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“Vão embora, seus bastardos!” Disse o pistoleiro sem nome aos bandidos mais notórios de Abilene.

O sol do meio-dia castigava a terra seca, elevando uma poeira avermelhada que parecia cegar qualquer um que se atrevesse a olhar para o horizonte. No centro do pátio, suspensa por uma corda, uma jovem Apache lutava para manter a consciência. Os seus braços, presos atrás das costas, denunciavam um sofrimento indescritível, e o seu corpo, outrora forte, estava coberto de hematomas e sangue seco. A respiração era um fio ténue, mas nos seus olhos ainda brilhava uma resistência inquebrantável, um desafio que parecia irritar os seus captores. Sete homens, conhecidos pela crueldade que espalhavam pelas terras de Abalene, formavam um círculo ao redor dela, troçando como se a agonia humana fosse um espetáculo de entretenimento barato.

Diga-nos onde está a nascente de água, e tudo isto termina aqui, rosnou um deles, agitando um cantil vazio diante do rosto da jovem.

Ela não respondeu. Com um sorriso desdenhoso, o homem despejou o resto da água no chão arenoso, logo aos pés dela. O riso dos outros ecoou, seco e cruel, até que um som distinto cortou a aridez do momento. O trote de um cavalo. Lento, constante, gélido. Todos os olhares convergiram para a orla do pátio. Um homem sozinho, parado sob a luz inclemente do sol. Um estranho, protegido por um casaco coberto de poeira e um chapéu que lhe ocultava metade do rosto. Ele não disse uma palavra durante vários segundos; limitou-se a observar. Depois, desceu do cavalo. Quando a sua voz ecoou, era baixa, contida, mas cortante como uma lâmina.

Afastem-se. Deixem a rapariga.

Houve um breve silêncio, seguido por uma gargalhada coletiva. Ouçam isto, disse um deles. O sujeito pensa que é um herói.

Um disparo soou. Antes que os outros pudessem reagir, o homem que zombava caiu. Seguiu-se o segundo, o terceiro, o quarto. Num ritmo metódico, sem desperdício de munição ou hesitação. Em poucos segundos, os sete corpos jaziam imóveis sobre o chão rachado. O estranho guardou a arma, caminhou até à jovem e cortou a corda. Ela desabou, mas ele amparou-a antes que tocasse no chão. Naquele momento, com a voz fraca, ela sussurrou: Eles vão voltar.

O homem não respondeu. Apenas levantou o olhar para o horizonte, onde uma tempestade parecia formar-se. Acomodou a jovem sob a sombra frágil de um telheiro e ofereceu-lhe um pouco de água do seu próprio cantil. Ela bebeu com dificuldade, os seus olhos ainda alertas. Não desperdice água, disse ela, a voz quebradiça. O estranho ignorou o aviso, mantendo o cantil junto aos seus lábios até que ela recuperasse um pouco de fôlego. Porquê? Ajudar-me?, perguntou ela. A resposta foi curta: Não gosto de ver coisas assim.

Ela forçou-se a ficar de pé, apesar do tremor que lhe percorria o corpo. Chamo-me Ayana, sou da tribo Kamanchi. O homem não se apresentou. Observou os corpos espalhados pelo pátio. Ayana cerrou os punhos, a raiva a cintilar no seu olhar. Pertencem aos Abutres de Ferro, o grupo mais temido da região. Estão à caça de algo valioso. Não é ouro nem terra. O homem virou-se para ela. Então, o que é? Ayana apontou para o horizonte, onde as montanhas se confundiam com o calor. Uma nascente de água sagrada. O meu povo protege-a há gerações. Se eles a tomarem, toda esta região cairá de joelhos. Sem água, não há vida.

Um vento quente varreu o pátio, carregando a poeira sobre os mortos. O que fizeram aos outros?, perguntou ele. Ayana fez uma pausa, o peso da memória no rosto. Aqueles que não partiram desapareceram. Ambos entenderam o significado. O homem limpou a poeira do seu casaco e olhou na direção de Abalene. O líder deles?, questionou. Ayana respondeu com a voz contida: Silus Crow. Um homem que nunca para quando deseja algo.

O estranho voltou-se para o seu cavalo, como se estivesse de partida. Ayana, apesar das pernas trémulas, insistiu: Se partir, ele matá-los-á a todos. O homem parou, mas não se virou. Quantos restam?, perguntou. Poucos, mas não desistiram. O vento intensificou-se. O homem, por fim, virou-se. A indiferença que outrora habitava os seus olhos fora substituída por algo mais pesado, como se já conhecesse o desfecho daquela história. Mostre o caminho, disse ele.

Caminharam enquanto o sol descia. O calor tornava-se menos agressivo, mas não menos implacável. Não havia trilhos claros, apenas terra estalada e pedras. O que sabe sobre essa nascente?, perguntou Ayana. O homem respondeu sem a olhar: O suficiente para saber que, se cair nas mãos de gente como Silus Crow, ninguém sobreviverá. Ayana cerrou os dentes. Não é apenas água. É onde os nossos antepassados estão sepultados. É a alma da nossa tribo. O homem assentiu. Então, não podemos perdê-la.

Pararam numa elevação ao cair da noite. Ao longe, as luzes de Abalene cintilavam. Aquela visão não trazia conforto, mas a sensação de uma armadilha pronta a fechar-se. Ayana falou suavemente: Tomaram quase todos os poços da região. As pessoas partem ou desaparecem. O homem sentou-se, polindo uma bala. Isso significa que virão buscar a água sagrada, afirmou ele. Ayana concordou. Em breve.

O vento da noite trouxe um frio cortante. Ao longe, um disparo ecoou. O homem levantou-se e inseriu a bala na câmara. Amanhã, disse ele, a voz firme. Não vamos mais fugir. Entraremos na toca deles.

Ao amanhecer, posicionaram-se numa encosta com vista para Abalene. A cidade estava imóvel sob um manto de névoa, mas não havia paz. Não se ouvia gado, nem vozes. Apenas ruas vazias, como se a vida tivesse sido drenada daquele lugar. Entraram na cidade com a primeira luz do dia. As janelas estavam hermeticamente fechadas; cortinas moviam-se, mas ninguém ousava espreitar por muito tempo. Controlam este lugar, sussurrou Ayana.

O homem estudou cada detalhe: as marcas profundas das rodas de carroças na terra, as pegadas pesadas e os sinais estranhos esculpidos nos postes de madeira em frente às casas. Eram marcas territoriais dos Abutres de Ferro. Pararam perante uma velha casa de madeira. Quando Ayana bateu num ritmo específico, a porta rangeu. Um homem idoso apareceu, as mãos trémulas, mas o olhar ainda aguçado. Voltou, disse ele, a voz rouca. Ezekiel Boon. Precisamos de ajuda, respondeu Ayana. Boon olhou para o homem atrás dela, desconfiado. Mais um a procurar a morte?, murmurou. O estranho deu um passo em frente. Só preciso de saber onde eles estão.

Boon abriu a porta. Dentro, a casa era sombria. Algumas mulheres, crianças e homens exaustos aglomeravam-se, mantendo viva uma ténue faísca de esperança. Tomaram todos os poços, explicou Boon. Quem recusa partir, desaparece na noite. Apontou para as montanhas ao longe. A base deles é lá. Silas Crow está a reunir homens. Ayana apertou os punhos. Está a preparar-se para atacar a nascente. Boon balançou a cabeça. Não está a preparar-se. O ataque está prestes a começar.

O som de cascos ecoou do lado de fora. Todos na casa silenciaram. O homem virou a cabeça, o seu olhar tornando-se frio. A caçada começara. O som parou junto à porta. Ezekiel Boon indicou, com um gesto, que todos deveriam recuar para as sombras. Ayana segurou a sua pequena faca. O estranho permaneceu imóvel, como uma sombra.

A porta explodiu. Dois rufias entraram. Casacos empoeirados, armas nas cinturas. Os olhos percorreram a sala, parando quando notaram o estranho. Boon, chamou um deles, com um tom de escárnio. Velho, não estás pronto para partir? Boon não disse nada. O outro aproximou-se, semicerrando os olhos para o estranho. E quem é este? Um novo convidado?

O ar tornou-se pesado. O homem virou lentamente a cabeça, o olhar frio como o aço. Alguém que está apenas de passagem. O rufia soltou uma risada seca. Ninguém passa por aqui sem a permissão de Silus Crow. No momento em que terminou a frase, um disparo único estalou, preciso e fatal. O homem junto à porta caiu antes mesmo de alcançar a sua arma. O outro, em pânico, mal começou a girar quando o segundo disparo atingiu o seu ombro, prendendo-o contra a porta.

A casa mergulhou num silêncio absoluto. O estranho avançou, apontando a arma para o rosto do sobrevivente. Volte, ordenou, a voz grave e autoritária. Diga a Crow que estou à espera dele. O rufia tremeu, o sangue escorrendo pela gola, e assentiu freneticamente. O homem baixou a arma. Saia. O ferido cambaleou para fora, quase caindo do cavalo enquanto fugia.

Um silêncio pesado instalou-se na sala. As pessoas olhavam para o homem não com medo, mas com esperança. Boon abanou a cabeça, meio incrédulo, meio preocupado. Acabou de fazer o que ninguém nesta cidade ousou fazer durante meses. O homem guardou a arma. Então, está na hora. Ayana deu um passo em frente. Está a atraí-lo para aqui. O homem olhou para fora, onde a poeira ainda pairava no ar. Não, respondeu ele. Estou a forçá-lo a sair das sombras. O vento soprou mais forte; a luta não podia ser evitada.

Dentro da casa de Boon, a atmosfera era de antecipação tensa, como o momento antes de uma tempestade. O homem espalhou um mapa rudimentar sobre a mesa. Não podemos enfrentá-los de frente, disse ele, a voz constante. Os Abutres de Ferro estão em maior número e conhecem o terreno. Um jovem protestou: Então o que fazemos? Sentamo-nos e esperamos que nos matem a todos?

Ayana interveio: Não esperamos. Vamos enfraquecê-los. O homem assentiu. Eles sobrevivem da água que roubaram. Cortem-lhes o abastecimento. Forcem-nos a mover. Boon franziu o sobrolho. Planeia atraí-los para fora da base? Não, respondeu o homem. Vamos levá-los para um terreno da nossa escolha. Apontou para um ponto no mapa, um desfiladeiro estreito perto da nascente. Aqui, o terreno é apertado. Não nos conseguirão cercar.

Houve olhares trocados. O plano era perigoso, mas era a primeira vez que sentiam esperança. Uma voz trémula surgiu de um canto: Mas quem ousaria fazer algo assim contra Silus? Um homem de meia-idade avançou, o rosto carregado de culpa. Eu trabalhava para eles, disse baixinho. Conheço as suas rotas de abastecimento e como se movem. Todos os olhos voltaram-se para ele. Porquê voltar?, perguntou Ayana. O homem baixou a cabeça. Porque vi morrer gente demais. E desta vez não quero fugir.

O estranho estudou-o por uns segundos e deu um pequeno aceno. Então, guiar-nos-á. Lá fora, o vento uivava, como se sinalizasse que algo estava a mudar. Naquela pequena casa, pessoas que apenas tinham conhecido o medo preparavam-se agora para resistir. Pela primeira vez, o próprio medo começou a quebrar-se.

O céu escureceu enquanto o grupo se movia silenciosamente pelo desfiladeiro estreito. O vento gemia contra as paredes de rocha, criando sons fantasmagóricos. Este era o lugar escolhido. O lugar onde o destino seria decidido. Ayana observava a partir de uma saliência alta. Poeira vermelha começou a erguer-se no horizonte. Eles estão a vir, disse ela suavemente.

O homem verificou a sua arma uma última vez. Ezekiel Boon e os habitantes da cidade posicionaram-se, as mãos a tremer, mas os olhos firmes. Lembrem-se das posições, ordenou o homem. Não disparem até eu dar o sinal.

O som de cascos galopantes trovejou, aproximando-se. Então apareceram. Dezenas de cavaleiros dos Abutres de Ferro surgiram no desfiladeiro como uma enchente negra. No centro, uma figura montava a um passo medido. Silus Crow. Não tinha pressa; os seus olhos vasculhavam o terreno como um predador a sentir uma armadilha. Mostra-te, chamou ele, a voz fria. Sei que estás aqui.

Houve uma pausa. O homem saiu de trás de uma rocha. Os olhares cruzaram-se. Sem apresentações, sem palavras desnecessárias. Crow sorriu. Pensei que tivesses morrido da última vez. O homem não respondeu, mantendo-se calmo. Escolhes sempre os fracos, continuou Crow. Desta vez, o homem respondeu: Estou do lado certo.

Um instante de imobilidade. Crow levantou a mão. Acabem com ele.

O tiroteio irrompeu instantaneamente, ecoando pelas paredes do desfiladeiro. De ambos os lados das falésias, os habitantes da cidade abriram fogo. Balas choveram, lançando os fora-da-lei no caos. Os cavaleiros na frente caíram, cavalos relinchando em pânico. Ayana saltou de cima, movendo-se com a precisão de uma guerreira. No centro, o homem e Crow avançaram um contra o outro através da tempestade de balas. O caos ao redor desvaneceu. Restavam apenas dois homens e uma dívida por pagar.

O tiroteio diminuiu lentamente, mas a batalha real apenas começara. O eco ainda pulsava em cada respiração. No meio do desfiladeiro, a poeira vermelha cobria o chão. Os Abutres de Ferro jaziam dispersos, e o resto fugira em desordem. Pela primeira vez, aquele bando temido fora derrotado.

No centro, dois homens ainda se enfrentavam. Silus Crow respirava com dificuldade, o casaco rasgado, os olhos ainda ardendo com intenção assassina. Diante dele, o homem permanecia firme, a arma baixa, mas pronta. Não mudaste nada, disse Crow, soltando uma risada fraca, a voz áspera. Ainda te recusas a morrer. O homem não respondeu. Crow cuspiu sangue para o chão. Achas que salvá-los muda alguma coisa?

Houve um momento de silêncio. Depois, o homem avançou. Pelo menos hoje, eles ainda estão vivos. O olhar de Crow cintilou. Ele sacou da arma, mas o disparo do homem soou primeiro. Crow congelou. A sua arma deslizou da mão. Cambaleou para trás e caiu no pó. Sem palavras finais, apenas o vento. Uma rajada longa varreu o desfiladeiro, como se levasse consigo tudo o que acabara de acontecer.

Alguns dias depois, a água sagrada corria clara novamente. Os habitantes da cidade e a tribo estavam juntos ao redor dela, já não com medo, apenas aliviados e gratos. Ezekiel Boon observava o riacho, os seus olhos envelhecidos refletindo uma fé há muito perdida. Mantivemo-la, disse ele suavemente. Ayana não respondeu. Olhava para o horizonte. O homem preparava-se para partir. Apertou a sela, puxando o chapéu para baixo.

Ayana aproximou-se. Podias ficar, disse ela, a voz baixa, mas sincera. Precisamos de alguém como tu. O homem hesitou. Um silêncio breve. Depois, abanou a cabeça. Não precisam de mim. Ayana olhou-o diretamente. Não, mas quero que fiques.

Um momento curto, mas suficiente para ambos entenderem o que não fora dito. O homem soltou um suspiro. Não pertenço a lugar nenhum. Montou no cavalo. A luz da manhã começava a espalhar-se sobre a terra que acabara de ser salva. Ayana permaneceu ali, não o impedindo, apenas observando. O homem virou o cavalo e cavalgou lentamente para longe. Ninguém gritou o seu nome. Ninguém sabia quem ele era, mas todos compreenderam. Algumas pessoas não foram feitas para ficar. Foram feitas para aparecer no momento certo. E quando a justiça é restaurada, desaparecem como se nunca ali tivessem estado.

Existem momentos em que alguém é forçado a escolher entre a segurança do silêncio e defender o que é justo. A bondade nem sempre é barulhenta, mas exige sempre coragem para sobreviver. Quando alguém ousa dar um passo em frente para proteger o que é correto, mesmo enfrentando o perigo, não está apenas a salvar uma vida. Está a semear a esperança onde antes apenas existia o vazio. E, para aqueles que ficam, o horizonte parece um pouco mais aberto, menos carregado de sombras, e a terra, ainda que seca, torna-se um lugar onde a vida, finalmente, pode voltar a crescer, beber daquela fonte sagrada e recomeçar, sob o sol quente que, agora, aquece a esperança renovada de um povo que, contra todas as expectativas, aprendeu que a justiça, quando buscada com bravura, encontra sempre o seu caminho através das tormentas, deixando para trás apenas a memória de um forasteiro que, por um breve instante, foi o guardião do seu destino.