
O bairro de Higienópolis, reduto da elite paulistana, testemunhou um dos episódios mais dramáticos da crônica criminal da cidade. Na tradicional Igreja Santa Terezinha, Silvia Rosalina Pinto Sampaio e Silvio Marqui trocavam seus votos após cinco anos de namoro. A cerimônia religiosa deveria coroar um romance que parecia perfeito, aprovado pelas famílias tradicionais de ambos. No entanto, o que era para ser o dia mais feliz de suas vidas transformou-se em uma tragédia que chocou São Paulo e ganhou repercussão nacional. Entre os convidados estava um homem que guardava, havia 17 anos, uma obsessão doentia por Silvia: o médico Abelardo Ribeiro Paiva.
Para compreender a dimensão dessa história, é preciso voltar ao ano de 1931, quando Silvia nasceu em Rio Claro, interior de São Paulo. Ainda criança, mudou-se com a família para Casa Branca. Em 1950, aos 19 anos, tomou uma decisão incomum para a época: mudou-se para a capital para estudar na Universidade de São Paulo. Formou-se em Línguas Anglo-Germânicas pela Faculdade de Filosofia e já lecionava antes mesmo de concluir o curso. Silvia representava uma mulher à frente de seu tempo, em uma sociedade que ainda via o casamento e a vida doméstica como o único destino possível para as moças de boa família.
Foi durante esse período na capital que ela conheceu Silvio Marqui, um jovem industrial de 25 anos. O romance foi imediato e contou com a aprovação das famílias. Os dois namoraram por cinco anos, um tempo considerado longo para os padrões da época. Em abril de 1958, Silvio finalmente a pediu em casamento. A notícia foi recebida com grande alegria por todos. O casamento civil ocorreu em 8 de janeiro de 1959, na residência da família de Silvia, reunindo apenas os mais próximos. Abelardo estava presente como “amigo da família”.
Abelardo Ribeiro Paiva havia cruzado o caminho de Silvia ainda na infância, em Casa Branca, no ano de 1942. Ele tinha 12 anos e ela 11. Enquanto Silvia era extrovertida, cercada de amigos e cheia de vida, Abelardo era introspectivo, tímido e solitário. Essa diferença não impediu que ele desenvolvesse uma paixão silenciosa e crescente por ela. Em 1947, foi estudar engenharia em São José dos Campos, mas logo desistiu e mudou para Medicina no Paraná. Durante toda a faculdade, viveu isolado, sem grandes amizades, e fazia viagens periódicas a Casa Branca apenas na esperança de rever Silvia. Em uma dessas ocasiões, conseguiu falar com ela, mas a jovem mal se lembrava dele.
Formado em 1957, Abelardo mudou-se para São Paulo, fez estágio no futuro Hospital Franco da Rocha e abriu consultório próprio. Morava com a irmã e a sobrinha de seis anos. Financeiramente ainda não estava consolidado, mas sua real motivação para estar na capital era Silvia. Descobriu o endereço da família e, em março de 1958, apareceu sem aviso na casa dela. Apresentou-se como o antigo colega de escola e foi bem recebido pela mãe de Silvia, dona Maria. A partir de então, passou a frequentar a residência duas ou três vezes por semana.
Embora os pais de Silvia o recebessem com hospitalidade, a própria Silvia mantinha uma relação apenas cordial e distante. Abelardo nunca declarou seus sentimentos. Quando soube do noivado, em 1958, reagiu com aparente resignação, mas continuou frequentando a casa. No Natal de 1958, levou um presente bizarro para Silvia: uma caveira de gesso sobre um livro com a frase “Perdoa-me, Senhor, se profano a tua obra”. O gesto causou grande desconforto, mas foi amenizado pela família.
No dia 15 de janeiro de 1959, Abelardo compareceu à cerimônia religiosa. Sentou-se do lado da família da noiva. Quando o padre declarou Silvio e Silvia marido e mulher, ele se aproximou para cumprimentar o casal. Estendeu a mão para Silvio, disse “Parabéns” e, em seguida, sacou um revólver e disparou quatro tiros à queima-roupa contra o noivo. Silvia, em estado de choque, chegou a pensar que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Abelardo ainda tentou atirar contra ela, mas a mãe de Silvia, dona Maria, se jogou na frente e desviou os tiros, que atingiram a filha nas costas, na base da coluna e no útero.
O caos tomou conta da igreja. Os convidados avançaram sobre Abelardo, que foi brutalmente agredido. Um amigo de Silvio conseguiu tomar a arma. O médico foi preso ainda no local. Silvio morreu antes de chegar ao hospital. Silvia foi operada de emergência no Hospital das Clínicas e sobreviveu, mas com graves sequelas.
O crime ganhou enorme repercussão. A imprensa da época transformou a tragédia em espetáculo. Silvia foi para o Paraná se recuperar, mas os jornais a perseguiram. Inventaram a história de uma suposta ex-namorada de Silvio chamada Vilma César, que teria se suicidado por ciúmes, insinuando que Silvia teria “roubado” o namorado da amiga. Anos depois, não foram encontrados registros independentes que comprovassem a existência dessa Vilma, sugerindo que se tratava de uma invenção sensacionalista para vender jornais.
Durante o julgamento, veio à tona que Abelardo havia sido diagnosticado com esquizofrenia paranoide em 1954 e internado brevemente. A defesa alegou inimputabilidade. Após um longo processo, em 11 de março de 1963, ele foi absolvido por motivo de insanidade mental e internado no Manicômio Judiciário Franco da Rocha — o mesmo local onde havia estagiado anos antes. Permaneceu internado por 22 anos, muito além dos seis anos mínimos determinados pela Justiça.
Silvia, por sua vez, reconstruiu sua vida com extraordinária resiliência. Mudou-se para o Rio de Janeiro, casou-se novamente e, apesar das lesões que os médicos diziam impedir a gravidez, teve cinco filhos. Viveu uma história de superação e força, longe dos holofotes.
Abelardo foi libertado na década de 1980, voltou para São Paulo e depois para Casa Branca, onde viveu sozinho até sua morte, em 25 de fevereiro de 2014, aos 84 anos. Até o fim da vida, manteve a narrativa de que era vítima de um amor não correspondido e tentou manchar a imagem de Silvia.
O caso de 1959 permanece como um dos mais dramáticos da história criminal paulista, revelando os perigos de uma obsessão não tratada, as falhas do sistema judiciário da época no tratamento de doentes mentais e a crueldade da imprensa sensacionalista. Acima de tudo, destaca a força de Silvia Rosalina, uma mulher que transformou dor em renascimento e deixou um legado de resiliência.