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“Não at1ra, amor!” A ORG1A NA BAHIA QUE ACABOU EM TRIPLO HOM1CÍD1O

Dias Dávila, município localizado a apenas 54 km de Salvador, na Bahia, integra a chamada Costa dos Coqueiros, região conhecida por belas praias de águas cristalinas e areia branca. No entanto, por trás da aparência paradisíaca, alguns bairros da cidade são marcados pela violência e pelo domínio de facções criminosas. Foi exatamente nesse cenário de tensão que, na noite de 6 de março de 2025, ocorreu um dos crimes mais brutais registrados na região nos últimos anos: o triplo homicídio que vitimou Jailma Barbosa da Silva, de 27 anos, Geovana Vitória Vilela de Melo, de 18 anos, e Henrique Silva Borges dos Santos, de 32 anos.

As três vítimas tinham em comum o fato de serem jovens e, em grande parte, responsáveis por sustentar famílias. Jailma era mãe de três crianças pequenas. Geovana, de apenas 18 anos, já era mãe de um bebê de um ano. Henrique trabalhava como bancário. A única sobrevivente, uma jovem de 19 anos identificada aqui como Maria (nome fictício para preservar sua identidade), também era mãe de uma menina de três anos e escapou por pouco da tragédia.

A casa onde o crime ocorreu, localizada na rua Parque Nossa Senhora de Lourdes, no bairro de Imbassaí, era alugada por Geovana e utilizada para atendimentos íntimos. O imóvel de dois andares — garagem no térreo e área residencial no superior — registrava intensa movimentação de pessoas, o que gerava desconforto entre os vizinhos. Inicialmente, muitos acreditavam se tratar de um ponto de venda de drogas, o que gerou denúncias anônimas à polícia. Com o tempo, descobriu-se que o local funcionava como casa de prostituição, o que, embora ainda incomodasse a vizinhança, foi visto por alguns como “menor mal” em uma região dominada pela criminalidade.

Na noite do crime, por volta das 22h30 (há divergências sobre o horário exato), as três mulheres e Henrique estavam na casa participando de uma festa. Em determinado momento, dois homens — Alisson Santiago dos Santos, policial militar, e seu amigo Estevan Yuri dos Santos — chegaram ao local. O grupo consumia bebidas e entorpecentes. Testemunhas e investigações posteriores indicam que o clima era de descontração até que Henrique fez uma piada de mau gosto envolvendo Alisson e Estevan, insinuando uma possível relação íntima entre os dois amigos. A brincadeira foi interpretada como grave ofensa.

Alisson, descrito por colegas como pessoa normalmente calma, teria explodido de raiva. Os dois homens saíram da casa irritados, mas não foram embora. Pouco tempo depois, retornaram armados. Maria, a sobrevivente, havia saído momentos antes para encontrar o namorado, o que provavelmente salvou sua vida. Dentro da casa, os tiros começaram. Henrique foi o primeiro a ser atingido. Jailma e Geovana gritaram desesperadamente. Uma das vítimas ainda suplicou “não atira, amor”, sugerindo algum tipo de vínculo afetivo com um dos atiradores. Os executores fugiram em uma moto após o crime.

A polícia chegou rapidamente após os vizinhos acionarem a emergência. A cena era de horror: a casa revirada, marcas de tiros e possíveis lesões por arma branca nas mulheres. Não havia sinais de arrombamento, o que indicava que as vítimas conheciam os agressores ou que a porta estava destrancada.

Maria chegou ao local pouco depois e entrou em choque. Ela contou à polícia que, antes do crime, o grupo estava na casa quando uma discussão ocorreu. Dois homens (Alisson e Estevan) saíram irritados. Pouco depois, ela recebeu ligação do namorado e saiu. Ficaram na casa Jailma, Geovana e Henrique. A jovem forneceu os nomes dos presentes e entrou em pânico, temendo ser a próxima vítima. No dia seguinte, ela desapareceu da cidade por medo.

As investigações avançaram com análise de câmeras de segurança, rastreamento de celulares e depoimentos de vizinhos. Inicialmente, cogitou-se envolvimento de facções, mas as evidências apontaram para crime passional. Uma semana após o crime, Alisson Santiago dos Santos se apresentou voluntariamente na delegacia acompanhado de advogado e confessou participação no triplo homicídio, citando um cúmplice. Ele optou por permanecer em silêncio sobre detalhes. Dias depois, Estevan Yuri dos Santos foi preso. Ambos foram enquadrados por triplo homicídio qualificado, com qualificadoras de feminicídio nos casos de Jailma e Geovana.

O Ministério Público aceitou a denúncia e o processo segue na fase de instrução, com previsão de julgamento por júri popular. As penas somadas podem ultrapassar 100 anos, mas, como é comum no Brasil, a execução efetiva tende a ser bem menor.

O caso de Dias Dávila revela mais uma vez a vulnerabilidade de mulheres em situação de prostituição, a influência do ciúme tóxico e a dificuldade de obter justiça em regiões dominadas pela violência. A sobrevivente Maria vive escondida, temendo represálias. Os vizinhos, mesmo aliviados por não se tratar de tráfico, continuam com medo de represálias por terem ouvido os tiros e os gritos.

A tragédia também levanta questionamentos sobre a atuação policial, já que um dos acusados era militar e o posto da PM ficava a apenas 500 metros do local. A investigação apontou que o crime foi premeditado: os dois homens saíram da casa, planejaram o retorno e voltaram armados para executar as vítimas.

A população de Dias Dávila, acostumada à violência, acompanhou o caso com misto de horror e resignação. Mais uma vez, jovens mães foram ceifadas em plena juventude, deixando órfãos que agora dependem da rede de apoio familiar e do Estado.

O triplo homicídio de Imbassaí entra para a triste estatística de violência contra a mulher na Bahia e reforça a necessidade de políticas públicas mais efetivas de proteção às profissionais do sexo, que frequentemente atuam à margem da sociedade e se tornam alvos fáceis de violência.

Enquanto o processo segue seu curso, a sobrevivente Maria tenta reconstruir a vida longe de Dias Dávila. Os acusados aguardam julgamento. A sociedade baiana, mais uma vez, se pergunta até quando a violência seguirá ceifando vidas de forma tão brutal em cidades que poderiam ser sinônimo de tranquilidade.