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Van Com 9 Mochileiros Sumiu Na Transamazônica Em 2015 —8 Anos Depois Achada Na Mata Com Todos Cintos

Em 14 de agosto de 2015, às 6:12 da manhã, uma van Sprinter branca com placa de Marabá saiu do estacionamento de uma pousada no município de Altamira, no Pará, com nove passageiros a bordo. O motorista era Raimundo Sérgio Bonfim, 58 anos, que fazia a rota entre Altamira e Itaituba pela Transamazônica havia mais de uma década.

Os nove passageiros eram jovens, o mais velho tinha 27 anos, a mais nova 19. Vinham de estados diferentes, Goiás, Minas Gerais, Maranhão, o próprio Pará, e tinhamse conhecido semanas antes numa comunidade online de mochileiros que organizava travessias por estradas remotas do norte do Brasil. Nenhum deles tinha parentesco entre si.

Nenhum deles tinha antecedentes. Todos carregavam mochilas, barracas leves e a expectativa de chegar a Itaituba antes do anoitecer para seguir viagem de barco até Santarém. Munavan nunca chegou a Itaituba. O primeiro sinal de que algo estava errado veio três dias depois, quando Dalva Cristina Prado, mãe de uma das passageiras, ligou para a polícia civil de Altamira, dizendo que a filha não atendia o celular desde amanhã do dia 14.

O atendente perguntou: “Você tem certeza de que a filha não está apenas fora de área?”

Dalva disse: “Sim, tenho certeza.”

O atendente anotou o nome, pediu que aguardasse 72 horas e desligou. 72 horas no meio da Transamazônica, em agosto de 2015, era tempo suficiente para que qualquer rastro desaparecesse sob a lama, sob o mato, sob a chuva que cai quase toda a tarde naquela região.

Era tempo suficiente para que uma van inteira sumisse do mapa sem que ninguém estranhasse no porque naquele trecho de quase 500 km entre Altamira e Itaituba, o normal era o silêncio. Não havia sinal de celular em boa parte do trajeto, não havia postos de combustível regulares, não havia câmeras.

O que havia era barro vermelho, ponte de madeira sobre igarapé, trecho interditado por atoleiro e a mata fechando dos dois lados da estrada, como se quisesse engolir tudo de volta. Esta é a história de nove jovens e um motorista que desapareceram numa manhã de sexta-feira numa das rodovias mais conhecidas e menos vigiadas do Brasil e de uma van que foi encontrada 8 anos depois, em 2023, a 400 m da estrada engolida pela vegetação, com todos os cintos de segurança ainda afivelados e nenhum corpo dentro.

A BR230, a Transamazônica corta o Brasil de leste a oeste por mais de 4.000 km. Foi aberta nos anos 1970 como promessa de integração nacional, nunca foi concluída. O trecho entre Altamira e Itaituba é um dos mais precários do país. Na época das chuvas, há semanas em que simplesmente não se passa.

Na época da seca, o pó vermelho cobre tudo. Para-brisa, roupa, pulmão. Os moradores das comunidades, ao longo da estrada conhecem cada atoleiro, cada ponte que range, cada curva onde já tombou o caminhão. Conhecem também o silêncio que se instala quando alguém pergunta por um veículo que passou e não chegou.

Raimundo Sérgio conhecia aquela estrada como conhecia o próprio quintal. Tinha uma carteira de habilitação, categoria D, revisão em dia e um caderninho onde anotava quilometragem, horário de saída e horário de chegada de cada viagem. Era metódico, não bebia, não dirigia à noite naquele trecho. Quem o contratava sabia que ele parava em Uruará para almoçar, que conferia os pneus em Medicilândia e que nunca, em 12 anos de estrada tinha chegado com mais de 2 horas de atraso.

Naquele dia, saiu no horário de sempre. O dono da pousada em Altamira viu a Van partir. Um frentista em Medicilândia confirmou depois que abasteceu o veículo por volta das 9 horas da manhã. Depois disso, ninguém mais viu a Sprinter Branca. 10 pessoas entraram naquela van. Nenhuma saiu. E quando a van quase uma década depois, o que estava dentro dela era mais difícil de explicar do que o próprio desaparecimento.

A partir daqui, a história avança devagar e precisa ser contada assim. Por quanto tempo uma família consegue manter esperança quando o estado diz que não há mais o que fazer? O que acontece com um grupo de jovens quando astrada acaba e o mato começa? O que significa encontrar uma van intacta, com os cintos afivelados, sem nenhum vestígio humano dentro, 8 anos depois?

E o que uma mãe faz quando recebe a notícia de que encontraram o veículo onde a filha estava, mas não encontraram a filha. Estamos na Transamazônica em agosto de 2015. O Brasil vive uma crise política que ocupa todas as manchetes. Ninguém está olhando para o Pará. Ninguém está contando quantas vans passam ou deixam de passar entre Altamira e Itaituba.

O mundo segue girando e em algum ponto daquela estrada de barro vermelho, entre a mata e o rio, 10 pessoas desaparecem sem fazer barulho. Tudo começou num grupo de Facebook chamado Mochileiros do Norte BR, criado em 2014 por um estudante de geografia de imperatriz no Maranhão, que queria organizar travessias baratas por estradas que os guias de turismo ignoravam.

O grupo tinha pouco mais de 1200 membros, a maioria entre 18 e 30 anos. Gente que viajava de carona, de ônibus intermunicipal ou rachando combustível. Postavam fotos de estradas de chão, de pontes de madeira sobre rios barrentos, de redes armadas em árvores no meio do nada trocavam dicas sobre como conseguir carona com caminhoneiro, onde acampar sem pagar.

E quais trechos da BR319 e da BR230 ainda dava para passar na época das chuvas? Era um grupo de gente jovem com pouco dinheiro e muita vontade de conhecer um Brasil que a maioria dos brasileiros nunca vai ver de perto. Em junho de 2015, e um membro do grupo chamado Felipe Augusto Rezende, 25 anos de Montes Claros, Minas Gerais, postou a ideia de uma travessia pela Transamazônica.

O plano era sair de Altamira, seguir de Van até Itaituba e de lá pegar um barco até Santarém, descendo o Tapajós. A postagem era simples, escrita sem floreios. Dizia que ele já tinha feito o trecho de ônibus duas vezes e que conhecia um motorista de confiança em Alta Mira, que fazia o transporte por um preço acessível.

pedia que quem tivesse interesse mandasse mensagem no privado. A postagem recebeu 43 curtidas e 22 comentários. A maioria dos comentários era de gente dizendo que tinha vontade, mas não podia. Outros pediam mais detalhes sobre custo e duração. Dos 22, nove se comprometeram de verdade. Eram nove pessoas de lugares diferentes do Brasil, de convidas diferentes e histórias que não se cruzariam em nenhuma outra circunstância.

Camila Prado, 22 anos, estudante de biologia em Goiânia, que tinha trancado o semestre para viajar e não contou isso para a mãe. Tiago Nascimento dos Reis, 27 anos, técnico em refrigeração de imperatriz, que juntou dinheiro durante seis meses vendendo açaí na porta de casa para pagar a viagem.

Lucas Gabriel Ferreira, 20 anos, de Tucuruí, no Pará. que trabalhava como auxiliar de eletricista na usina e nunca tinha saído do estado. Ana Beatriz Souza Lima, 19 anos de Belém, a mais nova do grupo, que disse para os pais que ia visitar uma prima em Santarém. Diego Henrique Barros, 24 anos, estudante de engenharia florestal em Marabá, que conhecia a Transamazônica por causa do trabalho de campo da faculdade.

Renata de Cásia Oliveira, 23 anos, de São Luís, e que largou um estágio num escritório de advocacia porque, segundo uma amiga, achava que a vida era curta demais para ficar sentada atrás de uma mesa. João Pedro Monteiro, 21 anos, de Paragominas, que viajava sozinho desde os 17 e mantinha um blog onde escrevia sobre estradas do interior do norte.

Marcos Vinícius Almeida, 26 anos, de Montes Claros, amigo de infância de Felipe e o único do grupo que já conhecia o motorista da van e o próprio Felipe, que organizou tudo, que fez a lista de participantes, que combinou a data e o ponto de encontro, e que mandou a última mensagem no grupo de WhatsApp da viagem às 23:47 do dia 13 de agosto:

“Está tudo certo, a van busca todo mundo na pousada às 6 da manhã, não é para ninguém atrasar.”

Nenhum deles era imprudente no sentido clássico da palavra. Nos eram jovens que viajavam com pouco, que se adaptavam a qualquer situação e que tinham uma confiança natural na estrada, no próximo, e na ideia de que o Brasil, por mais bruto que fosse, era um lugar onde as coisas acabavam dando certo. Essa confiança era o que os unia e talvez tenha sido também o que os impediu de perceber que certas estradas não perdoam confiança.

Na noite anterior à viagem, todos dormiam na mesma pousada em Altamira, um estabelecimento simples chamado Pousada Rio Xingu, no bairro Centro. Quartos com ventilador de teto, banheiro compartilhado, café da manhã com pão, manteiga e café coado. Felipe e Marcos Vinícius dividiram um quarto, as meninas ficaram em outro.

O restante se acomodou onde havia vaga. Conversaram no corredor até quase meia-noite, planejando os próximos dias. Nick Camila mostrou no celular um mapa offline do trecho até Itaituba.

Diego explicou: “Há trechos onde a estrada vira trilha e a van pode atolar.”

João Pedro disse: “Já passei por coisa pior na BR319 e não é para ninguém se preocupar.”

Riam. Estavam animados. tinham a tranquilidade de quem sabe que o dia seguinte vai ser longo, cansativo e inesquecível. Às 5:30 da manhã, o despertador de Felipe tocou. Às 6 horas, todos estavam no estacionamento da pousada com as mochilas prontas. A van já estava lá. Raimundo Sérgio Bonfim nasceu em Altamira em 1957, filho de um barqueiro do Xingu e de uma professora primária que dava aula debaixo de um barracão de palha no bairro Aparecida.

Cresceu vendo o rio e a estrada como as duas únicas saídas possíveis daquele lugar. O pai queria que fosse barqueiro e a mãe queria que estudasse. Raimundo não fez nem uma coisa nem outra da forma que esperavam. Aos 16 anos, largou a escola e começou a trabalhar como ajudante num caminhão que levava a tora de mogno do interior até o porto de Altamira.

Era a época da exploração madeireira pesada na região, quando a Transamazônica servia mais para escoar madeira do que para transportar gente. Raimundo aprendeu a dirigir naqueles caminhões em estradas que não tinham nome e que mudavam de lugar a cada estação de chuva. Aos 25 tirou a habilitação. Aos 30 comprou uma Kombi usada e começou a fazer transporte entre Altamira e Vitória do Xingu.

Depois trocou a Kombi por uma van. Depois trocou a van por outra melhor. Em 2008 comprou a Sprinter Branca que usaria até o dia do desaparecimento. Pagou em 12 parcelas com o dinheiro que ganhava levando passageiros. encomendas e às vezes carga miúda para comerciantes do interior. Era um homem que não reclamava, que não errava horário e que tratava a van como se fosse uma extensão do próprio corpo.

Os vizinhos do bairro Mutirão, onde morava com dona Nazaré e dois filhos já crescidos, o chamavam de seu Raimundo Relógio, porque saía todo dia no mesmo horário e voltava no mesmo horário, como se o tempo obedecesse a ele, e não o contrário. Dona Nazaré era uma mulher forte, de mãos grossas e olhar firme, que vendia farinha de mandioca na feira do bairro Aparecida desde os 18 anos.

Conhecia Raimundo desde a adolescência. Casaram-se em 1982 numa cerimônia simples na igreja de São Sebastião em Altamira e nunca se separaram. Ela contou depois num depoimento à polícia que durou menos de 15 minutos, que na noite do dia 13 de agosto, véspera da viagem. Raimundo saiu de casa depois do jantar, foi até a garagem, acendeu a lanterna e conferiu os quatro pneus da van, um por um.

Voltou para dentro, tomou um copo de água e disse: “Vai ser uma viagem tranquila, são só uns meninos que querem conhecer a estrada.”

Dona Nazaré perguntou: “Quantos são?”

Ele disse: “São nove.”

Ela perguntou: “Não é gente demais?”

Ele disse: “A van leva 15.”

Depois desligou a luz e foi dormir. Na manhã seguinte saiu de casa 5:30, como sempre.

Dona Nazaré ouviu o motor da van ligando e viu a luz dos faróis passando pela janela do quarto. Não se levantou, não se despediu. Tinha aprendido em mais de 30 anos de casamento que Raimundo não gostava de despedidas. Ele ia e voltava. Sempre voltou até o dia em que não voltou.

E o que se sabe sobre Raimundo Sérgio é que ele era um homem de rotina que conhecia cada quilômetro da Transamazônica entre Altamira e Itaituba, que sabia onde parar, onde abastecer, onde não parar de jeito nenhum, que levava sempre um galão de água de reserva, um macaco hidráulico, duas latas de sardinha e um rolo de arame no compartimento de ferramentas da van que nunca teve multa.

registrada no sistema que nunca foi citado em nenhum boletim de ocorrência, nem como autor, nem como vítima, nem como testemunha. Era o tipo de pessoa que atravessa a vida inteira sem chamar atenção e que justamente por isso, quando desaparece deixa um buraco que ninguém consegue explicar. Medicilândia fica a cerca de 150 km de Altamira, no trecho da Transamazônica que corta a região cacaoeira do Pará.

É uma cidade pequena e quase toda de rua sem asfalto, onde o cheiro de cacau seco se mistura com o cheiro de diesel dos caminhões que passam rumo ao comércio é simples. Mercearia, loja de material de construção, farmácia com fachada de azulejo branco. A igreja matriz fica numa praça de cimento rachado, com um banco de madeira onde os velhos se sentam no fim da tarde para ver o movimento, que nunca é muito.

É o tipo de cidade que existe por causa da estrada e que morreria sem ela. O posto cacau ficava na entrada da cidade, do lado esquerdo de quem vem de Altamira. Duas bombas, uma cobertura de zinco, um banheiro nos fundos e uma geladeira com refrigerante e água mineral. Edivaldo Moreira Lopes trabalhava ali desde 2009.

Tinha 34 anos em agosto de 2015. Era um homem magro, de bigode ralo, que morava com a mãe e dois irmãos mais novos num sítio a três km da cidade. Conhecia cada motorista que fazia a rota regular. Sabia de core quem pedia diesel, quem pedia gasolina, quem pagava em dinheiro e quem pedia fiado.

No dia 14 de agosto, por volta das 9 da manhã, uma sprinter branca parou no posto. Edivaldo reconheceu o motorista. Era seu Raimundo de Altamira. Não era a primeira vez que abastecia ali. Raimundo desceu, pediu para encher o tanque e, enquanto o diesel entrava, foi até os pneus com um calibrador de mão que trazia no bolso da calça.

Edivaldo notou que a van estava cheia. Havia jovens lá dentro. Alguns dormiam com a cabeça encostada na janela. Outros estavam acordados tirando fotos com o celular. Uma menina de cabelo cacheado estava sentada no banco da frente do lado do passageiro, caiu olhando um mapa no celular. Edivaldo não conversou com nenhum deles. Não era seu costume puxar assunto.

Raimundo pagou em dinheiro, como sempre, notas dobradas que tirou do bolso da camisa. Não pediu troco, disse obrigado. Subiu na van, ligou o motor e saiu. Edivaldo viu o veículo seguir pela Transamazônica em direção a Uruará, levantando poeira vermelha que demorou quase um minuto para baixar. Meses depois, quando a polícia finalmente foi até Medicilândia fazer perguntas, Edivaldo repetiu tudo isso com a precisão de quem viu uma cena comum e só percebeu que não era comum quando alguém veio perguntar sobre ela.

disse que a van parecia normal, que o motorista parecia normal, que os jovens pareciam normais, que nada, absolutamente nada, indicava que aquela parada no posto seria o último registro conhecido de 10 pessoas vivas. E foi. E a partir dali, a Sprinter Branca entrou num trecho de 250 km de estrada, onde não havia mais testemunhas, não havia mais combustível e não havia mais sinal.

Apenas barro, ponte de madeira, mata de lado a lado, e o silêncio da transaônica, que não guarda nada e não conta nada a ninguém. Dalva Cristina Prado morava em Anápolis, Goiás. numa casa de dois quartos no bairro Jundiaí, com o marido aposentado e um cachorro viraata chamado Pretinho.

A casa tinha quintal de terra batida, um pé de manga no canto e um varal de arame onde a roupa secava em menos de uma hora no calor de agosto. Era uma casa simples, organizada com o cuidado de quem tem pouco e cuida de tudo. sala, um sofá de corino marrom, uma televisão de tubo e na parede três portaretratos. O casamento é a formatura do filho mais velho na Polícia Militar de Goiás e uma foto de Camila aos 15 anos de vestido azul na festa de aniversário que fizeram no quintal com bolo de chocolate e guaraná.

Camila era a caçula, a filha que Dalva não planejou e que chegou quando ela já achava que não teria mais filhos. Nasceu em 1993, numa maternidade pública de Anápolis, num parto difícil que Dalva carregava no corpo até hoje. Uma dor nas costas que voltava sempre que chovia. Camila cresceu diferente do irmão. Não era quieta, não era obediente no sentido que Dalva entendia a palavra.

Era o tipo de menina que fazia as coisas primeiro e explicava depois, que voltava para casa com o joelho ralado e um sorriso, que pedia desculpa com tanta sinceridade que era impossível ficar bravo por mais de 5 minutos. Quando entrou na faculdade de biologia na UFG, Idalva sentiu um orgulho que não sabia colocar em palavras.

Ninguém na família tinha chegado à universidade. Camila chegou, mas Camila também era a filha que viajava. E essa parte da alva nunca entendeu completamente. Não entendia porque alguém que tinha casa, comida e família queria dormir em barraca no meio do mato, pegar carona com desconhecido e ir para lugares que não tinham nem banheiro.

Dalva tinha medo. Não o medo dramático que aparece em filme, mas o medo cotidiano constante de mãe brasileira, que sabe o que pode acontecer com uma menina sozinha numa estrada do interior. Cada vez que Camila dizia que ia viajar, Dalva sentia o estômago apertar, mas não impedia. tinha aprendido que impedir Camila de alguma coisa era empurrá-la com mais força na direção contrária.

No dia 14 de agosto, às 5:48 da manhã, Li Camila mandou uma mensagem pelo WhatsApp. A mensagem dizia: “Mãe, tô saindo de Altamira agora. Vou ficar sem sinal uns dois dias. Não se preocupa. Te amo.”

Dalva acordou às 6:15. viu a mensagem e respondeu: “Tá bom, minha filha, me avisa quando chegar. Se cuida.”

A mensagem foi entregue, foi lida. Dalva viu os dois tiques azuis e sentiu o alívio breve de saber que a filha estava viva naquele instante. Depois foi fazer café. No dia 15, não estranhou o silêncio. Camila tinha avisado que ficaria sem sinal. No dia 16 começou a estranhar. Mandou uma mensagem que ficou com um tique só. Tentou ligar caixa postal.

No dia 17 às 7 da manhã, ligou para o irmão de Camila, o que era PM em Goiânia.

Ele disse: “Provavelmente é só falta de sinal, essa região do Pará é assim, a mãe deve se acalmar.”

Dalva tentou se acalmar. Não conseguiu. Às 11 horas, ligou para da Polícia Civil de Altamira. Não sabia nem o número. Procurou na internet, no computador velho que ficava no quarto do filho e ligou do telefone fixo porque era mais barato. O atendente foi educado.

Perguntou o nome da filha, a idade, quando tinha sido o último contato. Dalva explicou tudo. Explicou sobre a van, sobre o grupo de mochileiros. sobre a viagem até Itaituba. O atendente anotou e disse: “Vou registrar. O procedimento é aguardar 72 horas.”

Dalva perguntou: “72 horas a partir de quando?”

O atendente disse: “A partir do registro.”

Dalva perguntou: “Ninguém vai sair para procurar?”

O atendente disse: “Vou encaminhar.”

Dalva desligou o telefone e ficou parada na cozinha com a mão no aparelho, olhando para a janela onde a luz do meio-dia entrava sem pressa. Naquela noite Dalva não dormiu. Ficou sentada na sala com o celular no colo, esperando uma mensagem que não veio.

O celular de Camila continuava indo para a caixa postal e cada vez que a voz gravada dizia: “O número chamado não pode ser completado.”

Algo dentro de Dalva entendia que aquilo não era falta de sinal, era outra coisa, uma coisa que elas ainda não tinha nome para chamar, mas que já morava no corpo como um peso que não saía do peito.

Quando Dalva ligou para a Polícia Civil de Altamira, no dia 17 de agosto, três dias depois da partida da van, foi atendida por um escrivão que anotou o nome da filha num formulário e explicou o procedimento padrão. A orientação era aguardar. A expressão usada foi aguardar o prazo.

Dalva não entendeu que prazo era esse e o escrivão explicou: “Desaparecimentos de adultos só geram busca ativa após confirmação de que não se trata de ausência voluntária. A região da Transamazônica é conhecida por deixar viajantes incomunicáveis por períodos longos.”

Dalva insistiu: “São nove pessoas, há um motorista experiente, alguém precisa verificar a estrada.”

O escrivão disse: “Vou registrar.”

Registrou. O boletim de ocorrência número 15.000 008.1 247 foi aberto às 14:20 do dia 17 de agosto de 2015. Nenhuma viatura saiu da delegacia naquela tarde.

É preciso entender o que significava em 2015 registrar um desaparecimento na Transamazônica. A delegacia de Altamira cobria uma área maior que muitos países europeus. tinha um delegado titular, dois escrivães, quatro investigadores e três viaturas, de das quais uma estava com o motor fundido desde abril.

O efetivo era insuficiente para atender os casos urbanos, homicídios, furtos, violência doméstica, tráfico miúdo e praticamente inexistente para qualquer ocorrência fora do perímetro da cidade. A Transamazônica naquele trecho, não era a jurisdição clara de ninguém. Ficava num limbo entre a Polícia Civil estadual, a Polícia Rodoviária Federal e os municípios ao longo da estrada, cada um com sua própria precariedade.

O Sinalid, o sistema nacional de localização de pessoas desaparecidas, existia desde 2012, mas em agosto de 2015 ainda não estava integrado entre todos os estados. Um desaparecimento registrado no Pará não aparecia automaticamente no sistema de Goiás, de Minas Gerais ou do Maranhão. Cada família teria que registrar seu próprio boletim de ocorrência no seu próprio estado e torcer para que alguém em algum lugar cruzasse as informações.

Ninguém cruzou. Nos quatro dias seguintes ao registro de Dalva, outras famílias começaram a ligar. A mãe de Thago, de Imperatriz ligou para a delegacia de lá. O pai de Lucas de Tucuruí foi pessoalmente à delegacia local. Os pais de Ana Beatriz em Belém procuraram a Polícia Federal porque a filha tinha dito que ia visitar uma prima e eles descobriram que não era verdade.

Cada família ligava para um lugar diferente. Cada família contava uma parte da história. Ninguém via a história inteira. A delegacia de Altamira recebeu pelo menos cinco ligações de familiares entre os dias 17 e 20 de agosto. Todas foram registradas, todas seguiram o mesmo procedimento, todas receberam a mesma orientação. Aguardar.

E o escrivão que atendeu Dalva no dia 17 atendia uma média de 14 ocorrências por dia. O caso da van não era para ele diferente dos outros. Era mais um formulário, mais um nome, mais uma família do outro lado da linha pedindo algo que a delegacia não tinha como oferecer naquele momento. E enquanto as famílias ligavam e aguardavam, os dias passavam, e cada dia que passava era mais um dia de chuva na Transamazônica, mais um dia de lama cobrindo marcas de pneu, mais um dia de mato crescendo sobre qualquer rastro que uma van pudesse ter deixado ao sair da estrada. O tempo naquela região não trabalha a favor de quem procura, trabalha a favor de quem desaparece.

No dia 20 de agosto, uma semana depois da partida da van, Dalva ligou de novo para Altamira. Desta vez não foi atendida pelo escrivão e foi atendida por um investigador que informou: “A delegacia está organizando uma equipe de busca em conjunto com a Defesa Civil Municipal.”

Dalva perguntou: “Quando a equipe vai sair?”

O investigador disse: “Depende de logística.”

Dalva perguntou: “O que significa logística?”

O investigador explicou: “Não há combustível suficiente para a viatura fazer o trecho completo até Itaituba. Estamos tentando conseguir apoio do exército que mantém um batalhão de engenharia em Uruará.”

Dalva desligou e chorou pela primeira vez desde o dia 14. Não chorou de desespero, chorou de cansaço, de perceber que ninguém ia procurar a filha dela com a mesma urgência que ela. A primeira equipe de busca saiu de Altamira no dia 21 de agosto, exatamente uma semana após o desaparecimento. Não era se operação que as famílias esperavam, mas não havia helicóptero, não havia equipe de mergulho, não havia cães farejadores.

Era um grupo de quatro pessoas numa picap com tanque cheio e três dias de prazo. dois policiais militares do batalhão de Altamira, um agente da Defesa Civil Municipal e um morador da região de Uruará chamado Antônio Pereira da Luz, 62 anos, que tinha vivido a vida inteira às margens da Transamazônica e que foi convidado como guia porque conhecia cada ramal, cada desvio e cada atalho entre medicilândia e placas.

Levavam um rádio HT com alcance limitado, um GPS de mão cuja bateria durava 8 horas, mantimentos básicos, farinha, shark, café, biscoito de água e sal. E a expectativa realista de que se a van tivesse saído da estrada principal, as chances de encontrá-la eram reduzidas. A mata naquela região é densa.

Não é o tipo de vegetação que se atravessa a pé em facão. Os ramais que cortam perpendicularmente à Transamazônica são caminhos abertos por madeireiros, garimpeiros e fazendeiros, sem sinalização, sem manutenção e sem registro em nenhum mapa oficial. Na época das chuvas, a vegetação avança sobre esses ramais em questão de semanas.

Um veículo que entrasse por um deles em agosto poderia estar completamente coberto de mato em outubro. A equipe seguiu pela Transamazônica parando em cada comunidade, em cada fazenda, em cada ponto onde houvesse alguém para perguntar. Em Uruará, conversaram com donos de restaurante, de pousada, de borracharia.

Ninguém tinha visto a Sprinter Branca depois de Medicilândia. Ninguém lembrava de um grupo de jovens. Ninguém tinha ouvido barulho de acidente, de freada, de nada. A estrada era como sempre e indiferente. Seguiram até placas, cerca de 180 km adiante. Pararam em serrarias clandestinas que funcionavam mata dentro, onde homens de olhar desconfiado respondiam às perguntas com monossílabos e voltavam ao trabalho antes que a conversa terminasse.

pararam em comunidades ribeirinhas, onde as crianças corriam para ver a picap da polícia, e os adultos ficavam parados na porta de casa, de braços cruzados esperando. Ninguém sabia de nada, ou ninguém queria saber. Seu Antônio, o guia sugeriu entrar por três ramais que ele conhecia como possíveis desvios. Entraram pelos três.

O primeiro levava uma fazenda de gado abandonada. O segundo terminava num atoleiro, onde a picap quase não conseguiu sair. O terceiro seguia por quatro km até uma clareira, onde havia restos de uma serraria desmontada e nada mais. Em nenhum dos três encontraram marcas de pneu compatíveis com a van.

Mas seu Antônio disse, com a franqueza de quem não tem motivo para mentir: “Existem dezenas de outros ramais que eu não conheço, novos caminhos são abertos e abandonados o tempo todo, e uma van daquele tamanho podia estar a 300 m da estrada sem que ninguém visse.”

No terceiro dia, a equipe voltou para Altamira. O combustível estava acabando, o prazo estava vencido. O relatório escrito à mão pelo agente da Defesa Civil e digitado depois por um escrivão da delegacia tinha duas páginas: descrevia os locais percorridos, as pessoas consultadas e a ausência total de vestígios.

A conclusão era uma frase que dizia tudo e não dizia nada. Não foram encontrados indícios da localização do veículo ou dos passageiros no trecho investigado, sendo recomendável a ampliação da área de busca mediante recursos adicionais. Os recursos adicionais não vieram, não naquele mês. O Corpo de Bombeiros do Pará, baseado em Belém não foi acionado formalmente.

O exército, que tinha o batalhão de engenharia em Uruará, informou que busca de civis desaparecidos não estava entre suas atribuições operacionais naquele momento. A Polícia Rodoviária Federal disse que o trecho não era de sua competência direta, por não ser rodovia federal pavimentada em sua totalidade. Cada instituição apontava para outra e, enquanto isso, a estrada seguia engolindo o que tinha para engolir.

Nos meses que se seguiram ao desaparecimento, algo aconteceu que nenhuma delegacia previu e que nenhum protocolo de segurança pública contemplava. As famílias dos nove passageiros começaram a se encontrar, não por acaso, não por proximidade geográfica, mas pela força bruta do desespero compartilhado. Dalva foi a primeira a agir.

Conseguiu o número de telefone da mãe de Thago, Nascimento dos Reis, através de uma postagem antiga no grupo de Facebook, onde a viagem foi organizada. Ligou numa noite de setembro. se apresentou e disse: “Minha filha também estava naquela van.”

A mãe de Thago, dona Irene, atendeu chorando e disse: “Ninguém em imperatriz acredita em mim. Os vizinhos acham que meu filho fugiu, que devia dinheiro, que tinha se metido em coisa errada. O delegado daqui nem quis abrir BO porque o desaparecimento foi no Pará e não no Maranhão.”

Dalva ouviu tudo. Não tinha resposta para nada, mas ouviu. Na semana seguinte, Dalva criou um grupo de WhatsApp com o nome Nossos Filhos Voltam.

convidou dona Irene, depois a mãe de Lucas de Tucuruí, depois os pais de Ana Beatriz de Belém, depois a irmã de Renata de São Luís. Um por um foi juntando os pedaços. Nem todos atendiam de primeira. Alguns tinham vergonha, outros tinham medo. O pai de Diego de Marabá demorou três semanas para responder. Quando respondeu, mandou um áudio de 4 minutos em que falava sem parar, sem pontuação, sem pausa, contando tudo o que sabia e tudo o que não sabia.

E no final perguntava: “Alguém tem notícia de alguma coisa? Qualquer coisa, pelo amor de Deus.”

Aquele grupo de WhatsApp se tornou, durante os meses seguintes, a única instância funcional de investigação do caso. As famílias trocavam informações, documentos, números de telefone de delegacias, nomes de investigadores, dicas de moradores da região.

Dona Irene, que tinha um sobrinho que trabalhava no Ministério Público em São Luís, conseguiu que uma promotora de justiça redigisse um ofício pedindo informações à Polícia Civil do Pará sobre o andamento do inquérito. O ofício demorou dois meses para ser respondido. A resposta quando veio, dizia que o inquérito estava em andamento e que diligências estavam sendo realizadas.

Não especificava quais. Dalva, por sua conta, escreveu cartas. Escreveu para o Ministério Público Federal, para a Defensoria Pública da União, para a Secretaria de Segurança Pública do Pará, para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Escreveu a mão em papel pautado com a letra redonda que aprendeu na escola pública de Anápolis nos anos 1970.

Mandou pelo correio porque não sabia usar e-mail direito. A maioria das cartas nunca foi respondida. T2 receberam respostas genéricas informando que o caso havia sido encaminhado ao órgão competente. O que o Estado não fez em semanas, aquelas famílias tentaram fazer com ligação de celular pré-pago, passagem de ônibus comprada em prestação e uma determinação que não cabia em nenhum orçamento.

Dona Irene vendeu uma novilha que tinha no sítio em Imperatriz para pagar passagem até Altamira. foi de ônibus 36 horas de viagem e bateu na porta da delegacia sem avisar. O delegado a recebeu durante 10 minutos, disse que estava fazendo o possível e pediu paciência. Dona Irene voltou para a Imperatriz no dia seguinte, com o mesmo ônibus, sem nenhuma informação nova.

O pai de Lucas, seu Valdomiro, foi até Medicilândia por conta própria e conversou com Edivaldo, o frentista. ouviu dele o que a polícia já sabia, que a van tinha parado e abastecido e seguido viagem, nada mais, nada menos. Em novembro de 2015, 3 meses depois do desaparecimento, Dalva organizou uma reunião presencial com as famílias que conseguiram viajar.

Encontraram-se em Belém numa sala emprestada por uma paróquia no bairro da Cremação. Vieram cinco mães, dois pais e uma irmã. Sentaram-se em cadeiras de plástico branco debaixo de um ventilador que fazia barulho, mas não refrescava, e passaram 4 horas compartilhando o que sabiam, o que suspeitavam e o que sentiam.

Não havia pauta, não havia coordenador, havia apenas gente que tinha perdido alguém e que precisava olhar nos olhos de outra pessoa que entendia aquela dor sem precisar de explicação. Naquela reunião decidiram três coisas. Primeira, que não iam aceitar o arquivamento do caso enquanto não houvesse uma busca de verdade. E segunda, que iam procurar apoio da imprensa, mesmo sabendo que uma van desaparecida na Transamazônica não tinha o mesmo peso midiático que um caso no Sudeste.

Terceira, que iam continuar juntos, porque juntos eram 10 vozes, e 10 vozes fazem mais barulho que uma. O barulho, no entanto, não foi suficiente. Não naquele momento. A imprensa regional publicou algumas notas curtas. Um portal de notícias de Belém fez uma matéria de 500 palavras com o título: “Famílias cobram respostas sobre mochileiros desaparecidos na Transamazônica.”

A matéria teve poucas visualizações e nenhum desdobramento. A imprensa nacional não cobriu. Em agosto de 2015, o Brasil estava ocupado com outra coisa. Entre 2016 e 2022, o caso dos mochileiros da Transamazônica existiu num limbo que é mais comum do que se imagina no sistema de justiça brasileiro. Não estava encerrado, não estava arquivado formalmente, mas não estava sendo investigado de forma ativa.

O inquérito permanecia aberto na delegacia de Altamira, numa pasta que mudou de gaveta pelo menos três vezes, acompanhando a rotação de delegados que passavam pelo cargo como se fosse estação de trem. Chegavam, ficavam alguns meses, pediam transferência e iam embora, levando consigo qualquer continuidade que o caso pudesse ter.

Em 2016, o inquérito foi transferido para a Polícia Federal por determinação do Ministério Público Federal, que acolheu um pedido das famílias, levantando a possibilidade de que o desaparecimento tivesse relação com rotas de tráfico de drogas que usavam a Transamazônica como corredor logístico. A PF abriu uma investigação paralela.

Ne ouviu três informantes da região de Rurópolis e requisitou dados de satélite ao IMP para verificar se imagens de agosto de 2015 mostravam alguma movimentação atípica nas proximidades da estrada. Os dados foram inconclusivos. Os informantes não tinham informação específica sobre a van. Seis meses depois, a PF devolveu o caso à Polícia Civil estadual por falta de elementos que justificassem a competência federal.

O caso voltou para Altamira e ali ficou. Nesse vazio institucional, as teorias se multiplicaram com a naturalidade com que o mato cresce sobre uma estrada abandonada. Cada pessoa que ouvia a história acrescentava uma camada, uma possibilidade, uma explicação que se encaixava mais no medo do que nos fatos.

Moradores da região entre Uruará e placas falavam em emboscada de grileiros. a Transamazônica naquele trecho e corta áreas de disputa fundiária violenta, onde fazendeiros, madeireiros, poceiros e comunidades tradicionais convivem numa tensão que de tempos em tempos explode em morte. Não era incomum, diziam, que veículos fossem parados em trechos remotos por homens armados que controlavam o acesso a determinadas áreas. Não era incomum pessoas sumissem.

Caminhoneiros que faziam a rota Altamira e Itaituba com regularidade mencionavam em conversas de posto de gasolina e de restaurante de beira de estrada trechos onde veículos simplesmente desapareciam. Não de forma sobrenatural, de forma prática. veículos que eram tomados, desmontados e vendidos em peças no Surinami ou na Guiana Francesa, cruzando fronteiras por caminhos que nenhum mapa registra.

Pessoas que eram levadas e nunca mais apareciam. A estrada, diziam, tinha suas próprias regras e quem não as conhecia pagava o preço. Num fórum de internet dedicado a casos não resolvidos, um usuário anônimo levantou a hipótese de que a van tivesse caído de uma das pontes de madeira que cruzam igarapés ao longo do trecho.

Essas pontes são estruturas precárias, muitas vezes construídas pelos próprios moradores, sem cálculo de engenharia e sem manutenção. Quando cedem, cedem sem aviso. Um veículo que caísse de uma dessas pontes poderia ser engolido pela água e pela vegetação em questão de dias, especialmente durante a estação chuvosa.

A teoria era plausível, mas não explicava porque nenhum morador da região teria ouvido o barulho de uma van caindo de uma ponte, nem porque nenhum rastro teria sido encontrado nas margens do igarapés. Outra teoria e repetida em voz baixa nas comunidades ao longo da estrada e nunca formalizada em nenhum depoimento policial era mais simples e mais perturbadora.

dizia que a van tinha sido parada, que as pessoas tinham sido levadas, que alguém sabia exatamente o que tinha acontecido e que esse alguém vivia ali perto, andava pela mesma estrada, comprava na mesma mercearia e sentava na mesma praça de Uruará ou de placas ou de Rurópolis, sem que ninguém fizesse perguntas.

Porque naquela região fazer perguntas podia custar mais caro do que ficar em silêncio. As famílias ouviam tudo. Cada teoria era uma faca que entrava devagar. Dalva em Anápolis passou a ter insônia crônica. Dona Irene em Imperatriz desenvolveu uma pressão alta que não tinha antes. Seu Valdomiro, em Tucuruí começou a beber. A irmã de Renata em São Luís largou o emprego e passou seis meses sem sair de casa.

O grupo de WhatsApp, que nos primeiros meses era ativo e combativo, foi ficando mais silencioso. Não por desistência, por exaustão. Há um limite para o tempo que uma pessoa consegue viver com uma pergunta que não tem resposta. E esse limite não é igual para todo mundo. Em 2018, 3 anos depois do desaparecimento, o caso foi mencionado pela primeira vez num relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará numa lista de desaparecimentos não resolvidos na região da Transamazônica.

A menção ocupava duas linhas, não gerou nenhuma providência. Em 2020, durante a pandemia, Dalva gravou um vídeo de 4 minutos no celular, sentada na sala de casa em Anápolis, pedindo a quem soubesse de alguma coisa que entrasse em contato. Nenhum vídeo foi publicado no YouTube e teve 800 visualizações. Nos comentários havia mensagens de solidariedade, teorias conspiratórias e dois comentários que diziam que a história era inventada.

Dalva não respondeu a nenhum. O tempo passou e o silêncio da Transamazônica permaneceu intacto, como sempre foi. Em março de 2023, uma equipe de topografia contratada por uma empresa de mineração com sede em Parauapebas estava fazendo levantamento geodésico numa área de mata densa a 12 km ao sul da Transamazônica. entre os municípios de Rurópolis e Placas.

O trabalho era rotineiro. A empresa pretendia solicitar autorização de pesquisa mineral ao DNPM e precisava de mapas atualizados do terreno. A equipe era composta por três técnicos e um operador de drone que sobrevoava a área em quadrantes para gerar imagens de alta resolução. Se no terceiro dia de trabalho, o operador do drone notou algo no monitor.

Uma das imagens capturadas a 40 m de altitude aparecia uma forma retangular sob a copa das árvores, parcialmente coberta por vegetação, mas com contornos que não correspondiam a nenhuma formação natural. Poderia ser um contêiner abandonado, uma estrutura de madeira antiga ou um veículo. O operador marcou as coordenadas e mostrou a imagem para o restante da equipe.

Decidiram descer a pé para verificar. O trajeto do ponto onde estavam até a forma detectada pelo drone levou 40 minutos. 40 minutos abrindo o caminho com facão, pisando em raiz, desviando de si pó, espantando mosquito, suando dentro de camisa de manga comprida que usavam para se proteger de carrapato. A mata ali era fechada no sentido real da palavra, se o sol entrava em feixes finos que mal chegavam ao chão.

cheiro era de terra úmida, de folha em decomposição, de vida vegetal que cresce sobre si mesma sem parar. Quando chegaram, pararam. Ficaram em silêncio por alguns segundos. Diante deles, coberta de sipó e trepadeira, com as janelas escurecidas por uma camada de musgo e poeira acumulada durante anos, estava uma van Sprinter branca.

As rodas estavam enterradas até a metade no chão. A pintura onde ainda era visível estava descascada e manchada de ferrugem. Um arbusto tinha crescido através da grade dianteira. As janelas estavam fechadas, as portas estavam travadas, o veículo estava ali inteiro, como se tivesse sido estacionado no meio da floresta e esquecido.

O chefe da equipe de topografia, um engenheiro chamado Márcio Tavares de Souza, fotografou o veículo e anotou as coordenadas GPS e voltou para a base. ligou para a polícia civil de Rurópolis, que por sua vez acionou a delegacia de Altamira, que por sua vez confirmou que havia um inquérito aberto desde 2015, referente a uma sprinter branca com placa de marabá desaparecida na Transamazônica.

No dia seguinte, uma equipe policial saiu de Altamira em direção ao ponto indicado. Levaram um perito criminal, dois investigadores e um serralheiro para abrir o veículo sem danificar as fechaduras. Chegaram ao local no meio da tarde. O serralheiro abriu a porta lateral. O perito entrou primeiro. O que ele encontrou não fazia sentido e ito anos de espera não tinham preparado ninguém para aquilo.

Os 10 cintos de segurança estavam afivelados, todos eles. O cinto do motorista, os cintos dos nove assentos de passageiro. Cada um deles estava travado na posição normal, como se 10 pessoas estivessem sentadas ali e tivessem simplesmente desaparecido sem soltar os cintos. Os assentos estavam na posição vertical. Não havia sinais de impacto, não havia sangue, não havia marcas de luta, não havia nenhum vestígio biológico visível, nem cabelo, nem pele, nem mancha, nada que a olho nu indicasse que seres humanos tinham estado ali recentemente ou remotamente.

As mochilas estavam no bagageiro traseiro, nove mochilas, cada uma com roupas, barraca, lanterna e objetos pessoais. Numa delas havia um caderno com anotações de viagem e desenhos de paisagens. Em outra, um saco plástico com documentos RGCPF, cartão do SUS. Os documentos de Raimundo Sérgio estavam no porta-luvas junto com o caderninho onde ele anotava quilometragem e horários.

A última anotação dizia: 14 de agosto. Saí da Altamira 6:12. A chave da van não estava na ignição, não estava em nenhum lugar dentro do veículo. O tanque de combustível estava vazio, o câmbio estava em ponto morto. O freio de mão estava puxado. O perito passou 3 horas dentro e ao redor da van. fotografou tudo, coletou amostras dos assentos, dos cintos, do volante, do painel, verificou os chassis, os pneus, o sistema de escapamento.

Não encontrou projéteis, não encontrou perfurações, não encontrou sinais de arrombamento externo, não encontrou marcas de reboque ou de deslocamento forçado. Avan estava ali como se tivesse chegado sozinha de forma voluntária e tivesse ficado. O que o perito também não encontrou, e isso talvez seja o mais perturbador, foi qualquer rastro que indicasse ele como 10 pessoas saíram daquela van.

E não havia pegadas preservadas no entorno, o que era esperado depois de oito anos de chuva e vegetação. Mas também não havia cortes nos cintos, não havia sinais de que as portas tivessem sido arrombadas de dentro. Não havia marcas de unhas ou de desespero em nenhuma superfície. Os cintos estavam afivelados de forma convencional, sem torção, sem força anormal, como se cada um dos 10 ocupantes tivesse colocado o cinto, sentado em silêncio e depois simplesmente deixado de estar ali.

O laudo pericial preliminar foi concluído em junho de 2023, 3 meses depois da descoberta da van. Era um documento de 26 páginas, técnico e meticuloso, que confirmava tudo o que a equipe de campo já sabia e não oferecia nenhuma explicação para o que não sabia. Confirmou que o veículo era a Sprinter branca, placa de Marabá, registrada em nome de Raimundo Sérgio Bonfim, a mesma que saiu de Altamira na manhã do dia 14 de agosto de 2015.

A identificação foi feita pelo número do chassis, pela placa, ainda legível sob a camada de sujeira e pelo documento do veículo encontrado no porta-luvas. Confirmou que os 10 cintos de segurança estavam afivelados de forma convencional, sem sinais de travamento forçado, ruptura ou manipulação externa. confirmou que não havia marcas de impacto, capotamento, incêndio ou submersão.

A carroceria estava íntegra, os vidros intactos, as portas funcionais, o motor não apresentava danos mecânicos visíveis, embora o tanque estivesse completamente vazio e a bateria naturalmente sem carga. O câmbio estava em ponto morto, o freio de mão puxado. A chave não foi encontrada em nenhum ponto do interior ou do entorno imediato do veículo.

A perícia não encontrou projéteis, perfurações, fragmentos de arma de fogo, nem sinais de arrombamento. também não encontrou nas amostras coletadas dos assentos e superfícies internas material biológico humano em quantidade suficiente para a análise de DNA, o que, segundo o laudo, poderia ser atribuído à degradação natural ao longo de 8 anos de exposição a calor, umidade e ação de microrganismos, ou poderia não ser.

O laudo incluía ainda uma análise do terreno ao redor da van. A vegetação, segundo o perito, era consistente com um crescimento de aproximadamente 6 a 8 anos, o que coincidia com a data do desaparecimento. Não havia sinais de que o terreno tivesse sido escavado, revolvido ou alterado de forma significativa, não havia restos de fogueira, de acampamento, de construção provisória.

Não havia ossos, não havia tecido, não havia nada que indicasse que 10 pessoas tivessem vivido, morrido ou permanecido naquele local por qualquer período de tempo. O delegado responsável pelo caso em 2023 era André Luciano Mendes, 41 anos, transferido de Santarém para Altamira 2 meses antes da descoberta da van.

Mendes era um delegado experiente, com passagens pela delegacia de conflitos agrários e pela Santarém. Não era o tipo que se impressionava facilmente, mas quando leu o laudo e visitou o local pessoalmente, ficou em silêncio por um tempo que seus colegas acharam longo demais. Mendes deu uma única entrevista a um portal de notícias local chamado Fato Amazônico, publicada em julho de 2023.

Na entrevista foi econômico nas palavras. Os disse que o caso estava sendo tratado como desaparecimento coletivo em circunstâncias não esclarecidas. disse que novas diligências estavam sendo realizadas, incluindo análise de imagens de satélite e consulta a bases de dados de outros estados. Disse que as famílias estavam sendo informadas. Quando o repórter perguntou de forma direta como era possível que 10 pessoas saíssem de uma van com os cintos afivelados sem deixar nenhum rastro, o delegado ficou em silêncio por 4 segundos. Um tempo longo para quem está sendo gravado.

Antes de responder, disse: “Essa é exatamente a pergunta que eu também gostaria de responder.”

Dalva soube da descoberta da van por uma ligação do delegado Mendes no dia 23 de março de 2023. Estava na cozinha de casa em Anápolis fritando ovo para o almoço quando o telefone tocou.

O delegado se identificou. L disse que o veículo havia sido localizado e explicou com a cautela de quem sabe que cada palavra pode destruir ou reconstruir alguma coisa: “Não foram encontrados restos humanos no interior do veículo, nem nas imediações.”

Dalva ouviu tudo em pé, com a frigideira ainda no fogo. Quando desligou, desligou também o fogão, sentou-se na cadeira da cozinha e ficou ali sem se mover. durante um tempo que ela depois não soube precisar. Não era alívio, não era desespero, era uma coisa sem nome que ocupava o espaço entre os dois e que Dalva, depois de 8 anos, já conhecia como se conhece uma dor crônica, presente, constante, parte do corpo.

No grupo de WhatsApp, a notícia caiu como uma pedra num poço fundo. Don Irene mandou um áudio chorando.

Seu Valdomiro mandou uma mensagem de texto com apenas duas palavras: “E agora?”

A irmã de Renata não respondeu naquela noite. Respondeu dois dias depois, dizendo: “Não sei se a descoberta da van torna as coisas melhores ou piores.”

Ninguém soube responder. O inquérito continua aberto. Não há previsão de conclusão. Não há suspeitos. Não há corpos. Não há explicação. Há uma van encontrada no meio da mata com 10 cintos afivelados e nenhuma pessoa dentro. E há 10 famílias espalhadas pelo Brasil que continuam vivendo com uma pergunta que ninguém conseguiu responder.

Passaram-se os anos e Dalva continua morando na mesma casa em Anápolis. A foto de Camila, aos 15 anos continua na parede da sala. O celular de Camila, o número pelo menos ainda está salvo nos contatos de Dalva. Às vezes, sem motivo aparente, ela liga, vai direto para a caixa postal. A voz gravada da operadora diz o mesmo de sempre. Dalva ouve. Vespera, desliga.

Não sabe porque continua fazendo isso. Ou talvez saiba e não queira dizer em voz alta. Dona Nazaré em Altamira ainda vem farinha na feira do bairro Aparecida. A garagem onde Raimundo Sérgio guardava a vanzia. Dona Nazaré não aluga, não usa, não entra. A porta fica fechada com um cadeado que ela mesma colocou em setembro de 2015 e que nunca mais abriu.

Quando alguém pergunta pelo marido, ela diz que ele saiu para trabalhar. Não diz mais nada. Em Tucuruí, seu Valdomiro parou de beber em 2021, depois de um infarto que quase o levou. voltou a trabalhar na roça. Não fala mais do filho, mas os vizinhos dizem que de vez em quando ele para no meio da estrada de terra que liga o sítio à cidade, olha para o horizonte e fica ali parado, como se estivesse esperando alguém que deveria aparecer no fim do caminho.

A Transamazônica continua ali. A estrada continua de terra em boa parte do trecho. As pontes continuam de madeira. O mato continua fechando dos dois lados. De vez em quando, uma van ou um caminhão passa levantando poeira vermelha e a poeira demora para baixar. E quando baixa, tudo está como antes, como se ninguém tivesse passado, como se ninguém tivesse estado ali.

10 pessoas entraram numa van numa manhã de agosto. A van, as pessoas não. E no espaço entre esses dois fatos, entre a van e as pessoas que deveriam estar dentro dela, existe uma pergunta que o laudo não respondeu, que o delegado não respondeu, que 8 anos de silêncio não responderam. Uma pergunta que 10 famílias carregam todos os dias, do café da manhã até a hora de dormir e que talvez continuem carregando pelo resto da vida.

Porque certas perguntas não foram feitas para ter resposta, foram feitas para lembrar que o mundo às vezes não faz o menor sentido e que a gente continua vivendo nele si mesmo? M.