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Meu filho disse: minha mãe está malhando, chamem o SAMU, o que ele não sabia é que o SAMU…

Meu filho disse: minha mãe está malhando, chamem o SAMU, o que ele não sabia é que o SAMU…

“A minha mãe veio treinar. Alguém avise o INEM!” A academia inteira riu. Ouvi isto do meu próprio filho. O que ele não sabia era que, em quarenta e oito horas, a sua vida daria uma reviravolta e o INEM teria mesmo de ser chamado. O meu nome é Lúcia, tenho 69 anos e foi naquela noite de quarta-feira que percebi que o meu filho não sabia medir as suas palavras – e que isso teria um preço muito alto a pagar.

Era final de março, uma noite de quarta-feira. Estava no ginásio do nosso bairro, aqui no interior, uma cidade que escolhi para viver depois de me reformar. Tem aquele ritmo de província, onde conhecemos o dono da padaria pelo nome. Treino ali duas vezes por semana há cinco anos, além de uma caminhada aos sábados. Não é pouco para uma mulher de 69 anos, mas faço-o porque decidi que o único corpo que tenho merece atenção. Por respeito, não por vaidade.

Naquela quarta, eu já estava na passadeira há quarenta minutos num ritmo firme. O Lucas entrou com a Estela. 38 anos, ombros largos, um daqueles corpos que a natureza esculpiu bem e que nunca precisou de manter. Ele estava ali porque a Estela tinha insistido muito. Quando ele me viu, abriu aquele sorriso largo, mas que vinha sempre acompanhado da necessidade de uma plateia.

“A minha mãe veio treinar”, disse alto, para todos ouvirem. “Alguém avise o INEM!” O ginásio riu. Olhei para ele por um segundo e continuei o meu ritmo. Conheço o meu filho há 38 anos e sei que responder seria participar do seu espetáculo. A Estela, a seu lado, não riu; apenas deu um sorriso pálido.

Pouco depois, quando o instrutor elogiou o meu ritmo, ouvi o Lucas murmurar à Estela, mas alto o suficiente para eu ouvir: “Alguém avise que o ginásio não é um lar de idosos.” Continuei na passadeira e guardei aquilo para mim. Aprendi, após 30 anos a trabalhar num hospital, que há uma dignidade que não se defende com palavras. Quando alguém te quer mandar sentar, a coisa mais poderosa a fazer é permanecer de pé.

Na sexta-feira, tinha um jantar em casa do Lucas e da Estela. É importante falar da Estela. As nossas caminhadas aos sábados começaram por acidente há quase um ano, e tornaram-nos parceiras. Nessas manhãs, ela contava-me, com cuidado, como era o Lucas em casa: a má alimentação, a recusa em fazer exames, a teimosia em comer fritos todos os dias. Eu ouvia e suspirava por dentro, porque como antiga coordenadora de enfermagem, sabia bem o que aquele sedentarismo escondia.

Tentei alertá-lo num aniversário de família. “Lucas, precisas de um check-up”, disse baixinho. Ele pousou o prato e riu alto para a mesa: “Alguém aqui precisa de um check-up ou sou só eu?” Foi mais uma vez o homem a atuar para a plateia.

Naquela sexta-feira do jantar, coloquei uns brincos simples que o meu falecido marido, o Alberto, me tinha dado. O Alberto, que partira há dois anos, deixando um silêncio pesado na casa. Cheguei a casa do Lucas e a noite começou bem. A Estela fez um frango assado divinal com legumes. Mas, a meio do jantar, o Lucas levantou-se e voltou da cozinha com um prato cheio de batatas fritas a escorrer óleo.

A Estela largou o garfo e suspirou, o suspiro de quem já teve aquela conversa mil vezes. Eu disse-lhe o que sempre dizia: que trinta anos de hospital me ensinaram que o coração não perdoa a conta que se acumula, que um corpo bonito por fora esconde muita coisa por dentro. A Estela acompanhou-me, dizendo que ele nunca a ouvia.

O Lucas olhou para nós com o seu sorriso de palco. “Agora juntaram-se as duas”, disse, a rir. Pôs uma batata na boca, mastigou devagar e completou: “Calma, mãe, o meu coração é de aço.”

A frase ainda pairava no ar quando o sorriso dele morreu. A cor desapareceu do seu rosto. Um tom pálido cinzento, o pálido de um sistema a entrar em colapso. O guardanapo caiu-lhe da mão. O corpo tombou da cadeira.

Não pensei. A memória muscular dos meus 30 anos de urgência assumiu o controlo. Segurei-o antes que batesse no chão. Deitei-o de costas. Dois dedos na carótida: sem pulso. Nenhuma respiração. Era uma paragem cardiorrespiratória.

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A Estela estava paralisada no meio da cozinha, branca como cal, em estado de choque. “Estela, pega no telemóvel e liga para o 112. Agora!” A minha voz, treinada nos corredores das urgências, quebrou a paralisia dela.

Comecei as compressões torácicas. Só quem já fez reanimação num corpo humano real sabe a força colossal que exige. Para qualquer pessoa sem preparo, a exaustão chega em minutos, muito antes do socorro. Mas eu, aos 69 anos, resisti. Porque os meus cinco anos de ginásio e as minhas caminhadas não foram por vaidade; foram respeito pelo meu corpo. E agora, esse meu corpo estava a sustentar a vida do meu filho.

Continuei as compressões, orientando a Estela no telefonema. O interior tem distâncias maiores para as ambulâncias. Não contei o tempo, contei as compressões. Num pequeno momento, a minha mão roçou no brinco do Alberto. “Desta vez, eu estou aqui”, pensei.

Quando os paramédicos chegaram, assumiram a reanimação e eu recuei. O pulso do Lucas voltou, fraco, mas presente. A Estela correu para mim e abraçou-me com uma força desesperada. Um dos paramédicos olhou para mim. “Estava a fazer a reanimação quando chegámos?”, perguntou, impressionado. Assenti. “Pode vir connosco na ambulância.”

No hospital, o Lucas foi internado. Fiquei na sala de espera com a Estela. É um silêncio denso, cheio de pessoas que seguram o mundo quando tudo desaba. O médico chegou horas depois: o Lucas estava estável. A Estela foi buscar água e eu fiquei sozinha na sala fria.

Foi então que o paramédico que nos atendeu reapareceu no corredor. Caminhou até mim e perguntou: “A senhora tem formação em saúde?”

“Fui coordenadora de enfermagem”, respondi.

“A senhora salvou-o”, disse ele com profunda admiração, e afastou-se. Aquela frase, dita sem plateia, tocou num lugar fundo dentro de mim.

Quando nos deixaram ver o Lucas, a Estela entrou primeiro. Saiu com os olhos vermelhos, e depois entrei eu. O meu filho estava deitado, cheio de fios. Quando me viu, não havia sorriso ensaiado nem plateia. Havia apenas espanto. O espanto genuíno de quem, pela primeira vez na vida, estava a ver a sua mãe com os olhos certos.

Sentei-me e coloquei a minha mão sobre a dele. Ele apertou os meus dedos devagar. Ficámos assim, naquele silêncio pesado e cheio de calor.

Os dias seguintes foram lentos. O Lucas ouviu as palavras duras do cardiologista e, pela primeira vez, ouviu a sério. Saiu do hospital com uma lista de proibições e uma vontade real de as cumprir. O medo genuíno, aquele sentido no chão frio da cozinha, não dá segundas oportunidades.

A Estela mudou a alimentação da casa com uma firmeza nova. E o Lucas voltou ao ginásio, desta vez porque queria, sem precisar de arrastar ninguém com ele. Eu continuei a ser quem sempre fui: a mulher que treina, que caminha, que não precisa de aplausos.

Há um mês que isto passou. Na semana passada, saímos os três para caminhar num jardim da cidade, sem ser por obrigação. O Lucas andou ao meu lado e, num tom natural, disse: “É a segunda caminhada da semana, mãe.”

Eu sorri e guardei aquilo para mim. O cuidado que tive com o meu corpo salvou a vida dele. O corpo responde quando o respeitamos. Cuidar de nós próprios não é egoísmo, é amor. E às vezes, é a única coisa que separa a vida de um adeus precoce.