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Casal recém-casado some no Rio durante lua de mel: saíram da pousada felizes e nunca mais foram vistos

Thiago Marcelino tinha aquele tipo de paciência que só a vida ensina quando a gente aprende desde cedo que as coisas boas não chegam correndo. Ele cresceu no Recanto das Emas, uma das regiões mais cheias do Distrito Federal, onde as casas se apertam umas nas outras, os ônibus passam lotados e o futuro parece que precisa ser construído tijolo por tijolo, com muito suor e sem atalho nenhum. Filho de dona Neuza, auxiliar de enfermagem que acordava todo dia às cinco da manhã, e de seu Adalberto, servidor público que se aposentou por invalidez depois de um acidente grave no trabalho, Thiago aprendeu desde pequeno o valor de cada real.

Desde os 15 anos ele já ajudava em casa. Nos fins de semana lavava carros no estacionamento de um supermercado grande em Samambaia. O sol queimava as costas, a água gelada molhava os pés, mas o dinheiro que ganhava dava para comprar arroz, feijão e às vezes um pacote de frango. Não era pobreza extrema, mas era aquela vida apertada onde nada sobra e tudo custa esforço.

Ele se formou técnico em contabilidade no Instituto Federal e, aos 26 anos, passou num concurso da prefeitura. Foi uma das maiores alegrias da família. No dia em que recebeu a notícia, o quintal de casa virou festa: churrasco, caixas de cerveja, vizinhos chegando, tia fazendo farofa, mãe chorando escondido na cozinha e pai sentado quieto, só olhando pro filho com os olhos brilhando. Na família Marcelino, conquista assim se comemora com o coração cheio, mesmo que a mesa não esteja farta.

Thiago tinha 29 anos quando conheceu Camila Rezende.

Camila era de Ceilândia, professora de educação infantil numa escola pública. Filha única de dona Vera, costureira que passava a noite costurando roupa pra fora, e de seu Valdir, que dirigiu ônibus por quase vinte anos até a empresa fechar e hoje roda de aplicativo. Camila tinha 27 anos, energia que não acabava nunca. Cabelo crespo natural, riso que tomava conta do corpo inteiro, jeito de chegar num lugar e deixar tudo mais organizado, não porque mandava, mas porque via onde as coisas podiam ficar melhor. Era o tipo de pessoa que lembra aniversário de todo mundo e, mesmo depois de seis horas lidando com criança de quatro anos, ainda perguntava pro outro como foi o dia dele.

Eles se conheceram na fila de um food truck de tapioca durante a feira anual do distrito, no Parque da Cidade. Thiago estava sozinho. Camila chegou com duas amigas, mas as amigas desistiram da fila. Depois de dez minutos, só ela ficou. Os dois começaram a conversar e, quando perceberam, já tinham passado quarenta minutos. A tapioca esfriou na mão dos dois e ninguém ligou.

O namoro durou dois anos e oito meses. Foi um relacionamento bonito, feito de coisas simples mas profundas: almoço na casa das mães, domingo no Parque da Cidade, conversa sincera sobre dinheiro, sobre sonho, sobre como queriam construir a vida juntos. Thiago era daqueles que anotava tudo num caderninho de papel porque acreditava que o que está escrito vira verdade. Camila era daquelas que, mesmo cansada, ainda tinha colo pra dar.

O pedido de casamento foi numa tarde de sábado no mirante da Chapada Imperial, a sessenta quilômetros de Brasília. Thiago planejou tudo com três semanas de antecedência, até olhou a previsão do tempo pra garantir céu limpo. Levou piquenique, suco de caju geladinho (o preferido dela) e um anel simples, comprado numa joalheria pequena em Itaquatinga. Quando ele se ajoelhou, Camila disse sim antes mesmo dele terminar a frase. Os dois choraram abraçados, com o vento batendo no rosto e Brasília inteira lá embaixo.

O casamento foi em março de 2026, numa igreja batista no Recanto das Emas, onde a mãe de Thiago era membro há dezoito anos. Cerimônia simples, cinquenta minutos. A festa foi até meia-noite no salão paroquial: buffet feito pelas tias, bolo de três andares feito por uma confeiteira do bairro, crianças correndo entre as mesas, avós dançando mais que os jovens, primo de Camila no som. Não foi casamento de rico, foi casamento de gente de verdade, quente, barulhento e cheio de amor.

A lua de mel no Rio de Janeiro era o grande sonho dos dois. Começaram a guardar dinheiro dezoito meses antes. Thiago abriu uma conta só pra viagem. Camila cortou streaming, deu aula particular nas tardes de quinta e sexta. Cada depósito era uma promessa. Camila nunca tinha visto o mar de perto. Thiago tinha ido uma vez na infância, numa excursão da escola, e lembrava mais do ônibus quebrado do que do oceano. A ideia de ver o mar juntos, como marido e mulher, era algo que os dois carregavam no peito sem precisar falar.

Reservaram uma pousada charmosa em Santa Teresa. Partiram de Brasília no dia 12 de abril de 2026. As famílias foram ao aeroporto. Tem foto: Thiago e Camila sorrindo na fila do embarque, as mães com orgulho no olhar. Foi a última vez que alguém da família viu os dois pessoalmente.

O avião pousou no Galeão com céu azul. Camila ficou quieta olhando pela janela enquanto desciam. Thiago apertou a mão dela. Não precisava de palavra.

Chegaram na pousada em Santa Teresa. Dona Iracema, a dona, recebeu com suco de maracujá gelado e um mapa do bairro feito à mão. Os primeiros dias foram perfeitos. Terça subiram ao Cristo Redentor cedo. Camila ficou parada, olhando a cidade inteira, favelas e prédios luxuosos no mesmo horizonte. Quarta foram pra Ipanema. Camila entrou no mar com o coração batendo forte. Saiu rindo, cabelo molhado, dizendo que o oceano era muito maior do que ela imaginava.

Quinta-feira, 15 de abril. Saíram da pousada às 8h40. Iracema acenou da varanda. Camila com mochila leve, Thiago com a câmera emprestada. Iam fazer o passeio de barco pela Baía de Guanabara.

A câmera de uma padaria registrou os dois às 8h52: sorrindo, Camila apontando alguma coisa, caminhando devagar, felizes. Depois disso… nada. Não chegaram ao pier. O barco saiu às 10h sem eles.

Os celulares pararam de responder. As mensagens ficaram com um tique só. As famílias entraram em desespero. Dona Vera, mãe de Camila, pegou o primeiro voo pro Rio. Seu Adalberto foi atrás. A polícia registrou o desaparecimento. A pousada ainda tinha as malas arrumadas, o caderninho de Camila aberto na última frase: “O rio é assustador e lindo ao mesmo tempo. Amanhã, o mar de dentro da baía.”

As redes sociais do Distrito Federal explodiram. Professores, servidores, vizinhos de Ceilândia e Recanto das Emas começaram a compartilhar. A deputada Renata Campos tomou o caso. A polícia achou uma imagem do casal caminhando. Uma vendedora de água de coco lembrou deles. Um homem de camiseta cinza seguia atrás.

Um testemunho anônimo falou de dois homens abordando o casal perto do cais e de uma lancha branca saindo com eles.

A empresa da lancha era fantasma. Escritório vazio. CNPJ de fachada.

Hoje, 18 dias depois, Thiago e Camila seguem desaparecidos.

Não são apenas dois nomes num boletim de ocorrência. São duas pessoas que pouparam por um ano e meio pra ver o mar. Duas pessoas que riam com o corpo inteiro, que anotavam sonhos em caderninhos, que acreditavam que esforço honesto constrói futuro. Duas pessoas que saíram de Brasília cheias de esperança e não voltaram.

O silêncio continua. As famílias continuam esperando. E o Brasil inteiro, devagar, começa a perguntar: onde estão Thiago e Camila?