
Em 29 anos de cemitério, eu nunca precisei de regra escrita para saber o que era certo. Um enterro tem uma dignidade que não depende do tamanho do caixão, nem do dinheiro da família. Depende apenas de respeito. E respeito eu sempre entendi como a coisa mais básica que um vivo pode oferecer a quem não está mais aqui para cobrar.
Eu carregava isso comigo como um coveiro da velha guarda carrega tudo: em silêncio, sem discursos, apenas fazendo o meu trabalho. Mas na tarde abafada daquele novembro de 2006, eu fiquei parado com a pá na mão, assistindo à coisa mais indecente que aquele chão já havia recebido.
Eram filhos gritando palavrões sobre o caixão ainda aberto do próprio pai. Um sobrinho bêbado derrubando a coroa de flores e a chutando sem cerimônia na frente de todos. Um verdadeiro empurra-empurra antes de o caixão descer.
Agiam como se o Coronel Abílio Rezende, um homem que tinha construído parte daquela cidade com o próprio dinheiro, não merecesse sequer os dez minutos de silêncio que qualquer desconhecido receberia.
Quando o último deles foi embora batendo o portão, o cemitério ficou quieto de um jeito que eu nunca tinha sentido antes em quase três décadas. Não era o silêncio que eu conhecia. Era o tipo de silêncio que vem antes de uma resposta.
Eu devia ter ido embora, mas serviço é serviço, e eu fui terminar de cobrir a cova. Foi na primeira palada de terra que o cheiro mudou. Eu ainda estava com a pá na mão e o cheiro grudado na garganta quando percebi que o que tinha acordado ali dentro não era apenas a raiva de um defunto ofendido.
Era algo muito mais antigo do que o coronel, muito mais antigo do que eu. E eu era o único que ainda não sabia o tamanho do que havia sido quebrado naquela tarde.
Meu nome é Paulo Henrique Soares. Tenho 53 anos. Nasci e cresci em Anápolis, em Goiás, filho de pedreiro e de lavadeira. Fui criado no bairro São João, com a simplicidade de quem aprende cedo que a vida é o que você faz com o que tem nas mãos.
Entrei nesse cemitério com 24 anos por indicação do meu tio, que conhecia o fiscal da prefeitura e sabia que tinha vaga aberta. Não entrei com vocação ou achando que ia ficar. Entrei porque precisava da carteira assinada. Mas fui ficando. Fui ficando de ano em ano, sem perceber exatamente quando a coisa tinha deixado de ser apenas um emprego.
Coveiro de verdade não é aquele que apenas abre e fecha a cova e vai embora. Coveiro de verdade é aquele que entende que está sendo pago para fazer algo que ninguém quer fazer, e que age com o cuidado que o momento merece justamente por isso.
Eu tratava cada sepultura com o mesmo cuidado que daria ao meu próprio pai. Era assim que eu me orgulhava de funcionar, no silêncio de quando a família, o padre e o fotógrafo já foram embora.
Anápolis não é uma cidade pequena, mas também não é um lugar onde as histórias das famílias antigas ficam esquecidas. O Coronel Abílio Rezende era um desses nomes que você ouvia desde criança. Filho de fazendeiro, homem que não pedia favor e não devia nada a ninguém, que negociava e cobrava com a mesma firmeza.
Não era homem de festas ou de palanques. Era o tipo que agia nos bastidores e que as pessoas só percebiam o quanto estava presente quando ele já não estava mais.
Soube da morte dele numa segunda-feira de manhã. O enterro foi marcado para quinta-feira à tarde, no jazigo familiar do setor central. Preparei tudo com a antecedência de sempre, sem imaginar o que me aguardava.
A família começou a chegar pouco antes das quatro da tarde. Um cortejo numeroso, onde metade da presença é respeito genuíno, metade é obrigação social e a outra metade é o puro interesse em estar no lugar certo, na hora certa.
Tudo começou a dar errado antes mesmo do caixão ser posicionado. Dois dos filhos, que depois soube se chamarem Edilson e Marcos, chegaram em meio a um desentendimento antigo. A voz foi subindo enquanto o caixão ainda era carregado. Palavras duras cruzavam por cima da madeira.
Eu fiquei à distância, observando com o desconforto de quem não tem autoridade para intervir, mas sabe que algo está muito errado.
Foi então que o sobrinho bêbado chegou. Cambaleando, foi em direção à coroa de flores na cabeceira do caixão. Tropeçou e levou a coroa junto ao chão. Em vez de se curvar para arrumar, ele olhou para o arranjo, olhou para o caixão e chutou as flores para longe.
O padre parou a cerimônia. A discussão dos filhos, que havia diminuído, explodiu de novo. Um palavrão ecoou por cima das lápides com uma clareza que me fez fechar os olhos. Uma das filhas começou a chorar de vergonha. O padre tentou retomar duas vezes, mas desistiu.
A cerimônia terminou sem terminar. O caixão desceu em meio a empurrões. Quando o último membro da família atravessou o portão, o cemitério assumiu aquele silêncio de presença contida. O silêncio de algo que estava prestando atenção.
Voltei ao trabalho. E foi na primeira palada de terra que o cheiro de terra fresca sumiu. Em seu lugar, subiu um odor adocicado e pesado, com uma densidade anormal que descia e grudava no fundo da garganta, deixando um gosto indescritível na saliva.
As luzes da alameda principal, que funcionavam com sensor automático, começaram a piscar. Ainda era dia claro, mas elas piscavam num ritmo constante e intencional.
Voltei os olhos para a cova. A terra que eu tinha acabado de atirar estava enrijecendo de forma absurda. Endurecia antes de assentar, resistindo à pá como se o chão estivesse empurrando de volta com uma força que não pertencia a este mundo.
Trabalhei naquela cova por muito mais tempo do que o normal. Quando terminei e me afastei, o cheiro foi diminuindo, mas uma fina camada dele ficou presa na minha roupa. À noite, minha esposa notou o odor estranho. Disse a ela apenas que tinha sido um dia longo. Não dormi bem.
Na sexta-feira de manhã, Valdeci, o coveiro do turno da madrugada, me esperou na entrada. Ele não era homem de drama, mas relatou que, entre duas e três da manhã, ouviu uma voz grossa de um homem mais velho vindo do setor central. Não era uma voz de lamúria, mas de cobrança severa.
Rogério, o segurança da ronda, também havia aparecido na guarita às três da manhã, suando frio, dizendo que não voltaria ao setor norte naquela madrugada, sem dar mais explicações.
No sábado, os visitantes começaram a reclamar. Uma senhora disse que o vaso de flores que havia deixado no túmulo do marido tinha sumido. Fomos procurar e o encontramos perfeitamente intacto diante do jazigo do Coronel Abílio Rezende.
Nos dias seguintes, mais objetos sumiram de outras sepulturas e todos amanheciam perfeitamente organizados na frente do túmulo do coronel. Não havia sinais de invasão ou vandalismo nas câmeras. Era como se alguém estivesse recolhendo o que achava que lhe era devido.
Na terça-feira, Edilson, o filho mais velho que havia brigado no enterro, apareceu no cemitério. O rosto dele era o de alguém que não dormia há dias, consumido por um cansaço que ia além do físico.
Ele me contou que o pai havia aparecido no quarto dele por três noites seguidas. Não era um sonho. O coronel aparecia em pé, no canto do quarto, com a roupa do enterro e uma expressão de profunda decepção.
Na terceira noite, Edilson acendeu a luz rapidamente. O pai não estava mais lá, mas na parede, exatamente na altura dos olhos da aparição, havia uma mancha escura no formato de uma mão espalmada. Ele até me mostrou a foto no celular.
Ouvi tudo em silêncio. Disse apenas que estava prestando atenção aos acontecimentos e que continuaria a fazê-lo. Edilson foi embora tão exausto quanto chegou. O cheiro adocicado ainda pairava fraco no ar do cemitério.
Na quarta-feira de manhã, Dona Generosa apareceu. Era uma mulher miúda, de cabelos brancos e olhar firme, aparentando uns 75 anos. Pediu para falar com o coveiro mais antigo.
Sentei-me com ela num banco de cimento sob a sombra de uma árvore. O que ela me contou mudou tudo o que eu pensava saber sobre o chão em que pisava todos os dias.
Dona Generosa disse que conhecia o coronel desde 1963. Naquela época, o cemitério estava abandonado por falta de verbas. Foi o jovem Abílio Rezende quem financiou a construção do muro que cercava o lugar.
Não foi uma doação. Foi um acordo. E não apenas com o prefeito, mas com o que ela chamou, com extrema naturalidade, de “quem guarda as duas margens do rio”.
O acordo era simples: o coronel erguia o muro e, em troca, recebia a promessa de repouso com honra e dignidade quando chegasse a sua hora. Era a garantia de que seria recebido com respeito.
Por décadas, o pacto se manteve. O enterro daquela quinta-feira quebrou o acordo de uma forma violenta. E um pacto feito com quem guarda as duas margens não se desfaz com arrependimento vazio ou indiferença. Exigia reparação solene.
Ela me olhou profundamente e disse que eu, como guardião daquele chão, era o único que poderia e deveria levar essa informação aos filhos do coronel. Era a ordem natural das coisas. Em seguida, levantou-se e foi embora a pé.
Fiquei sozinho, organizando as ideias. Naquela mesma tarde, liguei para Edilson. Fui direto: disse que havia uma informação crucial e que precisava falar pessoalmente com todos os irmãos reunidos.
Dois dias depois, eu estava diante de todos os filhos do coronel numa sala de reuniões da empresa da família. Contei exatamente o que Dona Generosa havia me dito, com a frieza de quem apenas cumpre um dever que lhe foi imposto.
Alguns começaram ouvindo com ceticismo, mas a dúvida foi cedendo quando detalhei fatos que eles não tinham como saber. Edilson permaneceu calado o tempo todo, mas no final, seus olhos estavam vermelhos de choro contido.
Na semana seguinte, em uma manhã de sábado, a família inteira retornou ao cemitério. Sem brigas. Sem palavrões. Trouxeram flores, pedindo licença enquanto homenageavam. Um padre conduziu uma nova cerimônia, entregando ao coronel o silêncio e a honra que lhe foram negados no primeiro dia.
Eu fiquei à distância, com a pá na mão, sendo a presença invisível que um coveiro deve ser. Quando a família foi embora e o cemitério ficou quieto, o silêncio era outro. Era o silêncio da ordem restaurada. O cheiro adocicado sumiu para nunca mais voltar.
Não pretendo sair deste cemitério até me aposentar. Mas aqueles dias me ensinaram algo definitivo. O enterro é algo sério, mais sério do que imaginamos quando ignoramos as consequências.
Pacto é pacto. Não importa o tempo que passe. A dignidade que devemos aos mortos não é protocolo ou formalidade; é o reconhecimento do momento sagrado entre o último suspiro e o descanso eterno.
A diferença entre um cemitério que descansa e um que responde está, muitas vezes, nas mãos de quem ficou. Honre o que foi. E quando a escuridão parecer próxima demais, apegue-se a Deus. Pois foi vendo aquela família finalmente entregar a paz ao coronel que entendi: a fé não é fraqueza, é a sabedoria de quem sabe onde termina o humano e começa o que é muito maior do que nós.