A conversa com Gilberto na sala, que havia começado com um confronto verbal antes do que se seguiu, mostrou que havia uma capacidade de comunicação que foi substituída pela violência.

A avaliação psiquiátrica determinou que Soraia não apresentava nenhum transtorno mental que excluísse sua culpabilidade. O laudo relatou que ela sofreu um quadro de estresse agudo severo no período que antecedeu o crime e uma depressão significativa depois. A pronúncia foi entregue meses após o crime.

Durante a investigação, Keila foi ouvida como testemunha. Ela entrou na sala de audiência com a expressão de quem está em um lugar em que nunca imaginou estar. O relacionamento foi confirmado. Ela confirmou que Gilberto havia dito que estava separado. Ela disse que quando Soraia ligou, ela imediatamente cortou o contato com Gilberto.

“Quando Soraia ligou, você ficou com raiva dela?”

O investigador perguntou. Keila permaneceu em silêncio por um momento.

“Não.”

Ela disse:

“Eu fiquei com raiva dele.”

Pausa.

“E eu senti pena dela.”

O julgamento de Soraia Menezes pelo Tribunal do Júri ocorreu em uma terça-feira de novembro do ano seguinte, no Fórum Ministro Henoch Reis, no centro de Manaus. Sete jurados, cinco mulheres, dois homens, 14 horas de julgamento. O fórum tinha aquele calor típico de prédio público de Manaus, que o ar-condicionado resolve em parte e a umidade completa o resto, deixando todos levemente desconfortáveis ao longo do dia, o que não ajuda em julgamentos que duram 14 horas.

Anderson foi ao julgamento. Ele tinha 15 anos. Ele se sentou na última fileira com a tia Raquel ao seu lado. Ficou o dia inteiro sem sair, nem mesmo durante o intervalo para o almoço. Sua tia trouxe um lanche. Ele não comeu. Melissa não foi. Ela tinha 12 anos. A tia Raquel e a psicóloga que a acompanhava decidiram juntas que não seria apropriado.

Soraia entrou na sala com aquela postura que desenvolvera durante os meses do processo. Não era rigidez, era contenção. O tipo de postura de alguém que aprendeu a existir dentro de uma situação que não escolheu e que não vai acabar tão cedo. Foi no meio do julgamento, durante o depoimento da própria Soraia — ela havia solicitado o direito de falar diretamente aos jurados, um direito garantido pelo Código de Processo Penal brasileiro — que ocorreu algo que raramente acontece.

Soraia falou por alguns minutos sobre seus filhos, sobre os 13 anos de casamento, sobre os dois anos em que sustentou a casa enquanto o salário de Gilberto melhorava. E então ela parou, olhou para o juiz presidente e fez uma pergunta. Não foi uma pergunta para o promotor, não foi para a advogada, foi para o juiz — aquela pergunta direta que o protocolo quase nunca permite, mas que ela fez antes que alguém pudesse intervir.

“Meus filhos vão poder me visitar?”

O silêncio que se seguiu a essa pergunta — sete jurados, promotor, advogada, assistentes, público, jornalistas cobrindo o caso — foi o silêncio mais absoluto que aquele tribunal havia produzido em muito tempo. O juiz presidente olhou para ela por um momento e disse, com a voz que os juízes usam quando respondem a coisas que fogem ao protocolo:

“Isso vai depender do que este júri decidir hoje e do que acontecerá depois.”

Soraia assentiu. Ela voltou para o seu lugar. Os jurados olharam para ela por um momento antes do julgamento prosseguir. Anderson, na última fileira, tinha ouvido a pergunta da mãe, tinha ouvido a resposta do juiz. Ele olhou fixamente para a nuca da mãe por muito tempo. Os jurados se retiraram às 22h20. Retornaram à 1h42 da manhã.

O tribunal, à 1h42 da manhã em Manaus, tinha aquele calor da madrugada amazônica que não alivia nem com o ar-condicionado ligado — o tipo de calor que gruda nas paredes, no teto, no ar. Culpada por homicídio doloso; a qualificadora de motivo torpe foi rejeitada por cinco dos sete jurados.

A tese de homicídio privilegiado por violenta emoção foi reconhecida por quatro dos sete jurados, maioria simples. Com o privilégio reconhecido, a pena foi reduzida. O juiz presidente fixou a pena em 4 anos e 6 meses em regime semiaberto, com possibilidade de progressão para o regime aberto, dado o histórico da ré como ré primária e o contexto familiar.

Soraia ouviu com os olhos fechados. Quando o juiz terminou, ela os abriu. Ela procurou por Anderson. Na última fileira. Anderson estava em pé. Ele havia se levantado quando o juiz começou a ler a sentença. Os dois se olharam por um segundo que durou mais do que um segundo. Então Anderson assentiu, de leve, quase imperceptivelmente, mas era tudo o que havia e foi o suficiente.

Soraia Menezes cumpriu sua pena em regime semiaberto. Saída monitorada durante o dia, retorno à unidade à noite por um ano e quatro meses antes de progredir para o regime aberto com monitoramento eletrônico. No regime aberto, ela voltou a trabalhar. Não na empresa de logística fluvial.

Não havia como ela voltar para o mesmo lugar. Não depois de tudo. Ela conseguiu um emprego em uma empresa menor, um cargo administrativo, um salário menor. Ela pagou, cumpriu, progrediu. A tornozeleira eletrônica permaneceu por 18 meses. Quando foi retirada, Soraia ficou no corredor do centro de monitoramento por um momento, depois que o técnico terminou o procedimento.

Ela olhou para o próprio tornozelo, ficou encarando por um tempo, e então foi embora. Anderson e Melissa voltaram para Manaus quando Soraia deixou o regime fechado. Eles foram morar com ela em um apartamento menor do que aquele do bairro de Flores. Um apartamento de um quarto no Aleixo, bairro onde Gilberto nasceu, uma coincidência de disponibilidade de aluguel que Soraia notou depois de assinar o contrato. Ela não mudou, ficou lá mesmo.

Às vezes, as coisas coincidem de maneiras que não têm explicação que valha a pena procurar. Anderson entrou na Universidade Federal no ano seguinte. O mesmo sonho que havia sido interrompido quando tudo aconteceu foi retomado com um ano de atraso e com um peso diferente. Ele está estudando engenharia civil. Ele está indo bem.

Melissa agora tem 14 anos. Ela continua na terapia psicológica por escolha, não por obrigação. Ela diz que ajuda. A psicóloga diz que ela tem uma maturidade emocional que vem de um lugar difícil, mas que é real.

“Ela vai carregar isso.”

A psicóloga disse uma vez a Soraia em uma conversa de acompanhamento.

“Mas ela vai carregar de pé.”

Soraia ficou em silêncio por um momento.

“Como ela…”

Ela disse. A psicóloga olhou para ela.

“Como você.”

Confirmou a psicóloga.

A camisa azul de Gilberto, aquela que havia sido deixada na tábua de passar com o triângulo queimado no bolso, estava dobrada no armário quando a equipe da perícia vistoriou o apartamento. Foi catalogada como um item irrelevante para o caso e devolvida à família.

A família de Gilberto, sua mãe, irmão e irmã, buscaram os pertences dele no apartamento semanas após o crime. A camisa azul com o triângulo queimado foi junto com o resto. Ninguém notou o triângulo, ou, se notaram, não perguntaram. Às vezes, os detalhes que explicam tudo estão dobrados em uma pilha de roupas que ninguém examina de perto.

Um triângulo de ferro quente numa manhã de quinta-feira, onde uma mulher ficou parada tempo suficiente para o ferro queimar o tecido, porque havia duas palavras na cabeça dela que não a deixavam se mover. Rachaduras que não se fecham sozinhas, que nunca se fecham sozinhas.