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ENTERREI UM BRUXO EM 1998… E O QUE VIVI NO CEMITÉRIO DEPOIS ME ASSUSTA ATÉ HOJE

ENTERREI UM BRUXO EM 1998… E O QUE VIVI NO CEMITÉRIO DEPOIS ME ASSUSTA ATÉ HOJE

No dia 2 de outubro de 1998, enterrei um homem no cemitério municipal de Juazeiro. Trabalhei ali durante muitos anos e pensei já ter visto de tudo: enterros simples, despedidas cheias de choro, famílias destruídas pela dor e até sepultamentos sem ninguém presente. Mas aquele foi diferente desde o primeiro instante. Ainda hoje, aos setenta e seis anos, quando me sento sozinho no fim da tarde, lembro-me daquela tarde como se estivesse acontecendo diante dos meus olhos.

O carro funerário chegou pouco antes do pôr do sol. Havia poucas pessoas acompanhando o caixão, talvez cinco ou seis. Todas bem vestidas, discretas, silenciosas. Não conversavam entre si, não choravam, não demonstravam emoção alguma. Apenas ficaram imóveis ao redor da cova, olhando para a terra aberta como quem aguardava alguma coisa.

Aquilo me causou um desconforto difícil de explicar.

Passei anos trabalhando entre mortos, e um cemitério ensina o homem a perceber detalhes. O silêncio daqueles visitantes não era um silêncio de tristeza. Era um silêncio pesado, estranho, quase frio.

Comecei o meu serviço como sempre fazia. Baixei o caixão devagar, com cuidado, mas no instante em que ele desceu para dentro da terra senti algo mudar ao meu redor. O ar pareceu mais denso. Não ouvi barulho algum, não vi nada fora do comum, porém tive a sensação clara de que havia alguma presença ali perto de mim.

Continuei o trabalho mesmo assim.

Cada pá de terra que caía sobre o caixão parecia aumentar aquele peso invisível. Quando terminei de fechar a sepultura, limpei as mãos na calça e me afastei um pouco. Foi então que aquelas pessoas finalmente se moveram.

Uma das mulheres abriu uma sacola escura e começou a retirar alguns objetos. Primeiro colocou no chão uma garrafa de vidro escuro, cheia de um líquido impossível de identificar. Depois vieram ervas secas amarradas com barbante. O cheiro era forte e o vento trouxe aquele aroma até mim, mas eu nunca tinha sentido algo parecido.

Por fim, colocaram pequenos papéis dobrados, presos com linha preta.

Fiquei observando tudo sem entender.

Um dos homens tirou do bolso algumas velas negras e as acendeu ao redor dos objetos. As chamas permaneceram firmes apesar do vento daquela tarde.

Ninguém rezou em voz alta.

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Ninguém falou uma palavra.

Permaneceram imóveis ao redor da sepultura durante alguns minutos, de cabeça baixa, como se participassem de um ritual silencioso.

Foi então que reparei numa fotografia apoiada perto da garrafa.

Era uma fotografia antiga, já amarelada pelo tempo. Quando olhei para o rosto retratado ali, senti um arrepio subir pelas costas.

Eu conhecia aquele homem.

Não pessoalmente. Nunca tínhamos trocado uma palavra. Mas eu o tinha visto várias vezes caminhando sozinho pelo cemitério durante aquele ano. Sempre quieto, sempre diante de algum túmulo, como se conversasse com alguém invisível.

E aquele era justamente o homem que eu acabara de enterrar.

Alguns colegas comentavam histórias sobre ele. Diziam que falava com os mortos. Que permanecia horas parado diante das lápides ouvindo respostas que só ele conseguia escutar.

Nunca dei importância àquelas conversas. Em cemitério, a imaginação costuma crescer depressa demais. Porém, naquele dia, olhando aquelas velas pretas e aqueles objetos estranhos sobre a terra recém-fechada, senti alguma coisa mudar dentro de mim.

Fui embora carregando aquele peso.

Nos dias seguintes tentei esquecer o assunto. O trabalho no cemitério nunca para. Sempre há covas para abrir, sepulturas para limpar, famílias chegando e indo embora. A rotina acaba empurrando certas lembranças para o fundo da mente.

Mas cerca de uma semana depois começaram os comentários.

Um colega que trabalhava próximo daquele setor me procurou logo cedo. Disse que sentira alguém passar por trás dele enquanto limpava uma área perto da sepultura. Ao mesmo tempo, ouviu um sussurro junto ao ouvido.

Virou-se imediatamente.

Não havia ninguém.

Ele não era homem de inventar histórias. Era sério, trabalhador antigo dali. Por isso o relato me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.

Dias depois foi a vez da mulher responsável pela limpeza das lápides.

Ela me contou que viu um homem parado diante de uma sepultura, de costas, cabeça baixa. Achou que fosse um visitante comum e continuou trabalhando. Bastaram poucos segundos para baixar os olhos e voltar a olhar.

O homem havia desaparecido.

Sem passos.

Sem ruído.

Sem lugar onde pudesse ter se escondido.

Perguntei em qual setor aquilo tinha acontecido.

Ela apontou exatamente para a área onde estava enterrado aquele homem.

A partir daí os funcionários começaram a chamar aquela sepultura de “o túmulo do bruxo”. Ninguém sabia quem inventara o apelido, mas ele se espalhou naturalmente entre nós.

Eu tentava manter a razão.

Num cemitério, qualquer sombra parece uma pessoa. Qualquer vento parece um sussurro. Era nisso que eu me agarrava para continuar trabalhando em paz.

Só que os relatos continuaram.

Outro funcionário contou ter ouvido vozes baixas perto da sepultura numa tarde quase vazia. Um rapaz mais novo se recusava a permanecer sozinho naquele setor depois das cinco horas.

Mesmo assim, com o passar das semanas, os comentários começaram a diminuir. O tempo foi levando aquilo embora, e aos poucos voltei à minha rotina normal.

Até aquela tarde.

Já fazia quase um mês desde o enterro.

Eu estava trabalhando do outro lado do cemitério, fazendo pequenos reparos numa sepultura antiga. O relógio se aproximava das seis da tarde e a maior parte dos visitantes já havia ido embora.

O silêncio do cemitério naquele horário sempre foi diferente. Mais profundo. Mais vazio.

Eu estava terminando o serviço quando ouvi um sussurro.

Baixo demais para entender.

Parei imediatamente e olhei em volta. Não havia ninguém.

Pensei que fosse o vento passando entre as árvores, mas o ar estava completamente parado.

Voltei ao trabalho.

Menos de um minuto depois o sussurro retornou.

Mais próximo.

Mais claro.

Larguei a ferramenta e fiquei imóvel. Na mesma hora uma dor forte explodiu na minha cabeça. Não foi uma dor gradual. Surgiu de repente, violenta, como se algo apertasse meu crânio por dentro.

Junto dela veio outra sensação.

A certeza absoluta de que eu não estava sozinho.

Ergui os olhos devagar.

Três fileiras de túmulos adiante havia um homem parado.

De costas.

Cabeça baixa.

Completamente imóvel.

Pisquei várias vezes achando que pudesse ser algum visitante atrasado. Mas havia algo errado naquela figura. Ela permanecia parada demais, silenciosa demais.

Então o ambiente mudou.

O ar pareceu pesado como chumbo. O sussurro aumentou. A dor de cabeça piorou tanto que minhas pernas fraquejaram.

Tentei me mover, mas meu corpo não respondeu.

Foi nesse instante que o homem começou a virar lentamente.

Primeiro a cabeça.

Depois os ombros.

Depois o corpo inteiro.

Quando vi o rosto, perdi o ar.

Era ele.

O mesmo homem da fotografia.

O mesmo homem que eu enterrara com minhas próprias mãos semanas antes.

Meu coração disparou tão forte que achei que fosse cair ali mesmo.

As velas pretas, a garrafa escura, os papéis amarrados com linha negra, os comentários dos colegas… tudo voltou à minha mente ao mesmo tempo.

Ele ficou me olhando.

Então começou a caminhar na minha direção.

Devagar.

Um passo após o outro.

Não havia raiva no rosto dele. Nem expressão alguma. Apenas caminhava.

Eu continuava sem conseguir sair do lugar.

Quando finalmente chegou perto, aconteceu o pior.

Ele passou através de mim.

Não senti frio. Não senti toque. Foi algo pior do que isso.

Por um segundo tive a sensação de desaparecer. Como se o espaço ao meu redor tivesse ficado vazio de tudo, inclusive de mim mesmo.

E então ele seguiu andando.

A dor de cabeça começou a diminuir.

O sussurro cessou.

Virei-me lentamente e o vi parar diante de outra sepultura, exatamente como eu o vira tantas vezes antes de morrer: cabeça baixa, imóvel, como alguém em oração.

Foi nesse momento que minhas pernas voltaram a obedecer.

Recuei devagar, sem desviar os olhos dele.

Depois me virei e atravessei o cemitério quase correndo.

Não olhei para trás nenhuma vez.

Naquela noite não dormi.

Fiquei encarando o teto até amanhecer, tentando encontrar alguma explicação racional para o que tinha vivido. Não encontrei.

Na manhã seguinte cheguei mais cedo ao trabalho e fui direto até a sepultura dele.

Pela primeira vez li o nome gravado na lápide:

Ezequiel Ferreira.

1946 — 1998.

Fiquei alguns minutos em silêncio. Depois fiz uma oração simples, daquelas que um homem humilde aprende na infância.

Pedi a Deus que desse paz àquela alma, fosse ela boa ou má. Pedi descanso para o espírito daquele homem e proteção para todos nós que trabalhávamos ali.

Depois fui embora.

E nunca mais vivi algo parecido.

O cemitério voltou ao normal. Ainda ouvi alguns sussurros ou ruídos estranhos nos meses seguintes, mas nada se comparou àquela tarde de outubro.

Continuei trabalhando ali até 2004, quando me aposentei.

Muitos anos passaram desde então.

Nunca contei essa história para muita gente, porque aprendi que certas coisas só acredita quem vive. Quem nunca passou por algo assim sempre procura uma explicação qualquer.

Mas eu sei o que vi.

E sei o que senti.

Depois de enterrar Ezequiel Ferreira, o cemitério municipal de Juazeiro nunca mais foi o mesmo para mim. E até hoje, quando a noite cai e o silêncio toma conta da casa, ainda me lembro daquele homem caminhando entre os túmulos como se jamais tivesse pertencido ao mundo dos mortos.

Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.