Ela tinha 24 anos, vestia um vestido gasto, carregava uma mala que mal fechava e um cachorro que ninguém mais queria. Ela foi expulsa de sua própria casa em uma manhã quente e vagou sem rumo por uma estrada de terra que não levava a lugar nenhum, até que avistou uma propriedade abandonada no meio do mato alto, aparentemente esquecida por Deus e pelo mundo.
Não havia ninguém lá, não havia comida. Não havia nada além de paredes velhas e um silêncio que pesava como chumbo. E foi naquele lugar, onde qualquer um teria tido vontade de chorar e dar meia-volta, que Celina decidiu ficar, sem saber quem era o dono daquela terra, sem saber como iria sobreviver, sem saber que aquele lugar guardava segredos que mudariam sua vida para sempre.
No interior do Brasil de antigamente, histórias como essa ecoavam por rios e estradas de terra. Celina acordou naquela manhã, sem saber que seria a última vez que dormiria sob aquele teto. O sol ainda estava nascendo quando seu padrasto bateu na porta do quarto dos fundos com o punho cerrado, daquele jeito que fazia o coração dela acelerar desde que era uma garotinha. Alides não era um homem de muitas palavras, mas as poucas que dizia carregavam o peso de um julgamento.
Ele disse:
“Você está muito velha para ficar aqui comendo de graça. A Dalva precisa do quarto para guardar as coisas dela e já é hora de você ir embora e se virar sozinha como uma adulta.”
Celina olhou para ele, tentando encontrar algo nos olhos do homem que a lembrasse de afeto, algo que a lembrasse dos anos que passou cuidando daquela casa, cozinhando, lavando, passando, costurando, fazendo o trabalho de duas pessoas, sem nunca receber um obrigado. Mas não havia nada ali, apenas a urgência de quem queria se livrar de um fardo.
A mãe de Celina havia morrido quando ela tinha 9 anos. Uma febre que começou fraca levou, em quatro dias, a única pessoa no mundo que tratava Celina com carinho. Alides não era o pai verdadeiro; ele era o homem com quem a mãe de Celina havia se juntado quando ela ainda era um bebê. E desde o funeral ficou claro que ele tolerava a garota apenas porque precisava de alguém para cuidar das tarefas domésticas.
Celina cresceu assim, entre o fogão e o tanque de lavar roupas, aprendendo a engolir em silêncio o cansaço e a solidão. Ela nunca foi à escola, nunca teve um vestido novo, nunca ouviu ninguém dizer que ela era importante. A única coisa de valor que a mãe deixou para trás, além da imagem de Nossa Senhora, foi o conhecimento de ler e escrever. Antes de adoecer, ela havia ensinado Celina a juntar as sílabas, a escrever o próprio nome e a ler devagar as palavras em rótulos e bilhetes. E essa pequena herança permaneceu guardada dentro da jovem como uma semente que ainda não sabe onde vai brotar.
Quando Dalva chegou, uma mulher com uma risada alta e um olhar frio que tratava Celina como se fosse um móvel velho atrapalhando a decoração, a jovem entendeu que seus dias ali estavam contados. Ela só não esperava que terminasse assim, com uma mala de papelão na mão e a porta se fechando atrás dela antes mesmo do café esfriar.
Dalva apareceu na varanda enquanto Celina descia os degraus com sua mala e ficou ali, de braços cruzados e um sorriso que não guardava nenhuma bondade para ela. Ela não disse uma palavra; não precisava. Seu silêncio foi mais cruel do que qualquer palavra.
Celina apertou a alça de sua mala e começou a caminhar pela estrada de terra da vila, passando pelas casinhas dos vizinhos, espiando pelas janelas sem coragem de dizer nada, sentindo o chão quente sob suas sandálias finas e o peso de alguém que não tem para onde ir. Foi quando ela ouviu um latido atrás de si e se virou para ver Pituca correndo em sua direção, suas patas levantando poeira. A língua de fora, os olhos castanhos cheios daquela lealdade que só um cachorro possui.
Alides gritou da porta da frente:
“Leve essa coisa inútil com você, não vou desperdiçar comida com uma criatura inútil!”
Pituca alcançou Celina e encostou o focinho em sua perna, ofegante, como se dissesse que para onde quer que ela fosse, ele também iria. Celina se abaixou, passou a mão na cabeça do cachorro caramelo e sentiu os olhos arderem. Pelo menos alguém naquele mundo a escolheu. Eles caminharam por horas sob um sol impiedoso e castigador.
A vila ficou para trás, e a estrada de terra agora cortava uma paisagem seca de capim dourado, velhas cercas em ruínas e árvores retorcidas que pareciam estar rezando para o céu. Celina não sabia para onde estava indo. Não conhecia ninguém em lugar nenhum. Não tinha dinheiro no bolso, não tinha nenhum plano. Ela tinha apenas uma mala com três peças de roupa, um pente, um pedaço de sabão, sua certidão de nascimento e uma imagem de Nossa Senhora que sua mãe havia deixado para ela quando era pequena, feita de gesso pintado, com a tinta já descascando das mãos.
De vez em quando, uma charrete passava à distância, mas Celina não pedia carona. Tinha vergonha de explicar para onde estava indo, porque a verdade é que ela não estava indo a lugar nenhum. Pituca trotava ao lado dela sem reclamar, parando de vez em quando para cheirar os arbustos e depois voltando a correr, sempre perto, sempre leal, como se entendesse que os dois agora só tinham um ao outro.
O sol já estava se pondo quando Celina avistou um caminho estreito que se bifurcava da estrada principal, quase escondido pelo mato alto. Algo a fez parar ali. Talvez fosse exaustão, talvez um instinto que ela não conseguisse explicar. Talvez Deus estivesse guiando os passos de alguém que já não sabia mais como caminhar sozinha.
Pituca entrou no caminho antes dela, cheirando o chão com interesse, e Celina o seguiu, afastando galhos com a mão livre enquanto segurava a mala com a outra. Eles caminharam cerca de 500 metros ao longo daquele caminho coberto de mato, até que a vegetação rasteira diminuiu e se abriu em uma clareira onde, silenciosa como um segredo guardado por muitos anos, erguia-se uma casa de pau a pique com telhado de telha colonial e paredes que um dia haviam sido brancas.
A cerca de madeira ao redor estava torta e quebrada em vários lugares. A vegetação havia tomado conta de quase tudo, escalando as paredes e cobrindo o que antes devia ser um quintal limpo. Não havia luz, nenhum som de pessoas, nenhum sinal de que alguém estivesse ali há muito tempo. Celina ficou ali olhando para a casa, com o coração batendo forte, sentindo uma estranha mistura de medo e algo que parecia esperança.
Ela empurrou o que restava do pequeno portão de madeira e caminhou lentamente até a porta da frente. Estava encostada na parede, não estava trancada. E quando Celina empurrou, a madeira gemeu com um longo rangido que ecoou no silêncio do final da tarde. Lá dentro, cheirava a mofo e a como se o tempo tivesse parado.
A luz dourada do sol entrava pelas janelas sem vidro, iluminando uma sala com chão de madeira coberto de poeira, folhas secas e teias de aranha. Havia uma velha mesa encostada na parede, duas cadeiras viradas e um fogão a lenha no canto da cozinha que parecia robusto, apesar da idade. Celina largou a mala no chão e caminhou por toda a casa.
Dois quartos pequenos com camas de ferro sem colchões, uma cozinha com prateleiras vazias e um quintal onde o mato era tão alto que não se via o que havia além. Tudo abandonado, tudo esquecido, tudo congelado no tempo, como se o dono tivesse partido um dia e nunca mais tivesse voltado. Pituca farejou cada canto, cada fresta, cada sombra, e depois voltou para Celina e deitou-se pacificamente aos seus pés, como se aprovasse o lugar.
Celina sentou-se na beirada da porta, olhando para o céu, que se tornava laranja e roxo, e pela primeira vez desde que saíra da casa de seu padrasto, ela realmente respirou fundo. Não sabia de quem era aquela propriedade. Não sabia se alguém apareceria no dia seguinte e a mandaria embora novamente.
Não sabia como iria comer, como iria se aquecer, como iria sobreviver lá sem nada. Mas sabia de uma coisa com uma certeza tão forte que lhe doía o peito: ela não voltaria. Não voltaria para a casa de Alides. Não imploraria por abrigo a ninguém. Ela não deixaria mais ninguém neste mundo decidir o que ela merecia ou não ter.
Se aquela casa estava vazia e esquecida, então era perfeita para ela. Porque Celina se sentia exatamente da mesma forma. A primeira noite foi a mais difícil que ela já enfrentara, sem comida, sem fogo, sem cobertor, deitada no chão duro de madeira com a mala servindo de travesseiro e uma pequena manta, enrolada contra a barriga, aquecendo o que o frio da madrugada tentava roubar.
Seu estômago roncava de fome, e os sons da noite eram aterrorizantes para alguém que nunca havia dormido sozinha no meio do mato. Havia corujas, havia grilos, havia galhos estalando. Havia um vento soprando pelas janelas abertas, e parecia sussurrar coisas que ela não compreendia.
Celina recitou baixinho a oração que a mãe lhe ensinara. Ela apertou a imagem de Nossa Senhora contra o peito e pediu a Deus que lhe desse forças para suportar pelo menos mais um dia. Apenas mais um dia, e depois outro, e depois outro. Adormeceu com Pituca, respirando ritmicamente ao seu lado, com uma fome que parecia corroê-la por dentro.
Quando o sol nasceu e os primeiros raios entraram pela janela sem vidro, Celina abriu os olhos e ficou ali deitada, olhando para o teto escuro de madeira, onde uma lagartixa corria atrás de um inseto. O corpo inteiro doía do chão duro. A boca estava seca, a fome era um buraco no meio do peito, mas ela estava viva, estava inteira.
E aquele teto, por mais velho e rachado que fosse, não pertencia a ninguém que pudesse despejá-la. Ela se levantou devagar, esfregou os olhos e saiu para o quintal com Pituca em seus calcanhares. O mato era alto e denso, mas no meio daquele caos verde, Celina viu algo que fez seu coração disparar.
Havia uma velha mangueira com um tronco grosso e retorcido, carregando frutos maduros, amarelos e perfumados, rachados pelo sol, que haviam caído no chão. Ela pegou uma manga do chão, limpou-a na saia do vestido e deu uma mordida. O suco doce escorreu pelo seu queixo e Celina fechou os olhos, saboreando o gosto da fruta como se fosse a melhor refeição que já havia comido na vida.
Porque foi a sua primeira conquista naquele lugar. Era a própria terra, no jeito silencioso que a terra fala, dizendo que havia vida ali, que era possível ficar ali, que Celina podia tentar ali. Ela comeu três mangas naquela manhã, deu um pouco para Pituca, que as devorou com a alegria simples dos cachorros, e depois se sentou debaixo daquela velha árvore, olhando para a propriedade abandonada com novos olhos.
Já não via a ruína, via possibilidades. Viu um riacho que ela podia ouvir correndo em algum lugar por perto. Viu goiabeiras escondidas no mato. Através da terra escura no quintal que parecia fértil por baixo de toda aquela sujeira. Ela viu um fogão a lenha que poderia funcionar se conseguisse acender o fogo e, pela primeira vez em muito tempo, viu um futuro que dependia apenas de suas próprias mãos.
Ainda não era um futuro lindo, não era confortável, não era seguro, mas era dela. E isso foi o suficiente para Celina se levantar, tirar a poeira do vestido, arregaçar as mangas e começar. A primeira coisa que Celina precisava era de fogo. Sem fogo não havia comida quente, não havia água fervendo, não havia luz quando a noite caísse.
Ela lembrava vagamente de sua mãe acendendo o fogão com pedaços de pedra que soltavam faíscas quando batiam umas nas outras, mas nunca havia feito aquilo sozinha. Ela juntou folhas secas e gravetos finos no fogão a lenha da cozinha. Empilhou-os da forma que achava certa e passou a manhã inteira tentando acendê-lo com duas pedras que encontrou no quintal.
Suas mãos doíam de tanto bater repetidamente uma na outra sem resultado. Ela tentou com palha mais fina, tentou soprar de maneiras diferentes, tentou até esfregar um graveto no outro, como já vira alguém fazer uma vez. Nada. A frustração a atingiu como uma onda quente no peito, e Celina sentou-se no chão da cozinha, com as mãos trêmulas e os olhos cheios de lágrimas.
Pituca se aproximou e deitou a cabeça no colo dela, como se quisesse dizer que não havia problema em errar. E foi ali, com o cachorro no colo e a vergonha de não conseguir fazer a coisa mais simples do mundo, que Celina percebeu que sobreviver sozinha exigiria uma paciência que ela nunca precisou antes. Ela tentou novamente. Desta vez o método mudou.
Ela raspou as pedras em vez de batê-las, usando um movimento mais lento e firme. E, de repente, uma faísca saltou e caiu na palha seca. Celina soprou cuidadosamente, protegendo aquela minúscula brasa com as mãos em concha, sentindo o calor fraco e tremendo de ansiedade. A palha pegou fogo, depois os gravetos, depois a lenha fina, e quando a primeira chama firme subiu no velho fogão, Celina soltou um grito de alegria que assustou os pássaros da mangueira.
Pituca latiu junto, empolgado com a excitação dela, e os dois ficaram ali observando o fogo crescer como se fosse a coisa mais linda do mundo. E, naquele momento, era a prova de que Celina conseguia aprender, conseguia fazer, conseguia dar conta. Ela ferveu água numa velha panela que encontrou no fundo de um armário e bebeu-a quente, sentindo o líquido morno descer por sua garganta seca.
Não havia açúcar, nem café, mas havia água limpa e quente, e isso era mais do que ela teve na noite anterior. No segundo dia, Celina seguiu o som da água que ouvia desde que chegou. Seguiu o barulho através do mato nos fundos da propriedade com Pituca abrindo caminho à frente, cheirando tudo.
E depois de cerca de 200 metros de vegetação densa, encontrou o que procurava. Um riacho estreito de água límpida correndo sobre pedras lisas, sombreado por árvores que formavam uma espécie de túnel verde por cima. A água era tão limpa que dava para ver o fundo e alguns peixinhos nadando rapidamente entre as rochas. Celina ajoelhou-se na margem, mergulhou as mãos e levou a água ao rosto.
Estava fria, doce e limpa. Ela bebeu até encher o estômago e então sentou-se ali, ouvindo o som do riacho, sentindo pela primeira vez, desde que saíra da casa de Alides, algo parecido com paz. Pituca entrou na água e ficou imóvel com as patas na correnteza, tentando morder os peixinhos que passavam, mas errando todos. E Celina riu.
Uma risada genuína, desenfreada, que veio do fundo do coração e ecoou entre as árvores. Ela não ria há tanto tempo que o próprio som a assustou. A comida ainda era um problema urgente. As mangas forneciam sustento. Mas Celina sabia que não poderia viver só de frutas. Precisava de algo mais forte, algo que enchesse seu corpo e lhe desse energia para o trabalho que vinha pela frente.
Foi Pituca quem resolveu isso primeiro. No terceiro dia, o cachorro desapareceu no mato por quase uma hora e voltou com um pequeno animal abatido na boca, depositando a criatura aos pés de Celina com o orgulho de um caçador. Ela olhou para o pequeno animal e sentiu o estômago embrulhar, porque nunca havia limpado caça na vida, mas sua fome era mais forte que a repulsa.
Ela se lembrou de ver Alides limpando tatus no quintal e tentou fazer o mesmo, usando uma velha faca enferrujada que encontrou em uma gaveta da cozinha. Foi desajeitado, demorado, foi uma bagunça. Mas, no final da tarde, Celina tinha carne assando sobre o fogo do fogão a lenha. O cheiro se espalhou por toda a casa e Pituca, deitado na porta da cozinha, esperava por sua parte com os olhos brilhando de expectativa.
Naquela noite, ela comeu carne pela primeira vez em três dias e dividiu a metade com o cachorro que havia providenciado a refeição. Deus coloca as coisas no nosso caminho das maneiras mais inesperadas. E, às vezes, essa criatura tem quatro patas e um rabo que não para de abanar. Durante a primeira semana, Celina mapeou tudo o que a propriedade tinha a oferecer.
Além da mangueira, encontrou duas goiabeiras carregadas de frutos, um pé de maracujá selvagem entrelaçado em uma velha cerca e, em um canto mais isolado do quintal, touceiras de inhame e um mamoeiro fino, mas com frutos verdes no topo. O riacho tinha peixes, e Celina passou dois dias inteiros tentando pegá-los com uma linha improvisada, feita de barbante que tirou de um saco de estopa, e um anzol torto que moldou a partir de um pedaço de arame que encontrou no galpão dos fundos.
Ela perdeu iscas, perdeu a paciência, passou horas agachada na margem sem pegar nada, até que, numa tarde, sentiu um puxão na linha e tirou um lambari prateado que se debatia no ar. Era pequeno, cabia na palma da mão, mas Celina segurou aquele peixe como se fosse um troféu. Ela pescou mais três naquela tarde e voltou para casa com um andar diferente, o andar de quem acabava de provar a si mesma que poderia arrancar o sustento daquela terra com as próprias mãos.
Foi no final da segunda semana que Celina fez a descoberta que mudou tudo. Ela estava varrendo o quarto menor, o mais ao fundo da casa, quando sentiu uma tábua do assoalho ceder de maneira diferente das outras, como se houvesse algo oco por baixo. Ela se ajoelhou no chão, enfiou os dedos na fresta e puxou. A tábua soltou-se facilmente, revelando um recesso escuro onde estava encaixada uma caixa de madeira escura, do tamanho de uma gaveta, coberta de poeira e teias de aranha.
Celina removeu cuidadosamente a caixa, levou-a para o quarto com mais luz e a abriu. Lá dentro, encontrou coisas que fizeram seu coração apertar de um jeito estranho. Havia um espelho de mão com uma moldura de prata escurecida pelo tempo. Havia um pente de tartaruga com dentes faltando. Havia uma trouxa de pano contendo sementes secas de vários tipos.
Cada pequeno saco estava amarrado com barbante e rotulado com uma caligrafia pequena e caprichada. E havia um caderno grosso, de capa dura, com páginas manuscritas amareladas, cheias de desenhos de plantas, notas sobre as estações de plantio, receitas de chás e indicações de ervas para cada tipo de enfermidade. Celina folheou aquele caderno por horas, tentando decifrar a velha caligrafia que às vezes borrava, onde a tinta tinha sido de má qualidade.
Quem escreveu aquilo sabia muito sobre a terra, sobre as plantas, sobre os segredos que a natureza guarda para quem tem paciência de aprender. Não tinha nome em lugar nenhum, nem data, apenas o conhecimento de alguém que morou ali e registrou tudo com cuidado, como se quisesse que aquele conhecimento sobrevivesse. No fundo da caixa, por baixo de tudo, Celina encontrou uma boneca de pano com um vestido de chita desbotado e cabelos de lã preta, uma boneca infantil feita à mão, com pontos firmes e amorosos.
E, naquele momento, Celina entendeu que quem morava ali não era apenas uma pessoa, era uma mulher. Uma mulher que conhecia as coisas da terra, que tinha uma filha ou uma neta e que, por algum motivo que Celina ainda não sabia, havia ido embora, deixando para trás tudo o que era mais precioso — a boneca, o caderno, as sementes —, como se tivesse partido às pressas ou não tivesse escolha.
A terceira semana trouxe a Dona Firmina. Celina estava no quintal arrancando ervas daninhas ao redor das árvores frutíferas quando ouviu Pituca latindo na frente da casa. Não aquele latido agressivo de perigo, mas aquele latido curto de curiosidade. Ela foi até lá e encontrou uma senhora parada do lado de fora da cerca, apoiada em um cajado de madeira, com um largo chapéu de palha cobrindo um rosto de pele escura e enrugada por décadas de sol.
A senhora devia ter uns 70 anos, talvez mais, mas seus olhos eram brilhantes e alertas como os de uma coruja. Ela carregava uma cesta no braço com coisas cobertas por um pano de algodão. Ficou olhando para Celina em silêncio por um tempo, depois simplesmente disse:
“Eu vi a fumaça saindo da chaminé. Já faziam muitos anos que ninguém acendia um fogo nessa casa.”
Celina sentiu todo o seu corpo congelar de medo, pensando que a mulher fosse dona da propriedade e tivesse vindo para mandar que ela saísse. Mas Dona Firmina entrou pelo portão com a naturalidade de quem entra na própria cozinha. Ela olhou em volta, aprovando o trabalho que Celina já havia feito no quintal, e entregou-lhe a cesta.
Lá dentro havia farinha de mandioca, rapadura, um pedaço de carne seca e um maço de ervas frescas amarradas com cipó. Celina quis recusar porque não tinha como pagar, mas Dona Firmina fez um gesto com a mão, como se enxotasse uma mosca, e disse:
“Não se recusa comida quando Deus a manda. Eu moro sozinha a uns 3 km daqui, do outro lado do riacho, numa casinha que poucos conhecem.”
“Eu sou parteira e raizeira, conheço cada planta dessa região e as suas utilidades, e há muitos anos eu conheci a mulher que morava nessa propriedade.”
Celina sentiu o coração disparar e quis perguntar tudo de uma vez. Quem era a dona? Por que ela foi embora? O que aconteceu ali?
Mas Dona Firmina tinha o ritmo dos mais velhos, que sabem que a pressa estraga a história, e mudou de assunto com a habilidade de quem já contou muitos causos ao pé do fogo. Ela perguntou:
“O que você está comendo, minha filha? Como está se virando? Você sabe plantar alguma coisa?”
E quando Celina confessou que não sabia quase nada, que estava sobrevivendo de frutas, peixes pequenos e da caça do cachorro, a velha senhora deu uma risada rouca que pareceu sacudir todo o seu corpo. Dona Firmina voltou no dia seguinte trazendo mudas de mandioca, ramas de batata-doce e sementes de abóbora e feijão fradinho.
Ela passou a manhã ensinando Celina a preparar a terra, a cavar na profundidade certa e a plantar cada coisa no espaçamento correto. Explicou que a mandioca era a salvação de quem não tinha nada, porque crescia em qualquer terreno, suportava a seca, rendia farinha, fazia beiju e dava sustento para o corpo aguentar o trabalho pesado.
A batata-doce era quase tão rústica quanto, e o feijão-de-corda brotava rápido e enchia a panela em poucas semanas. Celina ouvia com atenção, sabendo que aquelas palavras valiam mais que ouro, memorizando cada instrução, cada detalhe, repetindo os gestos até acertar.
As mãos que só conheciam panelas, vassouras e agulhas estavam agora enterradas na terra escura do quintal. Sentindo a umidade, a textura, a vida que existia por baixo daquela camada de abandono. E quando Dona Firmina partiu, no final da tarde, Celina ficou olhando para os canteiros recém-plantados, com o coração cheio de uma emoção que não sabia muito bem como descrever.
Era medo misturado com esperança, dúvida misturada com desejo, a sensação de que, pela primeira vez na vida, estava fazendo algo que era verdadeiramente seu. Os dias foram aos poucos ganhando uma rotina que Celina moldou com a disciplina silenciosa de quem entende que cada hora desperdiçada significava uma hora de fome mais tarde.
Ela acordava com o sol e ia direto ao riacho buscar água para beber e regar os canteiros. Depois, pescava por uma hora, aprendendo a ler o comportamento dos peixes, os melhores lugares, as melhores iscas. Voltava para casa, cuidava do fogo, preparava a comida do dia e passava o resto da manhã trabalhando a terra, capinando, plantando e regando.
Pituca estava sempre por perto, caçando o que aparecesse, espantando cobras com latidos furiosos, e à noite dormia encolhido aos pés de Celina, como um guardião peludo que nunca tirava folga. O corpo de Celina foi mudando a cada dia que passava. Seus braços finos haviam ganhado músculos de tanto cavar e carregar baldes.
Suas mãos ficaram ásperas e calejadas, com linhas de terra embaixo das unhas que não saíam de jeito nenhum. Sua pele clara foi queimada pelo sol e ganhou sardas no nariz e nas maçãs do rosto. E os olhos que chegaram ali, cheios de medo e vazio, começaram a ganhar uma luz diferente, a luz de quem descobre, ponto por ponto, do que é feito por dentro.
Uma noite, depois de um longo dia de trabalho, Celina abriu o caderno da caixa de madeira e começou a estudar as receitas de ervas com mais cuidado. Havia chá para febre, chá para dor de estômago, cataplasma para feridas e banho para inflamação. E ao lado de cada receita, a autora desconhecida havia desenhado a planta com delicado cuidado.
Cada folha, cada detalhe da flor, como se quisesse garantir que quem lesse não confundiria uma erva com outra. Celina levou o caderno para o quintal no dia seguinte e começou a comparar os desenhos com as plantas que cresciam ao redor da casa. E, uma a uma, encontrou muitas das ervas ali mesmo, crescendo soltas no meio do mato, esperando há anos que alguém as reconhecesse novamente, as colhesse, usasse o poder que guardavam em suas folhas.
Celina ainda não sabia o nome da mulher que havia escrito naquele caderno. Não conhecia a sua história, não conhecia o seu rosto, mas sentia uma ligação com ela que ia além das palavras, como se as duas estivessem a conversar através do tempo, separadas por anos de silêncio, mas unidas pela mesma terra e pela mesma necessidade de sobreviver.
Seis semanas depois de chegar com uma mala de papelão e nada mais, Celina viu o primeiro broto de feijão despontar da terra, verde brilhante, curvado em direção ao sol como um pequeno animal em busca de luz. Ela ficou agachada, olhando para aquele minúsculo broto por tanto tempo que Pituca se aproximou e cutucou seu braço com o focinho, querendo saber por que ela demorava tanto.
Celina passou a ponta delicada do dedo sobre a pequena folha, como se tocasse em algo sagrado, e sentiu algo subir à garganta, que não era choro nem riso, era algo no meio. Ali estava a prova. A terra havia respondido ao seu trabalho. A terra havia aceitado Celina como ela nunca fora aceita por ninguém antes.
Nos dias seguintes, os canteiros começaram a despertar um a um, a mandioca empurrando folhas largas para fora da terra, a abóbora rastejando em vinhas longas que pareciam querer abraçar o quintal inteiro, a batata-doce crescendo silenciosamente no subsolo, guardando as forças para quando fosse colhida.
Celina olhou para tudo aquilo e sentiu o peito inchar com um orgulho que nunca havia experimentado na vida. O orgulho de quem construiu algo do nada através da própria força e teimosia. Dona Firmina aparecia toda semana trazendo algo e levando outra coisa. Trazia ensinamentos, paciência, histórias dos tempos antigos que faziam Celina perder a noção do tempo enquanto ouvia.
Ela estava confiante de que a jovem perceberia que aquela terra havia encontrado sua dona por direito. Foi Dona Firmina quem ensinou Celina a fazer farinha de mandioca, um processo que levava dias e deixava o corpo todo exausto. Primeiro descascar as raízes, depois ralar uma a uma usando o ralador de lata furado que a velha trouxe de casa.
Depois espremer a massa para retirar o tucupi venenoso. Depois, torrá-la no forno de barro que as duas construíram juntas no quintal, com tijolos que Celina carregou do mato, de um muro caído que encontrou nos fundos da propriedade. A primeira fornada de farinha saiu tostada demais de um lado e crua do outro.
Celina quase chorou de frustração, mas a segunda ficou melhor e a terceira saiu boa, seca, crocante, com aquele cheirinho de farinha fresca que enchia a cozinha e fazia Pituca levantar as orelhas com interesse. Celina guardou a farinha num pote de barro e sentiu que havia ouro ali dentro, porque farinha era moeda no interior, farinha era vida, farinha era o que separava os que comiam dos que passavam fome.
Dois meses após sua chegada, Celina decidiu que era hora de ir à vila. Precisava de sal, fósforos, linha de costura, coisas que a terra não dava. Ela separou um saco de farinha, um punhado de goiabas maduras e um maço de ervas que aprendera a identificar pelo caderno da antiga moradora. Amarrou tudo num pano limpo e caminhou até a vila, que ficava a uns 7 km pela estrada de terra.
Pituca foi junto, claro, trotando ao lado com aquela alegria simples que só um cachorro tem quando vai passear. A vila era pequena, meia dúzia de casas de pau a pique em volta de uma igrejinha branca e de uma venda com varanda de madeira, onde os homens sentavam para fumar e conversar.
Celina entrou na venda com o coração batendo forte, porque fazia meses que não falava com ninguém além de Dona Firmina, e a timidez que sempre a acompanhou apertou sua garganta como uma mão invisível. Mas a farinha falou por ela. O vendeiro, um homem gordo, de bigode ralo, chamado Seu Nestor, provou a farinha, ergueu as sobrancelhas e perguntou:
“De onde veio isso?”
Celina explicou:
“Fui eu mesma que fiz, lá no sítio por trás da estrada velha.”
O homem parou de mastigar. Um silêncio constrangedor pairou sobre a venda. Os dois homens que estavam na varanda viraram a cabeça. Uma mulher que escolhia tecido num canto parou o que estava fazendo.
E Seu Nestor olhou para Celina com uma expressão que misturava surpresa e desconfiança. Ele perguntou:
“O sítio na estrada do riacho? Aquele que está abandonado há anos?”
E Celina confirmou:
“Sim, senhor.”
O vendeiro trocou um olhar com os homens na varanda e então disse:
“Eu aceito a farinha e as goiabas em troca do sal e dos fósforos. Mas tome cuidado com aquela terra, mocinha. Tem gente daqui de perto interessada nela.”
Celina não entendeu muito bem o que aquilo significava, mas guardou o aviso na cabeça e voltou para casa com as provisões e uma inquietação nova, que não passava. Pituca rosnou baixinho ao passarem por uma bifurcação na estrada, onde havia marcas frescas de cavalo, como se o cachorro sentisse no ar algo que Celina ainda não conseguia ver.
A resposta chegou na semana seguinte, montada num cavalo lustroso e vestida com roupas caras. Celina estava colhendo feijão quando ouviu cascos na estrada e viu um homem se aproximando pelo portão quebrado. Era um homem de meia-idade, de porte grande, chapéu de feltro cinza, bigode aparado e olhos pequenos que pareciam calcular o valor de tudo que via.
Ele desmontou do cavalo sem pedir licença e caminhou pela propriedade, olhando para a horta, as árvores frutíferas limpas e o novo forno de barro no quintal, com uma expressão de quem faz um balanço do que já considera seu. Ele se apresentou como Severo, um fazendeiro e dono de terras na região, e disse com uma voz mansa e quase ameaçadora:
“Estou surpreso em ver alguém morando aqui. Não via nenhuma movimentação nessa propriedade há muito tempo. Estou interessado em adquiri-la.”
Ela sentiu o familiar frio percorrer a sua espinha, o mesmo frio que sentia quando Alides levantava a voz, o mesmo frio que acompanhava cada ameaça disfarçada de conversa mansa. Ela respondeu:
“Eu não sou dona das terras. Encontrei a propriedade abandonada, estou morando aqui e cuidando dela, e não pretendo ir embora.”
Severo sorriu daquele jeito que os homens poderosos sorriem quando acham graça naqueles que consideram insignificantes. Ele disse:
“Pense bem, mocinha. Uma mulher sozinha na zona rural sem documentos é uma pessoa muito vulnerável. Eu voltarei para conversarmos de novo.”
Ele montou no cavalo e cavalgou sem se despedir, com os cascos levantando uma poeira que demorou a baixar.
Foi naquele mesmo mês que Arlindo passou por ali pela primeira vez. Ele era um tropeiro, carregando mercadorias de uma vila para outra no lombo de três mulas carregadas de caixotes. Ele parou à beira da estrada para dar água aos animais no riacho e encontrou Celina pescando na margem, descalça, com o vestido arregaçado até os joelhos e o cabelo preso num coque frouxo que o vento tentava desfazer o tempo todo.
Pituca latiu como aviso, mas não avançou, e Arlindo levantou as mãos, mostrando que vinha em paz. Ele era um homem jovem, de uns 30 anos, com pele bronzeada e castigada pelo sol, mãos grandes e trabalhadoras e uma cicatriz fina no queixo que dava ao seu rosto sério o ar de quem já tinha uma história para contar.
Ele perguntou:
“Com licença, moça. Posso usar a água?”
E Celina concordou sem muitas palavras, porque a presença de um homem desconhecido ali naquele riacho que ela já considerava seu a deixava nervosa de uma forma que ia além da mera desconfiança. Foi algo na forma como ele tratou as mulas, com paciência e uma voz gentil, removendo cuidadosamente os arreios para não machucá-las, que fez Celina observá-lo por mais tempo do que pretendia.
Arlindo agradeceu pela água e perguntou:
“A senhorita precisa de alguma coisa da vila vizinha para onde estou indo?”
E Celina respondeu:
“Não, obrigada.”
Ele tocou a aba do chapéu num gesto de respeito e seguiu viagem com as mulas. E Celina ficou ali na beira do riacho, com o coração batendo num ritmo que não reconhecia e não sabia se queria reconhecer.
Arlindo retornou duas semanas depois, e desta vez Celina tinha uma encomenda. Ela precisava de sementes de coentro e cebolinha, que não tinha encontrado na venda de Seu Nestor. E Dona Firmina havia sugerido pedir ao tropeiro que trazia de tudo das vilas maiores. Celina esperou na estrada com um pote de farinha para trocar e, quando viu as mulas chegando ao longe, sentiu uma ansiedade que tentou disfarçar arrumando o cabelo sem perceber que o estava fazendo.
Arlindo trouxe as sementes embrulhadas em papel pardo e recusou a farinha como pagamento. Ele disse:
“Essas sementes não custam quase nada. Seria um desperdício gastar a sua farinha com algo tão barato.”
Celina insistiu, porque não gostava de dever favores a ninguém, e os dois permaneceram naquele impasse educado até que Arlindo sugeriu:
“Se a senhorita quiser pagar com uma xícara de café, se tiver um feito, eu aceito.”
Celina tinha. Ela fez café no fogão a lenha enquanto Arlindo aguardava respeitosamente na varanda, sem entrar na casa sem ser convidado, conversando com Pituca, que pela primeira vez não latiu para um estranho, e até aceitou um carinho atrás da orelha. Eles beberam café sentados na varanda, ele no degrau de baixo e ela no de cima, com uma distância decente entre eles, e conversaram muito pouco.
Frases curtas sobre o tempo, sobre a estrada, sobre o preço das coisas no mercado. Mas dentro daquele pequeno espaço, havia algo crescendo devagar, silenciosamente como uma semente debaixo da terra, esperando a hora certa de brotar. As semanas seguintes trouxeram conquistas que encheram Celina de uma força renovada.
Dona Firmina lhe deu uma galinha garnizé, uma criaturinha pequena e valente, que em pouco tempo estava ciscando por todo o quintal e botando ovos pequenos, mas firmes, com gemas alaranjadas. Celina construiu um poleiro usando varas de bambu cortadas do mato e cercou-o com galhos trançados para protegê-la das criaturas noturnas. Depois veio outra galinha, essa trocada na venda por farinha, e depois mais outra que Arlindo trouxe de presente em uma de suas viagens. Ele disse:
“Sobrou da carga. Ela vai acabar morrendo na estrada se ninguém ficar com ela.”
Celina aceitou, sabendo que não tinha sobrado nada, que ele havia comprado aquela galinha de propósito, mas fingiu acreditar, porque a bondade de Arlindo tinha um jeito delicado, que não pedia reconhecimento, não exigia nada em troca, não tentava fazê-la se sentir em dívida. Ele era diferente de tudo o que Celina já havia conhecido sobre homens.
Ele era o oposto de Alides, o oposto de Severo, o oposto de todo o controle disfarçado de cuidado que ela aprendera a identificar. A horta já rendia coentro, cebolinha, abóbora madura e feijão suficientes para comer e trocar na venda. Celina ia à vila a cada 15 dias com a cesta cheia e voltava com sal, açúcar, querosene, uma agulha, linha — as pequenas necessidades que a terra não fornecia.
As mulheres da vila começaram a procurá-la depois que uma delas, Dona Matilde, pediu um chá para dor nas juntas, e Celina preparou uma mistura de ervas que aprendera no caderno da antiga moradora. A dor passou em três dias, e Dona Matilde contou para todo mundo. Depois veio outra mulher com o filho com febre. Depois outra com insônia, depois outra com cólicas fortes.
Celina atendeu a cada uma com o que sabia, sempre deixando claro que não era curandeira, mas apenas alguém que estava aprendendo com um velho caderno e com Dona Firmina. Mas as mulheres não se importavam com títulos, elas se importavam com os resultados, e os chás de Celina funcionavam. Foi assim que ela passou de forasteira do lugar abandonado a ser a moça das ervas, aquela que veio de fora, mas conhecia os caminhos da terra melhor do que muita gente nascida ali.
Mas Severo não havia esquecido. Ele voltou numa tarde com dois homens a cavalo, os mesmos olhos calculistas, o mesmo sorriso que não era um sorriso. Desta vez ele foi mais direto. Ele disse:
“Essas terras me pertencem por direito de vizinhança e uso. Eu uso o pasto dos fundos para o meu gado há anos, e uma mulher sem documentos morando aqui é uma invasora aos olhos da lei.”
Celina sentiu as pernas tremerem, mas sua voz continuou firme quando ela respondeu:
“Invasor é quem entra na propriedade dos outros sem ser convidado. Eu estou aqui há meses, cuidando de uma terra que o senhor deixou virar mato.”
Severo perdeu a paciência mansa e seu rosto endureceu. Ele explicou:
“Você tem até o final do mês para sair daqui. Depois disso, tomarei providências, e será muito pior para você se insistir.”
Ele galopou embora, e os dois homens ficaram para trás por alguns segundos, olhando para Celina e para a propriedade com olhos de quem marca território. Pituca rosnou para o cavalo mais próximo, com os pelos das costas eriçados, e só parou quando os homens finalmente partiram. Celina sentou-se no chão do quintal, com as mãos trêmulas, olhando para a horta que plantara com tanto sacrifício, para as galinhas ciscando alheias a tudo, para o forno de barro que ela e Dona Firmina haviam construído tijolo por tijolo, e sentiu o medo apertar a garganta como não sentia desde os dias em que era tratada como empregada.
Tudo o que ela havia construído com as próprias mãos poderia ser tirado por um homem de chapéu bonito, que acreditava que o poder podia ser comprado com dinheiro e arrancado através de ameaças. Pituca se aproximou e encostou seu corpo quente na perna dela. E Celina fez um carinho na cabeça do cachorro. Ela respirou fundo e fez o que sempre fazia quando o mundo ficava difícil. Ela se levantou, porque Celina já havia aprendido que o chão é um lugar para plantar, não para ficar.
Celina não dormiu naquela noite. Ela sentou-se na varanda com Pituca ao lado, olhando para a escuridão da paisagem familiar, com os olhos fechados, examinando cada canteiro, cada árvore, cada pedra, e pensando no que iria fazer. Fugir não era uma opção. Ela havia fugido uma vez na vida e prometera a si mesma que nunca mais fugiria de homem nenhum.
Mas enfrentar Severo sozinha era como tentar parar um rio com as mãos nuas. O homem tinha dinheiro, capangas e o velho hábito de tomar o que queria sem que ninguém ousasse dizer não. Quando o sol nasceu e os primeiros pássaros começaram a cantar na mangueira, Celina levantou-se e fez o que sempre fazia quando o mundo se tornava avassalador demais. Ela colocou água no fogo, fez café e foi cuidar da horta, porque mesmo que tudo estivesse prestes a se perder, ela, pelo menos, não ia perder nada.
Foi Dona Firmina quem trouxe a primeira ajuda, como sempre. Ela apareceu dois dias depois e imediatamente percebeu que Celina estava diferente. O rosto tenso, os olhos fundos de quem não dormiu bem, os gestos apressados de quem trabalha para evitar pensar. Celina contou a ela sobre Severo, sobre a ameaça, sobre o prazo que se aproximava, e a velha senhora ouviu tudo em silêncio, com o cajado apoiado no ombro e os olhos escurecidos por uma raiva antiga.
Quando Celina terminou, Dona Firmina sentou-se à sombra da velha mangueira e falou, pela primeira vez, sobre a mulher que havia morado ali antes. Seu nome era Nazaré. Ela tinha vindo de longe, sozinha, fugindo de uma vida que a maltratava, e encontrou aquele lugar vazio e fez dele o seu mundo inteiro. Ela plantou, cultivou, aprendeu os segredos das ervas e das raízes, ajudou as mulheres da região com seus chás e cuidados e, por muitos anos, viveu ali em paz com uma filha pequena que criou sozinha.
Até que o pai de Severo, que era tão ganancioso e cruel quanto o filho, quis aquela terra por causa da nascente do riacho que alimentava seus pastos. Ele pressionou Nazaré de todas as formas possíveis, assim como o filho agora pressionava Celina. Nazaré resistiu o quanto pôde, mas adoeceu. Uma doença lenta que aos poucos drenou suas forças, mês a mês.
E quando percebeu que não podia mais lutar, ela pegou a filha e partiu no meio da noite, abandonando tudo o que havia construído. Escondeu o caderno, as sementes e a boneca da filha debaixo do assoalho, como se guardasse a promessa de que, um dia, alguém voltaria para continuar o que ela havia começado.
Celina ouviu com lágrimas nos olhos e a mão pressionada contra o peito, sentindo uma conexão com aquela mulher que nunca conhecera, mas que havia caminhado na mesma terra, plantado nos mesmos canteiros, olhado para o mesmo céu, pedindo a Deus pela mesma coisa: força para não desistir. Dona Firmina disse que Nazaré era sua amiga, que as duas haviam partilhado muitas tardes de conversas e muito aprendizado sobre ervas, e que, quando Nazaré partiu, a velha senhora ficara vigiando a propriedade de longe, esperando o dia em que alguém com coragem suficiente aparecesse para fazer aquela terra viver de novo.
E então Celina apareceu com uma mala de papelão e um cachorro caramelo. E Dona Firmina soube instantaneamente que a espera havia acabado. Mas a velha disse mais uma coisa que mudou tudo. Ela disse:
“A Nazaré nunca vendeu as terras. O pai do Severo nunca conseguiu tomar posse delas porque não tinha os documentos necessários, e a propriedade continua registrada no nome da Nazaré até hoje.”
Severo não tinha direito algum sobre aquela terra e estava blefando, assim como seu pai havia blefado antes dele, apostando que uma mulher sozinha não teria coragem de verificar a verdade. Celina sentiu algo mudar dentro de seu peito naquele momento. O medo que a dominara durante dias transformou-se em algo quente e firme, que subiu por sua espinha e enrijeceu seus ombros.
No dia seguinte, ela caminhou para a vila com um passo decidido e foi direto ao cartório, uma pequena sala nos fundos da igreja, onde um velho escrivão chamado Augusto cuidava dos registros da região. Ela pediu para ver a escritura da propriedade, e o homem procurou nos livros empoeirados até encontrá-la.
A terra estava registrada em nome de Nazaré dos Santos, sem pendências, sem dívidas e sem transferência para o nome de Severo ou de qualquer outra pessoa. Celina perguntou:
“O que eu preciso fazer para ficar lá legalmente?”
E Augusto explicou:
“De acordo com a lei, qualquer um que viva e cuide de uma terra abandonada por um tempo suficiente pode reivindicar a posse, mas seria mais fácil se você encontrasse Nazaré ou algum herdeiro para fazer uma transferência de direitos.”
Celina voltou para casa com aquela informação e contou tudo para Dona Firmina, que ficou em silêncio por um momento e depois disse:
“Eu sei onde a Nazaré está. Ela mora em uma vila a três dias de viagem daqui, velha e doente, mas está viva, e a filha dela, agora já uma mulher feita, mora com ela.”
Foi Arlindo quem entregou a carta.
Celina passou a noite escrevendo à luz do lampião, contando a Nazaré quem ela era, como havia chegado lá, o que havia encontrado, o que havia plantado e o que havia aprendido com o seu caderno. Falou sobre as ervas, sobre as mulheres que ela havia ajudado, sobre a boneca da filha, cuidadosamente guardada debaixo das tábuas do assoalho durante todos aqueles anos.
E pediu, com palavras simples e honestas, permissão para ficar, para continuar o que Nazaré havia começado, para cuidar daquela terra como se fosse sua, porque de certa forma já o era. Arlindo levou a carta na viagem seguinte, sem cobrar nada, sem pedir nada, apenas dizendo:
“Eu entregarei em mãos e voltarei com a resposta.”
Antes de partir naquela manhã, ele parou em frente a Celina e disse a ela:
“A senhorita é a pessoa mais forte que eu já conheci na minha vida. Qualquer terra do mundo teria sorte em ter alguém como você cuidando dela.”
Celina sentiu o rosto inteiro esquentar e não conseguiu dizer nada além de um obrigado.
Mas quando ele virou as costas e seguiu pela estrada com as mulas, ela ficou ali, observando até a poeira baixar, com o coração batendo com um som que não tinha nada a ver com o medo. Severo voltou antes da resposta chegar, como Celina sabia que ele faria, mas desta vez ele não veio sozinho. Ele trouxe quatro homens a cavalo e uma arrogância que preencheu todo o quintal.
Ele desceu do cavalo e disse:
“O prazo acabou. Você tem que ir embora hoje, e se não for por bem, irá por mal.”
Pituca avançou, latindo com uma fúria que Celina nunca havia visto nele antes. Com os dentes arreganhados, o pelo eriçado, e um dos capangas puxou o cavalo assustado para trás.
Celina chamou o cachorro e ficou em frente à varanda, com o corpo tremendo por dentro, mas firme por fora. Ela disse:
“Eu não vou embora. Eu sei que o senhor não tem nenhum documento dessa terra. Eu fui ao cartório e vi com os meus próprios olhos. Se o senhor tocar em qualquer coisa aqui, será responsabilizado perante a lei.”
Severo ficou vermelho de raiva e deu um passo na direção dela, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma voz soou da estrada. Era Dona Firmina, e ela não estava sozinha. Atrás dela vinham Dona Matilde, Seu Nestor da venda, outras quatro mulheres da vila que Celina havia ajudado com os chás, e dois homens que Celina conhecia de vista do mercado.
Eles tinham visto os cavalos cruzarem a estrada e sabiam o que aquilo significava. Dona Firmina caminhou até o quintal apoiada no cajado, olhou para Severo com aqueles olhos de coruja que não piscavam e disse em voz alta:
“Todos aqui sabem que essa terra pertence a Nazaré dos Santos, e que está registrada no cartório para quem quiser ver! Ameaçar uma jovem que mora sozinha e trabalha honestamente é uma covardia que nem Deus perdoaria.”
As mulheres concordaram com entusiasmo, e Seu Nestor, que devia favores a Severo, mas tinha vergonha na cara, disse:
“Eu posso confirmar isso no cartório, se for preciso.”
Severo olhou ao redor e viu que, pela primeira vez, não estava diante de uma mulher sozinha. Estava diante de uma comunidade inteira que havia escolhido o lado de Celina.
Ele subiu no cavalo, com o maxilar travado de ódio, e cavalgou para longe sem dizer uma palavra. E todos ali sabiam que ele não voltaria, porque um homem covarde só ataca quem está sozinho. Arlindo voltou 10 dias depois com a resposta de Nazaré. Celina abriu a carta com as mãos trêmulas e leu-a em voz alta para Dona Firmina, que estava sentada ao lado dela na varanda.
Nazaré escreveu que chorou a cada palavra que leu, que nunca imaginou que alguém encontraria o que ela escondeu debaixo do assoalho. Saber que as ervas ainda estavam vivas e que o caderno estava sendo usado era a maior alegria que ela tivera em anos. Disse que a terra pertencia a Celina, que pediria à filha que assinasse os papéis de transferência no cartório e que pedia apenas uma coisa em troca: que Celina nunca deixasse aquela horta morrer.
Que ela deveria continuar ajudando os necessitados, que deveria repassar o seu conhecimento, como ela mesma havia feito. No fundo do envelope, havia uma fotografia velha, pequena e amarelada, de uma mulher jovem de pele escura com um vestido simples, segurando uma garotinha no colo. Atrás da foto, escrito a lápis, estava: “Nazaré e Graça no sítio”.
Celina colocou a foto ao lado da boneca de pano na prateleira da sala, e aquele cantinho tornou-se um altar silencioso, um lugar onde o passado e o presente se encontravam e se abraçavam sem precisar de palavras. O registro foi feito no mês seguinte. Graça, filha de Nazaré, veio pessoalmente, uma mulher de cerca de 40 anos com o sorriso da mãe e os olhos marejados ao ver o lugar vivo de novo.
Ela assinou os papéis na frente de Augusto, abraçou Celina como se estivesse abraçando uma irmã e pegou de volta a boneca de pano que sua mãe fizera para ela quando criança. Celina entregou a boneca, já lavada e costurada, e as duas choraram juntas na varanda. Enquanto isso, Pituca abanava o rabo, sem entender o motivo de tanta comoção.
A terra agora pertencia a Celina, no nome e na verdade. Naquela noite, ela sentou-se na varanda, contemplando o quintal enluarado, as abóboras maduras brilhando entre as ramas, as galinhas dormindo tranquilamente no poleiro e a horta que alimentava não só ela, mas já um monte de gente na vila.
Arlindo apareceu no portão, como fazia cada vez mais com frequência, sem nenhuma desculpa sobre entregas ou encomendas, simplesmente querendo estar ali. Ele sentou-se no degrau ao lado dela, e os dois permaneceram em silêncio por um tempo que não precisava de palavras. Então ele estendeu a mão e Celina a pegou. E assim eles ficaram, de mãos dadas, vendo a luz da lua pintar o lugar de prata, sentindo que algo finalmente havia florescido entre eles, quieto e firme, como tudo o que brota da terra quando recebe cuidado e tempo.
Os meses continuaram a passar, e a propriedade tornou-se uma referência na região. Celina tinha uma horta grande, um galinheiro e uma cabra que Arlindo trouxera de uma de suas viagens, que lhe dava leite, queijo e um cabrito logo no primeiro ano. Ela fazia farinha, fazia sabão, fazia chás que vendia no mercado e que as mulheres vinham buscar de vilas distantes.
Arlindo passou a ficar mais vezes do que ir embora, até que um dia ele simplesmente não partiu mais. E ninguém precisou anunciar nada, porque todos já sabiam que aquele homem quieto e aquela moça teimosa haviam se escolhido do jeito que as pessoas se escolhem no interior. Sem grandes pronunciamentos, sem grandes festas, apenas ficando juntos, apenas construindo juntos, dia após dia, lado a lado.
Dona Firmina dizia, rindo:
“A Nazaré ia ficar muito feliz em saber que o sítio dela agora tem até um tropeiro de estimação!”
Pituca envelheceu lá, o pelo de seu focinho ficando branco e o seu andar mais lento, mas sempre perto, sempre leal, dormindo na varanda de onde vigiava o portão, como se fosse o guardião oficial daquele lugar.
Em uma tarde ensolarada, quase dois anos depois de chegar, Celina estava colhendo ervas no quintal quando Pituca soltou aquele latido curto e curioso que ela conhecia tão bem. Ela foi para a frente e viu uma garota jovem e magra parada no portão, com olhos assustados, segurando uma trouxa de roupas com as duas mãos. A jovem perguntou com a voz trêmula:
“É aqui que mora a mulher que ajuda quem não tem para onde ir?”
Celina olhou para ela e viu a si mesma de dois anos atrás: a mesma mala, o mesmo medo, a mesma fome de um recomeço que parecia impossível. Ela abriu o portão e disse:
“Pode entrar. Aqui tem comida quente, uma cama, trabalho para quem quiser, e ninguém vai te mandar embora.”
A garota entrou chorando, e Celina a abraçou no meio do quintal, sentindo no coração aquela doce certeza que só quem perdeu tudo e reconstruiu consegue sentir. Um lugar que ninguém queria havia se tornado o que sempre foi, desde a época de Nazaré: um refúgio, uma terra de recomeços, um lugar onde as mulheres que o mundo jogava fora descobriam que ainda tinham raízes, e que raízes, quando encontram uma boa terra, não há força neste mundo que as consiga arrancar.
Algumas pessoas olham para trás e só veem o que perderam. Celina aprendeu a olhar para a frente e ver o que podia plantar. Não teve sorte, não teve herança, não teve caminho fácil, apenas a teimosia de quem se recusa a aceitar que o fim da estrada é o fim da história. Ela tinha mãos que aprenderam a cavar, a plantar, a colher o que a própria vida tentou lhe negar, e teve a humildade de aceitar a ajuda que Deus coloca em nosso caminho.
Às vezes na forma de uma velha senhora sábia, às vezes na forma de um tropeiro silencioso, às vezes na forma de um cachorro caramelo que simplesmente decide não te abandonar. A verdade é que ninguém se reconstrói sozinho, mesmo quando começa sozinho. E talvez a maior lição que esta história nos deixa é que os lugares mais esquecidos do mundo só precisam de alguém suficientemente teimoso para acreditar que a vida pode brotar ali de novo.