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SINHÁ DE 68 ANOS SE ENTREGOU AO JOVEM ESCRAVO – FICOU VICIADA EM FAZER…

SINHÁ DE 68 ANOS SE ENTREGOU AO JOVEM ESCRAVO – FICOU VICIADA EM FAZER…

Naquele alvorecer de 1851, quando o sol ainda era uma promessa distante no horizonte da capitania de Minas Gerais, uma mulher de 68 anos desceu as escadas da Casagre como se carregasse o peso de cada um desses anos sobre os ombros. Dona Perpétua Lacerda Vilas Boas enterrara um marido poderoso, criara três filhos que nunca mais voltaram para visitá-la e governara, durante quase uma década inteira, aquela vasta propriedade de quatrocentas almas acorrentadas. Naquela manhã, o que a fez descer aquelas velhas escadas não foi o dever, o medo ou o hábito. Foi um homem chamado Tobias. A história que floresceu entre os dois nas semanas seguintes abalaria os alicerces que a sociedade colonial havia construído com sangue, suor e mentiras.

A vasta Fazenda das Pedras Vermelhas perdia-se por léguas de terra roxa no coração de Minas Gerais. Era uma região árida, onde o calor apertava cedo e o pó levantado pelo vento cobria as habitações com uma fina camada alaranjada, parecendo sangue seco. O seu fundador, o impiedoso coronel Benedito, falecera seis anos antes, deixando à viúva fragilizada não apenas a complexa gestão, mas também duzentos e quarenta trabalhadores escravizados, pesadíssimas dívidas com as antigas casas comerciais de Ouro Preto e uma terrível reputação de extrema e violenta rigidez. Perpétua cultivava essa dureza implacável e fria com a mesma dedicação cega com que o falecido marido sempre cultivara os intermináveis cafezais. Temida e respeitada por todos na região, ela era, na verdade e de forma absolutamente devastadora, uma mulher imensamente solitária.

Os trabalhadores da fazenda chamavam-lhe, entre si, «Dona Pedra». Não era um apelido carinhoso, mas o reconhecimento submisso de que aquela mulher pequena, de cabelos brancos meticulosamente apanhados num coque severo, albergava no peito algo tão duro quanto as pedras das suas terras. Dona Perpétua nunca precisava de levantar a voz. Um único olhar seu, frio e perfurante, bastava para que o feitor recuasse ou o padre da paróquia escolhesse cuidadosamente cada palavra. Numa sociedade patriarcal onde as mulheres não detinham qualquer poder formal, a viúva aprendera desde jovem que a sua presença inabalável era a sua única arma, uma armadura invisível que não permitia a aproximação de ninguém.

Tobias chegara àquela fazenda dois anos antes. Fazia parte de um grupo de africanos trazidos ilegalmente pelo nefasto tráfico negreiro, provenientes do longínquo reino do Daomé. Quando desembarcou, trazia ainda as marcas profundas do ferro cravadas no tornozelo esquerdo. Tinha 32 anos de idade, ombros largos esculpidos em madeira de lei e um par de olhos muito escuros que nunca, sob nenhuma circunstância, olhavam para o chão. Numa sociedade brutal onde a submissão visual era uma condição básica de sobrevivência, Tobias mantinha orgulhosamente o olhar no nível do horizonte, numa declaração silenciosa e inabalável de uma dignidade intocável que não dependia de títulos.

O capataz da fazenda, Gaspar Teles de Melo, era um homem de 45 anos, irremediavelmente moldado pela crueldade típica de quem aprendeu desde cedo que a violência é a única forma de ser respeitado e temido. Gaspar odiava Tobias com o ódio visceral e instintivo de quem reconhece no outro aquilo que nunca conseguiu ser. Tobias tinha uma presença marcante e natural, enquanto Gaspar possuía apenas um poder momentâneo e artificial. Perpétua observava tudo isto, diariamente, através do seu telescópio de latão a partir da varanda, governando à distância, até à escaldante tarde em que viu Tobias ser brutalmente derrubado no chão por Gaspar. Tobias tinha parado apenas para ajudar uma criança que deixara cair um cesto, motivando a agressão cobarde.

A reação inesperada de Tobias deixou Perpétua sem respiração. Ele ergueu-se devagar, olhou frontalmente para o capataz e, num silêncio carregado de dignidade superior, voltou a baixar-se para ajudar a criança a recolher os grãos espalhados. Aquele gesto absorvente alojou-se no peito da senhora como uma minúscula e dolorosa lasca de vidro. Dias depois, contrariando frontalmente as próprias regras, Perpétua chamou Gaspar ao seu escritório e ordenou, num tom sereno e definitivo, que Tobias fosse transferido para as reparações no Engenho Velho, uma estrutura de pedra a poucos metros. O capataz protestou veementemente, mas ela silenciou-o com um gesto. Tobias passou a executar cada tarefa com uma concentração plena e uma elegância funcional que contrastavam fortemente com a sua condição, sempre sob o olhar atento e fascinado da velha senhora.

Certa tarde, Perpétua mandou-o entrar na Casa Grande para carregar uns pesados caixotes do porão. Fingindo ler meticulosamente um documento na sua secretária, perguntou-lhe o nome. “Tobias”, respondeu ele com uma voz firme e clara. “Olhe para mim quando responder”, ordenou ela, levantando a cabeça. Os olhares cruzaram-se de verdade pela primeira vez. Ela viu naqueles olhos profundos uma inteligência afiada e uma tristeza perfeitamente controlada. Ele viu uma mulher exausta, consumida e aprisionada na própria solidão ao longo de décadas. A partir daquele momento marcante, as idas de Tobias à Casa Grande multiplicaram-se e começaram a conversar honestamente. Numa dessas conversas sigilosas, Tobias falou-lhe da sua pequena filha Adwoa, de três anos, que deixara em África, provocando em Perpétua uma culpa visceral, insuportável, por financiar ativamente aquele sofrimento desumano.

Ao longo dos dias, partilharam histórias profundas que quebravam as barreiras impostas. Tobias descreveu o vasto Daomé, os coloridos mercados, as antigas tradições do seu povo guerreiro e a reverência espiritual pela natureza. Perpétua desabafou sobre a sua juventude subitamente roubada, o frio casamento por conveniência e os filhos emocionalmente ausentes. O respeito mútuo aprofundou-se. Quando Perpétua lhe perguntou, receosa, se ele a odiava, Tobias foi implacável e sereno: “Odeio o sistema que a senhora mantém. Odeio cada chicotada. Mas a senhora parece-me alguém que também está presa, iludida com a ideia de que a cela é um grandioso palácio.” Aquelas palavras despidas de cortesia, carregadas de uma lucidez cortante e repletas de verdade absoluta, abalaram as fundações de Perpétua, que finalmente percebeu ter confundido obediência social com autêntica virtude.

O cruel capataz Gaspar, sentindo a mudança no equilíbrio de poder, subornou o jovem e assustado Cirilo para espiar todos os movimentos. A tensão atingiu o limite numa noite de forte temporal, quando os trabalhadores, fartos da violência, cercaram Gaspar no terreiro. Antes da tragédia, Tobias interveio corajosamente. Colocando-se entre os homens e o capataz, pediu na sua língua nativa que não o matassem, protegendo a vulnerável comunidade das terríveis e sangrentas represálias. Humilhado pela clemência de Tobias, Gaspar foi convocado ao grande escritório de Perpétua, onde ouviu a ordem inquestionável de que os castigos físicos estavam suspensos. Sedento de vingança cega, Gaspar usou a vil denúncia de Cirilo para envolver o inflexível padre Frei Leôncio e o influente vizinho Armindo Cavalcante, orquestrando minuciosamente a brutal queda da velha senhora.

O clérigo muito indignado e os latifundiários surgiram na Casa Grande, confrontando Perpétua com acusações de conduta moralmente inaceitável e extremamente escandalosa. Exigiam a venda imediata de Tobias e ponderavam interditar legalmente Dona Perpétua por alegada loucura. Com uma tranquilidade inabalável, Perpétua escutou as ameaças em absoluto silêncio. Em seguida, retirou da gaveta um atestado de sanidade mental, assinado pelo advogado e por dois médicos, juntamente com os documentos que iniciavam o processo de alforria de todos os duzentos e quarenta e três escravizados da propriedade. Os três homens, completamente estupefactos ao verem o chão do poder desaparecer-lhes rapidamente debaixo dos pés, abandonaram a silenciosa fazenda de mãos completamente vazias e derrotadas. A vitória moral de Dona Perpétua foi monumental, absolutamente pacífica e definitiva.

Nessa mesma noite, Perpétua foi ao Engenho Velho. Sentou-se no chão de pedra ao lado de Tobias. Sob o céu estrelado, partilharam o alívio e confessaram um sentimento indizível que transcendia convenções. Tobias revelou que partiria assim que os papéis chegassem, em busca da sua amada filha. A frágil paz foi subitamente quebrada quando Gaspar invadiu as sombras da propriedade com um bando fortemente armado. Avisado a tempo pela astuta cozinheira Inês, Tobias preparara brilhantemente a defesa. Sem derramamento de sangue desnecessário, Tobias e os seus corajosos homens imobilizaram os temíveis capangas. Gaspar foi humilhado e expulso definitivamente das suas vidas. Semanas mais tarde, os sonhados documentos de liberdade chegaram, e Perpétua leu os duzentos e quarenta e três nomes no terreiro solarengo.

Tobias foi o último a receber o papel que formalizava a sua tão desejada e merecida liberdade humana. Despediu-se com um longo e silencioso olhar profundo e partiu. Procurou Adwoa durante três anos difíceis, percorrendo fazendas com a determinação férrea de quem recusa a derrota. Encontrou-a, finalmente, na Bahia. Quando pronunciou o nome dela, a jovem correu emocionada para os seus braços. Tobias viveu livre, rodeado por uma nova família, e guardou, até ao último dos seus dias, um botão de prata de Perpétua. Dona Perpétua viveu mais dois anos plenos de profunda e verdadeira paz. Transformou a Casa Grande numa escola solidária e a fazenda numa cooperativa. Ao falecer serenamente, deixou escrito: “Vivi sessenta anos a dormir e dois anos acordada. Escolheria sempre estes dois anos, sem hesitar.” A verdadeira liberdade, provou ela magistralmente, é a coragem contínua de nos refazermos a cada novo amanhecer.