Posted in

JONAS SILVA… O LINCHAMENTO DE 1978 QUE TRANSFORMOU O CEMITÉRIO EM UM TRIBUNAL

Sou coveiro no cemitério de Santa Isabel, em Belém do Pará, há mais de quarenta anos. Já enterrei santo e pecador nesta mesma terra vermelha que ferve sob o sol do meio-dia. Meu nome é Sebastião Ramos, mas na cidade todos me conhecem por Tião. Tenho sessenta e oito anos e mais da metade deles passei dentro deste campo santo.

O povo costuma dizer que a justiça de Deus tarda, mas não falha. No entanto, aprendi na quadra quatro que, às vezes, uma alma penada não quer o perdão ou a justiça divina. Ela quer a lei dos homens.

Jonas Silva ficou conhecido como “O Açougueiro”. Ele matou cinco jovens antes de ser linchado por uma população enfurecida, numa tarde de calor infernal. Jonas desceu à cova sem julgamento, sem advogado e sem sentença. Foi exatamente isso que transformou o seu túmulo num problema que nem reza brava resolveu sozinha.

Tudo começou com um cheiro de sangue quente que subia do chão nos dias de mormaço, evoluindo depois para o som agoniante de uma lâmina sendo afiada na pedra. Inicialmente, achei que ele queria vingança contra quem o matou. Mas, na tarde em que o sol quase derreteu meu juízo, descobri que o monstro só queria ouvir a batida do martelo de um juiz.

Antes de continuar a minha história, você precisa entender uma coisa sobre a morte aqui no norte. Aqui, a morte não é gelada e pálida como nos filmes que passam na televisão. Aqui, a morte é quente. Ela tem cheiro de terra barrenta cozinhando no sol e tem a cor vermelha da poeira que gruda na pele e não sai nem com sabão de coco.

O cemitério de Santa Isabel é antigo e imenso, com mangueiras centenárias que tentam fazer sombra, mas falham miseravelmente quando o sol está a pino, castigando as lápides de cimento e mármore.

Comecei a trabalhar aqui muito moço, quando ainda tinha força nas costas para abrir três covas num dia só e voltar para casa assobiando. Vi muita coisa triste e muita coisa feia. A gente acaba criando uma casca grossa no coração para conseguir sobreviver ao ofício, pois coveiro que chora junto com a família não dura um mês no serviço.

Mas o caso de Jonas Silva foi diferente de tudo. Ele trouxe para dentro do cemitério uma raiva que não pertencia aos mortos comuns. Toda essa história aconteceu num período curto de cinco anos, entre 1978 e 1983, mas, para quem viveu aqueles dias, pareceu durar um século inteiro.

O ano de 1978 ficou marcado na memória de todo mundo em Belém não só pelos crimes, mas pelo calor que parecia querer incendiar a cidade. Era um daqueles verões em que o vento parou de soprar. O ar ficou parado e pesado, como se fosse feito de chumbo derretido. As pessoas andavam na rua com os olhos baixos e o suor correndo pelas costas. O temperamento de todos estava à flor da pele.

Foi nesse clima de panela de pressão que a história do Açougueiro explodiu. Jonas Silva não era um homem grande e nem tinha cara de monstro. Diziam que era um sujeito calado e metódico, que trabalhava num frigorífico no bairro de Icoaraci e vivia sozinho numa casa de madeira perto do porto. Ele tinha fama de ser habilidoso com as facas, capaz de desossar uma carcaça de boi em questão de minutos, sem desperdiçar um grama de carne.

O problema é que Jonas não usava a sua habilidade apenas nos bois. Quando os corpos dos jovens começaram a aparecer nos matagais da periferia, a polícia demorou para ligar os pontos. Eram cortes precisos e limpos, feitos por alguém que conhecia a anatomia e não tinha pressa.

A cidade entrou em pânico. Os pais trancavam os filhos em casa assim que o sol se punha. O medo virou ódio, e o ódio virou uma necessidade urgente de encontrar um culpado. Quando a polícia finalmente chegou ao nome de Jonas, a notícia vazou antes da prisão, e o povo não quis esperar a viatura chegar.

A população cercou a casa dele numa tarde de terça-feira, com o sol rachando o asfalto. Eles não queriam justiça, queriam sangue. Jonas foi arrastado para fora de casa e a multidão fez com ele o que ele fazia com as vítimas. Foi uma selvageria que manchou as ruas de vermelho e chocou até quem estava acostumado com a violência urbana. Quando a polícia chegou, só restava um corpo irreconhecível no meio da rua poeirenta.

O enterro dele foi a coisa mais tensa que presenciei em toda a minha carreira. Não teve velório e não teve família chorando. O corpo veio direto do Instituto Médico Legal num caixão de madeira barata, pregado com pregos extras para garantir que não abrisse no caminho.

A ordem da prefeitura foi para enterrar rápido e sem alarde, evitando que a população invadisse o cemitério para depredar o cadáver. Eu e mais dois coveiros fomos escalados para o serviço na quadra quatro, uma área mais afastada, perto do muro dos fundos, onde a terra é mais dura e o mato cresce mais rápido.

Cavamos a cova sob o olhar atento de dois policiais militares que fumavam cigarros sem filtro e espantavam as moscas, que pareciam saber que dentro daquela caixa havia carne fresca. Não houve padre e não houve oração.

Descemos o caixão com as cordas e senti um peso estranho na madeira. Não era um peso físico, mas um peso ruim que fez meu estômago embrulhar, mesmo estando acostumado com o serviço. Cobrimos a cova com a terra vermelha e socamos o chão com as enxadas para deixar tudo nivelado.

Um dos policiais cuspiu em cima do monte de terra e disse que aquele ali já tinha ido tarde para o colo do capeta. Fiquei calado, porque aprendi que não se deve desrespeitar os mortos. Não importa quem tenham sido em vida, depois que a terra cobre, todo mundo vira igual.

Mas senti um arrepio na nuca quando virei as costas para ir embora. O sol estava se pondo e o céu estava daquela cor laranja queimado, típica da nossa região. Sobre a cova de Jonas, parecia haver uma sombra que não se mexia. Fiz o sinal da cruz e fui para o vestiário lavar o suor e a poeira, tentando esquecer a violência que tinha colocado aquele homem ali.

O primeiro ano depois do enterro foi marcado por uma latência estranha. Esperávamos que o túmulo fosse vandalizado, mas nada aconteceu. A quadra quatro caiu num esquecimento profundo. O mato crescia em volta das outras sepulturas, mas sobre a cova de Jonas a terra ficava nua e seca. Nem erva daninha queria criar raiz ali. Era um retângulo de terra batida, vermelha e rachada pelo sol.

O que mais me chamava a atenção era o silêncio. Nosso cemitério é cheio de vida, com pássaros cantando nas mangueiras e calangos correndo pelas muretas. Mas naquela quadra específica, os bichos não entravam. Um bando de periquitos barulhentos desviava a rota e ficava mudo ao chegar perto. Era um silêncio pesado e abafado.

Eu passava por lá todos os dias para fazer a ronda e sentia que estava sendo observado. Não via vultos, mas sentia aquele olhar nas costas que faz os pelos do braço arrepiarem. Era a mesma sensação de entrar numa sala onde acabou de acontecer uma briga feia e a energia da raiva ainda paira no ar.

Comentava com o seu Agenor, o administrador da época, e ele dizia que o calor estava cozinhando meus miolos. Mas eu sabia que não era o calor. O calor de Belém a gente conhece desde que nasce. Aquilo era uma pressão invisível que apertava o peito e dificultava a respiração.

Foi no segundo ano, por volta de 1980, que o terror ganhou um cheiro. O verão foi particularmente cruel, sem uma gota de chuva. A terra estava tão quente que dava para fritar um ovo nas lápides. Eu limpava uma cova vizinha quando senti o cheiro pela primeira vez. Não veio com o vento. O cheiro brotou do chão, como se a terra estivesse suando.

Era um cheiro inconfundível de matadouro. Cheiro de ferro, de cobre, de sangue fresco e quente. Não era aquele cheiro adocicado e podre de cadáver antigo. Era sangue vivo, oxigenado e pulsante. Era tão forte que senti o gosto metálico na boca. O odor vinha da direção da cova de Jonas, como se alguém tivesse derramado um balde de sangue fresco ali, mesmo com a terra esturricada.

Durante meses, esse cheiro ia e vinha, sempre nos dias mais quentes, quando o sol estava a pino. Era como se o calor fizesse a essência daquele homem vazar pelos poros da terra. Famílias começaram a reclamar, dedetizaram o local, mas não encontraram nada físico. O cheiro era a alma de Jonas se manifestando do único jeito que conhecia.

No terceiro ano, o túmulo começou a fazer barulho. No final de uma tarde, o silêncio foi cortado por um som rítmico, metálico e áspero. Era o som de aço sendo passado numa pedra de amolar, rasgando os dentes. Fui com Raimundo, um colega, em direção ao barulho. Vinha exatamente da cova do Jonas, forte e hipnótico, mas não havia ninguém lá.

Raimundo atirou uma pedra na direção da cova e, no mesmo instante, o som parou. O silêncio caiu como uma bigorna e o calor pareceu aumentar dez graus. Demos meia-volta e saímos quase correndo. Jonas não estava descansando, estava se preparando.

O quarto ano transformou a ameaça invisível em violência real. Numa manhã de quarta-feira, Raimundo foi capinar o mato na quadra quatro. Ouvi um grito de pavor e corri. Encontrei-o caído na terra, segurando a perna direita encharcada de sangue.

Achei que ele tinha se acertado com a enxada, mas ela estava longe e limpa. Raimundo tremia, dizendo que sentiu uma ardência forte do nada. Rasguei a calça dele. Não era um machucado de enxada. Era um corte reto, profundo e cirúrgico de uns dez centímetros, que pegou uma veia importante. Parecia feito por um bisturi. O médico no hospital não acreditou que mato fizesse aquele estrago.

Raimundo levou doze pontos, ficou manco e pediu as contas um mês depois. O medo se instalou entre nós. Ninguém queria limpar a quadra quatro. Eu fiquei, pois precisava do emprego, e sentia uma responsabilidade estranha. O linchamento não matou a fúria do monstro, apenas a alimentou. A morte dele foi desordenada, e ele tentava impor sua ordem no único lugar que lhe restava.

Chegamos ao quinto ano, em 1983. O desfecho. Eu estava no limite físico e mental, tendo pesadelos com carne crua. Numa tarde de novembro, a mais quente da minha vida, o cemitério estava deserto. Fui cortar caminho pela quadra quatro.

O silêncio caiu de repente. As cigarras calaram. O ar cheirava a sangue espesso. Minhas pernas pesaram e o ar começou a tremer com o calor. No meio daquela distorção visual, eu vi a multidão de 1978. Vultos embaçados, ecos de raiva do linchamento.

A alucinação sumiu e sobrou apenas ele. Jonas estava de pé sobre a cova. Parecia feito de carne e osso, mas um corpo totalmente moído e irreconhecível pelos hematomas. Porém, sua postura era ereta. Vestia um avental branco imaculado e segurava uma faca de desossa brilhante.

Ele olhava para o nada com profunda indignação e apontou a faca para o chão. A voz dele explodiu dentro da minha cabeça, seca e rouca, sem que ele movesse a boca: “Onde está o meu direito? Onde está a minha sentença? Eles quebraram a regra. Eu exijo a regra”.

Caí de joelhos, esmagado pelo calor infernal. Entendi que ele não queria perdão. Jonas via o mundo por regras e métodos. A morte dele tinha sido anarquia. Ele estava preso não pelos crimes, mas pela injustiça técnica de sua execução. Ele exigia um julgamento formal.

A visão sumiu. Levantei-me tremendo e corri para a administração. Falei com o seu Agenor que precisávamos de um juiz. Não para julgar um vivo, mas para condenar um morto e dar a ordem que ele ansiava.

Seu Agenor era prático e viu que a situação saíra do controle. Ele procurou o Dr. Hélio, um juiz criminal aposentado, rígido e formal, que teria sido o juiz do caso se Jonas não tivesse sido linchado. Incrivelmente, o velho juiz aceitou. Seu Agenor também chamou o Padre Anselmo, o capelão, para cuidar do lado espiritual.

Marcamos o julgamento para a sexta-feira, às duas da tarde, a hora em que o sol castigava e o cheiro era pior. Levamos uma mesa pesada e uma cadeira para a beira da cova. O ar tremia e o silêncio era absoluto.

Dr. Hélio chegou de terno preto, apoiado em sua bengala. Não suava. Sentou-se com dignidade de tribunal, colocou o Código Penal antigo e um martelo de madeira sobre a mesa. O cheiro denso de sangue subiu imediatamente. O padre segurou firme o crucifixo e o juiz pigarreou.

Com voz rouca e potente, o juiz abriu a sessão extraordinária do réu Jonas Silva. Leu os nomes das cinco vítimas pausadamente. A cada nome, o cheiro piorava e o som maldito da faca sendo amolada começou a ecoar frenético, vindo de debaixo da terra. O chão tremia, levantando poeira.

Dr. Hélio ignorou o barulho e descreveu os crimes tecnicamente. Estava dando a Jonas o que ele queria: o reconhecimento formal e as regras. O som da faca na pedra tornou-se agudo, mas quando o juiz fechou o livro com um baque seco, o barulho parou na hora. Jonas estava ouvindo.

O juiz estufou o peito e proferiu a condenação à pena máxima prevista. Como a pena não podia ser cumprida em vida, seria cumprida na morte. Condenou o réu ao esquecimento e à prisão perpétua dentro daquela cova, sem direito a recurso.

Dr. Hélio levantou o martelo e bateu com força na mesa. O som foi seco e definitivo. Uma pressão nos ouvidos estourou e o calor sufocante pareceu ceder.

Imediatamente, o Padre Anselmo avançou. Jogou água benta sobre a terra seca e começou o exorcismo em latim. A água chiou como em ferro fervendo. Um vapor branco com cheiro de enxofre subiu. Aos poucos, o odor de sangue foi enfraquecendo até virar cheiro de terra velha.

A poeira assentou. A sensação de observação e o peso no peito sumiram. Uma brisa leve balançou as folhas, e, pela primeira vez em anos, um bem-te-vi pousou na árvore e cantou. O juiz recolheu suas coisas, disse que a justiça estava feita e foi embora sem olhar para trás.

O cheiro de sangue nunca mais voltou. O som da faca calou. Jonas Silva aceitou a sentença. Ele era um monstro, mas obedecia a regras. A cova continuou sendo de terra batida, mas o mato cresceu em volta. A história virou lenda.

Hoje, aos sessenta e oito anos, continuo cuidando dos mortos. O túmulo de Jonas é marcado apenas por uma cruz de madeira velha que eu mesmo coloquei. Uma cova esquecida, conforme a sentença.

Aprendi a lição que passo a todo coveiro novato. A morte não zera a conta. A personalidade da vida continua. Se o sujeito era obcecado por ordem, não vai descansar enquanto a papelada não estiver em dia.

Nos dias de verão muito forte, quando o asfalto derrete e o mormaço sobe, eu passo pela quadra quatro. Faço um sinal de reverência, não pelo homem, mas pela lei que o prendeu lá. Se aquela sentença for revogada, ou alguém mexer onde não deve, a faca pode voltar. E talvez não tenhamos outro juiz corajoso.

Sou Sebastião Ramos, coveiro e oficial de justiça dos mortos. Deixo meu aviso: se ouvir um barulho de metal raspando em pedra num dia de calor sem vento, não pague para ver. Pode ser alguém amolando um facão. Mas pode ser alguém se preparando para o trabalho, que não gosta de ser interrompido sem um mandado judicial.