
No ano de 1900, nos campos verdes da região serrana de Santa Catarina, mais precisamente nos arredores de Lages, situava-se uma propriedade que poucos moradores da região se atreviam a mencionar após o pôr do sol.
A Fazenda Souza, uma imponente estrutura de madeira de araucária e pedra, a cerca de 15 km do centro da cidade, na antiga estrada que levava a São Joaquim, fora construída no final do século XIX pelo patriarca Jerônimo Souza, um próspero comerciante de erva-mate que fizera fortuna durante o período imperial. A propriedade estendia-se por mais de 1000 hectares de campos ondulados e pequenos bosques de araucárias.
Os relatos que temos hoje provêm de diversas fontes: registros paroquiais locais, anotações do delegado da época, um punhado de cartas encontradas em 1952 durante a reforma da antiga prefeitura e, principalmente, o testemunho do único sobrevivente direto dos eventos, o cocheiro Anselmo Rodrigues, que em 1962, aos 84 anos, concordou em gravar um depoimento para o professor Arnaldo Silveira, da Universidade Federal de Santa Catarina, que realizava uma pesquisa sobre as antigas propriedades rurais da região. A gravação em áudio permaneceu arquivada e esquecida até 1968, quando foi parcialmente transcrita e depois novamente arquivada. Um transcrito incompleto foi encontrado durante uma reorganização de arquivos da universidade e é uma das poucas fontes diretas que temos sobre os eventos.
A família Souza era composta por Jerônimo, sua esposa Eleonora, de origem alemã, o filho mais velho, Augusto, de 28 anos, a filha Cecília, de 25, e o caçula, Teodoro, de 22. Todos viviam juntos na fazenda com cerca de 20 funcionários entre capatazes, peões, cozinheiras e criados domésticos. Segundo os registros municipais, a Fazenda Souza era conhecida na região pela qualidade do gado e da erva-mate produzida naquelas terras, mas também pelo isolamento que a família mantinha em relação aos demais habitantes de Lages. Jerônimo não era um homem dado a festas ou celebrações. Anselmo relatou isso na gravação de 1962:
“Ele costumava ir à cidade uma vez por mês, no máximo, para resolver questões de negócios. A senhora Eleonora, ainda menos. Creio que em dez anos eu a vi descer da carruagem na cidade umas quatro ou cinco vezes, no máximo. Os filhos vinham com mais frequência, especialmente Augusto, que cuidava das relações comerciais com o pai.”
A rotina na fazenda era marcada por uma regularidade quase militar imposta por Jerônimo. Todos acordavam antes do amanhecer, trabalhavam até o cair da noite e, após o jantar servido invariavelmente às 19h, a família se recolhia para a ala leste da casa principal. Os funcionários tinham ordens expressas de não circular pela propriedade após o anoitecer, exceto os dois homens encarregados da vigilância noturna, que se revezavam em turnos de 4 horas. Ninguém questionava as ordens do patrão, mas todos sussurravam que era estranho o toque de recolher ser tão rigoroso.
“Na época, eu achava que era medo de invasores ou ladrões de gado, coisa comum naquela região. Só fui entender mais tarde que o que Jerônimo temia estava dentro de sua própria casa, não fora.”
O primeiro registro de algo incomum na Fazenda Souza data de março de 1900, quando o médico da cidade, Dr. Mateus Correa, foi convocado com urgência para atender Eleonora, que, segundo o relato da época, sofria de crises nervosas e visões perturbadoras. Em seu caderno de notas, recuperado parcialmente em 1955 por seu neto, que o doou ao Museu Municipal de Lages, o Dr. Mateus escreveu:
“A senhora apresenta um quadro preocupante: perda de peso acentuada, olhar distante, tremores nas mãos, queixas de insônia e de sons noturnos que aparentemente ninguém mais ouve. Receitei brometo de potássio e repouso absoluto. O marido parece mais irritado do que preocupado com o seu estado.”
Após essa visita, Eleonora raramente foi vista fora dos limites da fazenda. Segundo depoimentos de antigos moradores colhidos pelo professor Arnaldo em 1962, circulavam boatos na cidade de que a esposa de Jerônimo havia enlouquecido ou que sofria de uma doença misteriosa que a família preferia manter em segredo. Alguns especulavam até que ela havia falecido e que a família escondia o fato para evitar questões relacionadas à herança.
Enquanto isso, a vida na fazenda parecia seguir seu curso de normalidade aparente, que só mais tarde se revelaria como a calmaria que precede a tempestade. Os negócios prosperavam, o rebanho bovino se multiplicava e as exportações de erva-mate para a Argentina aumentavam ano após ano. Jerônimo Souza chegou a ser mencionado no jornal O Lageano em abril de 1900 como um exemplo de empreendedorismo e dedicação ao progresso da região serrana. O filho mais velho, Augusto, seguia os passos do pai nos negócios, mas, segundo relatos de frequentadores dos poucos bares e salas de jogos que existiam em Lages naquela época, ele era um homem de temperamento instável, alternando períodos de extrema cordialidade com explosões de raiva, aparentemente sem motivo. Um antigo funcionário do Banco da Província, em depoimento anônimo gravado em 1961, relatou:
“O jovem Augusto vinha tratar de depósitos da fazenda e, às vezes, ficava parado encarando as paredes, como se estivesse vendo algo ali. Se alguém perguntava se estava tudo bem, ele dava um sorriso estranho e dizia que eram apenas preocupações de negócios. Mas seus olhos… seus olhos não sorriam junto com o sorriso.”
Cecília, a filha do meio, era descrita como uma jovem de rara beleza, mas extremamente reservada. Havia estudado em um colégio interno em Porto Alegre durante a juventude e, ao retornar à fazenda após concluir os estudos, raramente participava dos eventos sociais da cidade. Uma anotação no diário de Dona Adelaide Ramos, esposa de um ex-prefeito e conhecida por sua tentativa frustrada de criar um círculo literário em Lages, menciona:
“A jovem Cecília compareceu ao chá de caridade acompanhada pelo pai. Permaneceu em silêncio durante todo o evento, mal tocou em sua xícara. Quando indagada sobre música ou literatura, respondia sempre com monossílabos, olhando para o pai como se pedisse permissão para falar. Há algo de profundamente perturbador em seus olhos, uma tristeza ou um medo que não sei nomear.”
Quanto a Teodoro, o caçula, as informações são ainda mais escassas. Sabe-se que não seguiu os estudos formais como os irmãos, permanecendo sempre na fazenda sob a supervisão direta do pai. Alguns dos trabalhadores da propriedade mencionaram, anos depois, que o jovem tinha uma fixação quase obsessiva pela criação de animais, passando horas nos estábulos e currais. Um antigo capataz, em conversa informal gravada pelo professor Arnaldo, disse:
“O jovem Teodoro tinha um jeito estranho com os bichos. Não era crueldade, entende? Era como se ele quisesse entender como eles funcionavam por dentro.”
O estopim para os eventos que transformariam a Fazenda Souza em sinônimo de mistério e horror foi a chegada de um estranho que se apresentou como Eduardo Mendes, um engenheiro agrônomo vindo do Rio de Janeiro. Segundo registros da Hospedaria Central de Lages, onde inicialmente se instalou, Mendes afirmava ter sido contratado por Jerônimo Souza para modernizar a produção de erva-mate da fazenda. A presença do engenheiro na cidade não passou despercebida. De porte alto, feições delicadas e um sotaque carioca inconfundível, Mendes destacava-se entre os locais. Nos primeiros dias, circulou pela cidade, visitando o comércio e conversando com os moradores, sempre fazendo perguntas sobre a família Souza e sua propriedade. Muitas pessoas acharam estranho seu interesse, que ia além das questões profissionais.
“Lembro-me de quando ele chegou à cidade”, relatou a Sra. Jurema Lemos em 1962, então com 82 anos, que na época dos eventos trabalhava na hospedaria.
“Era um homem muito culto, falava baixo e era educado, mas havia algo nos olhos dele, uma inquietude, como se estivesse constantemente procurando por algo. E as perguntas que fazia sobre os Souza não eram normais. Queria saber detalhes sobre a família, se tinham inimigos, se alguém tinha hábitos estranhos. Chegou a me perguntar se a Dona Eleonora ainda era viva, pois ouvira boatos de que ela falecera.”
Após cerca de uma semana em Lages, Eduardo Mendes mudou-se para a Fazenda Souza. A partir desse momento, as informações tornam-se cada vez mais fragmentadas, dependendo principalmente do depoimento do cocheiro Anselmo e de correspondências trocadas entre Augusto Souza e um correspondente em Porto Alegre, recuperadas décadas depois. Segundo Anselmo, a chegada de Mendes à fazenda provocou uma mudança imediata no comportamento de Jerônimo.
“O patrão mudou daquele dia em diante. Andava pela propriedade visivelmente nervoso, conferindo as portas trancadas a todo momento, aumentando o número de homens na vigília noturna. E as discussões… à noite, gritos vinham da casa principal. O Sr. Jerônimo e aquele engenheiro discutiam muito, inicialmente sempre em voz baixa, mas depois as vozes foram subindo. Nunca entendi do que falavam, mas não parecia ser sobre erva-mate ou gado.”
Uma carta de Augusto, datada de 16 de agosto de 1900, endereçada a um amigo identificado apenas como “R” em Porto Alegre, revela mais detalhes:
“A presença deste homem perturbou a paz de nossa casa. Meu pai está convencido de que ele não é quem diz ser. Ontem à noite, sem que ninguém percebesse, eu os encontrei no escritório em uma discussão acalorada. Mendes exigia ver minha mãe, dizia que tinha o direito. Quando me viram, calaram-se imediatamente. Algo muito estranho está acontecendo e temo pelas consequências.”
Em outra carta, datada de 28 de agosto, Augusto escreveu:
“A situação está piorando. Consegui ver minha mãe finalmente, escapando da vigilância de meu pai. Não sei o que conversaram, mas depois disso ela tem apresentado um comportamento ainda mais errático. Fica horas encarando a janela, murmurando palavras que não compreendo. Ontem a encontrei no corredor durante a madrugada, de camisola, descalça, com os cabelos desgrenhados. Quando perguntei o que havia, ela me olhou como se não me reconhecesse e disse apenas: ‘Ele voltou para nos buscar’. O pai culpa Mendes pela piora do estado dela e jurou fazê-lo ir embora de qualquer maneira.”
O confronto anunciado por Augusto não demorou a ocorrer. No dia 5 de setembro de 1900, segundo o relato de Anselmo, houve uma briga violenta na casa principal.
“Eu estava cuidando dos cavalos quando ouvi os gritos. Mais altos do que nunca. O Sr. Jerônimo berrava como nunca vi, e o engenheiro respondia à altura. Depois, um barulho forte, como se móveis estivessem sendo quebrados. Alguns peões quiseram ver o que estava acontecendo, mas o capataz não permitiu. Disse que briga de patrão não era problema nosso.”
Na manhã seguinte, Eduardo Mendes não foi visto na fazenda. Jerônimo informou aos funcionários que o engenheiro partira durante a noite, após um desentendimento sobre os métodos de trabalho. A explicação pareceu convencer a maioria, mas Anselmo notou detalhes perturbadores. O cavalo do engenheiro permanecia no estábulo e ele possuía um baú grande e pesado, que também ficara para trás. Como ele teria partido a pé no meio da noite sem levar nada?
Dois dias após o desaparecimento de Mendes, Jerônimo ordenou que uma parte da propriedade próxima ao pequeno riacho que atravessava as terras fosse cercada com arame farpado. Justificou a medida como proteção para o gado, evitando que os animais atolassem nas áreas mais pantanosas. Diversos peões foram designados para o serviço, que foi concluído em um dia. Anselmo, no entanto, notou algo que despertou seu interesse.
“Vi o Sr. Augusto supervisionando o trabalho, algo que ele não costumava fazer, e notei que ele parecia especialmente interessado em uma área onde a terra fora recentemente mexida. Quando ele percebeu que eu observava, ordenou bruscamente que eu fosse cuidar dos cavalos.”
Na cidade, a ausência repentina do engenheiro não passou despercebida. O dono da hospedaria onde Mendes estivera inicialmente notou que seus pertences nunca foram reclamados. Após duas semanas, decidiu procurar o delegado local, o Tenente Ramirez. Uma breve investigação foi aberta e o delegado chegou a visitar a Fazenda Souza, questionando Jerônimo. Segundo o relatório oficial preservado nos arquivos da antiga delegacia de Lages, Jerônimo explicou que Mendes manifestara a intenção de retornar ao Rio de Janeiro após perceber que as condições climáticas da região não faziam bem à sua saúde. Teria mencionado que pegaria a diligência em São Joaquim, cidade vizinha, para evitar encontros desagradáveis em Lages, onde fizera algumas dívidas. O delegado, aparentemente satisfeito com a explicação e possivelmente influenciado pelo status social e econômico dos Souza, encerrou o caso sem maiores investigações.
As semanas seguintes trouxeram uma normalidade aparente de volta à Fazenda Souza. O trabalho continuava, o gado era cuidado, a erva-mate colhida e processada, mas quem convivia de perto com a família notava mudanças sutis no comportamento de seus membros. Eleonora não era mais vista nem mesmo pelos criados domésticos. Jerônimo tornou-se ainda mais recluso e irritável. Augusto assumiu a maior parte das viagens de negócios, indo com frequência a Porto Alegre e até mesmo a Montevidéu, no Uruguai. Cecília raramente saía de seu quarto e Teodoro passava dias inteiros vagando sozinho pelos campos da propriedade.
Foi em meados de outubro de 1900 que surgiram os primeiros relatos de ocorrências estranhas entre os peões. Maria Conceição, uma das cozinheiras, confidenciou a Anselmo que ouvia vozes vindas do porão da casa principal durante a noite. Não eram gritos ou pedidos de socorro, ela dizia:
“É como se alguém estivesse mantendo uma conversa normal, mas debaixo da terra, e com o amanhecer, o silêncio volta.”
Outros funcionários relatavam sentir cheiros estranhos em determinados pontos da propriedade, especialmente próximo ao riacho cercado. Um odor adocicado, mas ao mesmo tempo fétido, que alguns comparavam a carne estragada e outros a flores em decomposição. O capataz proibiu terminantemente que os peões comentassem sobre esses cheiros, especialmente na presença da família.
Um incidente particularmente perturbador ocorreu na primeira semana de novembro. Segundo Anselmo, era quase meia-noite quando todos foram acordados por gritos vindos da casa principal. Não eram gritos de uma discussão, mas de puro terror.
“A voz era da Dona Eleonora. Tenho certeza. Ela gritava sem parar, como se estivesse vendo o próprio demônio. Alguns funcionários se levantaram, mas o capataz apareceu imediatamente e disse que ninguém devia se aproximar da casa. Ficamos todos acordados ouvindo. Os gritos continuaram por quase uma hora, depois pararam subitamente. No dia seguinte, o Sr. Jerônimo disse apenas que a esposa tivera um pesadelo muito vívido e que estava tudo bem.”
Nos dias que se seguiram a esse episódio, uma atmosfera ainda mais opressiva pairou sobre a fazenda. Os funcionários só falavam o essencial entre si e sempre em voz baixa. Jerônimo decretou que ninguém, absolutamente ninguém, deveria circular pela propriedade após o pôr do sol sem sua autorização expressa. O número de homens designados para a vigilância noturna foi aumentado de dois para seis.
Em meados de novembro, uma nova figura entrou em cena. O padre Antônio Meireles, recém-chegado a Lages para substituir o antigo pároco que falecera. Segundo o livro de registros da igreja, o padre foi chamado à Fazenda Souza para ministrar os sacramentos a Eleonora, cuja saúde estaria se deteriorando rapidamente. O que aconteceu durante essa visita só veio a público décadas depois, quando as memórias do padre, escritas pouco antes de sua morte em 1937, foram encontradas em um convento em Florianópolis.
“Nunca esquecerei aquela tarde na Fazenda Souza”, escreveu o padre.
“Fui recebido por Jerônimo com uma formalidade que beirava a hostilidade. Ele pessoalmente me conduziu ao quarto da esposa, no segundo andar da casa. Mas antes de entrar, ele segurou meu braço com uma força surpreendente e disse: ‘O que quer que ela diga, lembre-se de que é o delírio de uma mente doente’. Ao entrar no quarto, deparei-me com uma imagem que me persegue até hoje. Eleonora Souza, outrora uma mulher de beleza extraordinária, segundo me contaram, estava irreconhecível, magra a ponto da caquexia, os cabelos completamente brancos apesar de não ter mais de 45 anos. Os olhos estavam encovados, mas o que mais perturbava era sua lucidez. Não encontrei sinais de delírio nela ou confusão. Quando ficamos sozinhos para a confissão, ela agarrou minhas mãos e com uma voz clara disse: ‘Ele está enterrado no riacho, padre. Eduardo está enterrado lá, mas não está morto. À noite ele caminha, eu o ouço. Ele vem até minha janela e me chama’. Tentei acalmá-la com palavras de conforto, mas ela ficava cada vez mais agitada. ‘Não é só Eduardo. Há outros, muitos outros. Jerônimo sabe. Augusto sabe, todos sabem, menos a cidade. Padre, temo por minha alma’. Nesse momento, Jerônimo entrou bruscamente no quarto, alegando que a esposa precisava descansar. Ao sair, ele me ofereceu uma doação generosa para a igreja, que eu recusei. Algo naquela casa, naquela família, emanava uma escuridão que nenhuma vela poderia dissipar.”
A visita do padre parece ter sido o catalisador para os eventos que se sucederam. Na semana seguinte, segundo o depoimento de Anselmo, a tensão na fazenda tornou-se insuportável. Os funcionários começaram a pedir as contas, preferindo perder o emprego a continuar naquele ambiente. O próprio Anselmo considerou ir embora, mas sua lealdade à família, para quem trabalhava desde jovem, o convenceu a ficar.
Foi na noite de 27 de novembro de 1900 que o horror contido por tanto tempo finalmente transbordou. Anselmo relatou:
“Eu estava no estábulo preparando os cavalos para uma viagem que o Sr. Augusto faria a Curitiba no dia seguinte, quando ouvi o primeiro tiro. Veio da casa principal, depois outro, e outro. Corri para a casa, assim como alguns outros funcionários. Ao me aproximar, vi o Sr. Jerônimo na sacada com uma espingarda na mão. Ele gritava coisas sem sentido sobre traidores e mentirosos. Dentro da casa, ouvimos mais tiros. Ninguém teve coragem de entrar. Vimos o clarão do fogo começar no segundo andar, onde ficavam os quartos. Em poucos minutos, parecia que a casa toda estava em chamas. O Sr. Jerônimo permanecia imóvel na sacada, encarando o fogo como se estivesse hipnotizado. Alguns peões tentaram entrar para salvar quem quer que estivesse lá dentro, mas foi impossível. O calor era insuportável. Então, vimos a Dona Eleonora na janela do seu quarto. Estava com os braços estendidos, como se quisesse abraçar o céu. Não gritava, não pedia socorro. O sorriso dela me gelou o sangue. Quando o telhado desabou, ela desapareceu nas chamas.”
O incêndio destruiu completamente a casa principal da Fazenda Souza. Quando as autoridades chegaram de Lages na manhã seguinte, encontraram apenas escombros fumegantes. Entre os destroços, localizaram restos mortais que presumivelmente pertenciam a Eleonora, Cecília e Teodoro, embora o estado dos corpos dificultasse uma identificação precisa. De Augusto não havia sinal, ele que, segundo Anselmo, teria partido para Curitiba na tarde anterior ao incêndio, antecipando sua viagem originalmente planejada para o dia seguinte. Quanto a Jerônimo, foi encontrado próximo ao estábulo com um tiro na cabeça. Ao lado de seu corpo, uma carta escrita com letra trêmula dizia apenas:
“Não podemos mais contê-los. Eles estão livres agora.”
A tragédia na Fazenda Souza chocou a pequena Lages. O delegado substituto Ramirez conduziu uma investigação superficial, concluindo que Jerônimo, em um surto de loucura, assassinara sua família e incendiara a casa antes de cometer suicídio. A explicação foi prontamente aceita pelas autoridades e pela maioria dos moradores, ansiosos por encerrar um capítulo tão sombrio da história da cidade. No entanto, perguntas perturbadoras permaneciam sem resposta. O que teria causado o surto de Jerônimo? Qual a conexão com o desaparecimento do engenheiro Eduardo Mendes? E o mais intrigante: nos dias que se seguiram à tragédia, nenhum dos funcionários da fazenda aceitou permanecer na propriedade, mesmo com ofertas de salários elevados por parte dos possíveis compradores.
A Fazenda Souza permaneceu abandonada por quase uma década. A vegetação cresceu sobre as estruturas remanescentes. O gado foi leiloado e as terras, antes tão produtivas, foram deixadas ao mato e ao esquecimento. Somente em 1909, um fazendeiro de Vacaria, no Rio Grande do Sul, interessou-se pela propriedade, adquirindo-a por um preço significativamente abaixo do mercado. Hermínio Machado, o novo proprietário, iniciou imediatamente a reconstrução da casa principal e a recuperação das pastagens. Trouxe consigo uma família numerosa e vários funcionários de confiança. Os primeiros meses transcorreram sem incidentes notáveis e parecia que as sombras que pairavam sobre aquelas terras haviam finalmente se dissipado. No entanto, em julho de 1910, exatamente 10 anos após a chegada de Eduardo Mendes à Fazenda Souza, eventos estranhos começaram a ocorrer.
Funcionários relatavam ouvir vozes à noite, vindas da direção do riacho. Cheiros inexplicáveis apareciam e desapareciam sem motivo aparente. E o mais perturbador: a filha caçula de Hermínio, Antônia, de 18 anos, começou a apresentar um comportamento errático, muito semelhante ao descrito sobre Eleonora Souza. Segundo o relato de Maria Machado, irmã mais velha de Antônia, registrado pelo professor Arnaldo em 1963:
“Minha irmã mudou completamente. Começou a acordar no meio da noite dizendo que havia um homem chamando seu nome do lado de fora da janela. Passava horas encarando o riacho, como se esperasse ver alguém emergir da água. E repetia sempre a mesma frase: ‘Ele sabe nossos segredos’. Meus pais ficaram desesperados. Chamaram médicos, padres, até um benzedor famoso da região. Nada adiantou. Certa manhã, Antônia simplesmente desapareceu. Seu quarto estava vazio, a cama arrumada, como se ninguém tivesse dormido ali. Sobre a penteadeira, encontramos um bilhete escrito com uma letra que não era a dela: ‘Fui para onde sempre deveria estar’. Nunca mais a vimos.”
O desaparecimento de Antônia Machado foi a gota d’água para Hermínio. Menos de um mês depois, ele vendeu a propriedade por um preço ainda inferior ao que pagara e retornou com a família para Vacaria. A fazenda mudou de mãos diversas vezes ao longo das décadas seguintes, mas nenhum proprietário permanecia por mais de dois ou três anos. Sempre o mesmo padrão se repetia: incidentes inexplicáveis, sensação de presença constante, desaparecimento de animais e, em alguns casos, de pessoas.
Em 1945, o governo de Santa Catarina desapropriou a área para a construção de uma estrada que ligaria Lages a São Joaquim. Durante os trabalhos de terraplenagem, próximo ao antigo riacho, que a essa altura já fora parcialmente desviado, os operários fizeram uma descoberta macabra: um corpo humano enterrado a cerca de 2 metros de profundidade. Junto aos restos mortais, foram encontrados fragmentos de roupas que, segundo testemunhos da época, correspondiam ao estilo usado por Eduardo Mendes. O que mais perturbou, porém, foi a descoberta de outro jazigo a poucos metros à frente, contendo ossos de pelo menos cinco pessoas diferentes, incluindo o que parecia ser um esqueleto com um crânio deformado, com protuberâncias anômalas na região frontal. Esse achado nunca foi oficialmente registrado e os operários foram instruídos a enterrar novamente os restos e não comentar sobre o assunto. A informação só chegou ao público décadas depois, através do depoimento de um dos operários ao professor Arnaldo.
A estrada foi construída, passando exatamente sobre o local onde outrora corria o riacho. Durante anos, motoristas e viajantes relatavam experiências inexplicáveis naquele trecho: falhas elétricas em veículos, surgimento súbito de neblina mesmo em dias claros e a sensação de estar sendo observado. Em 1960, após uma série de acidentes misteriosos, o traçado foi alterado e a antiga estrada abandonada.
Quanto a Augusto Souza, o único sobrevivente da tragédia de 1900, seu destino permanece um dos maiores enigmas do caso. Não há registros confiáveis de sua passagem por Curitiba na época do incêndio. Alguns relatos não confirmados sugerem que ele teria sido visto em Buenos Aires em 1905 e, posteriormente, em Paris, por volta de 1910. Um documento encontrado nos arquivos da polícia francesa, datado de 1912, menciona um homem chamado Auguste Susa, de origem brasileira, como suspeito em uma investigação sobre desaparecimentos misteriosos no Quartier Latin, mas o caso foi encerrado sem conclusões.
O mais interessante, porém, é um relato de 1952, quando um homem idoso que se identificou como Augusto Souza apareceu em Lages, hospedando-se na mesma hospedaria onde Eduardo Mendes estivera mais de cinco décadas antes. Durante sua estadia de três dias, ele visitou o local onde ficava a antiga fazenda da família, conversou com alguns moradores mais antigos e desapareceu sem deixar rastros. Descrito como um homem que aparentava cerca de 80 anos, vestido com elegância, com um sotaque que misturava português e francês, ele impressionou a todos por sua lucidez e conhecimento detalhado da história local. Ao se despedir do dono da pensão, ele teria dito:
“As famílias carregam seus segredos como maldições. Alguns conseguem enterrá-los tão fundo que nunca mais emergem. Outros, como a nossa, têm o hábito incômodo de voltar à superfície. Voltei para ver se eles ainda estavam onde deveriam estar. E, por enquanto, estão.”
Hoje, a antiga área da Fazenda Souza está subdividida em pequenas propriedades rurais e parte foi integrada a um parque estadual. Poucas pessoas na região conhecem sua história, e menos ainda se atrevem a mencioná-la. Em noites de inverno, quando a geada cobre os campos e a neblina desce das montanhas, alguns moradores de longa data afirmam ouvir sons que não pertencem ao mundo dos vivos: conversas abafadas, passos na grama e, ocasionalmente, o chamado desesperado de uma mulher.
O professor Arnaldo Silveira continuou sua pesquisa sobre o caso até o ano de 1968, quando faleceu em circunstâncias que alguns consideraram suspeitas. Segundo colegas da universidade, ele mencionara ter encontrado um diário pertencente a Teodoro Souza, o filho caçula, escondido em uma antiga caixa de documentos doada ao arquivo municipal de Lages por um fazendeiro da região. Nos dias que antecederam sua morte, Arnaldo parecia agitado e paranoico, afirmando estar sendo seguido e observado constantemente. O corpo do professor foi encontrado em seu escritório na universidade, aparentemente vítima de um ataque cardíaco. Todos os documentos relacionados ao caso da Fazenda Souza haviam desaparecido, inclusive o suposto diário de Teodoro. A polícia classificou o caso como morte natural, apesar da insistência de sua assistente, Helena Monteiro, de que havia sinais de luta no local.
Helena, decidida a continuar o trabalho do mentor, tentou localizar os documentos perdidos e retomar a investigação. Durante quase um ano, ela viajou por Santa Catarina, entrevistando pessoas que poderiam ter informações sobre a família Souza. Em suas notas pessoais, recuperadas após seu desaparecimento em 1969, ela mencionava uma descoberta potencialmente reveladora:
“Após meses de busca infrutífera, finalmente encontrei algo que pode explicar o comportamento errático da família Souza e o que ocorria na fazenda. Nos registros paroquiais de uma comunidade de origem alemã, onde Leonora nasceu, há menções a uma condição hereditária que afetava algumas famílias da região. Não era uma doença comum, mas algo que o pároco descrevia como ‘a doença do espírito que consome a carne’. Os afetados passavam por transformações físicas e mentais, começando com insônia, seguida de alucinações auditivas e, finalmente, alterações na estrutura óssea, especialmente no crânio. A condição era mantida em segredo absoluto, com os afetados sendo isolados até a morte ou o que o pároco chamava de ‘transmutação’.”
Helena teorizava em suas notas que Eleonora poderia ter trazido essa condição para a família Souza, transmitindo-a possivelmente aos filhos. O isolamento imposto por Jerônimo seria uma tentativa de esconder os sintomas cada vez mais evidentes da esposa e, talvez, de um dos filhos. A chegada de Eduardo Mendes, que ela suspeitava ter alguma ligação com a família de Eleonora na Alemanha, teria ameaçado revelar o segredo.
O último registro no diário de Helena, datado de 3 de março de 1969, é particularmente perturbador:
“Alguém entrou em meu apartamento ontem à noite. Nada foi roubado, mas tenho certeza de que mexeram em meus documentos. Encontrei marcas de lama no chão que iam da janela até minha mesa. A lama tinha um cheiro peculiar, como o descrito pelos funcionários da fazenda Souza: adocicado e fétido ao mesmo tempo. O mais inquietante é que acordei com a sensação de que havia alguém parado ao lado da minha cama, observando-me. Amanhã parto para Porto Alegre, onde um antigo colega de Augusto Souza ainda vive. Dizem que ele tem mais de 90 anos, mas está lúcido. Antes de ir, deixarei cópias de minhas notas com três pessoas diferentes. Se algo me acontecer, a verdade não morrerá comigo.”
Helena nunca chegou a Porto Alegre. Seu carro foi encontrado abandonado na estrada entre Lages e Caxias do Sul, sem sinais de acidente ou violência. As cópias que ela mencionara nunca foram localizadas. A polícia tratou o caso como desaparecimento voluntário, sugerindo que a pesquisadora poderia ter forjado o próprio sumiço para evitar dívidas ou problemas pessoais. Colegas e familiares de Helena sempre refutaram essa hipótese, descrevendo-a como uma pessoa equilibrada e dedicada ao seu trabalho acadêmico.
Em 1972, um grupo de estudantes de antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina decidiu realizar uma expedição à região da antiga Fazenda Souza como parte de um projeto sobre lendas e mitos locais. O grupo era liderado por Jorge Teixeira, um jovem professor assistente que fora aluno de Arnaldo Silveira anos antes. Eles conseguiram permissão para acampar nos limites do que agora era um pequeno parque estadual, próximo ao local onde ficava a sede da fazenda.
Na segunda noite de acampamento, um dos estudantes, Carlos Mendonça, separou-se do grupo durante uma caminhada noturna e não retornou. As buscas estenderam-se por três dias, envolvendo a polícia, bombeiros e voluntários da região, sem sucesso. Uma semana depois, Carlos foi encontrado caminhando às margens da BR-116, a mais de 70 km do local, desorientado e incapaz de explicar onde estivera ou o que acontecera. Apresentava sinais de desidratação severa e pequenas escoriações nas mãos e nos pés, como se tivesse cavado a terra com as próprias unhas. Após receber alta do hospital, Carlos abandonou os estudos de antropologia e mudou-se para o Nordeste, recusando-se terminantemente a falar sobre sua experiência. Em 1980, em uma entrevista a uma revista especializada em fenômenos paranormais, ele finalmente quebrou o silêncio, embora de forma enigmática:
“O que encontrei naquelas terras não foi algo sobrenatural, como muitos gostariam de acreditar. Foi algo muito mais perturbador: a evidência de até onde a crueldade e a obsessão humana podem chegar. Encontrei um lugar que não deveria existir debaixo da superfície, onde a família Souza guardava seus segredos. Vi os instrumentos, os registros, os desenhos. Entendi por que Eduardo Mendes foi silenciado e por que Jerônimo preferiu destruir tudo com fogo. Há coisas que, uma vez vistas, não podem ser desvistas. Conhecimentos que, uma vez adquiridos, tornam impossível continuar vivendo como antes. Não darei detalhes sobre o que vi porque não quero carregar esse fardo para mais ninguém. Só posso dizer que, de vez em quando, ainda ouço aquelas vozes pedindo libertação. E não são fantasmas ou espectros, mas ecos de eventos passados profundamente inscritos na própria essência daquela terra.”
A entrevista causou um certo alvoroço nos círculos interessados no caso, mas foi amplamente descartada pela comunidade acadêmica como fantasia ou resultado de um trauma psicológico. Carlos faleceu em 1989, vítima de cirrose hepática após anos de alcoolismo severo.
Em 1993, durante a construção de uma nova rodovia estadual que passaria próximo à região, escavações para a fundação de uma ponte revelaram uma estrutura subterrânea que não constava em nenhum mapa. Segundo o relatório oficial do departamento de estradas, tratava-se de um antigo reservatório de água ou uma pequena cisterna, provavelmente construída no início do século XX. O engenheiro responsável, porém, em conversa informal com um repórter de um jornal local, deu uma descrição bem diferente:
“Aquilo não era um reservatório de água. A estrutura possuía paredes duplas, com um isolamento acústico primitivo, mas eficaz. Havia divisórias internas, criando compartimentos de cerca de 2 m² cada. Em algumas paredes, encontramos marcas que pareciam ter sido feitas por unhas humanas. O mais perturbador foram os objetos encontrados em um pequeno compartimento selado: instrumentos cirúrgicos enferrujados, cadernos com anotações em alemão e português e o que pareciam ser partes de um esqueleto humano modificado artificialmente. Recebemos ordens de preencher toda a área com concreto imediatamente e modificar levemente o traçado da rodovia. Nos documentos oficiais, consta apenas que encontramos solo instável. A história nunca veio a público.”
O jornalista Roberto Alves foi transferido pouco tempo depois para outra cidade e o engenheiro pediu demissão do departamento no mesmo mês, mudando-se para o Paraguai. A estrutura subterrânea foi efetivamente concretada e o novo traçado da rodovia contornou a área, deixando-a como uma pequena ilha de vegetação entre as pistas.
Em 1998, uma historiadora americana chamada Margaret Reynolds, que pesquisava a imigração alemã no Sul do Brasil durante o século XIX, interessou-se pelo caso da Fazenda Souza após encontrar menções a ele em correspondências entre autoridades consulares da época. Durante sua estadia em Lages, ela conseguiu acesso a documentos que haviam sido preservados em arquivos privados, incluindo cartas trocadas entre Jerônimo Souza e um certo Dr. Friedrich Müller, um médico de Blumenau. Nas cartas, datadas de 1898 e 1899, Jerônimo consultava o médico sobre o estado de sua esposa, descrevendo sintomas que incluíam alterações na estrutura óssea do crânio, sensibilidade extrema à luz e mudanças de comportamento. Dr. Müller, em suas respostas, mencionava uma condição rara observada em algumas famílias de uma região específica da Alemanha, conhecida localmente como Knochenkrankheit (doença dos ossos). O mais revelador, porém, era a sugestão de um tratamento experimental:
“Como discutimos pessoalmente, acredito que a condição de sua esposa pode ser controlada, se não revertida, através do procedimento que desenvolvi. Os resultados em outros pacientes têm sido promissores, ainda que temporários. A questão ética que o atormenta é compreensível, mas lembre-se: se não agirmos, a condição inevitavelmente se manifestará em seus filhos, como já começamos a observar nos primeiros sinais em Teodoro.”
Margaret tentou localizar mais informações sobre o Dr. Müller e seus tratamentos experimentais, mas descobriu apenas registros de que ele partira de Blumenau abruptamente em 1901, supostamente retornando à Alemanha. Sua clínica fora fechada e todos os seus registros médicos haviam sido destruídos em um incêndio classificado na época como criminoso. Em seu artigo intitulado “Experimentos Secretos nas Colônias Alemãs do Sul do Brasil”, publicado em 2000 em uma revista de estudos latino-americanos, Margaret sugere que Jerônimo Souza teria transformado parte de sua fazenda em um laboratório secreto onde o Dr. Müller realizaria seus experimentos na tentativa de curar Eleonora e, possivelmente, Teodoro. Eduardo Mendes, segundo sua teoria, poderia ter sido um assistente do médico alemão que, após algum desentendimento, ameaçara revelar as atividades ilegais.
O artigo causou polêmica nos meios acadêmicos e foi duramente criticado por historiadores brasileiros, que o consideraram sensacionalista e baseado em evidências frágeis. Margaret defendeu seu trabalho, mas nunca retornou ao Brasil para dar continuidade à pesquisa. Em 2003, em uma entrevista a um podcast de história latino-americana, ela revelou:
“Recebi alguns e-mails anônimos após a publicação do artigo, contendo informações que só alguém muito familiarizado com o caso poderia saber. Um deles continha uma foto antiga, aparentemente da década de 1890, mostrando uma mulher com deformidades cranianas visíveis, identificada no verso apenas como ‘E. S.’. O mais perturbador foi o último e-mail, que dizia simplesmente: ‘Pare enquanto ainda pode, alguns segredos devem permanecer enterrados. Pergunte a Arnaldo Silveira, Helena Monteiro e Carlos Mendonça o que acontece com aqueles que cavam fundo demais’. Depois disso, decidi que havia outras áreas de pesquisa menos complexas para me dedicar.”
Nos anos seguintes, o interesse público e acadêmico pelo caso da Fazenda Souza diminuiu gradualmente. A região onde a propriedade se situava tornou-se cada vez mais urbanizada com a expansão da cidade de Lages. O pequeno parque estadual foi reduzido a uma área mínima de preservação e os marcos geográficos que identificavam os locais exatos dos eventos foram alterados pelo desenvolvimento urbano. Somente em 2015, durante as escavações para a instalação de uma rede de água e esgoto em um condomínio recém-construído na área, uma descoberta fortuita despertou brevemente o interesse pelo caso. Os operários encontraram uma caixa metálica enterrada a cerca de 3 metros de profundidade, contendo documentos severamente danificados pela umidade e pelo tempo. Entre os papéis ainda legíveis, havia fragmentos de um documento que parecia ser um diário, com a assinatura parcial “Teo… S…”, presumivelmente Teodoro Souza. Em uma das páginas, podia-se ler:
“As transformações continuam. O pai diz que o tratamento do Dr. M. funcionará, mas o sofrimento é quase insuportável. Os gritos da mãe durante as sessões noturnas… O irmão diz que logo estarei pronto para o meu próprio tratamento. Temo que…”
A caixa e seu conteúdo foram encaminhados para o departamento de arqueologia da Universidade Federal de Santa Catarina, mas desapareceram misteriosamente antes de qualquer análise detalhada ser realizada. O incidente foi atribuído a um erro administrativo e nenhuma investigação formal foi conduzida.
Em 2017, um documentário independente intitulado “Segredos Enterrados: O Mistério da Fazenda Souza” foi produzido por um grupo de cineastas de Florianópolis. A produção reuniu os diversos fragmentos da história, entrevistas com historiadores locais e descendentes de pessoas que trabalharam na fazenda. Apesar de ter sido bem recebido em alguns festivais regionais, o documentário enfrentou problemas de distribuição e nunca chegou ao grande público. O diretor do filme, Lucas Cardoso, em entrevista a um blog especializado em cinema independente, relatou experiências inquietantes durante as filmagens:
“Equipamentos falhavam sem explicação quando tentávamos gravar em determinados locais. Gravações de áudio de entrevistas apareciam distorcidas, com vozes estranhas ao fundo que não estavam lá durante a captação. Três membros da equipe adoeceram com sintomas idênticos: dores de cabeça severas, insônia e uma sensação constante de estar sendo observado. O mais perturbador foi o que aconteceu durante nossas filmagens perto do local onde outrora corria o riacho. Um drone nosso captou imagens de uma estrutura subterrânea que não era visível a olho nu. Quando voltamos no dia seguinte com equipamento adequado para investigar, a área estava cercada e uma placa de ‘Propriedade Particular – Entrada Proibida’ fora colocada durante a noite.”
O caso da Fazenda Souza permanece como um dos mistérios não resolvidos da história brasileira. As perguntas fundamentais continuam sem uma resposta definitiva. O que realmente aconteceu naquela propriedade isolada? Qual era a natureza da doença que afligia Eleonora e possivelmente outros membros da família? Quem era Eduardo Mendes e qual sua real ligação com os Souza?
Alguns estudiosos do caso sugerem uma explicação racional: Jerônimo Souza, movido pelo desespero de ver sua esposa e filho sofrerem de uma doença degenerativa rara, permitiu ou mesmo incentivou experimentos médicos antiéticos na tentativa de encontrar uma cura. O isolamento da fazenda, o poder econômico da família e a época em que a regulação médica era praticamente inexistente em regiões remotas criaram as condições perfeitas para tais atividades. Outros projetam um cenário mais sombrio, no qual Jerônimo não estaria buscando uma cura, mas sim explorando as manifestações da doença para algum propósito desconhecido. A estrutura subterrânea recuperada décadas depois, com suas divisórias em forma de celas, não sugeriria um laboratório médico, mas algo bem mais sinistro.
Há também aqueles que, apesar da falta de evidências concretas, insistem em uma dimensão sobrenatural para o caso, apontando para os inúmeros eventos inexplicáveis relatados ao longo dos anos por pessoas que se aventuraram na região. Independentemente da explicação, a verdade permanece enterrada sob as camadas de tempo e de concreto que agora cobrem as terras da antiga Fazenda Souza.
Mais de um século depois, a simples menção ao nome dos Souza ainda causa desconforto entre os moradores mais antigos de Lages. Pais alertam seus filhos para não frequentarem certas áreas após o anoitecer, especialmente próximo ao local onde o antigo riacho corria. Construtoras e incorporadoras imobiliárias enfrentam dificuldades para vender lotes em terras que fizeram parte da antiga propriedade, apesar dos preços atrativos. E ainda hoje, em noites particularmente silenciosas, quando o vento frio desce das montanhas catarinenses, moradores da região relatam ouvir sons que parecem vir do fundo da terra: conversas abafadas, choros contidos e, ocasionalmente, um grito de dor que nenhum ser vivo deveria ser capaz de produzir.
O mistério da Fazenda Souza permanece insolúvel, enterrado no passado, mas como as vozes que supostamente ecoam do subsolo, recusa-se a ser completamente silenciado. Como Helena Monteiro escreveu em sua última carta conhecida:
“Alguns segredos são como feridas que nunca cicatrizam completamente. Por mais que tentemos fechá-las, o sangue sempre encontra um caminho para a superfície.”