Em 16 de novembro de 2018, uma sexta-feira de céu limpo no interior do Mato Grosso do Sul, Oswaldo Mendes Teixeira colocou duas mochilas no porta-malas de uma Parati branca. Modelo 2004. Conferiu a pressão dos pneus com um calibrador próprio e saiu de Dourados pela MS-384 com a filha Beatriz no banco do passageiro. Iam para a Serra da Bodoquena. Voltariam no domingo à noite. A esposa ficou em casa. O frango com quiabo ficou planejado para o jantar de chegada.
O domingo passou, a segunda-feira passou, ninguém voltou. Esta é a história de um pai de 52 anos e de uma filha de 17 que entraram numa serra de calcário e mata fechada para acampar durante um feriado prolongado e que nunca mais foram vistos. Durante quatro anos e quatro meses, a família esperou. A polícia buscou, o corpo de bombeiros rastreou, os cães farejaram e nada, nenhum corpo, nenhum sinal, nenhuma pista que levasse a lugar algum.
Até que um caçador tropeçou num objeto enterrado entre as raízes de uma figueira brava a sete quilômetros do ponto onde o carro tinha sido encontrado. O que havia dentro daquele objeto mudou tudo o que se sabia sobre o caso e abriu perguntas que, até hoje, não têm resposta.
A Serra da Bodoquena ocupa uma faixa extensa do sudoeste do Mato Grosso do Sul. É uma região de relevo cárstico, o que significa que o solo é feito de rocha calcária antiga, dissolvida ao longo de milhões de anos pela água, formando um labirinto subterrâneo de grutas, dolinas e rios que correm por dentro da pedra. Na superfície, a mata é densa, mistura de cerrado com trechos de mata atlântica, árvores altas que fecham a copa e impedem a luz de chegar ao chão em vários pontos.
É um lugar bonito, visitado por turistas que vão a Bonito e à região. Mas a serra tem outro lado. Tem caminhos sem sinalização, entradas de cavernas sem registro, trechos onde o celular perde o sinal em questão de passos. Quem sai da trilha principal e entra nessas áreas sem referência pode caminhar horas sem encontrar ninguém.
Oswaldo conhecia aquele tipo de terreno. Não era alpinista nem aventureiro de fim de semana. Era um homem do interior do Mato Grosso do Sul, criado perto da mata, acostumado com estrada de chão e com bicho no caminho. Levava a filha para acampar desde que ela tinha nove anos. Sempre voltou, sempre avisou, sempre cumpriu o combinado.
Se esta é a primeira vez que você chega aqui, vale dizer que este canal conta histórias reais de pessoas que desapareceram no Brasil e que, na maioria das vezes, deixaram mais perguntas do que respostas. Se quiser acompanhar, a inscrição e o sininho ajudam a não perder os próximos casos.
O que se sabe é que Oswaldo e Beatriz chegaram à serra naquela sexta-feira. O que não se sabe é o que aconteceu depois que o carro foi estacionado. E o que se descobriu quatro anos depois, enterrado no mato, levantou hipóteses que a própria polícia admitiu não saber como encaixar.
Resta entender o que faz um pai experiente desviar-se de um caminho que ele mesmo traçou num mapa. O que leva uma adolescente a escrever 23 páginas num caderno no meio de uma mata onde ninguém podia ler? E por que o conteúdo dessas páginas incomodou tanto a perícia, a ponto de o laudo recomendar que parte do material fosse analisado por um psicólogo forense?
Para começar a responder, é preciso voltar a Dourados, ao bairro Jardim Água Boa, à casa simples de muro baixo e varanda com cadeira de balanço onde Oswaldo Mendes Teixeira vivia com a família desde 2003 e trabalhava como técnico em refrigeração em Dourados, Mato Grosso do Sul.
Era um homem metódico, daqueles que anotavam a quilometragem no caderninho do porta-luvas e trocavam o óleo do carro sempre no dia certo. Quando decidiu levar a filha Beatriz para acampar na Serra da Bodoquena, naquele feriado prolongado de novembro de 2018, fez o que sempre fazia. Pesquisou a região, avisou a esposa, conferiu os pneus e preparou um roteiro de três dias com pontos de parada marcados num mapa impresso, porque não confiava em GPS dentro da serra.
A ideia da viagem nasceu numa conversa no jantar, umas duas semanas antes. Beatriz tinha terminado as provas do bimestre e estava cansada, não do tipo cansada de adolescente que reclama, mas do tipo que para de falar nos almoços, que fica olhando para a parede com o garfo no ar, que sai do banho com os olhos vermelhos sem explicar porquê. Ivone, a mãe, notou. Oswaldo também. E como Oswaldo não era homem de perguntar demais, fez o que sabia fazer. Propôs uma saída.
“Beatriz, você quer ir comigo para Bodoquena no feriadão?”
A pergunta foi simples. A resposta foi um aceno de cabeça e um meio sorriso que Ivone descreveria depois como o primeiro sinal de vida da filha em semanas. Oswaldo começou a planejar no dia seguinte. Ele já conhecia a região de Bonito por causa de uma viagem que tinha feito com a esposa em 2011, quando Beatriz era criança e ficou com a avó. Naquela ocasião, tinham visitado a Gruta do Lago Azul e feito um passeio de flutuação no Rio Sucuri.
Mas Oswaldo voltou de lá com uma vontade diferente. Queria conhecer os trechos menos turísticos da serra, as partes onde o cerrado engrossava e onde as grutas não tinham nome na placa. Leu sobre a região. Comprou um guia de campo sobre a fauna e a flora do Mato Grosso do Sul, que ficou na estante durante anos, cheio de marcações com caneta vermelha. Aquele guia foi encontrado depois no banco de trás da Parati.
Nos dias antes da viagem, Oswaldo verificou cada item. Barraca de camping para duas pessoas. Modelo antigo, mas bem conservado. Fogareiro a gás com refil novo. Corda de 10 metros. Lanterna de mão e lanterna de cabeça. Cantil de alumínio. 2 litros de água mineral, além dos cantis. Comida enlatada para três dias, repelente, protetor solar, um facão que era do pai dele com o cabo de madeira escurecido pelo uso e o mapa, sempre o mapa.
Oswaldo não usava aplicativos de trilha, não baixava rotas no celular. Dizia que “mapa se lê com os olhos e com o dedo, e que tela de celular apaga quando a bateria acaba.” Era um pensamento prático, não uma teimosia. Era a lógica de um homem que consertava geladeiras e ar-condicionado desde os 20 anos, e que aprendeu que o que funciona sem energia elétrica funciona sempre.
No mapa que foi encontrado aberto sobre o banco do carona, havia três pontos circulados à caneta. O primeiro era a entrada oficial do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, na porção sul. O segundo era um mirante natural com acesso por uma trilha secundária que aparecia em alguns blogs de caminhada. O terceiro era uma gruta identificada apenas como “Gruta do Sapo”, sem coordenadas oficiais, sem placa, sem menção em guias turísticos. Oswaldo tinha anotado ao lado, em letra miúda, a frase: “Entrada pela Figueira Grande, lado esquerdo do córrego.”
Ninguém sabe onde ele conseguiu essa informação. Ivone disse que nunca ouviu o marido mencionar esse nome. Os amigos de Oswaldo, dois colegas de trabalho com quem ele costumava pescar nos fins de semana, disseram o mesmo. A referência não aparecia em nenhum dos sites que a polícia verificou no histórico do computador da família. Era como se Oswaldo tivesse recebido a indicação de alguém que conhecia a serra por dentro, alguém que sabia de coisas que não estavam nos mapas.
A investigação tentou rastrear essa fonte nos meses seguintes. A delegada pediu os registros telefônicos de Oswaldo das semanas anteriores à viagem. Havia chamadas para clientes de refrigeração, para a esposa, para o irmão Gilmar, para o filho Renato em Campo Grande. Nenhum número desconhecido. Nenhuma ligação que não fosse explicável pela rotina de um técnico que atendia residências e pequenos comércios na cidade. Se alguém falou para Oswaldo sobre a Gruta do Sapo, falou pessoalmente, numa conversa de balcão, num encontro casual, numa prosa de fim de tarde que não deixou registro em lugar nenhum.
Oswaldo era frequentador de dois bares em Dourados. Um deles ficava no centro, perto da loja de refrigeração onde comprava peças; o outro era no bairro, onde tomava uma cerveja às sextas-feiras depois do último serviço da semana. Os donos dos dois estabelecimentos foram ouvidos informalmente pela polícia. Nenhum se lembrava de ter visto Oswaldo conversando com alguém fora do círculo habitual. Nenhum se lembrava de ter ouvido menção a grutas, serras ou expedições. A origem da informação sobre a Gruta do Sapo morreu com Oswaldo ou ficou presa em algum lugar que a investigação não alcançou.
Na manhã de sexta-feira, 16 de novembro, Oswaldo acordou às cinco horas, tomou café preto com pão de fôrma, conferiu a Parati pela última vez e chamou Beatriz. Ela desceu com a mochila já pronta, uma mochila de lona azul marinho que usava desde o oitavo ano, com o nome escrito numa etiqueta interna em letra cursiva. Ivone acompanhou os dois até o portão, abraçou a filha, beijou o marido.
“Cuida dela,” disse Ivone.
Oswaldo respondeu com a mesma frase que usava sempre: “A gente volta antes de escurecer no domingo.”
A Parati saiu da garagem às 5h40 da manhã. Ivone ficou no portão até o carro dobrar a esquina. Depois entrou, lavou a xícara de café do marido e guardou no armário. Foi a última vez que viu os dois.
Beatriz Mendes Teixeira tinha 17 anos e cursava o segundo ano do ensino médio numa escola estadual de Dourados. Era uma adolescente reservada, de poucas amigas, que passava os fins de semana assistindo a documentários de natureza no computador do quarto. A mãe, Ivone, contaria depois que Beatriz tinha uma ligação com o pai que não cabia em palavras simples. Era uma relação de silêncios compartilhados, de pescarias sem conversa e de caminhadas onde nenhum dos dois sentia necessidade de preencher o ar com frases.
Na escola, Beatriz não era o tipo de aluna que chamava atenção. Não tirava as melhores notas nem as piores. Sentava no meio da sala, perto da janela. Fazia os trabalhos dentro do prazo. Não levantava a mão para responder perguntas. Mas quando a professora pedia redação, entregava textos que surpreendiam. Longos, detalhados, com uma maturidade que não combinava com a idade.
Uma professora de língua portuguesa, ouvida pela polícia semanas depois do desaparecimento, disse que Beatriz escrevia como quem observa o mundo de uma distância segura. Como quem já entendeu que certas coisas não se resolvem falando.
Beatriz tinha duas amigas próximas. Uma delas, Camila, morava na mesma rua e estudava na mesma turma. A outra, Larissa, era de outra escola, conhecida por causa de um curso de desenho que as duas frequentaram no contraturno durante o nono ano. Camila disse aos investigadores que Beatriz andava diferente nas últimas semanas antes da viagem. Não diferente de um jeito assustador, diferente de um jeito quieto, mais quieta do que o normal. O que já era dizer bastante. Parou de responder mensagens no grupo do WhatsApp, parou de curtir fotos no Instagram. Na última vez que as duas se viram, numa quarta-feira à tarde, Beatriz disse uma frase que Camila guardou sem entender na hora: “Eu preciso sair daqui uns dias, ver coisa que não tem parede no meio.”
Camila achou que era modo de falar. Coisa de adolescente entediada. Não era. Beatriz vivia uma fase que a família percebia, mas não nomeava. Ivone usou a palavra “fechada” quando falou com a delegada. O irmão mais velho, Renato, de 24 anos, que morava em Campo Grande e trabalhava como auxiliar administrativo numa concessionária, usou outra palavra: “sufocada”.
Disse que a irmã ligava para ele de vez em quando à noite e que, nas últimas ligações, não queria conversar sobre escola nem sobre amigos. Queria saber se ele era feliz morando sozinho, se sentia falta de casa, se achava que dava para viver de outro jeito. Renato disse que respondeu como podia, sem entender bem o que ela estava perguntando de verdade. Ninguém na família suspeitava de nada grave. Não havia sinais de abuso, de conflito sério, de envolvimento com drogas ou com pessoas perigosas. Beatriz era uma adolescente do interior do Mato Grosso do Sul, que estava crescendo rápido demais por dentro e devagar demais por fora, e que encontrava no pai a única companhia que não exigia explicação.
Oswaldo entendia isso sem precisar que alguém explicasse. Não era um homem de muitas palavras, mas era presente de um jeito concreto. O tipo de pai que conserta a bicicleta sem que a filha peça, que deixa um chocolate no travesseiro quando percebe que ela chorou, que propõe uma viagem quando sente que o ar da casa está pesado demais. A viagem para a Serra da Bodoquena era, para Beatriz, mais do que um acampamento. Era uma pausa, um respiro, um lugar onde o silêncio entre ela e o pai não precisava competir com o barulho do mundo.
Beatriz levou na mochila azul marinho um caderno de capa dura que tinha ganhado da avó materna no Natal anterior. Era um caderno liso, sem pautas, com capa preta e um elástico de fechamento. A avó deu dizendo que era para ela escrever o que quisesse. Pensamento, desenho, poema, besteira, qualquer coisa. Beatriz usou pouco até aquele novembro. Havia duas páginas com rabiscos de árvores e uma com uma lista de filmes que queria assistir. O restante estava em branco. Até a viagem.
Na mochila também havia o cantil de alumínio que era do pai. Um cantil antigo, amassado de um lado, com a tampa presa por uma corrente curta. Oswaldo deu para ela quando Beatriz tinha 13 anos, numa pescaria no Rio Dourados, e disse que “cantil bom é o que tem marca de uso.” Beatriz nunca mais saiu para o mato sem ele.
Quando a Parati saiu de Dourados naquela sexta-feira de manhã, Beatriz levava o caderno, o cantil, uma lanterna de mão, roupas para três dias e uma câmera digital compacta emprestada do irmão, que Renato tinha deixado na casa dos pais numa visita anterior. A câmera tinha um cartão de memória de 2 gigas. Nunca foi encontrada.
O que Beatriz pensava enquanto o carro cruzava a MS-384 em direção ao oeste, com o sol ainda baixo e os campos de soja se abrindo dos dois lados da pista, ninguém sabe. O que se sabe é que ela escolheu ir. E que, entre todas as pessoas do mundo, escolheu ir com o pai. Essa escolha, quatro anos depois, seria a coisa que mais doía em Ivone. Não porque culpasse a filha, mas porque entendia que aquela viagem era um gesto de confiança e que a confiança tinha levado Beatriz para um lugar de onde ela não voltou.
A Serra da Bodoquena é um lugar onde as referências desaparecem sem aviso. A vegetação muda de cerrado para mata atlântica em poucos quilômetros. E há trechos onde as árvores cobrem o céu com tanta densidade que a luz do meio-dia parece o entardecer. Quem entra nos caminhos secundários sem referência fixa pode andar em círculos sem perceber, porque a paisagem se repete com uma uniformidade que engana até quem conhece o lugar.
O Parque Nacional da Serra da Bodoquena foi criado em 2000. Abrange mais de 76 mil hectares, espalhados por quatro municípios: Bonito, Bodoquena, Jardim e Porto Murtinho. A parte visitada pelos turistas é uma fração pequena desse território. São as trilhas sinalizadas, os rios de águas transparentes, as grutas com iluminação artificial e guia credenciado. É o cartão postal. Mas a serra não é só cartão postal.
Existem mais de 200 cavernas catalogadas na região. E existem dezenas, talvez centenas, que nunca foram catalogadas. Formações que aparecem escondidas atrás de paredões de rocha, cobertos por samambaias. Fendas estreitas que só se percebem quando se está a menos de dois metros de distância, aberturas no chão que levam a galerias subterrâneas onde a escuridão é absoluta e o eco devolve a voz com um atraso que desorientou mais de um espeleólogo experiente.
O solo cárstico da Bodoquena tem uma característica que importa para esta história. Ele é poroso. A água da chuva infiltra com facilidade, dissolve a rocha por dentro e cria vazios. Esses vazios, ao longo de milhares de anos, formam câmaras, corredores e poços naturais. Alguns são estáveis, outros não. Há registros de desabamentos internos em grutas da região, bloqueando passagens que antes eram transitáveis. O terreno literalmente muda.
Para quem caminha na superfície, o risco mais imediato não são as grutas, é a desorientação. A mata da Bodoquena, nos trechos menos frequentados, forma um dossel tão fechado que é impossível usar o sol como referência em boa parte do dia. O chão é irregular, coberto de folhas secas, raízes expostas e pedras soltas. Os córregos que poderiam servir de referência mudam de curso com as chuvas e, em alguns trechos, simplesmente somem, mergulham para dentro da rocha e reaparecem centenas de metros adiante, em outro nível.
Em 2018, o parque não tinha cobertura de telefonia em grande parte de sua extensão. Havia sinal fraco em alguns pontos elevados da borda leste, perto das torres de Bonito. Mas dentro da mata, o celular virava um peso morto no bolso. Não havia câmeras de monitoramento nas trilhas secundárias. O controle de entrada de visitantes era feito na sede administrativa. Mas os acessos laterais, estradas de terra que cortavam fazendas e assentamentos, não tinham nenhum tipo de registro. Era possível entrar na serra por caminhos não oficiais sem que ninguém soubesse.
Oswaldo entrou por um desses caminhos. A estrada de terra onde a Parati foi encontrada não era uma entrada do parque. Era um acesso usado por fazendeiros da região para chegar a pastagens no sopé da serra. Não tinha cancela, não tinha placa, não tinha fiscal. Terminava num alargamento de terra batida, onde cabiam três ou quatro veículos, cercado por vegetação alta. Dali, seguindo a pé por uns 400 metros em direção noroeste, chegava-se a uma picada antiga, provavelmente aberta por caçadores ou por palmiteiros que atuaram na região nos anos 90, que levava para dentro da mata.
Era nessa picada que os dois primeiros pontos do mapa de Oswaldo se conectavam. O primeiro ponto era o próprio estacionamento improvisado. O segundo era o mirante, um afloramento rochoso a cerca de dois quilômetros serra acima, de onde, segundo relatos em blogs de caminhada, era possível ver o vale do Rio Salobra num ângulo que as trilhas oficiais não ofereciam. O terceiro ponto, a Gruta do Sapo, ficava mais adiante, num trecho que os blogs não mencionavam e que os mapas oficiais não registravam.
Oswaldo tinha marcado esse terceiro ponto com um círculo duplo, como se fosse o mais importante dos três. Como se fosse o verdadeiro destino. Ninguém, até hoje, conseguiu determinar quem falou para Oswaldo sobre essa gruta. O nome não aparece em publicações espeleológicas. Não consta em cadastros do CECAV, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas. Uma busca nos fóruns e grupos de trilheiros do Mato Grosso do Sul não encontrou menção alguma ao termo “Gruta do Sapo” na Serra da Bodoquena. O lugar existia, ou pelo menos alguém convenceu Oswaldo de que existia. E ele foi atrás.
Quando os bombeiros refizeram o provável trajeto de Oswaldo, seguindo a picada e os dois primeiros pontos do mapa, encontraram sinais de passagem recente nos primeiros quilômetros. Galhos quebrados na altura da cintura, marcas de bota no barro seco, um pedaço de fita adesiva prata preso num tronco — o tipo de fita que Oswaldo usava no trabalho e que Ivone confirmou que ele levava no bolso lateral da mochila para improvisar reparos. Esses sinais iam até o mirante. Depois do mirante, desapareciam. Como se, a partir daquele ponto, a serra tivesse engolido os dois sem deixar marca.
Ivone Aparecida de Souza Teixeira ficou esperando o marido e a filha voltarem no domingo, 18 de novembro de 2018. Tinha preparado frango com quiabo, porque era o prato que Beatriz mais gostava, e porque sabia que os dois chegariam com fome de estrada. Às seis da tarde, o sol já tinha ido embora e a panela continuava no fogão tampada. Às oito, ligou para o celular de Oswaldo. Caixa postal. Ligou para o de Beatriz. Caixa postal. Ligou de novo às nove. De novo às dez. Às onze e meia, ligou para o cunhado e disse uma frase que ele repetiria depois para os policiais: “O Oswaldo nunca atrasa. Nunca.”
O cunhado era Gilmar, irmão mais novo de Oswaldo, que morava num sítio na saída de Dourados em direção a Itaporã. Gilmar conhecia o irmão tão bem quanto Ivone. Sabia que Oswaldo era o tipo de sujeito que, se dissesse que voltava antes de escurecer, voltava antes de escurecer. Se tivesse tido um problema no carro, teria dado um jeito de avisar. Se tivesse mudado o plano, teria ligado. Oswaldo não era de improvisar sem comunicar.
Gilmar disse a Ivone que esperasse até a manhã de segunda. Que podia ter acontecido alguma coisa simples: pneu furado num trecho sem sinal, motor que deu defeito, uma chuva forte que fechou a estrada de terra. Disse que, na segunda cedo, iria até a serra pessoalmente, se fosse preciso. Ivone concordou. Desligou o telefone e sentou na cadeira de balanço da varanda. Não dormiu.
Na segunda-feira, 19 de novembro, Ivone ligou novamente para os dois celulares às seis da manhã. Caixa postal. Às sete, ligou para Gilmar. Em casa, estava em casa. Deu o nome completo do marido e da filha, a direção aproximada que tinham tomado. O policial que atendeu disse que ia registrar a ocorrência e que mandaria uma viatura verificar as proximidades do parque. Esse registro foi feito. Mas a verificação só aconteceu no dia seguinte.
O Brasil de 2018 não tinha um sistema integrado de busca que conectasse informações entre municípios em tempo real. Não havia como rastrear um celular desligado. Não havia como saber se uma pessoa tinha entrado ou saído do parque, porque os acessos laterais não eram monitorados. O desaparecimento de duas pessoas numa região de mata, sem testemunhas e sem sinal de violência aparente, entrava na fila como qualquer outra ocorrência. E a fila era longa.
Ivone não sabia disso. Ivone achava que, quando se liga para a polícia e se diz que um pai e uma filha não voltaram da serra, alguém sai imediatamente para procurar. Não era assim que funcionava. E o tempo que se perdeu entre o primeiro telefonema e a primeira busca efetiva, quase 48 horas, seria depois apontado pela própria família como um fator que pode ter feito diferença.
Na segunda-feira à noite, sem notícias, Ivone ligou para o filho Renato em Campo Grande. A ligação durou 40 minutos. Ivone chorou durante 39. Renato pegou o carro na manhã de terça e dirigiu até Dourados. Quando chegou, a mãe estava na varanda, com o celular no colo, olhando para a rua. Renato faria depois uma descrição daquele momento que ficou registrada nos autos do inquérito. Ele disse que a mãe parecia ter envelhecido dez anos em dois dias. Não por causa das olheiras ou da roupa amassada, mas por causa dos olhos. Disse que os olhos da mãe tinham uma expressão que ele nunca tinha visto. Não era desespero, não era pânico. Era a expressão de alguém que já sabe, mas ainda não aceita.
Na terça-feira, 20 de novembro, Gilmar saiu de Dourados de madrugada em direção à Serra da Bodoquena. Levou um vizinho que conhecia a região. Os dois percorreram as estradas de acesso ao parque durante a manhã toda, parando em fazendas, perguntando a moradores se alguém tinha visto uma Parati branca. Ninguém tinha visto.
Foi a polícia militar que encontrou o carro por volta de uma e meia da tarde. Uma viatura que fazia ronda na zona rural localizou a Parati numa entrada de trilha secundária, trancada, sem sinais de arrombamento ou violência. O rádio comunicou à delegacia. A delegacia comunicou Gilmar, que estava a 40 minutos dali. Gilmar comunicou Ivone.
Quando Ivone recebeu a ligação dizendo que o carro tinha sido encontrado, mas que Oswaldo e Beatriz não estavam nele nem nos arredores, fez uma coisa que Renato descreveria depois como o momento em que a chave virou. Ivone desligou o telefone, foi até a cozinha, tirou a panela de frango com quiabo do fogão, onde ainda estava intocada desde o domingo, e jogou tudo no lixo. Depois lavou a panela, secou e guardou no armário. Nunca mais fez frango com quiabo.
Na terça-feira, 20 de novembro, dois dias depois do prazo de retorno, a viatura da polícia militar localizou a Parati branca de Oswaldo estacionada numa entrada de trilha secundária, a 12 quilômetros da sede do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. O carro estava trancado. Dentro, duas garrafas de água vazias, um saco de dormir enrolado e o mapa impresso de Oswaldo aberto sobre o banco do carona, com três pontos circulados à caneta. O último deles era a Gruta do Sapo, sem sinalização oficial, sem trilha demarcada e sem registro nos guias turísticos da região.
A perícia da Polícia Civil chegou ao local na quarta-feira de manhã. Dois peritos de Bonito, acompanhados de um investigador e de um policial militar que conhecia a área. Abriram o carro com a chave reserva que Ivone providenciou. Não havia sinais de luta, de sangue, de arrombamento. Tudo dentro do veículo estava organizado do jeito que se espera de alguém que para o carro, tranca e segue a pé, exceto por um detalhe: o saco de dormir estava no banco de trás, enrolado e amarrado com uma corda.
Oswaldo tinha levado dois sacos de dormir, um para ele, outro para Beatriz. Só havia um no carro. O outro, presumivelmente, estava com eles. Isso significava que ou planejavam pernoitar na mata ou já tinham pernoitado e voltado ao carro pelo menos uma vez antes de sair novamente. A perícia não conseguiu determinar qual das duas hipóteses era a correta. No porta-malas, além das mochilas que já tinham sido retiradas, havia um par de chinelos de dedo, um galão de água de 5 litros pela metade e uma caixa de ferramentas. Nada faltava. Nada estava fora do lugar.
O carro de Oswaldo contava a história de um homem que estacionou com calma e saiu com um plano. O problema era que o plano levava para um lugar que ninguém conhecia.
A delegacia de Bonito abriu inquérito na quinta-feira, 22 de novembro. O boletim de ocorrência, registrado inicialmente como desaparecimento, foi classificado como “desaparecimento de pessoa em área de risco ambiental”, uma categoria que acionava automaticamente o Corpo de Bombeiros. A delegada responsável, lotada na Regional de Bonito, solicitou apoio ao Corpo de Bombeiros Militar do Mato Grosso do Sul e ao ICMBio, órgão gestor do Parque Nacional.
Enquanto o processo burocrático seguia seu curso, Gilmar fez o que qualquer irmão faria. Entrou na mata. Na quarta-feira à tarde, sem esperar autorização, sem equipe de resgate e sem equipamento adequado, Gilmar pegou uma lanterna, uma garrafa de água e um facão, e seguiu pela picada que saía do estacionamento improvisado. Andou dois quilômetros. Gritou o nome do irmão até ficar rouco. Não ouviu resposta. Não encontrou rastro.
A vegetação fechava dos dois lados e ele percebeu, quando o sol começou a cair, que não conseguia mais identificar por onde tinha entrado. Voltou seguindo o som de um córrego que o levou, por sorte, a uma clareira próxima da estrada de terra. Chegou ao carro com as mãos cortadas por cipós e com a certeza de que aquela busca precisava de gente preparada.
A informação sobre o mapa de Oswaldo, em especial o terceiro ponto, a Gruta do Sapo, foi repassada ao Corpo de Bombeiros antes da primeira operação de busca. Os bombeiros consultaram o ICMBio, que por sua vez consultou o CECAV. Nenhuma das três instituições tinha registro de uma caverna com esse nome na Serra da Bodoquena. Havia grutas conhecidas na região: a Gruta do Mimoso, a Gruta do Rio Salobra, a Gruta das Fadas. Mas nenhuma chamada Gruta do Sapo.
A anotação de Oswaldo, “entrada pela Figueira Grande, lado esquerdo do córrego”, era ao mesmo tempo precisa demais para ser inventada e vaga demais para ser localizada. Havia dezenas de figueiras bravas na serra. Havia dezenas de córregos. A combinação podia se aplicar a qualquer número de pontos. Os bombeiros decidiram trabalhar com o que tinham.
Partiram do estacionamento, refizeram o trajeto provável de Oswaldo até o mirante, onde os sinais de passagem foram confirmados, e expandiram a busca a partir dali, em leque, cobrindo setores de mata densa com cães farejadores e sobrevoos de drone nos trechos onde a copa permitia visão aérea.
Nos dois primeiros dias de busca organizada, quinta e sexta-feira, os cães reagiram duas vezes. A primeira reação aconteceu num trecho de mata a 800 metros a noroeste do mirante. O cão indicou o chão, foi liberado e seguiu por 30 metros antes de parar, confuso, girando em torno de si mesmo. O condutor interpretou como perda de rastro, possível em terreno cárstico, onde cheiros se dispersam por fendas e por corredores de ar subterrâneo.
A segunda reação foi mais significativa. O outro cão travou diante de uma formação rochosa parcialmente coberta por vegetação, a aproximadamente 1,5 km a noroeste do mirante. A formação tinha uma abertura estreita na base, estreita o suficiente para uma pessoa passar de lado, mas não de frente. O cão latiu três vezes e recuou, o que o condutor descreveu como comportamento atípico. Normalmente, quando o cão encontra rastro forte, avança. Esse cão recuou.
Um dos bombeiros entrou pela abertura com lanterna e corda de segurança. Avançou seis metros por um corredor baixo de rocha úmida. O corredor se estreitava progressivamente e terminava num desabamento, blocos de calcário empilhados que impediam a passagem. Não havia como seguir adiante. Não havia sinais de presença humana recente.
Mas, quando o bombeiro saiu e relatou o que tinha visto, mencionou algo que não entrou no relatório oficial da busca, mas que seria repetido depois em conversas informais entre a equipe. Disse que, atrás dos blocos de rocha, sentiu uma corrente de ar. Não era o ar parado de uma caverna sem saída. Era ar que vinha de algum lugar. Ar que se movia. Isso significava que, atrás do desabamento, havia espaço. Talvez outro corredor. Talvez uma câmara. Talvez uma saída. Mas sem equipamento de desobstrução e sem mapeamento espeleológico, não havia como verificar.
A busca continuou por mais quatro dias. Cobriram um raio de cinco quilômetros ao redor do carro e depois expandiram para sete. O helicóptero da polícia militar sobrevoou a área duas vezes. Equipes de terra varreram trilhas, leitos de córrego, bordas de dolinas. Não encontraram nada. Em 28 de novembro de 2018, 12 dias após o desaparecimento, a operação de busca foi oficialmente encerrada por falta de novos indícios.
O relatório final registrou: “Nenhum vestígio localizado além do veículo e das marcas de passagem nos primeiros dois quilômetros de trilha. Paradeiro das vítimas: desconhecido.”
O Corpo de Bombeiros de Bonito montou a primeira equipe de busca na quarta-feira, dia 21. Eram sete homens, dois cães farejadores e um drone com autonomia de 40 minutos. A área de busca inicial cobria um raio de 5 quilômetros ao redor do carro. Nos dois primeiros dias, os cães reagiram duas vezes, mas o que aconteceu entre o encerramento oficial da busca e os meses que se seguiram revelou mais sobre os limites do sistema do que sobre o paradeiro de Oswaldo e Beatriz.
Quando uma operação de busca é encerrada no Brasil, o caso não desaparece. Ele muda de mãos, sai do campo e vai para a mesa da delegacia. O inquérito permanece aberto, mas sem a pressão da urgência operacional. As equipes de resgate voltam para suas bases. Os cães voltam para seus canis. O drone volta para o depósito. O que resta é papel, telefone e a esperança de que alguém apareça, vivo, com informação ou de qualquer outro jeito.
A delegada que conduzia o caso em Bonito era uma mulher de 40 e poucos anos, transferida de Corumbá dois anos antes, acostumada com casos difíceis em áreas rurais. Conhecia as limitações da estrutura. Sabia que desaparecimentos em área de mata, sem testemunhas e sem indícios de crime, costumavam ficar sem solução durante anos, às vezes para sempre. Não disse isso para Ivone, mas pensou.
O inquérito seguiu as linhas possíveis. A primeira hipótese era acidente: queda em gruta, queda de barranco, ataque de animal, afogamento em rio ou em poço natural. A Serra da Bodoquena tinha todas essas possibilidades. A segunda hipótese era crime: assalto, sequestro, encontro com caçadores ilegais ou com pessoas envolvidas em atividades ilícitas na região. Não havia nada que sustentasse essa linha, mas ela existia como possibilidade formal. A terceira hipótese, menos discutida mais profundamente, era a saída voluntária, a possibilidade de que Oswaldo, por razões pessoais, tivesse decidido desaparecer, levando a filha consigo.
Ivone rechaçou a terceira hipótese com uma firmeza que a delegada respeitou. Disse que Oswaldo não tinha dívidas graves, não tinha problemas com a justiça, não tinha caso extraconjugal. Não tinha histórico psiquiátrico. Disse que o marido era um homem simples, que gostava de pescar, de consertar geladeira e de levar a filha para o mato. Disse que, se ele pudesse, estaria ali naquela mesa, sentado, com um café na mão, explicando tudo com calma.
A delegada ouviu, registrou e continuou investigando as três linhas em paralelo, como manda o procedimento. Nos meses que se seguiram, o caso foi incluído no Sinalid, o Sistema Nacional de Pessoas Desaparecidas, mantido pelo Ministério da Justiça. Fotos de Oswaldo e Beatriz foram distribuídas para delegacias da região. A imprensa local publicou os rostos dos dois em matérias que circularam durante duas semanas e depois foram substituídas por outras urgências.
A informação de fora veio em conta-gotas. Um fazendeiro disse, em janeiro de 2019, que tinha visto uma fogueira apagada num trecho de mata, mas não soube precisar a data. A equipe foi ao local. Encontrou cinzas antigas, impossíveis de datar. Outro morador disse que ouviu gritos numa noite de novembro, mas não sabia se era gente ou bicho. Não sabia a data exata. Não sabia a direção. Eram fragmentos que não encaixavam.
A delegada solicitou ao ICMBio um mapeamento mais detalhado das cavernas na área. O ICMBio informou que um levantamento espeleológico completo da Serra da Bodoquena nunca tinha sido concluído. A região onde Oswaldo tinha estacionado ficava numa zona pouco estudada, onde o acesso era difícil e o interesse científico tinha sido menor.
Em março de 2019, a delegada convocou uma reunião com o Corpo de Bombeiros e com um espeleólogo voluntário da Sociedade Brasileira de Espeleologia. O espeleólogo analisou o mapa de Oswaldo e disse que a descrição “Figueira Grande, lado esquerdo do córrego” era consistente com o tipo de indicação que moradores antigos da região usavam. Não era linguagem de trilheiro urbano. Era linguagem de gente do mato. O espeleólogo ofereceu-se para fazer uma expedição exploratória. A delegada autorizou.
A expedição aconteceu num sábado de abril de 2019, sob chuva fina. Refez o trajeto até o Mirante. Depois desceu por uma encosta a noroeste e seguiu o leito de um córrego intermitente. O espeleólogo entrou com lanterna e capacete. Avançou por um corredor estreito e descendente. Após cerca de 15 metros, o corredor se alargava numa câmara baixa com sinais de ocupação humana antiga: marcas de fuligem no teto, restos de carvão no chão, um pedaço de arame enferrujado. Mas não havia nada que ligasse aquele lugar a Oswaldo ou a Beatriz.
O caso voltou para a gaveta. Não para a gaveta do esquecimento, para a gaveta da impotência, que é pior. Ivone continuou ligando para a delegacia toda segunda-feira. Manteve o quarto de Beatriz intacto. Manteve os chinelos de Oswaldo ao lado do sofá. A caneca de café com a estampa do Corinthians ficava no escorredor, sempre lavada, nunca guardada. Renato vinha de Campo Grande a cada quinze dias. Gilmar visitava às quartas-feiras à noite, levando pão de queijo.
Ivone fechou as janelas da sala, parou de ir à missa, parou de ir à feira. Fazia compras em horários em que sabia que haveria menos gente. Não queria ser a mulher do desaparecido. 2019 virou 2020. A pandemia chegou. Ivone ficou mais isolada. Renato parou de vir a cada 15 dias. As ligações para a delegacia continuaram.
Em 2022, Renato casou em Campo Grande. Ivone foi ao casamento. Na festa, ficou sentada perto da saída. Quando Renato disse que estava bonita, Ivone segurou a mão do filho e disse: “Sua irmã ia gostar de ver isso.” Foi a única vez em quatro anos que mencionou Beatriz em voz alta.
E então, numa manhã de março de 2023, o telefone tocou. Era a delegada. A voz era diferente. Não era a voz educada e vazia de sempre. Era a voz de alguém que tinha algo concreto para dizer.
Em março de 2023, um caçador chamado Reginaldo Assis Borba entrou num trecho de mata fechada, a sudoeste da Serra da Bodoquena, acompanhado de um cão mestiço chamado Trovão. Reginaldo tinha 61 anos, caçava desde os 14 e conhecia aquelas matas como os cantos da própria casa. Naquela manhã, Trovão travou numa posição que Reginaldo nunca tinha visto. Corpo baixo, orelhas coladas, focinho apontado para o chão entre as raízes de uma figueira brava, sem latir, sem se mover.
Reginaldo não sabia nada sobre o caso de Oswaldo e Beatriz. Não assistia a telejornal com frequência. Não usava internet. Naquela manhã, seguia o rastro de um cateto. Trovão mudou de comportamento. Desviou para a esquerda e travou diante da figueira brava de tronco grosso. Reginaldo se aproximou, afastou uma camada de folhagem e sentiu algo sólido sob os dedos. Algo que não era raiz, não era pedra e não era osso de bicho. Era tecido.
Cavou com as mãos. Em poucos minutos, a forma revelou-se. Uma mochila pequena de lona azul marinho com as costuras desfiadas. Usou a faca para forçar o zíper enferrujado. Dentro havia três objetos: um caderno de capa dura preta, um cantil de alumínio amassado com a tampa presa por uma corrente curta e uma lanterna de mão com as pilhas corroídas. Os três estavam úmidos, mas não encharcados. A posição entre as raízes protegia da chuva.
Reginaldo disse depois que sentiu algo que não sabia nomear. Não era medo. Era uma espécie de peso, como se o ar ao redor da figueira fosse mais denso do que no resto da mata. Levou o objeto para casa. A esposa disse que devia levar para a polícia. No dia seguinte, foi até à delegacia de Bodoquena. De lá, a informação subiu para Bonito. De Bonito chegou à delegada.
A delegada abriu a mochila sobre a mesa. Viu o cantil, a lanterna e o caderno. Abriu o caderno na primeira página. Leu. Fechou. Abriu de novo. Depois procurou no processo a lista de pertences que Ivone tinha descrito. Encontrou. “Mochila de lona azul marinho da filha, com etiqueta interna com o nome.” Virou a mochila. Encontrou a etiqueta. Em letra cursiva desbotada: “Beatriz M.T.”
A mochila estava a sete quilômetros do carro. Mas o mais perturbador não era a distância. Era que alguém tinha colocado a mochila ali, debaixo das raízes, e coberto deliberadamente. Não era um objeto que caiu e foi coberto pela terra ao longo dos anos.
O caderno tinha 23 páginas escritas. A perícia confirmou que a escrita era de Beatriz. A caligrafia era a mesma, letra cursiva inclinada para a direita, com traços firmes nas consoantes e laços abertos nas vogais. Não havia sinais de coação física. As primeiras sete páginas contavam a viagem como um diário de campo. Beatriz registrou a saída de Dourados, a chegada à serra, a caminhada pela picada, a parada no mirante.
Anotou que o pai estava animado, que o tempo estava firme, que viram um tucano de bico verde. Escreveu que o mirante era lindo, e que o ar lá em cima era diferente, fino e limpo. Copiou nomes de árvores do guia de campo do pai. Na sétima página, a última frase era: “Pai disse que é por ali, do lado da figueira grande.”
A oitava página começava diferente. A letra era a mesma, mas o espaçamento entre as linhas aumentava. As frases eram mais curtas. Beatriz escreveu… As páginas seguintes descreviam o interior de uma caverna. Escuridão total, ruído de água corrente, chão liso e molhado, teto baixo. O pai usava a lanterna com parcimônia. Mencionava frio. Mencionava fome.
O pai tentava encontrar a saída seguindo a corrente de ar, mas as passagens se dividiam. Na décima segunda página, Beatriz escreveu: “Tudo fechado.”
Essa frase levantou questões que o inquérito não conseguiu responder. Oswaldo já tinha visitado aquela gruta antes? Ivone não sabia de nenhuma visita anterior. E o que significava “tudo fechado”? Passagens obstruídas por desabamentos? Isso era consistente com o que o bombeiro tinha observado na formação rochosa durante a busca de 2018.
Se a Gruta do Sapo era a mesma formação onde o cão recuou e onde o bombeiro sentiu o ar em movimento, então Oswaldo e Beatriz tinham entrado por uma passagem que depois desabou atrás deles. Mas se a entrada desabou, como a mochila foi parar ao lado de fora? Alguém saiu da gruta. Alguém caminhou até aquele ponto. Alguém cavou e colocou a mochila ali.
Na décima sexta página: “Achei uma coisa no chão. Parece roupa de outra pessoa. Tá podre?”
Se Beatriz encontrou vestimenta de outra pessoa dentro da caverna, alguém antes deles tinha estado ali e possivelmente não tinha saído. E havia outra implicação. Se alguém morreu naquela gruta antes, então a pessoa que indicou o local a Oswaldo sabia que aquela caverna já tinha matado.
Da décima oitava à vigésima primeira página, Beatriz descrevia sons que não conseguia identificar. Escreveu: “Tem alguma coisa aqui com a gente. Não sei o que é. Pai não ouve. Ou finge que não ouve. Depois, o barulho vem de baixo, tipo arrastar, tipo pedra se mexendo sozinha.”
O psicólogo forense que analisou o material disse que o conteúdo era compatível com o estado confusional provocado por estresse ambiental. Mas acrescentou que a estrutura das frases, mesmo nas páginas mais tardias, era coerente. Não havia sinais clássicos de delírio. A menina descrevia o que percebia com clareza.
Na vigésima segunda página: “Pai não acorda. Tô sacudindo ele. Tá gelado. Pai acorda.”
Na vigésima terceira, a letra era menor, mais apertada: “Vou guardar tudo na mochila e deixar aqui. Se alguém achar, meu nome é Beatriz Mendes Teixeira, de Dourados. Minha mãe é Ivone. Meu irmão é Renato. A gente entrou numa gruta do lado do córrego e não conseguiu sair. Meu pai está aqui comigo. Ele está dormindo. Eu vou tentar sair sozinha.”
As páginas restantes estavam em branco. A mochila estava a sete quilômetros do carro. A mochila foi enterrada do lado de fora. Se Beatriz escreveu que ia guardar tudo e tentar sair, e se a mochila foi encontrada fora da gruta, então Beatriz saiu. Saiu pelo menos até aquele ponto. Cavou entre as raízes, colocou o caderno, o cantil e a lanterna dentro, cobriu com terra. E depois seguiu caminhando.
Para onde? Ninguém sabe. Ninguém viu uma adolescente sozinha na região. E caminhou por um terreno onde a desorientação mata mais do que as quedas. Que o seu corpo está em algum lugar daquela mata, coberto por folhas, por chuva, por tempo.
Nos meses seguintes, buscas com tecnologia LIDAR identificaram três depressões compatíveis com entradas de caverna. Duas eram dolinas rasas. A terceira estava numa encosta íngreme. Uma expedição foi organizada em agosto de 2023. A equipe encontrou uma abertura parcialmente obstruída. Entraram num corredor que se estendia por 22 metros antes de se dividir.
Uma passagem terminava em desabamento. A outra continuava por mais 30 metros até uma câmara ampla com um curso de água no fundo. Na câmara, encontraram sinais de presença humana. Fuligem recente. Um pedaço de corda sintética e, no chão, parcialmente coberto por sedimento, um facão com cabo de madeira escurecido pelo uso.
Ivone foi chamada para identificar. Não precisou de mais de três segundos. Disse: “É do Oswaldo. Era do pai dele.” Mas os corpos nunca foram encontrados. Nem na câmara principal, nem nos corredores adjacentes, nem nas passagens obstruídas. A gruta continuava para baixo, para dentro, para lugares onde a lanterna não alcançava.
O inquérito permanece aberto. O caso está classificado como “desaparecimento sem localização de vítimas, com fortes indícios de acidente em ambiente subterrâneo.” Ivone voltou para Dourados, para a casa de muro baixo e varanda com cadeira de balanço, para o quarto intacto de Beatriz e para os chinelos de Oswaldo.
Mas agora tinha o caderno. 23 páginas escritas pela filha no escuro. E tinha a última frase, que lia toda noite antes de dormir: “Meu nome é Beatriz Mendes Teixeira, de Dourados. Minha mãe é Ivone.”
Era a filha se identificando para um estranho que talvez nunca chegasse. Era a filha dizendo quem era, de onde vinha e a quem pertencia, como se soubesse que palavras escritas duram mais do que quem as escreve. E duraram.
O Brasil é grande, e dentro desse tamanho há serras, matas e cavernas, onde as pessoas entram e não saem. Há famílias que esperam. Há delegacias que investigam com o que têm. Há bombeiros que buscam até onde o terreno permite. E há limites, limites da terra, do tempo, da técnica, que ninguém ultrapassa por mais que queira. A resistência silenciosa de quem espera sem prazo é a coisa mais comum e mais invisível que existe neste país. Acontece dentro de casas simples, em cidades do interior, em varandas onde alguém senta toda noite e olha para a rua esperando um carro que não vem.
Há coisas que a gente não explica. Há coisas que a gente só guarda. Enquanto o caso de Oswaldo e Beatriz permanece aberto na Serra de Bodoquena, existe outro caso no Brasil que segue um caminho diferente, e que por isso mesmo é ainda mais difícil de aceitar. Um jovem de 24 anos desapareceu numa trilha do Pico da Bandeira, na Serra do Caparaó. Uma trilha que ele já tinha percorrido seis vezes. Os amigos voltaram. Ele não.
Quatro anos e três meses depois, esse jovem apareceu caminhando sozinho por uma estrada secundária, a 30 quilômetros do parque. Vivo. Consciente. O que ele contou sobre onde esteve não se encaixa em nenhuma explicação que a polícia ou os médicos tenham conseguido oferecer. Essa história é o vídeo que aparece agora na sua tela. Há casos que terminam sem resposta. E há casos em que a resposta é pior do que a pergunta.