
Às 23h15, A Campainha Tocou… Olhei A Câmera E Ele Estava De Costas. Na Terceira Noite, Ouvi A…
Eu estava a terminar um projeto de design de interiores quando o meu telemóvel vibrou em cima da secretária. Era quase meia-noite. O ecrã iluminou-se no escuro com uma mensagem da Dona Beatriz, a minha adorável vizinha do apartamento 502.
“Carolina, preciso de falar consigo. É urgente.”
A Dona Beatriz tinha sessenta e oito anos e nunca fora mulher dada a dramatismos ou exageros. Se ela dizia que era urgente, era porque o assunto se revestia de verdadeira gravidade. Vesti um casaco de lã por cima do pijama e subi as escadas até ao quinto andar, sentindo uma leve apreensão no peito.
Ela abriu a porta antes mesmo de eu conseguir tocar à campainha. O seu rosto, habitualmente sereno, estava agora tenso e vincado pela preocupação. Puxou-me para dentro da sua sala com uma urgência palpável e fechou a porta rapidamente, como se temesse que alguém nos pudesse observar do corredor.
“O que aconteceu, Dona Beatriz? A senhora está bem?” perguntei, tentando decifrar o seu olhar assustado.
Ela segurou a minha mão. A pele dela estava gélida, contrastando com a noite amena.
“Carolina, ontem à noite, por volta das duas da manhã, acordei com um barulho estranho no corredor. Levantei-me para ir à casa de banho e, por puro instinto, olhei pelo óculo da porta.” Ela fez uma pausa, respirando fundo para ganhar coragem. “Estava um homem parado em frente à sua porta.”
O meu estômago gelou instantaneamente. “Como assim, parado? Não estaria apenas a passar de passagem para outro andar?”
“Não, Carolina. Estava parado mesmo. A olhar fixamente para a sua porta. Usava um blusão escuro e tinha as mãos escondidas nos bolsos. Fiquei a observá-lo, paralisada, durante uns dez minutos. Ele não se moveu, apenas ficou ali. E depois… depois desceu pelas escadas de serviço. Não usou o elevador. Foi pelas escadas.”
Tentei processar aquela informação perturbadora. Moro no apartamento 401. É o mesmo andar onde vivi com o meu ex-marido, o Rafael, durante cinco longos anos, até nos divorciarmos há cerca de oito meses.
A casa pertencia aos meus pais, mas quando eles decidiram reformar-se e mudar-se para a tranquilidade do interior, o Rafael e eu ficámos a morar aqui. Depois do divórcio, houve uma batalha desgastante sobre quem ficaria com a casa.
No final, o tribunal decidiu, de forma justa, que eu poderia continuar a morar aqui. No entanto, o Rafael nunca aceitou bem essa decisão. A sua amargura sempre foi um fantasma a pairar sobre a minha nova vida.
“Dona Beatriz, a senhora conseguiu ver o rosto dele?” perguntei, com um fio de voz.
Ela abanou a cabeça, desolada. “Não, ele estava de costas para mim. Mas, Carolina…” Ela apertou a minha mão com ainda mais força, transmitindo-me o seu medo. “Não foi a primeira vez. Na semana passada, na segunda-feira, eu vi esse mesmo homem a conversar com o Rafael no parque de estacionamento do prédio. Reconheci de imediato o blusão.”
O meu coração acelerou de forma descontrolada. “A senhora tem a certeza de que era o Rafael?”
“Absoluta, minha querida. Eles conversaram durante uns quinze minutos. O homem pareceu anotar algo num pequeno caderno enquanto o Rafael falava.”
Voltei para o meu apartamento com a cabeça a andar à roda. O Rafael a conversar com um homem estranho que, dias depois, ficou dez minutos parado em frente à minha porta às duas da manhã? Tranquei a porta com a chave, coloquei a corrente de segurança e, num ato de puro desespero, ainda arrastei uma cadeira pesada para deixar encostada à madeira.
Não consegui pregar olho nessa noite. No dia seguinte, instalei uma aplicação no telemóvel que ligava a câmara do meu antigo tablet continuamente, apontada para a porta, guardando tudo na nuvem. Também consegui configurar o acesso à câmara das escadas de serviço do prédio. O nosso edifício é antigo, construído em 1978, e infelizmente só tem videovigilância na receção e nas escadas de serviço, nenhuma nos corredores dos andares.
Eram 23:15 quando a campainha tocou. Estava a trabalhar no computador, a rever as plantas de uma moradia na zona da Lapa. O som agudo fez-me saltar da cadeira com o susto.
Peguei no telemóvel com as mãos a tremer e abri a transmissão da câmara. Tinha alguém ali. Um homem a usar um blusão preto, de costas para a objetiva. Não dava para ver o rosto. Ele estava completamente imóvel, como se soubesse exatamente o ângulo da lente e quisesse evitar ser identificado a todo o custo.
Fiquei a olhar para o ecrã durante dois longos minutos. Ele não se mexia, não voltou a tocar a campainha. O meu primeiro impulso foi ligar para o porteiro. O Senhor Mário atendeu ao terceiro toque.
“Senhor Mário, está um homem estranho em frente à porta do meu apartamento. O senhor deixou alguém subir?”
Ouvi-o suspirar do outro lado da linha, com aquela paciência de quem trabalha à noite. “Dona Carolina, não subiu ninguém, garanto-lhe. Estou aqui na receção desde as vinte horas e ninguém passou por aqui.”
“Mas está alguém na câmara, Senhor Mário. Eu estou a vê-lo.”
“Deve ser algum morador, minha senhora, ou talvez visita de algum vizinho que já cá estava.”
Desliguei o telefone, frustrada e assustada. Olhei para a câmara novamente. O homem continuava ali, de costas, mas agora percebi um detalhe que me causou um calafrio terrível. Ele estava a usar luvas pretas. Quem usa luvas pretas no interior de um prédio residencial?
Depois de mais cinco minutos agonizantes, ele finalmente mexeu-se. Mas não se virou. Simplesmente caminhou em direção ao corredor, ainda de costas, e desapareceu rumo às escadas de serviço.
Liguei para o Rafael. Era quase meia-noite, mas eu precisava de respostas. Ele atendeu à quinta chamada, com uma voz carregada de sono.
“Estás onde, Rafael?” perguntei, sem rodeios.
“Sabes que horas são, Carolina? Estou em casa. Na casa da Juliana. Porquê?” A Juliana era a nova namorada dele. Tinham começado a relação apenas três meses após o nosso divórcio.
“Contrataste alguém para me seguir ou assustar?”
Fez-se silêncio do outro lado da linha. “De que é que estás a falar?”
“Um homem ficou parado em frente à minha porta. A Dona Beatriz viu-te a conversar com ele na semana passada.”
“Carolina, estás a enlouquecer outra vez. Não contratei ninguém e já não tenho nada a ver contigo ou com esse apartamento. Boa noite.” E desligou.
Fui verificar o Instagram dele. A última publicação tinha sido feita há uma hora. Ele e a Juliana estavam a ver um filme na sala, com ela a apoiar a cabeça no ombro dele. Ele estava mesmo lá. Mas então, quem era o homem do blusão?
Não consegui dormir. Fiquei acordada até às cinco da manhã. No dia seguinte, resolvi investigar as gravações da câmara das escadas de serviço. Acelerei o vídeo desde as dez da noite. Às 22:37, ele apareceu. O homem do blusão preto entrou pela porta de serviço do prédio.
Como tinha a chave do prédio, subiu até ao terceiro andar e simplesmente sentou-se nos degraus, à espera. Fiquei horrorizada. Ele ficou sentado ali, no escuro, durante quase uma hora. Às 23:15, subiu até ao meu andar, tocou a campainha, esperou de costas e depois foi-se embora.
Fui conversar com a Dona Beatriz novamente e mostrei-lhe os vídeos.
“É ele, Carolina. É o mesmo homem”, confirmou ela. “Lembro-me agora que o Rafael lhe mostrou algo no telemóvel. Fotografias, creio eu. E o homem tomou notas.”
Naquela mesma tarde, paguei a um serralheiro para instalar uma fechadura nova e trocar a velha corrente da porta por uma blindada. “Esta corrente é de aço reforçado, minha senhora”, garantiu-me o homem. “Ninguém consegue abri-la por fora.”
Era uma e meia da manhã quando a campainha tocou mais uma vez. Eu estava deitada, acordada, à espera. Sabia que ele voltaria. Abri a câmara no telemóvel. Lá estava ele. Blusão escuro, luvas pretas, de costas. Mas desta vez, reparei noutros detalhes.
O blusão era de uma marca específica desportiva. A altura e a compleição física eram idênticas às do Rafael. Fiz uma captura de ecrã e ampliei a imagem ao máximo. A qualidade era fraca, mas consegui distinguir um pequeno corte no pescoço do homem, ainda com um penso rápido.
O Rafael tinha feito a barba na última vez que nos vimos, quando veio buscar umas caixas, e tinha-se cortado exatamente naquele local. Meu Deus. Era ele. Era o Rafael disfarçado.
Pesquisei na internet como abrir correntes de portas por fora. Os resultados deixaram-me em pânico. Havia dezenas de vídeos a mostrar como fazê-lo com um simples arame ou elástico. Ele andava a estudar o apartamento, as rotinas, as fechaduras.
No dia seguinte, fui ter com o meu advogado, o Dr. Paulo, e mostrei-lhe tudo. “Carolina, isto é assédio grave. Vamos pedir uma ordem de restrição.”
O Dr. Paulo olhou para mim com muita seriedade. “Carolina, se ele está a fazer isto, há um motivo obscuro. Ele quer que a senhora pareça instável. Quer deixá-la paranoica para que comece a agir de forma irracional. Depois, usa isso no tribunal para alegar que não tem condições mentais para viver sozinha e tira-lhe a casa.”
A revelação caiu sobre mim como uma pedra. Era uma estratégia maquiavélica e cruel.
Na terceira noite, eu estava preparada. Eram duas da manhã quando ouvi o som metálico de uma chave na fechadura. Caminhei silenciosamente e olhei pelo óculo. Era o Rafael, desta vez sem disfarce. Estava a tentar abrir a minha porta com uma cópia da chave antiga que me tinha roubado.
A primeira fechadura cedeu. O meu coração batia tão depressa que quase desmaiei. Ouvi-o praguejar quando percebeu que a segunda fechadura, a nova, não abria. Tirou uma ferramenta do bolso, um gancho de metal, e começou a tentar forçar a porta.
Peguei no telemóvel e comecei a gravar pelo óculo da porta.
“Rafael!” gritei, com uma firmeza que nem sabia que tinha. “Estou a gravar tudo. A polícia já vem a caminho.”
Vi-o recuar. Olhou diretamente para o local onde sabia estar a minha câmara improvisada. “Carolina, abre a porta. Precisamos de falar.”
“Sai daqui! Esta casa é minha. A justiça decidiu. Se não saíres, grito até acordar o prédio inteiro.”
O rosto dele contorceu-se de raiva. “Vais arrepender-te. Vou provar que és louca e vou tirar-te este apartamento.”
“O vídeo de ti a tentares arrombar a minha porta vai para a polícia amanhã de manhã. És um idiota, Rafael. Acabaste de me dar todas as provas de que precisava.”
Ele empalideceu, guardou o gancho e fugiu pelas escadas. Liguei para a polícia de imediato. Quando chegaram, mostrei todas as provas. No dia seguinte, na esquadra, apresentei uma queixa formal. A ordem de restrição foi emitida rapidamente.
Uma semana depois, o advogado dele propôs um acordo. O Rafael desistiria de qualquer direito sobre a casa se eu retirasse a queixa criminal por invasão e assédio. Sorri pela primeira vez em semanas. Aceitei, com a condição de que ele pagasse todas as minhas despesas legais e assinasse uma confissão do terror psicológico que me tentara infligir. Ele não teve alternativa senão aceitar.
Quando saí do notário, encontrei a Dona Beatriz.
“Acabou, Dona Beatriz”, disse-lhe, com lágrimas de alívio. “Ele assinou tudo.”
Ela abraçou-me com a sua ternura habitual. “Eu sabia que a senhora era forte, minha querida. Foi a senhora que se salvou a si mesma.”
Subi para o meu apartamento e senti uma paz profunda. Instalei um sistema de segurança topo de gama. Pintei as paredes de tons claros, comprei plantas e redecorei a sala, apagando qualquer vestígio do Rafael.
Ainda durmo com o telemóvel por perto, mas agora durmo tranquila. Descobri que a nossa verdadeira força surge quando somos testadas ao limite. Nenhuma casa e nenhuma pessoa valem mais do que a nossa paz de espírito. E, hoje, sei que sou perfeitamente capaz de me proteger e de ser feliz, sozinha e em segurança.