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Relatos de Coveiros | Histórias de Terror no Cemitério.

Você já se perguntou o que acontece depois que um corpo é enterrado? Alguns dizem que tudo termina, mas para aqueles que trabalham em um cemitério como coveiro, a morte é apenas o começo. Prepare-se para ouvir relatos perturbadores de quem convive com os mortos todos os dias. Estes são os relatos de coveiros.

E depois de ouvir isso, você talvez nunca mais olhe para um cemitério da mesma maneira.

História um: O falecido que retornou.

Meu nome é Afonso, moro em Patos de Minas, Minas Gerais, e trabalho como coveiro desde os 22 anos. Tenho 58 agora, então você pode imaginar quantas coisas estranhas já vi neste lugar. Mas nenhuma delas me afetou tanto quanto o que aconteceu em um final de tarde de julho de original 2003.

Era uma quarta-feira. Eu estava sozinho no cemitério porque o outro coveiro, Sebastião, estava ausente devido à hospitalização de sua esposa. O sepultamento estava marcado para as 17h. Pertencia a um homem chamado José Maurílio. Ele havia morrido durante o sono.

“Ataque cardíaco,” disseram eles.

A família era de uma área rural e só conseguiu trazer o corpo no mesmo dia. Tudo estava acontecendo de última hora. O céu estava pesado, o vento soprava forte e eu já sentia que algo estava errado apenas olhando para o caixão. O corpo chegou por volta das 16h, mas a cerimônia foi rápida. Quase ninguém apareceu. Acho que foi por causa do horário, ou talvez porque o falecido não tivesse muitos amigos.

Depois que os poucos parentes restantes saíram, fiquei sozinho ali. Peguei a enxada e fui terminar o sepultamento. Mas foi quando me curvei para jogar a primeira pá de terra que percebi: o caixão estava tremendo. No começo pensei que fosse o vento, mas a árvore ao meu lado nem se mexia. A madeira estalou. Meu corpo gelou instantaneamente. Parei, respirei fundo e tentei me convencer de que era apenas a madeira cedendo sob o peso. Continuei jogando terra, embora minhas pernas estivessem bambas.

Foi então que ouvi. Muito suavemente, um som de batida, como se alguém estivesse batendo com a mão dentro do caixão. Congelei por um momento, então o som veio de novo. Três batidas nítidas e precisas, seguidas por um som abafado, como se alguém estivesse tentando gritar, mas a boca estivesse cheia de algodão.

Joguei a enxada longe e corri para a administração do cemitério, que ficava do outro lado. Liguei para a funerária e disse que algo estava errado, que talvez o homem tivesse sido enterrado vivo. Eles riram nervosamente, mas enviaram uma viatura até lá. Quando abriram o caixão, ele estava morto, mas algo era estranho. Seus braços estavam dobrados de uma forma bizarra, como se tivesse tentado empurrar a tampa.

Os olhos estavam arregalados, a boca aberta, e o algodão… o algodão não estava mais na boca; estava preso entre os dentes, como se ele tivesse tentado cuspi-lo. O perito alegou que foi um espasmo pós-morte, uma contração dos músculos após a morte. Disseram que isso poderia acontecer, mas eu sabia. Eu o ouvi bater. Eu o ouvi tentar gritar.

Depois daquele dia, nunca mais quis fazer um funeral sozinho. E ainda hoje, depois de tantos anos, há noites em que acordo com o som de três batidas na minha janela, sempre às 17h, como se José Maurílio ainda quisesse ser ouvido.

História dois: A tumba amaldiçoada do bloco 7.

Meu nome é Roberto, tenho 63 anos e sou de Nossa Senhora das Dores, no interior de Sergipe. Trabalho como coveiro há mais de 40 anos. Já vi coisas que fariam muitos homens largarem a pá e correrem sem olhar para trás. Mas há um caso, apenas um, que nunca consegui esquecer.

Era início de novembro, véspera do Dia de Finados. O cemitério ia receber visitantes de todo o estado. Então a prefeitura nos mandou limpar tudo com antecedência. Varrer, aparar o mato, pintar as lápides, as tarefas de costume. Fiquei encarregado de dar uma limpeza geral no bloco 7, a seção mais antiga e remota do cemitério. Lá, as tumbas são de tempos antigos, feitas de pedra bruta, muitas quebradas, sem nome, outras com as letras apagadas. Sempre houve uma atmosfera pesada naquela área. Nós, coveiros, a chamávamos de área podre.

Enquanto limpava, notei uma sepultura que era diferente das outras. Era simples, pequena, mas parecia nova demais, como se tivesse sido feita recentemente em meio a tanta coisa velha. A cruz de madeira era preta, queimada nas pontas, e nela havia apenas uma palavra: Desterro.

Não estava no mapa do cemitério, e ninguém da equipe sabia de qualquer sepultamento recente ali. Achei estranho, mas continuei. Comecei a cortar o mato ao redor até sentir um odor insuportável. Era uma mistura de enxofre, carne podre e ferrugem. Olhei em volta, pensando ser algum animal morto, mas não encontrei nada.

No dia seguinte, quando voltei ao lote sete, o chão ao redor daquela tumba estava afundado, como se algo tivesse cavado de dentro para fora. A madeira da cruz havia rachado no meio e o cheiro estava pior. Senti minha visão escurecer e uma forte tontura. Encostei-me em uma tumba próxima e ouvi um sussurro. Não era em português, era uma língua confusa, grossa, gutural. Parecia que estava saindo do chão.

Corri de volta para a administração e pedi ao responsável para isolar a área. Claro que riram da minha cara, mas naquela mesma noite, o segurança que estava patrulhando foi encontrado inconsciente na entrada do cemitério, com marcas nas costas, como se tivesse sido queimado com um ferro quente. E nos dias seguintes, três pessoas da aldeia vizinha morreram inexplicavelmente.

Decidi voltar lá sozinho em um final de tarde e cavar aquela sepultura. Eu queria acabar com aquela agonia. Cavei por quase uma hora até que a pá bateu em algo duro. Era uma caixa, mas não era um caixão. Era uma caixa de pedra trancada com correntes. No meio, um símbolo esculpido. Parecia um olho com chamas ao redor. Não tive coragem de abrir. Cobri tudo de novo, fiz uma oração e saí.

No dia seguinte, a caixa havia desaparecido. O solo estava solto, como se tivesse sido remexido novamente. E a cruz queimada até a raiz, como se o fogo tivesse brotado de dentro da terra. Até hoje, ninguém nunca mais tocou no bloco 7. O governo da cidade colocou placas alertando sobre o risco de desabamento para manter os visitantes afastados, mas quem trabalha lá sabe que o perigo é algo totalmente diferente. Desterro ainda está lá esperando, e ninguém tem coragem de tocá-lo novamente.

História três: Aqueles que estão fora após a meia-noite.

Meu nome é Alcides, tenho 54 anos e moro em Capanema, no interior do Pará. Trabalho como coveiro desde os 19 anos. É uma profissão solitária que exige paciência, força e, acima de tudo, coragem. O que aconteceu comigo foi por volta de 2015, quando aceitei o turno da noite no cemitério municipal. O antigo coveiro noturno, Aderbal, se aposentou e ninguém mais quis assumir o turno. Disseram que era por medo, mas pensei que fosse apenas superstição.

Aceitei imediatamente. Eu precisava do dinheiro e nunca tive medo da morte. O problema nunca foi o que está dentro da cova, mas o que está fora dela. As primeiras semanas foram calmas. Eu patrulhava, limpava o que podia e às vezes ajudava a funerária com sepultamentos atrasados. Mas depois de um tempo, comecei a notar coisas estranhas.

Por volta das 00h40, os sensores de movimento sempre disparavam, mesmo quando não havia vento. Eu ia ao local indicado e não encontrava nada, nem animais, nem folhas caídas, mas uma sensação arrepiante ficava comigo até o fim da jornada. Na terceira semana eu vi algo. Eu estava caminhando entre os blocos centrais quando vi um homem de branco parado ali olhando para uma lápide. Eu não conseguia ver seu rosto, mas ele parecia estar flutuando. Ou talvez meus olhos estivessem me enganando. Corri até lá, pensando ser um intruso, mas não havia ninguém, nem marcas no chão.

A partir daí, tudo piorou. Comecei a ouvir passos atrás de mim. Vozes sussurrando meu nome. Senti toques gélidos nos meus ombros e pernas. Uma vez fui ao banheiro do cemitério e encontrei o espelho todo embaçado, como se alguém tivesse respirado nele por dentro. E no centro do vidro, escrito com um dedo, a palavra:

“A corda.”

Minha saúde mental começou a se deteriorar. Dormia mal, sofria de enxaquecas, via sombras mesmo fora do cemitério, mas insistia que era estresse. Tudo mudou nas primeiras horas de uma segunda-feira. Chovia muito, o gerador pifou e tive que ir aos fundos para reiniciá-lo. Foi quando vi um clarão de relâmpago: o cemitério estava cheio de gente, mas nenhum deles vivo. Havia dezenas, talvez centenas, caminhando entre as tumbas, silenciosos, molhados, com olhos profundos e vazios. Um deles parou, olhou direto para mim, e era meu pai. Ele havia morrido em 2002. Desmaiei ali mesmo. Acordei no chão com o rosto encharcado de lama e folhas. Não havia mais ninguém lá.

No dia seguinte pedi demissão; não aguentei mais. Desde então, nunca mais pisei em um cemitério à noite. Mas o que mais me assusta não são as memórias, é o fato de que toda noite, às 00h40, meu relógio digital sempre apita, mesmo estando desligado, como se alguém ou algo ainda quisesse me acordar.

História quatro: A sepultura com o meu nome.

Meu nome é Osvaldo, tenho 58 anos e moro em Águas Belas, no interior de Pernambuco. Trabalho como coveiro desde os meus vinte e poucos anos. Já vi muita coisa que desafia a lógica, mas esta história me assombra há anos, e só agora encontrei coragem para contá-la.

Era um amanhecer frio de agosto. Fui chamado para passar a noite no cemitério porque houvera uma invasão recente. Disseram que alguém tentou abrir uma das tumbas para roubar joias dos falecidos. Fiquei encarregado de vigiar até o amanhecer. Tudo corria normalmente até que, por volta das 3 da manhã, ouvi um som estranho, como uma pá batendo em terra macia.

Pensei que fosse algum tipo de ladrão tentando cavar. Peguei minha lanterna e fui para os fundos do cemitério, perto da parte que estava abandonada há anos. Quando cheguei lá, parei bruscamente. Havia uma cova recém-cavada, a terra ainda úmida e solta, com marcas de pá ao redor. E o que é pior, uma lápide já havia sido colocada ali, uma lápide que não estava lá horas antes.

A lanterna tremeu na minha mão. Aproximei-me lentamente e apontei a luz diretamente para a pedra. Meus joelhos fraquejaram quando li o que estava escrito:

“Osvaldo Nunes da Silva, 1967, 2025. Que descanse em paz.”

Era meu nome, minha data de nascimento e o ano atual. Senti o sangue esvair do meu corpo. Olhei em volta, pensando ser algum tipo de brincadeira, mas eu estava sozinho ali, completamente sozinho. A sepultura parecia ter sido cavada por alguém com experiência. Era profunda, bem feita.

Corri de volta para casa e pedi demissão naquela mesma semana. O administrador achou que eu estava surtando e disse que não havia nenhuma lápide nova no cemitério. E quando voltei dias depois, a sepultura não estava mais lá. Nada, nem sinais de terra remexida. Mas a partir desse ponto, minha vida desandou. Sonhos frequentes com o cemitério. Eu dentro da cova, sendo enterrado vivo, sufocando, gritando e ninguém me ouvindo. Uma noite acordei com as mãos cobertas de terra e as unhas quebradas, como se estivesse tentando escapar de algum lugar.

Não trabalho mais como coveiro. Mudei-me para longe daquela cidade, mas o medo não passou. Às vezes, na escuridão da madrugada, ouço o som de uma pá batendo no chão, como se alguém ainda estivesse cavando, como se meu tempo tivesse sido marcado.

História cinco: Presença na sala de velório.

Meu nome é Érico, tenho 45 anos e sou coveiro em Itabuna, no interior da Bahia. Trabalho com a morte há quase 20 anos e confesso que, depois de tudo o que vi, nada mais me assusta. Até aquela noite.

Era verão e o calor sufocante fazia o suor escorrer pelas costas mesmo dentro da funerária. Tínhamos acabado de receber o corpo de um senhor idoso, muito conhecido na cidade, mas com uma reputação um tanto estranha. Diziam que ele tinha inimigos, que se metia em coisas que não devia. A família pediu um velório simples. Depois que os familiares saíram, eu e o assistente ficamos responsáveis por vigiar o local. O caixão estava fechado, a luz fraca iluminava a sala silenciosa e o ar parecia parado, pesado demais.

Senti um peso no peito que não era de cansaço. Algo não estava certo ali. De repente, senti um calafrio que percorreu da nuca até a cabeça. O tipo de sensação que faz o corpo todo tremer, mesmo quando você está suando. Olhei para o assistente, que parecia focado, mas havia algo estranho em seu rosto, como se ele também estivesse sentindo algo, mas tentasse esconder.

A luz começou a piscar em um ritmo irregular, deixando sombras dançantes nas paredes. O silêncio foi quebrado por um gemido baixo, quase um sussurro, vindo do caixão. Congelei. O gemido ficou mais alto. Transformou-se em um lamento agonizante que fez meu coração disparar no peito. O assistente não reagia. Ele estava parado, olhando fixamente para o caixão, como se estivesse hipnotizado.

Movi-me para mais perto, tentando entender o que estava acontecendo, e o gemido transformou-se em um grito abafado, um som que não parecia humano. Era como se algo estivesse lutando para sair daquele corpo imóvel. A tampa do caixão começou a ranger lentamente, com um som que parecia rasgar o silêncio da funerária. Eu não conseguia me mexer. A madeira moveu-se lentamente até que uma fresta apareceu.

Então os olhos do morto se abriram, mas não eram olhos normais. Eram dois buracos negros, vazios, sem vida, que me paralisaram no lugar. Um vazio tão profundo que parecia sugar toda a luz da sala. Foi quando um forte cheiro de enxofre encheu a sala, misturado ao cheiro de carne podre. O ambiente pareceu encolher, o ar tornou-se sufocante.

Então uma sombra escura subiu pelas paredes, espalhando-se pela sala como fumaça viva, uma presença que preenchia tudo. O assistente tentou ligar a luz, mas nada aconteceu. Tudo ficou escuro. Eu estava sozinho na escuridão, ouvindo apenas os gritos abafados daquele corpo que se recusava a descansar. Um sentimento de pavor me dominou. Meu corpo tremia. A respiração tornou-se curta. Eu queria correr, mas meus pés não obedeciam. Parecia que algo invisível estava me segurando no lugar.

Quando o amanhecer finalmente chegou, a família voltou e encontrou tudo como antes. A sala estava iluminada, o caixão fechado, nada fora do lugar. Tentaram me convencer de que fora tudo um pesadelo, resultado do calor e da fadiga. Mas eu sei o que vi. Aquele velho não tinha partido. Aquela presença sombria não o deixaria descansar em paz.

História seis: O caixão selado e os avisos na noite.

Meu nome é Paulo, tenho 52 anos e trabalho como coveiro em Serra Negra, no interior de São Paulo. Já passei por muitas coisas estranhas ao longo dos anos, mas nada se compara ao que aconteceu em uma noite chuvosa que ficará para sempre gravada na minha memória. Tudo começou quando o administrador do cemitério me chamou para um trabalho especial. Uma nova sepultura precisava ser aberta para um corpo que chegara recentemente, mas este caixão era diferente de qualquer outro. Estava selado, fechado com um lacre pesado, e tinha um símbolo na tampa que eu nunca vira antes. Um círculo com desenhos intrincados, como um selo antigo usado para aprisionar algo.

Era quase meia-noite quando eu e meu assistente chegamos ao cemitério. A chuva caía pesadamente e o vento fazia as árvores se contorcerem como se estivessem vivas, sussurrando segredos em meio ao silêncio pesado do lugar. Começamos a cavar o buraco, mas algo estava errado. O chão parecia mais duro, como se tivesse sido remexido recentemente, e cada pá de terra que eu jogava parecia mais pesada. À medida que o buraco crescia, senti uma presença cada vez mais forte ao meu redor. Comecei a ouvir vozes baixas, quase inaudíveis, como sussurros vindo do nada na escuridão.

No começo, pensei que fosse apenas o vento, mas meu assistente também parou e ficou imóvel, ouvindo aquele som estranho. O sussurro repetia meu nome repetidamente. Quando o caixão finalmente chegou, coloquei-o no fundo do buraco. Olhei novamente para o selo na tampa e senti um medo profundo, como se tivesse libertado algo que não devia.

Foi então que os avisos começaram. No dia seguinte, encontrei meu cachorro morto na porta da frente. Seus olhos estavam arregalados, fixos em um espaço vazio, como se tivesse visto algo horrível antes de morrer. A dor de perder meu amigo foi apenas o começo. As noites seguintes foram um inferno. Comecei a ouvir passos e sussurros dentro de casa, mesmo estando sozinho. Objetos desapareciam e reapareciam em lugares diferentes. Portas abriam e fechavam sem motivo, e aquele cheiro de enxofre tornava-se cada vez mais perceptível.

Comecei a ter sonhos terríveis sobre uma figura encapuzada, uma sombra que aparecia sempre que eu fechava os olhos. Ela me mostrava o selo no caixão e dizia que uma alma vingativa estava presa ali, uma entidade que nunca deveria ser perturbada. Uma noite, acordei com uma voz rouca sussurrando meu nome na escuridão do quarto. Tentei ligar a luz, mas nada aconteceu. Quando finalmente olhei no espelho, vi um rosto deformado e pálido atrás de mim, uma expressão de ódio que congelou meu sangue.

Desde então, minha vida se transformou em um pesadelo. Não consigo mais dormir direito. Sei que aquela maldição me persegue e que o caixão selado guarda algo que ainda quer se libertar.

História sete: A possessão na noite do sepultamento.

Meu nome é Marcos, tenho 38 anos e sou coveiro em uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul. Trabalhar com a morte sempre fez parte da minha vida, mas nunca acreditei em histórias de fantasmas até aquela noite.

Era uma noite fria, com nuvens pesadas cobrindo o céu. Fiquei responsável pelo sepultamento de uma mulher que morrera de causas misteriosas. Ninguém na cidade falava muito sobre ela, mas a atmosfera ao redor do cemitério estava diferente. Havia uma tensão no ar. Enquanto eu ajustava o caixão na cova, senti um calafrio percorrer minha espinha, como se alguém estivesse me observando atentamente. A terra parecia mais pesada que o habitual, quase viva.

Notei uma sombra escura movendo-se rapidamente entre as árvores, desaparecendo assim que tentei focar o olhar. Mal pude acreditar no que vi, mas aquele movimento me deixou inquieto. Quando fechei o caixão, ouvi um som estranho, um gemido gutural vindo de dentro do corpo. Era impossível. O caixão estava fechado, a tampa firmemente no lugar, mas aquele som saiu, um ruído que ninguém conseguia explicar. Um grito abafado, carregado de dor e ódio. À medida que eu jogava a terra, aquele grito transformou-se em um lamento, um clamor desesperado que parecia gritar por socorro.

Naquela mesma noite, quando cheguei em casa, comecei a sentir sua presença. As sombras pareciam ganhar vida. Eu ouvia sussurros pela casa, vozes baixas chamando meu nome. Senti mãos invisíveis tentando me agarrar no escuro, como se a entidade estivesse tentando me arrastar para o mesmo destino que ela. Às vezes, meus olhos captavam flashes de olhos brilhantes no canto da sala, desaparecendo quando eu tentava olhar. Sei que algo está me assombrando, que a possessão daquela noite não se limitou àquela mulher enterrada. Ela veio comigo, agarrada à minha sombra, esperando o momento certo para se manifestar plenamente.

História oito: A tumba sem nome.

Meu nome é Silvano, tenho 63 anos e sou coveiro em um antigo cemitério no interior de Minas Gerais, em uma cidade chamada Conceição das Almas. Trabalho aqui desde os 17 anos. Mas há um canto deste cemitério que ninguém gosta de tocar. Uma sepultura esquecida coberta de mato, sem nome, sem lápide, apenas uma cruz de madeira apodrecida pelo tempo.

Dizem que esta sepultura foi cavada às pressas na década de 1940, quando encontraram o corpo de uma mulher no matagal perto do rio. Ninguém sabia quem era, ninguém reclamou. Enterraram-no ali mesmo, sem cerimônia. Desde então, todos que tentaram reformar aquele canto adoeceram ou sofreram acidentes.

Por muitos anos, evitei passar por ali à noite, mas certa vez me mandaram dar uma olhada. Eram quase 20h quando fui sozinho com uma lanterna e minhas ferramentas. A escuridão envolvia tudo e o vento soprava pelas tumbas como um lamento antigo. À medida que nos aproximávamos da tumba, a lanterna começou a falhar. O ar ficou pesado. Tive a sensação de que estava sendo vigiado. O mato crescia alto ao redor da cruz. Senti um cheiro de podre misturado com terra úmida. Foi quando ouvi um som como um lamento profundo vindo de dentro da terra.

No começo, pensei que minha mente estivesse pregando peças, mas então o chão começou a tremer levemente. A cruz caiu sozinha, e o que vi a seguir foi algo que nunca esquecerei. Um vapor escuro e frio, quase humano na forma, ergueu-se do chão. Ele se levantou lentamente e eu não conseguia me mexer. Aquela figura não tinha rosto, apenas olhos profundos que brilhavam em vermelho. Sua energia percorreu meu corpo como gelo. Aquela presença era puro ódio. Ela se aproximou de mim, flutuando sem fazer som. Então sussurrou algo diretamente na minha mente:

“Eles me esqueceram, eles me apagaram, mas agora eu me lembro de você.”

Corri o mais rápido que pude, tropeçando entre tumbas e ferramentas. Atrás de mim, o vento parecia falar, assobiando meu nome em meio a gemidos. Naquela noite tive uma febre alta e não consegui dormir por dias. Sonhei com aquela sombra parada ao pé da minha cama, me observando. Pedi ao administrador para cercar a área e nunca mais mandar ninguém lá. Mas às vezes na madrugada, quando estou de plantão, ainda ouço aquele som. Um lamento subindo das profundezas da terra, da sepultura sem nome, como se ela ainda estivesse esperando por alguém.

História nove: O ritual das 3 da manhã.

Meu nome é Agenor, tenho 54 anos e trabalho como coveiro em um cemitério longe da cidade de São Roque, em São Paulo. Estou neste ramo há mais de 30 anos. Mas o que aconteceu em uma manhã de inverno foi, sem dúvida, a coisa mais sombria que já presenciei.

Eram cerca de 2h40 da manhã. Eu estava de plantão porque houvera uma tentativa de roubo de túmulo dias antes. Sentei-me em silêncio na guarita com minha garrafa de café e uma lanterna velha. O frio era de rachar os ossos. Mas então, por volta das 3 da manhã, ouvi o som do portão dos fundos se abrindo. Não era possível. O cadeado estava lá. Saí do posto de guarda silenciosamente.

Ao caminhar pelos corredores, notei um cheiro forte de cera de vela derretida misturada com sangue. Escondi-me atrás de uma árvore e vi três figuras encapuzadas, vestidas de preto, reunidas ao redor de uma sepultura recém-fechada. Uma jovem fora enterrada ali apenas dois dias antes. Eles murmuravam palavras em uma língua que não era nem português nem humana.

Do centro do círculo, eles tiraram o que parecia ser um feto animal. Uma das figuras encapuzadas abriu a sepultura com as próprias mãos, como se possuísse força sobre-humana. Quando abriram o caixão, colocaram o feto no peito da mulher morta e começaram a cantar mais alto. Foi quando o impossível aconteceu. O corpo da jovem começou a se mover, embora já estivesse inchado pela morte. Sua cabeça virou lentamente e um líquido escuro escorreu de sua boca.

Mas o pior foi quando ela abriu os olhos. Olhos negros como carvão, sem brilho, sem alma. Aquela coisa estava viva de novo. Naquele momento, perdi o controle das minhas pernas. Quebrei um galho seco sob meu pé, e as três figuras encapuzadas se viraram em minha direção. Um deles levantou o braço e apontou diretamente para mim.

Mesmo de longe, senti uma onda de calor seguida de tontura. Tive que correr. Corri como nunca corri na vida. Na manhã seguinte, voltei com reforços. A sepultura estava intacta. Não havia sinal de que alguém a tivesse aberto. O feto, o sangue, as figuras — tudo havia sumido, mas havia marcas no chão, pegadas profundas, maiores que as humanas, levando em direção ao bosque atrás do cemitério. Desde então, toda manhã às 3 horas em ponto, acordo com o som de alguém batendo na minha janela. Três batidas nítidas. Nunca há ninguém lá fora. E o mais estranho é que a garota enterrada naquela sepultura não tem mais foto em sua lápide. Alguém ou algo a arrancou.

História dez: O caixão vazio.

Meu nome é Arlindo, tenho 61 anos e sou coveiro em um antigo cemitério na zona rural de Goiás. Trabalho aqui há mais de quatro décadas. Mas nenhuma história me afetou tanto quanto a do caixão vazio. Isso aconteceu há cerca de seis anos.

Um homem da cidade foi encontrado morto dentro de sua casa, trancada por dentro, sem sinais de violência. Seu nome era Rômulo. Ele vivia isolado. Colocamos o caixão na capela do cemitério por algumas horas até que o padre chegasse. Havia um silêncio perturbador. O caixão estava selado. Naquela noite fui verificar se estava tudo em ordem. A capela estava fechada, tudo trancado.

Voltei para casa, mas por volta das 3 da manhã, o vigia me ligou dizendo que ouvira gritos vindos de dentro da capela, gritos de dentro de um caixão fechado e selado. Corri de volta. Arrombamos a porta juntos. E lá, no centro da capela, jazia o caixão aberto. A tampa estava de lado e não havia mais nada lá dentro. O corpo simplesmente desapareceu. O mais perturbador, porém, foi o que encontramos no fundo do caixão: marcas profundas de unhas, como se alguém tivesse lutado lá dentro, tentando desesperadamente sair.

Nas paredes da capela, por dentro, havia palavras escritas com sangue, palavras retorcidas, como se tivessem sido escritas por alguém em agonia. Não estavam em português, mas nunca esqueci o símbolo que aparecia repetidamente, uma espécie de olho perfurado por uma cruz invertida. Depois disso, o cemitério foi fechado por dois dias. A polícia veio, mas encobriram tudo. Dizem que as filmagens das câmeras foram misteriosamente apagadas. O caixão foi enterrado vazio. Mas o que é mais assustador é o que continua acontecendo até hoje. Na primeira noite de lua nova de cada mês, o sino da capela toca três vezes sozinho. É sempre às 3 da manhã.

História onze: O choro na ala dos anjinhos.

Meu nome é Renato, tenho 59 anos, e sou coveiro em um cemitério no interior do Paraná, em uma pequena cidade chamada Ribeirão Claro. E se há uma parte do cemitério que sempre evitei, mesmo em plena luz do dia, é a chamada “seção dos anjinhos”, onde ficam os túmulos de crianças que morreram cedo demais. É um lugar esquecido.

Certa noite, eu estava terminando meu turno quando ouvi um som abafado, muito fraco à distância, como uma criança chorando. Pensei que fosse coisa da minha cabeça, mas nos dias seguintes, sempre no mesmo horário, por volta das 2h30 da manhã, aquele chorinho voltava, baixo, sofrido. Na terceira noite, criei coragem e fui até lá. O choro tornou-se mais claro. Parecia mover-se entre as pequenas tumbas.

Quando me agachei perto de uma sepultura específica, o som parou. Um túmulo de mármore branco com uma pequena escultura de anjo no topo. A lápide estava rachada, mas foi ali que vi algo que me gelou até os ossos. As marcas de duas mãos pequenas estavam impressas no lado de dentro do vidro da fotografia da lápide, como se alguém o tivesse tocado por dentro, tentando sair. Senti um peso no meu corpo, como se algo estivesse me segurando pelo tornozelo. Olhei para baixo e vi dedinhos saindo de entre as fendas da terra, tentando alcançar minha perna. Corri de lá sem olhar para trás.

Na manhã seguinte, o túmulo parecia intacto, mas o vidro na fotografia tinha uma nova rachadura, exatamente onde eu vira as mãozinhas. Um ex-funcionário me contou que, anos atrás, uma criança fora enterrada viva por engano. Ela fora declarada morta no hospital rural, mas o erro só foi descoberto depois que a sepultura foi selada. Desde aquele dia, toda vez que ouço seu choro, rezo para que ela possa, de alguma forma, encontrar a paz que lhe foi tirada.

História doze: O coveiro que nunca partiu.

Meu nome é Damião, tenho 55 anos e sou coveiro em um cemitério centenário no sertão de Pernambuco, em uma cidade chamada Triunfo. O que é mais assustador sobre este lugar não são os corpos enterrados, mas o que continua a caminhar entre eles. Antes de mim, o coveiro deste cemitério por quase 40 anos foi um homem chamado Severino. Um velho duro, quieto. Ele tinha o hábito de falar com as lápides.

“Amigos,” costumávamos dizer que ele falava com os mortos, e ele mesmo respondia:

“É melhor falar com eles do que com os vivos.”

Severino morreu em um dia nublado, ali mesmo no cemitério. Teve um ataque cardíaco enquanto cavava uma sepultura. Morreu com a pá na mão. Foi enterrado ali mesmo. Poucos dias depois, o novo vigia noturno veio até mim aterrorizado, dizendo que vira um velho caminhando entre as tumbas com uma pá no ombro. Pelas roupas e pelo jeito de andar, eu sabia: era Severino.

Na noite seguinte, eu mesmo vi. Vi uma figura parada à beira do muro com sua silhueta inconfundível e a pá atravessada nas costas. Ele não fazia nada, apenas ficava ali, olhando para o portão. Coisas começaram a acontecer: túmulos que amanheciam adornados com flores frescas, velas acesas sozinhas em tumbas abandonadas.

Uma noite, fui chamado por um grupo que tentava realizar rituais dentro do cemitério. Encontrei os cinco desmaiados no chão, com os olhos arregalados de terror. Um deles jurou que um velho apareceu no escuro e gritou com eles com tanta raiva que o chão pareceu tremer. Depois disso, coloquei uma pequena cruz com o nome de Severino perto da entrada. Toda vez que chego ao trabalho, cumprimento-o em voz alta, como se ele ainda estivesse lá.

Sempre que passo por sua sepultura, o chão está diferente, como se tivesse sido mexido à noite. A verdade é que o velho Severino nunca partiu. Ele continuou fazendo seu trabalho, protegendo o cemitério. Ele morreu cavando sepulturas e, ainda hoje, parece que não conseguiu largar a pá. Trabalho aqui com respeito e silêncio, porque sei que não estou sozinho. Estes foram os relatos vividos por coveiros em cemitérios pelo Brasil. A morte, às vezes, é apenas o começo.