
Caros leitores, o que vos vou relatar hoje é uma daquelas memórias que o tempo, por mais que avance, não consegue apagar. O meu nome é Marcos António Silveira, tenho 58 anos, e partilho convosco, com o maior dos respeitos, um pedaço da minha vida que ainda hoje desafia toda a minha razão.
Quando saí do cemitério naquele domingo, olhei pelo espelho retrovisor e vi a minha filha a brincar no banco de trás do automóvel com uma velha boneca de trapos.
Naquele instante, julguei que a tivesse recebido de alguma prima ou, quem sabe, trazido de casa sem que eu notasse. Mas eu estava redondamente enganado.
Aquela boneca tinha sido retirada de cima de uma sepultura. E o que atravessou a soleira da minha porta, juntamente com ela, durante aquela semana, é algo para o qual não tenho qualquer explicação lógica.
O funeral da minha prima realizou-se num domingo, dia 2 de setembro de 2001. Saímos de casa antes das oito da manhã. Eu, a minha mulher e a nossa filha, Ana Luísa, que na altura tinha apenas oito anos.
A Ana Luísa manteve-se silenciosa durante todo o trajeto. Ela compreendia a nossa tristeza. Sentia-se o peso do luto no silêncio que preenchia o carro, mas ela não fez qualquer pergunta. As crianças, como os senhores e as senhoras bem sabem, possuem uma sensibilidade imensa e entendem as coisas sem precisarem de palavras.
O cemitério situava-se na outra ponta da cidade. Era um daqueles dias cinzentos e fechados, típicos de um outono prematuro, em que o sol se recusa a aparecer, mas a chuva também não cai. Conduzi com as mãos firmes no volante e a mente exausta.
Nestas horas de dor, não pensamos em nada de concreto, mas também não conseguimos esvaziar a cabeça. Quando chegámos, cumprimentei os conhecidos e troquei algumas palavras com um tio mais velho, enquanto aguardávamos a chegada do padre.
As crianças ficaram afastadas, num canto arborizado no lado oposto ao túmulo. Estavam lá umas cinco ou seis primas pequenas reunidas, e a Ana Luísa juntou-se a elas.
Eu conseguia vê-las lá ao fundo, enquanto o padre dava início às orações, e fiquei tranquilo por saber onde a minha filha estava. O funeral foi longo e doloroso, mas, quando tudo terminou, as pessoas começaram a dispersar lentamente.
Fui até à minha mulher, dei-lhe a mão em sinal de conforto, e começámos a caminhar em direção ao portão principal.
Foi precisamente nesse momento que a Ana Luísa apareceu a correr na nossa direção. Ela sorria com aquele alívio genuíno de criança que sente que a parte mais difícil e aborrecida do dia já terminou.
Na sua mão, trazia um brinquedo. Era uma boneca de trapos com um vestido desbotado pelo tempo e pelas intempéries. Já não era possível adivinhar qual teria sido a sua cor original.
O cabelo da boneca era feito de fios de lã escura, amarrados de forma atabalhoada. Não parecia, de todo, um brinquedo de loja. Não era algo novo. Parecia um objeto antigo, esquecido em algum lugar sombrio durante muito tempo.
Olhei para aquilo por um segundo e senti um aperto estranho no peito. Foi uma sensação gélida de que algo não estava certo, mas que veio e passou tão rápido como uma rajada de vento.
Naquele momento, o meu estado de espírito não me permitia pensar em mais nada. Estava cansado, mergulhado no luto e a minha cabeça já não ajudava.
Convenci-me de que a Ana Luísa tinha pedido a boneca emprestada a alguma prima mais velha ou que a tinha trazido de casa. Qualquer explicação servia. Sempre fui um homem prático, daqueles que não procuram problemas onde não os veem. Não tinha feitio para dar atenção a coisas sem sentido.
Por isso, não perguntei nada à minha filha. Apenas lhe segurei a mão, dei o braço à minha mulher, e continuámos a caminhar.
No entanto, a caminhada até ao portão do cemitério foi invulgarmente estranha. Não ouvi nenhum barulho diferente, não vi nenhuma sombra fora do lugar.
Foi apenas uma sensação indescritível que foi crescendo devagar enquanto eu caminhava por entre as fileiras de campas antigas. Era como se algo se tivesse levantado e estivesse a acompanhar cada passo nosso.
Olhei para os lados e não vi nada de anormal. Olhei para trás e a paisagem era a mesma. Mas aquele peso invisível não desapareceu.
Cheguei ao portão com aquela presença ainda agarrada a mim. Atravessei a saída e caminhei até ao carro, tentando ignorar o que estava a sentir.
Acomodei a Ana Luísa no banco traseiro, fechei a porta e sentei-me ao volante. A minha mulher permaneceu calada no banco do passageiro. Não tínhamos muito a dizer e o silêncio era o nosso melhor refúgio.
Saí do parque de estacionamento, entrei na estrada principal e iniciei o caminho de regresso a casa. A dada altura, olhei pelo espelho retrovisor e vi a Ana Luísa a brincar com aquela boneca com a maior naturalidade do mundo.
Ela não estava agitada nem assustada. Brincava como qualquer criança brinca, a segurar a boneca, a mexer-lhe nos pequenos braços de pano, alheia a tudo o resto.
Desviei o olhar e fixei-me na estrada. Decidi que não havia motivo para preocupações. O mais importante era que o funeral tinha acabado, estávamos a ir para casa e eu precisava de deixar aquele domingo triste para trás.
Mas aquela sensação pesada que tinha começado dentro dos muros do cemitério não ficou lá. Ela acompanhou-me, em silêncio, durante toda a viagem de regresso.
Chegámos a casa. Tomei um banho quente, almoçámos sem grande apetite e tentei descansar. Fui levando o resto do domingo como pude, mas algo no ambiente tinha mudado e eu ainda não sabia o quê.
Eu não imaginava, naquele momento, que a minha menina tinha retirado aquela boneca de uma sepultura. Não sabia que não pertencia a nenhuma prima, a nenhuma criança viva.
Não fazia a menor ideia do que aquele objeto de trapos iria trazer para dentro do nosso lar naquela semana. Eu simplesmente acreditava que era apenas um brinquedo velho e inofensivo.
Na segunda-feira de manhã, acordei com a nítida impressão de que o ar da casa estava diferente. A minha mulher manteve-se calada durante o pequeno-almoço, mas não dei grande importância. Tínhamos acabado de enterrar um ente querido; era normal o recolhimento.
Mas, à medida que o dia avançava, fui percebendo que o silêncio dela não era apenas fruto da tristeza. Era um vazio diferente.
Por vezes, ela ficava imóvel na sala, sem fazer absolutamente nada, com o olhar fixo num ponto cego da parede. Quando eu falava com ela, respondia-me, mas parecia que a sua mente viajava por lugares distantes. Perguntei-lhe se estava bem, ao que ela apenas acenou que sim.
Nessa mesma tarde, a Ana Luísa queixou-se de uma forte dor de cabeça. Pensei que fosse o cansaço do dia anterior, a tensão, o tempo abafado. Dei-lhe um analgésico infantil. Ela ficou deitada durante algum tempo e pareceu melhorar.
Contudo, na manhã seguinte, acordou com um pouco de febre. Nada de alarmante, apenas o tipo de indisposição que qualquer criança apanha de vez em quando. Os sintomas iam e vinham, de forma irregular.
Foi por essa razão que não a levámos de imediato ao médico. Havia momentos em que ela estava bem, a brincar e a comer normalmente. Noutros, ficava prostrada, com a cabeça pesada. Não era constante o suficiente para justificar uma ida às urgências.
Fomos controlando a febre e esperando que passasse. Mas o que me começou a causar verdadeira estranheza foi outra coisa. A Ana Luísa não largava aquela boneca por um segundo. Levava-a para todo o lado.
Quando a minha mulher tentou tirar-lhe a boneca para a lavar na máquina, a Ana Luísa chorou de uma forma que me deixou perplexo. Não foi uma simples birra de criança; foi um choro de puro desespero. A minha mulher, assustada com a reação, acabou por lhe devolver o boneco.
Fui ver a minha filha mais tarde e encontrei-a sentada no chão do quarto, abraçada àqueles trapos velhos, num silêncio sepulcral.
Não estava a brincar, não estava a inventar histórias. Estava apenas ali, sentada, a segurar a boneca no colo. Perguntei-lhe o que estava a fazer e ela respondeu apenas: “Nada, papá.”
O que eu sentia dentro da minha própria casa naqueles dias era algo totalmente estranho para mim. Os corredores pareciam mais frios do que o habitual, e o silêncio tinha uma densidade que quase se podia cortar à faca.
Dei por mim, várias vezes, a olhar para o fundo do corredor sem qualquer motivo. A minha mulher estava cada vez mais alheada. Fazia as lides da casa, cozinhava, arrumava, mas como se fosse um corpo sem alma.
Durante a noite, deitava-se ao meu lado e não dormia. Eu sentia a sua insónia. Perguntei-lhe novamente o que se passava. Disse-me que era apenas cansaço, que talvez fosse ainda o luto, mas o tom de voz não me convenceu.
Na noite de terça-feira, levantei-me perto da meia-noite para ir beber um copo de água à cozinha. Passei pelo corredor e parei à porta do quarto da Ana Luísa.
Ela estava a dormir profundamente. A boneca estava deitada a seu lado, sobre a almofada, com o rosto de trapos virado para cima. Fiquei a olhar para aquilo durante uns segundos, senti um arrepio na espinha e voltei para a cama.
Na quarta-feira, deitámo-nos mais cedo. Eu sentia-me exausto. A minha mulher continuava sem energia e a Ana Luísa tinha passado o dia ainda mais prostrada. A boneca, como sempre, estava ao lado dela quando lhe fui apagar a luz.
Não sei que horas seriam quando a minha mulher me acordou, apertando-me o braço com força.
Abri os olhos e vi-a sentada na cama, hirta, a olhar fixamente para a porta do nosso quarto. Perguntei-lhe o que tinha acontecido. Com a voz trémula, disse-me que tinha ouvido passos no corredor.
Fiquei em silêncio, a apurar os ouvidos. A casa estava completamente imersa na escuridão e no silêncio. Ia dizer-lhe que era fruto da sua imaginação cansada, quando ela me apertou o braço com ainda mais força.
Disse-me que não tinham sido apenas passos. Disse que tinha escutado uma voz. A voz de uma menina.
Não era um murmúrio distante nem o vento nas janelas. Era uma voz límpida, dentro da nossa casa, como se uma criança estivesse a conversar com alguém ali bem perto.
Ela levantou-se e foi até ao quarto da Ana Luísa. Eu fiquei na cama, ainda a tentar processar a situação, paralisado por um medo irracional.
Ela voltou minutos depois e ficou parada à porta, em choque. Quando lhe perguntei, disse-me que a Ana Luísa estava a dormir a sono solto, fortemente abraçada à boneca.
Voltou para a cama, mas nenhum de nós pregou olho o resto da noite. Ficámos ali deitados, a olhar para o teto escuro, sem trocar uma palavra.
Por volta das quatro da manhã, percebi, pela sua respiração descompassada, que o terror ainda a dominava. De manhã, com a luz do dia a trazer algum conforto, ela contou-me os detalhes.
A voz que tinha escutado era calma. E era exatamente isso que mais a perturbava. Não tinha sido um grito de assombração, nem um choro. Era o tom banal de uma criança a conversar a meio da madrugada.
Tentei racionalizar. Disse-lhe que poderia ter sido um sonho vívido, que o stress da semana lhe estava a pregar partidas. Falei com calma, tentando encontrar um pilar de razão para nos amparar aos dois.
Mas, enquanto proferia aquelas palavras, eu próprio sabia que não estava a ser sincero. A verdade é que aquela semana me estava a tirar o tapete debaixo dos pés. O ambiente em casa não era normal e eu sabia-o perfeitamente. Apenas não tinha coragem para o admitir em voz alta.
Nessa mesma tarde, a Ana Luísa foi até à sala enquanto eu lia o jornal. Parou à porta, com a boneca debaixo do braço, e perguntou-me, com uma voz muito suave, se a amiga dela podia jantar connosco.
Baixei o jornal, olhei para ela e perguntei de que amiga falava.
Ela olhou para a boneca, depois olhou para mim e não respondeu. Fiquei à espera que ela se risse, que me dissesse que era uma brincadeira. Mas ela manteve aquela expressão vazia e triste. Virou costas e regressou ao quarto. Fiquei sentado, com as mãos a tremer levemente, sem saber o que pensar.
Na noite de quinta-feira, depois de todos se deitarem, fiquei sozinho na sala, a matutar em tudo. A minha mulher não era a mesma pessoa. A minha filha estava com uma febre que teimava em não ceder. E aquela noite mal dormida ainda me pesava na alma.
Eu não queria chamar-lhe sobrenatural, mas a palavra “coincidência” já não servia.
Na sexta-feira de manhã, a febre da Ana Luísa subiu drasticamente. Já não era a indisposição ligeira dos dias anteriores. Ela não se conseguia levantar, não tinha apetite e queixava-se de dores fortes.
A minha mulher não saiu de perto da cama dela. Eu ia espreitando de vez em quando, mas as melhoras não surgiam. A boneca permanecia lá, impassível, no mesmo lugar de sempre.
Foi nesse dia que o medo se apoderou de mim de forma definitiva. O ar da casa estava viciado, denso, pesado como chumbo. Deixei de tentar encontrar explicações lógicas.
Ao início da tarde, a minha mulher decidiu telefonar à mãe. Foi para outra divisão e não consegui ouvir a conversa, mas, quando regressou, anunciou-me que a mãe vinha a caminho. Senti um imenso alívio.
A minha sogra sempre viveu numa aldeia no interior de Portugal. O seu nome é Lurdes, mas todos a tratam por Dona Lurdes, com o respeito que a sua sabedoria impõe. É uma senhora simples, de pouca escola, mas possui um dom para compreender as coisas da alma que a ciência não alcança.
Ela sempre acreditou no mundo espiritual, nas energias e naquilo que os olhos recusam ver. Eu sempre fui cético, mas mantinha um profundo respeito pelas suas crenças. Ela nunca tentou converter ninguém, mas, quando os problemas não tinham remédio na farmácia, era à sua porta que as pessoas batiam.
A Dona Lurdes chegou ao final da tarde. Entrou em nossa casa e cumprimentou-me com a serenidade do costume. Perguntou pela neta e caminhou diretamente para o corredor.
Notei que, enquanto avançava, os seus olhos varriam o teto e os cantos das paredes, como quem avalia uma presença que mais ninguém vê.
Entrou no quarto da Ana Luísa. Eu e a minha mulher ficámos parados no limiar da porta. Ela aproximou-se da cama, falou com a neta de forma doce, acariciou-lhe o rosto febril e perguntou-lhe como se sentia.
A minha filha, com uma voz muito fraca, queixou-se da cabeça. A Dona Lurdes sentou-se na beira da cama. Foi então que os olhos da minha sogra pousaram na boneca.
Ela interrompeu a frase a meio. Ficou a olhar para aquele objeto de trapos durante largos segundos. Não lhe tocou. Não disse uma palavra. Apenas recuou um passo, muito lentamente, sem nunca desviar o olhar da almofada.
Eu observei tudo da porta, com o coração a bater descompassado. A Dona Lurdes saiu do quarto em silêncio. Passou por nós sem olhar, caminhou até à sala e ficou parada a olhar pela janela.
Fomos atrás dela. Ela virou-se para nós, com um semblante grave que eu nunca lhe tinha visto, e perguntou de onde tinha vindo aquela boneca.
A voz dela era baixa, calculada e extremamente séria. Não havia medo, apenas uma enorme urgência. A minha mulher encolheu-se a meu lado.
Expliquei-lhe que a Ana Luísa tinha saído do funeral com a boneca, que eu deduzi que fosse de alguma prima, que o luto me tinha toldado a atenção e que, na verdade, não sabia a sua origem.
A Dona Lurdes ouviu-me sem interromper. Quando terminei, baixou os olhos para o chão durante um momento. Em seguida, declarou que precisava de conversar a sós com a Ana Luísa.
Não deu justificações. Regressou ao quarto da menina. Nós ficámos novamente à porta.
A Dona Lurdes puxou uma cadeira de madeira, sentou-se de frente para a neta e chamou-a pelo nome, com aquela firmeza afetuosa que obriga uma criança a prestar atenção.
Perguntou-lhe, com toda a naturalidade do mundo, onde é que ela tinha encontrado a boneca. Sem rodeios.
A Ana Luísa olhou para os trapos e depois para a avó. Sustive a respiração. A minha mulher estava pálida.
A minha filha respondeu de imediato, sem hesitações nem gaguejos. Disse que tinha encontrado a boneca em cima de uma pedra lá no cemitério, no dia do funeral. E acrescentou, com uma candura arrepiante, que uma menina lhe tinha pedido para tomar conta dela.
Aquelas palavras saíram da boca de uma criança de oito anos com uma simplicidade aterradora. Eu não sabia onde me esconder. Eu estive no cemitério. Estive a poucos metros de distância e não vi nada.
Olhei para a minha mulher e vi espelhado no rosto dela o mesmo terror que me consumia.
Mas a Dona Lurdes não se espantou. Não levou as mãos ao rosto nem fez o sinal da cruz. Apenas acariciou os cabelos da neta, levantou-se devagar, olhou uma última vez para a boneca e fechou a porta do quarto atrás de si.
Chamou-nos à sala e foi perentória: aquela boneca tinha de voltar para o exato lugar de onde tinha sido retirada. Não havia espaço para discussões ou dúvidas.
Eu não tinha argumentos. A razão tinha falhado. A minha filha estava doente há dias, a minha mulher ouvia vozes na madrugada e a minha sogra, uma mulher de fibra, reconhecera ali algo sombrio.
A Dona Lurdes ordenou que fôssemos naquele preciso momento. Olhei para o relógio da parede; ainda era de dia.
Fui ao quarto e disse à minha filha que íamos dar uma saída. Ela não perguntou para onde. Levantou-se com dificuldade, calçou os sapatos, pegou na boneca e seguiu para a porta. Parecia que já estava à espera.
Entrámos os quatro no automóvel. O trajeto até ao cemitério foi feito num silêncio tumular. Quando os portões de ferro forjado apareceram no horizonte, senti o estômago dar um nó cego. Não era confusão mental; era a certeza absoluta de que estávamos a fazer o que tinha de ser feito.
Estacionei o carro. Quando saímos, a Ana Luísa tomou a dianteira. Começou a caminhar pelo corredor central do cemitério com passos muito firmes. Eu acompanhava-a, incrédulo perante a forma como uma criança doente se orientava naquele labirinto de pedra.
Ela virou num corredor mais estreito e parou. Parou diante de uma sepultura pequena e humilde. Havia apenas algumas flores de plástico já desbotadas pelo sol na base.
Aproximei-me para ler a lápide simples. O nome estava gravado em letras modestas: Bruna Carla. Por baixo, as datas: 1987 – 1997.
Aquela menina tinha apenas dez anos quando partiu.
Fiquei petrificado. A Ana Luísa, sem que ninguém lhe pedisse, agachou-se e pousou a boneca com extremo cuidado na base da sepultura, encostada à pedra, com o rosto voltado para a frente.
Não a atirou. Pousou-a com a delicadeza de quem aconchega uma criança no berço.
A Dona Lurdes ficou junto ao túmulo a rezar as suas preces, num murmúrio inaudível. Eu mantive os braços cruzados, mudo e grato por aquela mulher estar ali connosco.
A Ana Luísa ficou a olhar para a sepultura durante uns breves segundos, com a cabeça baixa, num gesto de pura despedida. Não chorou. Virou costas e caminhou em direção à saída, sem olhar para trás.
Nós seguimos no seu encalço. Antes de dobrar a esquina do corredor, olhei para trás uma última vez. A velha boneca de trapos estava encostada à lápide da pequena Bruna Carla, no seu devido lugar.
A viagem de regresso a casa foi substancialmente diferente. Aquele peso asfixiante que tinha morado connosco durante a semana inteira havia ficado para trás, junto ao túmulo. O ar dentro do carro estava finalmente leve.
Quando entrámos em casa, a mudança na minha mulher foi instantânea. O nervosismo cedeu lugar à serenidade de sempre. A Ana Luísa recuperou a vitalidade e a febre desapareceu de forma milagrosa nos dias seguintes.
Até aos dias de hoje, ela nunca mais mencionou a boneca ou a tal amiga do cemitério.
Caros leitores, eu nunca consegui encontrar uma explicação racional para o que vivemos naquela semana de 2001. Procurei nas leis da física e do bom senso, mas esbarrei num muro. Não há lógica humana que explique o que presenciámos.
O que vos posso garantir é que, desde esse dia, nunca mais consegui entrar num cemitério com a alma em paz. Sempre que lá vou para prestar homenagem a alguém, as memórias daquela tarde regressam com toda a força. Lembro-me vividamente da minha pequena filha a caminhar decidida por entre as campas, e daquela velha boneca que só queria voltar para casa.
Espero que esta partilha vos traga reflexão e que, onde quer que estejam, a paz reine nos vossos lares. Que a vida vos sorria e que as forças invisíveis deste mundo vos protejam sempre.