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As irmãs dos Apalaches, cujos feitos foram demasiado horríveis para os livros de história: Martha, Clara e June (21)

Você acha que conhece o horror. Acha que já ouviu as histórias mais sombrias que a América tem a oferecer. Mas não ouviu. Ouviu as versões higienizadas e padronizadas, aquelas com respostas fáceis. Mas hoje vamos para outro lugar. Vamos mergulhar nas sombras dos Apalaches. Para uma época em que a lei era apenas um boato e as florestas guardavam segredos capazes de devorar pessoas vivas, e de fato devoravam.

Isto não é apenas uma história. É um alerta. Vamos investigar o caso das irmãs Whitlock. Três nomes que a história tentou apagar. Três rostos idênticos que assombram a névoa do Condado de Pike, no Kentucky, até hoje. Então tranque as portas, aumente o volume e me diga nos comentários de onde você está assistindo.

Porque quando tudo isso acabar, você ficará feliz por não estar mais nas montanhas. Nossa história começa em 1873. A Guerra Civil acabara de dividir o país em dois, e as feridas ainda sangravam. O Sul era um lugar devastado e cheio de raiva. E nos altos e isolados vales do Kentucky e da Virgínia Ocidental, não havia lei. Havia apenas as montanhas, a neblina e as famílias que se escondiam ali há gerações.

Essas montanhas sempre tiveram uma certa reputação. São antigas. Os primeiros colonizadores contavam histórias de trilhas que simplesmente desapareciam. De viajantes que caminhavam para dentro de um banco de neblina e nunca mais saíam. De estranhos sons de assobio nos pinheiros quando o vento estava calmo. Mas nada, absolutamente nada, poderia ter preparado o mundo para o que estava se alastrando em uma pequena fazenda dilapidada perto da fronteira com a Virgínia Ocidental.

A família Whitlock. Eram gente da montanha, duros como carvalho e igualmente teimosos. O pai, Jonathan Whitlock, fora para a guerra e voltara com um braço a menos e a alma tomada pelo veneno. Era um bêbado mesquinho e amargurado. A mãe, Sarah, morrera em 1852 ao dar à luz trigêmeas. Deixou para trás três meninas idênticas: Martha, Clara e June.

E talvez, só talvez, ela tenha sido a sortuda. Vinte e um anos depois, aquelas meninas eram muito diferentes. Crescer naquele lugar sem mãe foi difícil. Crescer com Jonathan Whitlock foi um verdadeiro inferno. Os vizinhos mais próximos moravam a cinco quilômetros de distância, em meio a rochas e cascavéis. Sem escola, sem igreja, nada além dos penhascos e do vento, e um pai que só conhecia a fúria.

As meninas cresceram como lobas. Aprenderam a caçar, a armar armadilhas e a se mover silenciosamente pela floresta. Aprenderam a ficar em silêncio. Aprenderam a não chorar. E aprenderam algo sombrio. Aprenderam que naquelas montanhas, longe de qualquer distintivo ou juiz, você podia fazer qualquer coisa e sair impune. O primeiro sinal de que algo estava terrivelmente errado apareceu na primavera de 73.

Um comerciante viajante, Elias Turner, fazia suas rondas. Esses homens eram a força vital do povo das terras altas, trazendo tecidos, ferramentas, notícias e remédios.

Elias era um bom homem, conhecido na região há anos, um pai carinhoso de quatro filhos de meia-idade. Ele estava a caminho de casa, em Preston.

Sua última parada, contou ele à família em frente à casa dos Whitlock, foi a antiga fazenda dos Whitlock. Elias Turner nunca voltou para casa. Sua esposa — que Deus a tenha — esperou uma semana, uma semana encarando a estrada, uma semana com o medo fervendo em seu estômago. Finalmente, ela foi ao escritório do xerife no Condado de Floyd. Uma busca foi organizada. Mas procurar um homem nos Apalaches é como procurar um grão de areia específico em uma praia do tamanho de um estado.

A mata engole tudo. Cânions, cavernas, vegetação rasteira densa. Um homem podia estar a três metros da trilha e se perder para sempre. O xerife Thomas Blackburn era um homem durão, um veterano de guerra que sabia ler rastros. Ele seguiu a rota de Elias, fazenda por fazenda. O último avistamento confirmado foi a apenas 16 quilômetros da propriedade dos Whitlock. Ele estava indo para lá, disse o fazendeiro, disse que seria sua última parada.

Então Blackburn e três auxiliares subiram aquela trilha traiçoeira. Era uma tarde chuvosa e miserável de junho. O nevoeiro estava tão denso que parecia que estavam cavalgando para dentro das nuvens. Encontraram Jonathan na varanda, bêbado, às 15h. O ar ao redor da cabana estava pesado, não apenas por causa da chuva, mas por algo mais… um cheiro de açougue antigo.

Jonathan negou tudo e falou arrastado:

“Não vi nenhum vendedor. Ninguém aparece por aqui há semanas.”

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E foi exatamente nesse momento que elas apareceram. As três irmãs, Martha, Clara e June. Elas vieram até a porta e ficaram ali paradas, olhando fixamente. Blackburn era um homem que havia lutado em batalhas, que havia visto homens serem despedaçados. Ele nunca havia sentido um tremor como aquele antes.

Eles eram idênticos. Vinte e um anos, mas com olhos que pareciam antigos e vazios. Vestiam roupas esfarrapadas e cobertas de lama. Seus longos cabelos escuros estavam emaranhados. Não piscavam. Não se moviam. Apenas encaravam, frios como pedras de rio. Havia algo primitivo neles. Algo desumano. Blackburn pediu permissão para revistar a propriedade.

Jonathan, num acesso de fúria causado pela embriaguez, agarrou seu rifle.

“Você não tem um mandado de busca”, ele cuspiu as palavras.

E, tecnicamente, ele estava certo. No Sul dos Estados Unidos do pós-guerra, não se invadia a propriedade de alguém sem provas concretas. Blackburn não tinha nada. Ele e seus homens tiveram que ir embora. Desceram a montanha a cavalo, com a lama grudada nos cascos.

Mas, enquanto se afastava, Blackburn olhou para trás. As três irmãs ainda estavam paradas na porta, completamente imóveis, observando-o partir. Ele soube naquele instante. No fundo do seu ser, sentiu que estivera na presença de um mal que nem sequer conseguia nomear, e sabia que ele retornaria. Segunda onda. Blackburn era um bom xerife, mas era um homem da lei.

Ele não podia simplesmente invadir a propriedade de um homem por capricho; precisava de provas. Precisava de um corpo. Mas as montanhas não lhe deram nenhuma. O caso de Elias Turner estava encerrado. Apenas mais um viajante perdido na região selvagem. Os rumores na cidade culpavam tudo, desde pumas até fantasmas vingativos da guerra.

Mas o xerife Blackburn não parava de pensar naqueles olhos. Aqueles três pares de olhos idênticos e vazios. Ele não precisou esperar muito. Três semanas depois, outra pessoa desapareceu. Desta vez, era o reverendo Isaiah Morton, um pregador idoso e frágil que viajava sozinho a pé, levando a palavra de Deus às fazendas mais remotas. Ele era um homem que acreditava poder salvar qualquer pessoa.

Para obter comida e abrigo, ele dependia da bondade de estranhos. E assim como Elias Turner, sua rota conhecida o levou diretamente pelas trilhas das terras altas… diretamente em direção à região de Whitlock. Ele foi visto pela última vez subindo a crista da montanha, dizendo a um fazendeiro que queria tentar confortar aquelas pobres meninas perdidas na fazenda dos Whitlock.

O reverendo nunca desceu. Perder um comerciante é ruim para os negócios. Perder um pregador é um ataque ao próprio Deus. O alarme foi dado. Igrejas de três condados organizaram equipes de busca. Estamos falando de grupos de 20, 30 homens. Homens fortes, criados nas montanhas, que conheciam cada caminho e cada vale. Eles procuraram por dias.

Eles vasculharam cânions. Acenderam tochas e exploraram cavernas. Seguiram cada rastro de veado e cada riacho. Nada. O reverendo Isaiah Morton havia desaparecido, como se a montanha simplesmente se abrisse e o engolisse. O xerife Blackburn não aguentava mais as brincadeiras. O pânico agora era real. Ele foi até o magistrado do condado, um homem que ouvira as histórias aterrorizantes das equipes de busca.

Dessa vez, Blackburn obteve seu mandado de busca. Subiu aquela montanha novamente, não com três delegados, mas com cinco, e todos estavam armados para a guerra. Encontraram Jonathan na varanda como antes, bêbado e furioso.

“Isto é perseguição!”, ele rugiu. “Sou um veterano de guerra. Este é o meu país!”

Ele gritava sobre seus direitos, sobre o governo, sobre suas vítimas.

Mas desta vez, Blackburn simplesmente o empurrou para o lado.

“A lei é a lei, Jonathan. Estamos revistando o local.”

A busca foi brutal. Durou horas. A cabana era um amontoado de três cômodos, mal se sustentando. Não havia porão. Os homens arrancaram o assoalho. Checaram o sótão. Nada. Foram até o celeiro. Estava cheio de ferramentas enferrujadas, feno velho e um cheiro insuportável de decomposição.

Elas reviraram cada fardo. Cravaram forcados no chão, procurando por terra recém-remexida. E durante todo esse tempo, as três irmãs balançavam na varanda. Estavam sentadas em fila num banco velho. Martha, Clara e June. E balançavam para frente e para trás numa perfeita, antinatural e silenciosa unidade. Quando a cabeça de uma irmã se inclinava, as cabeças das outras duas se inclinavam exatamente no mesmo segundo.

Quando os olhos de uma pessoa piscavam, todos piscavam. Era tão estranho que os policiais começaram a evitar olhar para ela. Era como se estivessem vendo um único fantasma em três corpos. Não encontraram nada. Absolutamente nada. Nenhum vestígio do comerciante, nenhum vestígio do pregador, nem um botão, nem uma bota, nem uma gota de sangue.

Blackburn teve que admitir a derrota. Ele tinha o mandado. Realizou a busca e saiu de mãos vazias. Ele e seus homens montaram nos cavalos. Enquanto se afastavam, Blackburn se sentia um tolo. Mas também sentia algo mais. O mesmo arrepio. Não conseguia se livrar da sensação de que não havia simplesmente ignorado as evidências. Tinha a terrível suspeita de que as evidências o estavam observando.

Ele olhou para trás, assim como da última vez. As três irmãs ainda se balançavam em uníssono. E na penumbra e na névoa, ele juraria que estavam sorrindo. Terceira onda. O verão de 1873 tinha sido uma temporada de terror. Depois da segunda busca infrutífera de Blackburn, era como se a montanha tivesse relaxado. Como se o mal naquela propriedade soubesse que era intocável.

E os casos de pessoas desaparecidas estavam se acumulando. Mais três pessoas. Sumiram. Primeiro, um jovem caçador de peles chamado William Hayes, com apenas 19 anos. Ele era novo na região e dizia a todos que faria fortuna nos altos cumes. Suas armadilhas foram encontradas, fechadas com força e vazias, em uma trilha que — você adivinhou — passava bem ao lado das terras dos Whitlock. Depois, o Dr. Samuel Pritchard, um médico rural que viajava entre as fazendas, um bom homem.

Ele foi visto cavalgando pelo vale. Seu cavalo foi encontrado uma semana depois, a 32 quilômetros de distância, magro e em pânico. Sua maleta de primeiros socorros foi encontrada em um riacho, mas o médico havia desaparecido. E então veio o caso que comoveu toda a região: o de uma mulher, Rebecca Stone.

Ela estava fugindo de um casamento arranjado e tentando chegar até sua família no Tennessee. Ela era inteligente, era forte, mas não conhecia as montanhas. A última vez que foi vista, pedia informações e alguém… alguém a mandou subir a trilha em direção ao Vale da Morte. Era assim que chamavam o lugar agora. Os jornais de Pikeville e Lexington noticiaram o caso.

Não eram mais apenas casos de pessoas desaparecidas. Tinha se tornado uma lenda. Chamavam o lugar de Vale da Morte. Escreviam histórias de espíritos vingativos, de maldições cherokee, de criaturas que viviam nas cavernas. Sempre houve histórias nos Apalaches, mas agora parecia que elas estavam se tornando realidade. O xerife Blackburn estava arrasado.

Sua reputação estava em frangalhos. Ele era um homem da lei que não conseguia fazer cumprir a lei. Caçara foras da lei. Sobrevivera a uma guerra, mas fora derrotado por… o quê? Um bêbado maneta e três garotas mudas e sinistras. Não fazia o menor sentido. Não havia corpos, nem testemunhas, nem provas, apenas pessoas que entraram na névoa e nunca mais saíram.

Então, em agosto, Blackburn tomou uma decisão. Uma decisão desesperada e quase ilegal. Ele não conseguiu obter outro mandado de busca. Não tinha novas provas. Então, decidiu observar. Recrutou um grupo de homens em quem confiava, homens durões e taciturnos que haviam servido com ele na guerra. E eles estabeleceram uma vigilância discreta, 24 horas por dia, 7 dias por semana, na propriedade de Whitlock. Acamparam nas árvores, ao longo dos caminhos, escondidos na vegetação rasteira.

Eles vigiavam cada entrada e saída. Era uma operação miserável e arriscada. Se Jonathan os encontrasse, haveria um tiroteio. Mas Blackburn sentia que não tinha outra escolha. Durante duas longas e frias semanas, nada aconteceu. Os homens observaram. Jonathan foi à cidade uma vez e voltou bêbado. As irmãs eram fantasmas.

Eles saíram juntos da cabana para buscar água no riacho. Desapareceram na mata para caçar e voltaram… horas depois… juntos, com as mãos e as roupas manchadas, mas sem nenhuma presa à vista. Os homens que os observavam juraram que não fizeram nenhum som. Não quebraram um galho. Não sussurraram. Moviam-se como fumaça.

Um delegado, um jovem chamado Parker, jurou ter visto uma delas pegar um pássaro no ar com as próprias mãos, e não tinha certeza, mas achava que a tinha visto comê-lo. Cru, disse ele a Blackburn. O xerife apenas lhe disse para continuar observando. Então, numa tarde do início de setembro, tudo mudou. Um novo homem apareceu na trilha principal, um viajante solitário.

Ele estava bem vestido para a região e montava um robusto cavalo marrom. Parecia ter dinheiro. Suas alforjas estavam cheias. Um rifle novinho em folha estava preso à sela. Os sentinelas, escondidos entre as árvores, o viram parar no final da trilha. Viram-no olhar para o mapa, virar o cavalo e subir a trilha… direto para a Cabana Whitlock.

Os homens não podiam se mexer. Não podiam avisá-lo. Fazer isso significaria revelar sua posição e arruinar toda a operação. Eles simplesmente tiveram que sentar e observar. Observaram enquanto ele subia aquela trilha íngreme e lamacenta até que as árvores e a neblina o engoliram completamente. Esperaram uma hora. A floresta estava em um silêncio sepulcral. Duas horas.

O sol começou a se pôr, pintando as nuvens de um vermelho doentio e sangrento. E então eles ouviram. Um som. Um grito terrível e agudo. Não era humano. Era o som do puro terror animal. Um instante depois, o cavalo irrompeu da mata. Desceu a trilha a toda velocidade, sozinho. Seus olhos estavam brancos, espuma saía de sua boca. A sela estava vazia.

As alforjas tinham sumido. As rédeas estavam quebradas. O animal estava em pânico, relinchando e dando coices como se o próprio diabo o estivesse perseguindo. Os sentinelas conseguiram capturar o cavalo. Blackburn, que estava no acampamento avançado, viu tudo. Olhou para o animal aterrorizado. Olhou para a sela vazia e para o alto da montanha… onde o sol já havia desaparecido e as sombras se tornaram negras.

Ele sacou o rifle.

“Já chega”, disse ele, com a voz calma e fria como ferro. “Ele não vai escapar. Vamos entrar. Vamos entrar agora.”

Quarta onda. Desta vez não havia mandado. Desta vez não houve batidas na porta. Não foi uma busca. Foi uma batida. Blackburn não trouxe apenas seus agentes. Ele trouxe todos os 12 homens da equipe de vigilância.

Doze homens fortemente armados e veteranos de guerra subiram a montanha em formação tática. Avançaram pela penumbra, a floresta escurecendo ao seu redor, o ar ficando mais frio. Ao se aproximarem da cabana, um silêncio sepulcral pairou sobre a mata. Nenhum grilo, nenhum pássaro, apenas o som de suas botas na lama e as batidas fortes de seus corações.

Eles romperam a linha das árvores e viram a cabana. Estava escura. Não, pior que escura. Parecia morta. Sem fumaça saindo da chaminé, sem luz nas janelas, apenas uma silhueta negra e silenciosa contra o céu vermelho-sangue. O mesmo cheiro pairava no ar. Sangue velho, podridão e algo mais. Algo que cheirava a cabelo queimado. Blackburn ergueu o punho.

Os homens se espalharam e cercaram a cabana.

“Jonathan Whitlock”, bradou Blackburn, sua voz rompendo o silêncio. “Aqui é o Xerife Blackburn. Apresente-se com as mãos para cima.”

Nada, nenhum som. A cabana parecia um túmulo.

“Não vou perguntar de novo!”, gritou ele.

Nada ainda, apenas o vento que surgiu de repente e assobiou entre os pinheiros.

Parecia que ele estava rindo. Walsh. Blackburn fez um gesto para seu assistente mais alto. “Abra a porta.” Walsh nem se deu ao trabalho de girar a maçaneta. Simplesmente abaixou o ombro e arrombou a porta com todo o seu peso. Ela explodiu para dentro, a madeira podre estilhaçando-se. Os homens invadiram, rifles em punho, espalhando-se, esperando tiros, esperando tudo.

O que encontraram foi nada. A sala principal estava vazia e fria, gélida. A lareira estava cheia de cinzas cinzentas e mortas. Uma garrafa de uísque pela metade estava sobre a mesa, e Jonathan Whitlock estava sentado na cadeira. Ele simplesmente ficou ali sentado, com um braço apoiado na mesa. Seus olhos estavam arregalados, fixos, vidrados.

Ele tinha uma expressão no rosto… uma expressão de terror absoluto, a ponto de dois dos policiais terem que desviar o olhar. Blackburn estendeu a mão e tocou seu pescoço. Frio… gelado. Ele estava morto havia horas.

Não havia marcas nele, nem ferimentos, nem sinais de luta. Ele simplesmente morreu sentado ali, olhando fixamente para algo.

“Xerife”, sussurrou um dos agentes da sala dos fundos. Sua voz tremia. “Xerife, você… você precisa ver isso.”

Blackburn e os outros homens caminharam em direção à porta do pequeno quarto compartilhado. O ar que emanava dali era denso, e havia um som — um zumbido baixo e rítmico. Não era uma canção, mais como um cântico. Blackburn ergueu sua lanterna. As três irmãs estavam lá, sentadas no chão em um círculo fechado, de mãos dadas.

Eles se balançavam para frente e para trás em uníssono, emitindo um zumbido profundo, gutural, semelhante ao de um inseto, que fez os pelos dos braços de Blackburn se arrepiarem. Todos vestiam as mesmas roupas esfarrapadas e enlameadas. Seus olhos estavam fechados. Estavam completamente, assustadoramente, perdidos em seu transe.

“Martha, Clara, June”, disse Blackburn, com a voz ainda ecoando. “Acabou.”

Eles não pararam.

O zumbido só aumentava. Parecia vibrar na própria madeira da cabana.

“Eu disse que tinha acabado!”, gritou ele. “Seu pai está morto!”

E então pararam. De repente. O silêncio foi tão súbito. Foi como um soco no estômago. Os três abriram os olhos em uníssono. Não olharam para Blackburn.

Eles não olharam para os homens armados que enchiam a sala. Todos viraram a cabeça em perfeita sincronia e encararam diretamente o Delegado Henry Walsh, que estava encostado na parede do fundo. E então um deles sorriu — era impossível dizer qual.

“Xerife”, disse Walsh com a voz trêmula, mas seus olhos permaneceram fixos no chão onde ele estava.

“Eu acho… acho que você precisa olhar aqui. Este… este fedor.”

Blackburn moveu sua lanterna. Walsh estava em um pedaço de chão coberto com palha velha e tábuas podres. Mas não era chão. Era uma tampa. Havia um alçapão. Uma porta que ninguém tinha visto durante as duas últimas buscas porque estava perfeitamente escondida.

Uma porta que dava para baixo. Quinta Onda. Aquele cheiro, o mesmo que Blackburn sentira em sua primeira visita. Vazava pelas frestas daquela alçapão. Um cheiro denso, adocicado, metálico, como o de um matadouro.

“Energia… abra!”, ordenou Blackburn com voz tensa.

Dois policiais agarraram o anel de metal na porta. Eles puxaram com força. Ele não se moveu.

Era como se estivesse selado.

“Esforce-se mais.”

Os dois homens largaram os rifles, apertaram os punhos e puxaram. A madeira rangeu e, com um som semelhante ao de um caixão sendo aberto, a alçapão se abriu com um guincho. Uma onda de ar frio e úmido atingiu-os em cheio. O fedor era tão forte que dois dos auxiliares saíram cambaleando da cabana, engasgando, e vomitaram na lama.

Blackburn, com um pano cobrindo o rosto, iluminou o buraco com sua lanterna. Não era um porão. Não era um depósito. Os Apalaches são repletos de calcário. Cavernas, dolinas, passagens que se estendem por quilômetros. A cabana Whitlock não havia sido simplesmente construída no topo da montanha. Ela havia sido construída dentro dela. Abaixo deles havia uma caverna natural, um buraco negro e profundo na terra.

“Henry, venha comigo”, disse Blackburn, pegando uma corda. “O resto de vocês a vigia.”

Ele acenou com a cabeça para as irmãs, que não se mexeram. Elas apenas observavam… seus olhos negros e vazios seguindo os homens. Blackburn e Walsh acenderam duas tochas e desceram de rapel para a escuridão. A caverna tinha cerca de 4,5 metros de profundidade e um teto baixo.

As paredes eram de calcário úmido, pingando água. O chão era de terra fria e compactada, e estava cheio. A princípio, parecia apenas um amontoado de lixo, um monte de entulho. Mas quando Blackburn ergueu sua tocha, seu sangue gelou. Não era lixo. Era uma sala de troféus. Ali, cuidadosamente dobrado sobre uma rocha, jazia um casaco de mercador, um casaco com um impressionante remendo costurado à mão no cotovelo.

Blackburn tinha visto aquele remendo no cartaz de pessoa desaparecida de Elias Turner. Ao lado, havia um par de botas gastas e surradas, com o nome W. Hayes — William Hayes, o caçador — gravado no calcanhar de couro. E sobre uma laje de pedra plana, dispostas como um conjunto de instrumentos cirúrgicos, estavam os instrumentos médicos do Dr. Samuel Pritchard, seus bisturis e serras reluzindo à luz da tocha.

Havia um vestido feminino, de Rebecca Stone, e sobre ele, como uma última piada macabra, uma pequena Bíblia gasta. Blackburn a pegou. Suas mãos tremeram. Ele abriu a capa. Escrito em caligrafia elegante: “Propriedade do Reverendo Isaiah Morton. Que Deus guie meus passos.” Estava tudo ali.

Os pertences de cada pessoa desaparecida. O viajante desta tarde, seu rifle e alforjes, estavam jogados num canto, aparentemente já sendo revistados. Eles não estavam apenas os matando. Estavam colecionando-os.

“Xerife”, sussurrou Walsh, com a lanterna tremendo. “Onde… onde estão os… os corpos?”

Blackburn examinou a caverna com os olhos. Walsh tinha razão.

Havia roupas, ferramentas, bolsas, troféus, mas não havia cadáveres, ossos, manchas de sangue, nada. Estava limpo.

“O que… o que fizeram com eles?”, gaguejou Walsh.

Blackburn não respondeu. Ele encarou a parede do fundo. A pedra estava coberta de arranhões, símbolos estranhos, padrões que ele não reconhecia e marcas de contagem — não em grupos de cinco, apenas linhas, centenas, talvez milhares delas, esculpidas na rocha, e elas se estendiam profundamente em uma parte da caverna pequena demais para entrar.

“Terminamos por aqui”, disse Blackburn em tom monótono. “Vamos embora.”

Eles saíram. Blackburn bateu a porta do alçapão. Ele se virou para as três irmãs, que ainda estavam sentadas exatamente na mesma posição, com as mãos cruzadas no colo.

“Coloquem-nos de pé”, ordenou ele. “Acorrentem-nos.”

Os deputados se apresentaram.

No instante em que uma delas tocou o ombro de Martha, o cântico cessou. As três irmãs pararam de se balançar — como uma só. Pararam de respirar. O silêncio era ensurdecedor. Então, lentamente, em perfeita e repugnante simultaneidade, inclinaram a cabeça, olharam para os policiais e sorriram. Não era um sorriso humano. Era… um mostrar de dentes.

Um mostrar de dentes predatório, animalesco e jubiloso. Era o sorriso de um lobo observando um cordeiro. Uma delas, Clara, avançou. Ela se moveu mais rápido do que qualquer humano deveria ser capaz. Mordeu o policial que a havia tocado e cravou os dentes em seu braço. O homem gritou quando ela arrancou um pedaço de seu uniforme e a carne por baixo.

Foram necessários seis deputados experientes para subjugá-las. Elas lutaram como animais selvagens, não gritando ou rugindo, mas sibilando e rosnando. Chutaram, morderam, arranharam. Mas os homens eram mais fortes. Conseguiram acorrentá-las. Mesmo com pesadas correntes de ferro, as irmãs eram aterrorizantes. Permaneceram juntas, respirando em uníssono, seus olhos negros percorrendo cada um dos homens. Não falaram.

Eles não choraram. Apenas observaram e esperaram enquanto os homens os arrastavam para fora da cabana. Um dos policiais, aquele que havia sido mordido, encarava o próprio braço, com o rosto branco como giz.

“O que houve, filho?”, perguntou Blackburn.

O delegado ergueu o olhar, com os olhos tomados por um novo tipo de terror.

“Xerife, quando ela… quando ela me mordeu, ela… ela riu.”

Blackburn olhou para trás, para as três irmãs em pé na lama, acorrentadas, cercadas por homens armados, e elas pareciam, pelo amor de Deus, estar no controle. Sexta Onda. O pesadelo estava longe de terminar. Estava apenas mudando. Blackburn deixou dois homens para trás para guardar as irmãs, que, agora acorrentadas, estavam completamente inertes.

Eles simplesmente ficaram parados no quintal, imóveis, como três bonecas idênticas e horríveis. Blackburn levou o resto de seus homens para vasculhar o restante da propriedade. Aquele cheiro, o cheiro de cabelo queimado, estava mais forte agora e vinha de trás do celeiro. Ao amanhecer, quando a primeira luz cinzenta e doentia do outono começou a surgir por cima das montanhas, eles o encontraram.

Atrás do celeiro, escondida por um emaranhado de espinhos, havia uma clareira. E na clareira estavam as lareiras. Não havia apenas uma. Havia três grandes fossas circulares revestidas com pedras enegrecidas. O fundo estava saturado de cinzas antigas, com uma camada de quase três centímetros de espessura. Era um… um sistema. E nas cinzas jaziam os ossos. Não eram ossos inteiros.

Não dava para olhar e dizer: “Isso é o braço de um homem”. Não, esses ossos tinham sido processados. Tinham sido queimados a temperaturas incrivelmente altas. Queimados, esmagados e moídos. Um dos policiais encontrou um pilão, uma pedra de rio pesada e lisa, manchada de preto e vermelho escuro. Era uma ferramenta. Eles haviam exterminado suas vítimas sistematicamente.

“Meu Deus”, sussurrou o Delegado Walsh, cambaleando para trás. “Eles… eles os queimaram.”

“Não”, disse Blackburn, com a voz rouca enquanto se ajoelhava, deixando as cinzas escorrerem por entre os dedos. Eram granulosas. “Não apenas queimadas.” Ele olhou para os fragmentos estilhaçados. “Eles retiraram os corpos do fogo, quebraram os ossos e depois os queimaram repetidamente até não sobrar nada além disso.”

Era um nível de meticulosidade que lhe causava mais arrepios do que a própria caverna. A caverna era uma sala de troféus. Isto… isto era uma fábrica. Um dos agentes vomitou. Outro começou a rezar, simplesmente recitando o Pai Nosso repetidamente, com a voz trêmula. Isto ia além de um assassinato. Isto era profanação. Isto era uma tentativa de apagar pessoas da existência, da memória de Deus.

Encontraram fragmentos, pequenos pedaços de crânios, lascas de costelas, juntas de dedos. Suficiente para provar sem sombra de dúvida o que havia acontecido, mas não o suficiente para identificar alguém. Não que isso importasse. A caverna, repleta de pertences, lhes disse quem… isto… isto lhes disse como. A longa descida da montanha foi a jornada mais silenciosa e aterrorizante de suas vidas.

Colocaram as irmãs em uma carroça agrícola requisitada. Acorrentaram-nas uma a uma. Martha na frente, Clara no meio, June atrás. Mas não fez diferença. Enquanto a carroça balançava e oscilava pela estrada traiçoeira, elas se moviam como uma só. Quando a carroça passou por uma lombada, as três se inclinaram para a esquerda exatamente no mesmo instante.

Quando uma delas virava a cabeça para observar as árvores que passavam, as outras duas viravam a cabeça na mesma direção. Ao mesmo tempo, os guardas que as protegiam cavalgavam o mais longe possível da carruagem. Olhar para elas era como sentir enjoo. Observá-las era como se a mente estivesse se dissolvendo. Eram três, mas eram uma só.

As notícias se espalham rápido quando são de tamanha importância, mesmo em 1873. Mensageiros haviam ido à frente. Quando a carroça chegou ruidosamente à rua principal de Pikeville, a cidade inteira estava à espera. Não era uma multidão. Era uma turba. Devia haver umas 200 pessoas. A família de Elias Turner, amigos do Reverendo Morton, a irmã de Rebecca Stone e dezenas de moradores furiosos e aterrorizados que não dormiam há meses.

Eles gritaram: “Bruxas! Demônios! Entregue-os para nós, xerife. Vamos queimá-los!”

Eles tinham tochas. Tinham cordas. Blackburn teve que posicionar seus 12 auxiliares em círculo ao redor da carroça, com rifles em punho, só para conseguir levá-la até a prisão. A multidão avançou, cuspindo e atirando pedras. E durante todo esse tempo, as três irmãs permaneceram sentadas, imóveis. Não se abalaram.

Eles não choraram. Apenas encararam. Seus rostos eram pálidas máscaras de porcelana. A raiva, o ódio, o medo de toda a cidade. Tudo isso os atingiu em cheio, sem os afetar. Era como se existissem em um mundo completamente diferente. A cadeia de Pikeville era um pequeno prédio de dois andares, feito de madeira e pedra. Tinha quatro celas.

Essa foi a decisão mais importante da vida de Blackburn.

“Separem-nos”, ordenou ele. “Quero um na cela um, um na cela três e um na cela quatro. Quero paredes entre eles. Quero acabar com o que estão fazendo.”

Os policiais as arrastaram para dentro. Pela primeira vez desde a captura, as irmãs demonstraram alguma reação. No instante em que os policiais começaram a puxar Martha para a cela um e Clara para a cela três, no instante em que foram fisicamente separadas, elas se debateram e gritaram. Não era um grito humano.

Era um som. Um grito longo, estridente e desumano. E os três emitiram exatamente o mesmo som, exatamente ao mesmo tempo. Não eram três gritos. Era um único grito vindo de três bocas. O som era tão alto, tão antinatural, que estilhaçou o vidro da janela do escritório do xerife. Fez com que homens com experiência em combate largassem seus rifles e tapassem os ouvidos.

Ouviu-se o som de algo sendo despedaçado. O grito durou 30 segundos e então cessou abruptamente, como se um interruptor tivesse sido acionado, e as irmãs ficaram inertes. Elas não estavam mais lutando. Os policiais, trêmulos e pálidos, arrastaram cada uma delas para sua cela individual e bateram as pesadas portas de ferro. O silêncio que se seguiu foi pior que o grito.

Cada irmã, em sua própria cela, sem poder ver ou ouvir as outras, foi exatamente para o mesmo canto, virou-se para a mesma parede e ficou imóvel como estátuas. Elas não se sentaram. Não se deitaram. Simplesmente ficaram ali, de pé, de frente para o canto. Durante horas, os guardas que as vigiaram naquela primeira noite juraram que elas nem sequer piscaram. Sétima Onda.

Naquela noite, a cadeia de Pikeville se tornou o lugar mais aterrorizante da Terra. O xerife Blackburn deixou dois guardas de plantão, Robert Mills e James Crawford. Não eram novatos. Eram homens durões e experientes. Já tinham visto de tudo. Ou pelo menos era o que pensavam. A cadeia estava em um silêncio sepulcral. As três irmãs simplesmente permaneceram em suas celas separadas, encarando seus respectivos cantos.

Eles ficaram imóveis por horas. Por volta das 23h, Mills relatou ter ouvido sussurros. Disse que não vinham de uma cela. Estavam por toda parte. Sons suaves, rítmicos, como um chiado. Ele caminhou pelo corredor, segurando a lanterna no alto. No instante em que se aproximou das celas, os sussurros cessaram. Ele olhou para dentro. Martha, de costas para o canto. Clara, de costas para o canto.

June se virou para o canto. Imóvel. Voltou para sua mesa. Os sussurros recomeçaram. Às 2 da manhã, a situação piorou. Crawford, o outro guarda, jurou ter ouvido uma discussão. Disse que parecia ser entre as freiras, mas não era inglês. Era uma língua áspera e gutural, e vinha das três celas ao mesmo tempo.

Ele correu para verificar. No instante em que suas botas tocaram o corredor… silêncio. Ele olhou na cela um. Martha no canto. Olhou na cela três. Clara no canto. Olhou na cela quatro. June no canto. Ele estava tremendo. Contou para Mills. Mills disse que ele estava imaginando coisas. E então, às 3h17 da manhã, Crawford gritou.

Mills correu de volta, com a arma em punho. Encontrou Crawford encostado na parede do fundo, o rosto pálido, os olhos arregalados e apontando um dedo trêmulo para a cela 3.

“Sobre Clara, ela… ela…”, gaguejou Crawford.

Mills olhou. Clara estava parada no canto.

“O quê, cara? O que houve?”

“Ela estava flutuando”, sussurrou Crawford, com os olhos marejados. “Eu juro por Deus, Robert, ela estava a quinze centímetros do chão… simplesmente flutuando… e… e ela virou a cabeça toda… toda e olhou para mim… e estava sorrindo.”

Mills olhou para Clara. Ela estava parada ali, com uma expressão completamente normal. Ele olhou para Crawford, um homem que conhecia há 10 anos, um homem que não mentia.

“E… e Robert”, gaguejou Crawford. “Quando… quando ela sorriu… Martha deu risadinhas naquela cela ali.”

Ao amanhecer, quando o xerife Blackburn chegou, encontrou seus dois guardas encolhidos perto do fogão. Eles se recusaram a voltar para a cela. Ambos se demitiram na hora.

Blackburn nem tentou impedi-los. Ele podia sentir. O frio naquele prédio não era natural. Enquanto isso, a investigação da cabana trouxe à tona novos horrores. O Dr. Albert Brennan, o legista do condado, havia chegado de carro para examinar o corpo de Jonathan. O homem havia morrido na cadeira.

A conclusão de Brennan: insuficiência cardíaca. Insuficiência cardíaca simples e clássica, provavelmente causada por seus anos de alcoolismo. Mas havia um porém.

“Os olhos dele, xerife”, disse Brennan em voz baixa. “Já vi vítimas de ataque cardíaco. Já vi homens morrerem de medo. Mas nunca… nunca vi olhos assim. As pupilas dele estavam enormes, completamente dilatadas.”

Seja lá o que Jonathan Whitlock tenha visto no último segundo de sua vida, aquilo o deixou apavorado. Seu pai não apenas havia morrido. Ele havia sido perseguido até a sepultura. E então eles encontraram o diário. Estava escondido sob uma tábua solta do assoalho no quarto das irmãs. No quarto delas… envolto em uma lona para protegê-lo da umidade. Não era o diário delas.

Pertencia à mãe dela. Sarah Whitlock, a mulher que morrera no parto 21 anos antes. As anotações eram trêmulas, difíceis de ler… escritas por uma mulher nos últimos dias de uma gravidez complicada. E o que ela escreveu fez Blackburn estremecer mais do que os ossos. Sarah escreveu sobre sua gravidez, sobre como Jonathan não pôde lhe dar filhos depois da guerra.

Ela escreveu sobre rezar… não a Deus… mas à montanha. Ela escreveu sobre sonhos… sonhos com três figuras sombrias que vinham até ela à noite, sussurrando em uma língua que ela não conhecia, mas entendia. Prometeram-lhe filhos. Em troca de um décimo… Ela escreveu sobre acordar e encontrar o corpo coberto de arranhões.

Ela escreveu sobre a crescente e aterradora sensação de que as coisas dentro dela não eram humanas. Mencionou uma caverna, uma caverna antiga no fundo da montanha. Um lugar que os cherokees que ali viveram antes temiam… um lugar onde ofereciam sacrifícios. Ela disse que podia se sentir chamando pelos bebês em seu ventre. A última anotação, escrita um dia antes de sua morte durante o parto, era apenas uma frase.

Estava rabiscado na página, o lápis pressionado com tanta força que rasgou o papel. “Eles não me pertencem. Pertencem à montanha.” O xerife Blackburn fechou o diário com um estalo. Ele não era um homem supersticioso. Tinha visto a verdadeira maldade que os humanos podiam criar. Mas sentado na varanda daquela cabana amaldiçoada, ele finalmente entendeu. Aquilo não era um assassinato.

Isso foi uma espécie de campanha de arrecadação de fundos. As irmãs não estavam apenas matando. Elas estavam alimentando algo. Oitava Onda. O julgamento de Martha, Clara e June Whitlock estava marcado para 15 de outubro de 1873. E não era apenas um julgamento; era um circo. A história se espalhou como um furacão — para os padrões de 1873. Jornais de lugares tão distantes quanto Nova York e Boston enviaram correspondentes.

Eles acorreram à pequena cidade de Pikeville. Chamavam as irmãs de “As Trigêmeas Diabólicas dos Apalaches”, “As Irmãs Canibais”, “As Bruxas da Montanha”. Escreviam histórias sensacionalistas e mirabolantes, mas a verdade era ainda mais bizarra do que tudo isso junto. O tribunal do Condado de Pike era um pequeno prédio de madeira. Cabiam, talvez, 50 pessoas.

Naquele dia, 500 pessoas se aglomeraram na praça da cidade, todas para respirar o mesmo ar. O promotor público, Nathaniel Pierce, tinha um problema, um problema enorme. Ele tinha uma montanha de evidências circunstanciais. Ele tinha os pertences. Ele tinha os fragmentos ósseos. Ele tinha o padrão de comportamento. Mas [limpa a garganta] ele não tinha corpos identificáveis.

Ele não tinha testemunhas para nenhum dos assassinatos. E não tinha confissão. As irmãs não tinham dito uma única palavra. Nem desde o grito. Continuavam sentadas em suas celas separadas. E continuavam de pé nos cantos. Precisaram ser arrastadas para o tribunal. Foram conduzidas acorrentadas, vestidas com roupas cinzentas simples fornecidas pela esposa do xerife.

Seus cabelos estavam limpos. Seus rostos, lavados. E, de alguma forma, isso só piorou as coisas. Pareciam civilizados, mas seus olhos estavam mortos. E caminhavam em sincronia, mesmo acorrentados, mesmo separados por dois guardas, ainda se moviam como um só. No tribunal, era possível ouvir a respiração dos presentes. O promotor Pierce apresentou seu caso. Foi devastador… Ele chamou a esposa de Elias Turner ao banco das testemunhas.

Ela chorou ao identificar o casaco do marido. “Eu… eu mesma costurei este remendo”, soluçou. Ele ligou para o filho do Reverendo Morton. Tremia de raiva ao identificar a Bíblia do pai. Ligou para o Dr. Brennan, o legista. Brennan explicou em detalhes macabros o que havia sido encontrado nas fogueiras. Mostrou-lhe um gráfico. “Esses fragmentos pertencem a pelo menos oito indivíduos diferentes.”

O júri sentiu náuseas. Mas o depoimento verdadeiramente explosivo veio de um homem que tiveram que trazer de avião de Lexington — um psiquiatra, uma raridade — um imigrante alemão chamado Dr. Heinrich Müller. Müller passou três dias observando as enfermeiras em suas celas. Ele falava com um forte sotaque alemão. “O que observei”, disse ele, “foi impossível”. O tribunal ficou em silêncio.

“Observei um deslize… uma loucura a três… uma psicose compartilhada, mas algo mais do que isso.”

“O que você quer dizer com ‘mais’?”, perguntou Pierce.

“Eles… eles não agem como uma única entidade”, disse Müller, suando. “Eu acredito que eles SÃO uma única entidade. Eles compartilham uma única mente.”

O advogado de defesa, um rapaz jovem e assustado de Pikeville, entrou com um recurso. “Especulação.”

“Rejeitado”, respondeu o juiz secamente.

“Explique-se, doutor.”

Müller respirou fundo. “Eu… eu estava conduzindo um experimento.”

Todos os presentes no tribunal se inclinaram para a frente.

“Eu queria testar essa conexão. Eles estão em celas separadas. Não podem se ver. Não podem se ouvir. As paredes são grossas. Sim.”

“Sim”, disse Pierce.

“No segundo dia, tendo o xerife Blackburn como testemunha, eu fui… entrei na cela de Martha.”

As três irmãs sentadas à mesa da defesa viraram a cabeça simultaneamente e encararam o Dr. Müller. Müller hesitou. Estava com medo.

“Prossiga, doutor”, disse o juiz.

“Eu… eu… eu peguei uma agulha”, gaguejou Müller. “E eu… eu furei o dedo da Martha com força.”

“E o que aconteceu?”

“Ela não demonstrou nenhuma reação”, disse Müller. “Ela não se assustou.”

Ela apenas ficou me encarando. Então…”, a voz de Müller falhou. “…o xerife Blackburn estava posicionado no corredor, e no exato momento… no segundo em que a agulha tocou a pele de Martha…”

“O que aconteceu, doutor?”

“Na cela dela, no final do corredor, June gritou e agarrou o próprio dedo.”

Um murmúrio percorreu o tribunal. Uma onda de horror.

“Isso não é tudo”, sussurrou Müller. “No terceiro dia… eu… eu peguei um balde de gelo. Entrei na cela de Clara. Eu… eu coloquei os pés descalços dela no gelo. Ela não demonstrou nenhuma reação… mas… mas duas celas adiante, Martha começou a tremer violentamente. Ela… ela desmaiou. Seus lábios ficaram azuis.”

Müller olhou para os jurados.

Seus olhos estavam arregalados, tomados pelo medo típico de um cientista.

“Isso não é psicologia”, disse ele. “Isso não é loucura. Eu… eu não sei o que é isso. Não são três pessoas. São três partes de algo mais.”

O julgamento terminou. O advogado de defesa simplesmente se sentou. Ele não chamou uma única testemunha. O que… o que ele poderia dizer? O promotor concluiu sua apresentação de provas. O juiz se dirigiu ao júri.

“Você já ouviu as declarações. Vá… vá procurar aconselhamento.”

Os jurados – 12 homens da região – levantaram-se, saíram da sala e voltaram em menos de dois minutos. O tribunal prendeu a respiração.

“Juiz Presidente”, disse o juiz. “Chegaram a um veredicto?”

O presidente, um agricultor, estava branco como a neve. Ele se levantou.

Ele não queria olhar para as três irmãs.

“Sim, Meritíssimo, somos nós.”

“E o que é isso?”

O presidente respirou fundo.

“Em todas as 24 acusações de assassinato, conspiração e profanação de cadáveres…” Ele olhou para o promotor. Olhou para o juiz. “…consideramos as rés Martha, Clara e June Whitlock…” Ele quase cuspiu as palavras. “…culpadas.” Nona Onda. O tribunal praticamente explodiu.

As pessoas gritavam, aplaudiam e choravam. Era um caos total. O juiz Hammond bateu o martelo na mesa.

“Silêncio! Silêncio nesta sala de tribunal!”

Mas o som mais ensurdecedor foi o silêncio das três irmãs. Enquanto o veredicto era lido, elas não demonstraram nenhuma reação. Nem um piscar de olhos, nem um movimento. Simplesmente permaneceram sentadas. Três bonecas de porcelana idênticas e pálidas. O juiz, com as mãos trêmulas, pediu silêncio. Ele sabia o que fazer.

“Martha Whitlock, Clara Whitlock, June Whitlock, por favor, levantem-se para a leitura da sentença.”

Os guardas tiveram que puxá-los para que se levantassem. Eles estavam ali parados como bonecos de pano molhados.

“Você… você foi considerado culpado por um júri composto por pessoas da sua própria espécie pelos crimes mais hediondos e antinaturais que este estado já viu.” O juiz chorou. “Você… você não é humano.”

Vocês são uma praga, uma… uma doença, e este… este tribunal deve purificar este país de vocês. O veredicto deste tribunal é que vocês… vocês três… sejam levados deste lugar para a prisão de Pikeville. E ao amanhecer, daqui a dois dias, vocês serão enforcados até a morte.

Ele desviou o olhar deles.

“Que Deus tenha misericórdia de nós.”

A multidão rugiu: “Justiça! Isso sim é justiça!”

As irmãs continuaram em silêncio. Foram arrastadas de volta para a prisão, de volta para suas celas separadas. E a cidade respirou aliviada. Pela primeira vez em meses, tudo havia acabado. Os monstros iriam morrer. Mas será que realmente havia acabado? Naquela noite, a primeira noite de sua vigília fúnebre, o vento aumentou. Não era um vento comum.

Surgiu do chão. Não veio do oeste nem do leste. Emergiu da montanha. Um som profundo, uivante, gemido. Chocou contra o prédio da prisão. Os novos guardas, homens pagos em dobro para vigiar do lado de fora das celas, entraram em pânico. Relataram que os sussurros haviam recomeçado. Mas não eram as freiras.

As irmãs cantavam alto em suas respectivas celas. Em uníssono, entoavam aquele idioma gutural e impossível, e as paredes da prisão começaram a vibrar. Os guardas fugiram. Correram gritando para a rua.

“A prisão… ela… ela ganha vida!”

O xerife Blackburn pegou seu rifle. Ele reuniu dez homens ao seu redor.

“Vamos lá, eles não vão escapar!”

Correram contra o vento, que agora estava tão forte que arrancava as telhas dos telhados. O céu estava limpo. Não havia tempestade. Era apenas o vento. Chegaram à prisão. A porta da frente estava trancada por fora, exatamente como os guardas a haviam deixado.

“Eles… eles ainda estão lá dentro”, disse Blackburn, ofegante.

Ele destrancou a porta e o canto cessou abruptamente. O vento cessou. Silêncio total e absoluto. Blackburn entrou no bloco de celas, seguido por seus homens.

“Está… está frio”, sussurrou um agente.

Estava um frio congelante. Mais frio do que na caverna. Blackburn ergueu sua lanterna. Olhou para a cela um. Vazia. Olhou para a cela três. Vazia. Olhou para a cela quatro. Vazia.

“As grades!” gritou um policial.

Blackburn olhou em direção às janelas. As grades de ferro estavam tortas, retorcidas para fora, como se algo enorme e poderoso as tivesse arrancado.

“Eles… eles se foram”, sussurrou Blackburn. “Eles escaparam.”

“Mas, xerife”, disse um agente com a voz trêmula, “a porta estava trancada por fora. Como… como eles saíram? Mas seja lá o que os ajudou, não conseguiu entrar.”

Blackburn não tinha resposta. Entrou na cela um. O frio queimava seus pulmões, e ele viu as três pequenas bonecas, tecidas com palha e cabelo humano, caídas no chão, no meio da sala. Blackburn sabia para onde elas tinham ido. Nem se deu ao trabalho de chamar uma equipe de busca.

Ele simplesmente partiu sozinho. Cavalgou a noite toda de volta montanha acima, até a propriedade dos Whitlock. Chegou lá ao amanhecer, e a cabana havia desaparecido. Sumiu. Onde a casa ficava, onde estava o alçapão, não havia nada. Nada além de uma cratera. Um enorme buraco negro e profundo no chão. A montanha se abriu e engoliu a casa.

Só restou o cheiro. Aquele fedor de cobre, ozônio e decomposição. E das profundezas do buraco, ele achou que ouviu: um zumbido. O xerife Blackburn virou o cavalo. Desceu a montanha a galope. Nunca falou sobre o que tinha visto. No dia seguinte, renunciou. As irmãs nunca foram encontradas. Os desaparecimentos no Condado de Pike cessaram.

Mas a história sobreviveu. Os moradores locais ainda falam sobre ela. Dizem que a montanha recebeu seu dízimo. O dízimo que lhe foi prometido. Dizem: Não suba a Montanha Pike, principalmente na neblina. Porque em algumas noites, quando o vento está calmo e o ar frio, ainda é possível ouvi-los — zumbindo nas profundezas da terra. Se esta história lhe causou arrepios e você quer explorar outras sombras que a história tentou apagar, inscreva-se no canal e ative as notificações.

E preciso perguntar, me contem nos comentários. O que vocês acham que eram? Bruxas, demônios ou apenas algo da montanha? Até a próxima. Fiquem longe da floresta.