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MARIDO M*TA O SUPOSTO AMNTE DA ESPOSA EM ITABAIANA — A INFIDELID*DE REVELOU O QUE NINGUÉM ESPERAVA

Havia algo que não se encaixava perfeitamente; não era grande, não chamava a atenção imediatamente. Era o tipo de coisa que a maioria das pessoas simplesmente ignora, porque a vida passa rápido e suas mentes já estão cheias de outras coisas. Contas a pagar, filhos para buscar, tarefas que nunca terminam. Mas Humberto Melo não era como a maioria das pessoas.

Humberto era o tipo de homem que observa, que acompanha, que silenciosamente soma as coisas por semanas, meses, sem dizer uma palavra a ninguém, até que a soma chega a um resultado que não pode mais ser ignorado. E foi exatamente isso que aconteceu. Seis palavras ouvidas em uma tarde de domingo em um bar de bairro em Itabaiana, no interior de Sergipe.

Seis palavras que ele não deveria ter ouvido, faladas por um homem que era um amigo de domingo, um companheiro de time no futebol amador, um frequentador assíduo da mesma mesa de churrasco.

“Não se preocupe, eu cuido disso.”

Apenas isso. Seis palavras no telefone antes que sua voz baixasse ao perceber que Humberto havia retornado.

Elas pareciam uma coisa pequena, mas destruíram tudo. E a parte mais perturbadora dessa história, o detalhe que a polícia encontrou 32 dias após o crime dentro de uma mochila velha no armário do quarto de hóspedes, não tinha nada a ver com o que Humberto pensou ter ouvido. Tinha tudo a ver com Dilson Aragão estar morto.

Antes de continuar, a mochila que a polícia encontrou no armário do quarto de hóspedes estava lá havia 4 meses. Humberto sabia. Rosemary sabia. Nenhum dos dois a tinha aberto, porque era a mochila de outra pessoa, alguém que tinha apenas passado e a esquecido. O que estava lá dentro não tinha nada a ver com traição; tinha tudo a ver com dinheiro, com família, com um segredo que tinha crescido demais dentro daquela casa, sem que Humberto soubesse a extensão do que estava escondido no armário no final do corredor.

E quando o investigador abriu o zíper do bolso lateral daquela mochila, o caso que todos pensavam entender tornou-se algo completamente diferente. Você vai entender quando chegar lá. Itabaiana está localizada no sertão de Sergipe, aquela faixa do Nordeste que não é nem costeira nem árida, que vive entre a chuva prometida e a seca que castiga, onde o calor de outubro racha os lábios e a luz da tarde tem aquela cor amarela específica que aqueles que cresceram no interior do Nordeste reconhecem como a cor de casa.

É uma cidade de cerca de 200.000 habitantes, um polo comercial para a região, o tipo de cidade interiorana que tem supermercado, faculdade, hospital, mas ainda opera no ritmo de um lugar onde todos se conhecem de algum lugar. Você esbarra no pai do seu colega de escola no açougue, no primo do seu chefe no banco e na vizinha da sua mãe na fila do posto de saúde.

As notícias viajam mais rápido do que um carro de polícia. A família de uma pessoa sempre conhece a família de outra pessoa. E quando um crime acontece em um bairro como Apan, que é o bairro onde Humberto e Rosemary viviam, com ruas de paralelepípedos que a cidade gradualmente pavimentou, casas de tijolos com muros baixos e portões de ferro, aquele tipo de bairro interiorano que cresceu lentamente e guarda a memória de cada família que construiu ali.

A história se espalha antes que qualquer oficial possa contê-la. Humberto Melo tinha 44 anos, natural da própria Itabaiana, filho de Apan, criado naquelas ruas, educado naquela escola estadual na esquina, que ainda tem o mesmo diretor de quando ele estudava lá. Trabalhava como supervisor de estoque em um armazém de distribuição de alimentos. 8 anos no mesmo emprego.

O tipo de funcionário que o chefe nunca precisa lembrar, porque eles estão lá antes do trabalho e entregam o relatório sem que ninguém precise lembrar que há um prazo. 1,75 m. Um corpo moldado por anos de trabalho sedentário e churrascos de domingo, mais cheio do que em sua juventude. Ombros ainda largos, mas uma barriga que surgiu lentamente, como coisas que surgem sem percebermos enquanto estão acontecendo.

Cabelo castanho escuro com entradas, um bigode que ele aparava todo domingo de manhã antes do futebol, olhos castanhos com aquela expressão permanente de quem presta atenção mesmo quando parece que não está. Era quieto. Não era o tipo de ir a todo evento, frequentar todo bar, aparecer em toda festa.

Preferia seu quintal, o futebol de domingo no campo do bairro, cervejas com amigos conhecidos e conversas na calçada com seus vizinhos de sempre. Tinha o tipo de vida de um homem que construiu o que construiu tijolo por tijolo, sem atalhos, sem pressa, e que valoriza o que tem porque sabe o que custou.

Rosemary Mellow tinha 41 anos, originalmente de Nossa Senhora das Dores, uma cidade a 40 km de Itabaiana, mas ela vivia em Itabaiana há 20 anos. Tinha feito 21 anos para trabalhar em uma loja de tecidos no centro da cidade e ficou porque tinha conhecido Humberto em seu segundo ano. Cabelo preto com reflexos avermelhados que ela retocava a cada dois meses em um salão na rua Vereador José Rabelo.

Pele morena, olhos escuros, aquele jeito de mulher nordestina de lidar com as coisas com uma firmeza que não é dureza. É apenas o jeito de alguém que aprendeu cedo que reclamar demais não ajuda, que é melhor resolver os problemas. Trabalhava como cozinheira em um restaurante regional no centro de Itabaiana.

Daqueles restaurantes que servem almoço de segunda a sábado, com um buffet de comida com cheiro da cozinha de avó, sarapatel (um ensopado feito com miúdos), buchada (um tipo de ensopado de miúdos), carne de sol com manteiga de garrafa, feijão de corda com coentro, aquela tapioca com queijo coalho que atrai multidões nos fins de semana.

Rosemary chegava às 8 da manhã para preparar tudo antes da abertura ao meio-dia. Saía às 4 da tarde, às vezes 5 da tarde, quando estava movimentado e a limpeza demorava mais do que o normal. Tinham dois filhos. Rodrigo, de 20 anos, que trabalhava com o pai no armazém, havia começado como ajudante seis meses antes e estava aprendendo sobre controle de estoque com a ansiedade de um garoto que quer provar que consegue fazer.

E Letícia, 16 anos, que estudava em uma escola estadual do bairro e que tinha aquele jeito adolescente observador, que fala pouco, mas guarda tudo para si, vivia em seu próprio mundo, na casa. Três quartos, sala, cozinha grande, área de serviço, quintal com uma churrasqueira de tijolos que o próprio Humberto havia construído em um fim de semana de outubro, 3 anos antes.

Ele passou dois dias trabalhando nela, com o cuidado meticuloso de um homem que faz as coisas durarem, que não toma atalhos porque os atalhos aparecem mais tarde. O terceiro quarto era o quarto de hóspedes. Tinha sido o quarto de Rodrigo antes de ele querer o quarto maior quando cresceu. Ficava no final do corredor com uma cama de solteiro, um guarda-roupa de madeira escura e aquela pequena janela que dava para o quintal e pegava a brisa da tarde quando estava aberta.

A mochila estava no armário do quarto de hóspedes. Já fazia 4 meses. Ninguém a tinha aberto. Dilson Aragão tinha 38 anos e era dono de uma loja de ferragens em uma rua lateral no centro de Itabaiana. Era um negócio pequeno, mas estabelecido, herdado de seu pai, que havia mantido sua clientela e crescido gradualmente com aquele ritmo de comércio interiorano que não explode, mas também não afunda porque tem raízes que remontam a décadas.

Solteiro, ele havia se separado da primeira esposa 5 anos antes, e eles não tiveram filhos do casamento. Vivia em um apartamento no centro da cidade, a poucos quarteirões da loja. Humberto o conhecia há 12 anos, do time de futebol amador de domingo.

Aquele tipo de futebol de campo de terra, jogado com traves feitas de canos, que no interior nordestino é tanto um evento social quanto o próprio esporte, começando às 8 da manhã e terminando 2 horas depois em uma mesa com cerveja e conversa sobre a semana. Um homem alto de 1,82 m, o tipo de homem magro que come bem, mas queima o que come.

Cabelo preto, rosto anguloso, aquelas mãos de comerciante que apertam com força, firmes, secas, o jeito de alguém que passou anos atendendo clientes atrás de um balcão. Ele tinha estado na casa de Humberto, às vezes almoçava lá, sentava na churrasqueira de tijolos no quintal com uma cerveja na mão, conversando sobre os domingos.

Ele era um daqueles amigos do marido que a esposa trata bem, simplesmente porque ele é amigo do marido, sem problemas, sem complicações. Ele nunca havia demonstrado interesse por Rosemary, e seus sentimentos nunca haviam sido correspondidos. A ideia de que havia algo entre os dois havia nascido e crescido na cabeça de Humberto a partir de seis palavras que ele ouviu em um bar no domingo, e havia permanecido por meses sem que ninguém soubesse.

Nem Rosemary, nem Dilson, nem seus filhos, nem seus amigos do futebol. Somente Humberto, acompanhando e somando as coisas, chegou a um resultado que estava errado do começo ao fim. Aquela tarde de domingo em julho, quando tudo começou, tinha aquele calor seco e duro do sertão antes das chuvas de agosto, 33º Celsius, um céu branco de tanto sol, aquela brisa que vem, mas não esfria as coisas porque também é quente.

O jogo de futebol havia terminado. O grupo havia ido ao bar do Zé Augusto, a 50 metros do pequeno campo, porta aberta, ventilador de teto, aquela cerveja gelada que, depois de 90 minutos de futebol, parece a melhor coisa do mundo. Eram oito, dez homens, camisetas suadas, chuteiras trocadas por chinelos, aquele papo barulhento de homens misturando análise de futebol com conversas sobre a vida.

Humberto tinha ido ao banheiro. Quando retornou, as cadeiras estavam todas misturadas. Mais pessoas haviam chegado. O grupo havia se reorganizado. Dilson estava sentado no assento anterior de Humberto, com o celular no ouvido, de costas para a porta. Humberto parou na porta por um segundo antes de entrar. Ele ouviu a voz de Dilson, baixa e cuidadosa.

“Não se preocupe, eu cuido disso.”

Dilson percebeu que Humberto havia retornado, virou-se ligeiramente, baixou a voz, encerrou a ligação rapidamente, colocou o celular sobre a mesa e virou-se com um típico sorriso de domingo.

“Ele voltou. Sente-se aqui.”

Humberto sentou-se, bebeu sua cerveja, conversou sobre o jogo e riu das piadas. Permaneceu até o fim, mas as seis palavras não saíam da sua cabeça.

“Não se preocupe, eu cuido disso.”

A voz de Dilson baixou quando ele percebeu que ele estava de volta. A ligação terminou rapidamente. Três fatos simples que Humberto juntou em sua cabeça antes mesmo de chegar em casa. Mas isso não era tudo. Na semana seguinte, em uma tarde de quinta-feira, Humberto havia saído do armazém mais cedo do que o normal.

O supervisor havia dispensado a equipe porque o carregamento do dia havia chegado atrasado e não havia nada que pudessem fazer. Era 2 horas mais cedo do que o normal. Ele chegou em casa. Rosemary estava no telefone em seu quarto. Ele ouviu a voz dela antes de abrir a porta, falando baixinho, naquele tom que usamos quando não queremos que ruídos externos interfiram na conversa.

Quando a porta se abriu, ela disse:

“Nós nos falamos depois.”

E desligou. Virou-se com o sorriso de quem não estava fazendo nada.

“Você saiu cedo.”

“O carregamento atrasou. Eles me dispensaram.”

“Ah,” ela foi para a cozinha. “Quer um café?”

Humberto disse que queria. Ficou no quarto. A cena era comum.

Não havia nada ali que outro homem notasse. Mas Humberto tinha aquelas seis palavras do domingo na cabeça. E aquelas seis palavras haviam transformado a maneira como ele interpretava tudo o que via. A voz baixa no telefone que parou quando ele entrou, o “depois nos falamos” antes de desligar, o sorriso de quem não estava fazendo nada.

Tudo o que antes passava despercebido tornou-se um tijolo na parede de uma certeza que ele estava construindo internamente.

Nas semanas seguintes, Humberto juntou o que achava estar vendo. Ele era um homem de estoque, de inventário, de contagem, de coisas que precisavam ser finalizadas. Então ele fez o que sabia fazer, catalogando, não no papel, mas em sua cabeça, com aquela memória de supervisor que retém números e detalhes, porque o trabalho exige.

Em uma segunda-feira de agosto, ele foi à loja de ferragens de Dilson sob um pretexto legítimo. Precisava de um parafuso de fixação para uma prateleira que havia se soltado na garagem.

“Ele ficou na loja por 20 minutos,” Dilson observou. Comportamento normal, serviço normal, nenhum sinal de nada. Mas enquanto ele estava lá, o celular de Dilson tocou.

Dilson olhou para a tela, foi lá fora para atender a ligação, uma prática comum quando a loja está cheia e a ligação é importante. Ficou por 2 minutos. Retornou. Humberto havia notado a expressão de Dilson quando ele voltou. Aquele leve relaxamento que você sente depois de conversar com alguém de quem gosta.

Em uma terça-feira de setembro, Rosemary havia dito que ia ao salão fazer luzes no cabelo. Ela saiu às 14h e voltou às 16h30. O salão que ela frequentava ficava a 10 minutos a pé de sua casa. Humberto sabia. Já havia passado por lá dezenas de vezes. Duas horas e meia no salão. Humberto havia ficado em casa naquela tarde. Tinha ficado na sala fingindo assistir televisão enquanto fazia os cálculos na cabeça. O salão na rua Vereador José Rabelo fechava às 18h.

Duas horas era aceitável se estivesse cheio, se ela tivesse esperado, ou se a coloração tivesse demorado. Se encaixava. Mas também havia espaço para outra coisa. Humberto não disse nada. Quando ela chegou, ele perguntou como tinha sido. Ela disse que tinha ficado bom. Ele disse que ficou e guardou outro tijolo.

Mas o que realmente mudou o peso dessa história foi o que aconteceu numa tarde de outubro. Humberto havia passado pela loja de ferragens de Dilson em uma sexta-feira às 17h. Uma parada casual, um caminho que às vezes ele pegava voltando do armazém quando ia de ônibus. Ele viu Dilson fechando a loja e acenou. Dilson acenou de volta, como de costume.

Mas dois dias depois, em um domingo após o jogo de futebol, quando o grupo estava no bar e a conversa havia se voltado para reformas em casa, Dilson mencionou que havia ido à casa de um cliente em Apan para pegar algumas peças que o cliente havia guardado – uma torneira velha, algumas válvulas de bronze, coisas que o cliente havia reformado e que Dilson poderia usar. Apan, o bairro onde Humberto vivia.

Dilson havia mencionado o bairro com total naturalidade. Estava falando sobre negócios, sobre clientes, sobre peças de segunda mão, que têm valor para quem entende, nenhum sinal de nada. Mas Humberto ficou com o nome do bairro na cabeça e, na segunda-feira seguinte, perguntou casualmente a Letícia sobre um certo vizinho.

“Letícia, você viu algum carro diferente nesta rua esta semana?”

Letícia tinha dito que não havia prestado atenção. Humberto havia acenado com a cabeça. Por dentro, a soma havia chegado a um número que ele havia decidido ser definitivo.

A segunda-feira de setembro, quando tudo aconteceu — o crime e a morte, que mudaram o cenário para sempre — tinha aquele calor de fim de temporada que o sertão guarda como uma despedida do verão seco: 36º, céu branco.

O asfalto da rua irradiava calor de baixo para cima de uma maneira que fazia a imagem tremer se você olhasse de longe. Rosemary havia saído às 10h para ir trabalhar. Letícia havia ido para a escola às 7h15. Rodrigo havia ido para o armazém com o pai, mas Humberto havia ficado no portão após deixar o filho ir, dizendo que iria um pouco mais tarde, que tinha algo para resolver em casa.

Rodrigo havia continuado sem questionar. O pai sempre tinha algo a resolver. Humberto voltou para dentro e ficou na sala. Às 10h42, pela janela da sala, ele viu Dilson Aragão passar caminhando na calçada em frente à casa. Dilson não parou, não olhou para o portão, passou caminhando no ritmo normal de um homem com um destino, mas estava lá na rua onde Humberto morava.

Na manhã em que Rosemary havia acabado de sair, a loja de ferragens de Dilson ficava no centro. A rua de Apan não estava no caminho para o centro da cidade por nenhuma rota direta que Humberto pudesse calcular. Não havia motivo para Dilson estar ali, nenhum que ele pudesse pensar além do motivo que ele havia decidido meses atrás. Humberto ficou imóvel na janela por alguns segundos.

A soma havia chegado a um resultado que ele não ia mais mudar. Ele foi para o quarto e abriu o guarda-roupa. Bem no fundo, debaixo de uma pilha de cobertores de inverno que não eram usados desde agosto, havia uma caixa de metal com um fecho. Dentro da caixa havia um revólver calibre .32 que pertencera ao pai de Humberto, herdado quando o pai morreu 6 anos antes.

Tinha sido guardado sem nunca ser registrado porque ele nunca havia pensado nisso, e tinha sido usado apenas uma vez para espantar um cachorro que havia entrado no quintal e assustado Letícia quando ela era mais nova. Humberto pegou o revólver, saiu pela porta da frente, fechou o portão de ferro e seguiu na direção que Dilson havia tomado.

O que aconteceu na rua principal? A curva paralela que Dilson fez após passar pela rua de Humberto foi gravada por três câmeras de segurança de estabelecimentos comerciais e testemunhada por quatro pessoas que estavam na calçada naquele momento. Humberto alcançou Dilson a menos de 200 metros de casa.

Dilson ouviu os passos acelerando, virou-se, viu Humberto, viu a arma.

“Humberto, o que é isso? Sobre o que é essa história toda? Aonde você estava indo?”

“Para a loja. Vim de uma casa perto da do Raimundo Figueiredo para pegar algumas peças de encanamento que ele ia jogar fora. A loja fica do outro lado. Vim pelo telefone porque o Raimundo mora na rua de trás da sua.”

A explicação era verdadeira. Raimundo Figueiredo morava na rua de trás. Era um cliente antigo de Dilson. E a rua de Humberto era a rota natural para quem saía da casa de Raimundo em direção ao centro da cidade.

Era a explicação mais simples que havia. Mas Humberto havia construído uma certeza ao longo de meses que não deixava espaço para explicações simples.

“Você estava lá por causa de Rosemary Mary.”

Humberto disse em voz baixa, quase sem raiva. O que estava ali dentro ia além da raiva. Era mais profundo, mais frio.

“Humberto, juro pelo meu pai falecido que eu nem falei com Rosemary. Pare!”

Dilson abriu as mãos e deu um passo para trás.

“Humberto, pelo amor de Deus, ouça.”

O primeiro tiro foi no peito. Dilson caiu para trás. A segunda vez foi quando ele já estava no chão. Uma das testemunhas, um jovem de 18 anos que saía de uma padaria com um pacote de pão, disse mais tarde que Dilson havia tentado dizer algo enquanto estava deitado no chão.

Eu não tinha conseguido ouvir o que era, apenas que os lábios se mexiam. Humberto ficou parado por alguns segundos sobre Dilson, olhou para as testemunhas que haviam parado na calçada, paralisadas, guardou o revólver no bolso e se afastou em direção à casa. Ele não correu; caminhou como um homem que tinha feito o que havia decidido fazer e agora não sabia o que fazer com o resto.

Ele voltou para casa, entrou pelo portão de ferro, foi para o quintal, sentou-se na cadeira de plástico branco debaixo da churrasqueira de tijolos, que ele havia construído num fim de semana de outubro, 3 anos antes, com o revólver no bolso, o calor de 36º acima dele, e ficou lá. Ele não ligou para ninguém, não tentou sair, não foi a lugar nenhum, ficou na cadeira debaixo da churrasqueira, esperando por algo que não conseguia nomear.

A ambulância chegou à rua comercial 8 minutos após a ligação de uma testemunha. Dilson Aragão tinha pulso quando os paramédicos chegaram, mas estava fraco e irregular. O tipo de pulso que os paramédicos reconhecem como a fronteira entre as duas coisas, foi transportado para a OPTU, o hospital regional de Itabaiana, em estado crítico.

Ele foi submetido a uma cirurgia de emergência logo após a chegada. Dilson não sobreviveu. Ele morreu às 13h22. Eu tinha ido pegar peças de encanamento na casa de um cliente. Ele tinha 38 anos. As testemunhas haviam dado instruções à Polícia Militar. Dois policiais foram à rua de Humberto.

O vizinho do lado, o Sr. Geraldo, 61 anos, que estava na calçada quando o portão de ferro se fechou minutos antes, apontou sem hesitação.

“É ele que acabou de entrar.”

A polícia foi ao portão. Eles chamaram. Silêncio. Eles chamaram de novo. Então ouviram a voz de Humberto vinda do fundo do quintal.

“Estou aqui atrás.”

Eles abriram o portão. Eles desceram pelo corredor lateral até o quintal. Humberto estava sentado na cadeira debaixo da churrasqueira. O revólver estava no chão ao lado dele. Ele o havia tirado do bolso em algum momento e colocado no chão, sem se lembrar depois quando havia feito isso. Não houve resistência. Quando o policial disse seu nome e ordenou que ele se levantasse com as mãos visíveis, Humberto se levantou e colocou as mãos nas costas antes mesmo que eles pedissem.

“Eu sei,” ele disse, antes que qualquer outra coisa fosse dita além do nome.

O policial continuou olhando para ele.

“Você sabe o quê?”

Humberto olhou fixamente para a mangueira no canto do quintal, o que não era o que eu esperava. O policial não entendeu naquele momento. Eu entenderia mais tarde.

A comoção no local começou quando as viaturas da polícia chegaram ao portão de ferro. Vizinhos estavam em suas janelas, incluindo a Sra. Fátima, da casa da esquina, que tinha ouvido o nome de Humberto ser chamado no rádio da polícia em volume alto, e o Sr. Geraldo, que ficou na calçada até que os policiais saíssem com Humberto algemado.

A notícia se espalhou pelos grupos de WhatsApp do bairro em menos de 20 minutos. Primeiro foi para a família, depois foi para o bairro todo. Rosemary descobriu no restaurante. Alguém tinha ligado para o celular dela antes que qualquer policial chegasse. Eu tinha deixado o fogão ligado. O gerente desligou e saiu correndo.

Ele chegou em frente à casa enquanto a última viatura da polícia ainda estava no portão. Ele ficou do lado de fora com a expressão de alguém que tinha ouvido as palavras, mas ainda tentava transformar aquelas palavras em realidade. Rodrigo descobriu no armazém e saiu antes que terminassem de explicar. Letícia descobriu quando a professora de geografia interrompeu a aula porque a diretora a havia chamado pelo interfone.

Um vizinho estava na entrada para buscá-la. O vizinho não disse nada no carro. Letícia entendeu pelo silêncio. Na delegacia de polícia civil de Itabaiana, Humberto Melo foi formalmente acusado de homicídio doloso. O investigador principal do caso era o Dr. Fernando Brito, 46 anos, com 18 anos na Polícia Civil de Sergipe, um homem com uma voz medida e um jeito que parecia…? Ele já ouviu de tudo e, por isso, não reage mais às histórias com expressões faciais, apenas com as perguntas que faz.

Humberto tinha pedido para falar. Inicialmente sem advogado, o advogado que a família contatou chegaria mais tarde. Humberto queria falar primeiro. A sala de interrogatório tinha paredes de cimento pintadas de um azul claro desbotado e um ventilador de mesa no canto que fazia mais barulho do que vento. Uma pequena janela com grades dava para o estacionamento da delegacia, onde um carro de patrulha estava estacionado com o motor ligado por algum motivo que ninguém havia explicado.

Humberto juntou as mãos na frente dele, olhou para o ventilador por alguns segundos, como se estivesse se orientando. Então ele contou, contou sobre as seis palavras daquele domingo de julho no bar. A voz que havia baixado quando ela percebeu que Humberto havia retornado nos meses seguintes, a loja de ferragens, a ligação no celular de Dilson, a visita de 2 horas ao salão, os grupos de WhatsApp da família onde Rosemary às vezes ficava no celular por mais tempo do que o normal.

Ele contou sobre a partida de futebol de domingo, quando Dilson havia mencionado Apan. Ele contou sobre a segunda-feira de manhã, a janela da sala, Dilson passando, o que ele havia feito. O policial ouviu tudo sem interromper. Ele anotou tudo com aquela letra de policial que parece mais código do que letra cursiva. Quando Humberto terminou, o delegado ficou em silêncio por alguns segundos.

“Você tinha provas de que eles estavam tendo um relacionamento?”

Humberto permaneceu em silêncio.

“Provas concretas. Mensagem, foto, testemunha de algo. Você tinha certeza?”

“Provas e certeza são coisas diferentes.”

“Você tinha provas?”

Pausa mais longa.

“Não.”

“Você perguntou algo a Dilson nos meses anteriores?”

“Não.”

“Por quê?”

“Porque se ele dissesse que não era nada, eu não acreditaria nele.”

O detetive anotou essa fala com mais cuidado do que as outras.

“Você já tinha decidido antes mesmo de perguntar.”

Humberto olhou para o ventilador.

“Eu acho que sim.”

O policial virou uma página no caderno.

“Há algo que eu preciso te perguntar sobre Rosemary.”

Humberto virou o rosto para longe.

“Você tem algum motivo concreto, além das suas suspeitas sobre Dilson, para acreditar que ela está traindo você?”

Silêncio.

“Você perguntou a ela?”

“Não.”

“Por que você não perguntou?”

Humberto ficou olhando para as próprias mãos por um longo tempo. Pelo mesmo motivo, o policial olhou para ele, fechou o caderno e solicitou uma avaliação psiquiátrica urgente junto com o relatório de prisão. E essa foi a última troca de palavras sobre Rosemary, sobre a pergunta que nunca foi feita, que abriu uma investigação paralela que ninguém havia planejado abrir.

A investigação paralela começou na manhã seguinte, quando o detetive Fernando Brito ordenou que o investigador Silvio Carvalho entrevistasse Rosemary, um procedimento padrão em casos de homicídio em que a infidelidade é alegada. Entendendo o contexto da perspectiva da esposa, Rosemary chegou à delegacia acompanhada por Rodrigo.

Ela entrou na sala de audiência com a postura de uma mulher que havia passado a noite sem dormir, mas que havia se levantado sozinha porque a vida continua sem pedir permissão. O investigador Silvio Carvalho tinha 36 anos e era policial civil há 10 anos. Ele conduziu a audiência com cuidado. Não foi um interrogatório, foi uma escuta.

Ele perguntou sobre o casamento, sobre os últimos meses, se ela havia notado que Humberto estava diferente. Rosemary confirmou que tinha notado, que ele estava mais retraído, mais quieto, que ela havia perguntado duas vezes se estava tudo bem e que ele havia dito que era apenas cansaço.

“A senhora tinha algo a esconder do seu marido?”

O investigador perguntou:

“Pergunta direta, parte do protocolo.”

Rosemary permaneceu em silêncio.

“Não sobre Dilson,” ela disse.

O investigador parou de escrever.

“Como assim?”

“Não havia nada entre mim e Dilson. Nunca houve.”

“Mas a senhora disse não sobre Dilson. Havia algo sobre outra pessoa ou situação?”

Rosemary encarou o investigador por um tempo, percebendo o seu peso, então fechou os olhos. Quando ela os abriu, havia algo diferente em sua expressão, a postura de quem carregou algo por muito tempo e percebeu que não podia mais carregar sozinha.

“Tem uma coisa que eu ia contar ao Humberto, que eu estava tentando resolver antes de contar, porque eu sabia que se eu contasse, ele iria querer resolver comigo, e eu não queria que ele se envolvesse.”

O investigador esperou.

“Minha irmã, Débora.”

“O que há de errado com sua irmã?”

“Ela tem uma dívida grande. É com alguém com quem não se brinca. Sim, eu tinha medo de que algo pudesse acontecer com ela, e eu estava tentando ajudar a resolver as coisas sem que o Humberto soubesse ainda.”

“E o Dilson sabia disso?”

Rosemary ficou em silêncio por um momento.

“O Dilson era amigo do ex-marido da Débora antes da separação. Eu tinha pedido conselhos a ele sobre o que fazer, sobre como ajudar a Débora, sobre como chegar à pessoa com quem ela precisava falar, sem piorar a situação. Ele tinha mais contatos naquele círculo do que eu.”

O investigador ficou imóvel.

“Então, quando Dilson disse: ‘Não se preocupe, eu cuido disso’.”

“Foi para mim,” disse Rosemary. “Mas em relação à Débora, ele estava me dizendo que ia tentar usar o contato dele com o ex-marido dela para chegar àquela pessoa de uma forma mais segura.”

O silêncio que se seguiu àquela frase teve uma qualidade específica, aquele silêncio de quando uma história que foi estruturada de uma forma começa a ser remontada de outra.

“A senhora pode fornecer provas desta versão dos acontecimentos?”

“Tenho mensagens com o Dilson no meu celular sobre a Débora, sobre a dívida, sobre como tentar resolver isso.”

O investigador encarou o caderno por um momento, então disse:

“Preciso do seu celular como prova.”

Rosemary o entregou na mesma hora. O investigador Silvio Carvalho saiu da sala de audiência e foi direto para o detetive Fernando Brito. Os dois ficaram em silêncio por um momento após o investigador terminar de falar.

“‘Não se preocupe, eu cuido disso’.”

O policial repetiu em voz muito baixa. Era sobre a irmã dela. Mais silêncio. E Humberto nunca perguntou. Ele nunca perguntou. O detetive olhou para o teto da sala por um tempo, com o ruidoso ventilador de mesa ao fundo, o calor sufocante do interior lá fora, e Dilson Aragão morto por causa de seis palavras que ele havia dito numa ligação sobre a irmã da esposa do amigo.

Seis palavras, 38 anos de vida. Histórias assim continuam a acontecer em silêncio. Em bairros como Apan, em amizades como a de Humberto e Dilson, em famílias que acordaram numa segunda-feira normal, sem saber o que ia acontecer antes do almoço.

O investigador Silvio Carvalho havia retornado à casa de Humberto e Rosemary para recolher o celular de Rosemary como prova e realizar uma inspeção padrão da propriedade, fotografando os cômodos e catalogando os pertences que pudessem ser relevantes. A rotina é o tipo de trabalho que é feito de acordo com o protocolo e que 90% das vezes não acrescenta nada.

Em 10% das vezes, a situação muda. No quarto de hóspedes, no fim do corredor, a cama de solteiro, o guarda-roupa de madeira escura, a pequena janela que dava para o quintal. O investigador havia verificado o armário, roupas de cama dobradas, uma caixa de sapato vazia, um casaco de lã de inverno dentro de um saco plástico e uma mochila. Mochila de viagem de tamanho médio.

Azul marinho com detalhes em preto, zíper duplo no compartimento principal, um bolso menor na frente, um bolso lateral estreito. O investigador perguntou a Rosemary, que estava presente durante o levantamento, de quem era. Rosemary explicou. Era de um cunhado que tinha ficado lá 4 meses antes.

Ela tinha esquecido quando ele foi embora. Ligou mais tarde para perguntar e ele disse que a pegaria quando fosse a Itabaiana novamente; nunca mais apareceu. O investigador tinha feito anotações, fotografado, seguido em frente, mas a mochila permaneceu em sua cabeça, aquele instinto de investigador que não tem nome técnico, mas que funciona, algo pequeno que não fecha e fica ali em uma camada inferior enquanto o trabalho continua acima.

Na manhã seguinte, o investigador havia pedido permissão ao delegado de polícia para verificar o conteúdo da mochila. O delegado havia dado a permissão. O investigador abriu o compartimento principal; havia roupas dobradas, um par de tênis velhos com a sola se soltando, artigos de higiene em um saco de pano e um guarda-chuva dobrável comum.

Ele abriu o bolso da frente, dois carregadores de celular, um cabo de fone de ouvido, uma pilha de recibos comuns de posto de gasolina. Abriu o bolso lateral estreito, do tipo que a maioria das pessoas usa para guardar o passe de ônibus, a identidade ou o carregador. O zíper puxou com um pouco de resistência, como quando algo está pressionando por dentro.

Lá dentro havia um envelope. Um envelope de papel pardo comum, selado com fita adesiva. O investigador havia ligado para o delegado antes de abrir. O delegado autorizou a abertura do caso com testemunhas presentes. O envelope foi aberto na mesa da delegacia, com luvas, diante de uma câmera ligada.

Lá dentro havia dinheiro, notas de R$ 100, um maço de notas posteriores a março, organizado com um elástico. O tipo de organização que envolve um cuidado pensado e preservado. O investigador contou, e contou novamente, R$ 42.000 em dinheiro dentro de uma mochila de viagem num armário de quarto de hóspedes em uma casa em Apan, Itabaiana.

Rosemary foi chamada de volta à delegacia naquela tarde. Ela entrou e sentou-se. O investigador colocou o envelope aberto sobre a mesa, na frente dela. Rosemary ficou olhando fixamente para o dinheiro. Um silêncio diferente de todos os outros anteriores, mais pesado, com uma textura que o investigador reconheceu como o silêncio de quem pesa o quanto pode contar e o quanto precisa contar.

“Rosemary.”

O detetive disse:

“De quem é essa mochila?”

Ela olhou para o envelope por mais alguns segundos. Então ela contou. O cunhado não havia esquecido a mochila; ele a havia deixado lá. Tinha pedido a Rosemary para guardá-la.

“Só por um tempo. Não faça perguntas. Eu explico depois.”

Ele tinha prometido pegá-la. E nunca pegou.

“A senhora sabia que havia dinheiro nesta mochila?”

Silêncio. Ela sabia que havia dinheiro, não sabia quanto, e não perguntou de onde era.

“Eu pedi para ele explicar. Ele disse que era melhor eu não saber.”

O detetive olhou para ela com aquele olhar de detetive de quem já ouviu muitas variações daquilo ao longo dos anos.

“Esse cunhado, quem é ele?”

Rosemary ficou em silêncio por um momento.

“É o Márcio, ex-marido da Débora.”

O detetive ficou imóvel. O ex-marido da sua irmã. A irmã que deve dinheiro a alguém que não é brincadeira.

“Isso mesmo.”

A dívida que a Débora tem é com o Márcio. Rosemary fechou os olhos. A Débora devia dinheiro que tinha pegado emprestado durante o casamento. Quando eles se separaram, o Márcio cobrou juros que não existiam quando ele emprestou o dinheiro, com ameaças.

“E esse dinheiro na mochila, eu não sei de onde veio. Eu juro que não sei. Eu não perguntei porque ele disse que era melhor não saber, e eu confiava nele porque ele era meu cunhado.”

O detetive olhou para o envelope com os R$ 42.000.

“O Dilson sabia sobre o Márcio, sabia sobre a situação da Débora?”

“Ele tentou ajudar a resolver as coisas porque conhecia o Márcio da época da separação.”

“Não se preocupe, eu cuido disso.” O detetive repetiu isso pela segunda vez em dois dias. Desta vez não era sobre a traição, que nunca havia acontecido, mas sobre a dívida, o dinheiro, o cunhado que havia deixado uma mochila com R$ 42.000 em um armário de quarto de hóspedes, pedindo para não ser questionado.

A investigação que se abriu a partir do envelope foi separada do caso do Humberto e prosseguiu em paralelo. O que era aquele dinheiro, de onde vinha, o que comprou, o que pagou, desdobrou-se em uma investigação que levou meses e revelou uma história sobre o Márcio, sobre o ex-marido da Débora. O que importa aqui é o que a descoberta do dinheiro fez com o caso do Humberto. Fez o Ministério Público entender que havia segredos reais dentro daquela casa.

Segredos que Humberto não conhecia, que Rosemary carregava sozinha, que Dilson havia tentado ajudar a resolver — segredos que não tinham nada a ver com traição, mas que haviam criado, sem querer, um ambiente de mensagens salvas, ligações discretas, conversas apagadas quando o marido chegava, as quais Humberto havia interpretado como traição quando eram algo completamente diferente.

O processo criminal foi aberto pelo Ministério Público do Estado de Sergipe. Humberto foi indiciado por homicídio doloso qualificado. O Ministério Público argumentou duas agravantes: motivo torpe para matar, baseado em suspeita não verificada, e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima devido ao elemento surpresa na rua comercial.

A defesa, liderada pelo Dr. Arlindo Santana, um advogado criminal de Aracaju com 22 anos de experiência em júris, trabalhou em três frentes.

Primeiro argumento: a defesa alegou que o homicídio era justificado por violenta emoção. Humberto havia agido sob um gatilho imediato, vendo alguém na rua naquela manhã, e não sob um plano elaborado. O tempo entre o gatilho e o crime foi de menos de 40 minutos.

Segundo: havia o contexto de segredos reais dentro do casamento. Havia mensagens salvas, ligações encerradas quando ele chegava, uma mochila com R$ 42.000 num armário sem explicação. A defesa argumentou que o clima de desconfiança não era unicamente produto da paranoia de Humberto. Havia elementos concretos, mesmo que com uma explicação diferente da que ele havia construído.

Terceiro: houve a ausência de uma premeditação elaborada. Humberto não havia comprado uma arma, não havia planejado o encontro, e não havia esperado em uma emboscada. A arma pertencia ao pai, guardada há anos. O encontro havia sido casual. Dilson havia passado pela rua de Humberto por acaso.

O Ministério Público rebateu cada ponto com a precisão de quem conhece todo o processo a respeito do privilégio. Humberto havia ficado em casa propositalmente naquela manhã. Havia faltado ao trabalho pela primeira vez em 8 anos. Havia esperado. A violenta emoção havia durado meses. Não fora uma reação instantânea, fora uma deterioração programada.

Havia segredos sobre o contexto, sim, mas nenhum deles era sobre traição. A certeza de Humberto havia sido construída a partir de uma má interpretação de dados reais que tinham uma explicação diferente. Ele havia decidido sobre a conclusão antes de verificar a premissa.

Com relação à premeditação, pegar a arma, seguir Dilson e alcançá-lo na rua foram uma sequência de atos deliberados, mesmo que não houvesse planejamento feito com dias de antecedência. E essa era a linha que a Promotoria repetia em cada audiência e que repetiria nas alegações finais.

Dilson Aragão estava indo buscar peças de encanamento na casa de um cliente. Foi morto porque um homem havia decidido meses antes qual era a realidade e nunca verificou se estava certo. A denúncia foi entregue 7 meses após o crime. Humberto foi mantido em prisão preventiva no Centro de Detenção de Itabaiana durante todo aquele período.

Rodrigo assumiu o estoque no armazém. O chefe de Humberto, que conhecia a família há anos, havia mantido a vaga aberta sem garantias, mas a havia mantido aberta. Rodrigo ia todos os dias, aprendia e mandava o salário. Letícia ia para casa. O comportamento dela foi tão abrupto que a professora de português registrou no diário de classe como uma mudança.

De observadora e de falar pouco, passou a ficar calada e quase não falava. A diretora conversou com Rosemary. Rosemary havia dito que eles estavam passando por uma situação difícil e que ela estava fazendo o que podia. A professora tomou nota e ficou de olho nas coisas. Às vezes, ficar de olho nas coisas é o máximo que alguém de fora pode fazer.

O julgamento de Humberto Melo pelo júri ocorreu numa quinta-feira de abril do ano seguinte. Tribunal Distrital de Itabaiana. Sala do júri no segundo andar, janelas com vista para a rua onde os edifícios antigos do centro projetam sombras até as 10h da manhã. Aquele cheiro específico de prédio público nordestino, papel velho, ar condicionado velho, café de refeitório que fica na memória, sete jurados, quatro mulheres, três homens, com idades entre 28 e 62 anos.

O julgamento durou 12h40. Rosemary foi ouvida como testemunha do Ministério Público. Entrou com aquela postura que havia desenvolvido ao longo dos meses do processo. Não era rigidez, era contenção. Sente-se, respire, responda. A promotora, Dra. Andreia Cavalcante, de 39 anos, especialista em crimes dolosos, perguntou sobre os segredos: sobre Débora, sobre Márcio, sobre a mochila, sobre as ligações com Dilson.

Rosemary confirmou tudo. Ela disse que tinha errado em não contar ao Humberto sobre a situação da Débora. Ela disse que tinha errado em guardar a mochila sem entender o que tinha dentro. Ela disse que nunca havia traído o marido.

“Você acha que se tivesse contado a ele, teria mudado alguma coisa?” a promotora perguntou.

Rosemary ficou em silêncio por um momento.

“Eu não sei, mas eu deveria ter tentado.”

A promotora anotou, mas não comentou. Dilson Aragão não pôde ser ouvido. Sua irmã Débora foi ouvida como testemunha de defesa. Ela confirmou a dívida com o ex-marido. Confirmou que Rosemary havia tentado ajudar. Confirmou que havia pedido segredo porque tinha medo do que o Márcio faria se soubesse que a família estava se movimentando.

O investigador Silvio Carvalho testemunhou sobre a mochila. Ele descreveu a abertura do envelope, a contagem e as 42 notas de R$ 100 organizadas com elásticos. Os jurados permaneceram em silêncio enquanto o investigador descrevia os eventos.

O Dr. Arlindo Santana, em sua argumentação oral, falou calmamente por 48 minutos, olhando nos olhos de cada jurado em diferentes momentos, usando aquela técnica de advogado de saber que o júri decide com a razão, mas quem vai para casa carrega a emoção. Ele falou sobre Humberto, sobre 8 anos de trabalho sem uma única falta, sobre uma casa construída tijolo por tijolo, sobre uma churrasqueira de tijolos que levou um fim de semana inteiro para ser construída, sobre um homem que havia construído tudo o que tinha e que vira tudo desmoronar dentro de sua cabeça durante meses sem conseguir parar.

“Havia segredos naquela casa,” ele disse. “Segredos que não eram sobre traição, mas não deixavam de ser segredos. Mensagens salvas, ligações encerradas, uma mochila com R$ 42.000 que ninguém explicava. Coloquem-se no lugar de um homem que viu isso, que não perguntou porque tinha medo da resposta, e que chegou a uma conclusão errada. A conclusão estava errada. O caminho que ele tomou foi errado, mas a dor que o levou até lá foi real.”

A Dra. Andreia Cavalcante ficou em pé por 42 minutos durante a argumentação final. Não elevou a voz nem uma única vez. Falou sobre Dilson, a respeito das peças de encanamento para um cliente chamado Raimundo Figueiredo, que havia confirmado que Dilson esteve lá naquela manhã, numa rota que era um caminho natural para quem saía da casa de Raimundo em direção ao centro.

“Dilson Aragão disse que passaria pela rua de Humberto porque era a rota mais curta do cliente para a loja. Ele estava indo trabalhar, estava fazendo o que faz. Todo comerciante nas manhãs de segunda-feira… foi morto porque um homem construiu uma certeza ao longo de meses sem uma única tentativa de verificação direta.” Pausa. “Humberto nunca perguntou à Rosemary, nunca perguntou ao Dilson, nunca perguntou a ninguém que pudesse lhe ter dado a informação correta. Ele construiu a resposta internamente e saiu para confirmar o que já havia decidido.” Outra pausa. “O júri não está aqui para julgar se Humberto sofreu. Ele está aqui para julgar o que acontece quando um homem substitui o questionamento pela certeza, e essa certeza mata uma pessoa inocente.”

Os jurados se retiraram às 22h32. Retornaram à 1h58. A sala, a quase 1h da manhã, tinha aquele silêncio de um espaço público num horário que não é hora de nada. Não era nem noite nem madrugada ainda. Esse era o ambiente que só pertencia a quem precisava estar ali. O presidente do júri leu o veredito.

Culpado de homicídio doloso qualificado. A agravante de motivo torpe foi reconhecida por cinco dos sete jurados. A agravante do uso de recurso que dificultou a defesa foi reconhecida por quatro votos, maioria simples. O argumento de privilégio foi rejeitado por 5 a 5.

O Ministério Público havia conseguido demonstrar que a sequência de atos — faltar ao trabalho, ficar em casa esperando para seguir Dilson na rua — constituía deliberação, e que a deliberação anula o privilégio. O juiz presidente fixou a pena em 18 anos de prisão em regime fechado.

Humberto escutou de olhos fechados. Quando o juiz terminou, ele olhou para a frente por um momento, então virou-se levemente em direção ao Dr. Arlindo Santana.

“A Rosemary vai poder me visitar?” perguntou em voz baixa.

O advogado disse que dependeria do que ela decidisse. Humberto acenou com a cabeça, olhou para frente de novo, e foi levado embora. Humberto Melo cumpre pena na penitenciária estadual de Sergipe em Nossa Senhora do Socorro, na região metropolitana de Aracaju. Rodrigo o visitou um mês após a transferência. Trouxe a broa de milho que Rosemary havia feito, a preferida de Humberto desde pequeno, aquele bolo úmido com queijo derretido em cima que ela fazia nos aniversários. Ele ficou durante toda a visita.

Ele falou do armazém, do estoque e do chefe que tinha mantido o seu emprego. Não falou sobre mais nada. Humberto havia comido o bolo em silêncio. Antes que Rodrigo fosse embora, ele disse:

“Você está fazendo a coisa certa aí.”

Rodrigo havia assentido com a cabeça e saído. Humberto havia ficado segurando o guardanapo do bolo na mão por mais um tempo. Depois que o filho foi embora. Letícia não foi visitá-lo. Disse a Rosemary que não conseguia ainda, que talvez um dia, mas não por enquanto. Rosemary havia dito que entendia, não a havia pressionado. Às vezes a compreensão é o máximo que uma mãe pode fazer.

Rosemary continua no restaurante. Ela chega às 8 da manhã, prepara o buffet, serve, limpa e sai às 4 da tarde. Na sexta-feira, após o julgamento, ela havia retornado ao trabalho. O gerente não havia dito nada além de boas-vindas. Seus colegas de trabalho também não disseram nada mais do que o necessário. Às vezes, o silêncio dos outros é a única gentileza disponível.

Débora, a irmã endividada, a irmã por causa de quem tudo havia começado sem que ninguém soubesse que estava começando, foi para Itabaiana depois do julgamento. Ela ficou na casa da Rosemary por uma semana. Elas ficaram em silêncio por um bom tempo, as duas, numa tarde de chuva fina que chegou sem avisar, aquela típica chuva de abril do sertão, não a tempestade de agosto, mas a mais suave, que cai lentamente por horas. Débora havia dito:

“Se eu não tivesse pegado o dinheiro emprestado com o Márcio…”

Rosemary tinha ficado em silêncio por um momento. Ela disse de forma firme, mas sem aspereza:

“Não vá por esse caminho.”

Débora tinha ficado olhando para a chuva pela janela. Ela havia ficado daquele jeito por muito tempo.

A família de Dilson Aragão, sua mãe Dona Sinhá, 72 anos, seu irmão mais novo, Elias, 34, sua ex-esposa Verônica, que havia se separado anos antes, mas que fora ao velório. Ela não havia entrado em contato com a família do Humberto após o crime. Não houve hostilidade declarada, houve distanciamento.

Dona Sinhá havia ido ao julgamento, sentara-se na primeira fila do público, ouvira tudo, a defesa, a acusação, o veredito, a sentença. Quando o julgamento acabou e as pessoas começaram a sair. Dona Sinhá permaneceu sentada por alguns minutos após a sala esvaziar. O escrivão do tribunal, que estava recolhendo os copos de água das mesas, havia perguntado se ela precisava de algo. Dona Sinhá disse que não. Ela estivera olhando para o lugar onde Humberto se sentara durante o julgamento.

Então ela se levantou com a dificuldade de alguém que tem 72 anos e passou o dia todo em uma cadeira dura. Ela saiu. Seu irmão Elias a esperava no corredor. Eles desceram as escadas do tribunal juntos, sem dizer nada. Na calçada em frente, com o sol da meia-noite — que não é sol, mas luz artificial — das ruas de Itabaiana, Elias perguntou:

“E agora?”

Dona Sinhá ficou em silêncio por um momento.

“Agora vamos para casa,” ela disse. “E amanhã a gente acorda.”

Eles tinham ido para casa. Na manhã seguinte eles acordaram. Como alguém acorda quando não há outra opção?

A loja de ferragens de Dilson foi vendida. A família devolveu a loja seis meses após o crime. Elias havia tentado administrá-la por um tempo, mas a loja pertencia a Dilson, do jeito que certas coisas pertencem a certas pessoas, não pelo nome na fachada, mas pela forma como tratam os clientes, pelo conhecimento que têm do estoque, pelas décadas de crédito que não se transferem com o contrato. O novo dono a vendeu, a reformou, pintou a fachada de azul quando antes era verde, mudou a placa, e os clientes antigos que chegavam e já não encontravam a mesma atmosfera saíam sem comprar nada. Outros ficaram. A cidade continua, o comércio continua, Itabaiana continua, e a mochila.

O dinheiro foi apreendido como prova no processo paralelo envolvendo Márcio; a investigação de onde veio aquele dinheiro e o que ele pagou é uma história que este canal contará outra vez. A mochila vazia, após os pertences serem catalogados, foi devolvida à Rosemary no fim do processo.

Rosemary ficara olhando para a mochila vazia na sala. Ela fora para o quintal, abrira o portão dos fundos que dava para a rua de serviço, colocara a mochila na lata de lixo, fechara o portão, ficara parada no quintal por alguns segundos, olhara para a churrasqueira de tijolos, tijolos que Humberto havia assentado um por um num fim de semana de outubro com argamassa nas mãos, com aquela concentração de um homem que faz as coisas como se fossem durar para sempre.

A churrasqueira estava lá, ela ia ficar ali por muito tempo. Rosemary ficou olhando por um tempo, um tempo que ela não saberia dizer quanto. Depois ela entrou, ligou o fogão, fez o jantar. A vida não para, por que você precisaria que ela parasse? Rachaduras que não se fecham sozinhas, que nunca se fecham sozinhas.