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O QUE SENTI APÓS O ENTERRO DO MEU MARIDO EM 1991 ME FEZ VOLTAR AO CEMITÉRIO E ME PERTURBA ATÉ HOJE!

O QUE SENTI APÓS O ENTERRO DO MEU MARIDO EM 1991 ME FEZ VOLTAR AO CEMITÉRIO E ME PERTURBA ATÉ HOJE!

No dia 14 de agosto de 1991, quando o funeral do meu marido terminou e passei pelo portão do cemitério, senti algo que me envergonhou durante muito tempo: senti alívio. E, duas semanas depois, a culpa fez-me voltar àquele cemitério. Quando vi o túmulo dele, o ar em meu redor mudou e uma sensação que eu já conhecia voltou a surgir. Foi nessa altura que escutei as palavras que me perturbam até hoje.

O meu nome é Odete Ferreira, tenho 76 anos, e esta é a minha história.

Naquele dia, eu esperava sentir alguma coisa, mas não sentia nada. E isso assustou-me mais do que qualquer tristeza me poderia assustar. A agência funerária tinha tratado de tudo; eu só precisei de assinar alguns papéis e esperar. Vieram alguns vizinhos, conhecidos do Valdemar do tempo do comércio, gente que eu mal conhecia de vista. Ficaram algum tempo, deram os pêsames, e eu agradecia, baixava a cabeça e ficava calada. Não havia muito para dizer. O nosso casamento tinha sido apenas entre nós os dois, e o que se passou dentro daquela casa, ficou dentro daquela casa.

Quando o caixão foi colocado no carro funerário e seguimos em direção ao cemitério de São Francisco de Paula, senti-me vazia. Não era paz, não era alívio, não era nada que pudesse nomear facilmente. Já no cemitério, quando o caixão foi retirado do carro e os homens começaram a carregá-lo, segui atrás, devagar, com as mãos cruzadas à frente do corpo. Estariam umas quinze pessoas presentes.

Quando chegámos ao local da sepultura, o padre começou a rezar. Foi nesse momento que percebi algo que, até hoje, não sei explicar muito bem. Não era nada visível, era uma sensação. Era como se o ar ao redor do caixão estivesse mais denso do que o resto do ambiente, como se houvesse ali uma presença a acompanhar tudo aquilo, a caminhar ao lado do caixão. Pisquei os olhos e olhei à minha volta. As outras pessoas mantinham-se quietas, de cabeça baixa, e ninguém parecia notar nada de diferente. Cheguei a interrogar-me se estaria a ficar perturbada devido ao cansaço acumulado dos últimos cinco anos.

Esse pensamento fez sentido por um instante, mas a sensação não desapareceu. Ficou ali, ao meu lado, enquanto o padre falava e enquanto o caixão descia lentamente. Tentei concentrar-me nas orações e fechar os olhos, mas uma parte de mim continuava a prestar atenção àquilo que eu não conseguia ver. Quando tudo terminou e as pessoas começaram a dispersar, fiquei parada por um momento junto ao túmulo. Olhei para a terra, para as flores e tentei encontrar dentro de mim algo que fizesse sentido. Mas não veio nada, apenas aquele peso ao meu lado.

Virei-me e comecei a caminhar em direção ao portão. Esperava que a sensação me acompanhasse até lá fora, mas aconteceu o contrário. Quanto mais me afastava do túmulo, mais a sensação diminuía, como se aquela presença tivesse um limite que não conseguia ultrapassar. Continuei a andar sem olhar para trás.

Cheguei ao portão e saí. Quando os meus pés tocaram a calçada do lado de fora, a sensação desapareceu de imediato. O ar voltou ao normal, o peso desvaneceu-se e o aperto que eu nem tinha percebido que trazia no peito aliviou. Parei na calçada e fiquei quieta, a sentir a diferença entre o interior do cemitério e o lado de fora.

E foi ali, parada, com o ruído da rua a regressar aos meus ouvidos, que senti a tal coisa que me envergonhou por muito tempo. Algo que nunca contei a ninguém, que guardei durante anos, com vergonha de admitir até para mim mesma: quando o funeral acabou e eu passei o portão, senti alívio por ter enterrado o meu marido.

Casei-me com o Valdemar em 1959. Eu tinha 19 anos e ele 32. A minha família achou que era uma excelente escolha. Ele tinha um negócio, casa própria, uma vida organizada. Para eles, era tudo o que uma rapariga precisava. Ninguém me perguntou o que eu sentia. Naquele tempo, não se perguntavam essas coisas.

Nos primeiros anos, ele foi atencioso e gentil. Levava-me a passear, trazia-me presentes e perguntava-me como eu estava. Acreditei sinceramente que tinha feito uma boa escolha e que passaria o resto da vida ao lado de um bom homem. Mas o tempo mostrou que as pessoas nem sempre revelam logo quem são. Lentamente, ele foi ficando mais fechado, sério e distante. As saídas diminuíram, as conversas ficaram mais curtas, e a atenção esfumou-se sem qualquer justificação. Tentei falar sobre o assunto, mas ele desviava a conversa ou remetia-se ao silêncio. Acabei por aprender a não insistir.

Não tínhamos filhos, e o silêncio cresceu com os anos, tornando-se num fardo pesado e frio.

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Em 1986, com 27 anos de casados, o Valdemar teve um AVC grave. Sobreviveu, mas os médicos avisaram que as sequelas seriam permanentes. Regressou a casa numa cadeira de rodas, sem conseguir andar direito devido ao lado esquerdo paralisado. Disse a mim mesma que iria cuidar dele, pois era o meu dever.

No entanto, o Valdemar não aceitou a doença. A raiva apoderou-se dele de uma forma assustadora. Reclamava de tudo: da comida, da temperatura, da forma como o ajudava. Quando não reclamava, acusava-me de querer ver-me livre dele e de não me importar. Eu ouvia em silêncio e continuava a fazer o meu trabalho.

Foi nessa época que comecei a notar coisas inexplicáveis na casa. Passos à noite, ruídos nas divisões dos fundos, a sensação constante de que havia algo mais no quarto com ele. Durante os seus delírios noturnos, a sua voz mudava de um tom que me gelava o estômago, como se não fosse ele a falar.

Quando pensava em desistir, a minha mãe dizia-me que era dever da esposa suportar tudo, e que Deus recompensaria o meu sacrifício. E eu acreditava. Vivia isolada num casamento que os outros viam como um exemplo de dedicação, mas ninguém sabia o que era acordar todos os dias e enfrentar as mesmas quatro paredes e a mesma angústia.

Cuidei dele sozinha durante cinco anos. E no dia 14 de agosto de 1991, ele morreu em silêncio.

Após o funeral, o vazio e a ausência do ruído doentio do Valdemar deixaram-me confusa. E a culpa pelo alívio que senti não me largava. Decidi então voltar ao cemitério para tentar fazer as pazes com tudo aquilo. Fui até à sua sepultura, fechei os olhos e comecei a rezar.

Nesse instante, o ar à minha volta voltou a ficar pesado e denso. A presença que sentira no dia do funeral estava lá novamente. Foi então que ouvi uma voz vinda do nada. Reconheci-a imediatamente: era a voz do Valdemar, mais funda e rouca.

“Fizeste pouco por mim. Deixaste-me morrer”, disse a voz.

As minhas pernas fraquejaram, mas não fugi. Respirei fundo e, após 32 anos de submissão e cinco anos de cuidados solitários, decidi falar. Em voz alta, sem me importar com quem pudesse ouvir, despejei tudo: os anos dedicados à casa, as noites sem dormir a cuidar dele sem nunca receber um “obrigado”, e o facto de não o ter abandonado quando todos diziam que seria difícil. Falei que cumpri o meu dever até ao último minuto, sem pedir nada em troca.

Terminei a minha declaração e rezei. Não com raiva, mas com sinceridade, pedindo a Deus que lhe desse paz e o libertasse do que o prendia ali. Quando abri os olhos, a presença densa tinha desaparecido. O cemitério estava finalmente em paz.

Olhei para a lápide e percebi que não sentia raiva nem mágoa. Tudo terminara ali. Afastei-me do túmulo com uma leveza que há décadas não sentia.

A voz do Valdemar nunca mais voltou. Lentamente, fui retomando a minha vida, frequentando a missa e convivendo com as vizinhas. Foi então que conheci o António. Ele era viúvo, com cerca de 60 anos, e tinha uma calma e gentileza que me desconcertaram ao início. Ele ouvia-me, importava-se comigo e agradecia-me pelas pequenas coisas.

Aprendi o que era ter uma companhia de verdade, e vivemos juntos os melhores anos da minha vida. As cicatrizes do Valdemar nunca desapareceram totalmente; tive de aprender a receber afeto e a pedir ajuda. Acabei por perdoá-lo, não porque o que ele fez fosse correto, mas porque precisava de seguir em frente sem carregar aquele fardo. O perdão foi por mim, não por ele.

Perdoar não apaga o passado, mas liberta-nos para o futuro.