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O QUE EU VI NAQUELE CEMITÉRIO… AINDA ESTÁ LÁ! | História de Terror Real

Senti aquilo se aproximar e ouvi uma voz dentro da minha própria cabeça, e as minhas pernas não me deixavam sair dali. Mas quando finalmente abri os olhos, vi um rosto que já tinha visto antes, só que desta vez estava numa lápide. E até hoje não sei explicar o que aquela alma queria de mim, mas acho que ela me escolheu. O meu nome é Gustavo Henrique, tenho 78 anos, e esta é a minha história. Isso aconteceu em 1989.

Eu tinha 41 anos e acabara de perder o meu filho. O funeral tinha ocorrido dias antes, e eu ainda estava naquele estado que só quem já passou por uma perda dessas sabe como é. Você continua a andar, continua a comer, continua a responder quando alguém fala com você, mas por dentro você não está em lugar nenhum.

E o que senti no dia do funeral está diretamente ligado a tudo o que aconteceu depois. O enterro ocorreu numa terça-feira de manhã. Havia muitas pessoas lá, família, vizinhos, amigos de longa data. Lembro-me do sol batendo forte e de estar ali de pé, tentando não deixar que as minhas pernas me traíssem na frente de todos.

E a meio da cerimônia, com todas as pessoas à volta, senti algo estranho, um tipo diferente de aperto que não vinha de dentro de mim. Era como se houvesse ali alguma presença que não devia estar naquele lugar. Não durou muito e passou rápido, mas foi forte o suficiente para me desequilibrar por alguns segundos.

Olhei à minha volta, confuso, e não vi nada fora do normal. Apenas as pessoas, o padre, as flores, o choro que vinha de várias direções. Então disse a mim mesmo que era o luto ou a minha mente forçando as coisas num momento daqueles. Num dia assim, não nos sentimos bem, e as nossas mentes começam a criar coisas que às vezes não existem de verdade.

Não contei a ninguém, nem mesmo à minha esposa. Engoli aquilo, apertei o peito e segui com o resto do meu dia. Nos dias que se seguiram, a minha esposa não conseguiu voltar ao cemitério. Ela não estava preparada, e eu entendi. Cada um lida com o luto à sua maneira, e eu não ia forçar nada, mas senti que precisava de ir e que precisava de estar lá perto do meu filho, de uma forma diferente daquela em que estive no funeral, só eu, sem ninguém por perto.

Então fui sozinho na semana seguinte, num sábado à tarde, sem dizer a ninguém. Apenas entrei no carro e saí. A minha cabeça estava pesada, o peito apertado, mas eu precisava ir. Era como se não pudesse ser mais adiado. E quando cheguei, o cemitério municipal de Bauru estava quase vazio naquela tarde.

O céu estava encoberto, com aquele cinza pesado. Lembro-me de ter visto uma senhora lá no fundo e um senhor mais velho perto da entrada, e mais ninguém. Então entrei devagar. O lugar estava silencioso, de uma forma que parecia pesada. Não era o silêncio normal de um lugar vazio. Era mais pesado, como se o próprio ar estivesse a prender algo no lugar.

Senti isso logo na entrada, mas não liguei muito na altura. Os meus passos eram o único som que ouvia enquanto caminhava. E caminhei devagar, de cabeça baixa, passando pelas outras sepulturas sem olhar para elas. Só queria chegar, ficar ali um pouco com o meu filho e depois ir embora.

Esse era o plano. Mas as coisas não aconteceram assim. Quando cheguei lá e vi aquele nome gravado na pedra, foi diferente do dia do funeral. No funeral, estava rodeado de tanta gente, com tanto movimento à minha volta, que não consegui parar para sentir o que estava a acontecer.

Mas ali, naquele momento, éramos só ele e eu. E aquilo pesou em mim de uma forma que não esperava. Fiquei ali um pouco, sem conseguir fazer nada, sem conseguir pensar, apenas a olhar para aquele nome, para aquela data, a tentar engolir algo que não descia. Depois de um tempo, baixei a cabeça, fechei os olhos e tentei rezar.

Era a única coisa que me restava naquele momento. Mas ali, parado em frente àquele túmulo, com os olhos fechados, as palavras não vinham, a minha mente estava em branco. Só consegui ficar ali, em silêncio, de cabeça baixa, a tentar encontrar alguma força que me segurasse naquele momento. E foi aí que aquilo voltou.

Não pouco a pouco, mas tudo de uma vez. Era o mesmo aperto que tinha sentido no dia do funeral, só que desta vez muito mais forte e muito mais pesado, como se estivesse à minha espera. Então abri os olhos rapidamente e olhei em volta, mas não havia ninguém lá. O cemitério continuava vazio, tal como estava. A senhora que eu tinha visto lá ao fundo tinha-se ido embora, e o senhor da entrada também já não estava lá.

Eu estava sozinho ali, no meio daquele silêncio pesado, com aquele aperto no peito que não passava. E naquele momento compreendi algo que não queria compreender. O que senti no dia do funeral não era a minha mente a pregar-me partidas, não era choque ou luto. Era real. E o que quer que fosse, ainda estava ali naquele cemitério à minha espera.

Respirei fundo, mas não adiantou. Tentei convencer-me de que iria passar, mas aquele aperto no peito não diminuía, e no fundo eu sabia que desta vez não era só coisa da minha cabeça. Comecei a prestar atenção à minha volta, e o cemitério estava silencioso. Mas não era aquele silêncio que se sente quando se está num lugar vazio e calmo.

Era um silêncio que se fechava à nossa volta, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. E foi nesse momento que senti algo atrás de mim. Foi uma certeza que senti a subir lentamente pelas minhas costas até chegar à nuca. Tinha a certeza de que algo estava parado atrás de mim, perto e em silêncio, e que já estava ali há algum tempo, mas eu não tinha reparado antes.

Não queria olhar para trás porque sabia, de uma forma difícil de explicar, que o que estava prestes a ver não ia ser simples. Então fiquei ali imóvel, respirando fundo e a tentar ganhar coragem, mas o silêncio à minha volta continuava total, e aquela certeza de que algo estava ali não desaparecia nem diminuía.

Então virei-me devagar e com muito cuidado, como se soubesse que o que estava prestes a ver não seria fácil de enfrentar. E quando finalmente me virei, eu vi. Havia um rapaz a alguns passos de mim, de costas para mim. Parecia ter uns 25 anos, era magro e estava calado, completamente imóvel. E havia algo ali que não estava certo.

Aquele rapaz estava de pé de uma forma que eu nunca tinha visto ninguém ficar, demasiado rígido, demasiado quieto. E quando consegui encontrar a minha voz, eu falei:

“Você está bem? Precisa de alguma coisa?”

A minha voz saiu baixa, diferente do normal. Mas ele não respondeu nem se mexeu. Apenas ficou ali daquele jeito, de costas para mim, como se não tivesse ouvido nada do que eu disse.

Então desviei o olhar por um segundo, só para ver se havia mais alguém por perto. E quando voltei a olhar para o lugar onde ele estava, ele já não estava lá. Olhei em volta a tentar perceber, e ele estava noutro lugar. Mais à frente, ainda de costas viradas, ainda naquele mesmo silêncio, como se se tivesse movido sem fazer barulho. Continuei a tentar encontrar alguma explicação, porque não fazia sentido absolutamente nenhum.

Uma pessoa não sai de um lugar e aparece noutro sem que ninguém a veja. Mas foi exatamente isso que aconteceu. E de todas as vezes que eu desviava o olhar e voltava a olhar, ele estava noutro lugar. Ele nunca se movia quando eu estava a olhar. E foi aí que o frio que eu estava a sentir se transformou noutra coisa, porque percebi que o que estava à minha frente não era uma pessoa.

E olhei para aquele rapaz de costas e, de alguma forma, consegui sentir que havia algo de muito errado com ele. Era um sentimento que vinha dele, algo que só posso descrever como desespero, como se ele estivesse preso em algo que eu não conseguia ver. Eu nem sequer entendia. Então, foi aí que a voz começou.

Vinha de dentro da minha própria cabeça, como se alguém estivesse a falar de um lugar que não consigo descrever. Era curta, confusa, e eu não conseguia entender as palavras, mas podia sentir o que estava por trás delas. E o que estava ali era angústia. Aquilo não parava. Ficou ali dentro da minha cabeça como um ruído que tentamos ignorar, mas que não para de crescer.

E quanto mais eu tentava não prestar atenção, mais sentia que algo estava a ser dito, algo urgente, algo desesperado. Não entendia as palavras, mas sentia o peso delas, e esse peso continuava a aumentar. O medo dentro de mim cresceu de uma forma que nunca tinha sentido antes.

Era um medo que subia pelo meu corpo e que eu não conseguia conter. E eu fiquei ali, no meio daquele cemitério, sem saber o que fazer. Hoje, com 78 anos, quando me lembro daquele momento, ainda sinto algo mexer dentro de mim. Nunca tinha sentido um medo assim na minha vida, mas o que veio a seguir foi diferente, e eu continuava sem saber o que aquilo queria de mim.

Tentei ir embora, mover-me, dar um passo em direção à saída, mas as minhas pernas não obedeciam. Ficaram ali como se estivessem presas àquela terra. Olhei para as minhas pernas, confuso, e tentei de novo, mas não adiantou. Era como se algo me estivesse a prender ali. E foi aí que aquela presença começou a crescer de uma forma diferente.

Antes ficava por perto, mas ainda havia um espaço entre nós. Mas agora esse espaço estava a desaparecer. Era como se algo estivesse a ser colocado sobre mim a pouco e pouco, a começar pelos ombros, a descer para o peito e a fechar a minha respiração de uma forma que me obrigava a lutar para conseguir puxar o ar. Tentei respirar fundo e não deixar o desespero tomar conta, mas o peso continuava a aumentar e a voz dentro da minha cabeça tornou-se mais intensa junto com ele.

Era mais urgente, mais desesperada, como se o que quer que ele estivesse a tentar dizer não pudesse esperar mais um segundo. Fechei os olhos por um momento, a tentar concentrar-me em alguma coisa. Pensei na minha esposa, na minha casa, mas aquela voz não deixava. Ela ficava lá dentro, a bloquear tudo aquilo em que eu tentava pensar. E foi aí que a dor de cabeça apareceu.

Começou num único ponto atrás dos olhos, mas cresceu rapidamente e em pouco tempo estava a cobrir a cabeça toda, a apertar de dentro para fora. E tudo começou a ficar mais forte ao mesmo tempo. O peso nos ombros, a voz, a dor, o aperto no peito, tudo junto, tudo a crescer. Eu estava no meu limite.

Não era só medo, era tudo junto. E aquela figura de pé ali perto parecia cada vez mais aflita, como se o desespero dela estivesse a transbordar e a chegar até mim. As minhas pernas cederam devagar, como se o que quer que estivesse em cima de mim fosse demasiado pesado para elas suportarem. Tentei aguentar, tentei ficar de pé, tentei o máximo que pude, mas não havia maneira.

Os meus joelhos dobraram-se sozinhos e, antes que eu pudesse fazer alguma coisa, estava de joelhos naquele cemitério, demasiado fraco para me levantar. E foi naquele momento, de joelhos no chão e com a cabeça baixa, que senti o rapaz mexer-se. Senti que algo tinha mudado ali mesmo à minha frente, e alguma força que não sei explicar fez-me levantar o rosto lentamente, e ele tinha-se virado.

Estava bem na minha frente. A olhar para mim. Era um rosto jovem e comum. Tudo o que posso dizer é que aquele rosto tinha uma expressão que eu nunca tinha visto em ninguém antes. Era uma mistura de angústia e exaustão, como alguém que pede algo há muito tempo e não consegue fazer com que a sua voz seja ouvida.

Aquele rapaz e eu olhámo-nos fixamente por um momento. Ele não disse nada, não fez nenhum gesto, apenas ficou ali a olhar para mim com aquela expressão que pesava em mim de uma forma que eu sentia no peito. E a voz dentro da minha cabeça ainda estava lá, mais silenciosa agora, ainda a insistir em algo que eu não conseguia entender. O medo ainda estava lá, mas algo mais o acompanhava agora. Era uma situação triste.

E então fechei os olhos e, de olhos fechados, de joelhos, a tremer de dentro para fora, comecei a rezar. As palavras vieram-me sozinhas, de uma forma como eu nunca tinha falado com Deus antes. Era a súplica de um homem no seu ponto de rutura. Eu pedi proteção. Eu disse:

“Estou assustado, não sei o que é isto, preciso de ajuda. Por favor, que o que quer que esteja aqui possa ir embora, que possa encontrar o caminho que precisa de encontrar. Eu só vim visitar o meu filho, não estou aqui para fazer mal a ninguém. Preciso de paz, nós dois precisamos de paz.”

A oração foi longa. Não sei quanto tempo fiquei assim, de joelhos, de cabeça baixa, a falar naquele cemitério vazio. O tempo deixou de fazer sentido a certa altura. Havia alturas em que repetia a mesma coisa sem me aperceber, mas não parei. Sabia que não podia parar, e então o peso começou a sair. Foi saindo aos poucos, primeiro dos ombros, depois do peito. A minha respiração voltou gradualmente ao normal sem que eu tivesse de forçar, e a dor de cabeça passou lentamente.

A voz dentro da minha cabeça ficou mais fraca, mais distante, até desaparecer completamente. Os sons voltaram um a um. Primeiro o vento, depois um carro a passar lá fora na rua, depois o canto de um pássaro ao longe. O mundo voltou gradualmente ao normal e eu comecei a sentir-me sozinho novamente.

Fiquei de joelhos por mais um tempo, apenas a respirar, ainda de olhos fechados. Quando senti que tinha acabado de verdade, abri lentamente os olhos e olhei para o túmulo do meu filho. E então o meu olhar desviou-se para o lado sem que eu mandasse, e pousou numa lápide que esteve ali o tempo todo. Aquele túmulo ficava ao lado do do meu filho, separado por pouco mais de 1 metro, e eu nunca tinha olhado para ele.

Mas agora os meus olhos estavam fixos lá e eu não conseguia desviá-los. Era um túmulo antigo, abandonado, e não havia sinal de visitantes. A pedra estava escurecida pelo tempo, com aquele tom que a chuva e o sol vão criando quando ninguém cuida dela. Não havia flores, nem mesmo de plástico, nem velas, nada.

Era só aquela pedra escura ali, quieta, como se o mundo inteiro se tivesse esquecido de que existia. Levantei-me devagar, com as pernas ainda trémulas. Tive de me apoiar no túmulo do meu filho para conseguir ficar de pé sem tremer. Fiquei ali a olhar para aquela pedra escura sem chegar perto o suficiente, mas algo me puxava na direção daquele túmulo.

Então fui, dei alguns passos e cheguei perto o suficiente para começar a ler o que estava lá escrito. As letras estavam gastas pela idade, mas ainda se conseguia ler. E li devagar, com atenção. O nome dele era Luís Fernando, nasceu em 1959 e morreu em 1984, aos 25 anos. Aquele jovem tinha morrido aos 25 anos e ali jazia naquela sepultura escura, sem uma flor, sem uma vela, sem ninguém.

Em 1989, quando estive lá, ele já estava enterrado naquele lugar há 5 anos. E eu continuava a olhar e a pensar naquilo. 5 anos sem ninguém. Aquilo pesou em mim de uma forma diferente do medo que tinha sentido antes. Era uma tristeza, uma tristeza grande e silenciosa. E então os meus olhos desceram lentamente até chegarem à fotografia na lápide.

Era uma fotografia pequena, encrustada na pedra, da forma como se fazia antigamente, a preto e branco, gasta pelo tempo, mas ainda dava para ver o rosto com clareza. E eu olhei para aquela foto. Demorei alguns segundos a perceber o que estava a ver. Não foi imediato. E quando processei a informação, foi como se me tivessem tirado o chão debaixo dos pés, porque o rosto naquela foto era o mesmo rosto que eu tinha visto a olhar para mim minutos antes, ali naquele cemitério, quando eu estava de joelhos no chão.

Era o mesmo rosto jovem, os mesmos traços, a mesma expressão que tinha visto no momento em que ele se virou para mim. Era Luís Fernando. E ele já estava morto há 5 anos quando eu estava ali, a olhar para a foto dele numa lápide abandonada. As minhas pernas não aguentaram mais. Senti-as ceder de novo, e desta vez agarrei-me ao túmulo do meu filho com as duas mãos para não cair.

Fiquei ali, paralisado, a olhar para a foto, sem conseguir falar, sem conseguir pensar em nada que fizesse sentido. A minha cabeça tentava encontrar alguma explicação, mas não conseguia. Não havia explicação que pudesse justificar aquilo. Não sei quanto tempo fiquei ali a olhar para a foto de Luís Fernando. O tempo tinha deixado de funcionar normalmente naquele dia desde que entrei no cemitério.

Só sei que quando finalmente consegui largar o túmulo e ficar de pé sozinho outra vez, o céu já estava um pouco mais escuro do que quando cheguei. Mas antes de ir embora, senti que precisava de fazer alguma coisa. Não sabia exatamente o quê, mas sabia que não podia simplesmente virar as costas e ir embora. Lembro-me de que havia uma pequena torneira numa fonte de água ali perto, daquelas que o cemitério mantinha para as pessoas que traziam flores.

Fui até lá, apanhei um pequeno copo de plástico que estava abandonado no chão, lavei-o, enchi-o de água e voltei. E coloquei o copo de água em frente ao túmulo de Luís Fernando. Era tudo o que eu tinha para deixar ali naquele momento. Depois rezei. Uma oração curta e simples de quem não sabe o que dizer, mas sente a necessidade de dizer alguma coisa.

Pedi que ele encontrasse a paz. E quando finalmente saí do cemitério naquele dia, saí diferente de como tinha entrado. Não sei explicar, só sei que foi diferente. Hoje, aos 78 anos, nunca tentei dar uma explicação racional para o que aconteceu naquele sábado. Sei que há pessoas que tentariam dizer que eu estava abalado, que estava de luto, que a mente de uma pessoa que perdeu um filho pode criar coisas que não existem.

E compreendo quem pensa assim, mas eu estava lá, eu senti, eu vi. E há coisas que carregamos no corpo de uma forma que não desaparece com o tempo. E o que senti naquele cemitério é uma dessas coisas. E o que acredito até hoje é que Luís Fernando esteve naquele cemitério durante 5 anos, sem que ninguém o fosse ver, sem uma visita, sem uma oração, sem nada.

Uma alma jovem, um rapaz de 25 anos, sozinho naquele lugar, sem ninguém para ir ter com ele, e de alguma forma, de uma maneira que não sei explicar, no dia em que fui visitar o meu filho pela primeira vez, aquela alma veio até mim. Talvez porque eu também estava sozinho ali, talvez porque eu era o único que podia ouvir. Não sei.

O que sei é o que tenho feito desde aquele dia. Cada vez que vou ao cemitério municipal de Bauru visitar o meu filho, paro no túmulo de Luís Fernando, acendo uma vela, deixo um copo de água e faço uma oração por ele, da mesma forma simples que sempre rezei, a pedir que a alma dele encontre a paz, que tenha encontrado o caminho que precisava de encontrar.

Faço isto há 37 anos. 37 anos a visitar aquele túmulo. E em todos estes anos nunca vi lá ninguém da família de Luís Fernando. Nunca vi uma flor que não fosse a que eu próprio trouxe. Nunca vi uma vela que não fosse a que eu próprio acendi. Aquele túmulo continua a ser cuidado apenas por mim.

Um homem que nunca conheceu aquele rapaz em vida, que só o viu uma vez num cemitério num sábado à tarde, quando ele já estava morto há 5 anos. Não sei se o que faço ajuda de alguma forma. Não tenho como saber, mas não consigo ir embora sem o fazer. É mais forte do que eu. Espero que Luís Fernando tenha encontrado descanso e que a alma angustiada que senti naquele dia tenha encontrado o caminho que procurava. E se o que fiz até aqui ajudou nisso de alguma forma, então cada visita, cada vela, cada oração, valeu a pena.