
Ninguém viu quando eu paguei aquele prato de comida pro menino. Era madrugada, o posto estava quase vazio e eu nem sabia o nome dele. Ele comeu calado, me olhou uma vez e sumiu na escuridão antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Nunca contei isso para ninguém, nem para Toninho, nem para Deus em oração. Guardei aquilo como se fosse uma coisa pequena demais para ter importância. Mas foi exatamente isso, essa coisa pequena que eu não contei para ninguém, que salvou tudo que eu tinha quando um crápula no mundo resolveu me cobrar uma dívida que eu não devia. Mas deixa eu começar pelo começo, pelo começo de verdade.
Aquela noite em Goiás foi numa viagem que eu fazia sozinho, carregando carga de Uberlândia até Goiânia, numa época que a muriçoca ainda estava com o motor novo que eu tinha mandado fazer em Uberaba. Era inverno. Inverno no cerrado tem uma frieza diferente. Não é a frieza pesada do sul. Não é aquela umidade cortante que a gente sente em Minas, no fundo do vale. É uma frieza seca que entra pelo nariz e desce direto pro peito, que faz a gente sentir o osso. A estrada estava quase deserta e eu parei num posto na beira da BR porque o tanque precisava de diesel e eu precisava de café. O posto tinha um nome que eu já esqueci. Tinha uma lanchonete pequenininha do lado com umas mesas de plástico na calçada e uma senhora de avental azul que servia café em copinho de isopor. Eu lembro do cheiro. Café forte. Aquele café de caminhoneiro que parece que vai dissolver a colher.
Pedi um pão na chapa e sentei numa das mesinhas de fora porque dentro estava abafado e eu precisava esticar as pernas. Foi aí que eu vi o menino. Ele estava do outro lado da cerca de arame, que separava o estacionamento do posto do terreno baldio do lado, parado no escuro, olhando para dentro do posto com aqueles olhos grandes, magro demais, daquele jeito que faz a gente desviar o olhar porque incomoda. Descalço no chão de terra, uma camiseta surrada que devia ter sido azul num tempo que já tinha passado. Ele não pediu nada, não estendeu a mão, só ficou olhando como se o simples ato de ver alguém comer já fosse alguma coisa. Eu olhei para ele. Ele olhou para mim. A senhora do avental azul, dona Lourdes, eu soube o nome dela muito tempo depois, estava de costas, mexendo em alguma coisa no balcão. Os outros dois caminhoneiros que estavam no posto tinham entrado para pagar o diesel e não tinham visto o menino. Só eu vi.
Me levantei, fui até o balcão e pedi um prato de arroz, feijão, frango e farofa. Pedi uma laranjada também. Paguei sem explicar nada. Peguei a bandeja, voltei para a mesa, olhei pro menino e fiz um sinal com a cabeça. Pode vir. Ele ficou parado um segundo, como se não acreditasse. Depois veio devagar, passou pela portinha de arame, sentou na cadeira da frente e começou a comer. Não falou nada. Eu também não falei nada. Ele comeu tudo até a última colher de farofa. Bebeu a laranjada até o fundo e quando terminou me olhou uma vez. Aquele olhar que eu nunca mais esqueci, que era metade vergonha e metade coisa que não tem nome, e sumiu. Desapareceu no escuro do terreno baldio antes que eu pudesse perguntar o nome, onde estava a família, se tinha para onde ir.
Dona Lourdes tinha visto tudo do balcão. Quando eu me levantei para pagar a conta, ela me olhou de um jeito diferente. Não disse nada, só me olhou. Eu entrei na muriçoca, dei a partida e continuei viagem. Aquilo ficou comigo. Não de um jeito que me tirava o sono, não de um jeito que me perturbava. Ficou como fica uma coisa boa que a gente faz sem testemunha. Quieto, no fundo do peito, sem barulho. De vez em quando, em noite de viagem longa, quando o cerrado passava dos dois lados e o farol da muriçoca rasgava a escuridão, eu pensava naquele menino. Me perguntava onde ele tinha ido, se tinha ficado bom, mas a vida da estrada não dá tempo para ficar se perguntando essas coisas por muito tempo. A gente pergunta, não recebe resposta e segue.
Então a vida foi passando, a transportadora foi crescendo devagar, do jeito que coisa boa cresce, sem pressa, sem atalho. Eu e Toninho, que era meu sócio no pátio de Uberaba e meu parceiro de estrada desde os tempos em que a gente dirigia caminhão alheio, fomos juntando contrato por contrato, cliente por cliente. A transportadora Xodó ficou conhecida no Triângulo Mineiro por uma coisa simples. A carga chegava no prazo e chegava inteira. Não tinha mistério. Era só fazer o básico que todo mundo prometia e pouca gente cumpria. Mas o mundo não gosta quando alguém cresce devagar e com honestidade. O mundo olha para isso com uma mistura de admiração e raiva que às vezes vira veneno. Foi assim que Régis Machado entrou na minha vida.
Régis era dono da Machado Transportes, sediada em Anápolis, Goiás. Empresa grande, frota nova, caminhões envelopados com o logo da empresa, tudo muito bonito. Régis usava sapato social mesmo quando ia ao pátio. Usava camisa de botão mesmo no calor do cerrado e tinha o jeito de quem aprendeu cedo que a aparência convence antes que a verdade apareça. Ele era do tipo que sorri de frente e trabalha de lado. Eu não tinha problema nenhum com Régis Machado até o dia que a Agropecuária Serrado Verde, que era um dos maiores clientes da região, produtora de soja no sudoeste de Goiás, com armazéns em três municípios, abriu licitação para contrato de transporte de grãos. Era um contrato grande, o maior que a transportadora Xodó tinha tentado até então. Dois anos de trabalho, carga garantida, preço justo. O tipo de contrato que consolida uma empresa pequena e transforma ela numa empresa média.
Eu mandei a proposta com tudo em ordem, preço, prazo, histórico, referências de cliente. Toninho tinha ajudado a montar a documentação durante uma semana inteira. A gente sabia que ia disputar com empresas maiores, mas também sabia que o nosso histórico falava por si. Nunca tinha perdido carga, nunca tinha atrasado mais de uma hora sem avisar antes, nunca tinha dado calote em fornecedor. A proposta era honesta e era competitiva. O contrato foi dado para a Machado Transportes. Tudo bem. Perder licitação faz parte. Liguei pro contato da Serrado Verde, um gerente chamado Fábio. Agradeci pela oportunidade e pedi feedback para melhorar na próxima. Fábio foi educado, falou que tinha sido decisão da diretoria e ficou assim.
O problema começou duas semanas depois. Um cliente meu antigo, um armazém em Morrinhos que eu atendia há quatro anos, me ligou num domingo à noite. A voz dele estava diferente, tensa. Ele tinha recebido uma ligação de um representante da Machado Transportes, oferecendo serviço. E nessa ligação, o representante tinha dito algumas coisas sobre a transportadora Xodó, coisas que não eram verdade, que eu tinha atrasado carga para um cliente grande em Goiânia, que a frota estava velha e sem manutenção, que eu estava devendo a fornecedor e que a empresa estava perto de fechar. Mentira, tudo mentira. Mas mentira contada com confiança no tom certo para a pessoa certa tem um poder que a verdade demora a desfazer.
Nos quinze dias seguintes, três outros clientes me ligaram com variações da mesma história. Um quarto cliente simplesmente não renovou o contrato sem dar explicação. Eu comecei a juntar os pontos. Não era coincidência. Era Régis Machado, desmontando minha reputação cliente por cliente, usando o aparato da empresa grande dele para espalhar mentira de forma organizada, como se fosse uma campanha. Eu fui até Anápolis, não fui com advogado, não fui de terno. Fui do jeito que eu sou, com a muriçoca limpa e a cabeça fria. Cheguei no pátio da Machado Transportes numa manhã de terça-feira e pedi para falar com Régis. A recepcionista foi buscar ele com aquele jeito de quem não sabe se vai ter confusão. Régis apareceu dez minutos depois de camisa social bege, sorrindo do jeito dele.
Falei o que eu precisava falar sem levantar a voz, que eu sabia o que ele estava fazendo, que eu tinha provas das ligações, que se aquilo continuasse, eu ia pelo caminho legal e que advogado de caminhoneiro honesto às vezes é mais barato e mais bravo do que parece. Régis ouviu tudo, continuou sorrindo. Então ele abriu a boca e disse uma coisa que ficou gravada em mim como ferro quente. A voz dele era calma, daquele jeito de quem está acostumado a pisar em gente sem se sujar. Caminhoneiro com caminhão do ano 78 não compete com empresa moderna. Isso não é maldade, isso é realidade. O mercado evoluiu, ou você se atualiza ou o mercado te engole. Não tenho o que discutir. Virou as costas e foi embora. Voltei para a muriçoca, coloquei a mão no capô quente do motor e fiquei parado um minuto.
A raiva que eu senti não era aquela raiva de explodir, era a raiva funda, a raiva que desce e assenta no estômago e fica ali pesada por muito tempo. A raiva de quem foi desrespeitado por alguém que não merecia nem encostar o sapato social na soleira do pátio que a gente construiu. Mas eu não fiz nada além de voltar para Uberlândia. Toninho me esperava no pátio. Ele viu minha cara e não precisou perguntar como tinha ido. A gente sentou na sombra do galpão, bebeu água gelada e ficou em silêncio por um tempo. Toninho era assim. Ele sabia quando a hora era de falar e quando a hora era de só estar junto. Depois de um tempo, ele perguntou o que eu queria fazer. Eu disse que queria continuar trabalhando. Ele assentiu e foi isso.
Mas o estrago já estava feito. Nos meses seguintes, a transportadora foi afundando devagar. Não de uma vez, devagar, que é pior. Quando vai de uma vez, a gente tem a adrenalina da crise para reagir. Quando vai devagar, a gente vai se acostumando com a água subindo e às vezes nem percebe quando já passou da cintura. Cliente que não renova, carga que diminui, margem que aperta, conta que vence antes que o pagamento entre. Eu tive que demitir o Geraldo, que era meu auxiliar de pátio há dois anos. Homem casado, dois filhos, morava de aluguel. Me custou mais do que qualquer conta que eu paguei naquela época. Ele saiu sem reclamar, me agradeceu pelo tempo que ficou e eu fiquei com aquele peso que não tem cheque que pague.
Lembro que naquele dia fui até o boteco da esquina do pátio. Pedi uma água com gás. Nunca fui de bebida e fiquei sentado numa mesa de canto, olhando para a rua. Não estava com raiva do Régis naquele momento. Estava com raiva de mim mesmo, de ter chegado num ponto onde um homem bom perdeu o emprego por causa de uma guerra que eu não provoquei, mas que era minha. Essa é a parte que ninguém conta quando fala de crise de empresa, que ela não fica só no papel, ela escorrega pra vida de gente de carne e osso, que não tem nada a ver com a disputa. Tinha noite que eu ficava no pátio até tarde, só eu e a muriçoca. Ela estava encostada no canto, lataria vermelha um pouco desbotada pelo sol dos anos, mas com o motor regulado e os pneus bons, porque eu nunca deixei cair. Eu passava a mão no para-choque, olhava para aquele caminhão e pensava no meu pai, que tinha sido caminhoneiro antes de mim, que tinha morrido na estrada com as mãos no volante.
Seu Antônio nunca me ensinou muita coisa com palavras. Me ensinou com exemplo. Me ensinou que homem de estrada cuida do que é seu, paga o que deve e não abaixa a cabeça para quem usa a própria grandeza para diminuir o outro. Eu não estava abaixando a cabeça, mas estava doendo. Tinha uma coisa que me ajudava naqueles dias. Quando a situação apertava muito, quando a conta não fechava e o sono não vinha, eu ligava o rádio PX e ficava escutando. A frequência da noite é diferente da frequência do dia. De dia o rádio é correria, informação de radar, aviso de buraco, carga disponível. De noite o rádio é conversa. É caminhoneiro falando de longe, de perto, de lugar nenhum, com aquela voz que o cansaço amolece. Às vezes eu chamava no rádio só para ouvir resposta. Xodó na frequência. Alguém aí? E quase sempre alguém respondia. Pantaneiro às vezes com aquela voz grossa de quem cresceu no Pantanal e aprendeu que o silêncio é companhia. Ou o Coruja, paulistano magro, que dizia que a estrada de noite conta história diferente da estrada de dia, que de dia a gente vê o caminho e de noite a gente sente ele. Ou Milagre, o gaúcho enorme com 30 anos sem acidente e uma santinha no retrovisor que ele jurava que era a razão de tudo.
O rádio PX não resolve conta, não traz cliente de volta, não desfaz mentira que já foi espalhada, mas mantém a gente conectado com a estrada. E a estrada tem uma memória que vai além da nossa. Ela lembra de todo o caminhoneiro que passou por ela, do primeiro ao último, e trata cada um com a mesma indiferença generosa que só a estrada sabe ter. Foi numa dessas noites de rádio que o Coruja me passou uma coisa que eu guardei fundo, que de noite a gente não enxerga o que está na frente, só enxerga até onde o farol alcança. E que sempre é suficiente, que o farol sempre alcança longe o suficiente para você chegar onde precisa, que o problema é quando a gente exige enxergar além do farol. Aí é que a gente se perde. Eu fiquei pensando nisso durante dias. O farol da muriçoca alcançava o suficiente. Eu só precisava continuar dirigindo.
Naqueles dias também recebi uma ligação da minha mãe, dona Lúcia, lá de Ituiutaba. Ela não sabia da situação da transportadora. Eu nunca levei preocupação de dinheiro para ela. Isso era uma regra minha desde que meu pai morreu e eu assumi o lugar de homem da família. Ela ligou para falar de coisa à toa, de como a horta estava dando tomate, de uma vizinha que tinha adoecido, de uma novela que ela estava acompanhando. E eu fiquei escutando a voz dela com aquela gratidão quieta de filho que cresceu longe e que às vezes precisa ouvir a mãe falar de coisas sem importância para lembrar que o mundo tem camadas além da conta que não fecha. Antes de desligar, ela contou que tinha sonhado com meu pai, que ele estava numa estrada comprida de madrugada e que estava bem, que o caminhão dele estava rodando bonito. Eu não disse nada além de que estava tudo bem por aqui, que ia aparecer em Ituiutaba em breve, que mandava um beijo. Desliguei o telefone e fiquei olhando pro teto por um tempo.
Meu pai teria sabido o que fazer, ou melhor, ele já teria feito sem hesitar. Seu Antônio não era homem de ficar pensando em estratégia, era homem de colocar o caminhão na estrada e trabalhar até a coisa se resolver. Não porque fosse ingênuo. Ele sabia quando a vida apertava, conhecia a dureza das coisas. Mas porque ele acreditava de verdade que trabalho honesto tinha um peso diferente no mundo, que ele ficava depositado em algum lugar que não é banco nem caderneta, um lugar que paga na hora certa, não na hora que a gente quer. Eu tinha herdado essa crença e era ela que me mantinha em pé.
Três semanas depois da conversa com o Coruja, a Agropecuária Serrado Verde mandou um comunicado formal para todas as transportadoras da região. O contrato com a Machado Transportes estava sendo rescindido por descumprimento de prazo e avaria de carga. A empresa estava abrindo um novo processo de seleção. Li aquele comunicado três vezes. Toninho me ligou na mesma hora, estava animado. Falou que era a nossa chance, que agora com o histórico que a gente tinha era impossível perder de novo. Ouvi o Toninho, agradeci e desliguei o telefone devagar, porque eu não estava animado, estava com um pensamento que não conseguia tirar da cabeça. Por que a Machado Transportes tinha perdido o contrato? Atraso e avaria de carga, as mesmas coisas que Régis tinha espalhado sobre mim. As mentiras que ele contou sobre a transportadora Xodó eram, na verdade, o retrato do que a empresa dele estava fazendo. Ele tinha projetado nos outros o que ele era. Aquilo me perturbou de um jeito que eu não esperava. Não me deu satisfação. Me deu uma tristeza estranha de ver um homem que poderia ter sido grande se tivesse escolhido diferente e que escolheu o caminho curto, o caminho que parece mais fácil e que cobra o triplo no final.
Toninho mandou a proposta da transportadora Xodó dois dias depois do comunicado. Eu assinei os documentos, conferi tudo e deixei a coisa seguir o curso. Não fui fazer campanha. Não fui visitar ninguém. Deixei o histórico falar. A semana que veio depois foi a mais longa que eu lembro. Eu continuei trabalhando. Fiz duas viagens curtas, uma para Patos de Minas e outra para Itumbiara. Mantive a muriçoca rodando, porque caminhão parado apodrece por dentro, assim como homem parado. A estrada me mantinha de pé. Era o único lugar onde eu sabia exatamente quem eu era. Não empresário em crise, não um homem com conta atrasada, não um homem que foi humilhado no próprio pátio do concorrente. Na estrada eu era Xodó, era o doutor, era o homem que sabia cada curva, cada subida, cada trecho de asfalto ruim entre o Triângulo Mineiro e o Sudoeste Goiano.
Na volta de Itumbiara, passei pelo mesmo posto onde eu tinha parado anos atrás. O posto tinha mudado de dono, tinha sido pintado de novo, tinha colocado um toldo novo sobre as mesinhas de plástico, mas as mesinhas estavam no mesmo lugar. E dona Lourdes ainda estava lá, mais velha, mais lenta, mas com o mesmo avental, agora amarelo em vez de azul. Ela me reconheceu, me chamou pelo apelido Xodó, que bom te ver por aqui. E trouxe o café sem eu pedir. Sentou na cadeira da frente com o jeito de quem tem coisa para dizer e está esperando o momento. Então veio a pergunta: Aquele menino, você se lembra? O que você deu de comer naquela madrugada faz uns 14 anos? Eu me lembrava. Ela contou que ele tinha voltado ao posto uma vez faz uns três anos. Um rapaz novo, bem vestido, com uma mochila. Perguntou se ela se lembrava de um caminhoneiro que tinha parado ali numa madrugada de inverno e dado um prato de comida para um menino na cerca. Ela disse que se lembrava. Ele perguntou o nome do caminhoneiro. Ela disse que não sabia o nome, mas que o apelido era Xodó e que o caminhão era uma Mercedes vermelha, velha, mas que funcionava feito relógio. Ela fez uma pausa, olhou para mim com aqueles olhos de quem viveu muito e aprendeu que o tempo é mais sábio que qualquer pessoa. Ele foi embora sem deixar recado, mas antes de sair tinha dito uma coisa, que se ela visse esse homem de novo, passasse adiante. O menino da cerca não esqueceu.
Fiquei olhando para dona Lourdes sem conseguir dizer nada. Ela encheu de novo o copinho de café e me deixou ficar ali com aquilo. O menino da cerca não esqueceu. Entrei na muriçoca com aquele peso novo no peito. Não o peso ruim, o peso de quando alguma coisa grande pousa dentro da gente e fica. Dei a partida, coloquei o caminhão na estrada e dirigi em silêncio o resto do caminho até Uberlândia, pensando naquela frase. Eu tinha esquecido, não completamente, mas tinha guardado aquilo numa gaveta funda, como a gente guarda coisa que fez bem e que não teve resposta. Ele não tinha esquecido. Cheguei no pátio perto da meia-noite. Toninho já tinha ido embora. O pátio estava no silêncio que os pátios de caminhão têm de madrugada. Aquele silêncio que não é vazio, é cheio de coisa que aconteceu durante o dia e que ainda está assentando. Encostei a muriçoca no lugar dela, desliguei o motor e fiquei sentado no banco por um tempo com o farol apagado e a janela aberta. O cheiro do pátio de madrugada é uma coisa que eu nunca consegui descrever direito para quem não conhece. É diesel misturado com óleo queimado, com a umidade do asfalto que esfria depois do calor do dia, com a poeira que assenta quando não tem mais movimento. Tem uma limpeza nesse cheiro que parece contraditória, mas que é real. É o cheiro de coisa que trabalhou, de máquina que cumpriu o que foi feita para cumprir. Eu cresci nesse cheiro. Aprendi a gostar dele antes de aprender a gostar de qualquer perfume que viesse de loja.
Pensei no meu pai. Seu Antônio tinha um jeito de dizer que a estrada devolve tudo. Não da forma que a gente espera, não na hora que a gente quer, mas devolve. Ele dizia isso sem explicar direito, que era o jeito dele. Colocava a verdade no ar e deixava a gente pegar quando estivesse pronto para entender. Eu nunca entendi completamente quando ele estava vivo. Fui entendendo aos pedaços depois que ele morreu, cada vez que a estrada me devolvia alguma coisa que eu nem lembrava ter dado. Na manhã seguinte, cedo, o telefone tocou. Era um número de Goiânia que eu não conhecia. Atendi com a voz ainda grossa de quem não dormiu direito. A pessoa do outro lado perguntou se podia falar com o responsável pela transportadora Xodó. Eu disse que era eu mesmo. Uma pausa. Depois a voz explicou que ligava da Agropecuária Serrado Verde e perguntou se eu podia comparecer no dia seguinte de manhã para uma reunião com a diretoria, que tinham interesse em conversar sobre o contrato de transporte. Confirmei que podia. Desliguei o telefone, fiquei parado na beira da cama, olhando pro chão. Depois me levantei, fui até o banheiro, lavei o rosto e olhei pro espelho. O homem que olhou de volta para mim era um homem cansado, mas era um homem de pé, com os olhos claros, com a cara de quem sabe quem é mesmo quando o mundo tenta convencer do contrário. Pensei no Régis Machado, olhando para mim naquele pátio de Anápolis e dizendo que caminhão do ano 78 não competia com empresa moderna. Pensei nessa frase e olhei pro meu próprio rosto no espelho de hotel barato. E o que eu vi não foi um homem derrotado. Vi um homem que a estrada tinha curtido, que tinha linha no rosto de quem dormiu pouco e trabalhou muito, que tinha caleja na mão de quem não terceirizou a própria vida. Isso não era derrota, era prova.
No dia seguinte, acordei antes do sol, tomei banho, vesti a roupa limpa e fui até o pátio. Antes de pegar o carro para ir até a rodoviária, porque eu não ia de caminhão para a reunião de diretoria, isso eu aprendi com Toninho. Dei uma volta em volta da muriçoca, passei a mão no para-choque dianteiro, bati de leve na lataria vermelha e disse em voz baixa: A gente vai sair dessa. Ela não respondeu. Caminhão não responde, mas eu ouvi. No ônibus, durante as quase três horas de viagem até Goiânia, eu não dormi. Fiquei olhando pela janela, o cerrado passando, aquela paisagem que eu conheço de trás pra frente de noite e que de dia tem uma beleza diferente, mais clara, mais aberta, com aquele céu enorme que o cerrado tem e que parece que vai engolir tudo. Pensei no que eu ia falar na reunião. Ensaiei algumas frases na cabeça e depois descartei todas elas. O jeito de Xodó não é de frase ensaiada. O jeito de Xodó é dizer a verdade do jeito que ela é, sem enfeite, e deixar que ela valha por si mesma.
A reunião na Serrado Verde foi numa sala de vidro no terceiro andar de um prédio em Goiânia, com ar condicionado e café servido em xícara de verdade. Sentei na cadeira que me ofereceram e fiz o que eu sempre faço em situação que me tira do meu lugar. Fiquei quieto e prestei atenção. Tinha três pessoas do lado de lá da mesa. Um homem mais velho, que era o diretor comercial, uma mulher de cabelo curto, que era a gerente de logística, e um rapaz novo que eu não conhecia, sentado no canto com um computador na frente, que apresentaram como Samuel, analista de logística que tinha entrado recentemente na empresa. Cumprimentei os três. Quando apertei a mão do rapaz novo, do Samuel, ele me olhou de um jeito que me pareceu diferente. Não sei explicar. Era um olhar que tinha coisa dentro. Não a coisa da reunião de negócio, não a coisa profissional. Era outro tipo de olhar. Como quando a gente olha para alguém que conhece de outro tempo e está tentando encaixar o rosto na memória. Não liguei na hora. Fiquei focado na reunião. O diretor comercial explicou a situação. O contrato com a Machado Transportes tinha sido rescindido após três episódios de atraso significativo e um caso grave de avaria de carga, uma quantidade de soja que chegou úmida e imprópria, o que tinha causado prejuízo importante ao cliente final. A empresa estava buscando um novo parceiro de transporte e a proposta da transportadora Xodó tinha chamado atenção pelo histórico limpo e pelas referências muito positivas.
Ouvi tudo com atenção. Respondi o que me perguntaram de forma direta, sem exagero, sem vender mais do que eu podia entregar. Falei o que a transportadora fazia, como fazia, qual era o padrão que eu mantinha e qual era o prazo que eu me comprometia a cumprir. Sem enfeite. Foi uma reunião boa. No final, o diretor informou que a decisão seria tomada em até cinco dias úteis e que eu receberia um retorno formal. Quando a reunião terminou e a gente estava saindo da sala, o rapaz novo, Samuel, me tocou no braço no corredor. Os outros dois tinham ido na frente. Ele estava com o computador embaixo do braço e um olhar que eu não conseguia decifrar. Uma pergunta: O seu caminhão é uma Mercedes vermelha? Ano 78? Eu olhei para ele, uma Mercedes vermelha, velha, que o pessoal chama de muriçoca. Confirmei que sim. Ele ficou em silêncio por três segundos. Depois olhou pro chão, respirou fundo e disse uma coisa que me parou no corredor daquele prédio de vidro em Goiânia, como se o chão tivesse saído debaixo dos meus pés: Eu sei quem você é. Eu te conheço faz 14 anos. Você só não sabe. E antes que eu pudesse reagir, o diretor chamou ele lá do corredor e ele foi me deixando parado com aquela frase no ar, com o coração batendo de um jeito que eu não sabia nomear e com uma sensação que não era alegria, nem medo, nem surpresa. Era algo maior que tudo isso. Uma coisa que eu só conhecia da estrada de madrugada, quando o farol rasga o escuro e de repente aparece à frente uma coisa que você não esperava, mas que de alguma forma você sempre soube que estava lá.
Eu dormi mal naquela noite em Goiânia. Tinha reservado um quarto num hotel simples, perto do terminal rodoviário. O tipo de lugar que caminhoneiro usa quando precisa de cama e não de conforto. Cama dura, cobertor fino, o barulho da rua entrando pela janela mal vedada. Eu estava acostumado com isso. O que eu não estava acostumado era com aquela frase girando dentro da cabeça sem parar. Eu sei quem você é. Eu te conheço faz 14 anos. Você só não sabe. Fiquei deitado no escuro, tentando montar o quebra-cabeça. Um rapaz novo, bem vestido, analista de logística numa empresa grande, que conhecia o nome da muriçoca, que sabia o ano do caminhão, que me olhou daquele jeito quando apertou minha mão. Não o olhar de quem está conhecendo alguém, mas o olhar de quem está reencontrando. E aí bateu devagar, como bate a madrugada no vidro quando a temperatura cai. Não de uma vez, mas em camadas, o menino da cerca.
Fiquei parado no escuro com aquela certeza crescendo no peito, como água subindo em poço fundo. Não era garantido. Podia ser coincidência, podia ser outra coisa, mas alguma coisa dentro de mim, a mesma coisa que faz caminhoneiro experiente sentir que a estrada vai fechar antes de ver a chuva, dizia que não era coincidência nenhuma. Aquele menino