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EX-COVEIRO REVELA O MOTIVO ASSUSTADOR QUE O FEZ LARGAR O EMPREGO! | História de Terror e Relato Real

Faz mais de 30 anos que abandonei meu trabalho como coveiro. E muita gente sempre me perguntou por que eu larguei. Nunca contei a verdade. Mas em 1990, no cemitério São Pedro em Uberlândia, recebi ordem para mexer num túmulo antigo que tinha cedido. Quando abri o caixão, o que eu vi me marcou para sempre e foi isso que me fez abandonar de vez o cemitério.

Até hoje, quando fecho os olhos, eu ainda escuto aquela voz. Meu nome é José Carlos. Hoje tenho 75 anos, mas o que eu vou contar aconteceu quando eu tinha 40, lá em 1990. Já se passaram mais de três décadas, mas até hoje eu não consigo esquecer. Muitas noites ainda acordo suado, lembrando de cada detalhe. Naquela época eu trabalhava como coveiro no cemitério São Pedro, aqui mesmo em Uberlândia, Minas Gerais.

Entrei porque era um serviço fixo com carteira assinada e eu precisava sustentar minha família. Nunca tive medo de morto. Sempre pensei: “Morto não faz mal a ninguém. O perigo está é nos vivos”. E durante muito tempo, repeti essa frase para mim mesmo, até o dia em que eu percebi que não era bem assim. A rotina de um coveiro não tem muito mistério.

Chegava cedo, ajudava nos enterros, cuidava da limpeza, aparava o mato, reforçava as sepulturas que começavam a ceder. Era um serviço pesado, mas eu estava acostumado. O que mais pesava não era a pá, nem a enxada, era o silêncio. O silêncio do cemitério é diferente de qualquer outro. É um silêncio que parece que te escuta de volta, como se o ar ali fosse mais denso, carregado.

O São Pedro é um cemitério antigo, tem fileiras de ciprestes altos que balançam com o vento e fazem um barulho parecido com sussurros. Às vezes, quando o sol ia se pondo e a sombra das árvores cobria as sepulturas, eu sentia como se tivesse alguém andando atrás de mim. Virava para olhar e não via nada. Isso começou a acontecer com frequência, sempre no mesmo horário, perto das 6 da tarde, quando eu ia fechar o portão.

Meus colegas diziam que era bobagem. Alguns até zombavam: “Ô Zé, isso é coisa da sua cabeça. Fica o dia inteiro no meio dos mortos e começa a imaginar história”. Eu ria para não parecer assustado, mas por dentro sabia que não era a imaginação. Os passos que eu ouvia tinham peso. Não eram folhas secas voando, não eram gatos.

Era como se um homem estivesse caminhando bem perto de mim. No começo, eu tentei ignorar. Afinal, quem trabalha em cemitério aprende rápido a não dar atenção a tudo que vê ou ouve. Mas a cada dia a sensação ficava mais forte. Eu estava varrendo uma quadra e de repente um vulto atravessava de um túmulo para outro.

Quando eu ia conferir, não tinha nada. Outra vez jurava ver alguém parado ao longe, mas quando piscava os olhos, a figura desaparecia. A primeira vez que fiquei realmente arrepiado foi numa segunda-feira, fim de tarde. Eu fazia minha ronda antes de fechar o portão. O sol já estava baixo e o vento sobrava forte.

Foi então que ouvi passos, passos firmes, ecoando entre os túmulos. Eu parei, escutei melhor. Os passos vinham de perto. Chamei: “Quem tá aí?”. Nada. Só o vento. Continuei andando mais rápido até que ouvi outra coisa. Uma voz baixa, grave, como se alguém murmurasse. Meu corpo inteiro gelou. Olhei em volta e não vi ninguém. A quadra estava vazia.

Eu estava sozinho. Naquele dia, voltei para casa com o coração pesado. Eu sabia que não era coisa da minha cabeça. Depois daquela noite, nada mais parecia igual. Eu ainda fazia meu trabalho como sempre, mas já não andava pelo cemitério com a mesma tranquilidade. Antes eu encarava aquilo como um emprego qualquer, abrir covas, manter os túmulos limpos, fechar o portão às 6 da tarde.

Agora, cada sombra me fazia olhar duas vezes. Cada barulho me fazia parar para escutar. O mais estranho era que os passos e as vozes vinham sempre no mesmo horário quando eu me preparava para encerrar o dia. Era como se algo esperasse justamente aquele momento de solidão quando os visitantes já tinham ido embora.

Eu tentava disfarçar, assobiava para espantar o medo, mas no fundo sabia que estava sendo observado. Houve um dia em que ouvi nitidamente o som de botas arrastando pela terra. O barulho vinha atrás de mim. Eu caminhei rápido até a alameda central, virei para trás e não havia ninguém. Mas as pegadas ficaram marcadas no chão, frescas, profundas, como se alguém tivesse acabado de passar.

Aquele detalhe foi o que mais me perturbou. Se fosse só barulho, eu poderia dizer que era o vento, mas as marcas estavam lá diante dos meus olhos. Eu pensei em contar, mas desisti. Quem acreditaria? Iriam rir, dizer que eu estava cansado ou inventando coisa. Então, guardei para mim. Só que a cada dia a sensação ficava mais forte.

Lembro de uma vez em que estava varrendo perto de um túmulo antigo, com a vassoura raspando no chão de terra batida. De repente, ouvi uma voz grave, baixa atrás de mim, quase no meu ouvido: “José”. O som foi tão real que eu soltei a vassoura e virei. Não tinha ninguém, só as fileiras de túmulos, o vento frio e o silêncio.

Eu nunca tinha sentido meu corpo arrepiar daquele jeito. A partir desse dia, fazia meu serviço mais rápido e sempre procurava ficar onde a luz do entardecer ainda alcançava. Mas não adiantava muito. O que quer que fosse, parecia me acompanhar. Foi nesse ponto que percebi que minha vida tinha mudado. Até então, eu achava que estava apenas imaginando coisas.

Mas quando ouvi meu nome sendo chamado daquele jeito, soube que não era mais coincidência, nem fruto do silêncio. Era real. Os dias foram passando, mas a sensação no cemitério só aumentava. Todo final de tarde, pouco antes das 6, o ambiente parecia mudar. Eu já sabia que em algum momento ouviria aqueles passos. No começo, eu tentava me enganar.

Pensava: “Deve ser gato, cachorro, algum bicho que entrou por baixo do portão.” Mas era diferente. Os passos eram pesados, firmes, arrastados às vezes como de um homem caminhando sobre a terra batida. E não eram poucos. Dava para ouvir bem o compasso. Um, dois, três, e parava. Depois começava de novo em outro ponto.

Era como se alguém estivesse me cercando. Certa tarde, enquanto eu varria o corredor central, ouvi claramente esse som vindo da quadra ao lado, mesmo ainda tendo um resto de luz, e fui olhar: nada. Só túmulos antigos, flores murchas e aquele silêncio sufocante. Mas quando me abaixei para olhar o chão, vi as pegadas, marcas de botas fundas na terra, como se alguém tivesse passado há poucos minutos.

O portão estava trancado, ninguém poderia ter entrado. A partir desse dia, comecei a prestar atenção também nos túmulos. Várias vezes encontrei velas acesas em sepulturas esquecidas. Velas novas que não tinham como estar ali porque ninguém havia entrado para acender. Era como se alguém cuidasse daqueles mortos depois do horário escondido de todos.

As vozes também ficaram mais frequentes. Não eram gritos nem gemidos. Eram murmúrios graves, quase como um sussurro rouco. Às vezes eu não entendia as palavras, mas a entonação era de alguém chamando. Outras vezes, eu escutava claramente o meu nome: “José”. Eu parava, virava para todos os lados e não via nada.

Só as lápides enfileiradas e imóveis, mas com aquela sensação de que me observavam. O que me deixava ainda mais perturbado era que isso sempre acontecia perto do portão no momento de fechar. Era como se a coisa esperasse o dia inteiro para aparecer justamente quando eu estava sozinho, prestes a sair.

Eu comecei a me atrasar de propósito, a enrolar alguns minutos dentro do escritório para não estar lá fora nesse horário, mas não adiantava. Quando eu finalmente ia fechar, sempre acontecia de novo. Uma noite em especial ficou marcada na minha memória. Eu caminhava pelo corredor central, conferindo se estava tudo em ordem. Foi quando olhei para o fundo da alameda e vi claramente um homem.

Estava parado, imóvel, de costas para mim. Era alto, magro, parecia usar um casaco escuro. No primeiro momento, achei que fosse alguém que tinha se perdido lá dentro. Gritei: “Ô amigo, já tá fechado, precisa sair por aqui”. Ele não se mexeu. Fiquei alguns segundos parado, esperando uma reação, até que comecei a andar em direção a ele.

Mas no meio do caminho, bastou eu piscar e não havia mais ninguém. O espaço estava vazio, como se nunca tivesse tido ninguém lá. Voltei para casa naquela noite com o corpo inteiro arrepiado. Depois que vi o homem parado na alameda e sumindo diante dos meus olhos, algo mudou em mim. Não era mais apenas medo. Eu não conseguia trabalhar tranquilo.

Olhava para trás a cada minuto e meu coração disparava com qualquer som mais forte. As manifestações começaram a ganhar um padrão. Primeiro vinham os passos, depois os sussurros e por último a sensação física de que alguém estava muito próximo, quase encostando em mim. Era como se o ar ficasse mais denso, pesado, e eu não conseguisse respirar direito.

Certa vez, estava recolhendo as ferramentas na casinha do depósito. Quando senti essa presença, eu travei sem coragem de virar. O ar ficou frio, gelado, como se eu tivesse aberto a porta de um quarto fechado há anos. Foi quando ouvi claramente uma respiração forte, grossa, bem atrás da minha orelha. Fechei os olhos e murmurei uma oração.

Quando criei coragem de me virar, não havia ninguém, só as pás e enxadas encostadas na parede. Esses episódios começaram a afetar meu sono. Eu chegava em casa cansado, mas não conseguia dormir direito. Sonhava com o cemitério, com aquele homem parado ao longe. Sonhava com as pegadas fundas na terra. Sempre acordava suado, como se tivesse corrido quilômetros.

Minha esposa notava meu cansaço e perguntava se estava tudo bem. Eu dizia que sim, que era só o peso do trabalho, mas por dentro sabia que não tinha nada de normal. Um dos momentos mais marcantes aconteceu numa sexta-feira. Eu caminhava pelas quadras mais antigas, onde os túmulos são simples e já quase se misturam com a terra.

O vento sobrava forte e eu sentia que algo ia acontecer. Foi então que ouvi meu nome, mas não um sussurro. Foi em voz alta, grave, rouca: “José Carlos”. Meu corpo inteiro gelou. Não havia ninguém ali. Eu tinha certeza. Mas a voz vinha de perto, como se tivesse sido gritada a poucos metros de mim.

Olhei em todas as direções, conferi atrás das lápides e não encontrei nada, só o silêncio, só eu. E no fundo eu sabia. O que quer que fosse, ainda não tinha mostrado sua verdadeira face. Depois de tantas noites estranhas, achei que já tinha visto de tudo dentro do cemitério, mas me enganei. O pior ainda estava por vir. Era começo de semana quando o administrador me chamou no escritório.

Ele disse que uma sepultura antiga lá no fundo do cemitério tinha começado a ceder por causa da chuva. Pediu que eu fosse verificar para reforçar a estrutura e evitar que o túmulo desabasse de vez. Eu não podia recusar. Fazia parte do trabalho, mas confesso que só de ouvir a localização, senti um aperto no peito. Era justamente na quadra mais velha, a parte mais isolada, onde eu já tinha sentido mais vezes a presença daquele homem.

Peguei minhas ferramentas, pá, enxada, alavanca e uma lanterna, porque a claridade já começava a cair. Fui caminhando devagar, tentando controlar a ansiedade. O vento estava frio e cada passo parecia ecoar mais forte do que o normal. Cheguei ao túmulo indicado, uma sepultura de alvenaria simples, sem reboco, com rachaduras nas laterais.

O nome da lápide já estava quase apagado pelo tempo. Comecei o serviço como sempre fazia, mas algo estava diferente. A terra parecia mais dura, pesada, como se estivesse protegendo algo. Cavei por um tempo até bater em madeira. A tampa do caixão apareceu escura, carcomida pelo tempo, mas ainda inteira o suficiente para ser reconhecida.

Naquele momento senti como se alguém estivesse me observando. Respirei fundo, segurei firme na alavanca e forcei a tampa. A madeira rangeu alto, um som seco que ecoou pelo corredor de túmulos. Quando consegui abrir, a visão que tive me deixou sem chão. O caixão estava vazio. Nenhum corpo, nenhum osso, nenhum pedaço de pano.

Só terra solta, úmida, misturada com poeira. No canto da madeira vi marcas. Não eram de cupim, nem de apodrecimento. Eram arranhões, profundos, longos, como se unhas ou dedos tivessem rasgado a tampa por dentro. Na hora, meu corpo inteiro travou. A pá caiu da minha mão e eu fiquei sem reação. Minha mente tentava buscar uma explicação lógica, mas não havia.

Eu sabia que quando alguém é enterrado, cedo ou tarde restam ossos. Ali não havia nada, nem sinal de corpo. Fechei a tampa de qualquer jeito, cobri novamente com a terra, mas a sensação de estar sendo observado só aumentava. O vento soprou forte e, por um instante, jurei ver uma sombra se mover entre as árvores. A respiração ficou curta, o suor escorria pela minha testa, mesmo com o frio.

Peguei as ferramentas e saí quase correndo de lá, sem olhar para trás. Naquela noite em casa foi impossível dormir. Toda vez que fechava os olhos, eu via o caixão vazio com aquelas marcas arranhadas. Sentia como se aquilo tivesse me seguido para fora do cemitério e eu não estava enganado. Em casa, acordei com um barulho na janela.

Era como se alguém batesse devagar, ritmado, com a palma da mão e depois silêncio. Três batidas de novo. Quando criei coragem para olhar, não vi nada. E em todos os sonhos, uma voz rouca repetia a mesma frase: “Você mexeu onde não devia”. Eu acordava suado, com o coração disparado e sentia o quarto pesado, como se não estivesse sozinho ali dentro.

Depois de abrir aquele caixão vazio, eu nunca mais consegui ter paz. A sensação de que tinha feito algo errado me acompanhava a cada minuto. Era como se eu tivesse despertado alguma coisa que estava adormecida naquele lugar. No cemitério, os acontecimentos ficaram ainda mais intensos. Antes eram passos, vultos, vozes.

Agora era mais do que isso. Eu sentia a presença perto de mim me rondando. Em casa não era diferente. Comecei a perceber pequenos sinais de que aquilo tinha me seguido. As portas batiam sozinhas, as luzes oscilavam. À noite, o quarto ficava gelado, como se eu tivesse aberto a janela no inverno, mas ela estava trancada.

E sempre, em algum momento da madrugada, eu acordava com a mesma voz rouca, dizendo: “Você mexeu onde não devia.” Uma noite tive certeza de que não estava sonhando. Acordei de repente, sem motivo aparente, e vi uma silhueta parada na porta do meu quarto. Era um homem alto, magro, completamente imóvel, só me observando.

Os olhos eram sombras, não havia expressão no rosto, mas a presença era sufocante. Tentei gritar, mas nada saiu da minha boca. Fechei os olhos por instinto e quando os abri de novo, ele havia desaparecido. No dia seguinte, voltei ao cemitério para trabalhar, mas o peso que eu sentia no corpo era insuportável. Cada quadra parecia mais escura, cada túmulo parecia me vigiar.

Passei perto do jazigo onde havia encontrado o caixão vazio, e o vento soprou forte, trazendo um cheiro estranho, adocicado, misturado com podridão. Foi nesse momento que ouvi de novo, mas dessa vez mais claro, como se alguém tivesse falado bem perto da minha orelha: “Agora você já sabe.” Meus joelhos tremeram e eu quase deixei a pá cair no chão.

Aquilo não era mais só assombração. O que mais me apavorava era a certeza de que não havia volta. Eu poderia fechar túmulos, rezar, evitar passar por ali, mas não adiantava. O erro já tinha sido cometido. O vazio daquele caixão, os arranhões na tampa e a voz me seguindo dia e noite. Naquele ponto, eu já não conseguia mais dormir direito, nem trabalhar com a mesma firmeza.

Eu estava exausto, mas também apavorado. Eu já não era mais o mesmo depois de ter aberto aquele caixão vazio. As noites se tornaram um tormento, os dias pesados demais. Meu corpo estava exausto e minha mente não descansava. Eu ia para o cemitério porque era meu trabalho, mas dentro de mim já sabia que não ia aguentar muito tempo.

Cada vez que entrava pelos portões do São Pedro, sentia como se estivesse atravessando para outro mundo. O ar parecia diferente, carregado, como se eu respirasse chumbo. Eu fazia as tarefas de costume, varrer, limpar, verificar os túmulos, mas sempre com os olhos alertas, esperando que aquele homem aparecesse a qualquer momento. E ele apareceu.

Numa quinta-feira, fim da tarde, eu caminhava pelo corredor central, pronto para encerrar o dia. Foi quando senti aquele arrepio na espinha, o mesmo que sempre vinha antes de alguma coisa. Levantei os olhos e no fundo da alameda, lá estava ele, o homem alto, magro, parado no mesmo ponto onde eu já tinha visto antes, só que dessa vez não sumiu. Ficou ali imóvel, me encarando.

O sol estava quase indo embora e a sombra cobria metade do rosto dele, deixando a outra metade ainda mais escura. “Quem é você?”, gritei, mas a minha voz saiu trêmula. Nenhuma resposta. Ele só permaneceu lá como se esperasse que eu me aproximasse. O medo me travava, mas minhas pernas se moveram sozinhas. Dei alguns passos, firmei a respiração e quando cheguei perto o suficiente, ouvi.

Não foi um sussurro, não foi um murmúrio, foi uma voz grave, arrastada, que ecoou entre os túmulos: “Agora é sua vez”. O mundo parou. Meu coração quase saiu pela boca. Minhas mãos gelaram. Dei dois passos para trás, mas ele continuou parado. Pisquei e num piscar de olhos não havia mais ninguém. O corredor estava vazio.

Corri até o portão, fechei como pude e fui embora sem olhar para trás. Mas aquilo não ficou no cemitério. Em casa, as coisas só pioraram. Eu ouvia passos no telhado, batidas nas paredes e sempre aquela sensação de estar sendo observado. Muitas noites acordei e vi a sombra dele parada no canto do quarto. Não importava se eu acendia a luz.

A sombra permanecia até desaparecer sozinha. Minha esposa dizia que eu estava ficando doente, que precisava descansar, mas eu sabia a verdade. O cemitério tinha me marcado e aquele homem, ou seja lá o que fosse, não ia me deixar em paz enquanto eu continuasse trabalhando lá dentro. Foi nesse ponto que comecei a pensar seriamente em largar o emprego.

Naquela noite, depois de vê-lo no corredor do cemitério e ouvir aquelas palavras, “Agora é sua vez”, eu já sabia que não teria como continuar. Mas como coveiro, aprendi a não desistir fácil. No fundo, eu ainda tentava me convencer de que tudo aquilo era imaginação, cansaço ou algum tipo de ilusão. Foi essa teimosia que me levou de volta no dia seguinte.

Era uma sexta-feira. Lembro do céu nublado, do ar abafado, como se o tempo estivesse carregado de tempestade. Desde cedo eu estava inquieto. Cada vez que passava por perto do jazigo, onde tinha encontrado o caixão vazio, sentia uma pressão no peito, como se o ar sumisse, mas segui o serviço. Varri as quadras, limpei as flores secas, ajeitei algumas sepulturas que estavam tombando.

A rotina me ajudava a não pensar demais. Quando chegou perto das seis, peguei as chaves e comecei a ronda final. O silêncio estava diferente naquele dia. Não era só a ausência de som, era como se o próprio cemitério tivesse prendido a respiração. E foi aí que senti outra vez os passos atrás de mim.

Não olhei, fingi que não escutava, mas eles ficaram mais pesados, mais próximos, até que pararam de repente. O frio percorreu minha espinha e eu soube que ele estava ali. Girei lentamente e vi. O homem estava parado a poucos metros, alto e imóvel, a sombra cobrindo o rosto. Dessa vez não desapareceu.

Ele deu dois passos em minha direção e cada passo ecoou como um trovão no silêncio. “Chega”, falei, mas minha voz quase não saiu. O coração batia tão forte que parecia querer arrebentar o peito. Ele parou, inclinou a cabeça levemente para o lado, como se me observasse com curiosidade. Então, com aquela voz grave, disse outra vez: “Agora é sua vez, José”.

Eu não esperei mais. Corri e não olhei para trás, não pensei em nada. Saí pelo portão lateral sem trancar e fui embora sem coragem de voltar para buscar as ferramentas que tinha deixado espalhadas. Em casa, sentei na cama e chorei como criança, não de tristeza, mas de medo, de saber que tinha chegado no meu limite.

No dia seguinte, voltei apenas para entregar meu pedido de demissão. O administrador tentou argumentar, disse que eu era um bom funcionário, mas eu não quis nem escutar. Peguei minhas coisas e nunca mais voltei a trabalhar lá. Hoje, tantos anos depois, eu ainda sinto a mesma coisa quando lembro daquele lugar. Não gosto nem de passar na rua do cemitério.

Às vezes, quando o sol está se pondo e o vento sopra do lado de lá, parece que ainda ouço os passos firmes, arrastados, como se o homem ainda estivesse me esperando. Foi por isso que larguei o ofício. Não foi fraqueza, não foi preguiça, porque depois daquela última noite, eu entendi uma coisa. Tem presença que não descansa nunca.

E se você cruza o caminho dela, pode passar a vida inteira tentando fugir, mas ela sempre vai encontrar um jeito de te lembrar. E até hoje não sei o que ele queria comigo. Só que quando fecho os olhos, eu ainda escuto aquela voz.