
Em 12 de outubro de 2007, uma sexta-feira de feriado prolongado, 14 crianças entre 9 e 11 anos subiram num ônibus escolar branco na porta da Escola Municipal Professora Olinda Brito de Souza, no bairro do Parque das Laranjeiras, em Manaus. O ônibus pertencia à prefeitura. O motorista era funcionário terceirizzado.
A excursão tinha como destino o balneário do Tarumã a cerca de 20 km do centro da cidade, numa área de igarapés que as famílias da zona norte conheciam bem. Duas professoras acompanhavam o grupo. Uma delas, Marinalva dos Santos Queiroz, de 52 anos, assinou a lista de presença às 7:12 da manhã com 14 nomes.
Às 7:15, o ônibus saiu. Às 8:40, nenhuma das professoras ligou para a coordenação da escola, dizendo que haviam chegado e que as crianças já estavam descendo para a beira do igarapé. Foi a última comunicação registrada. O ônibus foi encontrado às 4 da tarde do mesmo dia, estacionado no acostamento da AM010, a 11 km do balneário, com os bancos vazios, as janelas abertas e o motor frio. Dentro havia mochilas, garrafas de água pela metade, uma sandália infantil no corredor e a lista de presença assinada por Marinalva, dobrada no painel. As duas professoras foram localizadas naquela noite, andando pela margem da estrada em direção a Manaus, em estado de choque. Nenhuma das duas conseguiu dar um relato coerente sobre o que havia acontecido.
As crianças não estavam com elas, não estavam no balneário, não estavam na estrada, não estavam em lugar nenhum.
Esta não é a história de um acidente fluvial.
Embora a imprensa tenha tratado assim nas primeiras semanas, não é a história de um sequestro coletivo.
Embora a polícia tenha trabalhado com essa hipótese durante meses, é a história de 14 famílias do mesmo bairro, da mesma escola, do mesmo ônibus, que numa manhã de feriado mandaram os filhos para um passeio de um dia e passaram 18 anos sem uma resposta que fizesse sentido.
é a história de uma cidade que parou, de uma investigação que se desdobrou em três inquéritos, duas CPs estaduais e um processo federal que nunca chegou a julgamento.
E é a história do que foi encontrado em 2025 numa área de mata fechada a 7 km do balneário por uma equipe de topografia que fazia medição para uma linha de transmissão, algo que não encerrou o caso, nem mais que mudou para sempre o que se acreditava saber sobre ele. O bairro do Parque das Laranjeiras fica na zona norte de Manaus, numa região de casas simples, ruas de asfalto irregular e quintais onde se ouve o barulho dos vizinhos o dia inteiro. Em 2007, a escola Olinda Brito de Souza atendia cerca de 400 crianças do ensino fundamental.
A excursão Altar human a tradição de final de ano, um prêmio para os alunos com melhor frequência.
Os pais assinaram autorizações, alguns prepararam lanche. Outros deram R$ 2 para o filho comprar picolé na beira do rio. Nenhum deles imaginou que aquela manhã de sexta-feira seria a última vez que veriam os filhos saindo de casa com a mochila nas costas e o chinelo nos pés. Se esse tipo de história te faz repensar o quanto sabemos de verdade sobre o que acontece longe dos centros urbanos e onde a mata e o silêncio guardam o que a cidade esquece, você pode se inscrever no canal e deixar o seu comentário.
A partir daqui, a história avança devagar. Cada detalhe precisa ser contado na ordem em que aconteceu, porque a ordem é parte do que nunca foi explicado. Quantas horas uma mãe espera antes de sair procurando sozinha? O que acontece quando 14 famílias descobrem ao mesmo tempo que os filhos não voltaram?
Em que ponto o estado reconhece que perdeu 14 crianças e não sabe dizer como? O que se encontra numa mata depois de 18 anos? E o que isso significa para quem nunca parou de esperar?
Estamos em Manaus em outubro de 2007.
O calor é de 34º desde as 6 da manhã. O rio Negro está na vazante. Os igarapés da zona norte estão baixos, mas com bancos de areia expostos onde as crianças costumam brincar.
O Corpo de Bombeiros de Manaus tem três equipes de busca para uma área metropolitana que se espalha por mais de 11.000 km questa urbana e periurbana.
A delegacia mais próxima do balneário do Tarumã é o 19º distrito integrado de polícia, que naquele feriado funcionava com efetivo reduzido. A lista estava escrita à mão, em caneta azul numa folha de caderno pautada que Marinalva havia arrancado do bloco da secretaria. 14 nomes, 14 idades, 14 assinaturas de responsáveis colhidas nos dias anteriores. No Alto da Folha, a data, 12 de outubro de 2007. E o destino, Balneário do Tarumã. Saída às 7 horas, retorno previsto às 15 horas. A coordenadora da escola, Rosângela Pimentel, conferiu a lista e carimbou.
Depois da colocou uma cópia na pasta de eventos do semestre e foi tomar café.
Quando ass polícia pediu essa cópia 48 horas depois, Rosângela não conseguiu encontrar a pasta. Disse que talvez estivesse na sala da diretora, que estava de férias. A lista só reapareceu 11 dias depois, dentro de um arquivo morto, com um café derramado sobre três dos 14 nomes, tornando-os ilegíveis.
A identificação completa das crianças levou mais quatro dias. Essa demora não era em comum para os padrões da rede municipal de ensino de Manaus naquele período. A escola funcionava com três turnos, quase 1000 alunos no total e uma secretaria que operava com duas funcionárias para toda a documentação.
Os arquivos eram físicos, guardados em pastas de plástico dentro de armários de aço que enferrujavam com a umidade. Não havia digitalização, não havia backup. A pasta de eventos do semestre ficava junto com atas de reunião, recibos de merenda e ofícios da Secretaria de Educação que ninguém lia.
Era o tipo de organização que funciona no dia a dia, mas que desmorona quando alguém precisa de uma informação com urgência.
O delegado Airton Brandão Teixeira, responsável pelo caso, registrou em seu relatório preliminar que a demora na identificação completa das crianças comprometeu as primeiras 48 horas da investigação.
Sem saber com precisão quem eram as 14 crianças, não era possível notificar todas as famílias ao mesmo tempo, nem cruzar informações sobre quem tinha visto o que antes da partida do ônibus.
Três das famílias só foram localizadas no dia 14 de outubro, dois dias após o desaparecimento.
Uma delas, a família Monteiro Duarte, morava numa ocupação irregular na beira de um igarapé. no bairro da Santa Eeluvina, sem endereço formal, sem telefone fixo e sem vizinho cadastrado na escola. O pai Raimundo Monteiro Duarte trabalhava como ajudante de pedreiro numa obra do outro lado da cidade e só soube que o filho havia desaparecido quando voltou para casa na noite de domingo e encontrou um bilhete da polícia preso na porta com fita adesiva. A lista de presença original, a que Marinalva assinou e deixou dobrada no painel do ônibus, foi recolhida pela perícia e analisada. A caligrafia era de Marinalva. A tinta era compatível com uma caneta esferográfica comum, mas havia um detalhe que só foi notado semanas depois, quando o perito grafotécnico revisou o documento a pedido do Ministério Público. Ao lado de dois dos nomes, ele havia pequenas marcas a lápis, dois riscos diagonais, quase invisíveis a olho nu, como se alguém tivesse assinalado aqueles nomes por um motivo específico.
Marinalva, quando perguntada, disse que não se lembrava de ter feito aquelas marcas. A perícia não conseguiu determinar se a marca havia sido feita antes ou depois do embarque. Os dois nomes assinalados pertenciam a irmãos gêmeos, Lucas e Luan Figueira Barbosa, de 10 anos. A mãe deles, Neusa Figueira, se era merendeira na mesma escola.
Naquela manhã, Neusa tinha ajudado a preparar os lanches e colocado os dois filhos no ônibus com as próprias mãos.
Ela não sabia o que significavam aquelas marcas. Ninguém sabia. O que se sabia era que a lista existia, que os nomes eram reais, que as crianças haviam entrado no ônibus e que em algum ponto entre a saída da escola e o fim daquela tarde, todas desapareceram sem que restasse uma explicação plausível.
A lista era a única prova documental de que aquele passeio tinha acontecido e durante anos foi tratada pela investigação como pouco mais do que um registro burocrático.
Só muito depois, alguém percebeu que talvez fosse a peça mais importante do caso e que tinha ficado 11 dias perdida dentro de um armário enferrujado, coberta de café. O ônibus branco com a inscrição Prefeitura de Manaus, educação na lateral foi encontrado por um caminhoneiro chamado Osvaldo Bentes Cavalcante, que fazia a rota entre Manaus e Itaquatiara, e parou para urinar no acostamento. Eram 4:12 da tarde. Osvaldo notou que o veículo estava com as portas abertas e as janelas para baixo, mas não havia ninguém por perto e achou estranho porque aquele trecho da AM010 não tinha ponto de parada nem acesso a sítio. Era mata dos dois lados, cerrada, com cheiro de terra molhada que fica no ar depois da chuva rápida do meio-dia. Osvaldo olhou para dentro e viu as mochilas espalhadas pelos bancos, uma garrafa térmica no chão e a sandália de criança no corredor. Não mexeu em nada. Ligou para a PRF de um telefone público no posto de gasolina mais próximo a 6 km dali. A Polícia Rodoviária Federal levou 40 minutos para chegar ao local. Quando os dois agentes desceram da viatura, o sol já estava baixo e a luz filtrava pela copa das árvores naquele tom alaranjado que precede o anoitecer na Amazônia. O ônibus estava exatamente como Osvaldo havia descrito. As portas da frente e de trás abertas, o motor desligado e frio ao toque, e as chaves não estavam na ignição. O painel não apresentava sinais de avaria.
O odômetro marcava uma quilometragem incompatível com o trajeto entre a escola e o balneário, mais os 11 km adicionais até aquele ponto da rodovia.
Não havia marcas de freada no asfalto, não havia sinais de colisão, não havia sangue nem dentro, nem fora do veículo.
Os agentes fizeram o registro fotográfico com uma câmera digital compacta, 13 fotos ao todo, que mais tarde seriam anexadas ao inquérito. Uma das fotos mostrava o banco do motorista com o encosto reclinado para trás, como se alguém tivesse ajustado para descansar. Outra mostrava o corredor central com quatro mochilas caídas no chão, uma delas aberta com um caderno escolar parcialmente visível. A foto mais reproduzida nos anos seguintes, a que apareceu nos jornais e nos programas de televisão, era a da sandália infantil de borracha, cor de rosa, tamanho 32, abandonada entre o segundo e o terceiro banco do lado direito. Nunca se determinou a qual das crianças pertencia.
Nenhuma das famílias a reconheceu com certeza.
Três mães disseram que poderia ser do seu filho ou filha. A sandália ficou no depósito de evidências da Polícia Civil durante anos dentro de um saco plástico transparente com etiqueta amarela. O que chamou a atenção dos peritos quando finalmente examinaram o veículo dois dias depois foi à disposição dos objetos. As mochilas não estavam nos bancos onde as crianças presumivelmente haviam sentado. Estavam redistribuídas de forma irregular, como se alguém tivesse movido de lugar. Algumas estavam abertas, outras fechadas, e duas estavam empilhadas no banco traseiro, que normalmente é o menos ocupado. Não havia lancheiras. As que os pais haviam preparado não foram encontradas no ônibus. Não havia garrafas de água com os nomes das crianças, embora várias mães tenham declarado que mandaram garrafinhas identificadas.
O que havia eram garrafas genéricas, sem rótulo, com água pela metade, do tipo que se compra em distribuidora. Ninguém soube explicar de onde vieram. O ônibus foi guinchado até o pátio do 19º D IP, na manhã seguinte, e isolado com fita.
Ali ficou por 8 meses exposto ao sol e à chuva até que a perícia complementar fosse solicitada. Quando fizeram a segunda análise, em junho de 2008, parte das superfícies internas já apresentava mofo e deterioração, e as digitais coletadas na primeira análise eram insuficientes para cruzamento. A maioria era parcial ou sobreposta. Nenhuma digital do motorista foi identificada, o que era tecnicamente impossível se ele tivesse dirigido o veículo naquela manhã. Ou as digitais haviam sido apagadas, ou Edivaldo Nonato de Souza nunca tocou naquele volante. A polícia rodoviária encontrou Marinalva dos Santos Queiroz e a segunda professora Aparecida Lima Fonseca, caminhando pelo acostamento da AM010 em direção a Manaus por volta das 8 da noite. Marinalva estava sem sapatos e com o vestido rasgado na altura do ombro. Aparecida, carregava a própria bolsa e chorava sem parar, mas não produzia som. Era um choro mudo, de boca aberta, que o policial rodoviário, que as resgatou descreveu no relatório como estado de choque severo. Nenhuma das duas conseguiu explicar onde estavam as crianças. Marinalva repetia que elas estavam brincando e que o mato fechou.
Aparecida não falou nada nas primeiras seis horas.
foram levadas ao pronto socorro 28 de agosto e medicadas. O depoimento formal só aconteceu três dias depois e quando aconteceu as versões das duas não coincidiam em quase nenhum ponto.
Marinalva tinha 52 anos e era professora da rede municipal havia 23. Conhecia o balneário do Tarumã porque já havia levado turmas anteriores ao mesmo local.
pelo menos quatro vezes desde 2002.
Era o tipo de professora que os pais conheciam pelo nome, que cumprimentava na padaria e que quando passava na rua, as mães chamavam para tomar um café. Não tinha antecedentes, não tinha problemas com a direção da escola e não tinha nenhum registro de incidente em excursões anteriores. Era viúva, morava sozinha num apartamento no conjunto Francisca Mendes e dedicava o tempo livre à Igreja Evangélica do Bairro.
Ninguém no Parque das Laranjeiras tinha razão para desconfiar de Marinalva. E isso tornou tudo mais difícil de entender. Aparecida Lima Fonseca era mais jovem, tinha 34 anos e estava na escola havia apenas dois. Era professora substituta, contratada por tempo determinado e aquela era a sua primeira excursão com alunos. Conhecia as crianças, mas não tão de perto quanto Marinalva. morava no bairro do novo Aleixo com o marido e um filho de 4 anos. O marido Wellington Fonseca declarou à polícia que Aparecida havia saído de casa animada naquela manhã, que tinha preparado um bolo de milho para levar e que parecia tranquila na quando a encontraram na estrada, 8 horas depois da última comunicação com a escola, Aparecida não tinha o bolo, não tinha a bolsa com os documentos. Na verdade, a bolsa que carregava não era dela. Era uma bolsa preta de nylon que nenhuma das duas reconheceu como sua e não tinha resposta para nenhuma pergunta.
No Pronto Socorro, 28 de agosto, ambas foram avaliadas por uma equipe de plantão. Marinalva apresentava desidratação leve, escoriações nos pés compatíveis com caminhada prolongada sem calçado, e um corte superficial no ombro direito que ela disse ter sido causado por um galho. parecida, apresentava arranhões nas pernas e nos braços, terra sob as unhas, uma contusão leve no joelho esquerdo e o mesmo quadro de desidratação.
O médico plantonista anotou que nenhuma das duas tinha ferimentos graves e mais que o estado emocional era incompatível com uma simples caminhada pela estrada.
Marinalva alternava entre frases desconexas e um silêncio catatônico.
Aparecida tremia sem parar, mesmo depois da medicação. O que Marinalva disse nos dias seguintes variou de sessão para sessão. Na primeira, contou que as crianças estavam brincando na beira do igarapé e que ela havia ido ao ônibus buscar protetor solar. disse que quando voltou não encontrou ninguém, nem as crianças, nem Aparecida, nem o motorista. Disse que chamou, gritou, procurou pela margem do Igarapé e depois entrou no mato, mas não encontrou ninguém. disse que em algum momento decidiu voltar para a estrada e caminhar em direção à cidade. Não soube explicar como Aparecida apareceu ao lado dela na estrada, nem em que momento isso aconteceu.
Na segunda sessão, três dias depois, o Esmarinalva incluiu um elemento novo.
disse que antes de ir ao ônibus viu um homem de camisa verde se aproximando pela trilha e que as crianças foram na direção dele. Quando o delegado perguntou porque não havia mencionado o homem antes, Marinalva disse que não tinha certeza se tinha visto ou se tinha sonhado. Na terceira sessão, já com o advogado presente, Marinalva disse apenas que não lembrava de nada entre o momento em que desceram do ônibus e o momento em que estava na estrada. Disse que havia um vazio na memória. Disse que queria ajudar, mas que não conseguia.
Aparecida, manteve sua versão nas três sessões. Estava dormindo no ônibus.
disse que tinha dor de cabeça, que tomou um comprimido depois de chegarem ao balneário e que adormeceu no banco de trás, enquanto as crianças desciam com Marinalva. e disse que acordou com o ônibus em movimento, que olhou pela janela e não reconheceu onde estava e que em algum momento o ônibus parou e ela saiu. Não soube dizer quem estava dirigindo, não soube dizer se as crianças estavam no veículo quando ele se moveu. Não soube dizer quanto tempo dormiu. O delegado perguntou como ela explicava, os arranhões nos braços e as marcas de terra nas pernas. se estava dormindo dentro do ônibus. Aparecida não respondeu. Olhou para o advogado que pediu a suspensão da sessão. Naquele ponto da investigação, o delegado Airton Brandão Teixeira tinha duas testemunhas que haviam estado presentes no momento do desaparecimento de 14 crianças, e nenhuma das duas era capaz de oferecer uma versão que sustentasse as evidências físicas.
A contradição entre os relatos não era sutil, era aberta, evidente e mes para quem lia os altos, profundamente perturbadora.
A notícia chegou ao Parque das Laranjeiras de forma desordenada, como costuma acontecer em bairros onde todo mundo se conhece e onde o telefone fixo ainda é mais confiável do que o celular. Por volta das 6 da tarde, a mãe de um dos alunos, Dalva Cristina Rebolsas ligou para aquela escola, perguntando porque o ônibus ainda não tinha voltado. Ninguém atendeu. Dalva ligou para a vizinha, que era mãe de outra criança do grupo. A vizinha também não sabia de nada. Em menos de uma hora, sete mães estavam na porta da escola, que estava fechada e com as luzes apagadas.
Nenhuma autoridade havia entrado em contato. Nenhum comunicado havia sido feito. O porteiro noturno, que chegou à sete, não sabia de nenhuma excursão.
Dalva era costureira, trabalhava em casa, mas numa máquina singer que ficava na sala, ao lado da janela que dava para a rua. Naquela sexta-feira tinha ficado costurando o dia inteiro, ouvindo rádio e esperando o filho voltar para assistir televisão juntos à noite, como faziam sempre que ele não tinha aula no dia seguinte. O filho Bruno Henrique Rebolsas de Lima tinha 10 anos, usava óculos desde o sete e era o tipo de menino que preferia ler gibis a jogar bola. Dalva não se preocupou até às 5 da tarde, porque a previsão era de retorno às 3 e atrasos de ônibus escolar eram comuns. Às 5:30 ligou para o celular de Marinalva desligado. Ligou de novo às 6.
Desligado. Ligou para ser a escola.
Ninguém atendeu. Foi aí que saiu de casa. A cena na porta da escola naquela noite foi se formando aos poucos.
Primeiro as sete mães, depois no dois pais que voltaram do trabalho e foram avisados pela esposa. Depois uma avó que tomava conta de um dos alunos enquanto a mãe trabalhava num supermercado do centro.
Depois vizinhos que não tinham filhos na excursão, mas que ouviram o barulho e vieram saber o que estava acontecendo.
Por volta das 9 da noite, havia cerca de 40 pessoas na calçada da escola e nenhuma delas tinha informação. Não havia policial, não havia representante da prefeitura, não havia ninguém da Secretaria de Educação. O porteiro, um senhor chamado Cícero, tentou ligar para a diretora e para a coordenadora.
A diretora não atendeu. Rosângela Pimentel atendeu e disse que ia verificar, mas não apareceu. Foi Dalva quem decidiu ir à delegacia. Pegou um ônibus de linha com outra mãe, Francisca das Chagas Oliveira, e foram ao 19º Dip.
Lá chegaram por volta das 10 da noite. O plantão estava com um único investigador que ouviu o relato das duas mulheres.
Anotou os dados num formulário de ocorrência e disse que precisava esperar 72 horas para registrar o desaparecimento formalmente.
Dalva perguntou se ele estava entendendo que eram 14 crianças. O investigador disse que entendia, mas que o procedimento era esse. Dalva perguntou se ele tinha filhos. O investigador não respondeu. Pediu que elas voltassem na segunda-feira. Francisca das Chagas voltou para casa e não dormiu. Ficou sentada na cozinha com a luz acesa, olhando para o relógio da parede. O marido, que trabalhava como vigilante noturno, ligou do serviço e ela contou o que estava acontecendo. Ele disse que ia pedir para sair mais cedo, não conseguiu. Francisca ficou sozinha até o amanhecer, deco.
Alva também não dormiu, mas em vez de ficar em casa, saiu de novo. Às 5 da manhã do dia 13, pegou o outro ônibus e foi até o balneário do Tarumã, sozinha, no escuro. Chegou ao local quando o sol estava nascendo e caminhou pela margem do Igarapé durante duas horas, chamando o nome do filho. Não encontrou nada, não viu ninguém. voltou para casa às 9 da manhã, com os pés cortados e o rosto queimado de sol, e encontrou duas viaturas da Polícia Civil paradas na porta da escola. A busca oficial estava começando 18 horas depois que as crianças haviam desaparecido.
Naquela noite, algo mudou no Parque das Laranjeiras.
Não foi uma coisa visível. Não foi algo que alguém pudesse apontar com o dedo.
Foi uma alteração no tecido do bairro, uma rachadura que correu por baixo de cada casa, de cada quintal e de cada conversa de portão. 14 famílias tinham mandado os filhos para a escola e os filhos não tinham voltado. E ninguém, ninguém havia avisado. O Corpo de Bombeiros de Manaus iniciou a operação de busca na manhã do dia 13 de outubro, 18 horas após o último contato das professoras com a escola. A equipe era composta por 12 homens e dois cães farejadores.
A área designada para a varredura inicial foi o entorno do balneário do Tarumã, num raio de 3 km.
Em cinco dias de buscas intensivas, com apoio do exército, a partir do terceiro dia, não foi encontrado nenhum vestígio material das crianças, nenhuma peça de roupa, nenhum calçado, nenhum resto de alimento, nenhuma pegada identificável.
Os cães farejadores treinados para localizar presença humana recente não indicaram rastro em nenhuma direção a partir do balneário. O capitão responsável pela operação, Humberto Farias Monteiro, declarou à imprensa que aquilo não era normal, que 14 crianças não desaparecem sem deixar um único sinal. A área do balneário do Tarumã, em outubro de 2007 era um espaço semiurbanizado na zona oeste de Manaus, onde o Igarapé do Tarumã desembocava numa praia fluvial que nos fins de semana e feriados recebia centenas de famílias. Havia barracas de comida, estacionamento improvisado na terra batida, banheiros precários e uma trilha de acesso que descia por um barranco de terra vermelha até a margem da água. Nos dias de movimento, era possível encontrar vendedores de açaí, crianças pulando dos galhos, música alta, saindo dos carros estacionados e o cheiro de peixe frito misturado com o de protetor solar barato. Noss no feriado de 12 de outubro, porém, o balneário não estava no seu horário de pico quando o ônibus chegou. Às 8:40 da manhã, o lugar estava praticamente vazio. Os bombeiros que chegaram no dia seguinte encontraram as barracas fechadas, e nenhum morador das imediações que dissesse ter visto um ônibus escolar ou um grupo de crianças naquela manhã. Isso era parte do problema. Em 2007 não havia câmeras de segurança na área do balneário, não havia guarita, não havia controle de acesso, não havia registro de entrada ou saída de veículos. O único ponto de referência era um bar chamado Cantinho do Tarumã, que ficava a 300 m da descida para o Igarapé e que naquele feriado abriu só depois das 11 da manhã. O dono do bar, Sebastião Vieira Lopes, disse à polícia que não viu nada de diferente.
Disse que quando abriu e não havia ônibus nenhum estacionado por perto e que a manhã estava quieta. Os bombeiros ampliaram o raio de busca para 5 km no terceiro dia e para 8 km no. Entraram na mata com facões, abriram picadas em áreas de vegetação densa, percorreram as margens do igarapé, rio acima e rio abaixo. Verificaram poços naturais, alagados sazonais e grotas onde a água se acumula na época da vazante.
Mergulhadores desceram em três pontos do igarapé, onde a profundidade passava de 2 m. Não encontraram nada, nem os mergulhadores, nem os cães, nem os soldados do exército que entraram na operação com equipamento de selva. O capitão Humberto Farias Monteiro deu uma entrevista à TV Amazonas no quinto dia de buscas. Era um homem de fala pausada, com 30 anos de serviço e não era dado a declarações dramáticas.
Mas naquela entrevista, de pé na beira do igarapé, com o uniforme sujo de lama, disse algo que ficou gravado na memória de quem acompanhou o caso. Eu já procurei muita gente nessa floresta.
Adultos, crianças, ribeirinhos, turistas, sempre tem alguma coisa. Uma pegada, um pedaço de pano, um rastro na lama. Aqui não tem nada. É como se essas crianças nunca tivessem pisado nesse chão. No sétimo dia, a operação foi reduzida. No décimo, encerrada oficialmente, o Corpo de Bombeiros emitiu um relatório de 14 páginas, concluindo que as buscas terrestres e aquáticas na região do balneário do Taruman e em torno não resultaram na localização das crianças, nem na identificação de vestígios que pudessem indicar sua presença no local após o horário de chegada registrado pelas professoras.
O relatório recomendava a abertura de uma investigação criminal para apurar as circunstâncias do desaparecimento.
A investigação criminal já estava aberta, mas não estava avançando. O inquérito policial conduzido pelo delegado Airton Brandão Teixeira do 19º DP tomou o depoimento das duas professoras em três sessões distintas ao longo de outubro de 2007.
Na primeira sessão, Marinalva disse que as crianças estavam brincando na margem do igarapé, quando ela foi ao ônibus buscar protetor solar e, ao voltar, não encontrou mais ninguém. Na segunda, mudou a versão. Disse que um homem de camisa verde apareceu na trilha e que as crianças foram atrás dele pensando que era o guia. Na terceira disse que não lembrava de nada entre o momento em que desceram do ônibus e o momento em que estava andando na estrada. Aparecida em suas três sessões, manteve uma única frase em todas.
Eu não vi o que aconteceu. Eu estava dormindo no ônibus. Mas o laudo do hospital registrava marcas de terra e arranhões nas pernas e nos braços de Aparecida, incompatíveis com alguém que tivesse permanecido sentada no veículo.
O delegado Airton tinha 48 anos e havia passado a maior parte da carreira em delegacias de bairro da zona norte de Manaus.
Não era um investigador de casos complexos, não tinha equipe especializada, trabalhava com dois investigadores, um escrivão e uma estrutura que ele mesmo descreveu anos depois, numa entrevista a um jornal local, como insuficiente para apurar um furto de bicicleta, quanto mais o desaparecimento de 14 crianças.
Mas foi ele quem recebeu o caso e foi ele quem teve que trabalhar com o que tinha. Nos primeiros 30 dias, Niirton tomou o depoimento de 42 pessoas. As duas professoras, a coordenadora Rosângela, funcionários da escola, pais e mães das crianças, moradores das imediações do balneário, funcionários da Trans Rotas Norte e dois soldados da PM que faziam Honda na AM010 naquele dia.
Nenhum depoimento trouxe uma pista concreta. Os soldados da PM disseram que não viram o ônibus parado na estrada durante a Honda da manhã, mas admitiram que a Honda cobria um trecho de 80 km e que era impossível ver tudo. Os moradores do entorno do balneário, na maioria ribeirinhos que viviam em casas de Palafita, a 1 ou 2 km do Igarapé, disseram que o dia 12 de outubro foi um dia como outro qualquer. Ninguém ouviu gritos, ninguém viu movimento fora do comum. Ninguém viu um ônibus branco. O que incomodava o delegado era ausência total de coerência entre as versões das duas únicas testemunhas adultas.
Num caso com 14 vítimas e duas pessoas presentes, era razoável esperar alguma divergência nos detalhes. Horários, sequência de eventos, posição das crianças.
Mas o que Airton encontrou não era divergência, era contradição estrutural. Marinalva dizia que as crianças estavam na beira do igarapé. Aparecida dizia que estava dormindo e não viu nada. Marinalva dizia que foi ao ônibus e quando voltou não encontrou ninguém. Aparecida dizia que estava no ônibus o tempo todo e não viu Marinalva chegar.
Marinalva mencionava um homem de camisa verde. Aparecida nunca mencionou ninguém. Marinalva mudava a versão a cada sessão. Aparecida repetia a mesma frase com precisão mecânica.
O delegado solicitou ao Ministério Público que autorizasse a realização de exames psicológicos nas duas professoras para avaliar se estavam em condição de depor ou se apresentavam algum quadro dissociativo que pudesse explicar as contradições.
O exame foi feito em novembro de 2007 por uma psicóloga forense da Secretaria de Segurança Pública que concluiu que ambas apresentavam sinais de trauma agudo, mas que estavam aptas a depor. A psicóloga acrescentou numa nota ao final do laudo que o padrão de respostas de Aparecida, repetição exata da mesma frase, ausência de variações emocionais, recusa a elaborar, era compatível tanto com trauma severo quanto com ensaio prévio. Não era possível distinguir uma coisa da outra sem acompanhamento prolongado, que nunca foi autorizado.
As famílias acompanharam o inquérito de longe. E porque ninguém as convidou para perto. Dalva Cristina Rebolsas pediu três vezes para ser ouvida, além do depoimento inicial.
Queria contar sobre o comportamento de Marinalva nos dias anteriores à excursão, sobre uma conversa que teve com ela na porta da escola, sobre um detalhe que achava importante. O delegado disse que anotaria. Dalva nunca foi chamada de volta. O motorista do ônibus registrado nos documentos da prefeitura como Edivaldo Nonato de Souza, 41 anos, contratado por uma empresa terceirizada chamada Transrotas Norte, não foi localizado em nenhum momento após o desaparecimento.
A empresa informou que Edivaldo havia sido contratado havia dois meses e que seus documentos estavam em ordem, mas quando a polícia foi verificar, o CPF era de uma pessoa falecida em 2003 em Porto Velho. O endereço fornecido no contrato não existia e a foto no crachá da empresa não correspondia a nenhum registro nos bancos de dados disponíveis. Edivaldo Nonato de Souza, se esse era de fato o seu nome, nunca foi encontrado. Nenhuma testemunha fora da escola conseguiu descrevê-lo com precisão. Os funcionários da Transrotas Norte disseram que ele era um sujeito quieto, que chegava cedo e não conversava com ninguém. A TransRotas Norte era uma empresa de pequeno porte registrada em 2005, com sede num galpão no Distrito Industrial de Manaus.
O contrato com a prefeitura previa o fornecimento de motoristas e veículos para transporte escolar em cinco zonas da cidade. A empresa tinha oito ônibus registrados e 12 motoristas no quadro.
Os contratos eram renovados anualmente por licitação simplificada e as exigências documentais, segundo o que se apurou depois, e eram mínimas. Carteira de habilitação, categoria D, atestado de antecedentes e comprovante de residência. Não havia verificação biométrica, não havia checagem cruzada de CPF com registros de óbito, não havia entrevista presencial conduzida pela prefeitura.
O processo era burocrático no papel e frouxo na prática. Edivaldo Nonato de Souza, ou quem quer que usasse esse nome, havia começado a trabalhar na Transrotas Norte em agosto de 2007.
Dirigia a rota do Parque das Laranjeiras havia dois meses, quando a excursão aconteceu. Os funcionários da empresa, que foram ouvidos pela polícia deram descrições vagas e, por vezes, contraditórias.
O gerente operacional Nelson Praia Monteiro disse que Edivaldo era um homem de estatura média, moreno, cabelo curto, que usava boné e falava pouco. A secretária Ivone Sarmento disse que ele era alto e magro e que não usava boné, mas uma boina escura. O mecânico que cuidava dos ônibus disse que nunca viu o rosto de Edivaldo direito, porque ele chegava quando a oficina ainda estava fechada e saía antes do horário comercial. Nenhum deles tinha uma foto pessoal. A única foto disponível era a do crachá da empresa, uma imagem de baixa resolução impressa em papel fotográfico comum que mostrava um rosto parcialmente coberto por um boné de aba larga. Quando a polícia tentou rodar essa imagem nos sistemas de reconhecimento disponíveis na época, não obteve correspondência.
O endereço fornecido por Edivaldo no contrato de trabalho era rua Japurá.
114, bairro Lírio do Vale. A polícia foi ao local e encontrou um terreno baldio com uma construção abandonada. Os vizinhos disseram que ninguém morava ali havia pelo menos 3 anos. Nem o CPF informado pertencia a um homem chamado Edivaldo Nonato de Souza, nascido em 1966 em Porto Velho, Rondônia, que havia falecido em março de 2003 num acidente de trânsito na BR364.
O atestado de óbito estava registrado no cartório do segundo ofício de Porto Velho. Quando o delegado Airton solicitou ao cartório uma cópia do registro, recebeu confirmação de que a pessoa estava de fato morta. Alguém havia usado a identidade de um homem morto para se contratar como motorista escolar numa cidade a 2000 km de distância. A Transrotas Norte foi intimada a fornecer cópias de todos os documentos relativos à contratação de Edivaldo. A empresa entregou o que tinha, uma ficha cadastral preenchida à mão, uma cópia da CNH, que depois se revelou falsificada, e o contrato de prestação de serviço com a assinatura do gerente. Não havia registro de admissão em carteira de trabalho, não havia exame admissional, não havia curso de capacitação para transporte escolar, obrigatório por lei desde 2004.
O Ministério Público do Amazonas abriu um procedimento paralelo contra a Transrotas Norte por irregularidades na contratação, mas a empresa encerrou as atividades em fevereiro de 2008, antes que o procedimento fosse concluído. O galpão do distrito industrial foi devolvido. Os ônibus foram vendidos.
Nelson Praia Monteiro mudou-se para Boa Vista e não foi mais localizado. A secretária Ivone Sarmento continuou morando em Manaus, mas recusou-se a dar novos depoimentos, alegando que já havia dito tudo o que sabia. O fantasma de Edivaldo Nonato de Souza pairou sobre o caso durante anos. Quem era ele? Por que usava documentos falsos? Para onde foi?
E a polícia emitiu um mandado de busca e apreensão em nome do CPF real e do nome fictício, que foi distribuído para as delegacias de Manaus, Porto Velho, Boa Vista e Belém. Ninguém com aquela descrição foi encontrado. Ninguém com aquele nome apareceu em nenhum registro posterior, nem criminal, nem trabalhista, nem eleitoral. Era como se a pessoa que dirigiu o ônibus naquela manhã tivesse existido apenas durante dois meses, apenas para aquela função e depois tivesse se dissolvido. Em 2009, o inquérito foi arquivado pela primeira vez por falta de provas materiais e ausência de indiciados. O Ministério Público do Amazonas recorreu e o caso foi reaberto em 2010 sob a relatoria de uma nova promotora, Fernanda Lúcia Barroso. Fernanda pediu a reconstituição do trajeto do ônibus e a análise dos contratos da Transrotas Norte e a oitiva de todos os moradores num raio de 5 km do balneário.
Nada disso foi cumprido integralmente.
Em 2012, uma CPI estadual foi instalada na Assembleia Legislativa do Amazonas para investigar o caso, mas encerrou os trabalhos em 8 meses sem conclusão. Uma segunda CPI em 2016 produziu um relatório de 340 páginas que recomendava a federalização do caso. A recomendação nunca foi acatada. As famílias, nesse intervalo, organizaram vigílias, caminhadas e abaixo assinados. Nenhum teve repercussão fora do Amazonas. O arquivamento de 2009 chegou às famílias por meio de uma carta registrada enviada pelo cartório do 19º DEP.
A carta era padronizada com o número do inquérito, a data do despacho e uma linha que dizia que o procedimento havia sido arquivado por ausência de elementos suficientes para o oferecimento de denúncia. Dalva Cristina Rebolsas recebeu a sua numa terça-feira à tarde, quando estava costurando. Leu duas vezes, colocou a carta em cima da máquina de costura, sentou na cadeira e ficou ali sem se mover. por quase uma hora. Depois ligou para Francisca das Chagas, que já tinha recebido a dela.
Francisca estava chorando, disse que não conseguia acreditar. Dalva disse que conseguia. A promotora Fernanda Lúcia Barroso assumiu o caso em janeiro de 2010, depois que o recurso do Ministério Público contra o arquivamento foi acolhido. Fernanda tinha 36 anos, era natural de Parentins e havia se especializado em crimes contra menores na Escola Superior do Ministério Público em Brasília e era o perfil certo para o caso e talvez por isso tenha sido escolhida.
Mas o que Fernanda encontrou quando abriu os autos do inquérito não era promissor. Faltavam peças. As fotos da perícia do ônibus estavam incompletas.
Das 13 originais, apenas nove haviam sido digitalizadas.
A lista de presença com as marcas a lápis não tinha laudo conclusivo.
Os depoimentos das professoras conham erros de transcrição que o escrivão não havia corrigido. E a ficha cadastral de Edivaldo Nonato de Souza na Transrotas Norte havia sumido do processo físico.
Fernanda pediu a reconstituição dos autos. O pedido levou 14 meses para ser parcialmente atendido. Em 2011, Fernanda conseguiu autorização para refazer o trajeto do ônibus com um veículo similar, medindo tempos de deslocamento de pontos de visibilidade e trechos da AM010, onde seria possível parar sem ser visto por outros motoristas. A reconstituição revelou que entre o balneário do Tarumã e o ponto onde o ônibus foi encontrado, havia pelo menos quatro acessos não pavimentados que levavam a áreas de mata fechada, estradas de terra usadas por madeireiros ilegais e por moradores de ocupações irregulares.
Nenhum desses acessos havia sido verificado na busca original dos bombeiros, porque ficavam fora do raio de 3 km estabelecido inicialmente.
Fernanda solicitou uma nova operação de busca nessas áreas. O pedido foi negado pela Secretaria de Segurança Pública por falta de efetivo. A CP Pirridge 2012 foi instalada a pedido de um deputado estadual cujo sobrinho estudava na mesma escola, embora não estivesse na excursão, né? A comissão ouviu 28 depoentes ao longo de 8 meses, incluindo o delegado Airton, a promotora Fernanda, representantes da prefeitura, funcionários da Secretaria de Educação e três das mães. As sessões eram abertas ao público, mas raramente tinham mais de 10 pessoas na plateia. Os jornais locais cobriam as audiências nas páginas internas com notas curtas. A TV Amazonas dedicou duas reportagens ao tema, ambas no horário da tarde. Fora do Amazonas, o caso era virtualmente desconhecido.
A CPPIRO encerrou os trabalhos em abril de 2013, sem conclusão formal, com um relatório que listava falhas no atendimento policial e irregularidades no contrato da Transrotas Norte e a necessidade de aprofundar a investigação.
Recomendações que foram encaminhadas ao executivo estadual e nunca receberam resposta. A segunda CPI em 2016 foi mais ambiciosa.
Já produziu 340 páginas de relatório, ouviu 51 depoentes, incluindo peritos federais, e um especialista em desaparecimentos da Interpol, que estava de passagem por Brasília, e aceitou colaborar informalmente.
O relatório concluía que o caso apresentava características incompatíveis com as hipóteses de acidente ou afogamento, que a investigação original havia sido negligente em pontos críticos e que a federalização, a transferência do caso para a Polícia Federal e para a justiça federal era recomendável diante da incapacidade demonstrada pelas instâncias estaduais.
A recomendação foi enviada ao procurador geral da República, nunca foi acatada. O argumento formal era que não havia elementos novos que justificassem a federalização.
O argumento real, segundo fontes do próprio MP, que falaram a jornalistas sobre anonimato, era que ninguém queria herdar um caso sem solução e com potencial de desgaste político. Enquanto isso, as famílias faziam o que podiam.
Dalva e Francisca organizaram a primeira vigília em outubro de 2008, no aniversário de um ano do desaparecimento.
Montaram uma mesa na calçada da escola com 14 velas e 14 fotos. Vieram cerca de 50 pessoas. Em 2009, foram 60. Em 2010, 40. Em 2015, 22. Em 2020, 9. Cada ano menos gente. Cada ano os rostos nas fotos ficavam mais distantes, mais difíceis de associar a uma criança real que um dia correu por aquelas ruas. As velas continuavam as mesmas. Dalva comprava no mesmo armazém do bairro, sempre brancas, sempre 14. As caminhadas pela cidade aconteceram três vezes em 2009, 2012 e 2017. A maior em 2009.
Ele reuniu cerca de 300 pessoas que saíram do Parque das Laranjeiras e foram até a sede da Secretaria de Segurança Pública no centro, carregando faixas com os rostos das crianças e pedindo a reabertura do caso. O secretário não recebeu o grupo. Um assessor desceu, pegou uma carta e disse que o governo estava atento. O abaixo assinado de 2012, com 4.000 assinaturas, foi protocolado na Assembleia Legislativa e motivou a segunda CPI. O de 2017, com 2000 assinaturas, foi enviado ao Ministério da Justiça em Brasília e nunca recebeu resposta formal. Em algum momento entre a segunda CPI e a descoberta de 2025, o caso deixou de ser notícia e passou a ser memória. Uma memória que pertencia a um bairro, a um grupo de famílias. L a uma escola que mudou de nome em 2014, passou a se chamar Escola Municipal Professor Raimundo Nonato e que pintou as paredes, trocou os portões e tentou, de forma silenciosa, apagar a associação com o episódio.
As crianças que estudavam ali em 2007 e que não estavam na excursão cresceram sabendo que algo havia acontecido, mas sem entender direito o quê. Algumas mudaram de escola, outras ficaram e aprenderam a não perguntar. Os professores novos não conheciam a história. Os antigos não queriam lembrar. A placa da escola Olinda Brito de Souza foi removida e guardada num depósito da Secretaria de Educação, onde provavelmente ainda está. Em março de 2025, uma equipe de topografia da Eletronorte realizava medições para a implantação de uma nova linha de transmissão na zona rural ao norte de Manaus, dando uma faixa de mata secundária a 7 km do antigo balneário do Tarumã. O técnico responsável Jonas Rebelo de Araújo notou que o terreno apresentava uma irregularidade no relevo, uma depressão retangular coberta de vegetação rasteira, diferente do padrão natural do solo amazônico. Ao comunicar a anomalia à supervisão, a equipe solicitou uma sondagem. O que encontraram a 1,40 de profundidade interrompeu os trabalhos por tempo indeterminado e fez com que a Polícia Federal fosse acionada em menos de 24 horas. Jonas Rebelo de Araújo tinha 29 anos e trabalhava na Eletronorte desde 2021.
Não conhecia o caso das crianças do Parque das Laranjeiras.
Não era de Manaus, era natural de Santarém, tinha vindo para a capital para estudar no IFAN e ficou. Naquele dia de março, eu estava com três colegas fazendo o levantamento topográfico de um corredor de 20 km onde passaria a linha de transmissão. O trabalho era técnico e repetitivo, medição com estação total, demarcação de pontos, análise do perfil do terreno. O trecho onde encontraram a anomalia ficava numa área de mata secundária, vegetação que havia crescido depois de um desmatamento antigo, provavelmente dos anos 90, e que agora formava um corredor denso de árvores finas, arbustos e cpós. A depressão no terreno media aproximadamente 6 m de comprimento por 2,5 de largura. A forma era regular, com bordas definidas, e a vegetação que a cobria era diferente do entorno, rasteira, menos densa, como se o solo ali tivesse sido revolvido em algum momento e a floresta não tivesse conseguido se recuperar completamente. E Jonas anotou a anomalia no relatório de campo e tirou quatro fotos com o celular. À noite, no hotel em Manaus, mostrou as fotos ao supervisor, que disse que poderia ser um antigo poço de extração de argila ou uma fossa desativada.
Mas Jonas achava que não. A forma era regular demais. A profundidade do rebaixamento, visível a olho nu, sugeria algo que havia sido escavado com propósito. A sondagem foi autorizada dois dias depois. Uma retroescavadeira compacta fez a abertura inicial, removendo a camada de vegetação e os primeiros 60 cm de solo. Aos 80 cm, o operador notou que a Terra mudava de cor. Passava do marrom avermelhado, típico do solo amazônico para um tom mais escuro, quase negro, com consistência diferente. Aos 120 cm, e a pá mecânica trouxe à superfície um fragmento de tecido sintético, deteriorado, mas reconhecível.
Era azul, com um padrão listrado que lembrava tecido de mochila escolar. O operador parou a máquina. Jonas desceu à vala, olhou para o fragmento, olhou para o solo ao redor, pediu que todo mundo parasse. A Polícia Federal em Manaus recebeu a comunicação às 4 da tarde daquele mesmo dia. Uma equipe da Superintendência Regional chegou ao local na manhã seguinte, acompanhada de peritos do Instituto Nacional de Criminalística e de um antropólogo forense do IML do Amazonas.
A área foi isolada num raio de 50 m. As escavações passaram a ser manuais, com pincel e colher de pedreiro, seguindo o protocolo de esumação forense. Ao longo dos 10 dias seguintes, a equipe recuperou do solo fragmentos de tecido, os pedaços de borracha compatíveis com solas de calçado infantil, restos de metal oxidado, que pareciam ser fivelas ou zíperes, e material orgânico em avançado estado de decomposição, que foi enviado ao laboratório de genética forense de Brasília para análise de DNA.
A profundidade máxima escavada foi de 1,80 m. A depressão continha material distribuído em camadas, como se tivesse sido preenchida em etapas. Não havia caixão, nem envoltório, nem estrutura de contenção. O material estava diretamente no solo, misturado com terra e raízes. O laudo preliminar da Polícia Federal emitido em abril de 2025 confirmou que o material encontrado era consistente com restos humanos de múltiplos indivíduos de baixa estatura e que os fragmentos de tecido e calçado eram compatíveis com vestimentas infantis do período entre 2005 e 2010. E o laudo não confirmou a identidade das vítimas. A análise de DNA levaria meses, nem estabeleceu a causa da morte. Mas para quem acompanhava o caso, havia 18 anos. O laudo dizia o suficiente.
A notícia chegou às famílias antes de ser publicada na imprensa. A Polícia Federal enviou agentes ao Parque das Laranjeiras para comunicar pessoalmente aos pais e mães cadastrados no inquérito que material possivelmente relacionado ao caso havia sido encontrado. Dalva Cristina Rebolsas recebeu a visita num sábado de manhã. Dois agentes federais, um homem e uma mulher, sentaram na sala da sua casa e explicaram, em termos cuidadosos, que haviam sido localizados vestígios numa área próxima ao balneário do Tarumã e que seria necessário coletar material genético dos familiares para comparação. Dalva ouviu sem interromper e quando os agentes terminaram, perguntou apenas uma coisa: “Vocês encontraram óculos?
O filho de Dalva, Bruno Henrique usava óculos. Os agentes disseram que não podiam dar detalhes sobre os objetos encontrados. Dalva assentiu com a cabeça e assinou o termo de consentimento para a coleta de DNA.
Francisca das Chagas. Oliveira recebeu a visita logo depois. Reagiu de forma diferente. Não perguntou nada. não assinou nada naquele dia. Pediu que os agentes voltassem na segunda-feira quando o marido estivesse em casa. Os agentes voltaram. Francisca assinou, mas não disse uma palavra durante todo o procedimento.
A imprensa nacional cobriu a descoberta com destaque durante cerca de duas semanas. O Jornal Nacional dedicou 3 minutos ao caso. O Fantástico produziu uma reportagem de 8 minutos. com imagens aéreas do local da escavação e entrevistas com familiares. Pela primeira vez em 18 anos, o caso das crianças do Parque das Laranjeiras foi discutido fora do Amazonas. Redes sociais amplificaram a história.
Surgiram teorias, especulações, acusações.
Nada disso mudou o andamento da investigação, que seguiu no ritmo da ciência forense, lento, metódico e silencioso. 18 anos separam a manhã de outubro de 2007, da descoberta de março de 2025.
Nesse intervalo, seis das 14 famílias se mudaram do Parque das Laranjeiras.
Duas mães faleceram, uma de câncer, outra de infarto. Um pai foi internado com quadro psiquiátrico permanente. Os irmãos das crianças desaparecidas cresceram carregando um peso que nenhum laudo descreve e nenhuma indenização compensa. Dalva Cristina Rebolsas, que foi a primeira mãe a ligar para a escola naquela noite de outubro, continua morando na mesma casa, na mesma rua, com o quarto do filho do mesmo jeito. Quando a notícia da descoberta no Taruman chegou, Dalva não ligou a televisão, sentou na cadeira da varanda e ficou olhando para a rua até escurecer. O quarto de Bruno Henrique ficou intocado desde 12 de outubro de 2007.
A cama de solteiro com a colxa do Homem-Aranha, o ventilador de teto que faz barulho quando liga, os gibis da Turma da Mônica empilhados na prateleira de compensado que o avô fez antes de morrer. O par de óculos reserva que Dalva havia comprado na Ótica do Centro em setembro de 2007 e que nunca chegou a ser usado. guardado dentro do estojo na gaveta do criado mudo. A porta do quarto fica aberta durante o dia. Dalva passa por ali várias vezes, nem indo da sala para a cozinha, da cozinha para o quintal. Não entra, não fecha, não mexe. Francisca das Chagas.
Oliveira se mudou do Parque das Laranjeiras em 2013, depois que o marido conseguiu transferência para uma fábrica no distrito industrial. E eles alugaram uma casa novo aleixo. Francisca disse a uma amiga que não aguentava mais passar pela escola todos os dias, que cada vez que via crianças de uniforme na calçada, o corpo inteiro trava, que precisava ir para um lugar onde ninguém soubesse.
Novo Aleixo, Francisca começou a frequentar uma igreja católica e a participar de um grupo de mães em luto que se reunia nas quartas-feiras à noite no salão paroquial. O grupo não tinha nome oficial. As mulheres sentavam em círculo, tomavam café e falavam sobre os filhos. Algumas tinham perdido filhos para a violência, outras e para doenças.
Francisca era a única que não sabia o que tinha acontecido com o seu. Disse uma vez ao grupo que a pior coisa não era a dor, era a incerteza. A dor tinha um lugar no corpo. A incerteza não ficava em lugar nenhum e, ao mesmo tempo, estava em todo lugar. Neusa Figueira, a merendeira que era mãe dos gêmeos Lucas e Luan, nunca saiu do Parque das Laranjeiras.
continuou trabalhando na escola até 2014, quando o nome foi mudado e o contrato dela não foi renovado. Ninguém deu uma explicação formal. Neusa entendeu que a nova direção não queria por perto alguém que lembrasse as pessoas do que havia acontecido.
Depois disso, Neusa trabalhou como cozinheira em duas lanchonetes do bairro, sem carteira assinada, até que a saúde não permitiu mais.
Em 2019, N foi diagnosticada com depressão severa e passou a receber o benefício de prestação continuada do INSS.
Morava sozinha. O marido havia ido embora em 2011. Os vizinhos diziam que Neusa quase não saía de casa e que às vezes ouviam ela conversando sozinha em voz baixa, como se estivesse falando com alguém que não estava ali. Raimundo Monteiro Duarte, o ajudante de pedreiro, que só soube do desaparecimento do filho dois dias depois, foi internado em 2015 no hospital psiquiátrico Eduardo Ribeiro em Manaus, com um quadro de psicose que os médicos associaram ao luto prolongado e não processado. Raimundo havia passado anos procurando o filho por conta própria, entrando em áreas de mata nos fins de semana, percorrendo ramais e garapés da zona rural de Manaus, perguntando a Ribeirinho se alguém tinha visto alguma coisa em outubro de 2007 e nunca encontrou nada, nunca recebeu uma pista, mas não parava. A esposa disse que ele saía de casa no sábado de manhã e voltava no domingo à noite, sujo, exausto, às vezes com febre. Um dia não voltou no domingo. Foi encontrado na terça-feira, sentado numa clareira perto do tarumã falando coisas que não faziam sentido. Não reconheceu a esposa quando ela chegou. foi internado naquela semana e nunca mais recebeu alta definitiva.
Os irmãos das crianças desaparecidas, aqueles que ficaram, formaram entre si uma rede silenciosa que nenhum jornal noticiou. cresceram juntos no mesmo bairro, nas mesmas ruas, e compartilhavam algo que ninguém de fora conseguia entender completamente.
Sabiam o que era chegar em casa e ver a mãe olhando para o nada.
Sabiam o que era ouvir o pai falar do irmão no presente, não como se ele fosse voltar a qualquer momento. Sabiam o que era a data de 12 de outubro para o resto do país, feriado das crianças. Para eles, o dia que partiu a família ao meio. Alguns desses irmãos se tornaram adultos funcionais com trabalho, família, rotina. Outros não conseguiram.
Dois deles abandonaram a escola antes de terminar o ensino médio. Um teve problemas com álcool. Uma foi morar com uma tia em Belém para se afastar de tudo. Nenhum deles fala publicamente sobre o caso. Nenhum deles precisa. A descoberta de março de 2025 reabriu feridas que nunca tinham cicatrizado porque nunca tinham sido tratadas.
As famílias que ainda moravam em Manaus foram chamadas para reuniões com a Polícia Federal, com o Ministério Público Federal e com a Defensoria Pública da União. Foram informadas de que a análise de DNA poderia levar de 6 meses a um ano. foram informadas de que, mesmo com identificação positiva, a determinação da causa da morte dependia do estado de conservação dos restos, que após 18 anos no solo amazônico poderia ser insuficiente para conclusões definitivas.
foram informadas, em outras palavras, de que a resposta que esperavam havia 18 anos talvez viesse incompleta, ou talvez não viesse. Dalva ouviu tudo isso numa sala de reuniões da superintendência da PF, sentada numa cadeira de plástico com a bolsa no colo e os olhos secos. Ao lado dela, Francisca.
Atrás delas, Neusa, que havia sido trazida por uma sobrinha. No fundo da sala, três irmãos adultos de crianças desaparecidas que pediram para assistir, mas não quiseram se sentar à mesa. O procurador federal, que conduziu a reunião, falou durante 40 minutos com termos técnicos e cautela jurídica. No final, perguntou se alguém tinha dúvidas. Dalva levantou a mão, perguntou a mesma coisa que havia perguntado aos agentes na sala da sua casa. Vocês encontraram óculos? O procurador olhou para os papéis, disse que não podia confirmar os itens específicos recuperados no local. Dalva abaixou a mão, não perguntou mais nada. Do lado de fora da superintendência, um repórter de um portal de notícias esperava com um cinegrafista.
Quando as famílias saíram, ele se aproximou de Dalva e perguntou como ela se sentia. Dalva olhou para ele, olhou para a câmera e disse: “Eu me sinto do mesmo jeito que me sinto há 18 anos.” Depois virou as costas e foi embora.
Marinalva dos Santos Queiróz faleceu em 2021 de causas naturais e no hospital público de Manaus. Tinha 66 anos.
Nunca foi indiciada formalmente no caso.
Nunca mudou a última versão do depoimento, a de que não lembrava de nada. Nos seus últimos anos vivia reclusa, não saía de casa e não recebia visitas além da irmã, que morava no bairro do São José. Os vizinhos do conjunto Francisca Mendes diziam que Marinalva tinha envelhecido depressa depois de 2007, que parou de ir à igreja. que as cortinas da janela ficavam sempre fechadas. Quando morreu, o enterro teve seis pessoas. Nenhuma das famílias das crianças compareceu. Ninguém esperava que comparecessem. Aparecida Lima Fonseca continua viva. Mora em Manaus em endereço que não é público. Nunca deu entrevista, nunca foi indiciada. E a aversão dela, eu estava dormindo no ônibus, permanece nos altos como o último registro formal de suas palavras sobre o caso. O marido Wellington pediu afastamento do trabalho em 2008 por motivos de saúde da família e nunca voltou. O que aconteceu dentro daquela casa entre 2007 e hoje ninguém sabe.
Ninguém perguntou. Ninguém tem o direito de exigir que ela fale. Mas o silêncio de Aparecida continua sendo, para as famílias e para quem acompanhou o caso, um dos elementos mais difíceis de aceitar. O caso das crianças do Parque das Laranjeiras permanece aberto na Polícia Federal. A análise de DNA do material encontrado em março de 2025 está em andamento no laboratório de genética forense do Instituto Nacional de Criminalística em Brasília. Não há prazo oficial para a conclusão. Não há suspeitos formais e não há explicação que conecte todos os pontos. A lista com as marcas a lápis, o ônibus deslocado 11 km da rota, as professoras na estrada, o motorista fantasma, os cães que não encontraram rastro, o material enterrado a 7 km do balneário. Cada peça do caso aponta para uma direção. Nenhuma completa o quadro. Passaram-se os anos e o Parque das Laranjeiras continuou sendo o que sempre foi. Um bairro de gente simples, de ruas onde as crianças brincam até escurecer, de casas com a porta entreaberta e o som da televisão vazando pela janela. A escola mudou de nome, mas a calçada é a mesma. O ponto de ônibus na esquina é o mesmo. As mangueiras que faziam sombra na hora da saída continuam ali, mais velhas, mais grossas, com as raízes levantando o asfalto. Quem passa por ali hoje e não conhece a história, não vê nada de diferente. É só um bairro, é só uma escola, é só uma rua como tantas outras em Manaus, em qualquer cidade do Brasil, onde a vida segue, porque não há alternativa.
Mas para quem viveu o que aconteceu em 12 de outubro de 2007, aquele pedaço de cidade nunca mais foi o mesmo. Há uma fratura que não aparece no mapa, que não consta em nenhum relatório, que nenhuma CPRI documentou.
É a fratura que fica dentro de quem acordou um dia. E o filho não estava na cama, o chinelo não estava na porta, a mochila não estava no chão da sala. É o espaço que se abre entre a última imagem, a criança subindo no ônibus, acenando pela janela, desaparecendo na curva e o silêncio que veio depois. 18 anos de silêncio. 18 anos de um telefone que não toca. e 18 anos de uma porta que se abre toda a noite com a mesma esperança e se fecha com o mesmo vazio.
As famílias que esperaram não pediram muito, pediram uma resposta. Pediram que alguém olhasse para elas e dissesse o que aconteceu. Não pediram justiça grandiosa, não pediram homenagens.
Pediram o mínimo que qualquer pai ou mãe pede quando o filho não volta para casa.
Saber, apenas saber. E durante 18 anos, essa resposta não veio. Talvez venha agora incompleta, traduzida em laudos e códigos genéticos e termos que ninguém naquele bairro usa no dia a dia. Ou talvez não venha. Talvez o caso se encerre um dia com um relatório técnico que explique uma parte e deixe o resto no escuro, como acontece com tantos outros casos neste país, onde as pessoas desaparecem com mais facilidade do que se imagina e onde a memória de quem ficou é é muitas vezes a única prova de que alguém existiu.
Hoje, quando sabemos onde estão as pessoas que amamos, quando mandamos uma mensagem e ela é respondida, quando ouvimos a chave na fechadura e sabemos quem é, é fácil esquecer o que significa não saber, o que significa olhar para a porta e não ter certeza. O que significa carregar uma foto no bolso durante anos?
Mostrar para desconhecidos, perguntar se viram, se ouviram, se sabem de alguma coisa.
O que significa deitar de noite e não fechar os olhos direito, porque a cabeça não desliga, porque a pergunta não para, porque o silêncio do quarto é o mesmo silêncio do telefone, da delegacia, da escola, de todo o aparato que deveria ter protegido e não protegeu.
A história não termina com uma explicação, termina como termina a maioria das histórias reais, com perguntas que continuam abertas, no com pessoas que aprenderam a viver ao lado do que nunca conseguiram resolver e com a certeza silenciosa de que em algum lugar deste país, neste exato momento, alguém ainda está esperando