
A pandemia de covid-19 deixou marcas profundas na sociedade brasileira, não apenas pelos números expressivos de óbitos e sequelas, mas também pelas controvérsias comportamentais e posicionamentos públicos que dividiram opiniões. Muitas pessoas, inclusive figuras conhecidas do entretenimento, da política e das redes sociais, adotaram posturas que minimizavam a gravidade do vírus, questionavam medidas de prevenção ou defendiam tratamentos sem comprovação científica. Infelizmente, alguns desses nomes acabaram contraindo a doença e não resistiram às complicações. Este artigo reconstrói, com base em fatos públicos, as trajetórias de dez casos emblemáticos que servem como reflexão sobre os riscos de subestimar uma crise sanitária de proporções globais.
Um dos casos mais lembrados no meio musical sertanejo é o do cantor Mateus, que formava dupla com o irmão Lucas. Com mais de 25 anos de carreira, a dupla acumulara sucessos, especialmente no interior de São Paulo, com hits como “Paciência”, do álbum “Palavras ao Vento”. Os irmãos conquistaram dezenas de discos de ouro e platina, vendendo mais de 7 milhões de cópias. Em setembro de 2020, Mateus publicou postagens polêmicas no Facebook ironizando a pandemia, sugerindo que parecia que todos morriam apenas de covid-19. Ele questionava as notícias sobre o vírus. Morando em Portugal na época, retornou ao Brasil no início de dezembro de 2020. Poucos dias depois, apresentou sintomas, foi internado em Presidente Prudente e faleceu em 22 de dezembro de 2020, aos 57 anos, vítima de complicações da doença.
No jornalismo televisivo mineiro, o apresentador Stanley Guzm, da TV Alterosa (afiliada do SBT), era conhecido pelo bordão “Vem comigo, Minas Gerais” e liderava audiência com o programa “Alterosa Alerta”. Ao longo de 2020, ele criticava abertamente as medidas de isolamento social, afirmando que as máscaras causavam mais mal do que bem por aumentar a ingestão de gás carbônico. Defendia ainda o uso de medicamentos como hidroxicloroquina. Na virada de 2020 para 2021, começou a sentir sintomas. Seu quadro piorou rapidamente, exigindo internação em UTI. Ele contraiu infecção secundária e faleceu em 10 de janeiro de 2021, aos 49 anos.
No Amazonas, a cantora e backing vocal Ross Mendonça, do grupo Boi Bumbá Garantido, era bastante popular no Festival de Parintins. Durante a pandemia, adotou postura negacionista, criticando o uso de máscaras e o isolamento, chegando a sugerir que o vírus fazia parte de um plano da China. Grávida do primeiro filho, menosprezava a doença. Em dezembro de 2020, foi internada, precisou de cesárea de emergência para dar à luz um bebê prematuro. Contraiu covid-19 e, após três paradas cardíacas, faleceu em 9 de janeiro de 2021, aos 39 anos. Seu filho sobreviveu.
Na política, o ex-senador Arolde de Oliveira, capitão do Exército, teve longa carreira como deputado federal e foi eleito senador pelo Rio de Janeiro em 2018 pelo PSD. Integrante da bancada evangélica e fundador do grupo MK de Comunicação, defendeu durante a pandemia o tratamento precoce com hidroxicloroquina e criticou o isolamento social, alegando que as medidas eram alarmistas e causariam desemprego em massa. Internado em 5 de outubro de 2020 com sintomas graves, não resistiu e faleceu em 21 de outubro do mesmo ano, aos 83 anos, por falência múltipla de órgãos.
O bispo Vanderley Santiago, irmão do apóstolo Valdemiro Santiago da Igreja Mundial do Poder de Deus, também criticou as restrições a cultos que limitavam o público. Em junho de 2021, procurou atendimento com sintomas de covid-19. Seu quadro evoluiu rapidamente e ele faleceu em 28 de junho, aos 53 anos, após parada cardíaca. Havia tomado a primeira dose da vacina poucos dias antes.
Nas redes sociais, a influenciadora Igona Moura, conhecida como “Rainha dos Memes” no universo LGBT, viralizava com conteúdos humorísticos. Durante a pandemia, passou a incentivar aglomerações, postando vídeos em festas mesmo durante o isolamento. Em janeiro de 2021, após participar de eventos, foi internada com falta de ar intensa. Entubada e induzida ao coma, não resistiu às complicações e faleceu em 27 de janeiro de 2021, com apenas 23 anos.
O político e empresário Levi Fidelix, fundador do PRTB e candidato à Presidência em 2010 e 2014, também ganhou visibilidade em debates. Na pandemia, zombou do isolamento e das vacinas em lives, afirmando que o lockdown era uma forma de destruir a economia. Contraiu covid-19 em meados de 2021, ficou mais de um mês internado e faleceu em 23 de abril de 2021, aos 69 anos.
O deputado estadual Silvio Antônio Fávero, eleito por Mato Grosso em 2018 pelo PSL, apresentou projeto contra vacinação obrigatória e defendeu tratamento precoce. Compartilhava conteúdos contra o isolamento. Internado e intubado em março de 2021, faleceu em 13 de março, aos 54 anos, por infecção generalizada causada pela covid-19.
Anthony Ferrari, enfermeiro que se apresentava como médico em vídeos, criticava vacinas e defendia ivermectina e cloroquina. Após denúncias, amenizou o discurso, mas continuou minimizando a doença. Em abril de 2021, foi internado com 75% dos pulmões comprometidos, foi intubado e faleceu em 18 de abril, aos 45 anos.
Por fim, o influenciador fitness ucraniano Dimitri Suzuk negava a existência da covid-19. Viajou para a Turquia em outubro de 2020, contraiu o vírus, mudou o discurso ao piorar, mas não resistiu a complicações cardíacas e faleceu em 16 de outubro de 2020, aos 33 anos, deixando três filhos.
Essas histórias, embora trágicas, refletem um período de grande polarização. A covid-19 não poupou ninguém, independentemente de posição social, idade ou influência. Especialistas sempre enfatizaram que o vírus não respeita opiniões e que medidas como vacinação, máscaras e distanciamento foram fundamentais para reduzir mortalidade, conforme dados de órgãos como OMS e Anvisa.
O caso brasileiro foi marcado por debates intensos sobre liberdade individual versus saúde coletiva. Muitos dos citados eram vozes influentes e suas posições repercutiam em milhares de seguidores. A reflexão que fica é sobre responsabilidade pública: figuras com grande alcance podem influenciar comportamentos que, em momentos de crise sanitária, têm consequências diretas.
A pandemia cobrou um preço alto. No Brasil, foram mais de 700 mil óbitos oficiais. Histórias como essas servem não para julgamento moral, mas para compreensão de como desinformação e negacionismo podem agravar uma emergência de saúde. Hoje, com a experiência adquirida, a sociedade tem a oportunidade de valorizar ciência, evidências e solidariedade como ferramentas essenciais para enfrentar futuras ameaças.
Muitos familiares e amigos das vítimas pediram que as memórias sejam preservadas com respeito. O objetivo não é ridicularizar, mas aprender com o passado para proteger o futuro. A covid-19 mudou o mundo e deixou lições duras sobre humildade diante da natureza e da ciência.