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A Menina de 8 Anos que Enganou um Ass@ssin0 em Série e Salvou a Própria Vida

Em maio de 2005, a pequena cidade de Coeur d’Alene, no estado de Idaho, nos Estados Unidos, viveu um dos casos mais chocantes da história criminal americana. Uma família inteira foi dizimada de forma brutal por um homem com histórico violento que, ao longo de décadas, deixou um rastro de terror. No centro dessa tragédia estava Shasta Groene, uma menina de apenas 8 anos que se tornou uma das raras sobreviventes de um assassino em série e, mais do que isso, a pessoa responsável por sua captura. Sua história é um exemplo extremo de resiliência infantil, inteligência emocional e instinto de sobrevivência diante do pior cenário possível.

Joseph Edward Duncan III nasceu em 25 de fevereiro de 1963, na Carolina do Norte. O quarto de cinco irmãos, ele sempre foi descrito como uma criança problemática, com comportamentos antissociais que iam além do normal. Aos 15 anos, em 1978, cometeu seu primeiro crime registrado: ameaçou um menino de 9 anos com uma arma e abusou dele sexualmente. Apesar de ser menor de idade, foi condenado, mas liberado poucos meses depois. No ano seguinte, foi preso novamente por dirigir um carro roubado. Seus pais se divorciaram durante esse período, e o lar familiar desmoronou completamente.

Com 17 anos, Joseph foi julgado por abusos sexuais contra menores e condenado a 20 anos de prisão. Cumpriu 14 anos e foi solto condicionalmente em 1994, aos 31 anos. A partir desse momento, sua trajetória criminosa se agravou dramaticamente. Embora tivesse passado grande parte da vida adulta atrás das grades, ele não se reintegrou à sociedade. Pelo contrário, voltou a cometer crimes graves, incluindo abusos e, posteriormente, assassinatos.

A família Groene vivia uma vida simples em uma casa rural afastada do centro de Coeur d’Alene, uma cidade de cerca de 35 mil habitantes. Brenda Groene, de 40 anos, morava com o companheiro Mark McKenzie, de 37, e os três filhos mais novos: Slade, de 13 anos, Dylan, de 9, e Shasta, de 8 anos. Mark não era o pai biológico, mas cuidava das crianças com dedicação. Brenda havia se separado de Steve Groene, pai biológico das crianças, e os dois filhos mais velhos moravam com ele.

No dia 15 de maio de 2005, um domingo, a família participou de um churrasco na casa de amigos e viveu um dia aparentemente normal e feliz. Porém, na madrugada do dia 16, tudo mudou para sempre. Shasta e Dylan foram acordados pela mãe, que disse haver um homem estranho dentro de casa. Quando as crianças chegaram à sala, viram Joseph Duncan armado com um martelo e uma espingarda. Ele amarrou Brenda, Mark e Slade. Shasta e Dylan foram amarrados apenas nas mãos e colocados dentro de um carro nos fundos da propriedade.

Do veículo, as crianças ouviram os gritos desesperadores da mãe e do padrasto sendo mortos a marteladas. Slade ainda tentou fugir pulando com os pés amarrados, mas foi alcançado, golpeado na cabeça e arrastado de volta para dentro de casa. Joseph assassinou brutalmente os três adultos e o adolescente. Em seguida, fugiu com Shasta e Dylan para o estado vizinho de Montana, onde se escondeu em uma cabana abandonada no meio da floresta, a cerca de 250 km de distância.

Os dias seguintes foram um verdadeiro inferno para as crianças. Alimentação precária, pouca água, ausência de higiene e abusos constantes. Joseph mantinha as crianças amarradas quando precisava sair. Em um dia terrível, ele chamou Dylan para fora da cabana. Shasta ouviu um tiro e, ao olhar pela janela, viu o irmão ferido. Joseph atirou novamente na cabeça do menino de 9 anos. Depois, disse à menina que havia sido um “acidente” e que o segundo tiro foi um ato de “misericórdia”.

A partir desse momento, Shasta, completamente sozinha, começou a usar uma estratégia de sobrevivência impressionante para uma criança de 8 anos. Ela passou a concordar com tudo o que Joseph dizia, chamava-o de “pai” ou “Jet”, afirmava que não queria voltar para casa porque não tinha mais família e que agora ele era sua nova família. Aos poucos, ganhou a confiança do sequestrador.

Enquanto isso, a polícia investigava o triplo homicídio (na época ainda não se sabia dos outros assassinatos). Cartazes com fotos de Shasta e Dylan foram espalhados por toda a região. A comunidade se mobilizou, mas as pistas eram poucas.

A reviravolta aconteceu no dia 2 de julho de 2005. Joseph decidiu levar Shasta para “conhecer a avó”. Durante a viagem, pararam em um posto de gasolina e depois em uma lanchonete Denny’s. Dois homens que estavam do lado de fora reconheceram a menina de um outdoor com fotos dos desaparecidos. Eles alertaram a gerente, que chamou a polícia. Shasta foi resgatada.

No hospital, a menina contou em detalhes todo o horror que viveu. Levou os investigadores até a cabana e indicou onde o corpo de Dylan havia sido enterrado. Joseph Edward Duncan III foi preso aos 42 anos. Seu histórico veio à tona rapidamente: ele era um criminoso sexual reincidente com condenações desde a adolescência.

Após a prisão, Duncan confessou outros crimes que estavam sem solução. Em 1996, assassinou as irmãs Sammiejo White (11 anos) e Carmen Cubias (9 anos) em Seattle. Em 1997, raptou e matou Anthony Martinez, de 10 anos, na Califórnia. A confissão permitiu encerrar esses casos.

Em 2008, Joseph Duncan foi condenado à pena de morte. Porém, nunca foi executado. Em setembro de 2020, foi diagnosticado com um tumor cerebral agressivo. Recusou tratamento e faleceu em 28 de março de 2021, aos 58 anos, vítima da doença.

Shasta Groene sobreviveu, mas carregou para sempre as marcas do trauma. Morou com o pai biológico Steve e enfrentou uma adolescência difícil, com rebeldia, álcool e drogas. Depois de anos de terapia e luta contra o vício, conseguiu se reerguer. Hoje é casada, tem quatro filhos e trabalha em um hotel, vivendo uma vida discreta longe da exposição pública.

A história de Shasta Groene é estudada até hoje por especialistas em psicologia criminal e sobrevivência. Com apenas 8 anos, ela demonstrou uma capacidade impressionante de ler o agressor, adaptar-se emocionalmente e usar a empatia como arma para ganhar tempo e confiança. Seu caso é um dos mais marcantes exemplos de resiliência humana diante do mal absoluto.

A tragédia da família Groene também serviu para debates sobre o sistema de liberdade condicional para criminosos sexuais violentos nos Estados Unidos. Joseph Duncan havia sido solto apesar de seu histórico extenso, o que levantou questões sobre falhas no monitoramento de reincidentes.

Anos depois, a coragem de Shasta continua inspirando sobreviventes de traumas extremos ao redor do mundo. Ela provou que mesmo nas circunstâncias mais sombrias, a mente humana pode encontrar caminhos para resistir e sobreviver.