
A treta entre Milly Lacombe e Thiago Leifert ganhou mais um capítulo e expõe as tensões, contradições e dificuldades de convívio no jornalismo esportivo brasileiro. Tudo começou quando Thiago Leifert repercutiu um texto antigo de Milly Lacombe no qual ela afirmava que Neymar iria defender “um país que não gosta dele”. Milly, inicialmente, negou com veemência ter escrito tal frase, afirmando tratar-se de fake news. Depois, ao ser confrontada com o texto original de 2022, admitiu que realmente havia escrito, mas contextualizou a publicação.
Em uma transmissão recente, Milly explicou com detalhes o que aconteceu. Segundo ela, o texto foi escrito em 2022, em um Brasil bem diferente do atual. Na época, Neymar havia declarado publicamente apoio a Jair Bolsonaro, o que gerou forte rejeição em parte da opinião pública e da imprensa. Milly citou uma influenciadora chamada Ana Flor, que havia dito algo semelhante, e construiu seu texto em torno dessa ideia. “Eu não me arrependo do que escrevi em 2022. O texto fez sentido na época”, declarou. No entanto, ela reconhece que o mesmo texto não caberia mais em 2026, porque o Brasil de hoje, ou ao menos parte significativa dele, demonstra carinho pelo jogador.
O caso gerou uma onda de críticas contra Milly, que inicialmente havia chamado a repercussão de fake news. Ela enviou mensagens por WhatsApp para Thiago Leifert pedindo que ele não propagasse algo incorreto. Segundo Milly, Leifert não respondeu nenhuma das mensagens, mesmo após quase uma semana. Além de questionar o texto antigo, Leifert também afirmou que Milly havia sido demitida do Sportv, informação que ela nega veementemente. Milly explica que cometeu um erro ao vivo ao criticar Rogério Ceni, foi colocada “na geladeira” por mais de um mês, mas depois retornou e continuou trabalhando. Só quase um ano depois ela deixou o canal para aceitar proposta da Record.
O episódio revela uma dinâmica comum no jornalismo brasileiro: a dificuldade de lidar com opiniões antigas, o peso das redes sociais e a rapidez com que declarações são retiradas de contexto. Milly defende que quem repercutiu o texto deveria ter dado o contexto temporal claro: “Esse texto é de 2022”. Para ela, muitos críticos não leram o conteúdo completo e trataram como se tivesse sido escrito recentemente.
Além da questão do texto sobre Neymar, Milly tocou em pontos mais profundos sobre a profissão. Ela criticou o que considera disfarce de ranço pessoal ou antipatia política em forma de crítica esportiva. “Fala logo que você não gosta do cara porque ele dedicou um gol ao Bolsonaro”, disse, de forma direta. Para ela, parte da imprensa mistura posicionamento político com análise técnica, o que prejudica a credibilidade do jornalismo.
Milly também relembrou seu próprio erro passado com Rogério Ceni, quando ainda era uma repórter jovem e inexperiente em transmissões ao vivo. Ela reconhece que se empolgou, o comentário escapou e teve consequências graves: perdeu o emprego na Globo. Mesmo assim, defende que erros devem ter limite de punição. “A gente não pode carregar um fantasma a vida inteira”, argumentou. Ela compara seu caso com outros profissionais homens que cometem equívocos graves e não recebem o mesmo tratamento, sugerindo possível diferença de cobrança entre gêneros.
Outro ponto sensível levantado foi a relação com Neymar. Milly questiona como é possível, no mesmo ambiente, alguém dizer que o jogador foi convocado apenas para “o povo abraçar a seleção” e, ao mesmo tempo, afirmar que o país inteiro não gosta dele. Para ela, essa contradição revela falta de coerência. “Você pode não gostar do Neymar, tudo bem. Mas dizer que o país inteiro não gosta dele é diferente. Onde está a pesquisa que comprova isso?”, questionou.
Apesar das críticas públicas, Milly faz questão de separar as coisas. Ela diz ter ótima memória de Thiago Leifert como pessoa e, principalmente, de quando trabalhou com ele no Sportv. “Ela era uma pessoa fantástica, inteligentíssima, agradabilíssima”, recordou sobre a época em que dividiram transmissões. O tom dela não é de ataque pessoal, mas de cobrança por honestidade intelectual e contextualização.
O caso ganhou proporções maiores porque envolve duas figuras conhecidas do jornalismo esportivo. Thiago Leifert, até o momento, não se manifestou publicamente sobre as mensagens enviadas por Milly nem deu resposta ao novo capítulo da história. Isso alimenta ainda mais a narrativa de que a treta continua aberta.
O episódio serve como reflexão sobre vários problemas do jornalismo contemporâneo. Primeiro, a memória curta das redes sociais, que resgatam textos antigos sem contexto. Segundo, a dificuldade de admitir erros ou mudar de opinião com o tempo — algo que Milly fez ao reconhecer que o texto de 2022 não reflete necessariamente sua visão atual. Terceiro, a mistura perigosa entre antipatia pessoal, posicionamento político e crítica esportiva.
Neymar, mais uma vez, aparece como figura polarizadora. Seja pela performance em campo, seja por suas posições fora dele, o atacante divide opiniões como poucos. Em 2022, o apoio a Bolsonaro amplificou as críticas. Em 2026, com a Copa do Mundo se aproximando, o foco volta a ser seu papel na Seleção Brasileira sob comando de Carlo Ancelotti. O técnico italiano já deixou claro que Neymar terá que disputar posição com Vinicius Júnior e Rafinha, sem garantia de titularidade.
Milly Lacombe representa uma geração de jornalistas que viveu a transição do esporte tradicional para o ambiente digital hiperacelerado. Seus erros e acertos são amplificados, comentados e guardados por anos. O caso atual mostra que mesmo profissionais experientes podem ser pegos de surpresa por textos antigos que reaparecem.
A história também levanta questionamentos sobre cancelamento, memória seletiva e cobrança desproporcional. Milly defende que erros devem ser perdoados depois de um tempo razoável, especialmente quando há pedido de desculpas público. Ela mesma viveu na pele o peso de ser atacada e diz que isso deveria gerar mais empatia, inclusive na forma de tratar Neymar.
Enquanto a torcida brasileira se prepara para acompanhar a Seleção nos Estados Unidos, nos bastidores do jornalismo a discussão continua quente. Parte da audiência cobra posicionamento claro de Thiago Leifert. Outra parte apoia Milly na defesa de que opiniões antigas merecem contextualização.
O que fica evidente é que o futebol brasileiro não se resume apenas ao que acontece dentro de campo. As narrativas, os personagens da imprensa e as polêmicas fora das quatro linhas têm peso enorme na forma como o público consome o esporte. Casos como esse entre Milly Lacombe e Thiago Leifert mostram como o ambiente está cada vez mais sensível, onde uma frase escrita há quatro anos pode voltar com força total.
Milly encerrou sua explicação pedindo mais autocrítica no jornalismo. “A barra ficou muito baixa”, disse. Seja qual for o desfecho dessa treta, o episódio serve como alerta para todos os profissionais da área: contexto importa, honestidade intelectual é fundamental e ninguém está livre de ter suas palavras do passado revisitadas.
O futebol segue seu curso, a Copa do Mundo se aproxima, e Neymar continua sendo um dos grandes temas nacionais. Enquanto isso, no mundo da imprensa, a discussão sobre ética, memória e responsabilidade continua rendendo capítulos. A terceira parte dessa novela está no ar e o público acompanha atento cada novo desdobramento.