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O Banquete dos 11 Fazendeiros: A Noite Misteriosa do Sobrado de Pernambuco, 1873

Ninguém que transpôs os umbrais do imponente palacete dos Cavalcante, naquela abafada noite de catorze de dezembro de mil oitocentos e setenta e três, poderia imaginar que aquele seria o seu derradeiro jantar.

Onze dos homens mais poderosos e temidos da província de Pernambuco, proprietários de vastas roças que se estendiam por léguas sem fim, senhores absolutos de milhares de vidas escravizadas, encontravam-se reunidos. O motivo era de celebração: brindavam à melhor e mais farta colheita de cana-de-açúcar da última década.

As extensas mesas de carvalho brilhavam sob a luz trémula das velas de sebo, refletindo-se nos cristais finos importados da Europa e nas pratas polidas com esmero. Os rostos dos coronéis, rubicundos e satisfeitos, transpareciam a arrogância de quem se julga dono do mundo.

O aroma inebriante que emanava da cozinha principal prometia um banquete verdadeiramente memorável, digno das cortes do Velho Continente.

No entanto, Feliciana, a cozinheira cativa responsável pela preparação daquelas iguarias divinais, nutria planos muito distintos daquela festividade. Eram planos obscuros, tecidos fio a fio, noite após noite, ao longo de exatos quinze anos.

Tudo começara no fatídico dia em que o seu pequeno filho, de apenas sete anos de idade, lhe fora cruelmente arrancado dos braços e vendido para as distantes minas de ouro de Minas Gerais.

Naquela noite de festa, enquanto temperava as carnes suculentas e apurava os molhos com uma mestria que a tornara famosa em toda a província, Feliciana adicionava, com mãos firmes e calculistas, ingredientes que nenhum daqueles ilustres convidados jamais esperaria encontrar nos seus pratos.

Às onze horas da noite, quando a celebração ainda se encontrava no seu auge, entre risos sonoros e fumo de charutos, o primeiro coronel começou a contorcer-se com dores agudas. Meia hora volvida, um silêncio sepulcral abateria a casa: todos os presentes estavam mortos.

O ano de mil oitocentos e setenta e três marcava um período de crescente tensão nas províncias açucareiras do Brasil. A chamada Lei do Ventre Livre, aprovada escassos dois anos antes, havia declarado a liberdade para todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data.

Porém, para aqueles que já viviam acorrentados ao cativeiro, a liberdade permanecia como uma miragem inalcançável, um sonho distante que se desvanecia no horizonte.

Em Pernambuco, famílias tradicionais e implacáveis, como os Cavalcante, os Vanderlei e os Albuquerque, controlavam não apenas as vastas extensões de terra produtiva, mas detinham também o poder político local e o controlo absoluto sobre os tribunais e a justiça.

O luxuoso palacete dos Cavalcante erguia-se no coração verdejante da Zona da Mata pernambucana, a aproximadamente quinze léguas de distância da cidade do Recife.

Tratava-se de uma construção imponente, erguida em três andares de alvenaria sólida, com uma cozinha de proporções colossais nas traseiras, onde labutavam diariamente mais de vinte escravos domésticos. Mas, de entre todos, nenhum possuía o prestígio e a importância de Feliciana.

Ela havia chegado àquela casa em mil oitocentos e cinquenta e oito, comprada por uma avultada soma de dinheiro numa das concorridas feiras de escravos do Recife.

Na altura, o coronel Joaquim Cavalcante procurava desesperadamente uma cozinheira de exceção para os seus sumptuosos banquetes. Feliciana, então uma jovem no auge dos seus vinte e três anos, destacara-se de imediato pelas suas invulgares aptidões culinárias.

Nascida numa fazenda perdida no interior da província da Bahia, a jovem não só havia aprendido com a sua mãe as mais antigas e tradicionais receitas da terra, como também herdara os segredos ancestrais das plantas, tanto as medicinais que curavam, como as venenosas que matavam.

Durante os primeiros anos passados no palacete, Feliciana conquistou a confiança cega e completa de toda a família. As suas moquecas perfumadas eram alvo de rasgados elogios em toda a região. Os seus doces conventuais e de frutas tropicais faziam furor nas festas da alta sociedade, e o seu tempero especial para as carnes de domingo adquirira contornos de lenda.

O coronel Joaquim costumava gabar-se aos seus pares, afirmando com orgulho que aquela mulher valia por mais de dez escravos do campo juntos.

Devido a esse estatuto especial, foi-lhe concedido um pequeno quarto só para si, recebia roupas de melhor qualidade do que os restantes cativos e era-lhe até permitido guardar algumas raras moedas que recebia como gorjeta.

Mas, escassos anos após a sua chegada, o rumo da sua vida sofreu uma reviravolta. Feliciana dera à luz um menino, fruto de um relacionamento com outro trabalhador da casa.

O coronel Joaquim, num raro rasgo de condescendência, permitiu que a mãe criasse a criança, impondo apenas a condição estrita de que tal não interferisse com os seus deveres na cozinha.

Durante sete longos e doces anos, Feliciana viveu o sentimento mais próximo da felicidade que uma mulher escravizada alguma vez poderia ousar experimentar. Tinha consigo o seu menino, possuía um ofício que dominava com paixão e gozava da relativa proteção de ser considerada um bem valioso para os seus senhores.

Contudo, a tragédia bateu à porta em agosto de mil oitocentos e sessenta e cinco. O coronel Joaquim viu-se a braços com severas dificuldades financeiras. Uma praga impiedosa havia destruído grande parte dos seus canaviais e a necessidade urgente de liquidez tornou-se imperativa.

A solução mais rápida e cruel ditada pelo fazendeiro foi a venda imediata de alguns dos escravos mais jovens, que alcançariam rapidamente um excelente preço no mercado negreiro. Entre os infelizes escolhidos encontrava-se Tomás, o frágil filho de Feliciana.

Na cinzenta manhã de vinte e três de agosto, três mercadores de escravos de aspeto rude chegaram ao palacete. Vinham das longínquas terras de Minas Gerais, em busca de crianças de tenra idade para suportarem os trabalhos exaustivos nas minas de extração de ouro.

Feliciana encontrava-se atarefada entre os tachos quando ouviu um grito agudo que lhe gelou o sangue. Reconheceu de imediato a voz do seu menino.

Correu desesperada para o pátio exterior e deparou-se com os homens a amarrar o pequeno Tomás, juntamente com outras quatro crianças aterrorizadas da fazenda.

O meu senhor Coronel, por amor de Deus Todo-Poderoso! – gritou ela, atirando-se de joelhos ao chão, em prantos, diante de Joaquim Cavalcante. O senhor não venda o meu menino! Eu faço o que vossa mercê mandar. Trabalho o dobro, não durmo se for preciso, mas, por misericórdia, não me leve a criança!

O coronel, de semblante fechado, sequer se dignou a olhar para o seu rosto banhado em lágrimas.

Levante-se já do chão, Feliciana, e componha-se. Negócio é negócio. O rapaz vai render-me um bom dinheiro, e você ainda é uma mulher nova, tem tempo para gerar outros filhos. Volte para as suas panelas.

Num ato de puro desespero materno, Feliciana tentou agarrar as pernas do filho, mas foi violentamente empurrada por um dos capatazes. O pequeno Tomás gritava pela mãe, em pânico, enquanto era arrastado sem piedade para a carroça de madeira.

A última imagem que ficou gravada a ferro e fogo na memória de Feliciana foi o rosto banhado em lágrimas do seu filho de sete anos, desaparecendo lentamente na poeira da estrada.

Naquela mesma noite, algo de muito profundo e irremediável se estilhaçou no interior de Feliciana.

Não foi a sua imensa capacidade de trabalho. O coronel notou, com enorme satisfação e alívio, que a mulher continuava a confecionar os seus pratos com a mesma excelência de sempre.

O que se partiu, de forma definitiva, foi qualquer réstia de lealdade, bondade ou resignação que ainda habitasse o seu espírito. Pela primeira vez na sua sofrida existência, Feliciana abriu as portas da sua alma e permitiu que um ódio puro, escuro e gélido se instalasse no seu coração.

Mas ela era uma mulher de uma inteligência rara, astuta demais para se deixar levar por atos irrefletidos. Sabia perfeitamente que qualquer demonstração aberta de rebelião resultaria num castigo atroz e na sua morte imediata.

Assim, no silêncio das noites insones, começou a delinear um plano. Não planeava uma simples fuga, mas sim uma vingança monumental que atingiria não apenas o coronel Joaquim, mas todos os homens daquela classe que sustentava o sofrimento e a opressão.

Durante os oito longos anos que se seguiram, Feliciana manteve estoicamente a sua máscara de escrava obediente, submissa e exímia cozinheira. Contudo, nas parcas horas vagas que lhe restavam, dedicou-se ao estudo minucioso.

Ela sempre possuíra um conhecimento vasto sobre o mundo botânico, uma sabedoria ancestral que a sua mãe lhe havia legado. Agora, canalizava todo esse saber para um propósito letal.

Começou a cultivar, de forma muito discreta e cuidadosa, certas plantas num canteiro esquecido nos fundos da cozinha, camuflando-as habilmente entre as ervas aromáticas que usava nos temperos.

Experimentou com diferentes raízes, folhas e sementes, testando minuciosamente os seus efeitos em pequenos animais que rondavam a propriedade.

Descobriu que as sementes de mamona, quando esmagadas e processadas através de um método rigoroso, originavam um veneno fulminante capaz de provocar graves hemorragias internas.

Aprendeu que as vistosas folhas da planta comigo-ninguém-pode, depois de secas ao sol e moídas até se transformarem num pó impalpável, induziam convulsões de uma violência fatal.

Estudou também as propriedades letais do tingui, um arbusto cujas raízes escondiam toxinas poderosíssimas que paralisavam o bater do coração em poucos minutos.

Mas não lhe bastava possuir no seu arsenal venenos de eficácia comprovada. Ela aguardava com paciência de caçadora a oportunidade perfeita. Um momento único em que pudesse atingir de uma só vez o maior número possível dos homens responsáveis por perpetuar aquele sistema desumano.

Essa tão aguardada oportunidade surgiu finalmente em novembro de mil oitocentos e setenta e três, quando o coronel Joaquim anunciou com pompa que iria realizar um banquete sumptuoso em meados de dezembro.

A colheita desse ano havia superado todas as expectativas e ele desejava ostentar a sua riqueza e celebrar junto dos seus pares mais próximos, todos eles influentes fazendeiros da região. O plano incluía onze ilustres convidados, que, somados ao anfitrião, totalizavam doze alvos. Era o cenário com que ela sonhara durante anos.

Durante as semanas que antecederam a grande noite, Feliciana redobrou a sua dedicação. Planeou com esmero um cardápio sofisticado, que faria inveja à realeza: ostras frescas trazidas do litoral, um reconfortante caldo de tartaruga, peixe no forno regado com um espesso molho de camarão, carne de porco suculenta acompanhada de farofa rica, frango estufado em molho pardo, e, para terminar, uma trilogia de sobremesas composta por doce de goiaba, cocada branca e bolo de goma.

O coronel Joaquim andava radiante pelos corredores da casa.

Feliciana, preste bem atenção, o senhor coronel deseja que este banquete seja de uma perfeição imaculada, disse-lhe ele. Quero que todos os presentes falem da minha hospitalidade durante largos meses.

Fique descansado, meu senhor, respondeu ela, esboçando um sorriso brando que não lhe chegou aos olhos sombrios. Dou-lhe a minha palavra que será um jantar que nenhum deles conseguirá esquecer.

Enquanto a casa se movimentava na preparação do salão, Feliciana, no seu recanto solitário e privado, preparava as poções do seu rancor. Processou com minúcia as plantas venenosas que cultivara em segredo ao longo de todos aqueles anos.

Criou três variantes de veneno, cada qual perfeitamente adaptado a um tipo específico de iguaria. O primeiro consistia num pó finíssimo, totalmente inodoro, derivado das sementes de mamona combinadas com o letal extrato de tingui. Este pó fatal seria discretamente dissolvido nos molhos mais escuros.

O segundo era um líquido denso e viscoso, extraído através da fervura prolongada de raízes de mandioca-brava e das folhas venenosas. Este caldo silencioso infiltrar-se-ia na maciez dos pratos de carne.

O terceiro, e não menos mortífero, apresentava-se sob a forma de uma pasta espessa, elaborada à base de cogumelos altamente tóxicos, que ela ocultou magistralmente no meio de especiarias de aroma forte e marcante. Este último seria reservado exclusivamente para adoçar as sobremesas.

A verdadeira genialidade do plano de Feliciana residia no seu ritmo pausado. Ela tinha o conhecimento de que os efeitos devastadores das toxinas não se manifestariam de imediato. Haveria um compasso de espera, tempo suficiente para que os fidalgos pudessem comer, brindar, debater os seus assuntos de poder e até mesmo regressarem aos seus lares antes que as dores anunciassem o fim.

Isso garantiria que qualquer suspeita fosse afastada da cozinha dos Cavalcante. Mais ainda, no seu espírito calculista, Feliciana tomou a decisão de poupar vidas. Deixaria intactas as travessas destinadas aos filhos mais novos do coronel e aos escravos que serviriam a mesa. Existiriam, assim, testemunhas oculares prontas a confirmar que a refeição fora servida com normalidade, que todos haviam partilhado do mesmo alimento e que nada de nefasto ocorrera durante a festa.

A cálida noite de catorze de dezembro envolveu o palacete no abraço abafado típico do verão de Pernambuco. As charretes e cavalos começaram a chegar ao pátio por volta das sete horas da tarde.

Eram cavalheiros maduros, homens entre os quarenta e os sessenta anos, ostentando os seus fatos de melhor corte. Destacava-se o coronel Antônio Vanderlei, dono de três grandes engenhos e senhor de mais de duzentos escravos. Fazia-se também notar o coronel Francisco Albuquerque, um homem cuja fama de crueldade o precedia, e o coronel Manuel Rego Barros, conhecido por ter separado, sem qualquer pudor, dezenas de famílias escravas na última década.

Cada um daqueles comensais partilhava de uma biografia semelhante, vidas de abastança e luxo erguidas sobre os alicerces do sofrimento de milhares de almas.

Nas entranhas escaldantes da cozinha, Feliciana conduzia os trabalhos com a tranquilidade arrepiante de um sacerdote a executar um ritual sagrado. Os seus movimentos eram ladeados pela precisão milimétrica. Enquanto os jovens ajudantes preparavam as bases das iguarias, cabia-lhe a ela, em exclusivo, o toque final de mestre.

Uma ligeira pitada de pó por ali, umas escassas gotas de líquido por acolá. Quantidades escrupulosamente medidas: não em excesso, para evitar que o mal se manifestasse à mesa, mas a dose exata e implacável para garantir que nenhum daqueles senhores visse a luz de um novo dia.

O faustoso banquete teve o seu início, com pontualidade britânica, às oito horas da noite. Os ilustres convidados tomaram os seus lugares na espaçosa sala de jantar. Ao centro, a comprida mesa de mogno brilhava, ostentando as mais finas porcelanas da casa. A luz trémula dos candelabros projetava sombras alongadas que dançavam fantasmagoricamente nas paredes caiadas.

Para dar início à refeição, serviram-se as ostras abertas, temperadas com limão fresco e uma ponta de pimenta. Os senhores degustaram-nas, trocando elogios entusiasmados sobre a qualidade e frescura do marisco.

Seguiu-se o reconfortante caldo de tartaruga, que chegou às mesas fumegante e libertando aromas exóticos. Entre colheradas, os homens debatiam fervorosamente a política da corte, especulavam sobre a cotação internacional do açúcar e desabafavam sobre as crescentes e incómodas pressões do movimento abolicionista.

Estes senhores abolicionistas não percebem a mais ínfima coisa sobre a nossa economia, resmungou o coronel Albuquerque, limpando a boca ao guardanapo de linho. Se viermos a libertar esta gente toda de uma só vez, pergunto eu: quem é que vai dobrar as costas para trabalhar nos nossos canaviais?

Os companheiros de mesa anuíram num murmúrio geral de concordância, erguendo as suas taças de cristal para um brinde. Nenhum deles, na sua profunda cegueira, foi capaz de vislumbrar a atroz ironia daquele momento.

O majestoso peixe de forno foi de seguida apresentado, generosamente coberto por um molho aveludado de camarão. Fora precisamente nesse creme denso que Feliciana depositara a maior concentração do seu veneno feito de mamona e tingui. O sabor intenso do crustáceo ocultou, de forma magistral, qualquer nota de sabor estranho que pudesse denunciar o pó mortal. Os fazendeiros renderam-se aos encantos do prato, havendo até quem solicitasse uma segunda porção.

Joaquim, o amigo tem deveras uma sorte imensa, comentou o coronel Rego Barros, visivelmente deliciado. A sua Feliciana não tem rival nesta província, é um verdadeiro tesouro.

Atrás da pesada porta de madeira que separava o salão da copa, Feliciana escutava atentamente aquelas lisonjas. O seu rosto manteve-se impenetrável como uma estátua de pedra, mas no fundo dos seus olhos brilhou a chama de uma satisfação profunda, obscura e definitiva.

A travessa de carne de porco, ladeada por uma farofa rica, desfilou a seguir. No tempero caprichado da carne, repousava o veneno extraído da mandioca-brava. Os convidados, cujas testas já suavam sob o efeito de várias taças do melhor vinho maduro, não descortinaram qualquer anomalia. Saborearam a iguaria com apetite voraz, deixando os pratos de porcelana praticamente limpos.

O último prato principal da noite foi o vistoso frango estufado no seu molho pardo. O caldo espesso e escuro do prato revelou-se o esconderijo perfeito. Ali, a cozinheira combinara habilmente os seus três venenos, criando a poção final, a garantia de que o seu trabalho não falharia.

A esta altura, os convidados apresentavam-se bastante alegres e faladores. O vinho do Porto havia dado lugar à velha cachaça da terra, e agora encerravam a ceia com um requintado conhaque francês. O tom de voz elevou-se; as gargalhadas ecoavam pela sala. Contavam peripécias, gabavam-se de negócios avultados e partilhavam histórias sobre os castigos exemplares que haviam aplicado aos seus escravos desobedientes.

Por fim, chegou o momento das ansiadas sobremesas. A casa oferecia três opções divinais: o doce de goiaba mergulhado em calda, a tradicional cocada branca e o afamado bolo de goma. A pasta de cogumelos tóxicos fora dissimulada em todas elas, variando apenas na sua proporção.

O doce de goiaba, do qual o anfitrião era um confesso devoto, fora brindado com a dose mais fatal.

As iguarias doces chegaram numa reluzente baixela de prata. Apesar das barrigas fartas, nenhum dos senhores foi capaz de recusar.

É de todo impossível dizer que não aos doces da sua Feliciana, confessou, de sorriso largo, o coronel Vanderlei.

O coronel Joaquim Cavalcante serviu-se, com indisfarçável gosto, de três generosos pedaços do doce de goiaba. É um velho e bem guardado segredo da nossa casa, explicou aos amigos com vaidade.

O café forte e encorpado encerrou o banquete. Perto das dez e meia da noite, os convidados começaram a erguer-se e a despedir-se. Sentiam-se plenos, agradavelmente entorpecidos pelo álcool e pela boa mesa.

Meu caro Joaquim, devo confessar que este foi, sem sombra de dúvida, o melhor banquete em que tive a honra de participar, declarou o coronel Rego Barros, abraçando o anfitrião.

Lentamente, os convidados foram abandonando o palacete. Uns montaram a cavalo, outros recostaram-se nas almofadas das suas carruagens, dispersando-se pelos caminhos sombrios da província em direção às suas respetivas moradas.

No resguardo das traseiras, Feliciana observou, impassível, a partida do último convidado. Eram onze horas da noite. Com uma serenidade perturbadora, iniciou a limpeza profunda da sua cozinha. Lavou com esmero e esfregou cada panela de ferro, cada prato, cada utensílio. Atirou para as chamas da lareira até ao último vestígio das sobras de comida, apagando minuciosamente qualquer rasto físico do seu ato.

Os ponteiros do relógio grande da sala bateram as doze badaladas. Feliciana recolheu-se ao seu pequeno quarto, mas o sono não a visitou. Deitada na sua cama modesta, de olhos cravados no teto de madeira, imaginava o desenrolar dos acontecimentos que, àquela hora, assolavam as grandes propriedades da Zona da Mata.

A matemática do seu plano era impiedosa. O veneno que levara anos a formular exigia um período de latência de cerca de três horas. Sabia, com precisão científica, que os primeiros tormentos começariam a manifestar-se por volta da uma da manhã, altura em que todos os fidalgos já se encontrariam no recato dos seus lares.

E os sintomas, segundo os seus testes, seriam atrozes. Cólicas lancinantes, seguidas de vómitos impossíveis de conter, evoluindo para convulsões drásticas e, finalmente, a morte num espaço de meia hora.

O coronel Antônio Vanderlei foi a primeira vítima a tombar. Ao cruzar as portas da sua quinta, ainda trazia um sorriso no rosto. Contudo, escassos minutos após a meia-noite, foi despertado por uma dor que lhe rasgava as entranhas. Gritou por socorro. A esposa, em pânico, mandou a correr chamar o médico da vila, mas foi tarde demais. Antes que qualquer ajuda chegasse, o fidalgo começou a vomitar sangue escuro, o corpo a debater-se em espasmos violentos. Às doze e cinquenta da madrugada, o seu coração parou.

O terrível coronel Francisco Albuquerque encontrou um fim idêntico e doloroso na sua herdade, exalando o último suspiro à uma e um quarto. Um após outro, nos seus leitos confortáveis, os poderosos senhores começaram a sucumbir. O coronel Manuel Rego Barros faleceu à uma e meia. O coronel Luís Carneiro não resistiu para além das duas. Quando o relógio marcou as três da madrugada, nove daqueles homens influentes jaziam mortos.

No palacete dos Cavalcante, o cenário não foi distinto. O coronel Joaquim despertou da sua letargia à uma da manhã, soltando gemidos de dor atroz que acordaram a sua esposa, dona Mariana.

Joaquim, por amor de Deus, que se passa consigo? – perguntou ela, alarmada.

O homem já não conseguia articular palavras. A agonia fazia-o contorcer-se na cama como uma folha no fogo. Quando os vómitos violentos começaram, dona Mariana entrou em desespero e gritou pelos empregados.

Vão buscar o médico imediatamente! – ordenou a senhora, lavada em lágrimas.

Feliciana ofereceu-se prontamente para a missão e saiu da casa a correr. O doutor residia a cerca de duas léguas de distância. Mas, logo que se afastou dos portões, os passos de Feliciana tornaram-se arrastados, compassados, desprovidos de qualquer pressa. Ela sabia perfeitamente que não existia médico nem antídoto na face da terra capaz de reverter o mal que havia plantado.

Quando finalmente regressou, quase uma hora depois, acompanhada pelo clínico ofegante, o dono da casa já havia partido. A sua agonia prolongara-se por uma hora e meia, tendo expirado por volta das duas e meia da madrugada.

O doutor Teodoro Silva examinou demoradamente o corpo lívido do coronel, franzindo o sobrolho, totalmente incapaz de apurar a causa exata do óbito. Tem todas as aparências de se tratar de um envenenamento grave, murmurou, pensativo, mas confesso-me impotente para identificar a fonte de tamanho mal.

Dona Mariana estava mergulhada num pranto inconsolável. Mas como é possível tal tragédia? Ele esteve connosco a noite inteira, jantou tranquilamente aqui nesta casa…

Enquanto a consternação tomava conta daquela casa de luto, a porta principal não parava de ser batida por mensageiros que traziam notícias espantosas. O coronel Vanderlei estava morto. O coronel Albuquerque também havia falecido. E a lista lúgubre avolumou-se noite adentro. Pela manhã, confirmou-se o impensável: onze dos doze homens que se haviam sentado àquela mesa encontravam-se mortos. Apenas um deles, o coronel José Tavares, que se retirara mais cedo devido à distância da sua casa, conseguiu sobreviver, embora tenha permanecido prostrado de cama durante longas e penosas semanas.

No amanhecer do dia quinze de dezembro, a província de Pernambuco acordou mergulhada num estado de choque paralisante. As autoridades policiais e judiciais foram acionadas de imediato, espalhando-se pelas estradas rurais em frenesim. O delegado de polícia do Recife chegou ao palacete na tarde desse mesmo dia, acompanhado por um contingente de inspetores e magistrados.

Procederam a interrogatórios exaustivos. Revistaram palmo a palmo a imensa cozinha e vasculharam os armários em busca de qualquer frasco ou pó suspeito.

Feliciana foi ouvida longamente. O seu depoimento foi prestado com uma serenidade desarmante. A senhora preparou a refeição? Sim, o fiz com as minhas próprias mãos. Notou alguma movimentação atípica ou presença estranha? Não, senhor delegado, tudo decorreu na mais perfeita normalidade. Dizem que provou a comida antes de servir? É verdade, o senhor coronel exigia-o sempre, e fi-lo com muito gosto. Não notei nenhum sabor fora do comum.

As suas declarações foram inteiramente corroboradas pelos restantes criados, que atestaram o ambiente festivo e tranquilo do banquete. O médico legista, perante os múltiplos cadáveres, atestou as semelhanças nas causas de morte e suspeitou fortemente de veneno, contudo, as limitações da ciência toxicológica da época no Brasil não permitiam a identificação de venenos extraídos de plantas.

A investigação estendeu-se de forma infrutífera por longas semanas. Dezenas de indivíduos foram alvo de suspeita e interrogatórios rigorosos. Alguns cativos chegaram mesmo a ser submetidos a torturas desumanas na tentativa de se arrancar uma confissão ou desvendar uma conspiração, mas ninguém poderia revelar aquilo que desconhecia em absoluto. Feliciana agira na mais completa e perfeita solidão.

Como a cozinheira tivera o cuidado de incinerar todos os vestígios orgânicos do banquete, não restava material para as autoridades analisarem. Dois meses decorridos sobre a tragédia, perante um beco sem saída, o processo foi formalmente encerrado com o veredicto de “mortes por causas desconhecidas”.

As ilustres famílias, subitamente desprovidas dos seus influentes patriarcas, caíram numa ruína que se alastrou muito para além do plano emocional. As fortunas definharam. Uma onda de desconfiança e pavor instalou-se de forma permanente no seio da aristocracia pernambucana. Se os homens mais poderosos daquelas terras puderam ser eliminados numa única noite sem que se encontrassem os culpados, ninguém, por muito rico que fosse, estaria verdadeiramente seguro na sua própria casa. Temendo as mãos invisíveis que lhes preparavam as refeições, muitos fazendeiros passaram a exigir que os criados ingerissem uma generosa porção de comida antes de lhes ser servida.

O trágico acontecimento ficou cristalizado na memória popular sob a designação de “A Ceia Mortal”.

A vida no palacete prosseguiu sob o jugo da melancolia. Feliciana continuou a cozinhar para os sobreviventes da casa durante mais três anos. Em mil oitocentos e setenta e seis, dona Mariana, esmagada pelo luto e pelas dificuldades financeiras, decidiu vender a propriedade para se instalar no Recife. Num gesto de agradecimento pelos longos anos de serviço, entregou a Feliciana a sua tão almejada carta de alforria.

No dia doze de maio desse ano, aos quarenta e um anos de idade, Feliciana era, finalmente e perante a lei dos homens, uma mulher livre.

Não festejou a sua alforria. Recolheu o precioso documento, escondeu-o junto ao peito e abandonou aquelas terras que lhe haviam roubado o que de mais precioso possuíra. Com as escassas poupanças amealhadas ao longo do tempo, rumou à capital, Recife, onde abriu uma modesta mas limpa banca de comida de rua. As suas mãos de fada rapidamente lhe conquistaram uma vasta clientela fiel, permitindo-lhe juntar o dinheiro necessário para concretizar o seu último desígnio.

Os anos seguintes foram passados em longas, exaustivas e dispendiosas viagens ao interior de Minas Gerais. Uma odisseia de esperança e desespero, palmilhando trilhos e perguntando por um rapazinho que outrora se chamara Tomás.

Ao cabo de cinco anos de buscas infrutíferas, no ano de mil oitocentos e oitenta e um, deparou-se finalmente com uma pista viável. Em Sabará, encontrou um velho mineiro liberto que se recordava vagamente de um jovem cuja descrição coincidia com a do seu filho. Segundo o relato, o rapaz havia trabalhado numa mina das redondezas e perecera debaixo da terra, num terrível desabamento ocorrido em mil oitocentos e setenta e quatro, escassos meses após a Ceia Mortal.

O ancião conduziu Feliciana ao local desolador onde os corpos dos desafortunados haviam sido depositados. Era uma vala comum, um pedaço de terra esquecido, marcado apenas por rústicas cruzes de madeira, sem nomes nem lamentos.

Feliciana ajoelhou-se perante aquela terra anónima e chorou com uma dor que lhe rasgou a alma. O pranto há tanto contido, as lágrimas que nunca ousara derramar desde aquele dia maldito de agosto, jorraram copiosamente.

“O meu amado menino…”, murmurou a voz embargada pela emoção, com a face encostada à poeira. “A mãe fez justiça por ti. Onze daqueles homens pagaram com a vida o mal que nos fizeram. Talvez de pouco te sirva agora onde quer que estejas, mas não podia partir deste mundo sem te dizer que a tua mãe não baixou a cabeça e nunca os perdoou.”

Regressou ao Recife como uma mulher transformada. A esperança havia-se extinguido de vez, mas no seu lugar instalara-se uma serenidade estranha e silenciosa, própria das almas que deram por cumprida a sua missão.

Voltou ao seu negócio, não já com o afã de acumular riquezas para viajar, mas para ajudar os que pouco ou nada possuíam. Passou a alimentar gratuitamente as crianças órfãs que calcorreavam as ruas, distribuía parcas moedas aos mais carenciados e transmitia os seus valiosos saberes culinários a outras mulheres recém-libertas, preparando-as para uma vida independente.

Nunca, a nenhum ser humano, confessou o seu derradeiro segredo. Carregou a Ceia Mortal nos ombros com a mesma estoicidade com que suportara o jugo do cativeiro.

Em mil oitocentos e oitenta e oito, ao escutar o repicar efusivo dos sinos a anunciar a assinatura da Lei Áurea, que decretava a abolição final da escravatura, Feliciana, já com os seus cinquenta e três anos e de cabelos a embranquecer, juntou-se às celebrações nas ruas engalanadas do Recife. E enquanto o povo humilde cantava a sua tão desejada e adiada liberdade, ela perguntava-se, no íntimo, se a morte daqueles onze poderosos senhores não teria também contribuído, à sua maneira, para enfraquecer os alicerces do império que oprimia o seu povo.

Feliciana fechou os olhos para o mundo no ano de mil novecentos e três, contando sessenta e oito anos de vida, na quietude da sua casa no Recife. Mesmo no leito de morte, guardou os lábios trancados sobre o passado. As suas últimas palavras, ouvidas por uma das raparigas a quem ensinara o seu ofício, soaram enigmáticas: “Fiz na terra tudo aquilo que me incumbia fazer. Não carrego sombra de arrependimento. Que o Nosso Senhor e a memória dos meus antepassados sejam agora os meus únicos juízes.”

A modesta cerimónia fúnebre teve lugar no cemitério de Santo Amaro. Contra todas as expetativas, dezenas de populares acorreram ao local. Eram, na sua grande maioria, antigos cativos e os seus descendentes, muitos dos quais ela havia socorrido na hora da precisão. As homenagens recordaram a sua imensa generosidade, os seus cozinhados incomparáveis e a sua bondosa sabedoria.

Contudo, a verdadeira história de Feliciana desceu com ela à sepultura, mergulhando no esquecimento. Somente muitas décadas volvidas, as teias do tempo começaram a desvendar a verdade através de fragmentos soltos, registos dispersos e investigações aturadas, permitindo a recomposição dos factos em torno daquela longínqua noite.

Ainda que as provas concretas se tenham evaporado no ar, as circunstâncias que envolvem A Ceia Mortal são demasiado consistentes para serem relegadas à categoria de lenda.

A odisseia de Feliciana, mãe despojada e justiceira letal, continua hoje a ressoar, lembrando-nos que mesmo na noite mais escura do espírito humano e sob o jugo do sistema mais impiedoso, há corações que, em vez de se dobrarem, escolhem o caminho solitário, doloroso e inesquecível da retribuição, escrevendo a sua própria e implacável justiça.