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RECEBI UM PEDIDO NO CEMITÉRIO… E O QUE ACONTECEU DEPOIS AINDA NÃO ACREDITO | História de Terror Real

Eu estava preparando a cova de um rapaz de apenas 20 anos que morreu de forma súbita. Enquanto eu trabalhava, notei um estranho me observando de longe, caminhando sem rumo entre os túmulos. Naquele momento, eu não tinha ideia de que aquele olhar tranquilo escondia algo terrível.

 

O que aconteceu depois daquele sepultamento mudaria a minha vida para sempre. Este é o relato do dia em que recebi um pedido no cemitério e até hoje eu ainda não acredito no que aconteceu. Meu nome é Francisco Alves, tenho 47 anos e trabalho como coveiro no cemitério municipal de Maringá há 13 anos. Mas nada me preparou para o que aconteceu naquela quarta-feira, 29 de novembro de 2000.

 

Cheguei cedo naquele dia. O cemitério estava silencioso. E como sempre faço a essa hora, pego a lista de serviços do dia e organizo o que precisa ser feito. Naquele dia tinha três túmulos para preparar. Um deles me chamou atenção quando li a ficha. Alexandre Freitas, 20 anos. Parada cardíaca. 20 anos. “Meu Deus, tão novo”. Parada cardíaca em alguém tão jovem é raro.

 

Normalmente a gente vê isso em pessoas mais velhas, com problemas de saúde, mas um rapaz de 20 anos. Balancei a cabeça e guardei a ficha no bolso. Não era a primeira vez que via uma tragédia dessas e sabia que não seria a última. O enterro estava marcado para as 5 da tarde. Isso me dava o dia todo para preparar a cova e fazer os outros serviços.

 

Peguei minhas ferramentas e fui até o local indicado na ficha. Era uma área mais nova do cemitério, perto de umas árvores grandes. Comecei a trabalhar por volta das 8:30 da manhã. Eu estava concentrado, cavando quando senti aquela sensação estranha. Sabe quando você sente que alguém está olhando para você? Foi exatamente isso. Levantei a cabeça e vi um rapaz parado ali a uns 10 m de distância.

 

Ele estava me observando. Não era incomum ter visitantes no cemitério durante a semana, então não pensei muito nisso. Apenas acenei com a cabeça, cumprimentando. O que me chamou atenção foi a expressão dele. Ele parecia tranquilo, mas ao mesmo tempo meio perdido, como se estivesse conhecendo o lugar pela primeira vez.

 

olhava ao redor, observando as árvores, os túmulos, o céu. Ficou ali parado por uns dois ou três minutos, só observando. Voltei a cavar. Quando olhei de novo, ele não estava mais lá. Tinha sumido. Nem vi ele ir embora. E isso era estranho, porque o cemitério não tem muitos lugares para se esconder assim de repente.

 

Mas pensei que ele devia ter ido visitar algum túmulo e não dei mais importância. Continuei trabalhando nas outras covas que precisavam ser preparadas. Devia ser umas 10 horas da manhã quando parei para tomar água. Foi quando vi o rapaz de novo. Ele estava em outra parte do cemitério agora, caminhando devagar entre os túmulos. Do jeito que ele andava, parecia que estava passeando.

 

Visitantes normalmente vão direto para o túmulo de quem querem visitar. Deixam as flores, fazem uma oração e vão embora. Mas esse rapaz estava andando sem rumo, olhando para tudo. Nossos olhos se cruzaram de longe. Ele acenou de novo, daquele mesmo jeito, tranquilo. Respondi o cumprimento e continuei meu trabalho. Tinha muito serviço ainda.

 

O dia foi passando e eu vi o rapaz mais duas ou três vezes, sempre de longe, sempre andando pelo cemitério, como se estivesse, não sei explicar direito, como se estivesse explorando. Mas ele nunca se aproximou para conversar, nunca falou nada. Tem uma coisa que eu preciso falar. Depois de tantos anos trabalhando aqui, a gente desenvolve um tipo de sensibilidade para o ambiente.

 

A gente sente quando algo está diferente, quando o clima está pesado. Naquele dia, desde cedo, eu sentia que tinha algo no ar. Não era ruim, não era ameaçador, era só diferente. Mas eu não dei muita bola. Às vezes o cemitério fica assim mesmo. Eram quase 3 da tarde quando terminei de preparar a cova de Alexandre Freitas.

 

Ficou bem feita, do jeito que tinha que ser. Sempre faço meu trabalho com respeito. Estava recolhendo as ferramentas quando vi o rapaz mais uma vez. Ele estava parado perto de uma árvore, olhando na minha direção, ou melhor, olhando para a cova que eu tinha acabado de preparar. Aquilo me deu um arrepio na espinha.

 

Não sei porquê, foi só uma sensação estranha. Ele ficou ali por um tempo só olhando, então virou e foi embora, andando devagar entre os túmulos. Fui até o depósito, guardar as ferramentas e pegar as coisas para o enterro da tarde. Corda, tábuas, tudo que a gente usa durante a cerimônia. Quando voltei para a área onde ia a ser o enterro, vi que já estavam começando a chegar algumas pessoas, familiares, provavelmente chegavam cedo, como sempre acontece quando a perda é muito dolorosa. Foi quando vi o rapaz de novo.

 

Ele estava ali, não muito longe, observando as pessoas que chegavam. Aquilo me deu uma sensação estranha de novo. Será que ele conhecia o falecido? Será que era amigo da família? Mas tinha algo de diferente nele agora. A expressão tranquila da manhã tinha mudado um pouco. Ele parecia mais atento, como se estivesse prestando atenção em cada pessoa que chegava, em cada movimento que faziam.

 

Olhei para o relógio. Faltavam 15 minutos para as 5. O carro funerário devia estar chegando a qualquer momento. Respirei fundo e me preparei para mais um enterro. Mais uma família chorando, mais uma despedida. Mas eu não tinha ideia do que estava prestes a acontecer. Não tinha a menor noção de que aquele ia ser o dia que mudaria minha vida para sempre.

 

E tudo ia começar quando aquele caixão descesse para a terra. O carro funerário chegou às 5 horas em ponto. Atrás dele vinham vários carros com a família e amigos. Quando a porta do carro funerário se abriu e começaram a tirar o caixão, ouvi os primeiros choros. Eram aqueles choros que a gente nunca esquece.

 

Choro de mãe, choro de quem perdeu um filho. Fiquei ali do lado esperando para ajudar no que fosse preciso. A gente precisa estar presente, mas sem se intrometer no momento da família. A mãe de Alexandre estava sendo amparada por duas mulheres, uma de cada lado. Ela mal conseguia andar. As pernas pareciam não aguentar o peso do corpo dela.

 

O pai vinha logo atrás, com o rosto duro, tentando segurar as lágrimas, mas dava para ver que ele estava destruído por dentro. Tinha muita gente jovem também. Devia ser da faculdade do rapaz. Todos estavam chorando, alguns abraçados. Outros sozinhos, enxugando as lágrimas com as mãos. Era um enterro pesado daqueles que deixam o cemitério inteiro em silêncio.

 

Enquanto colocavam o caixão no lugar para começar a cerimônia, ouvi alguns fragmentos de conversas. A gente não quer escutar, mas às vezes não tem como evitar. Uma moça estava falando com outra, chorando. “Ele estava bem. A gente estava rindo junto. De repente, ele levou a mão no peito e caiu. Foi tão rápido.”

 

Um rapaz ao lado delas completou com a voz embargada. “Os médicos tentaram de tudo, mas não teve jeito. O coração dele parou e não voltou mais.” Senti um aperto no peito ouvindo aquilo. Imagina a cena. Um jovem de 20 anos conversando com os amigos, rindo, vivendo a vida e de repente, sem aviso, sem chance de se despedir de ninguém, o coração para.

 

Pronto, acabou. Foi nesse momento que olhei para o lado e vi o rapaz que tinha visto o dia inteiro. Ele estava mais perto agora, uns 5 metros de distância, parado embaixo de uma árvore, olhando para tudo, olhando para cada pessoa, olhando para o caixão. A expressão dele era diferente, não era mais aquela tranquilidade da manhã.

 

Agora ele parecia confuso, como se estivesse tentando entender o que estava acontecendo, como se não conseguisse processar aquilo tudo. A cerimônia começou. O padre fez uma oração bonita falando sobre a vida jovem interrompida, sobre o mistério dos planos de Deus, sobre a saudade que fica. A mãe chorava tanto que parecia que ia desmaiar a qualquer momento.

 

Em alguns momentos, ela gritava o nome do filho: “Alexandre, meu filho, meu menino”. Era de partir o coração. Algumas pessoas se aproximaram do caixão para se despedir. Colocavam a mão sobre a madeira, fechavam os olhos, choravam. O tempo todo, aquele rapaz estava ali observando, e quanto mais o tempo passava, mais perto ele ficava.

 

Não de forma brusca ou estranha, era uma aproximação lenta, quase imperceptível, como se ele precisasse ver melhor, como se precisasse entender o que estava acontecendo. Em determinado momento, nossos olhos se encontraram. Ele me olhou de um jeito diferente. Não era mais só um cumprimento. Era como se ele estivesse pedindo algo.

 

Mas o quê? Eu não sabia. Chegou a hora de descer o caixão. É sempre o momento mais difícil para as famílias. É quando fica real que aquela pessoa não vai voltar mais, que vai ficar ali debaixo da terra e que a vida segue sem ela. Quando começamos a descer o caixão, a mãe de Alexandre quase se jogou dentro da cova junto.

 

Os irmãos e o pai tiveram que segurá-la com força. Ela gritava, chamava pelo filho, pedia para não deixarem ele ali. O rapaz estava agora a menos de 3 m de mim. parado, olhando para o caixão descer. E pela primeira vez, desde que o vihã percebi algo que deveria ter percebido antes. Ele estava com as mãos nos bolsos, olhando para baixo.

 

A expressão dele era de alguém que está assistindo a algo muito triste, mas que não entende direito o que é. Como quando você vê um acidente na rua e fica paralisado tentando processar o que aconteceu. A cerimônia terminou. Algumas pessoas jogaram flores sobre o caixão. É uma forma de se despedir, de dar o último a Deus.

 

A família ficou ali ainda por uns 20 minutos sem querer ir embora, sem querer deixar o filho, o irmão, o amigo ali sozinho. Mas a vida não para. As pessoas começaram a ir embora, uma a uma. Aos poucos, o cemitério foi ficando vazio. Quando olhei ao redor, vi que só tinha sobrado eu, o vigia lá na entrada e aquele rapaz. Ele continuava ali parado, olhando para o túmulo, para a cova recém-fechada, onde agora descansava Alexandre Freitas.

 

Respirei fundo. Já tinha visto gente ficar para trás depois dos enterros. Amigos ou parentes que precisam de mais tempo para se despedir. Não é incomum. Então me aproximei devagar, com respeito. “É sempre muito difícil”, eu disse, mantendo uma distância respeitosa. “Mas agora ele está descansando. Está em um lugar melhor, em paz.”

 

O rapaz não respondeu imediatamente, continuou olhando para o túmulo. Então, devagar, virou o rosto na minha direção e, dessa vez senti algo que não consigo explicar direito. Foi como se uma corrente elétrica passasse pelo meu corpo inteiro. O olhar dele era fundo, profundo e triste de um jeito que eu nunca tinha visto antes.

 

Foi nesse momento que olhei para a foto que a funerária tinha colocado no túmulo. Tinha uma foto pequena de Alexandre Freitas ali. Olhei para o rapaz na minha frente. Meu coração parou por um segundo. Era a mesma pessoa. O rapaz que estava na minha frente me olhando com aquela expressão profunda e confusa, era Alexandre Freitas, o mesmo que estava dentro daquele caixão e tinha acabado de ser enterrado.

 

Senti minhas pernas bambas. Um frio subiu pela minha espinha. Minha boca ficou seca. Tentei falar alguma coisa, mas não saiu som nenhum. E foi quando percebi que ele também estava começando a entender alguma coisa. A confusão no rosto dele estava ficando maior, as sobrancelhas franzidas, os olhos arregalados. Era como se naquele exato momento nós dois estivéssemos percebendo a mesma coisa impossível. Ele não era um visitante.

 

Ele não era um amigo da família que tinha ficado para trás. Ele era Alexandre. o espírito de Alexandre. E ele estava ali de pé na minha frente, sem entender o que tinha acontecido com ele. Não sei quanto tempo ficamos ali parados nos encarando. O tempo parou para mim naquele momento. Meu coração estava batendo tão forte que eu conseguia ouvir dentro dos meus ouvidos.

 

Alexandre continuava me olhando e quanto mais ele me olhava, mais a expressão dele mudava. A confusão estava dando lugar a algo pior. Ele estava começando a perceber, estava começando a entender. Tentei dar um passo para trás, mas minhas pernas não obedeceram. Sentia um peso no peito, como se alguém estivesse apertando meu coração com as mãos.

 

O sol tinha se posto completamente. O cemitério estava ficando escuro. Só a luz fraca dos postes no caminho principal iluminava um pouco o lugar. E ali, naquela penumbra, eu vi a Alexandre parado na minha frente, cada vez mais real e ao mesmo tempo, impossível. Foi quando ele finalmente falou: “O que? O que está acontecendo?” A voz dele saiu baixa, rouca, como se não tivesse sido usada há muito tempo, ou como se ele mesmo não acreditasse que estava falando.

 

Tentei responder, mas minha garganta estava fechada. Nenhum som saiu. Ele deu um passo na minha direção. Instintivamente dei um passo para trás. “Por favor”, ele disse. E a voz dele tinha um tom de desespero que me fez parar. “Por favor, me explica o que está acontecendo. Eu não, eu não entendo.” Engoli seco. Forcei minha voz a sair, mesmo que fraca e trêmula.

 

“Você é Alexandre?” Ele assentiu com a cabeça devagar. “Sou. E você? Quem? Quem é você?” “Francisco, eu trabalho aqui no cemitério.” Silêncio. Ele olhou ao redor como se estivesse realmente vendo o cemitério pela primeira vez. Então olhou de volta para mim. “Eu não, eu não entendo porque estou aqui”, ele disse. A voz dele estava começando a ficar mais agitada.

 

“Eu estava na faculdade, estava conversando com meus amigos, a gente estava rindo de alguma coisa, nem lembro mais do que. E então…” ele parou, levou a mão ao peito como se estivesse sentindo algo ali. “Então eu senti uma dor.” Ele continuou, a voz tremendo. “Uma dor forte aqui no peito. Quis falar alguma coisa, mas não saiu nada.”

 

“E depois, depois só escuridão. E quando eu… quando eu acordei, estava aqui andando por esse cemitério.” Meu Deus, ele não sabia. Ele realmente não sabia o que tinha acontecido com ele. “Alexandre”, comecei, mas minha voz falhou. Como eu ia dizer aquilo? Como eu ia dizer para um rapaz de 20 anos que ele tinha morrido? “Eu vi aquelas pessoas todas aqui.”

 

Ele continuou falando mais rápido agora. “Vi minha mãe, vi meu pai, meus irmãos, meus amigos, todo mundo chorando, todo mundo olhando para aquela caixa, aquele caixão. E eu tentei, tentei me aproximar, tentei falar com eles, mas ninguém, ninguém me via, ninguém me ouvia.” A voz dele estava ficando cada vez mais desesperada.

 

“Por quê? Porque ninguém me via, porque minha mãe não me olhava quando eu chamava por ela? E aquela foto, aquela foto na lápide sou eu. Mas por quê? Por quê? Por que minha foto está ali?” Ele deu mais um passo na minha direção. Estava quase perto demais. “Agora por favor”, ele implorou. “Me fala o que está acontecendo. Me fala por estou aqui.”

 

“Porque ninguém me vê, só você.” Naquele momento, algo estranho aconteceu. Junto com o medo que me paralisava, surgiu outro sentimento, porque eu olhava para aquele rapaz e via o desespero dele, via confusão, via alguém completamente perdido, sem entender nada, pedindo ajuda. E por algum motivo que eu não consigo explicar até hoje, ele tinha me escolhido.

 

de todas as pessoas que passaram por aquele cemitério hoje, de todas as pessoas que estavam no enterro dele, fui eu que ele escolheu para pedir ajuda. Mas por quê? Porque eu quem sou eu? Sou só um coveiro, um homem simples que trabalha com a terra e com os mortos. Não sou padre, não sou nada especial porque ele me escolheu, “Alexandre”. Consegui dizer.

 

Minha voz ainda trêmula, mas um pouco mais firme. “Você teve uma parada cardíaca na faculdade. Seu coração parou de bater.” Ele me olhou sem entender. “Seu corpo parou.” Continuei sentindo as palavras pesarem na minha língua. “Mas você, seu espírito, você ainda está aqui. Você não conseguiu partir.” Vi quando a ficha caiu.

 

Vi o exato momento em que ele entendeu o que eu estava dizendo. A expressão de confusão no rosto dele se transformou em algo muito pior. Horror, pânico, desespero absoluto. “Não”, ele disse balançando a cabeça. “Não, não, não. Isso não pode, não pode ser verdade. Eu não posso estar morto. Eu estava bem. Estava vivo. Eu não posso estar.”

 

E foi quando ele começou a entrar em pânico de verdade. “Não, não pode ser. Eu quero, eu quero voltar. Eu quero voltar para minha mãe, para meu pai. Eu tenho, eu tenho que falar com eles que eu não estava pronto.” Alexandre virou para mim de novo. “E dessa vez, por favor, me ajuda. Eu não sei o que fazer. Eu não sei para onde ir. Estou com medo.”

 

“Estou com muito medo.” E eu vi no olhar dele uma coisa que nunca vou esquecer. Vi alguém completamente perdido. Alguém que tinha sido arrancado da vida sem aviso. Mesmo sem entender porquê, mesmo sem saber como. Eu sabia que tinha sido escolhido por algum motivo e que eu precisava ajudar aquela alma perdida. Respirei fundo e dei um passo na direção dele.

 

“Alexandre”, eu disse, tentando manter a voz firme. “Eu não sei porque você me escolheu. Não sei porque eu consigo te ver e os outros não, mas eu vou tentar te ajudar.” Ele me olhou com uma esperança tão grande nos olhos que doeu no meu peito. “Como?”, ele perguntou. “Como? Como você pode me ajudar?” Eu realmente não sabia.

 

Nunca tinha passado por nada parecido com aquilo na vida. 13 anos trabalhando no cemitério e nunca, nenhuma vez, vi um espírito. Nunca acreditei muito nessas coisas, para ser sincero. Quem era eu para fazer aquilo? Eu era só Francisco, um coveiro, um homem simples que ganhava vida cavando covas e ajudando famílias nos enterros.

 

Não tinha estudo especial, não era padre, não tinha dom nenhum. Por que aquele rapaz tinha vindo até mim? Por eu Mas olhando para ele ali, tão perdido, tão desesperado, senti que não podia simplesmente deixá-lo sozinho. Não podia virar as costas e ir embora. “Vem”, eu disse, fazendo sinal para ele se aproximar do túmulo. “Vem aqui.

 

” Ele obedeceu, caminhando devagar até ficar ao meu lado. Ficamos os dois ali parados na frente daquela cova recém fechada, onde o corpo dele descansava. “Ajoelha aqui comigo, pedi.” Alexandre me olhou confuso, mas se ajoelhou. Eu me ajoelhei também. Minhas pernas doíam. Meu corpo estava cansado do dia inteiro de trabalho, mas aquilo não importava naquele momento.

 

Juntei as mãos e fechei os olhos e comecei a rezar. Não foi uma oração bonita ou bem falada. Não usei palavras difíceis ou trechos da Bíblia que eu não decorava direito. Falei do coração, falei do jeito que eu sabia, “Senhor”. Comecei e minha voz estava tremendo, oscilando entre o sussurro e as palavras quebradas. “Eu não sei o que estou fazendo aqui.”

 

“Não sei por o Senhor me escolheu para isso.” Minha garganta apertava a cada palavra. Senti as lágrimas já começando a se formar nos cantos dos olhos. “Mas tem um rapaz aqui do meu lado que precisa de ajuda. Ele está perdido, ele está com medo. Ele não entende o que aconteceu com ele.” Senti Alexandre se mexer ao meu lado. Abri um olho e vi que ele também tinha juntado as mãos e fechado os olhos.

 

As mãos dele tremiam. “Ele era só um menino, senhor.” Continuei, minha voz falhando, as palavras saindo entrecortadas. “20 anos, tinha a vida toda pela frente. E de repente o coração dele parou sem aviso, sem chance de se despedir da família, dos amigos, de ninguém. E agora ele está aqui preso, sem saber para onde ir.”

 

Minha voz começou a falhar completamente. As lágrimas desciam pelo meu rosto. Senti as lágrimas virem, mas não segurei. Deixei cair. Meu corpo inteiro tremia. “Por favor, Senhor, ajuda ele a encontrar o caminho. Ajuda ele a aceitar o que aconteceu. Perdoa qualquer coisa que ele tenha feito de errado. Em vida ele era novo, ainda estava aprendendo.”

 

“Todos nós somos falhos ou todos nós erramos. Mas ele merece paz, merece descansar.” Foi quando senti algo mudar no ar, uma presença. Não sei explicar direito, mas era como se algo tivesse chegado ali. Algo grande, algo poderoso. Não era ameaçador, mas era intenso. Tão intenso que fez meu corpo inteiro tremer ainda mais forte. “O que? O que é isso?” Ele perguntou a voz também tremendo.

 

“Não sei”, respondi, “mas eu acho que… eu acho que é a sua hora de ir…” “Ir para onde?” “Para onde você precisa ir. Para o lugar que foi preparado para você.” Ele me olhou com medo nos olhos, “mas eu não sei o que tem lá. Eu não sei o que vai acontecer comigo. E se for algo ruim? E se eu…” “Alexandre”, Eu disse, e pela primeira vez minha voz saiu firme, mesmo ainda tremendo.

 

“Você precisa confiar. Você precisa ter fé. O que quer que tenha acontecido na sua vida, seja lá o que você tenha feito, está tudo bem agora. Está perdoado. Você pode ir em paz.” A presença estava ficando mais forte, como se estivesse chamando, convocando. Alexandre sentiu também. “Você precisa ir.” Eu disse: “Mas você não está sozinho, nunca esteve”.

 

Ele olhou para mim e naquele olhar vi tanta coisa: gratidão, medo, esperança, aceitação. “Obrigado”, ele disse a voz um fio. “Vai em paz, Alexandre. Sua família sempre vai te amar, sempre vai se lembrar de você. Você não vai ser esquecido”, respondi, as lágrimas ainda escorrendo pelo meu rosto.

 

E foi quando vi algo que nunca vou esquecer pelo resto da minha vida. Alexandre começou a mudar. A expressão de medo e confusão no rosto dele começou a se transformar. Devagar foi dando lugar a outra coisa: paz. Uma paz profunda, tranquila. Ele olhou para mim uma última vez e sorriu. “Eu entendi agora.” Ele disse, “Eu aceito.

 

” E então, na minha frente ele começou a desaparecer. Quando ele desapareceu completamente, senti algo sair de mim. Um peso enorme que eu nem sabia que estava carregando. Saiu do meu peito, do meu corpo todo. Era como se eu tivesse estado carregando uma pedra gigante nas costas e alguém finalmente tivesse tirado ela de lá. Fiquei ajoelhado ali sozinho no escuro, chorando, chorando de alívio, chorando de exaustão, chorando porque tinha acabado.

 

Não sei quanto tempo fiquei ali. Pode ter sido 5 minutos, pode ter sido meia hora. Estava tão cansado que não conseguia me mexer. Não tinha força nas pernas, não tinha força em nada. “Francisco, Francisco, você está bem?” Era a voz de um dos vigias. Ele tinha vindo ver porque eu não tinha saído ainda do cemitério. Ele me encontrou ali ajoelhado, chorando, com as mãos ainda juntas.

 

Tentei falar alguma coisa, mas não saiu nada. Minha garganta estava fechada. “O que aconteceu?” Ele perguntou preocupado. “Você está machucado?” Balancei a cabeça que não. Ele me ajudou a levantar. Minhas pernas estavam bambas. mal conseguiam me sustentar. Ele me apoiou e me ajudou a caminhar até a saída. “Você quer que eu chame alguém? Quer que eu leve você no hospital?” “Não, só só me leva para casa.”

 

Ele me levou até o carro dele e me deu carona. No caminho. Não falei nada. Não conseguia. Ele também não perguntou mais nada. Naquela noite não consegui dormir. Ficava pensando em tudo que tinha acontecido e ficava me perguntando por eu? Por que fui eu o escolhido para ajudá-lo? Nunca vou saber a resposta. É um mistério que vou carregar pelo resto da vida.

 

Mas uma coisa eu aprendi naquele dia. Aprendi que a gente nunca sabe do que é capaz até ser testado de verdade. Mas só quando fui posto à prova, só quando precisei usar essa fé para ajudar alguém, é que entendi o quanto ela era importante. Se tem uma coisa que eu quero que você que está vendo isso entenda, é o seguinte. A gente nunca está preparado para tudo que a vida traz.

 

Mas quando chega a hora, quando a gente é chamado para fazer algo importante, a fé é o que sustenta a gente. Não importa sua religião, não importa como você chama Deus, o que importa é acreditar. acreditar que mesmo nos piores momentos a gente não está sozinho e que a gente pode sim fazer a diferença, mesmo sendo só um coveiro, mesmo sendo uma pessoa simples, porque no final todos nós somos importantes, todos nós temos um propósito.

 

E às vezes esse propósito aparece quando a gente menos espera.