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Coronel Jogou Terra No Prato De Feijão De Zé Baiano — Sem Saber Quem Ele Era

A seca de 1928 transformara o Agreste de Pernambuco num cemitério a céu aberto. Três anos sem chuva decente haviam matado o gado, secado as cisternas, transformado a caatinga verde em espinhos cinzentos, que pareciam dedos de morto apontando para o céu sem nuvens. Os retirantes caminhavam pelas estradas como procissões de fantasmas, fugindo da fome que os perseguia feito sombra colada nos calcanhares.

Zé Baiano seguia por uma dessas estradas, a poeira grudando na pele queimada pelo sol inclemente. Usava roupas simples de algodão cru, chapéu de palha rasgado, alpercatas gastas amarradas com embira. Aos 32 anos, tinha o corpo enxuto e nervoso de quem conhecia a fome tanto quanto conhecia a fartura. Parecia apenas mais um flagelado fugindo da seca que matava o nordeste.

Ninguém que olhasse para ele veria o que realmente era: tenente do bando de Lampião, com 17 mortes nas costas, três cicatrizes de bala no corpo e uma conta aberta com a volante do tenente Lucena, que só seria saldada com sangue. O bando havia se dispersado duas semanas antes, após o confronto no riacho do navio. A volante do tenente Lucena os cercara de surpresa enquanto descansavam à sombra das juazeiras, matando três homens e ferindo outros dois antes que pudessem reagir.

Lampião ordenara a dispersão. Era assim que sobreviviam quando o cerco apertava demais. Cada cangaceiro seguiria seu caminho, se esconderia entre o povo comum, esperaria a poeira baixar e os soldados cansarem de procurar. Na lua nova, quando a escuridão cobrisse o sertão como um lençol negro, se reuniriam novamente na serra da Boa Vista.

Zé Baiano escondera seu Winchester numa gruta conhecida apenas por ele e Corisco. Enterrara o cinturão de cartuchos com mais de 100 balas, o punhal de prata com cabo de chifre de boi, o chapéu de couro bordado com moedas de ouro e prata que brilhavam ao sol como estrelas caídas, vestira as roupas de um lavrador pobre e seguira para longe, misturando-se aos retirantes que fugiam da morte lenta pela sede e pela fome.

A fazenda São Sebastião se erguia como um reino no meio da miséria generalizada. Pertencia ao coronel Augusto Paranhos, um dos homens mais ricos e temidos do agreste pernambucano. Suas terras se estendiam por léguas e léguas, suas cercas engolindo pequenas propriedades como um monstro insaciável, que nunca se satisfazia com o que tinha.

Diziam que ele tinha pistoleiros armados em cada canto da propriedade, que suas prisões particulares guardavam homens que lhe haviam cruzado o caminho e ousaram desafiá-lo, que até o juiz da comarca era seu compadre e assinava o que ele mandasse, sem fazer perguntas nem olhar documentos. Zé Baiano não se importava com essas histórias todas. Precisava de comida, um lugar para passar algumas noites sem ser incomodado, talvez algum dinheiro para comprar munição quando voltasse a ser quem realmente era. O trabalho na fazenda seria temporário, apenas até a lua nova chegar e o bando se reunir novamente.

O portão da fazenda era imenso, feito de madeira maciça de aroeira, com o brasão da família Paranhos entalhado no topo: uma águia segurando uma espada, símbolo do poder que o coronel achava que tinha sobre vida e morte no sertão. Dois capangas armados com espingardas calibre 12 vigiavam a entrada, olhando com desprezo para cada retirante que passava. Zé Baiano se aproximou devagar, mantendo as mãos bem à vista para não parecer ameaça.

“Procura o trabalho”, disse a voz rouca de quem bebera pouca água nos últimos três dias.

Um dos capangas, homem gordo, com cicatriz feia atravessando o rosto do olho até o queixo, cuspiu no chão um catarro amarelo. “Tem experiência com quê?”

“Gado, roça, construção, o que aparecer.”

“De onde vem?”

“Da Bahia. Fugir seca que tá matando tudo lá.”

O capanga analisou Zé Baiano de cima a baixo, com olhos de quem avalia gado no mercado. Via apenas mais um retirante miserável, desesperado por um prato de comida e um teto sobre a cabeça. Não via o perigo real que estava parado bem diante dele, quieto como cobra enroscada, esperando a hora de dar o bote.

“Coronel tá pegando uns homens pra obra do açude novo que ele tá mandando fazer. Paga um tostão por dia e comida duas vezes. Se aguentar o trabalho pesado e não der problema, pode ficar. Mas se roubar alguma coisa ou tentar fugir devendo, vai se arrepender de ter nascido.”

Zé Baiano assentiu devagar. Um tostão por dia era uma miséria que nem dava para comprar fumo, mas não estava ali pelo dinheiro mesmo. O capanga da cicatriz fez um gesto preguiçoso com a cabeça.

“Procura o senhor Damião no barracão grande dos trabalhador lá nos fundos. Ele que comanda a obra toda e diz quem fica e quem vai embora.”

A fazenda São Sebastião era um pequeno reino particular. A casa grande se erguia no topo de uma colina suave. Construção branca e imponente de dois andares, com varandas largas sustentadas por colunas grossas de madeira, jardins que ainda mantinham algum verde graças aos poços artesianos que o coronel mandara cavar fundo até achar água.

Ao redor da casa principal, dezenas de construções menores espalhadas como satélites em órbita: barracões compridos dos trabalhadores, depósitos de ferramentas e grãos, currais onde o gado esquelético esperava a morte, uma capela pequena com sino de bronze e até uma cadeia particular com grades pesadas de ferro nas janelas onde o coronel prendia quem lhe desobedecia.

Zé Baiano caminhou pelo caminho de terra vermelha que serpenteava entre as construções, observando tudo com olhos que pareciam desinteressados, mas registravam cada detalhe. Trabalhadores magros e curvados pelo peso dos anos carregavam sacos de milho mirrado nas costas, consertavam cercas que o gado faminto tentava derrubar, lidavam com o pouco gado que ainda resistia à seca brutal.

Todos tinham aquele mesmo olhar vazio e sem brilho, a resignação profunda de quem aceitara que aquela era sua vida e nada nunca mudaria até o dia em que morressem e fossem enterrados no cemitério da fazenda. O barracão dos trabalhadores era um galpão comprido de taipa, com teto de telha vermelha e chão de terra batida, onde a poeira subia a cada passo.

Dentro, homens dormiam em esteiras velhas e rasgadas, suas poucas posses amarradas em trouxas de pano ao lado. O lugar cheirava a suor velho, fumo de corda barato e aquela miséria profunda que gruda na pele e não sai nem com sabão.

Senhor Damião era um mulato alto e magro como um pau de cerca, com um chicote de couro cru sempre enrolado no cinto e cicatrizes antigas de chibata nas costas que apareciam quando a camisa se abria. Fora escravo até a Lei Áurea 40 anos antes, mas trocara as correntes visíveis da escravidão pelas correntes invisíveis do trabalho sem fim na fazenda do coronel. Agora era ele quem comandava os outros trabalhadores, executando as ordens do patrão com o mesmo rigor implacável que um dia fora usado contra sua própria carne.

“Mais um fugindo da seca que tá matando o povo?”, perguntou Damião, sem erguer os olhos da folha suja de papel onde anotava com letra cambota os nomes dos trabalhadores.

“Sim, senhor.”

“Nome completo.”

“José Pereira.”

Damião finalmente ergueu a cabeça e olhou para ele. Por um instante breve, seus olhos se estreitaram com desconfiança. Via algo naquele homem que não batia direito com a história simples de retirante comum fugindo da seca. A postura ereta demais, talvez, ou o modo como seus olhos escuros analisavam cada detalhe do barracão, cada saída possível, cada homem presente, como quem está acostumado a calcular perigos e rotas de fuga.

Mas Damião não disse nada sobre isso. Não era pago para desconfiar de gente. Era pago para colocar homens para trabalhar até caírem.

“Trabalho começa às 5 da manhã, quando o galo canta a primeira vez. Termina quando o sol põe atrás da serra e não dá mais para ver direito. Uma pausa curta pro almoço ao meio-dia, quando o sol tá no ponto mais alto. Comida é servida duas vezes por dia, de manhã cedo e à noite. Se roubar alguma coisa, apanha. Se desobedecer ordem, apanha. Se tentar fugir sem pagar suas dívidas com o coronel, os capangas vão atrás e quando te pegarem de volta, vai desejar que tivessem te matado logo na primeira vez. Entendeu tudo ou quer que eu repita?”

“Entendi tudo. Sim, senhor.”

“Então, arruma uma esteira ali naquele canto vazio. Amanhã cedo, quando o sino tocar, te levo junto com os outros pro açude.”

Zé Baiano escolheu um canto bem afastado do barracão, posição estratégica de onde podia ver perfeitamente a porta larga de entrada e as duas janelas pequenas nas laterais. Velhos hábitos de cangaceiro que nunca morriam, nunca dormir sem ter pelo menos duas rotas de fuga diferentes já planejadas na cabeça. Estendeu a esteira gasta, que cheirava a mofo e suor de outros homens, e se sentou com as costas apoiadas na parede de taipa, observando em silêncio.

A maioria ali eram homens completamente quebrados pela vida dura, velhos antes do tempo natural, resignados a morrer naquela fazenda depois de anos e anos de trabalho brutal que nunca os tiraria da miséria em que nasceram. Alguns eram jovens, rapazes de 16 ou 17 anos, ainda com um resto pequeno de esperança brilhando nos olhos, acreditando que um dia conseguiriam juntar dinheiro suficiente para comprar um pedaço de terra e plantar sua própria roça. Essa esperança inocente morreria logo, Zé Baiano sabia muito bem.

A fazenda era uma armadilha sem saída. Os trabalhadores sempre deviam mais ao coronel do que conseguiam receber, presos num ciclo diabólico e sem fim de dívidas que passavam de pai para filho como herança maldita.

Ao cair da tarde, quando o sol já estava baixo tingindo o céu de laranja e vermelho, um sino de ferro tocou três vezes, anunciando a hora do jantar. Os trabalhadores se levantaram como um rebanho cansado e docemente domesticado, seguindo em fila para o refeitório, outro galpão comprido com mesas grosseiras de madeira tosca e bancos duros sem encosto, onde as costas doíam depois de horas sentado.

A comida era servida em gamelas velhas de lata amassada: feijão muito aguado onde era difícil achar grãos de verdade, farinha de mandioca que tinha gosto de mofo e poeira, e quando havia sorte grande, um pedaço minúsculo de charque duro e salgado como sola velha de sapato.

Os homens comiam em silêncio absoluto, curvados sobre suas gamelas como animais famintos, protegendo instintivamente a comida miserável como se alguém fosse roubar. Zé Baiano pegou sua gamela das mãos de uma mulher velha e acabada que servia a comida, e se sentou numa das pontas da mesa comprida.

O feijão era mais água suja que grãos de verdade. A farinha rangia nos dentes com pedacinhos de cascas e tinha aquele gosto amargo de coisa estragada. Mas ele já comera coisa muito pior durante as longas marchas brutais pelo sertão, quando o bando passava dias inteiros sem encontrar um coiteiro amigo que lhes desse abrigo e comida.

Foi exatamente então, naquele momento, que o coronel Augusto Paranhos entrou no refeitório.

O silêncio, que já era pesado, se aprofundou ainda mais, ficando denso como melaço grosso. Os homens baixaram ainda mais as cabeças encurvadas, como se estivessem tentando desaparecer, sumir, virar pó. Apenas Zé Baiano continuou comendo no mesmo ritmo, mastigando devagar, sem mudar absolutamente nada em sua postura.

Augusto Paranhos tinha seus 50 e poucos anos bem vividos, gordo e ruborizado pela boa comida e pela cachaça cara, com bigode farto e grisalho muito bem aparado, anéis grossos de ouro puro brilhando em vários dedos das duas mãos. Usava terno branco de linho fino, apesar do calor sufocante, colete de seda importada e uma corrente pesada de ouro atravessando o peito de um bolso ao outro.

Atrás dele vinham sempre dois capangas bem armados com rifles Winchester novos, e mais atrás vinha seu filho mais velho, Roberto Paranhos, rapaz de 25 anos que já carregava nos olhos a mesma expressão calculada de crueldade gratuita que via no pai. O coronel Augusto caminhava devagar entre as mesas compridas, inspecionando seus trabalhadores como fazendeiro que inspeciona gado antes de decidir qual vai pro matadouro.

Parava de vez em quando, fazia algum comentário baixo com o filho, ria alto de alguma piada particular que só eles entendiam. Os homens curvados permaneciam completamente imóveis como estátuas, mal ousando respirar alto com medo de chamar atenção. Augusto chegou bem perto da mesa onde Zé Baiano estava sentado. Parou ali, ficou observando o trabalhador novo por alguns segundos longos que pareciam não terminar nunca.

“Esse daí é novo, não conheço”, disse ele para Damião, que havia se aproximado todo curvado em respeito exagerado e subserviente.

“Sim, coroné, chegou hoje mesmo de tarde, veio lá da Bahia, fugindo da seca que tá matando o povo todo.”

“Baiano! É?” Augusto se aproximou mais ainda, invadindo o espaço. “Olha bem para mim quando eu falo contigo, rapaz.”

Zé Baiano ergueu os olhos bem devagar. Sem pressa nenhuma, encontrou o olhar direto do coronel e segurou aquele olhar sem baixar o seu nenhum milímetro. Foi um erro de cálculo. Homens poderosos como Augusto Paranhos sempre interpretavam qualquer mínimo sinal de dignidade ou altivez como desrespeito insuportável à autoridade deles. O coronel sorriu, mas não havia absolutamente nenhum humor verdadeiro naquele sorriso torto.

“Olha só que interessante. Parece que temos um valente aqui, um macho de verdade. Ainda não aprendeu que na minha fazenda trabalhador vagabundo não olha direto nos meus olhos. Não.”

Zé Baiano não respondeu nada a isso. Simplesmente voltou sua atenção completa para a gamela miserável de feijão aguado na sua frente, pegando outra colherada. Foi o segundo erro grave dele.

“Eu tô falando com você, baiano filho da puta.” A voz do coronel subiu de tom, ecoando no refeitório silencioso.

O silêncio no refeitório ficou tão absoluto e pesado que era possível ouvir perfeitamente a respiração nervosa e rápida dos homens todos. Todos ali sabiam exatamente o que viria a seguir. Conheciam aquela cena. Augusto Paranhos não tolerava desaforo nenhum, especialmente quando era na frente de seus trabalhadores, todos assistindo. Ele precisava manter sempre o medo vivo, a autoridade absoluta e inquestionável sobre todos.

O coronel deu a volta completa ao redor da mesa, posicionando-se exatamente atrás de Zé Baiano. Sem dizer uma palavra, abaixou-se e pegou um punhado grande de terra solta do chão. O refeitório tinha piso simples de terra batida, sem tijolo nem cimento, e então, sem nenhum aviso prévio, despejou toda aquela terra suja em cima do feijão, dentro da gamela de Zé Baiano. A terra vermelha cobriu completamente a comida, misturando-se com o feijão aguado e formando uma pasta marrom repugnante e impossível de comer.

“Agora você vai comer”, disse Augusto Paranhos, a voz baixa e perigosa como veneno de cascavel. “Vai comer esse feijão todinho, mastigando bem a terra que eu botei em cima. E vai aprender de uma vez por todas que aqui dentro dessa fazenda quem manda em tudo sou eu. E só eu, mais ninguém.”

O silêncio no refeitório era tão absoluto que parecia que o tempo tinha parado completamente. Ninguém se mexia nem um centímetro. Ninguém respirava alto demais. Zé Baiano olhou fixamente para a gamela na sua frente. A terra vermelha e suja havia se misturado completamente ao feijão ralo, transformando aquela comida já ruim em uma lama repugnante e nojenta.

Sentiu algo gelado e muito antigo subir devagar pela sua espinha. Aquela sensação familiar que sempre vinha nos momentos imediatamente antes da violência explodir, antes do sangue começar a jorrar e manchar tudo. Mas não se mexeu para reagir. Sabia perfeitamente que se reagisse ali, naquele momento exato com raiva, morreria antes de dar três passos. Os capangas armados o encheriam de bala de rifle antes que pudesse fazer qualquer coisa, e sua morte seria completamente inútil, apenas mais um trabalhador rebelde e esquecível, morto na fazenda do coronel Augusto Paranhos.

Então fez algo que surpreendeu completamente a todos os presentes. Pegou a colher velha de pau e levou calmamente uma colherada cheia de feijão misturado com terra até a boca. Colocou dentro da boca e mastigou bem devagar, sentindo os grãos ásperos de areia e terra rangendo alto entre os dentes, arranhando as gengivas. Engoliu com esforço, pegou outra colherada igual e repetiu o processo.

Augusto Paranhos esperava ver resistência violenta, esperava ver raiva nos olhos, esperava ver terror e súplicas desesperadas. Mas o que ele viu brevemente nos olhos escuros de Zé Baiano quando este ergueu rapidamente o olhar foi algo completamente diferente de tudo isso. Algo gelado como gelo, algo morto por dentro, algo perigoso demais para ter nome.

Mas o coronel não soube reconhecer aquele olhar específico. Não tinha como saber que estava olhando diretamente para um homem que já tinha matado com as próprias mãos 17 pessoas diferentes, que já tinha degolado inimigos ainda vivos, que já tinha queimado fazendas inteiras até não sobrar pedra sobre pedra, nem cinza quente. Augusto riu alto, completamente satisfeito com sua demonstração pública e humilhante de poder absoluto sobre a vida dos outros.

“Muito bom, garoto. Tá aprendendo direitinho.” Virou-se teatralmente para os outros trabalhadores curvados. “Todos vocês vão aprender também, um por um. Aqui dentro não existe valentia nenhuma. Aqui dentro só existe obediência cega. E quem não obedecer vai sofrer muito pior que isso aqui.”

O coronel Augusto saiu do refeitório com passos firmes, seguido de perto por seus capangas armados e por seu filho Roberto, deixando para trás apenas o silêncio pesadíssimo do medo profundo e da humilhação que queimava a alma.

Zé Baiano continuou comendo metodicamente, terminou absolutamente toda a gamela até o fundo, cada colherada nojenta de feijão misturado com terra vermelha, mastigava, engolia, pegava mais. Não fazia aquilo por obediência submissa ao coronel. Fazia porque precisava daquela comida, por mais nojenta que estivesse. Precisava de força no corpo para o que viria depois, nos próximos dias. Quando terminou completamente a gamela, se levantou em silêncio e voltou sozinho para o barracão, sem dizer uma única palavra para ninguém.

Naquela primeira noite, deitado em sua esteira velha que cheirava a mofo, Zé Baiano não conseguiu pregar o olho para dormir, mas não ficou acordado por causa de raiva. Há muito tempo, ele tinha aprendido que raiva é uma emoção inútil que só atrapalha o pensamento claro. Ficou acordado a noite toda, fazendo cálculos frios na cabeça, calculando quantos capangas armados tinha exatamente a fazenda toda, calculando onde ficavam guardadas as armas e a munição, calculando todas as rotas de fuga possíveis, calculando qual seria o melhor momento exato para agir quando a hora chegasse.

A lua nova ainda estava longe. Faltavam oito dias longos. Tinha tempo de sobra para planejar tudo nos mínimos detalhes, mas o coronel Augusto Paranhos não fazia a menor ideia de que tinha acabado de assinar com as próprias mãos sua sentença de morte.

O trabalho começou antes do Sol nascer, quando o céu ainda estava escuro e frio. Damião acordou os homens no meio da escuridão, tocando aquele sino de ferro estridente que ecoava como um grito de agonia pelo barracão inteiro. Os trabalhadores se levantaram cambaleando, meio adormecidos, com os olhos inchados e o corpo doendo dos dias anteriores, seguindo em fila para o refeitório, onde era servido o café da manhã miserável. Café aguado e amargo que mais parecia água de poça suja, farinha dura misturada com rapadura quebrada e, quando tinha muita sorte, um pedaço de pão dormido e embolorado que ninguém mais queria comer.

Zé Baiano comeu sua parte em silêncio total, mas seus olhos estavam extremamente atentos, observando cada movimento, cada detalhe pequeno. Contou exatamente 23 trabalhadores diferentes no barracão durante a noite. Todos homens quebrados, entre 16 e 60 anos, corpos magros demais e costas curvadas pelo peso dos anos de trabalho forçado. Notou com atenção especial que cinco deles carregavam correntes pesadas de ferro nos tornozelos. Provavelmente tinham tentado fugir ou deviam quantias grandes de dinheiro ao coronel e agora estavam completamente impedidos de tentar escapar novamente.

Os capangas armados circulavam o tempo todo com rifles no ombro e revólveres no cinto, mas curiosamente mantinham certa distância dos trabalhadores, como se tivessem nojo de chegar perto demais daquela miséria toda.

Quando o sol finalmente começou a clarear devagar o horizonte distante, tingindo o céu de tons rosados e alaranjados, Damião reuniu todo o grupo com gritos e xingamentos, levando-os numa marcha forçada até o local da obra maldita. O açude novo ficava aproximadamente a meia légua de distância da casa grande branca, numa depressão natural bem funda entre dois morros de terra vermelha.

A ideia genial do coronel era represar completamente o riacho magro que ainda cortava a fazenda, mesmo com a seca brutal, criando assim um reservatório artificial grande o suficiente para garantir água limpa e fresca durante todos os longos meses sem chuva. Já havia vários meses duros de trabalho contínuo investidos ali. Podia-se ver claramente a barragem imensa de pedra empilhada e terra socada começando a tomar forma definitiva, crescendo como uma cicatriz na paisagem.

Era trabalho brutal de condenados ao inferno. Os homens quebravam pedra enorme sob o sol escaldante e impiedoso que caía como chumbo derretido. Carregavam rochas tremendamente pesadas nas costas até sangrarem. Cavavam a terra vermelha dura como ferro, com picaretas velhas e enxadas cegas. O suor escorria em rios pelo corpo inteiro. A poeira fina cobria absolutamente tudo, deixando os homens irreconhecíveis. E o calor desumano era tão intenso e sufocante que vários homens desmaiavam durante o dia e precisavam ser arrastados até a sombra rala para não morrerem ali mesmo.

Zé Baiano foi designado especificamente para quebrar pedra grande. Recebeu uma marreta enorme e pesada nas mãos e foi estrategicamente colocado ao lado de um homem bem mais velho, todo curvado e acabado, de cabelos completamente brancos e costas marcadas por cicatrizes antigas. O homem velho se apresentou educadamente como Francisco, mas explicou que absolutamente todos na fazenda o chamavam apenas de Chico Velho. Ele era trabalhador permanente da fazenda havia exatos 22 anos sem parar.

“Você vai morrer aqui também, igualzinho a mim que vou morrer”, disse Chico Velho, sem nenhuma amargura na voz, apenas constatando um fato inevitável e conhecido. “Todo mundo que entra nessa fazenda maldita acaba morrendo aqui mesmo. O coronel não deixa absolutamente ninguém sair vivo. Ninguém nunca sai.”

“Por que não?”, perguntou Zé Baiano com curiosidade genuína, ao mesmo tempo que quebrava metodicamente uma pedra enorme em pedaços bem menores com golpes precisos da marreta pesada.

“Porque a gente sempre deve muito mais dinheiro para ele do que consegue ganhar trabalhando”, explicou Chico com resignação profunda na voz cansada. “Ele cobra caro pelo alojamento podre, pela comida estragada, pelas ferramentas velhas e quebradas que a gente usa. Quando alguém finalmente consegue juntar algum dinheiro depois de meses, o coronel sempre inventa do nada que você roubou alguma coisa dele e desconta tudo do pagamento. E se você tenta fugir antes de pagar essas dívidas inventadas…” O velho Chico apontou com a cabeça trêmula para três cruzes grosseiras de madeira fincadas no topo do morro próximo. “Ali tão enterrados rasos os últimos corajosos que tentaram escapar. Os capangas pegaram eles na estrada, trouxeram de volta e o coronel mandou matar na frente de todo mundo para servir de exemplo eterno.”

Zé Baiano olhou fixamente para aquelas três cruzes solitárias no horizonte. Não disse absolutamente nada em voz alta, mas guardou muito bem aquela informação valiosa na memória.

O trabalho desumano continuou sem parar, sob o sol completamente implacável do sertão. Os homens quebravam pedra grande sem descanso, carregavam os pedaços pesados, empilhavam tudo, formando a barragem que crescia devagar. Damião circulava o tempo inteiro entre eles com seu chicote cruel de couro cru sempre na mão, gritando constantemente para trabalharem mais rápido, ameaçando abertamente quem ousasse diminuir o ritmo brutal. De vez em quando ele realmente usava o chicote, não necessariamente para castigar alguém específico, mas principalmente para lembrar a todos que podia castigar qualquer um a qualquer momento sem aviso.

Ao meio-dia exato, quando o sol estava no ponto mais alto e mais quente matando, houve finalmente uma pausa curta e preciosa. Água morna, suja e com gosto ruim era distribuída em canecas velhas de lata amassada. Os homens bebiam aquela água horrível com avidez desesperada de quem está morrendo de sede. Depois se sentavam ou deitavam na sombra extremamente rala e insuficiente das pouquíssimas árvores raquíticas que ainda resistiam bravamente à seca.

Foi durante essa pausa breve que Zé Baiano viu o coronel novamente. Augusto Paranhos chegou montado num cavalo grande e bem cuidado, acompanhado sempre por seu filho Roberto e por três capangas muito bem armados com rifles novos e reluzentes. Eles inspecionaram cuidadosamente a obra toda, conversaram entre si sobre os avanços, apontaram para diferentes partes estratégicas da construção. O coronel gordo ria muito alto e satisfeito, claramente orgulhoso com o progresso visível que seus escravos modernos estavam fazendo.

Então, de repente, seus olhos pequenos e cruéis encontraram Zé Baiano sentado ali. O coronel puxou com força as rédeas do cavalo e se aproximou devagar, estudando-o. Zé Baiano permaneceu exatamente onde estava, bebendo calmamente sua água morna e suja, sem demonstrar absolutamente nenhuma reação visível à presença do patrão.

“E o nosso baiano valente”, disse Augusto com tom claramente zombeteiro e maldoso. “Aprendeu ontem à noite a comer terra direitinho. Hoje tá aprendendo que o trabalho aqui não é moleza para vagabundo frouxo que não aguenta sol.”

Zé Baiano não respondeu nada, simplesmente terminou de beber toda a sua água, colocou a caneca amassada no chão vermelho ao lado com cuidado.

“Tá surdo agora? É, eu falei com você, rapaz.”

“Escutei perfeitamente, coroné”, respondeu Zé Baiano com voz neutra.

“Então responde logo direito quando eu falo, desgraçado.”

“O senhor não fez pergunta nenhuma para mim responder. O senhor apenas fez uma afirmação sobre mim.”

O silêncio pesado caiu como uma pedra enorme sobre todo o grupo de trabalhadores. Chico Velho ao lado fechou os olhos com força, provavelmente rezando baixinho para si mesmo. Os outros trabalhadores próximos se afastaram instintivamente e com muito medo, não querendo de jeito nenhum estar perto quando a violência brutal e inevitável começasse a acontecer. Roberto Paranhos, o filho mimado e cruel do coronel, deu rapidamente um passo ameaçador à frente.

“Esse desgraçado aí tá pedindo para apanhar muito, pai. Tá pedindo para morrer.”

Mas Augusto Paranhos ergueu a mão gorda com anéis, parando o filho impulsivo no lugar. Havia algo extremamente interessante e intrigante naquele trabalhador específico que o deixava curioso. A imensa maioria dos homens ali se curvava completamente, tremia de medo visível, implorava por piedade. Esse rapaz baiano apenas olhava direto de volta, com aqueles olhos escuros e completamente mortos, que não mostravam absolutamente nenhum medo verdadeiro, nem raiva descontrolada.

“Você definitivamente não tem cara nenhuma de retirante comum”, observou o coronel com desconfiança, descendo devagar do cavalo grande. “Tem cara muito mais de quem já viu sangue de verdade escorrendo. Já matou gente.”

Zé Baiano continuou em silêncio, não respondendo absolutamente nada.

“Foi soldado em alguma guerra, jagunço de morte alugado, capanga particular de algum outro coronel rico?”

“Fui apenas lavrador humilde, coroné, até a seca levar tudo que eu tinha e me obrigar a sair andando.”

Augusto estudou o homem sentado por mais alguns segundos longos e tensos. Então, finalmente, deu de ombros com desdém.

“Não importa nem um pouco o que você foi antes lá fora. Aqui dentro você é apenas mais um trabalhador miserável. E trabalhador obedece sem questionar.” Virou-se autoritário para Damião, que observava tudo nervoso. “Esse baiano valente aí vai trabalhar em dobro hoje. Quero ver pessoalmente se toda essa valentia idiota dele aguenta realmente o sol quente sem desmaiar, feito mulher fraca.”

“Sim, coroné, pode deixar”, respondeu Damião imediatamente, sempre obediente.

Augusto montou novamente em seu cavalo com alguma dificuldade por causa do peso, deu as costas e partiu no trote, deixando atrás de si apenas aquela nuvem grande de poeira vermelha e o silêncio extremamente pesado e sufocante. Damião se aproximou bem perto de Zé Baiano depois que o coronel saiu, segurando firme o chicote cruel na mão como aviso.

“Você é muito burro ou quer realmente morrer logo?”

“Não sou burro e não quero morrer.”

“Então para imediatamente de provocar o coronel desse jeito suicida. Ele já matou pessoalmente muito mais homem por muito menos que isso.”

“Eu não provoquei ninguém de propósito, só respondi exatamente o que ele perguntou.”

Damião balançou a cabeça toda com frustração e raiva contida.

“Trabalhador que não baixa a cabeça e não se curva não dura muito tempo nenhum aqui dentro. Aprende isso rápido logo, se você realmente quiser continuar vivo mais alguns dias.”

A tarde inteira foi absolutamente infernal, sem exagero. Damião cumpriu fielmente a ordem expressa do coronel. Zé Baiano foi obrigado a quebrar pedra enorme sem parar um segundo sequer, sem nenhum descanso permitido, carregando sozinho nas costas as pedras tremendamente maiores e mais pesadas, enquanto outros trabalhadores próximos faziam o exato mesmo trabalho sempre em duplas ou trios.

O sol escaldante queimava a pele exposta como ferro em brasa. O suor salgado escorria sem parar, queimando dolorosamente os olhos irritados. Os músculos dos braços e das costas tremiam violentamente de pura exaustão extrema, mas Zé Baiano simplesmente não parou nem diminuiu o ritmo, não porque estava de jeito nenhum tentando provar alguma coisa para alguém, mas porque ele honestamente já tinha passado por situações muito piores durante sua vida de cangaceiro.

Já tinha sido obrigado a marchar forçadamente três dias e três noites seguidos completos sob o sol brutal do Cariri, gravemente ferido com bala no ombro, sendo perseguido de perto pela volante sanguinária, comendo apenas raízes amargas e bebendo água completamente suja de poças lamacentas. Já tinha carregado camaradas companheiros mortos e pesados nas próprias costas por várias léguas longas e cansativas para poder enterrá-los dignamente bem longe dos urubus famintos. Já tinha conseguido sobreviver a tantas coisas absolutamente impossíveis que aquele trabalho duro na fazenda era apenas mais um obstáculo temporário relativamente pequeno.

Quando o sol finalmente se pôs devagar atrás da serra ao longe, tingindo tudo de vermelho sangue, Damião tocou o sino estridente, encerrando oficialmente o trabalho forçado daquele dia longo. Os homens, completamente exaustos, largaram suas ferramentas velhas ali mesmo no chão e seguiram cambaleando de volta para o barracão, as pernas bambas mal conseguindo sustentar o peso dos próprios corpos destruídos. Zé Baiano os acompanhou devagar, mas seus olhos escuros e inteligentes estavam extremamente atentos o tempo inteiro.

Contou mentalmente cinco capangas armados diferentes que fizeram turnos durante aquele dia inteiro. Notou com muita atenção que todos eles faziam suas rondas em horários bem específicos e previsíveis. Viu exatamente onde guardavam todas as armas perigosas num depósito trancado, relativamente perto da casa grande branca. Observou atentamente que durante a noite apenas dois capangas ficavam realmente de vigia acordados, um sempre parado no portão principal da frente e o outro circulando constantemente entre os vários galpões dos fundos.

No jantar simples daquela noite, Zé Baiano comeu seu feijão aguado e horrível em silêncio absoluto, mastigando devagar. O coronel Augusto Paranhos felizmente não apareceu dessa vez no refeitório. Os trabalhadores todos conversavam apenas em murmúrios extremamente baixos entre si, cansados demais para qualquer tipo de animação ou conversa mais longa. Chico Velho, cansado, se sentou pesadamente ao lado de Zé Baiano na mesa comprida.

“Você é completamente doido, rapaz. Absolutamente ninguém enfrenta o coronel desse jeito e consegue sobreviver muito tempo depois.”

“Eu realmente não enfrentei ninguém de propósito. Apenas respondi exatamente o que ele me perguntou.”

“Mas é exatamente a mesma coisa perigosa aqui dentro dessa fazenda maldita.” Chico baixou bastante a voz cansada, olhando nervoso ao redor. “Escuta bem o que eu vou te dizer agora. Não sei quem você realmente é, nem de onde veio, mas vou te dar um conselho muito sério de quem já viveu tudo aqui. Esquece completamente o que quer que você tenha sido lá fora antes. Esquece tudo. Aqui dentro desse inferno, você não é absolutamente nada. Você não vale nada. E quanto mais cedo você aceitar isso de verdade no fundo da alma, mais fácil fica sobreviver.”

Zé Baiano olhou fixamente nos olhos fundos e cansados do velho trabalhador. Viu ali dentro a mesma resignação profunda e morta que via nos olhos de todos os outros trabalhadores quebrados. Homens que tinham desistido completamente de lutar por qualquer coisa, que tinham aceitado de coração que realmente morreriam trabalhando naquela fazenda maldita. Escravos modernos em absolutamente tudo, menos no nome legal.

“E você, Chico?”, perguntou Zé Baiano com curiosidade. “Você já aceitou isso tudo?”

Chico Velho não conseguiu responder aquela pergunta difícil, apenas terminou rapidamente sua comida miserável e se levantou todo curvado, voltando sozinho e cabisbaixo para o barracão escuro.

Naquela segunda noite inteira, Zé Baiano ficou completamente acordado de novo, deitado em sua esteira velha. Através das várias frestas grandes nas paredes mal feitas do barracão de taipa, via perfeitamente a fazenda inteira adormecida sob as estrelas brilhantes, a casa grande branca toda iluminada lindamente pelas lamparinas caras a óleo, o capanga solitário fazendo sua ronda mecânica e entediada, o rifle pesado sempre no ombro. O céu imenso, completamente estrelado e sem nenhuma nuvem, anunciando cruelmente mais um dia inteiro de seca e calor insuportável. Faltavam agora apenas seis dias longos para a lua nova chegar, seis dias até se reunir finalmente com o bando inteiro na serra. Mas Zé Baiano já sabia com absoluta certeza que não sairia daquela fazenda maldita sem antes acertar definitivamente suas contas pendentes.

No terceiro dia de trabalho forçado, durante a pausa curta do meio-dia para a água, aconteceu finalmente algo grave que mudaria absolutamente tudo. Um dos trabalhadores mais jovens, um rapaz extremamente magro e fraco chamado Inácio, desmaiou subitamente de exaustão e desidratação enquanto carregava uma pedra especialmente grande e pesada nas costas machucadas. Caiu violentamente de bruços na terra vermelha e dura, e a pedra enorme que carregava rolou descontrolada por cima de sua perna esquerda fina, quebrando o osso com um estalo alto e seco que ecoou horrível pela obra inteira.

Inácio gritou desesperado, um grito extremamente agudo de dor pura e insuportável. Damião se aproximou correndo rápido, viu imediatamente a perna toda quebrada e destroçada, o osso branco atravessando grotescamente a pele rasgada, o sangue vermelho vivo manchando e tingindo rapidamente toda a terra ao redor.

“Esse filho da puta fraco desmaiou feito mulher e se ferrou sozinho”, disse Damião, sem demonstrar absolutamente nenhuma piedade na voz. “Alguém carrega esse infeliz inútil pro barracão e amarra a perna quebrada dele com qualquer coisa. Se ele não morrer logo de febre alta, vai ficar aleijado pro resto da vida curta dele.”

Dois trabalhadores próximos se aproximaram imediatamente, dispostos a ajudar o rapaz ferido, que gritava.

Mas Roberto Paranhos, que estava observando a obra toda de longe montado no seu cavalo, gritou bem alto para todos ouvirem: “Deixa esse fraco aí no chão mesmo. Quem desmaia covardemente no trabalho não merece ajuda nenhuma. Que esse inútil sirva de exemplo muito bom pros outros todos.”

Os trabalhadores assustados pararam completamente onde estavam, olhando nervosos para o pobre Inácio, que continuava gemendo alto no chão quente, segurando desesperado sua perna completamente destroçada, o rosto jovem todo contorcido de dor insuportável.

“Mas ele vai morrer se não cuidar logo, senhor”, disse Chico Velho com coragem inesperada. “A perna tá quebrada, muito feia.”

“E daí, se ele morrer?”, respondeu Roberto com crueldade. “Tem um monte enorme de retirante miserável lá fora esperando trabalho. Esse aí já não serve mais mesmo.”

Foi exatamente nesse momento preciso que Zé Baiano finalmente se levantou do chão. Caminhou decidido e direto até onde Inácio estava caído gemendo. Ajoelhou-se calmamente ao lado do rapaz ferido. Examinou com cuidado e conhecimento a perna horrivelmente quebrada. A fratura óssea era realmente muito grave e feia, mas definitivamente não seria fatal se fosse tratada corretamente logo.

“Preciso urgente de tala boa para segurar firme o osso no lugar”, disse Zé Baiano, olhando diretamente para Damião. “E precisa de pano bem limpo para enfaixar direito e proteger, senão vai infetar rápido e ele vai morrer em poucos dias de febre.”

Roberto Paranhos desceu rapidamente do cavalo, absolutamente furioso com aquela desobediência.

“Quem foi que mandou você falar alguma coisa? Eu falei claramente para deixar ele aí no chão.”

Zé Baiano não se mexeu nem um centímetro do lugar. Continuou examinando calmamente e com atenção a perna destroçada de Inácio, apalpando com cuidado o osso quebrado.

“Tá me ignorando completamente agora. É?” Roberto sacou rapidamente o revólver pesado que sempre carregava no cinto de couro. “Levanta daí agora mesmo, senão eu estouro seus miolos e deixo você apodrecendo no sol.”

Zé Baiano finalmente ergueu bem devagar a cabeça. Seus olhos escuros e profundos encontraram diretamente os olhos do jovem Roberto. E naquele momento específico e tenso, o filho do coronel viu algo extremamente perturbador que o fez instintivamente recuar um passo completo para trás com medo. Não era medo normal que ele via, não era raiva descontrolada, era certeza absoluta, a certeza gelada de alguém que já tinha matado muitas pessoas com as próprias mãos e que mataria novamente sem hesitar nem um segundo sequer, se fosse necessário.

“Guarda essa arma logo, menino”, disse Zé Baiano com voz extremamente baixa, mas gelada como gelo. “Antes que você faça alguma grande besteira irreversível que não tem volta nenhuma depois.”

O silêncio caiu pesado sobre toda a obra como uma pedra enorme. Absolutamente todos pararam completamente de trabalhar. Damião segurou o chicote com muito mais força, os nós dos dedos ficando brancos. Os capangas armados apontaram imediatamente todos os seus rifles carregados diretamente na direção de Zé Baiano. Roberto Paranhos estava visivelmente pálido demais. Nunca na vida toda dele, ninguém jamais tinha falado com ele daquele jeito direto. Nunca ninguém tinha olhado diretamente para ele sem demonstrar nenhum medo verdadeiro.

“Você… você tá morto”, gaguejou o jovem nervoso e assustado. “Vai pagar muito caro por isso tudo.”

Zé Baiano não respondeu absolutamente nada a isso. Simplesmente rasgou com força uma tira larga de sua própria camisa velha e suja, começou metodicamente a enfaixar com cuidado a perna quebrada de Inácio, imobilizando o osso destroçado no lugar correto. O rapaz jovem gemia muito baixo agora, mas a dor insuportável parecia ter diminuído bastante com a perna finalmente imobilizada corretamente.

Roberto Paranhos, tremendo visivelmente de raiva intensa misturada com humilhação profunda, gritou bem alto: “Prendam imediatamente esse desgraçado. Quero ele trancado na cadeia até meu pai decidir pessoalmente o que fazer com ele.”

Os cinco capangas armados se aproximaram devagar e com cuidado. Cinco homens grandes e bem armados com rifles carregados, cercando completamente Zé Baiano de todos os lados. Não havia para onde correr, não havia nenhuma forma possível de lutar contra todos. Zé Baiano terminou calmamente de enfaixar completamente a perna quebrada de Inácio. Depois se levantou bem devagar, mantendo sempre as mãos completamente à vista de todos.

“Pode vir tranquilo, sem fazer escândalo nenhum, ou a gente vai ter que te quebrar todinho antes”, disse um dos capangas, ameaçador, um homem especialmente alto com uma cicatriz feia no rosto.

“Não precisa quebrar nada. Vou completamente tranquilo com vocês.”

Enquanto os capangas nervosos o levavam firmemente pelos braços, Zé Baiano olhou para trás uma última vez. Viu Chico Velho observando tudo aquilo com expressão profunda de tristeza verdadeira no rosto enrugado. Viu todos os outros trabalhadores baixando rapidamente as cabeças, sabendo com certeza absoluta que nunca mais veriam aquele homem corajoso vivo novamente. Mas Zé Baiano honestamente não estava nem um pouco preocupado com sua situação. Estava apenas calculando friamente seus próximos movimentos.

A cadeia e a revelação.

A cadeia particular do coronel Augusto Paranhos ficava escondida nos fundos mais distantes da fazenda. Um prédio pequeno e sinistro de tijolos com três celas minúsculas separadas por grades pesadas de ferro enferrujado. O lugar inteiro cheirava intensamente a urina velha, mofo pesado e aquele desespero profundo que impregna as paredes quando muita gente sofre no mesmo lugar. Os capangas nervosos jogaram Zé Baiano violentamente dentro de uma das celas vazias e trancaram imediatamente a grade grossa com um cadeado enorme e pesado.

“Vai apodrecer aí dentro até o coronel decidir o que fazer contigo”, disse o capanga da cicatriz com satisfação cruel. “E quando ele finalmente decidir, garanto que vai doer. Vai doer muito mesmo.”

Zé Baiano não respondeu absolutamente nada, apenas sentou-se calmamente no chão frio de terra batida e encostou as costas doloridas na parede, extremamente fria e úmida de mofo. A cela miserável era minúscula, media apenas 3 metros por 3. Uma janela alta e estreita com grades deixava entrar apenas um filete fino de luz fraca. No canto mais distante, um balde velho de ferro servia como latrina improvisada. Nas paredes sujas, dezenas de arranhões profundos e inscrições desesperadas deixadas por prisioneiros anteriores. Nomes quase apagados, datas antigas, orações completamente desesperadas pedindo salvação.

Zé Baiano ficou exatamente 2 horas sozinho na cela antes de finalmente ouvir passos pesados se aproximando. Eram passos extremamente decisivos, passos de quem vinha resolver um problema. Augusto Paranhos apareceu do outro lado das grades de ferro, acompanhado, como sempre, por quatro capangas muito bem armados. O coronel gordo fumava um charuto grosso e caro, os anéis de ouro puro brilhando intensamente à luz fraca e fantasmagórica da tarde.

“Então você é o tal valente famoso”, disse Augusto soltando uma baforada grossa de fumaça fedorenta. “O baiano que não tem medo de absolutamente nada.”

Zé Baiano não respondeu nada, continuou simplesmente sentado no chão frio, as costas firmemente apoiadas na parede úmida.

“Meu filho quer desesperadamente que eu mate você agora. Diz que você desrespeitou ele gravemente na frente de todos os trabalhadores.” Augusto deu outra tragada longa no charuto. “E ele tem razão completa. Não posso de jeito nenhum deixar um trabalhador miserável qualquer humilhar publicamente meu filho. Não posso deixar os outros pensarem que podem fazer o mesmo.”

O coronel se aproximou muito mais das grades, estudando Zé Baiano com extrema atenção e curiosidade. Mas tem uma coisa importante que não tô entendendo nada. Você definitivamente não tem cara nenhuma de trabalhador comum normal. Não tem medo como todos os outros. Não baixa a cabeça nunca. Augusto cuspiu com nojo no chão.

“Quem é você de verdade?”

Zé Baiano finalmente ergueu devagar os olhos escuros.

“Sou exatamente quem falei. José Pereira da Bahia.”

“Mentira descarada.” Augusto jogou o charuto aceso no chão e pisou violentamente em cima. “Já vi muita gente diferente na minha vida toda. Já matei pessoalmente muita gente também. E sei perfeitamente reconhecer um homem realmente perigoso quando vejo um na minha frente.”

O coronel fez um gesto autoritário para os capangas. Peguem ele agora. Vamos ver se umas boas chicotadas fazem ele finalmente falar a verdade. Os capangas nervosos abriram o cadeado pesado e entraram todos na cela pequena. Zé Baiano não resistiu absolutamente nada quando o agarraram com violência pelos braços e o arrastaram para fora, jogando-o brutalmente no chão duro do pátio externo. Um dos capangas grandes pegou um chicote cruel de couro cru, exatamente o mesmo tipo usado para domar cavalos selvagens.

“Última chance sua”, disse Augusto ameaçador. “Quem é você realmente? José Pereira?”

O chicote cortou violentamente o ar e atingiu as costas expostas de Zé Baiano. A dor foi extremamente intensa e aguda, mas ele não gritou nenhuma vez, apenas apertou muito forte os dentes e continuou completamente imóvel. A segunda chicotada brutal, a terceira, a quarta, a quinta. O sangue vermelho começou a manchar rapidamente a camisa velha rasgada.

“Fala logo de uma vez!”, gritou Augusto, furioso. “Quem é você?”

Zé Baiano cuspiu sangue no chão. Quando finalmente ergueu a cabeça devagar, havia um sorriso extremamente fino em seus lábios rachados, um sorriso perturbador que não chegava nem perto dos olhos mortos.

“Quer mesmo saber a verdade toda?”

“Fala logo, desgraçado.”

“Sou Zé Baiano, tenente do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.” Zé Baiano se levantou bem devagar, apoiando-se dolorosamente nos joelhos. “O homem que você chamou de baiano de merda. O homem que você fez comer terra suja. Esse homem aqui é cangaceiro perigoso há 7 anos. E você, coronel? Você acabou de assinar sua própria sentença de morte.”

O silêncio que caiu foi absolutamente total e pesado. Os capangas recuaram todos instintivamente as armas apontadas, mas tremendo visivelmente nas mãos nervosas. Augusto Paranhos ficou completamente pálido, o rosto gordo perdendo toda a cor de repente.

“Você… você tá mentindo descaradamente”, disse o coronel, mas a voz saiu extremamente trêmula e fraca. “Tá mentindo só para me assustar.”

Zé Baiano deu calmamente um passo firme à frente. Os capangas todos recuaram rapidamente outro passo completo.

“Você conhece bem a história famosa do juiz de São José do Egito?”, perguntou Zé Baiano com voz baixa e perigosa. “Aquele que mandou prender o pai de um cangaceiro? O bando inteiro invadiu a cidade toda, matou o juiz, matou todos os soldados, queimou completamente o cartório. Deixaram a cabeça cortada do juiz pregada na porta da prefeitura como aviso.” Outro passo ameaçador. “Ou a história do fazendeiro rico de Nazaré, aquele que chicoteou brutalmente um coiteiro que dava abrigo ao bando. Encontraram ele três dias depois, amarrado no tronco de uma árvore morta, com a língua cortada e os olhos arrancados das órbitas.”

Augusto Paranhos engoliu em seco com dificuldade.

“Você não pode me matar assim. Tenho muitos homens armados. Tenho proteção do governo. Tenho…”

“Você não tem absolutamente nada”, interrompeu Zé Baiano friamente. “Você é um homem morto, só ainda não sabe disso.”

O coronel deu rapidamente um passo para trás, tropeçou nos próprios pés gordos, quase caiu.

“Prendam ele imediatamente!”, gritou Augusto com voz quebrando. “Prendam ele e chamem reforço agora. Mandem buscar urgente o delegado, a volante, todo mundo.”

Os capangas avançaram, mas com extremo cuidado, como quem se aproxima devagar de uma cobra venenosa. Agarraram Zé Baiano pelos braços, o arrastaram violentamente de volta para dentro da cela. Antes de fecharem as grades pesadas, Zé Baiano falou uma última vez.

“Coronel, eu tenho uma pergunta importante. O senhor conhece a história da lua nova?”

Augusto não respondeu. Estava tremendo visivelmente.

“Na lua nova”, continuou Zé Baiano calmamente, “o bando inteiro se reúne, todos os cangaceiros que estavam dispersos voltam juntos e quando o bando se reúne,” sorriu aquele sorriso perturbador, sem nenhum humor, “o sertão inteiro treme de medo.”

A grade foi trancada com violência. Os capangas saíram todos correndo. Augusto Paranhos ficou parado por um momento longo, olhando fixamente para o homem perigoso atrás das grades. Depois virou-se rapidamente e saiu, mas seus passos já não eram firmes. Eram os passos hesitantes de um homem que acabara de olhar diretamente para sua própria morte.

A notícia se espalhou rapidamente pela fazenda inteira como fogo violento na caatinga seca. Um dos trabalhadores era cangaceiro perigoso, não um cangaceiro qualquer. Era Zé Baiano, tenente de Lampião, um dos homens mais perigosos do bando inteiro. No barracão dos trabalhadores, os homens conversavam apenas em sussurros extremamente nervosos.

“É verdade mesmo?”, perguntou um jovem assustado. “Ele é mesmo cangaceiro de verdade?”

Chico velho, que tinha visto Zé Baiano ser preso, assentiu devagar.

“É verdade. Sim. Vi quando ele falou direto pro coronel. Vi a cara do coronel mudando completamente.” Chico baixou muito a voz. “Ele não estava com medo normal. Estava apavorado de verdade.”

“E agora?”, perguntou outro trabalhador nervoso. “O coronel vai matar ele?”

“Se for esperto mesmo, mata rápido antes do bando chegar aqui.”

Mas na casa grande luxuosa, o coronel Augusto Paranhos honestamente não sabia o que fazer. Reuniu todos os seus capangas na sala principal, todos muito bem armados, todos extremamente nervosos. Seu filho Roberto estava visivelmente pálido, as mãos tremendo sem parar.

“Meu pai, tem que matar ele agora mesmo, senão o bando vem e cala a boca!”, gritou Augusto, furioso. “Deixa eu pensar direito.”

O coronel andava nervoso de um lado para o outro, suando muito, apesar do vento fresco. Tinha mandado chamar urgente o delegado da cidade, mas sabia perfeitamente que a lei não significava absolutamente nada contra o bando de Lampião.

“Quantos homens temos?”, perguntou para seu capanga mor, um homem experiente chamado Oliveira.

“12 capangas armados, coroné, mais uns seis vaqueiros que sabem atirar razoavelmente.”

“Contra quantos?”

Oliveira não precisava responder. Todos sabiam. O bando de Lampião variava entre 30 e 50 homens, todos armados com rifles modernos, todos extremamente experientes em combate.

“Tem que matar o cangaceiro agora”, disse Roberto.

“Matar ele antes que o bando saiba onde ele tá? E se o bando já sabe? E se eles já estão vindo?”

O silêncio pesou horrível sobre a sala. Foi então que um dos capangas, um homem jovem, falou:

“Coroné, com todo respeito, mas eu não vou ficar aqui para enfrentar o bando de Lampião. Não ganho o suficiente para morrer.”

“Covarde!”

“Não sou covarde. Sou esperto.” O capanga tirou o rifle do ombro e colocou em cima da mesa. “Tô fora.”

Cinco capangas largaram as armas e saíram. Restaram sete.

Naquela noite, algo aconteceu que mudaria tudo. Um dos vaqueiros da fazenda encontrou algo pendurado na porteira, um chapéu de couro bordado com moedas de prata e preso ao chapéu, um pedaço de papel com uma mensagem: “Soltem Zé Baiano até a lua nova. Se não soltarem, vamos queimar a fazenda e todos que tiverem dentro. Lampião.”

O coronel leu a mensagem com dedos trêmulos.

“Cinco dias até a lua nova”, disse Oliveira.

“Não vou soltar.” Augusto se virou. “Vamos matar ele amanhã. Bem cedo. Vamos enterrar o corpo onde ninguém encontra.”

Mas enquanto Oliveira saía para cumprir a ordem, nenhum deles sabia que havia um problema no plano, um problema chamado Chico Velho.

Chico Velho não conseguia dormir. Pensava no homem preso na cadeia. Pensava em como Zé Baiano tinha enfaixado a perna de Inácio. Pensava em como ele não tinha baixado a cabeça. Chico tinha 22 anos quando chegara à fazenda. Agora tinha 44, 22 anos que o transformara num fantasma. Mas Zé Baiano era diferente. Era um homem vivo, um homem que lutava. E Chico, pela primeira vez em muitos anos, sentiu algo acordar.

Esperou até a ronda das 2 da manhã passar. Depois se levantou e saiu do barracão. Chegou até a cadeia sem ser visto. A janela lateral tinha uma grade solta, empurrou, entrou.

Zé Baiano sussurrou. “Quem é?”

“Sou Chico, vim avisar. O coronel mandou matar você antes do amanhecer.”

Zé Baiano não pareceu surpreso.

“Sabia que ele não ia me soltar.”

Chico segurou as grades. “Eu posso ajudar você a fugir. Tem uma chave no escritório do Damião.”

Zé Baiano estudou o velho.

“Por que você tá fazendo isso?”

“Porque tô cansado de viver como um fantasma. E quando vi você não se curvar, lembrei que já fui um homem também.”

O cangaceiro colocou a mão no ombro do velho.

“Se você me soltar, o coronel vai saber e vai te matar.”

“Eu sei, mas pelo menos vou morrer fazendo alguma coisa que presta.”

Zé Baiano assentiu.

“Então vai, pega a chave, mas seja rápido.”

15 minutos depois, Chico voltou. Trazia a chave e um facão velho.

“Era meu, do tempo que eu ainda tinha esperança.” Chico abriu o cadeado e puxou a grade. “Agora vai. O portão dos fundos está sem vigia até às 3.”

Mas Zé Baiano não se mexeu.

“Você tem que vir comigo.”

“Não, sou velho demais. Só vou te atrasar, Chico. Vai.”

“E quando o bando voltar, quando vocês queimarem essa fazenda, lembra do velho que te soltou?”

Zé Baiano olhou nos olhos do velho.

“Vou lembrar e vou voltar. Isso eu prometo.”

Então saiu pela janela, desaparecendo na noite. Chico ficou ali parado, olhando a cela vazia. Depois fechou a grade, trancou o cadeado e voltou para o barracão. Deitou-se e esperou. Esperou os capangas chegarem, esperou os gritos, esperou sua morte. Mas pela primeira vez em 22 anos, Chico Velho conseguiu dormir em paz.

Zé Baiano correu pela fazenda como um fantasma. Passou pelo curral, passou pelo depósito de ferramentas, pegou um machado, corda, cantil. O depósito de armas ficava perto da casa grande. Forçou a janela, entrou. Dentro, encontrou um Winchester, encontrou munição, encontrou um revólver, encheu os bolsos de balas. Foi quando ouviu vozes.

“A cadeia! Corram pra cadeia!”

Tinham descoberto sua fuga. Zé Baiano saiu pela janela, rolou, levantou-se correndo. Atrás dele gritos, luzes, tiros. Correu para o portão dos fundos, 100 metros, 80, 60. Um tiro passou perto de sua cabeça, 40 metros. Outro tiro acertou uma árvore, 20 metros. O portão estava aberto. Zé Baiano passou, mergulhou na caatinga.

Atrás dele, mais tiros, gritos, cavalos. Mas Zé Baiano conhecia a caatinga. Correu pela mata fechada, os espinhos rasgando sua pele. Correu até o riacho seco, seguiu pelo leito de pedras. Correu até não conseguir mais ouvir a fazenda. Estava livre, mas sua tarefa ainda não tinha acabado. Faltavam quatro dias para a lua nova quando Zé Baiano chegou à Serra da Boa Vista.

A serra se erguia como uma ilha de pedra no meio da caatinga, suas encostas cobertas por vegetação mais densa, suas grutas oferecendo esconderijo perfeito. Zé Baiano subiu pela trilha secreta, passou pela pedra marcada com três traços, passou pela nascente, bebeu, encheu o cantil, chegou à entrada da gruta principal e ali, sentado numa pedra limpando seu rifle, estava Corisco.

O diabo loiro ergueu os olhos e sorriu.

“Pensei que tivesse morrido, cabra.”

Zé Baiano sentou-se ao lado.

“Quase, mas ainda tô vivo.”

“Vi isso.” Corisco apontou para as marcas de chicote. “Quem foi?”

“Coronel Augusto Paranhos da fazenda São Sebastião.”

Corisco parou de limpar o rifle.

“Esse nome eu conheço. Tem uns 15 capangas. Faz tempo que merece uma visita.”

“E vai ter, mas tem que ser quando o bando todo estiver junto.”

“Lampião já tá aqui. Chegou ontem com Maria Bonita e mais uns 10. Tão na gruta grande. Vem.”

Os dois caminharam até a gruta maior. Dentro, Lampião estava sentado numa pedra, cercado por seus homens. Usava seu uniforme característico, calça de brim, jaqueta de couro com bordados, chapéu enfeitado com moedas. Seu Winchester repousava ao lado. Quando Zé Baiano entrou, Lampião ergueu os olhos. Seu rosto marcado por uma cicatriz não mostrou surpresa.

“Zé Baiano, pensei que ia demorar mais.”

“Tive uns problemas, capitão.”

“Vi pelas suas costas, senta e conta.”

Zé Baiano contou tudo. A fazenda, o coronel, a terra jogada no feijão, a prisão, Chico Velho. Quando terminou, o silêncio pesou. Foi Maria Bonita quem falou.

“Esse coronel precisa aprender uma lição.”

Lampião ficou pensativo. Finalmente falou.

“Quantos capangas ele tem?”

“Tinha 12, mas cinco fugiram. Devem ter sobrado uns sete.”

“Armamento?”

“Rifles velhos, espingardas, revólveres. Nada moderno.”

“A fazenda tem muro?”

“Não, só um portão. Muita terra aberta, difícil de defender.”

Lampião assentiu. Seus olhos tinham aquele brilho perigoso.

“Quantos homens temos aqui?”

“Contando você, 15”, disse Corisco. “Na Lua nova vamos ser uns 30.”

“Não precisa de 30 para tomar uma fazenda com sete capangas. 10 homens é suficiente.” Lampião olhou para Zé Baiano. “E você vai liderar o ataque. Essa conta é sua.”

Zé Baiano assentiu.

“Preciso de uma coisa, capitão.”

“Fala.”

“Tem um velho na fazenda, Chico Velho. Foi ele que me soltou. Quando a gente atacar, eu quero ele vivo e livre.”

Lampião considerou.

“Se esse velho te ajudou, vai ser poupado. Pode trazer ele pro bando se quiser.”

“Justo.”

Maria Bonita se aproximou.

“E o coronel? O que você quer fazer com ele?”

Zé Baiano não precisou pensar.

“Quero que ele coma terra de novo. Só que dessa vez vai comer terra até morrer.”

Um sorriso fino apareceu no rosto de Lampião.

“Então tá decidido. Quando o bando todo chegar na Lua Nova, vamos fazer uma visita ao coronel Augusto Paranhos.”

Os cinco dias passaram. Na noite da Lua Nova, 32 cangaceiros estavam reunidos. Lampião os reuniu.

“Amanhã a gente vai visitar a fazenda São Sebastião. O coronel de lá desrespeitou o Zé Baiano. Jogou terra na comida dele, chicoteou ele, prendeu ele. Ninguém mexe com o bando sem pagar.”

Os cangaceiros murmuraram aprovação.

“Zé Baiano vai liderar o ataque. Eu, Maria Bonita, Corisco e mais seis vamos com ele. O resto fica aqui de reserva.” Lampião apontou para Zé Baiano. “É sua vez de falar.”

Zé Baiano se levantou.

“A fazenda fica a três léguas. Vamos sair antes do amanhecer. Chegamos quando o sol nascer. Tem dois portões. Vamos entrar pelos dois ao mesmo tempo. Cercamos a casa grande antes deles se organizarem.”

“E os trabalhadores?”, perguntou Volta Seca.

“Não mexem com eles. Eles não têm culpa. São praticamente escravos, mas os capangas morrem, todos eles.”

“E o coronel?”, perguntou Maria Bonita.

“O coronel fica vivo por enquanto. Ele vai pagar de um jeito especial.”

O bando saiu da serra 3 horas antes do amanhecer. 10 cangaceiros, todos armados com Winchester, punhais, cartucheiras cheias. Quando o horizonte começou a clarear, já estavam nos arredores da fazenda. Zé Baiano dividiu o grupo, cinco com ele pela frente. Lampião, Maria Bonita, Corisco e mais dois pelos fundos.

“Esperem meu sinal. Quando eu atirar, todos atiram.”

Os grupos se separaram. Zé Baiano levou seus homens até o portão principal. O capanga de vigia cochilava. Era o mesmo gordo com cicatriz. Zé Baiano se aproximou silencioso. Quando estava a 3 metros, o capanga acordou, viu o cangaceiro e empalideceu.

“Lembra de mim?”

O capanga tentou erguer o rifle, não teve chance. O tiro de Zé Baiano o acertou no peito. Foi o sinal. Tiros explodiram pelos dois lados. Os capangas foram pegos de surpresa. Em 3 minutos, seis estavam mortos. O último, Oliveira, tentou se trancar no depósito. Corisco o pegou, atirando em suas pernas. Oliveira caiu, gritando:

“Onde tá o coronel?”

“Na casa grande, ele e o filho.”

Zé Baiano estudou o capanga mor.

“Você chicoteou trabalhadores?”

“Sim, mas era ordem do coronel.”

“Quantos?”

“Muitos… mas eu não queria.”

Zé Baiano assentiu.

“Então morre obedecendo.”

O tiro foi rápido. Os trabalhadores tinham saído dos barracões. Zé Baiano se aproximou.

“Ninguém vai machucar vocês. Voltem pros barracões e fiquem lá até acabar.”

Chico Velho estava entre eles. Quando viu Zé Baiano, lágrimas desceram.

“Você voltou.”

“Voltei. E você tá livre. Todos vocês tão livres.”

Lampião se aproximou.

“A casa tá cercada. O coronel trancou as portas. Vamos tirar eles de lá.”

Zé Baiano parou na frente da porta.

“Coronel Augusto, pode sair. Não tem para onde fugir.”

Silêncio.

“Vou contar até três. Se não sair, a gente queima a casa.”

A porta se abriu. Augusto Paranhos saiu, as mãos erguidas. Atrás dele, Roberto e mais dois capangas jovens. O coronel tinha envelhecido 10 anos. Seus olhos estavam fundos, o rosto pálido.

“Não me matem. Eu tenho dinheiro, posso pagar…”

“Ninguém quer seu dinheiro”, disse Lampião. O rei do cangaço se virou para Zé Baiano. “Ele é seu.”

Zé Baiano caminhou até o coronel.

“Lembra de mim?”

Augusto assentiu tremendo.

“Lembra do que você fez?”

“Eu… eu não sabia quem você era. Se soubesse não teria feito.”

“Ou você só não faz essas coisas com quem pode se vingar?”

Augusto não respondeu.

“Quantos trabalhadores você humilhou? Quantos você chicoteou? Quantos você manteve preso trabalhando até morrer?”

“Eu… era meu direito.”

“Direito? Você acha que é dono de pessoas?” Zé Baiano se virou para os outros. “Peguem ele e o filho também.”

Os cangaceiros agarraram Augusto e Roberto, arrastando-os para o meio do pátio. Os dois capangas jovens foram poupados. Lampião apenas os desarmou e mandou que fugissem. Zé Baiano olhou ao redor. Via os trabalhadores saindo, observando. Via Chico Velho parado na frente.

“Chico, vem aqui.”

O velho se aproximou.

“Você me salvou. Então você merece ver o que vem agora.” Virou-se para o coronel, que estava de joelhos chorando. “Você me fez comer terra. Agora é sua vez.”

Corisco pegou um punhado de terra e jogou na cara de Augusto.

“Come.”

“Não, por favor…”

“Come.”

Augusto, soluçando, abriu a boca e engoliu terra. Vomitou imediatamente. De novo, mais terra, mais vômito. Isso continuou por longos minutos. Cada vez que engolia, vomitava. Cada vez que vomitava era forçado a engolir mais. Seu rosto estava coberto de lama, lágrimas e vômito. Roberto, ao lado, chorava sem parar. Finalmente, Augusto caiu de lado, vomitando sangue. Zé Baiano se ajoelhou ao lado.

“Tá vendo? Isso é o que você fez comigo. Isso é o que você fazia com os outros. Mas você teve sorte, porque você só vai comer terra por uns minutos. Eu tive que comer até acabar o prato.”

Fez um sinal para Lampião. O rei do cangaço sacou seu revólver e atirou. O tiro acertou Augusto no peito. Ele morreu em menos de um minuto. Roberto gritou. Maria Bonita o segurou.

“E esse?”, Zé Baiano olhou para o filho do coronel. Via nele o mesmo tipo de crueldade. “Esse também come terra.”

Mas antes que pudessem começar, Chico Velho se aproximou.

“Posso?”

Zé Baiano olhou para ele.

“Pode o quê?”

“Posso ser eu a fazer justiça com esse?”

Zé Baiano considerou, depois assentiu.

“É seu direito.”

Chico pegou o facão, caminhou até Roberto.

“22 anos eu trabalhei aqui. Apanhei desse menino quando ele tinha 12 anos e eu já era velho. Apanhei do pai dele, apanhei de todo mundo, mas hoje não apanho mais.”

O facão desceu. Depois mais uma vez e mais uma. Quando Chico terminou, estava coberto de sangue, mas seus olhos brilhavam. Liberdade.

Os cangaceiros passaram o dia na fazenda. Libertaram todos os trabalhadores, quebrando as correntes, abriram os depósitos de comida e distribuíram. Pegaram as armas, a munição, depois queimaram a casa grande. As chamas subiram altas, consumindo tudo. A fumaça era tão densa que podia ser vista a léguas. Os trabalhadores assistiram em silêncio. Alguns choravam, não de tristeza, mas de alívio. Quando só restaram as paredes enegrecidas, Lampião reuniu o bando.

“Tá na hora de ir. A volante vai ver essa fumaça.”

Zé Baiano se aproximou de Chico Velho.

“Vem com a gente.”

O velho balançou a cabeça.

“Não, sou velho demais.”

“Então vai para onde?”

“Tenho um primo em Pesqueira. Vou procurar ele.”

Zé Baiano colocou a mão no ombro do velho.

“Se um dia precisar de alguma coisa, pergunta por mim no sertão. Qualquer coiteiro sabe onde o bando tá.”

“Sei que vai.”

Zé Baiano virou-se e seguiu para onde o bando esperava. Os trabalhadores observaram os cangaceiros partir. Quando o último homem sumiu, começaram a se dispersar, cada um buscando seu próprio caminho. A fazenda São Sebastião ficou vazia, apenas as ruínas fumegantes, os corpos de Augusto e Roberto cobertos por lençóis e o silêncio da justiça que tinha sido feita. M.